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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Teoria do Município


Para o Congresso Nacional Municipalista do Porto, em 1924, escreveu António Sardinha, então Presidente da Câmara Municipal de Elvas, dezasseis teses de apoio à Teoria do Município.
Numa altura em que se discute a reforma administrativa e municipal em Portugal, convém pois recordá-las:

1ª Tese – O Município não é uma criação legal. Anterior ao Estado, é preciso defini-lo e tê-lo como organismo natural e histórico. Ler mais

2ª Tese – A descentralização administrativa não é, por isso, suficiente para resolver o problema municipalista. Ler Mais

sábado, 15 de agosto de 2009

António Sardinha e o iberismo maçónico

via nonas de nonas em 02/08/09
«... O internacionalismo maçónico contaminara-nos já desde atrás, com os soldados que serviram a fortuna de Napoleão e que no regresso nos empurravam francamente para a União Ibérica, saudada e propagada nas Lojas Peninsulares como o triunfo maior da causa da Liberdade. Só numa história escrita ao contrário, como a nossa anda, é que Gomes Freire pode figurar de mártir da Pátria. O militar valente, mas desnacionalizado, da epopeia napoleónica não era o único, porém. Os seus irmãos do triângulo simbólico enraizaram-se farta e fortemente no solo português, mal o senhor Intendente deixou de farejar por toda a Lisboa do começo do século findo os agentes perniciosos da grande conspiração universal que foi, na verdade, a Revolução. Pois da Maçonaria descende o nosso liberalismo, como da Maçonaria surgiu esta república, já adivinhada e procurada com entusiasmo de sentimento e oratória pelos homens de 1820...»(1)
«... Ontem o Liberalismo, agora a Democracia, não são senão as fachadas dum poder oculto que, no subsolo da política, a manobra a seu bel-prazer. Tal poder é o da Maçonaria, inimiga desde sempre de tudo quanto seja para Portugal o renascimento das suas velhas qualidades de fé e de disciplina. Maçónica na sua origem, é um engano supor-se que a revolução do Porto obedeceu a indignadas iras patrióticas contra a residência inglesa de Beresford e contra a demora da obstinada Corte no Rio de Janeiro. A demora da Corte no Rio de Janeiro, levando a uma acção de consciente imperialismo na América, como se deduz da campanha de Montevideu e como o demonstra abundantemente o notável historiador brasileiro Oliveira Lima no seu esplêndido estudo sobre D. João VI — a demora da Corte no Rio de Janeiro impôs-nos à Europa, disposta a abandonar-nos, e à nossa Corte, sem que por isso se molestasse a nossa aliada da véspera, — a Inglaterra. Se D. João VI não pesasse de além do atlântico com o seu vasto império colonial, nós teríamos sido miseravelmente retalhados pela Espanha e pela Grã-Bretanha nas decisões do Congresso de Viena. Ninguém mais do que Inglaterra, desejava pôr cobro à assistência do rei no Brasil, que nos estava valorizando internacionalmente. Tanto assim que se deve à Inglaterra o golpe decisivo na ruptura das duas partes do Reino Unido, colaborando activamente na emancipação do Brasil, igualado à Metrópole pela política sábia de D. João VI.
Por outro lado, as iras patrióticas flamejadas sobre a residência Inglesa são um efeito de pura retórica. A Regência combateu sempre Beresford, com D. Miguel Pereira Forjaz à frente, — D. Miguel Pereira Forjaz que organizara o país contra os franceses e que se mostrava um esteio seguro da influência contra-revolucionária da Santa-Aliança.
A Maçonaria serviu-se dessa capa, fácil de envergar pelo espírito indómito dos nossos soldados, a quem as Lutas Peninsulares haviam restituído muito da antiga fereza da raça. A prova está na circunstância dos clubes secretos pensarem primeiro em aliciar Beresford por intermédio da Viscondessa de Juromenha. Convencidos de que o marechal «era adverso à liberdade», só então é que resolveram maquinar a conjura, destinada à destruição da nossa ordem católica e monárquica, sob o pretexto duma insurreição de carácter nacionalista.
Não digo que as condições económicas fossem sorridentes. Saíramos duma guerra exaustiva, vítimas de três invasões que nos tinham custado o melhor da nossa força, tanto em população como em riqueza. Devagar nos íamos ressarcindo de tão longos e persistentes males. Não olharam a nada os nossos Regeneradores! Levantam uma bela manhãzinha no Porto o pendão de revolta, com vivas a uma «constituição mais liberal que a de Espanha», metendo-se ao caminho para Lisboa, onde o terreno se achava já preparado pela teimosia habilidosa das várias irmandades do triângulo-e-avental.
A solidariedade cosmopolita dos princípios da Revolução não é só do tempo presente. Vem de atrás e muito de atrás! Por semelhante a nossa Maçonaria facilitou a entrada de Junot em Lisboa, mandando mensageiros a Napoleão e dispondo-se a entregar-lhe com a dinastia o único penhor da independência pátria. A mesma solidariedade, jurada sobre as insígnias triangulares, debaixo do olho simbólico do Supremo Arquitecto do Universo, obriga Gomes Freire, traidor desde que espontaneamente se dedicou à fortuna de Bonaparte, a preparar a queda da dinastia de 1817, de acordo com conspiradores espanhóis, a cuja testa se encontrava o general Cabanes.
Esta é a genealogia da famosa Harmonia-Ibérica, que, no fundo, não é mais do que a República Federal da Ibéria, anunciada para depois da insurreição, agora malograda em Espanha, pelo Doutor Simarro, no convénio maçónico realizado em Paris a 2 de Julho passado (1917): declarou-se aí que, a triunfarem os revoltosos, a bandeira verde-vermelha seria imediatamente reconhecida como sendo a bandeira da Ibéria. Não se tratava senão da execução testamentária de Gomes Freire! Procuraram efectivá-la os homens de 1820. De facto é um maçon, D. José Pando, ministro da Espanha em Portugal, quem coadjuva e acoberta as cabalas dos conjurados. Conta-se até, que dois meses antes, chegara ao Porto o coronel Barreros com o fim de promover uma revolução em Portugal e prometendo auxílios do governo de Madrid. Parece que Fernandes Tomás não aceitou as propostas de Barreros. No entanto, ao rebentar o movimento do Porto, um corpo de exército espanhol avizinhou-se da nossa fronteira de Trás-os-Montes.
O mais interessante é que os jornais da época afirmaram (Diário do Governo, do Rio de Janeiro, de 22 de Abril de 1823) que Manuel Fernandes Tomás recebera de D. José Pancho cinco milhões de reais para levar a cabo a revolução, pondo-se depois em prática o plano traçado na Sociedade dos Regeneradores do Género Humano, fundada em Cadiz, à roda de 1812. Consistia esse plano na confederação ibérica, em que Portugal e Espanha se repartiriam em várias repúblicas inter-dependentes, da maneira seguinte: Bética-Ulterior, Bética Citerior, Galega, Navarra, Asturiana, Lusitânia-Ulterior e Lusitânia-Citerior, com a expressa condição de que os Algarves pertenciam à Bética Citerior. Passa singularmente, como vêem, no programa político dos Regeneradores do Género Humano, o programa daqueles que há umas dezenas de anos se foram de juntar até Badajoz. É o mesmo espírito que anima o livro do Senhor Magalhães Lima, La Fédération Ibérique. E para prova, no seu curioso livro Mi Missión en Portugal, Fernandez de los Rios assegura que nos arquivos secretos de Fernando VII, no Palácio de Madrid, existiam documentos comprovativos das aspirações unitaristas da Espanha durante o período vintistas».(2)

Notas:
1 – Na Feira dos Mitos, cap. " A «Carta»", pág. 85, 2,ª ed., Edições Gama, 1942.
2 – Ao Ritmo da Ampulheta, cap. "1820", pág. 50 e segts, Lvmen, Lisboa, Porto, Coimbra, Rio de Janeiro, 1925.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Meditação de Aljubarrota por António Sardinha

via nonas de nonas em 24/04/09
Meditação de Aljubarrota

«É essa altura em que o homem predestinado surge, — em que surge o varão mandado por Deus.
Mais que nos prodígios de que lhe anda constelada a crónica piedosa, mais que na humildade e no ascetismo da sua renúncia admirável, é onde eu vejo o sinal inconfundível da vocação sobrenatural do Condestabre: — é no arremesso incondicionado e aberto com que ele, — um feudal, um homem da Cavalaria, se coloca à frente do populacho das ruas, e da desordem alastrando; raivosa e impotente, consegue tirar o penhor seguro da vitória e da grandeza da pátria de amanhã. Visto de longe, nos frutos abençoados do seu esforço, dificilmente se compreende como o Condestabre é excepcional, quase único. Saído das camadas aristocráticas, houve que vencer-se a si mesmo, lutar contra a família, contra os sentimentos da própria honra, contra o que então constituiria o que hoje chamamos «dever patriótico». Não hesita Nun`Álvares, — embora triunfe por virtude do medievalismo de toda a sua imaculada figura —, em combater contra o medievalismo que estrebucha, agonizante, e que o ascenso do Mestre ao trono matará definitivamente entre nós. Estranha e paradoxal contradição que só nos revela como Nun`Álvares, pelo carácter providencial da sua missão, teria de terminar sobre os altares, oferecendo a Deus, com a sua espada, o lírio imarcessível da sua clara alma de Galaaz! E qual é o ensinamento, qual é a inspiração, que perante a atitude do Condestabre, no momento actual se impõe ao nosso patriotismo alarmado? Antes de mais nada, precisamos de reconhecer no caso de Nun`Álvares que, se Deus prepara e cria os acontecimentos, é sempre à vontade humana que cabe efectivá-los e completá-los. De outro modo, um fatalismo brutal conduziria a marcha da história, negando totalmente a intervenção deliberada das iniciativas do homem, sem o quê a nossa liberdade interior não passaria nunca duma névoa, duma fórmula vã. E se pensarmos um pouco mais em toda a vida magnífica do Condestabre, vir-nos-ia, como bons portugueses, o desejo de escrevermos uma Imitação de S. Frei Nuno, — espécie de breviário quotidiano para a nossa dupla fé católica e lusitanista.
«Raison et bom sens ne suffisent pas!» — observou duma vez Renan, — o céptico, exactamente, quando nos degraus da Acrópole, invocava em Palas-Ateneia a claridade serena da sabedoria antiga. Porque, na verdade, «raison et bom sens ne suffisent pas», é que Nun`Álvares, colocando-se fora do existente, voltando esplendidamente as costas aos Mitos, às Normas, às urnas vazias já de toda a essência e de todo o conteúdo, venceu unicamente pelo poder supremo do Espírito. Rapaz e cabeça dum partido de rapazes com as suas rapaziadas inconcebíveis, acendendo fogos no alto dos montes, tocando trombetas por entre a bruma cerrada, escavacando galhardamente favolas de festim, aprendamos em Nun`Álvares o segredo da nossa crença nacionalista que une ao gesto rebelde, que destrói e purifica, o gesto que tanto nos afila as mãos para o Céu, como no-las enclavinha, justiceiras e frementes, na coronha duma espingarda. E o resto acontecerá, por graça de Deus, desde que, em plena vontade nossa, saibamos querer o que Ele no seu plano eterno já concebeu e já quis!
Interpretada assim a broxadas largas a figura do Condestabre, é imperioso que interpretemos igualmente o significado histórico da batalha de Aljubarrota. Por honra nossa e do sangue que nos queima as artérias, que nunca Aljubarrota seja uma data que divida, um grito que separe! Não hasteemos o pendão do Condestabre, como bandeira de qualquer filarmónica de patrioteirice, — como diria Eça —, onde a Pátria, tornada tema de pura retórica, perca o seu sentido positivo e orgânico e não seja mais que um nome abstracto, destinado a não hostilizar aquilo que é contrário e adverso à sua estrutura inalienável. Entendidos, — não é verdade? Ora, da mesma forma não tomemos Aljubarrota como um simples acto guerreiro, desprendido de toda a sequência e toda a relação com a vida posterior de Portugal.» (pp. 7/8/9/10)
«(...) Que S. Fr. Nuno esteja connosco, como estava em Aljubarrota ao lado do Mestre, como esteve em Granada batendo nas veias de Isabel, como pulsou em Lepanto animando o coração heróico de D. João de Áustria! E o Portugal-Maior regressará à posse dos seus antigos roteiros, para que a energia da raça volte a salvar a beleza do mundo, já meio apagada no longo crepúsculo que sobre ela tragicamente anoitece.» (p. 15/16)
António Sardinha
In «Ao princípio era o Verbo», cap. Meditação de Aljubarrota, Livraria Portugália, Lisboa, 1924, págs. 7/8/9/10 e 15/16.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

MESTRE...

via CACETEIRO de noreply@blogger.com (caceteiro) em 05/04/09

"Tens o golpe de vista bem fundo para veres que na política por via da regra a mediocridade é que triunfa. Os que podem projectar sombra, esses arredam-se, votam-se ao ostracismo. Mas a vitória consegue-se com abdicação de todo o escrúpulo, com sacrifício das ambições mais puras."

António Sardinha, Correspondência de António Sardinha, pág. 491

segunda-feira, 30 de março de 2009

Aljubarrota por António Sardinha

via nonas de nonas em 29/03/09
«Só Nun`Álvares persistiria, — só Nun`Álvares teimara, cheio do sentido religioso duma predestinação a cumprir.» (p.220)
«Saído da nobreza, D. Nuno tira dela as virtudes precisas para acudir à crise de que depende a sorte do Portugal futuro e aproveita o vento incendiário da rebelião que nos parece devorar para assentar solidamente a independência da nossa terra. Tal é a vocação desse herói extraordinário, que, como Joana d`Arc, é um verdadeiro enviado providencial.
Portugal rompia, deste modo, do seu nacionalismo instintivo para a categoria já estável duma nacionalidade, graças à acção iluminada do Condestabre. (...) Aljubarrota marca a passagem duma fase embrionária e latente da Pátria para a sua maioridade reconhecida, de agora em diante, nos vínculos do sangue e da terra. A Grei vai surgir do choque doloroso duma hora mais longa do que as longas passadas dum século. E Portugal atira-se para o caminho do engrandecimento, com o seu génio já clarificado na vocação colectiva da nacionalidade que se conhece e possui enfim.
Não é outra a lição de Aljubarrota, cuja lembrança Portugal nos manda que a meditemos, para honra nossa e louvor dos nossos Mestres. É hoje tão incerto como então o nosso destino. Mas um acto de fé naquele esforço de outrora, que dorme dentro de nós o sono do Encoberto, vivificará talvez, no sonambulismo vergonhoso em que nos estagnamos, as energias de milagre que nunca nos faltaram, sempre que para elas houve alguém que apelasse. É esse o encargo que pertence à mocidade do nosso país mais do que a ninguém.
Não nos amedrontem os negrumes de que se carrega o dia de amanhã! A estrada a pisar-se é só uma e já Deus nos fez a mercê de nos ensinar qual ela seja. Se os perigos, aumentando, nos procuram como ferros de espada, tanto melhor! A nossa existência encher-se-á dum sabor de virtude e de heroísmo, por onde há-de regressar à nossa terra o património esquecido da sua glória e da sua grandeza. Só assim seremos dignos da pátria que nos foi transmitida como um bem de família e que, como um bem de família, é preciso defender e conservar! (pp. 227/228)

António Sardinha
In «Na feira dos mitos», cap. Aljubarrota, 2.ª edição, Edições Gama, 1942, pp. 227/228.

Nun`Álvares por António Sardinha

via nonas de nonas em 29/03/09
NUN`ÁLVARES

Foi ontem dia de Nun`Álvares pela comemoração nacional do seu nascimento. Essa figura erguida, uma das maiores da nossa história, é na sua dupla posição de guerreiro e de santo a incarnação perfeita da alma de Portugal. Ninguém como ele teve o gládio para manter a justiça e para defender a terra. Ninguém como ele soube o poder do espírito quando se recolhe em Deus e não confia senão na força superior duma aspiração imortal! Entre a Espada e a Cruz decorreu feliz e gloriosa a existência passada da nossa Pátria. À Espada e à Cruz nós agradeceremos ainda o acto de milagre que nos há-de restituir ao caminho perdido da nossa vocação de povo.
Sobre Nun`Álvares pesa a ignorância imperdoável de quanto ele nos merece como herói representativo da nacionalidade. Oliveira Martins surpreendeu-o em acasos brilhantes do seu brilhantíssimo talento. Mas a compreensão total do grande Condestabre não a soube abranger o historiador, enevoada a sua inteligência pelas piores bastardias filosóficas. Um aspecto há, notável, no livro de Oliveira Martins. É aquele em que o carácter do herói se destaca como formado moralmente pela influência mística da Cavalaria nos seus votos permanentes de sacrifício e de castidade. Oliveira Martins subtraiu-se assim, pela visão do que fora a Idade Média, às ideias dominantes no seu tempo, que consideravam os fenómenos místicos, debaixo da influência intelectual de Charcot, como puras manifestações patológicas. De resto, a Vida de Nun`Álvares vale mais como subsídio para a biografia mental do seu autor do que propriamente como o estudo que Portugal deve ao extraordinário patrono da nossa independência.
Nas Crónicas, — na singeleza gótica das suas páginas, é que nós podemos sentir bem Nun`Álvares em toda a sua plenitude e em todo o alvoroço do seu coração de Cavaleiro e de Monge. É um compromisso de honra, cujo não cumprimento nos cobre a nós de vexame, redimirmos Nun`Álvares das falsificações literárias em que o seu nome se vê corrompido e corrompida a sua acção virtuosa e salvadora. Junqueiro, num panfleto que é desforra atávica da sua ascendência israelita contra a nossa disciplina católica e monárquica, serviu-se do Condestabre como braço de anátema que o ódio político do poeta precisava de armar na indignação retórica dos seus verbalismos truculentos. Depois, numa página vergonhosa, um outro homem de letras tentou reduzir a estatura do Condestabre à craveira deplorável dum impulsivo sem grandeza consciente, quando não dum doido acabado e simples.
Era este precisamente o ponto sobre o qual eu desejaria insistir, não só para lavar a memória de Nun`Álvares do sacrilégio que a pretendeu enxovalhar, mas para demonstrar como cientificamente as afirmações do senhor Júlio Dantas — é ao senhor Júlio Dantas que me refiro, — são erróneas e em todo indignas de quem conviva as coisa elevadas da inteligência. Sei que não é assunto para o debate rápido duma pequena nota. Mas enunciando-o, embora de leve, não fujo a declarar, a respeito do famoso libelo que uma fantasia censurável em quem se supõe fazer obra de história colocou na boca do Cardeal do Diabo durante o decurso da beatificação de Nun`Álvares, que ele não passa, o referido libelo, de um reflexo cabotino dos ensinamentos da Salpêtriere acerca do misticismo e da natureza das suas personificações. Ora o desenvolvimento dos estudos psicológicos modificou completamente as observações de Charcot. Ninguém como os místicos resolve e domina os conflitos da nossa vida moral, a que num livro recente, L`hérédo, com tanto vigor de expressão Léon Daudet chamou o «drama interior».
Inegavelmente, desde que a «terceira experiência» ou «experiência religiosa» foi instituída pelas necessidades indagadoras da própria psicologia, não é lícito já pensar-se acerca dos Santos como pensaria Mr. Homais alinhando os botões da sua botica em Ruão. William James abriu o caminho. E hoje já não tem conta os trabalhos que, sem preocupações apologéticas, nos ajudam debaixo dum exclusivo critério experimental, a aproximar os Santos, como realidades vivas, da concepção sobre-humana que neles nos apresenta a Teologia.
Nun`Álvares encontra-se psicologicamente dentro desse juízo sereno e reabilitador. Nem ele é o histérico, que um golpe de efeito sobre o público procurou inculcar como tal, nem a sua genealogia, por carregada de estigmas que se nos revelasse, constituiria motivo irremovível para uma condensação. Um médico ilustre, — o Dr. Ch. Fiessinger, — demonstra-nos que o inconsciente se educa e que a religião é precisamente o seu maior educador. A igual conclusão chegou igualmente Léon Daudet. De facto, nós não ignoramos que Santo Inácio de Loiola era um colérico, S. Francisco Xavier, um ambicioso, e o Povorello de Assis, um gastador. A disciplina religiosa interveio. E do colérico saiu o disciplinador admirável dos Exercícios Espirituais, do ambicioso o evangelizador das Índias e do gastador o esposo amorável da Senhora Pobreza, beijando as chagas dos leprosos e cantando ao Senhor Nosso Deus o louvor de todas as criaturas.
A Igreja exige para a canonização, mais que os milagres, o «exercício heróico» das virtudes cristãs. O «exercício heróico» das virtudes cristãs pressupõe a afirmação da vontade. Se os Santos realmente não passassem duma floração hospitalar, de degenerados, mordidos de raivas epilépticas e com hiatos frequentes de personalidade, a vontade desertá-los-ia, como abúlicos inevitáveis que seriam. Escuso de ressaltar, a unidade de vida e pensamento característica dos Santos, que são essencialmente gigantes da vontade. A Santidade é assim uma introspecção activa e constante do soi — como diria Daudet, sobre o moi, isto é, da parte deliberativa e consciente do nosso ser sobre o tumulto de instintos em que a nossa autonomia espiritual quase sempre naufraga.
Enganou-se, pois, o senhor Júlio Dantas, — e enganou-se, não só como escritor mas até como médico, ao assegurar a degenerescência de Nun`Álvares. A unidade da sua existência moral é comprovada pelo testemunho das Crónicas. O epiléptico não se descobre nele, porque a vontade no Condestabre é permanente e robusta. Há uma continuidade de acção e de pensamento em Nun`Álvares que nos enche de assombro e dissipa toda e qualquer suspeita de desequilíbrio. Violento e sanguinário? Mas eu inutilizo, logo que o senhor Júlio Dantas o deseje, a sua acusação? Então por ser casto? Mas hoje a medicina reconhece na castidade uma virtude higiénica. Talvez porque no desfiar dos anos se recolheu a um convento e vestiu a estamenha carmelita? Precisamente a isso responde a psicologia com a «terceira experiência», verificando no misticismo, quando superior, um poderoso desenvolvimento da nossa individualidade.
Muito gostaria de me alongar com o interesse que a questão legitimamente suscita. Raspando de sobre o Condestabre esse pingo de lama que, afinal, nem o salpicou, os meus votos são para que a Festa a Nun`Álvares se torne um dos objectivos mais ardentes do espírito patriótico. Adoremo-lo nos altares e aclamemo-lo nas praças! Nun`Álvares mostra-nos com a espada terminando na cruz que o patriotismo é uma virtude eminentemente cristã. Como cristãos não consintamos jamais que nos roubem o Condestabre, traindo-o e abastardando-o numa espécie de culto maçónico, tal como o que teima apagar Camões o poeta do renascimento católico, fiel à Igreja e ao sentimento ortodoxo emanado do concílio de Trento.
Juntemos os nossos esforços para que Nun`Álvares tenha o seu dia, — mas o seu dia como Santo e como Herói, não separando nunca as duas faces da sua alma admirável, que só se completam integradas uma na outra.

António Sardinha
In «Na feira dos mitos», cap. Nun`Álvares, 2.ª edição, Edições Gama, 1942, pp. 165/166/167/169/170.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Somos um povo livre

Somos um povo livre

via INCONFORMISTA.INFO de harms em 06/02/09
«Somos um povo livre, e somo-lo sem que em nada o Acaso, erguido em Deus supremo, nos haja inventado, nem o imprevisto as circunstâncias nos furtasse áquela incorporação fatalista que, com base logo nos motivos geográficos e étnicos, nos subalterniza à hegemonia governativa de Castela. Precisamente, a geografia e a antropologia, o Meio e a População, o Território e a Raça, nos tornam, tão longe que se possa remontar, uma realidade inconfundível por força dos mais antagónicos determinismos físicos e históricos.»

António Sardinha
in "O Território e a Raça".