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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Sentido, lógica...justificação?


‎"Reencontrará o Estado português o seu sentido, a sua lógica e a sua justificação? (...) Terá a grandeza de estimular discretamente e sem exigências de pagamento os nossos pensadores e personalidades criadoras, em vez de os marginalizar por razões políticas, universitárias ou outras?"
 António Quadros

domingo, 7 de novembro de 2010

«Ratos, Camaleões, Rinocerontes, etc. (pequeno estudo zoológico)»

"Modestamente, venho-me dedicando há anos a estudos de zoologia. Sem pretender rivalizar com os grandes investigadores deste ramo científico, resolvo-me todavia hoje a publicar algumas notas, aliás seleccionadas de entre muito material acumulado e que um dia valerá a pena reunir e sistematizar para a posteridade.

Os ratos
Estes pequenos roedores são na realidade tímidos e vulneráveis. Escondem-se durante o dia, mas de noite (assustadiços como são) conseguem alimentar-se de sobejos e detritos, circulando nos forros das casas, nos canos de esgoto, nas lixeiras. Têm um instinto seguro. Quando a casa começa a arder, ei-los que fogem imediatamente em massa, antes de o perigo se tornar mortal. Escolhem então outra casa, outro lar. E de novo irão prosperar à sua maneira tímida e nojenta, em novos forros, em novos canos de esgoto, em novas lixeiras. Ler mais

sobre a liberdade


"[…] Ora só pode entender-se que uma sociedade é verdadeiramente livre ou em potência de liberdade quando os cidadãos atingirem um grau mínimo de autonomia individual, isto é, quando souberem conjugar o seu emprenho pessoal nos interesses superiores da polis com a capacidade de optarem por si próprios, compreendendo a todo o momento o que de fundamental está em jogo e estando aptos a resistir à pressão intelectual que sobres eles é exercida pelo poder ou pelos poderes, através das mil formas de sedução, de propaganda, de manipulação e de «formação», que visam usá-los, por vezes mais do que servi-los.
A liberdade de pensamento é pois a primeira das liberdades e precede-as. Mas a liberdade de pensamento não é um dado natural, é uma difícil conquista, é, digamos, uma iniciação, que parte da descoberta da nossa própria subjectividade e que se desenvolve, escreve Álvaro Ribeiro noutro livro, no trânsito do intelecto passivo para o intelecto activo ou da menoridade intelectual para a maioridade mental. A liberdade do pensamento implica uma iniciação, uma descoberta e também um movimento ineterrupto e de algum modo ascético para o saber."

António Quadros
Memórias das Origens - Saudades do Futuro
 Publicações Europa-América, 1992, pág. 302
*via cadernos de filosofia extravagante

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

António Quadros por ele próprio

António Quadros por ele próprio

via ANTÓNIO QUADROS by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 8/30/10

"[...] O autor pertence ao tipo de navegadores lentos e pacientes, explorando velhos e novos espaços por sua conta e risco. Não sabe construir rapidamente brilhantes catedrais. Não pretende lisonjear as tendências da massa, da multidão, dos ideais dominantes. Não reconhece verdadeiramente adversários em sua volta, porque de todos se sente irmão, na origem da sua actividade, na geratriz da sua energia ao serviço de uma causa. O fio estreito sobre que caminho, a muitos parecerá insatisfatório e frustre. É, porém, o seu fio de Ariadna no labirinto da vida, tal como a pode visionar. Da imperfeição do seu pensar ou da banalidade do que julga descobrir, extasiado, frequentemente, com panoramas que outros já abriram, percorreram, analisaram antes dele - e porventura com mais minúcia [...] não se penitencia, porque o pensar dramático do pesquisador não dá espaço para a penitência: seguir adiante, porque os degraus formados e transpostos estão já queimados, calcinados, aniquilados. A aventura do pensamento - mesmo que só intenção, só desejo, só ideal -, não admite retorno. Nenhum lar, confortável ou árido, o aguarda. Envolto em nevoeiro, ficou para trás o porto de onde partiu. Dele conserva uma recordação, uma saudade, talvez uma herança. [...] Mas o autor, a estas observações, apenas pode replicar, desatento: que caminho, que regresso, que erros, que passado meio esquecido já, é esse? Tudo não foi mais do que a amálgama escaldante, em ebulição, de uma experiência que se concentra no presente, pronta a dar o salto para o futuro. Sensação penosa, dolorosa é, em verdade, para o escritor, reler o que ficou escrito, o que se fixou escrito é a cristalização do imperfeito. No mesmo instante em que termina um livro, relê-lo, é tentado a tudo destruir para recomeçar de novo. O mesmo nos aconteceu, mas compreendemos que recomeçar de novo seria recomeçar eternamente de novo, num ritmo infindável e destrutivo. Por isso, aqui damos esta obra ao leitor com todas as suas imperfeições e, até, com o excesso da sua ambição. Ensaiando uma busca que se nos tornou imperiosa, vamos criando, ao mesmo tempo, uma forma de ser, de estar e de agir, que esperamos possa ultrapassar os limites da subjectividade. [...] Iniciemos, pois, a nossa multiforme investigação agente."

António Quadros, O Movimento do Homem,
 Sociedade de Expansão Cultural (1963) pp. 18-19

quinta-feira, 22 de julho de 2010

11 de Novembro

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 7/21/10

"Veio o médico de serviço. Veio a irmã Eugénia, solícita, bondosa, passando-me a mão sobre a fronte. Vieram enfermeiros. Foi uma agitação ruidosa e insuportável. Conduziram-me de maca até à enfermaria. Deram-me não sei que pílulas, atarefaram-se em meu redor. Trouxeram-me de novo para o quarto e deitaram-me. Melhorei, um pouco pelo menos, e a dor fortíssima desapareceu, ficando só a mesma pressão sobre o peito. Sinto-me agoniado. Vou morrer? Vou morrer? [...] Pensar, lembrar, as duas dores confundem-se-me, a dor dos meus ideais abatidos (e todavia resistentes) e a dor desta opressão que me sufoca [...] Lembro-me do que me disseste, há muitos anos, na minha visita à Holanda quando exilado de Portugal. Ah! A hora primeira! Quando com assombro se descobre que não há margem para dúvidas! Quando se chega a de onde não se pode voltar! O que se encontra, meu Deus!
Foste arrepiantemente premunitório. O que se encontra? Um quarto de hospital, um cheiro a desinfectantes, a comiseração das pessoas que nos olham como se já não estivéssemos cá, as últimas despedidas, a visita de uma amiga querida mas logo saudosa, as más recordações, um olhar para trás e perceber que tudo passou velozmente e não aproveitámos o nosso tempo, um reviver os nossos erros e um menosprezar dos nossos possíveis acertos. Olhamos para dentro de nós e apercebemo-nos que fomos pouca coisa, de que somos pouca coisa. Escrevemos livros, sobretudo um livro, montámos toda uma teoria de respostas satisfatórias para as nossas mais fundas interrogações, julgámo-nos senhores de um saber superior ao da maioria dos nossos amigos ou contemporâneos, mas sempre a mesma pergunta contundente e inevitável. O que se encontra, meu Deus?"
António Quadros
Uma Frescura de Asas, Europress (1990) pp. 114-115

Helena

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 7/21/10

"[...] A que eu julgara ter morrido no meu coração como eu teria morrido no dela, a que eu magoara, a que sobrevivera à minha fuga lamentável estava agora comigo, apertando naturalmente a minha mão, acarinhando-a e tratando-me de novo [...] pelo meu nome próprio. As nossas mãos acomodaram-se, a minha palma e os meus dedos calejados de escritor e jornalista, a suavidade feminina da sua pele, que o manuseio dos livros e as lidas da casa não tinham conseguido desfrear. Eu desejava-a, sim desejava-a. Perguntarás, atónito: como, agora, assim, tu, velho filósofo doente? Uma alegria. Uma dor. Um querê-la absurdamente, quando sabia que nunca a poderia ter. Mas uma consolação. Eu vivia. Não ousámos sequer sorrir-nos. Quase embaciados os seus olhos, mas conseguiu dominar-se...Eu vivia, vivia uma vida de homem. Não era capaz de dizer mais do que: - Helena, Helena..."

António Quadros
Uma Frescura de Asas, Europress (1990) pp. 95-96

Dobrado sobre a grande máquina

Dobrado sobre a grande máquina

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 7/21/10

"Marinho era o contemplador do número, do espírito recôndito, na experiencia anagógica da visão unívoca. Mas Álvaro Ribeiro era o operário de Deus, o trabalhador que, dobrado sobre a grande máquina do mundo e sobre o formigueiro dos homens, tentava fazê-los mover, arrolando cada um de nós para uma função própria e levando-nos as instruções deixadas pelo fabricante de origem. A cada pensador português, o seu poeta. Se Junqueiro para Bruno, Antero para Sérgio, Pascoaes para Leonardo e Marinho, Pessoa para Agostinho, o poeta de Álvaro Ribeiro era José Régio […]"
António Quadros
Memórias das Origens Saudades do Futuro,
Publicações Europa-América (1992) p. 318

terça-feira, 29 de junho de 2010

António Quadros sobre António Manuel Couto Viana (1923-2010)

António Quadros sobre António Manuel Couto Viana (1923-2010)

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 6/29/10
"[...] Sem ambiguidades, Couto Viana vê o 25 de Abril e o período subsequente como a época da catástrofe, que precipitou o país para a decadência e para a proximidade da morte. Sem ambiguidades, afirma-se nacionalista, sebastianista e monárquico. Mas é chegado o momento, cremos, de os adversários e os oponentes se ouvirem uns aos outros. Uma voz como a de António Manuel Couto Viana tem de contar para a força das coisas porque exprime, mais do que a sua própria emotividade pessoal, os ecos de uma profunda vivência nacional, silenciada ou reprimida que seja pelos ideais convencionais hoje dominantes, embora já não tão seguros de si e dos seus dogmas. [...] Em poucos líricos como em Couto Viana, é tão punjente a dor por algo que se perdeu, menos do nosso passado, do que do nosso futuro."

António Quadros,
"António Manuel Couto Viana Entre o desespero e a esperança apesar de tudo"
in A Ideia de Portugal na Literatura Portuguesa dos últimos 100 anos, pp. 225-228

[António Manuel Couto Viana nasceu em Viana do Castelo em 1923 e morreu em Lisboa em 2010. Fez parte da redacção da revista Tempo Presente e dirigiu a revista Graal. Para além de poeta, foi também ensaísta, contista, dramaturgo e encenador. Autor de uma obra extensa e diversificada, Couto Viana publicou, entre outras obras, O Coração e a Espada (1951), Marcha Solar (1959), A Rosa Sibilina (1960), Pátria Exausta (1971), Raiz da Lágrima (1973) Nado Nada (1977) Ponto de Não Regresso (1982), etc.]

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A Rosa Mística (Conto)

Rosa Mística (Conto)

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 5/27/10
"Escrevo estas linhas porque não quero partir sem deixar algum sinal, mesmo imperceptível, da minha passagem. Quem vai lê-las? Interroguei-me longamente e agora prefiro deixar em branco esse aspecto da questão. É possível que seja um funcionário da justiça, um burocrata, um homenzinho de veste cinzenta, de cara cinzenta e de alma cinzenta. Não me admirava que, por malas-artes, este meu primeiro e último escrito fosse desembocar na secretária atulhada de algum jornalista profissional. [...] O eco, o eco mesmo pálido e vago, mesmo mínimo que as minhas palavras possam provocar em alguém, é o meu único testamento. Deixo mais do que dinheiro, creio bem. Deixo a minha frustração e a minha esperança em algumas páginas sujas de tinta. Deixo uma vida inteira em sua essência. [...] E se, impiedoso e cego até final o destino soprar as folhas que escrevi aos quatro ventos? Creiam, é neste momento a minha maior angústia. Tudo teria sido em vão e acaso poder-se-ia concluir que Deus não existe, nem qualquer outro poder semelhante, nem sequer uma força criadora, majestosa e absurda? Julgo, porém, que as coisas não sucedem sem motivo e, embora há muito tenha deixado de reverenciar esse Deus feito e concebido à imagem e semelhança dos homens (quando dizem ser o contrário), encontro em mim neste instante decisivo um grande amor por quem me conferiu uma existência tão frágil e desnecessária, mas me permitiu, no entanto, este assomo último de homem, este preito à vida que, sei-o bem, vai ser interpretado exactamente ao invés. [...]"
António Quadros
Anjo Branco, Anjo Negro, (1973)
Parceria A.M. Pereira pp. 59-60

domingo, 16 de maio de 2010

António Quadros no Marão em casa de Teixeira de Pascoaes

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 5/11/10
"Lá fora, vinhedos, abelhas zumbindo, a serra escalvada, o Marão. Um corpo vivo, o corpo da natureza, Marános, toda aquela terra áspera, rugosa e dura latejando em Deus e para Deus, procura lentíssima de um destino. Percebemos então, nesse momento, percebemos quase sensorialmente como o poeta pudera experimentar uma saudade do divino na energia que fazia pulsar as entranhas da terra, que rasgava as fontes, que fazia correr os riachos pelas faldas da serrania, que explodia as sementes e as conduzia à apoteose da árvore, da flor, do fruto. A mesma saudade que nos prendia à terra e às suas raízes, a mesma saudade que nos atraía para um oculto esplendor. [...] Ali sentado, absortos, esquecidos do nosso eu, foi então que erguemos os olhos e o vimos, aquele quadro assinado por um pintor que julgáramos apenas escritor: Raul Brandão. Era o retrato da natureza viva e mágica que o último romântico, Teixeira de Pascoaes, nos quisera ensinar a sua poesia. Natureza mágica, natureza com alma, natureza com espírito, natureza divina. Mas natureza, também, sofredora, carecente, portadora de um pathos... Na sala havia outros quadros do autor do Húmus. Retratos um pouco rudes, porventura imperfeitos sob o estrito ponto de vista plástico, mas muito próximos da intuição pascoalina de uma natureza saudosa, uma natureza teleonómica, em movimento para a sua própria essência através das formas e das cores que compõem a sua existência."

terça-feira, 27 de abril de 2010

António Quadros, O Escritor e a sociedade

António Quadros, O Escritor e a sociedade

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 4/24/10
"Fora da solidão da criação o escritor não existe como escritor, é um homem social. (...) mas é quando ele está só que estabelece a maior comunicação com o maior número de pessoas. Porque a solidão criativa é de certo modo um diálogo com os outros, enquanto, por outro lado, pode parecer paradoxal (...) a vida pública do escritor é quando há menos diálogo com os outros (…) é um acidente, é qualquer coisa artificial e um pouco superficial. Não é aí que ele se realiza. É quando está só que o escritor comunica com os outros e digamos mais do que isso, comunica com o Universo." António Quadros (O Escritor e a sociedade, RTP, 1983)

António Quadros sobre Fernando Pessoa

António Quadros sobre Fernando Pessoa

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 4/22/10
"[...] Os citados críticos franceses, [Patrice Delbourg, Jean-Pierre Thibaudat, etc.] deslumbrados pelos sinais mais exteriores e espectaculares da personalidade literária de Fernando Pessoa, insistiram sobretudo nos aspecto inovadores e modernistas da sua obra, na questão intrigante dos heterónimos ou na inteligência prodigiosa de todos os seus escritos. Se ficássemos por aqui, no entanto, pouco avançaríamos no conhecimento da poética pessoana. É que se Pessoa foi um inovador, foi também um expressor de princípios e arquétipos que transcendem as categorias do tempo; se foi um moderno e um modernista, foi também um incansável pesquisador e assuntor do tradicional, do secreto, do mítico, do enigmático, do que se perdeu ou esqueceu e contudo está vivo, porque é talvez perene na cultura portuguesa e universal mais profunda; se, com a invenção dos heterónimos, exprimiu como ninguém a cisão psicológica e espiritual da alma humana, através do drama da sua própria alma, conflitualmente dividida em estratos sobrepostos, ao mesmo tempo nunca deixou de perseguir o nódulo interior ou o princípio de unidade, orientador da reconvergência possível, como telos ou fim último da gesta humana neste mundo de geração e de corrupção; e se a sua fulgurante inteligência analítica dá por vezes impressão de sofística ou dialéctica (tal a facilidade com que manipula os conceitos mais difíceis) há sempre nela, ao mesmo tempo, uma sinceridade, uma autenticidade, um pathos de sofrimento, de angústia e também de incansável determinação próxima da santidade intelectual, que dá grandeza heróica à sua obra, vista no seu conjunto como uma peregrinação sofrida e mantida para o absoluto ou mesmo para o divino, no paradigma fáustico, mas ultrapassando-o em momentos excepcionais de conhecimento merecido e alcançado. [...]"
António Quadros
Obra Poética de Fernando Pessoa, Poesia - I, (1902-1929),
int. e org. de António Quadros, Publicações Europa-América

terça-feira, 20 de abril de 2010

António Quadros sobre..

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 4/9/10
António Sérgio

"Sérgio passou como um furacão pela vida cultural portuguesa. Idealista, foi sobretudo um guerreiro, um paladino, um voluntarista. Quis demolir para reconstruir, mas principalmente demoliu. A sua obra teve desmedida influência e, depois dele, nada ficou igual ao que era. Para o melhor ou para o pior. Quanto a nós, para o pior...
[...] Foi um pensamento essencialmente redutor. Um pensamento constantemente apostado em reduzir o complexo ao simples, o enigmático ao claro, o curvilíneo ao rectilíneo, o múltiplo e o diverso ao uniforme, o imenso ao mínimo, o espiritual ao material e o antropológico ao sociológico.
[...] Depois de supervalorizar uma sociologia horizontal, matemática e genérica, ignorando (ou ocultando) os dados da antropologia cultural, da psicologia, da caracterologia, da psicanálise, etc. (o que era muito mais fácil no seu tempo), tratava-se para Sérgio, de mostrar como tudo quanto é sociologicamente insignificante, na realidade... não existe.
[...] José Marinho esclareceu-o perfeitamente: em António Sérgio, a razão aparece-nos «sem o próprio conceito» [....]"

António Quadros
Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista II, pp. 23-24
(Guimarães, 1983)

terça-feira, 30 de março de 2010

própria e individual

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 3/2/10
"[...] Em última análise penso, muitas vezes, caro Afonso Cautela, que todos nós, há 5000 anos ou nos dias de hoje, no Tibete ou em Lisboa, tivemos e temos em frente de nós o mesmo inevitável apocalipse: o da nossa própria morte individual. E é a nossa única certeza histórica...[...]"

António Quadros, Diário Popular, 24-01-1974

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Carta de António Quadros a Eduardo Lourenço

Carta de António Quadros a Eduardo Lourenço

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 12/2/09
Excerto da correspondência publicada na Colóquio/Letras, n.º 171, Maio 2009, p. 262-268.

Lisboa 24 de Setembro [de 1968]

"É possível que as notícias cheguem aí primeiro do que esta carta. Por enquanto (dia 26), a situação é esta: Salazar em coma; Presidente da República multiplicando políticas e démarches; boatos vários a este respeito, o mais insistente dos quais é o de que o candidato nº 1 é o Marcello Caetano, que se propõe uma certa liberalização (…) E, curiosamente, ambiente de calma. Mau grado o fogo de vista da imprensa e da rádio, a verdade é que o povo parece anestesiado. (…) Da Oposição, nada: nem um manifesto, nem um cartaz, nem uma folha clandestina. (…) Perdemos o sentido da Política e da História. Durante 40 anos fomos conduzidos pela mão por um Pai que sempre nos dominou com facilidade. Tudo o que sabemos fazer é interrogar os cinco minutos seguintes: morrerá, não morrerá? Quem será o Delfim? E é tudo. Os próprios críticos perderam a experiência da crítica. Os democratas não sabem que é e como se vive em democracia. Tenho a impressão de que todos os protestos eram atitudes, não actos e de que agora, os inimigos do velho Rei não sabem o que fazer. (...)"

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Sobre o nosso sistema educativo

via António Quadros de aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) em 13/05/09
"Olhando de alto, observa-se que, ao longo da sua aprendizagem, o aluno apenas estudou para os sucessivos exames com que pretenderam medir a sua memória e a sua inteligente maleabilidade […] No que se refere ao ensino propriamente dito, o símbolo da sua expressão não é vertical mas horizontal. Longe de promover uma ascensão espiritual, busca promover um alargamento em superfície. […] Já escrevemos, ao que parece com certo escândalo, que o problema crucial do nosso tempo, para a geração de 1950, não é o social nem o político, mas o educativo".
António Quadros, «A Angústia do Nosso Tempo e a Crise da Universidade»

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Os três problemas portugueses: filosofia, história e futuro da Pátria (parte 4)

Os três problemas portugueses: filosofia, história e futuro da Pátria (parte 4)

via Espiral Dourada de noreply@blogger.com (RS) em 30/01/09
Ensaio da autoria de António Quadros
(publicado na Folha "57", n.º11 - Junho de 1962)

A verdade que cumpre seja compreendida finalmente pelos portugueses, a verdade que excede o problema, é esta: existe e subsiste a pátria portuguesa, mas não para servir pragmáticamente uma classe, não para armoriar uma facção, não para garantir um tradicionalismo conservador e estacionário; existe e subsiste a pátria portuguesa porque insiste e está procurando existir uma filosofia portuguesa, uma determinada concepção do mundo e do homem, do imanente e do transcendente, do virtual e do real. A pátria é uma existência e uma insistência, mas só há pátrias, quando as nações são dotadas de uma filosofia própria. Língua portuguesa, filosofia portuguesa, espírito português, são as raízes autênticas da pátria e das suas implicações secundárias: nação, sociedade, estado, comunidade, povo.

Implicita e implicada na sua duração histórica e transiente, simbolizada na aventura, na viagem e na arte, a filosofia portuguesa sé no século XX surge à luz como uma realidade primeira em que as demais actividades devem mergulhar a sua ânsia de movimento e progressão. A filosofia portuguesa é o universal concreto, sendo a pátria o concreto que materializa e anima o universal sófico. A filosofia ecuménica, expressão do universal abstracto, sem base vitalista, é já uma utopia do passado.

O caos das políticas, das ideologias e das facções, terá o seu termo quando a pátria for pensada a partir de si mesma, quando o universal se assumir em suas determinações pátrio-sóficas.

(continua)

Os três problemas portugueses: filosofia, história e futuro da Pátria (parte 3)

Os três problemas portugueses: filosofia, história e futuro da Pátria (parte 3)

via Espiral Dourada de noreply@blogger.com (RS) em 29/01/09
Ensaio da autoria de António Quadros
(publicado na Folha "57", n.º11 - Junho de 1962)

Primeiro problema:
FILOSOFIA E PÁTRIA

A força da realidade pátria, força que desce do plano intelectual ao plano sentimental, que transparece nas determinações inconscientes, quando a consciência deixou de pensar, a força e a profundidade da sua objectivação nos homens é, por isso, porque é influente e interior em cada um, sistematicamente desviada, aproveitada, canalizada, atraiçoada, pragmatizada. E assim, a política apodera-se da ideia da pátria, desvirtua o seu significado e adapta-o aos seus fins.

É tempo de discernir e meditar. A ideia da pátria está em crise entre nós, precisamente porque toda a acção pragmática que em seu nome é realizada, neste ou naquele sentido, não é deduzida e derivada de uma filosofia da pátria, de uma filosofia portuguesa. Não é possível pensar, postular, legislar, criticar de acordo coordenadas exóticas e, a partir desta realidade mental desfocada e des-axializada, exercer uma actividade propriamente patriótica. Nestas condições, o que fica da pátria é apenas um substracto emocional e retórico, que não suscita uma inteira adesão a uma efectiva participação.

O homem, composto de elementos físicos, de elementos psíquicos e de elementos racionais, apenas se move verdadeiramente pelo acordo sincrónico destas três zonas. Se a razão dos portugueses é desenvolvida e estimulada pelos processos lógicos culturais franceses, alemães ou ingleses, os quais, diga-se de passagem, estão atingindo uma saturação metamórfica nas suas formas idealistas, existencialistas e fenomenologistas, muito precariamente o psíquico, isto é, a sua alma, será capaz de escolher decidida e decisivamente o caminho que é consubstancial à pátria.

É quando a acção não se adequa ao pensamento, que o problema toma aspectos vitais de dramaticidade, de existir agónico e angustiado. Em suma, não há acção portuguesa, acção profunda e cumulativa, sem adequação do agir e do pensar, segundo uma lógica e uma gnosiologia portuguesas, que são os seus autentificados suportes.

Assim, enquanto as nossas escolas, os nossos liceus e as nossas universidades não forem fontes de pensamento português e de filosofia portuguesa, os portugueses viverão permanentemente em crise e em cisão, divididos no seu ser, procurando como derivativo vincular-se a sistemas ideológicos onde a pátria não tem já lugar próprio, sistemas condenados ao fracasso porque o sistema ideológico é hoje uma tentativa metafísica invalidada por todas as correntes modernas sem excepção.

(continua...)

Os três problemas portugueses: filosofia, história e futuro da Pátria (parte 2)

Os três problemas portugueses: filosofia, história e futuro da Pátria (parte 2)

via Espiral Dourada de noreply@blogger.com (RS) em 28/01/09
Ensaio da autoria de António Quadros
(publicado na Folha "57", n.º11 - Junho de 1962)

"Não será todavia possível clarificar um pouco uma problemática tão perturbada e caótica? Não será possível reconduzir tal problemática ao cerne de um problema crucial e essencial? Sim, é o problema da pátria, que por sua vez se ramifica e hierarquiza em outros problemas que lhes estão indissociavelmente ligados.

A pátria. Não é a nação que está fundamentalmente em causa. Não é a sociedade. Não é a comunidade natural. Há muitas nações, muitas sociedades, muitas comunidades, mas são poucas e raras as pátrias. Um dos erros abissais do pensamento não qualificativo que presidia à fundação da O.N.U. foi equiparar as simples nações, que são meras sociedades políticas, às nações-pátrias, em que a estrutura social, implicita ou explicitamente, derivam de uma filosofia ou tradição filosófica que a todo o instante a alimenta, dinamiza e lança no futuro, em busca da mais alta realização arquetipal.

Verdadeiramente, é o paradoxo da pátria, que constitui o mais profundo problema português, na medida em que os nacionais do nosso país se encontram perpetuamente dilacerados perante opções que, cada vez com maior insistência e acuidade, lhes são postas. Dir-se-ia que os portugueses - durante um largo período de alguns séculos - perderam a capacidade de decisão. A posteriori se verifica que a partir do século XVII até aos nossos dias, a posteriori se verifica, diziamos, que a decisão tomada não fora a que se coadunasse com o vero movimento ascencional da pátria, que, não o esqueçamos, é menos um absoluto, do que um microcosmos laboratorial da humanidade. A decisão portuguesa tem sido efectivamente, mesmo quando transportando em si um impulso patriótico, uma como que decisão cindida.

Sem dúvida, esta situação trágica, mas ao mesmo tempo promissora, porquanto nunca joga o nosso espírito inteiro num só e por ventura decepcionante caminho, inspirou ao filósofo José Marinho, a sua interpretação da realidade como cisão pura. Cisão do ôntico, cisão do humano, cisão do divino, mesmo.

Ora a pátria portuguesa se é explicitamente, ser de cisão, é também , implicitamente, movimento, dinamismo, razão agente, trans-história, ideal, radicação misteriosa num princípio de causa cisiva e saparatista, mas de objecto reintegrador. Desdobrando-se o problema genérico dapátria nos três problemas particulares que o configuram, especialmente na hora presente, nós acreditamos contribuir para que a recuperação do movimento venha a transcender a dramaticidade da cisão extrema dos portugueses em relação a si mesmos. Certo está partir de uma verdade que é ambiguidade, pardoxo e cisão, mas mais certo ainda é acreditar no dinamismo espiritual que pode, senão resolver totalmente, pelo menos transformar decisivamente essa verdade imediata."

(continua)

Os três problemas portugueses: filosofia, história e futuro da Pátria (parte 1)

Os três problemas portugueses: filosofia, história e futuro da Pátria (parte 1)

via Espiral Dourada de noreply@blogger.com (RS) em 28/01/09
Ensaio da autoria de António Quadros
(publicado na Folha "57", n.º11 - Junho de 1962)

"Em nosso entender e segundo a nossa análise, a problemática portuguesa, dia a dia mais grave e agravada pelo curso dos acontecimentos e pela reacção dos homens, tem sido encarada à esquerda e à direita, não nas suas determinações essênciais e profundas, mas nas suas manifestações exteriores e, por assim dizer, epidérmicas. As soluções preconizadas para os problemas, são pois de ordem política ou jurídica. Diveras podem apresentar-se quanto ao conteúdo, diversas e até aparentemente antagónicas. Mas raramente se compreende a que ponto elas se identificam, precisamente por se defrontarem no terreno comum da acção política e do seu suporte legislativo. Ora é este terreno comum que exactamente contestamos e pomos em causa. Há quatrocentos anos que, entre nós, mudam os regimes, as estruturas e as forças dominantes, mas na realidade pouco ou nada se modificou no tipo de estatismo em que pantanosamente mergulhamos.

E isto porque o nosso pensamento político, há quatrocentos anos que não é criador, mas aderente. Queremos dizer que, incapazes de criar doutrina política, necessariamente derivada de uma filosofia e de uma visão do mundo, os nossos políticos se limitam a lutar pela adesão do pais a este ou aquela doutrina, forjada por outros a partir de circunstâncias históricas, ideológicas e sociais inteiramente diversas das nossas. Quel é o partido político que, nos últimos séculos, pôde ou soube postular uma teoria própria e original? Portugal é pensado como um pequeno e triste astro sem luz própria, reflectindo a sombra e o sol dos outros, e opr isso todos os nossos movimentos de reacção e acção, sejam a Contra-Reforma e o Iluminismo, sejam o Absolutismo e o Liberalismo, sejam a Monarquia constitucional e a República, sejam as outras teses e antíteses que se lhes seguiram, tiveram de comum, a ideia concordante da menoridade da pátria, incapaz de teorizar pelas próprias vias, sistemas de filosofia, de educação e de política.

Qualquer das correntes atribuiu e atribui a sua falência, por vezes espectacular e trágica, à actividade das correntes contrárias. Mas é chegado o momento de consciência, é chegado o momento de ver mais longe e mais fundo. É para uma licidez, que não se coaduna com interesses criados e com filiações programáticas, que desejamos contribuir com este ensaio de prospecção filosófica-política, que, demais o sabemos, não pactua com o turbilhão de impulsos divergentes, volteando avidamente sobre o cadáver adiado.

E porque é chegado o momento? Porque se está atingindo muito provavelmente um limite. Porque, talvez sem darmos por isso, estamos já do outro lado de uma fronteira. O presente ensaio liga-se aliás, por uma patente linha de continuidade, ao que foi a orientação expressa do "57" nos últimos quatro anos, e particularmente aos Manifestos que apresentaram a público este ponto de vista novo e escandaloso: um ponto de vista português sobre os problemas portugueses. Ora estes problemas andam de tal forma obscurecidos por ambiguidades artificiais, o drama consequente é de tal modo menorizado por proposições sentimentais e volitivas, o essencial é tantas vezes ocultado pelo acessório, que a maioria das pessoas cada vez sabe menos o que há-de pensar, quando não se encontra filiada em qualquer organização que por eles pense.

A pequena política é a grande dissolutora das mais belas e verdadeiras ideias humanas, porque não quer reconhecer a hierarquia dos problemas e a lógica das relações entre o menor e o maior. Assim, a mediocridade é o plano em que se agitra, o superior é arrastado ao nível do inferior, as mais fecundas concepções filosóficas são degradadas em nome dos interesses imediatos, circundantes, egoístas e pragmáticos. Crescem os actos puramente utilitários, as atitudes provincianas, as ilusões utópicas, os partidarismos irreflectidos, as subordinações confessas ou inconfessas, e é tudo isto, toda esta gama de detritos provindo de ideias e crenças moribundas, que está alimentando e envenenando um número majoritário de portugueses."

(continua...)