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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Colonização: Entrevista com Adriano Moreira

Colonização: Entrevista com Adriano Moreira

via ANGOLA DO OUTRO LADO DO TEMPO... by MARIANJARDIM on 7/18/10



Entrevista
Adriano Moreira
Primeira parte da entrevista concedida por Adriano Moreira, distinguido com a edição de 2009 do «Prémio de Cultura Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes», a Paulo Rocha e Luís Filipe Santos, da Agência Eccesia.
No seu livro «Espuma do Tempo» afirma: "A arte de esquecer a inutilidade em que se traduz a maior parte das inquietações que consomem o nosso tempo, reduz as recordações a tão pouco que, muitas vezes, se contam num gesto, e sem palavra". Que gesto recordaria o seu contributo para a sociedade portuguesa ao longo destes anos?
Não me considero um exemplo dessa capacidade de resumir tudo num gesto. No entanto, tenho a convicção de que - isso corresponde à verdade - aquilo que sempre sublinhou a minha intervenção foi a convicção do papel da Universidade na vida portuguesa. Para que tal acontecesse tive de praticar alguns gestos e, certamente, não foram todos agradáveis. Tivemos dificuldades grandes no percurso, mas acho que está suficientemente recompensado. Ler mais

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Retornados, espoliados do Ultramar: Discurso do Prof. Dr. Adriano Moreira

via BRAVOS RETORNADOS, ESPOLIADOS, DESLOCADOS... by MARIANJARDIM on 5/30/10
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Meus Amigos, minhas Senhoras e meus Senhores:

Começando por agradecer a honra que me deram de, mais uma vez, me convidarem para presidir ao vosso Congresso, queria corresponder ao convite dizendo algumas palavras de encerramento desta sessão tão importante para a vida portuguesa.

E o primeiro ponto que gostaria de abordar é o seguinte: constantemente, sempre que um período agudo da vida política portuguesa se declara, os problemas do que foi o Ultramar Português e os problemas dos deslocados, retornados e espoliados voltam ao debate público e a mim parece-me que são interesses excessivamente importantes para que sejam lembrados ou esquecidos ao sabor das conveniências dos debates eleitorais.

Os deslocados, os retornados, os espoliados, são êles próprios a expressão viva duma amputação dos interesses nacionais e são eles próprios que devem, como têm feito, manter a iniciativa e a autonomia da defesa da restauração de dignidades que foram ofendidas, de interesses que devem ser reparados, mantendo uma autoridade que lhes não pode ser negada em relação aos intervenientes nos pleitos eleitorais porque são eles que precisam do apoio, do julgamento, da adesão, dos que foram vitimas dum processo descontrolado, não são eles que podem trazer qualquer benefício ou conforto àqueles que aqui estão representados.

Queremos que essa dignidade seja respeitada, trata-se de uma situação de injustiça, trata-se da representação viva de um acontecimento fundamental na vida portuguesa, são os senhores que representam e assumem isso, é um valor permanente, não está dependente das contingências e interesses eleitorais.

O segundo ponto que gostava de sublinhar: constantemente, o julgamento do processo da chamada descolonização é trazido à consideração pública e certamente não é difícil atribuir às emoções de quem esteve envolvido no processo, porque não lhe foi dado participar nas decisões, os julgamentos tão frequentemente e fundamentalmente condenatórios dos caminhos que esse processo seguiu.

Simplesmente acontece que foi hoje aqui citado por um dos oradores o director geral da UNESCO, Sr. Federico Mayor. Esse director geral da UNESCO publicou um livro importante que se chama « Manhana siempre es tarde» (Amanhã é sempre tarde). Esse livro faz a síntese daquilo que é hoje a situação dos territórios onde vários países e nós, tiveram responsabilidades colonizadoras.

O inventário das carências é aterrador. Há regiões em que nós exercemos o poder onde morre uma criança de fome por minuto! Não somos nós que precisamos hoje de fazer a contabilidade dos resultados. A contabilidade está feita com autoridade, designadamente, por este citado director geral da UNESCO.

É necessário reconhecer que, à margem dos responsáveis pelo processo político, em que os senhores não participam, a retirada a que foram obrigados os colonos, significou a retirada das traves-mestras em que assentavam a regularidade da vida civil dos territórios.

Quando se lê o livro, este livro de Federico Mayor, nós sabemos que em relação a cada uma daquelas calamidades da vida civil que ali se encontram, a cada uma das carências enormes, inimagináveis, que afligem aquelas populações, na base disso está, indiscutivelmente, o vazio que foi deixado pela retirada de cada um dos senhores. E, por isso, me tem parecido que não é de mais dizer e sustentar: nós podemos fazer, e devemos fazer, um julgamento do processo político português; os aparelhos políticos têm de tomar as suas responsabilidades em relação a cada época; mas, a presença portuguesa nesses territórios, a organização da sociedade para enfrentar os desafios do mundo moderno em que esses territórios estavam a integrar-se, a criação da sociedade civil que estava em curso, isso não foi obra dos políticos, não foi, fundamentalmente, obra dos políticos, foi obra da gente que está aqui e que não tinha responsabilidades políticas.

E é por isso que, todos os que tivemos responsabilidades no aparelho político , eu também, julgo que devemos ser humildes perante os desafios a que nenhum de nós foi capaz de responder.

Cada um tem de Ter a atitude de assumir a incapacidade de ter enfrentado esse desafio, mas não pode somar ao facto de todos terem sido excedidos pelos desafios, a passividade perante a possibilidade de ainda reparar as injustiças que estão vivas, as injustiças de homens vivos que ainda está ao nosso alcance reparar, aqui e lá.

E é por isso que, embora não me reconheça nenhuma autoridade para o fazer, pela circunstância de me terem dado a honra de presidir a este Congresso, eu me atrevo a dizer que merece reconhecimento público o trabalho cívico que tem sido feito pelas vossas Associações e sobretudo o sentido de responsabilidade com que têm sempre actuado, porque a maior parte dos senhores, que viu ruir o trabalho de uma vida inteira, que viu desaparecerem as perspectivas e as esperanças de uma vida totalmente dedicada ao trabalho naqueles territórios, não se tem movimentado nunca ao sabor das paixões das conjunturas portuguesas --- tem continuado a dar aqui o exemplo da responsabilidade em função dos interesses nacionais e eu penso que este Congresso é mais um exemplo dessa capacidade serena de enfrentar o infortúnio e os tempos afortunados, mantendo o animo para todas as circunstâncias.

E, por isso, espero que o movimento seja recompensado, que os resultados venham corresponder aos esforços devotados com que todos contribuíram para a tarefa que os novos tempos, e o tempo que já passou e que nos permitiu esquecer algumas amarguras, ser mais benevolente para com algumas injustiças nos ajudem a reparar que, entretanto, alguns vão caindo e que acontece a este combate que quanto mais tempo dura, mais diminui a causa dele porque as pessoas vão desaparecendo.

Que se reconheça que, neste momento em que temos esperança de que venham a estabelecer-se outros padrões na nossa vida internacional, caminhemos para uma sociedade mais pacífica, mais cooperante, menos conflituosa, em que o regresso de Portugal a África se possa fazer em novos moldes, porque, o que ruiu foi um sistema político que tínhamos, não ruiu a área em que nós actuámos, e que nós criámos, e que nós identificámos. Que neste momento, em que um dos valores portugueses que são postos em evidência é o do nosso capital de experiência em relação a esses territórios, se reconheça que grande parte dessa experiência está viva, está aqui, e está disponível para servir o País.
Tirado Daqui

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Entrevista com Adriano Moreira : "Tive um poder enorme como ministro do Ultr...

Actualmente, Adriano Moreira é presidente da Academia das Ciências de Lisboa Foi o todo-poderoso ministro do Ultramar. Delfim de Salazar, entrou em litígio com Marcello Caetano e conseguiu o milagre único de transitar para a democracia. (Contém versão integral da entrevista que foi publicada na edição do Expresso em banca)

Ana Soromenho e José Pedro Castanheira

Transmontano, de 86 anos, Adriano Moreira foi o único ministro de Salazar que fez uma transição tranquila para a democracia. Foi presidente do CDS, deputado e vice-presidente da Assembleia da República. No plano académico nunca deixou de exercer a tutela científica no "seu" Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP).

Recebeu-nos na Academia das Ciências de Lisboa, a que preside, e que tem marcado com um notável dinamismo. Nessa manhã, Adriano Moreira acordara às quatro da madrugada para ir ao aeroporto receber pessoalmente, cavalheiro como sempre, Graça Machel, que veio a Lisboa representar o marido, na homenagem prestada pela Academia a Nelson Mandela.

Para breve, está anunciado o lançamento do aguardado livro de memórias, A Espuma do Tempo. Memórias do Tempo de Vésperas, editado pela sua velha editora, Almedina. Esta conversa, marcada semanas antes, tinha o propósito de um balanço de vida. Mas, logo de início, Adriano Moreira avisou que a entrevista teria que se cingir às matérias do livro. De fora ficaram os dias da revolução, a ressaca que constituiu o saneamento do ISCSPU, os dois anos de exílio no Brasil, o regresso à academia e à vida política activa, a sua transformação, em suma, em grande senador. Ao longo das três horas de conversa que, por vontade dele, incidiu exclusivamente sobre o Estado Novo, o professor nunca pronunciou a palavra "ditadura".

Comecemos então pelo livro. Está prometido há mais de dez anos

Não tenho recordação de ter prometido este livro a ninguém, só tenho recordação de me terem solicitado que escrevesse um livro de memórias. Tenho sempre uma prevenção em relação a este tipo de livros. A memória é muito condescendente connosco. Tem a piedade de aligeirar as coisas. Por isso, este título: Espuma do Tempo. A essas memórias procurei ser fiel. Tive alguma dificuldade material em realizá-lo, porque não tenho documentação. A que tinha, guardava-a no Centro de Estudos do ISCSPU e durante a revolução desapareceu. Não faço ideia do que lhe aconteceu.

Foi destruída?

Estou a dizer que não sei o que lhe aconteceu. Desapareceu.

Nunca escreveu diários?

Não. Recorri a alguns apontamentos.

E aos arquivos?

Também não. Os historiadores tratarão de encontrar referências, não estou preocupado com isso. Quis escrever sobre o meu sentimento, recordação e valoração do que o meu espírito conserva.

Falou com pessoas?

Falei comigo. É da minha exclusiva responsabilidade e do meu diálogo íntimo.

Fê-lo por uma necessidade de deixar o testemunho para a história, ou por uma vontade de ser o professor a escrever a sua história?

Não foi isso. O livro começa com uma carta, que data de Abril de 1974. Nunca mais escrevi durante anos. A carta era uma mensagem para os meus filhos e foi com esta decisão íntima que resolvi continuá-la.

Escreveu à mão?

Sempre. Escrevia à máquina, mas verifiquei que muda o estilo. Já não me reconhecia quando me traziam o texto. Voltei à minha caneta. Mostra o bolso interior do casaco.

Azul ou preta?

Não faço muita questão, cores vivas é que nunca. Não tenho essa necessidade de identificação. Tira a Montblanc de aparo.

São as mesmas com que assinava os seus despachos como ministro do Ultramar?

As canetas também se perdem. Estas são as que estão agora de serviço.

Quanto tempo demorou a escrever o livro?

Fi-lo em duas etapas. Com uma interrupção de quase dez anos, não tinha pressa nem grande apego à publicação. Houve um momento em que acelerei porque vieram pedir para me fazer uma biografia.

Tenta manter o tom e a distância do observador.

É capaz de ser defeito de professor. É complicadíssimo separar participação e meditação.

Retoma o subtítulo "Tempo de Vésperas", o mesmo das crónicas que escreveu em 1971.

CONT....

http://aeiou.expresso.pt/tive-um-poder-enorme-como-ministro-do-ultramar=f459552

domingo, 7 de junho de 2009

a força legítima - 1

via portugal contemporâneo de noreply@blogger.com (rui a.) em 25/05/09
«Das actividades dos grupos de intervenção política, ou supondo que a exerciam, não tive notícias directas, mas sim oportunidade de, na vida profissional, encontrar alguns dos envolvidos. Lembro sempre o Dr. Teófilo Carvalho dos Santos, do círculo do escritório do Dr. Abranches Ferrão, e que foi um dos meus amigos mais queridos e mais íntimos.

Num dos sobressaltos da Polícia Política, que em relação ao Teófilo só não acertava nas ocasiões, por 1947 este acordou na sua casa de Alenquer com os agentes a tomar conta do automóvel e a mandar-lhe que os acompanhasse. Pediu breve tempo necessário para se arranjar, foi para a casa de banho, saiu pela janela, calcorreou os caminhos que bem conhecia, e è noite apareceu-me na casa onde vivia com os meus pais (...).

À noite deambulávamos pela cidade tomando necessárias cautelas, mas no fim de alguns meses, com a intervenção ponderada do seu irmão Dr. José Carvalho dos Santos, que fora um brilhante jovem político antes do 28 de Maio, e passara a maior parte da vida em Angola, concluímos que era necessário esclarecer a situação porque tal regime de vida era intolerável para o Teófilo. (...)

Em poucos dias comunicou-me» (o Dr. Augusto Paes de Almeida e Silva, juiz e antigo Governador Civil de Lisboa) «que se tratava apenas de o Teófilo ser testemunha num processo, que a Polícia estava um pouco humilhada pelo fiasco da diligência em Alenquer, e que o deteria por dois ou três dias, mas de´pois de ouvido seria remetido à liberdade. Trazia fixado o dia da apresentação.

Nesse dia o Teófilo rapou o bigode que deixara crescer, deixou em cima de uma estante de livros de minha casa os óculos escuros que por ali ficaram anos, fomos almoçar aos Irmãos Unidos, leivei-o no meu carro à porta da PIDE, e despedimo-nos para dali aos anunciados três dias.

À noite, quando estávamos à mesa para jantar, apareceu o Teófilo, com a boa disposição que raramente perdia, louvando a intervenção do juiz, contando que passara horas de espera para que um Inspector delicadíssimo lhe viesse pedir desculpa do incómodo, mas adiando a conversa para a semana seguintes.

Esses dias decorreram alegres, na data aprazada repetimos o cerimonial, lá ficou à porta, e só voltou dentro de um ano depois, sem inculpação nem desculpas»

Adriano Moreira, A Espuma do Tempo, Almedina, 2009, pp 132 a 134.