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terça-feira, 9 de junho de 2009

Benoist em entrevista

via jantar das quartas de DB em 27/05/09
Alain de Benoist em entrevista no inconformista.info, a não perder. Em três partes: 1, 2 e 3.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Os homens entre si

via INCONFORMISTA.INFO de Miguel Vaz em 31/05/09
"Com os clubes e as «sociedades secretas», afirma Lionel Tiger, «os homens fazm a corte aos homens». As grandes confrarias profissionais, as corporações estudantis, as ordens, as sociedades secretas são meios de reforçar (e de exaltar) o vínculo intermasculino. Seja no colégio ou no exército, as «cerimónias de iniciação», por vezes bizarras e mesmo cruéis, evoam os ritos de passagem da puberdade (com a transposição que se impõe: é-se«adulto» quando se detémo conhecimento ou o poder) e apertam os laços entre «iniciados». Os clubes femininos, pelo contrário soçobram regularmente na desordem e nos mexericos.
(...) Tiger lembra que o homem, em relação à mulher, é ao mesmo tempo mais racional e mais irrazoável. O homem sabe que se lança por vezes em aventuras sem esperança, que enfrenta desafios extravagantes. Mas ele pensa que não deve «dar o braço a torcer». Esta concepção do sacrifício inútil decorre directamente de uma ética de honra. A mulher, ela, vê as coisas de outro modo. Ela reprova ao homem o seu «orgulho». Ela acusa-o de correr atrás de «quimeras», e de negligenciar as suas responsabilidades familiares. Para ela, nunca se dá o braço a torcer quando se é «razoável».
No fim de contas, o homem é sempre uma criança. Os alemães têm uma palavra para isto: Das Kind im Manne — a criança que, no homem feito, é a memória viva de um passado sempre destinado e inspirar o futuro.
Montherlant dizia que «um homem sem criancices é um monstro horrível». Nietzche, ao contrário, propunha «pôr na acção a seriedade que a criança põe no jogo» — quer dizer, precisamente, consideraras coisas sérias como um jogo. Daí, no homem, essa nostalgia dos lugares de infância e dos amores adolescentes — dos quais Jules Romains pode dizer que são uma mistura de angelitude e de obscenidade.
As sociedades que acentuam a segurança, o conforto, às quais repugna o risco, são sociedades em que os valores masculinos estão em declínio. «Faça amor, não a guerra» é um slogan feminino que se traduz por: «Façam-nos amor, não façam guerra entre vocês».
O homem nunca acaba, como nos tempos da sua infância, de ir aos ninhos de pássaros. Não tanto pelos ninhos, aliás, mas para trepar ao alto das árvores. Ele quer sempre ir mais longe, mais depressa, mais alto. Ele tem prazer na competição, ele admira os records. A mulher pergunta «para que é que isso serve». É por isso que cabe à mulher preservar o que o homem adquiriu. A sociedade mantém-se assim — e renova-se eternamente.»

Alain de Benoist
in "Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas", Lisboa, Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite, 1981

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Entrevista a Alain de Benoist (3)

via INCONFORMISTA.INFO de Miguel Vaz em 18/05/09
(Última parte de uma entrevista original do blogue Dissonance)

É tido como uma referência da geopolítica, nomeadamente junto do movimento eurasiático de Aleksandr Dugin, que é bastante elogioso a seu respeito. Podemos falar disso? O que pensa que as teorias Eurasiáticas podem trazer à Europa e a França?
Tenho grande amizade e admiração por Aleksandr Dugin, pela sua cultura, a sua coragem, a sua capacidade de trabalho, a amplitude da sua obra e a grande continuidade dos seus esforços. Deve-se-lhe a actualização do pensamento dos primeiros teóricos eurasiáticos e de ter demonstrado a actualidade dessa linha de pensamento. Soube também confrontar, para fazer uma síntese sugestiva, acervos ideológicos por vezes diferentes. Deu à geopolítica uma dimensão espiritual que lhe faltava. Sigo o seu trabalho com muita atenção. Quanto às teorias eurasiáticas, podem trazer muito, não só à Europa e à França, mas também aos habitantes de outros continentes, se considerarmos que para além da Eurásia geográfica, permite encarar um novo "Nomos da Terra" constituído segundo a ideia de diversidade, autonomia dos povos, democracia participativa e primazia dos valores não comerciais.

Para os franceses e europeus, as grandes preocupações do futuro são a plausível liderança económica da China e a explosão demográfica das populações muçulmanas, nomeadamente no interior da Europa. De que forma analisa a (in)compatibilidade destes elementos?
A China foi obviamente chamada a desempenhar um papel de primeiro plano no século XXI, mas é demasiado cedo para dizer que exercerá uma verdadeira "liderança económica". A China inscreve tradicionalmente a sua acção num quadro a longo prazo. O seu modelo não está isento de contradições, e deverá debater-se com numerosas dificuldades interiores (não serão apenas as disparidades entre as suas regiões e os seus meios sociais). No plano geoestratégico, espero ver a China associada ao continente euroasiático, mas ignoro a sua tendência natural ao "auto centrismo". No que diz respeito aos Estados Unidos, parecem hesitar entre diversas atitudes possíveis. Quanto à explosão das populações muçulmanas, é um facto real, mas que não deve ser sobrevalorizado. Na Europa, no espaço de uma ou duas gerações, os imigrantes adoptam os comportamentos demográficos locais. À excepção da África negra e da zona indo-paquistanesa, o crescimento demográfico tem vindo a abrandar um pouco por toda a parte. O verdadeiro problema está relacionado com a baixa natalidade dos países europeus, que cria uma baixa de pressão e se traduz por um envelhecimento da população.

Foi, durante muito tempo, uma das pontas-de-lança do GRECE. Que é feito do grupo actualmente?
O Grupo de Pesquisa e Estudos para a Civilização Europeia (GRECE) é uma associação cultural criada em 1969. Participei regularmente nas suas actividades, mas nunca ocupei um cargo dirigente. A associação continua actualmente o seu trabalho, em ligação com diversas universidades e intelectuais europeus.

Questão de ficção científica: como imagina o futuro do continente (Europa e Rússia) em... digamos, 2020?
Não é a minha tarefa prever o futuro, e não tenho imaginação para especular onde estarão a Europa e a Rússia em 2020. A história está sempre aberta, o que não significa que tudo seja possível. Naturalmente, é possível fazer cenários, mas a dificuldade começa quando queremos atribuir-lhes um coeficiente de probabilidade.

No último 24 de Março, registou-se o aniversário dos bombardeamentos de 1999 sobre a Sérvia. Há um ano, o Kosovo "tornou-se" um Estado independente. O que tem a dizer sobre estes acontecimentos? Qual é, a seu ver, o futuro do Kosovo?
O aniversário dos bombardeamentos de 1999 sobre a Sérvia desperta em mim a lembrança de uma grande cólera e de uma terrível humilhação. Cólera diante do dilúvio de contra-verdades e de mensagens difamatórias que então foram transmitidas pela imprensa ocidental contra o povo sérvio, humilhação de ter assistido ao primeiro bombardeamento de uma capital europeia pelos americanos desde o fim da última Guerra Mundial. A Europa revelou nessa ocasião uma triste verdade: impotente, quase paralisada, sem qualquer consciência dos desafios globais, objecto da história dos outros em vez de sujeito da sua própria história. Quanto ao Kosovo, observo que a sua proclamação de independência foi apoiada pelas mesmas potências que se recusaram a reconhecer a independência da Abkhazia ou da Ossétia do Sul: a Geórgia teve direito ao respeito da sua "integridade territorial", enquanto a Sérvia não teve esse direito. Isso dá uma ideia da lógica que prevalece actualmente na diplomacia internacional. Por agora, o Kosovo parece-me ser o primeiro Estado mafioso da História. Duvido que o seu futuro seja particularmente brilhante.

Poderia aconselhar-nos cinco obras essenciais, e cinco sítios ou blogues a consultar?
Não me sinto muito à vontade no universo dos blogues para recomendar aqueles que serão os melhores. Da mesma forma, sinto-me incapaz de enumerar "cinco obras-chave a ler". Quanto a obras-chave, há pelo menos várias centenas! Recomendo apenas a leitura de obras que ajudem a compreender o momento histórico que vivemos, e por outro lado os grandes clássicos do pensamento político e geopolítico cujos ensinamentos podem ainda ter valor actualmente, de Maquiavel, Hobbes e Rousseau até Max Weber e Carl Schmitt. Por último, sem dúvida por inclinação pessoal, diria que a compreensão das coisas supõe um mínimo de conhecimento filosófico. Heidegger, para dar um exemplo, desempenhou na minha formação um papel que ainda hoje subsiste.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Entrevista a Alain de Benoist (2/3)

via INCONFORMISTA.INFO de Miguel Vaz em 13/05/09
(Continuação da edição de uma entrevista original do blogue Dissonance)

Assistimos actualmente no mundo a uma espécie de renascimento de grandes espaços na Ásia (China, Índia), no mundo muçulmano (Turquia, União Pan-Africana), na Eurásia (Rússia), na América do Sul (Brasil, Venezuela). O corolário desse renascimento é o enfraquecimento do império Americano. Segundo este processo, quais as suas previsões para a próxima década? Pensa, como alguns, que existe um risco de "fuga para a frente" (deflagração de guerras) ou, pelo contrário, acha que estamos apenas no início de um processo quase inevitável: o mundo multipolar (caótico ou nem por isso)?
A grande questão passa, de facto, por saber se nos encaminhamos hoje para um mundo unipolar, dominado pela hiperpotência americana, ou para um mundo multipolar, um pluri-versum, articulado, como acabo de dizer, em torno de diversos blocos civilizacionais. Acredito, pessoalmente, que nos dirigimos, felizmente, para um mundo multipolar onde os países emergentes, como a Índia, a China e o Brasil, desempenharão um papel cada vez mais importante. Um tal mundo não será necessariamente instável, já que a ordem geral das coisas não será posta em causa. As leis da geopolítica determinam efectivamente as linhas de fractura e os desafios futuros. O grande conflito é o que opõe, estruturalmente por assim dizer, a potência do Mar (Estados Unidos) e a potência da Terra (o continente euroasiático). Nessa perspectiva, a Rússia desempenha um papel particular, porque corresponde àquilo a que os geopolíticos chamam de Heartland, ou seja, o coração do continente eurasiático.

Paradoxalmente a esse renascimento dos espaços, a Europa parece incapaz de se unir politicamente. As divergências parecem tão fortes que Aleksandr Dugin descreve-as no seu blogue como uma oposição entre a "velha Europa" (continental) e a "nova Europa" (atlantista). Qual a sua opinião?
A impotência da União Europeia não se explica unicamente pela oposição que descreve, apesar de ela ser bem real. Como partidário da construção europeia, não deixo de constatar que a Europa, desde o início, tem sido construída ao contrário da lógica. Tem dado permanentemente prioridade ao comércio e às finanças em vez da política e da cultura. Edificou-se sem legitimidade democrática - sem que algum povo tenha sido consultado - e a partir do alto (a Comissão de Bruxelas, que se autoproclama omnicompetente) em vez de se construir a partir da base, no respeito ao princípio da subsidiariedade (ou das competências suficientes). Em lugar de procurar aprofundar as suas estruturas políticas, preferiu alargar-se apressada e imprudentemente a países que estavam apenas preocupados em beneficiar da estabilidade monetária da União e em colocar-se sob o guarda-chuva americano, aderindo à NATO. Por fim, nunca esclareceu claramente quais os seus objectivos. Trata-se de fazer da Europa um grande mercado de fronteiras abertas, sucedendo-se a integração numa vasta zona de livre comércio euro-atlântico, ou pelo contrário, construir uma Europa-potência verdadeiramente autónoma, cujas fronteiras sejam rigorosamente determinadas pela geopolítica? É evidente que os dois modelos são totalmente opostos.

Têm soado apelos (de movimentos de extrema-esquerda e diversos intelectuais gaullistas) à integração da França na Organização para Cooperação de Xangai (organismo internacional de defesa composto essencialmente por países asiáticos). Na sua posição de crítico do regresso da França ao comando da NATO, que opinião tem sobre este tema?
Não tenho opinião formada sobre esse ponto. A NATO é uma organização defensiva criada no contexto da guerra fria. Não tem qualquer razão de existir após o desmoronamento do sistema soviético. Devia ter desaparecido ao mesmo tempo que o Pacto de Varsóvia. Em vez disso, essa organização totalmente controlada pelos EUA desenvolveu-se como uma espécie de clube ocidental americano-centrado, com capacidade de intervir em qualquer lugar do globo.
Nesse contexto, a decisão da França de reintegrar as estruturas da NATO, de onde o general De Gaulle a tinha feito sair em 1966, é mais do que uma falta: é ao mesmo tempo uma traição e um crime. Em todo o caso, a participação francesa na Organização para Cooperação de Xangai não é mais que uma hipótese teórica. A questão, neste caso, é saber se o grupo de Xangai tem uma vocação meramente regional, ou mais vasta. O meu desejo seria antes ver constituir-se, inicialmente pelo menos, uma organização europeia de defesa digna desse nome, e como tal, inteiramente independente da NATO. No entanto, neste momento, não é mais do que um desejo vago.

Numa época de crise financeira, todo o mundo diz que "pode ser" que a globalização liberal tenha "estourado", e que o modelo ocidental para a humanidade não é o "melhor". Do seu ponto de vista, "de onde" virão os novos modelos civilizacionais, filosóficos e económicos?
A crise financeira mundial deflagrada nos Estados Unidos no Outono de 2008 abriu sem dúvida os olhos a um certo número de pessoas. Mas essa crise, que está longe de terminada, não será provavelmente suficiente para fazer emergir um sistema alternativo. Os novos modelos surgirão quando o sistema actual estiver verdadeiramente no seu limite, sem que se possa saber especificamente quais as formas que daí surgirão. Ainda que as coisas se possam processar muito rapidamente, há ainda bastante por fazer para "descolonizar" os espíritos, tanto que os contemporâneos tomaram o hábito de viver num sistema da mercadoria, governado pela dialéctica da posse. Toda a modernidade foi tomada pela ideologia do progresso, os recursos naturais foram considerados ao mesmo tempo gratuitos e inesgotáveis, mesmo que não sejam nem uma coisa nem outra. A verdade é que um crescimento material infinito é impossível num mundo finito. Quando o compreenderem plenamente, poderão talvez sair da obsessão económica e dessa ideologia utilitarista que constitui um dos principais corolários do universalismo ocidental (o qual, como qualquer universalismo, não é mais do que um disfarce de etnocentrismo).

domingo, 10 de maio de 2009

Entrevista a Alain de Benoist (1/3)

via INCONFORMISTA.INFO de Miguel Vaz em 09/05/09
(Traduzido de uma entrevista original do blogue Dissonance)

Alain de Benoist, bom dia e obrigado por aceitar responder a estas questões. Pode sintetizar o seu percurso muito variado na cena intelectual e filosófica francesa?
Não se resume em algumas linhas um itinerário intelectual de meio século. Sou escritor, jornalista e também filósofo. Tenho bastante obra publicada, tanto em França como no estrangeiro. Dirijo igualmente duas revistas que criei, uma (Nouvelle Ecole) em 1968, a outra (Krisis) em 1988. Os meus domínios preferenciais são a história das ideias e a filosofia política. Não pertenço a qualquer partido ou movimento político, e não desejo pertencer a nenhum. Na época de transição que constitui o nosso actual horizonte, tento desempenhar da melhor forma possível o papel que todo o intelectual digno do seu nome deve assumir: compreender e fazer compreender melhor o mundo em que vivemos.

Qual é a sua opinião acerca do actual panorama políticoa francêsa? Thierry Meyssan afirmou recentemente numa entrevista que "Sarkozy não é de direita nem de esquerda, mas queria fazer como os yankees". Pensa que o futuro político das sociais-democracias europeias passa pelo modelo americano, do tipo "dois candidatos eleitos em primárias (ilusão de democracia) que defendem globalmente as mesmas ideias"?
Que os candidatos se apresentem às eleições sejam ou não designados previamente pelas «primárias», parece-me um detalhe completamente desprezável. A actual cena política francesa, como a maior parte das cenas políticas ocidentais, é uma cena pré-codificada. Isso significa que os únicos que têm possibilidade de aceder ao poder são aqueles de quem se sabe previamente não terem qualquer intenção de mudar (ou tentar mudar) os fundamentos de uma sociedade actualmente totalmente dominada pela ideologia comercial. Desse ponto de vista, não há hoje qualquer alternativa. A alternativa foi substituída pela alternância, tendo como consequência uma decepção permanente das massas populares, uma crise generalizada da representação e um fosso que não para de crescer entre o povo e a nova classe político-mediática.

Já que tem um grande conhecimento político, vou levantar o tema dos extremos no nosso país: tem-se frequentemente a impressão que a FN (Frente Nacional) não é mais do que um balão (para uma grande maioria de eleitores frustrados) constituído por "um grande vazio" (ausência de programa económico claro, tomadas de posição geopolítica contraditórias, incapacidade de gerir autarquias, etc.) mas mantida unida e em posição de força pelo seu presidente, Jean Marie Le Pen. Enquanto se desenham novas linhas políticas no interior do próprio movimento nacional (Soral apostando num soberanismo azul-branco-vermelho e no anti-sionismo, ou pelo contrário os identitários anti-jacobinos e euro-regionalistas), como vê o pós-Le Pen? A extrema-esquerda parece igualmente em reestruturação, depois do desmoronamento do PC (Partido Comunista) e a não penetração da LCR (Liga Comunista Revolucionária), PT e LO (Luta Operária) e o aparecimento do NRA liderado por Drucker... Dir-se-ia que este movimento é totalmente incapaz de aproveitar a oportunidade que no entanto se oferece (precarização social, crise financeira, etc). Estarão estes dois "não acontecimentos" ligados, constituindo a "prova" da abstenção total de oposição ao "sistema" (os partidos liberais da situação)?
A Frente Nacional obteve um certo sucesso no passado graças à soma de dois eleitorados bastante diferentes: um eleitorado popular, principalmente operário, e um eleitorado proveniente das camadas médias e inferiores das classes médias e da pequena-burguesia. Esse segundo eleitorado deixou de apoiar Le Pen durante a eleição presidencial de 2007 para se juntar a Nicolas Sarkozy. Está hoje desiludido, mas isso não o leva a regressar à FN. Esta última, por seu lado, nunca aprendeu a lição do seu sucesso junto das classes populares. Os trabalhadores estão incrivelmente ausentes das instâncias dirigentes. O aproveitamento do partido, a sua banalização na paisagem política, a idade do seu líder, as suas divisões permanentes, explicam a estagnação actual. O período pós-Le Pen tem grande probabilidade de ver a FN dividir-se definitivamente em duas partes, subsequencialmente marginalizadas.
A extrema-esquerda beneficia, num contexto de crise social agravada, do espaço aberto pela aproximação do Partido Socialista à sociedade de mercado e pela social-democratização do PC, que já não é hoje um fantasma. Mesmo nesse contexto, no entanto, não marca tantos pontos como se esperaria. A razão principal baseia-se no povo não se reconhecer nas suas tomadas de posição. A esquerda radical, em particular, evita constantemente acusar o patronato de fazer dos imigrantes um exército de reserva do capital, que permite a redução dos salários dos autóctones. É por essa razão que Olivier Besancenot (líder da LCR), para citar um exemplo, tem um sucesso mediático que não se verifica nas urnas. O poder estabelecido utiliza, para além disso, Besancenot e os seus amigos para dividir a esquerda, da mesma forma que François Mitterrand utilizou a Frente Nacional para dividir a direita. Voltamos, por isso, à mesma constante: o povo não dispõe actualmente de nenhum partido no qual possa reconhecer-se.

Falamos da esquerda e da direita radical, que se entregam frequentemente à retórica anti-europeia ou soberanista. Esta palavra faz sentido numa época de mundialização? A França tem alguma hipótese de sobreviver (demograficamente, culturalmente, economicamente) sem a Europa? Qual é para si o futuro das nações europeias?
Os soberanistas são pessoas muito simpáticas, com quem partilho certas posições (no que diz respeito aos EUA ou à burocracia de Bruxelas, por exemplo), mas ainda não compreenderam que os tempos mudaram. O Estado-nação, que foi a forma política privilegiada durante a modernidade, entrou numa crise irreversível. Hoje é ultrapassado por cima (pela subida das influências planetárias) e por baixo (a emergência das redes e comunidades, o localismo, as exigências quotidianas dos cidadãos). O futuro não está mais nos Estados nacionais, mas nas grandes uniões continentais, cadinhos de cultura e civilização, as únicas formas capazes de regular a mundialização e de construir pólos activos num mundo multipolar.

(Continua...)

sábado, 26 de julho de 2008

Comparações (II)

via INCONFORMISTA.INFO by Miguel Vaz on 7/25/08
"Comparar, não quer evidentemente dizer assimilar: os regimes comparáveis não são necessariamente idênticos, mesmo que certos autores o tenham afirmado no caso do comunismo e do nazismo. Comparar significa colocar junto, para as pensar em conjunto sobre um certo número de relações, duas espécies distintas de um mesmo género, dois fenómenos singulares no interior de uma mesma categoria. Comparar não é, também, banalizar ou relativizar. As vítimas do comunismo não apagam mais as vítimas do nazismo do que as vítimas do nazismo apagam as do comunismo. Não nos podemos apoiar nos crimes de um regime para justificar ou atenuar a importância dos crimes cometidos por outro: os mortes não se anulam, somam-se. Que o comunismo tenha sido ainda mais destruidor que o nazismo, não torna o segundo «preferível» ao primeiro, pois a escolha nunca ficou confinada a uma alternativa entre os dois."

Alain de Benoist
in "Comunismo e Nazismo: 25 reflexões sobre o totalitarismo no século XX (1917-1989)", Hugin Editores (1999)


domingo, 20 de julho de 2008

A cidade

via INCONFORMISTA.INFO by Miguel Vaz on 7/19/08
"Oswald Spengler, em Le Déclin de l'Occident (Gallimard, 1948), traçou de forma infinitamente mais correcta, a evolução da cidade, desde o burgo até à «cidade mundial».
A diferença entre o burgo e a cidade não reside apenas nas suas dimensões. O burgo não se opõe fundamentalmente ao campo. Construído em redor do mercado, ele constitui o ponto de intersecção de um certo número de interesses rurais. Está ligado à terra e depende da «natureza», de que ele adopta os hábitos e os ritmos.
Com a «cidade de cultura», isto é, a cidade tradicional, a natureza encontra-se, pelo contrário, nitidamente dominada, tanto do ponto de vista económico como do ponto de vista político. A cidade transforma-se em pequena sociedade autónoma, em constante evolução em relação ao meio ambiente. Torna-se o sujeito colectivo da hstória dos seus habitantes. A relação entre a cidade e o campo é, então, análogo à relação entre a sociedade e a «natureza». É nisso que as sociedades citadinas são pleneamente históricas, por oposição às sociedades rurais, que são sociedades de repetição. (O campo desempenhando um papel, indispensável, de reserva humana potencial destinada a actualizar-se progressivamente nas cidades — ao mesmo tempo que se efectua a sua própria substituição.)
Mas a «cidade de cultura» em breve se expande. Desdobra-se em arrabaldes que, pouco a pouco, vão absorvendo os meios rurais circundantes. A relação com a natureza deixa de ser dialéctica para passar a ser esterilizante. O mundo rural é esvaziado, sem que tenha tempo de se renovar. Paralelamente, a gestão da cidade torna-se cada vez mais pesada e burocrática. Formas geométricas e cristalizadas substituem-se às formas orgânicas. O anonimato é a regra, encontrando-se o indivíduo desprovido de meios para se situar, de forma perdurável, em relação ao seu próprio meio. É assim que surge a «cidade mundial», submetida, segundo as épocas, ao poder dos tecnocratas ou dos funcionários imperiais. A sua aparição, diz-nos Spengler, corresponde ao estádio da «petrificação» das culturas.
«Estas cidades gigantescas e pouco numerosas», escreve, «banem e matam, em todas as civilizaçãos, sob o conceito de província, e por inteiro, a paisagem que foi a mãe da sua cultura (...). Elas transformam-se na história petrificada de um organismo».
«As cidades mundiais do tempo dos Han e dos índios da dinastia dos Maurya», acrescenta ele, «possuiram as mesmas formas geométricas. As cidades mundiais da civilização euro-americana encontram-se longe de haver atingido o cume da sua evolução. Vejo aproximar-se o tempo em que se construirão cidades urbanas de dez ou vinte milhões de habitantes».
É a este estádio aquele a que chegámos.
Todos os Estados modernos se encontram, hoje, confrontados com o mesmo problema: como canalizar o crescimento das grandes cidades sem prejuficar as exigências da vida social — ou o seu desenvolvimento? Neste domínio, e até agora, tem prevalecido o pragmatismo e a visão a curto prazo. Mas hoje, não é já possível que as cidades continuem a crescer por si próprias. As mais futuristas das propostas não faltam. Mas as soluções não são mais do que uma questão técnica, de planos, e de «metrópoles de equilíbrio». O exemplo de Nova Iorque dá que pensar: o fracasso desta cidade representa o fracasso de um certo modo de organização e de povoamento urbanos."

Alain de Benoist
in "Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas", Lisboa, Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite, 1981

terça-feira, 8 de julho de 2008

George Sorel (III)

via INCONFORMISTA.INFO by Miguel Vaz on 7/7/08
O nome da velha Antioquia

A partir de 1907 George Sorel faz-se artesão de uma aproximação entra anti-democratas de esquerda e de direita. O órgão desta aproximação é a Reuve Critique des Idées et des Livres, onde o nacionalista George Valois publica os resultados do seu inquérito sobre La Monarchie et la Classe Ouvrière.
Em 1910 surge a revista La Cité Française. Depois, de 1911 a 1913, L'Indépendence. Aí se encontram as assinaturas de George Sorel, Jean Variot, Edouard Berth, Daniel Halévy, mas também dos irmãos Tharaud, de René Benjamin, Maurice Barrès e de Paul Bourget.
Em 1913, o jornalista Edouard Berth, autor de Méfaits des Intellectuels, saúda, em Maurras e em Sorel, «os mestres da regeneração francesa e europeia». Mas, em Setembro de 1914, Sorel escreve-lhe: «Entramos numa era que bem poderia ser caracterizada pelo nome de Velha Antioquia. Renan descreveu muito bem esta metrópole de cortesãos, charlatães e mercadores. Em breve teremos o prazer de ver Maurras condenado pelo Vaticano, o que será a justa punição das suas afrontas. Aliás a que poderia realmente corresponder um partido realista numa França unicamente ocupada em desfrutar a vida fácil de Antioquia?».
«A Maurras», explica o sociólogo Gaëtham Pirou, «Sorel reprovava o ser demasiado democrático, censura que, à primeira vista, pode parecer paradoxal. Na realidade o que Sorel queria dizer é que Maurras, positivista e intelectualista, não tinha repudiado a democracia senão sob o seu aspecto político e não no seu fundamento filosófico (George, Sorel, Marcel Rivière, 1927).

Alain de Benoist
in "Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas", Lisboa, Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite, 1981

terça-feira, 1 de julho de 2008

George Sorel (II)

via INCONFORMISTA.INFO de Miguel Vaz em 01/07/08
No começo era a acção

Retomando a distinção, já hoje clássica, entre guerra «justa» e guerra «injusta», opõe a violência burguesa à violência proletária. Esta última, possui a seus olhos uma dupla virtude. Não só deve assegurar a revolução futura mas é ainda o único meio de que dispõem as nações europeias, «embrutecidas pelo humanitarismo», para reencontrar a sua antiga energia.
A luta de classes é por um afrontamente de vontades firmes, mas não cegas. A violência torna-se na manifestação de uma vontade. Ao mesmo tempo, exerce uma espécie de função moral: produz um estado de espírito de equipa.
— A violência, declara Sorel ao seu amigo Jean Variot, é uma doutrina intelectual: a vontade de cérebros poderosos que sabem o que querem. A verdadeira violência é o que é necessário para se ir até ao fim das ideias (Propos de George Sorel, Gallimard, 1935).
Sorel teria aprovado estas palavras de Goethe: «No começo era a acção». Para ele, faça o que fizer, o homem que age é sempre superior ao homem que se submete: «A verdadeira violência faz surgir no primeiro plano o orgulho do homem livre».
Para que o mundo actual readquira a sua energia é preciso um «mito», isto é, um tema que não seja nem verdadeiro nem falso, mas que aja poderosamente nos espíritos, mobilize e incite à acção.
George Sorel via na Prússia do último século a herdeira da antiga Roma.
Para cantar as «virtudes prussianas», encontra um tom que não deixa de evocar Moeller Van der Bruck (Der Preussische Stil). «Sorel, o artesão, tem o culto do trabalho bem feito, nota Claude Polin, e o trabalho bem feito deve constituir um fim em si, independentemente dos benefícios que dele se retiram. Este desinteresse é próprio da violência: no fundo do pensamento de Sorel há a intuição de que todo o trabalho é uma luta, em especial o trabalho bem feito e até, de que o trabalho só é bem feito quando é uma luta. Esta ideia retoma a intuição do carácter essencialmente prometeíco do trabalho. Todo o verdadeiro trabalho é uma transformação das coisas que comporta a necessidade de se transformar a si próprio e aos outros consigo».
Pouco a pouco, Sorel acaba por denunciar a democracia (verdadeira ditadura da incapacidade) conjugando o já acentuado por um Maurras, um Bakounine e um Secrétan.
A ditadura do proletariado surge-lhe mais ou menos como um engodo: «É preciso ser-se ingénuo para supor que todas as pessoas que retiram proveito da ditadura demagógica abandonariam facilmente as suas vantagens». De passagem, recusa o papel de vanguarda que o bolchevismo intelectual pretende para si: «Todo o futuro do socialismo reside no desenvolvimento autónomo dos sindicatos operários» (Matériaux pour une Théorie du Prolétariat). «Marx nem sempre foi bem inspirado», prossegue ele. «Nos seus escritos, acontece-lhe introduzir quantidades de velharias provenientes dos utopistas.»
Esta concepção da acção está em completa oposição com as teorias «vanguardistas» (o trotskysmo, por exemplo). Mas encontramo-la nas propostas do sindicalismo revolucionário e do anarco-sindicalismo.
Finalmente, se Sorel defende o proletariado com um tal encarniçamento, não é por sentimentalismo, como Zola, nem pelo gosto pequeno-burguês da culpabilidade, nem mesmo porque o aflige uma «consciência de classe». É por que está convencido que, no seio da sociedade burguesa, só no povo se poderá encontrar a energia que as classes dirigentes perderam. Consciente das «ilusões do progresso», constata que as sociedades, como os homens, são mortais. A esta fatalidade, opõe uma vontade de viver de que a violência é uma das manifestações.
Hoje em dia, Sorel denunciaria tanto a sociedade mercantil como os mestres pensadores da contestação. «Marcuse representaria a seus olhos», escreve Polin, «o exemplo típico do homem degenerado pela crença beatífica do progresso, iludido por um progresso de que nada compreendeu e tudo esperava, incapaz de pôr a sua esperança para além de um progresso exacerbado, radicalizado, nesse sonho de uma abundância, de tal modo automática, que traria em primeiro lugar a felicidade tornando possível a saciedade desordenada das paixões mais loucas, numa palavra, incapaz de compreender que a fonte do mal está no homem, desvirilizado pela fé económica».

Alain de Benoist
in "Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas", Lisboa, Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite, 1981.