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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O ESTUDO DAS ROCHAS

1 - DA OBSERVAÇÃO À VISTA DESARMADA, AO USO DO MICROSCÓPIO POLARIZANTE

DESDE o mais primitivo dos nossos antepassados que as rochas estão presentes na vida e, consequentemente, nas preocupações da humanidade. Basta pensar no sílex e na chamada pedra lascada, na argila usada em cerâmica, no cobre, no estanho, no ferro. O seu estudo motivou os alquimistas da Idade Média, mas só começou a ser abordado em termos científicos a partir do século XVIII e a começar pelas rochas magmáticas ou ígneas. Ler mais

MOGANGO DE COENTRADA (para 4 adultos ou a servir como entrada)

1 kg de mogango (a vulgaríssima abóbora cor de laranja que se vende em Lisboa)
3 cebolas
1 molho de coentros
4 dentes de alho
2 a 3 colheres de sopa de farinha de trigo sem fermento
1 dl de bom azeite
1 golada de vinagre
sal, para quem o utilizar.

Corte o mogango às fatias grossas e dê-lhe uma fervura muito leve. Faça uma cebolada abundante, em azeite, aromatizada de alho e coentro. Coloque parte desta cebolada no fundo da assadeira e, sobre ela, as fatias do mogango.

Regue o conjunto com um batido de água, vinagre, farinha e coentro picado, polvilhe a seu gosto, com pimenta, cubra com o resto da cebolada e leve ao forno.

Polvilhe com mais coentro, na hora de servir.

Acompanha fritadas de peixe, pataniscas ou pastéis de bacalhau.

VARIANTE
Substitua o mogango por cenouras cortadas às rodelas grossas.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

VULCANISTAS E PLUTONISTAS (Continuação)

VULCANISTAS E PLUTONISTAS (Continuação)

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 10/24/10

UM PIONEIRO DA ESCOLA vulcanista foi o francês Nicholas Desmarest (1725­-1815), a quem se deve trabalho inovador no referido Maciço Central. Coube a este geólogo o mérito de negar a combustão de carvões e betumes, no interior da crosta, como fonte de calor necessária às erupções vulcânicas, defendida pelos neptunistas, preferindo admitir que o basalto poderia resultar da fusão do granito, sem, contudo, explicar qual a fonte de calor para tal. Ao reconhecer no basalto uma lava antiga e ao afirmar que a erosão era, sobretudo, um trabalho dos rios ao nível das terras emersas e não uma acção do mar, como preconizavam os wernerianos, Desmarest dava um outro duro golpe na teoria neptunista. Leopold von Buch (1774-1853), discípulo de Werner que, com o seu mestre, foi um dos geólogos neptunistas mais ilustres do seu tempo, acabou também por se converter à origem vulcânica do basalto ao visitar os vulcões de Itália e ao observar, na Noruega e na Irlanda, um certo tipo de filões cortando e metamorfizando calcários fossilíferos. Ler mais

terça-feira, 19 de outubro de 2010

PURÉ DE MAÇÃ REINETA

PURÉ DE MAÇÃ REINETA

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 10/16/10
É uma confecção tão simples que, certamente, já outros a fizeram. Como nunca a vi feita ou escrita por outrem, aqui fica a receita sem pretensões de autoria.
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Como acompanhamento de carne assada:

Descasque apenas uma maçã, corte-a às fatias finas e coloque-as dentro de uma tigela que possa ir ao microondas.

Deixe cozer 3 a 4 minutos, retire e mexa bem com uma colher até ficar em puré e verta, depois, para um recipiente maior, de servir à mesa.
Repita a operação com uma segunda maçã e verta o respectivo puré no dito recipiente.
Faça outro tanto (sempre uma de cada vez) com as maçãs necessárias ao número e ao apetite dos seus convivas.

Tratar uma maçã de cada vez permite que o puré fique muito claro, levemente amarelado, com muito bom aspecto. O tempo necessário para descascar e fatiar meia dúzia de maçãs, de seguida, faz com que estas se oxidem e, assim, o puré fica escuro e com menor apresentação.

Como sobremesa:

Proceda de igual modo, tigela a tigela, polvilhando, de cada vez, com açúcar (sempre pouco e entre fatias) e aromatizando com um fio de vinho do Porto.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

AS PEDRAS E AS PALAVRAS

AS PEDRAS E AS PALAVRAS

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 9/26/10

Este texto, que é necessariamente longo, foi concebido e escrito a pensar nos professores que, nas nossas escolas básicas e secundárias, ensinam geologia e/ou matérias afins, sendo desejável que também os outros, seus colegas de outras áreas curriculares, o possam ler. Seria, pois, desejável que os eventuais leitores o pudessem reenviar a quem entendam que ele possa interessar.

O PIOR QUE SE PODE FAZER no ensino das rochas ou das pedras, como toda a gente lhes chama, é apresentá-las desinseridas dos respectivos contextos prático e cultural, precisamente os que têm mais probabilidades de permanecer na formação global do cidadão, em geral, e, naturalmente, também, dos estudantes. Ler mais

domingo, 26 de setembro de 2010

ARROZ DE BACALHAU, DE COENTRADA (para 4 adultos)

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 9/24/10

2 postas de bacalhau do lombo, previamente demolhadas
300 g de arroz
4 dentes de alho (ou mais, consoante o gosto de cada um)
1 decilitro de azeite de muito boa qualidade
1 molho grande de coentros
2 ovos cozidos
1,5 L de água
1/4 de pimento encarnado

Coza o bacalhau, limpe-o de peles e espinhas, lasque-o e reserve-o.
Na água da cozedura coza, de seguida, o arroz.
Entretanto, na batedeira ou num copo com a "varinha", faça um batido de azeite, com o alho e os coentros picados (só não aproveita a raiz). Se necessário, acrescente uma pequena golada de água da cozedura para ajudar a operação. O batido, que deve ficar oleoso e espesso, tem uma bela cor verde e aumenta substancialmente os aromas do alho e dos coentros, valorizando-os. Ler mais

E, AFINAL, O QUE SÃO AS ROCHAS?

E, AFINAL, O QUE SÃO AS ROCHAS?

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 9/19/10

A ATENÇÃO dada às rochas e a procura da sua utilidade percorreram uma caminhada tão longa quanto a do Homo sapiens, caminhada de que temos testemunhos na Pré-história e variadíssimos relatos escritos desde a Antiguidade.

Na sua gíria própria, entendível entre pares, os profissionais falam de rochas, dizendo que são sistemas químicos, mono ou polifásicos, resultantes do equilíbrio termodinâmico atingido pelos seus constituintes em determinados ambientes. Entendendo-se por constituintes os elementos químicos incluídos nos respectivos minerais. Por outras palavras, entendíveis pelo comum das gentes, pode, então, dizer-se que as rochas são corpos naturais formados por associações mais ou menos estáveis de minerais compatíveis entre si e com o ambiente onde foram gerados e que são elas, as rochas, que constituem a capa rígida da Terra que, por essa razão, recebeu o nome de litosfera. Ler mais

sábado, 18 de setembro de 2010

Discernimento mental

Discernimento mental

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 9/13/10
O "Bonifácio"(1)
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A MINHA PASSAGEM pela Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, como cadete do Curso de Oficiais Milicianos, não foi brilhante. Longe disso. Terminei o dito curso, em Fevereiro ou Março de 1953, em oitavo lugar…a contar do fim, num total de cento e vinte cadetes. Tive por comandante um coronel, que ficou célebre por ter silenciado, pelas armas, cerca de um milhar de trabalhadores das roças da então nossa ilha de São Tomé, de que era governador. Como consequência deste massacre, que a censura do Estado Novo procurou ocultar, os mais altos responsáveis militares transferiram-no para Vendas Novas como comandante da dita Escola Prática de Artilharia. Ler mais

“JUS DE FRUITS”

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 9/5/10
QUANDO, EM 1964, concluí o 3ème Cycle, em Sedimentologia, na Universidade de Paris, um grau académico equivalente ao nosso mestrado, com a orientação directa do professor André Cailleux, na capital francesa, e o apoio, à distância, dos professores Orlando Ribeiro e Carlos Teixeira, em Lisboa, oferecemos, a Isabel e eu, um pot aos nossos colegas e amigos do departamento de Geologia que me acolhera, como era hábito ali em idênticas situações. A tradição local nestas confraternizações passava sempre por umas garrafas de champagne e por aqueles incaracterísticos aperitivos ensacados, à venda no mercado. Ler mais

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

UMA QUESTÃO DE CULTURA

UMA QUESTÃO DE CULTURA

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 8/22/10
DURANTE OS TRABALHOS de feitura dos moldes das pegadas que antecederam a abertura dos túneis de Carenque, íamos almoçar num muito modesto estabelecimento da zona, meio-café, meio-restaurante, onde se comia um saboroso bacalhau com massa de cotovelo e feijão frade, numa confecção muito semelhante a uma muito frequente no rancho no meu tempo de serviço militar, em Artilharia 3, em Évora. Ler mais

SAUDADES DE GOA

SAUDADES DE GOA

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 8/29/10
A GEOMORFOLOGIA é uma disciplina fundamental entre as licenciaturas do ensino universitário na área das Ciências da Terra, tendo por objecto o estudo das formas de relevo terrestres. Explica-nos porque há praias nuns sítios e arribas rochosas noutros, porque é que a serra de Sintra surge como um relevo isolado acima das terras aplanadas que a rodeiam ou porque é a Ria Formosa uma área de marismas. A configuração das montanhas, o escavamento dos vales pela erosão dos rios ou dos glaciares, o porquê das planícies de inundação, como é o caso do nosso Ribatejo, aqui, ou do Bangladesh, lá longe, são preocupações da Geomorfologia. Nela se aprende a relacionar a paisagem de uma dada região com o tipo das rochas que a constituem, com o clima aí reinante e, consequentemente, com a vegetação que eventualmente a cubra. Uma paisagem em terrenos de xisto é diferente de uma outra moldada em fragas de granito. Há particularidades que as distinguem. Às colinas suaves e arredondadas pela erosão nos campos xistentos do Baixo Alentejo, estendendo-se numa quase planura, opõem-se formas mais vigorosas e alcantiladas nas vertentes graníticas de certas áreas montanhosas do norte do país. Longas cristas alinhadas no terreno e eriçadas de cumes pontiagudos são a expressão da existência de rochas muito duras e estratificadas, como é o caso dos quartzitos, de que há belos exemplos, entre nós, desde a serra de Alcaria Ruiva, no Alentejo, à de la Culebra, perto de Rio de Onor, no nordeste Transmontano, passando pelas Portas de Rodão, pelos Penedos de Góis e por muitas outras serranias da mesma natureza. Ler mais

quarta-feira, 14 de julho de 2010

MESTRE JOÃO COXO

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 7/11/10

Fotografia de Pedro Tavares, no BLOG OLHARES, 2009
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QUANDO, NO ALENTEJO, se dizia sopas de carne, queria, sobretudo, acentuar-se que não eram de peixe nem de azeite. Nesse tempo, nos montes e nas aldeias, carne fresca só a de porco, nos meses da matança, em geral, pelo inverno, ou a de borrego, pela Páscoa. Frangos e galinhas quase todos tinham no quintal ou em liberdade, no campo, em redor da casa, e lá se matava um destes animais em dia de festa ou como dieta de gente acamada. Ler mais

terça-feira, 15 de junho de 2010

A FALHA GEOLÓGICA DE ALQUEVA

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 6/13/10
LI HÁ DIAS que a barragem de Alqueva estava cheia até mais não. Sempre me interessei por este empreendimento e, nessa medida, acompanhei, com toda a atenção, a polémica em torno da existência de uma falha geológica mesmo sob o paredão da represa. Na opinião de muito boa gente, esta obra imensa representa o mais recente e talvez o mais grandioso e esperançoso abraço entre o Alentejo e o grande rio. Esperemos que os inconfessáveis interesses de alguns não estraguem as esperanças dos que aqui vivem e dos que, por todo o Portugal, esperam que este empreendimento contribua para levantar a economia do País.

Segundo um estudo encomendado, em 1996, pela Empresa de Desenvolvimento da Infra-Estrutura de Alqueva (EDIA) e levado a efeito por investigadores do Instituto de Ciência Aplicada e Tecnologia, de Évora, a barragem do Alqueva assenta numa falha sísmica com indícios de actividade, correndo o risco de ser destruída se ocorrer um sismo de magnitude máxima, de 6,1 na escala de Richter, prevista para esta falha. O estudo admite, ainda, que, na ocorrência de um abalo desta magnitude, a rotura à superfície do terreno originaria um deslocamento na ordem dos 20 a 30 centímetros, ao longo de sete quilómetros de extensão, o que seria suficiente para destruir a barragem.

Reagindo à divulgação deste estudo, a EDIA insistia na segurança da barragem, reafirmando que a referida falha não tem actividade sísmica, no que era corroborada por outros dois estudos elaborados na mesma altura, um pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil e outro por Lloyd Cluff, investigador norte-americano da Universidade da Califórnia. Nestes termos, a EDIA decidiu manter a construção da barragem no local para onde fora projectada. Como resposta a esta decisão, o Prof. Alexandre Araújo, da Universidade de Évora, defendia que a prudência aconselhava a deslocação da barragem, entre 100 a 200 metros para jusante do local onde estava e acabou por ser construída. Tal deslocação não aconteceu porque, na altura, as obras já tinham sido iniciadas. Segundo este investigador a referida deslocação seria suficiente porque, assim, a falha não passaria debaixo do respectivo paredão. Perante a eventualidade de um sismo da referida magnitude, a estrutura poderia abanar, mas não seria destruída. Alexandre Araújo lembrou, ainda, que o facto de se criar ali uma grande albufeira, esta poderá desencadear um efeito catalizador, uma vez que o peso da coluna de água irá aumentar a pressão sobre o terreno, e que a presença de tanta água poderá lubrificar as fracturas, provocando aquilo a que se dá o nome de sismicidade induzida.

Ao que indicam os estudos realizados, o intervalo de recorrência entre dois sismos máximos desencadeados por esta falha parece ser muito largo, na ordem dos 10 mil anos, mas a realidade é que se desconhece quando ocorreu o último abalo. O próximo, argumentava-se na altura, tanto pode ser amanhã, como daqui a mil anos.

A falha geológica do Alqueva foi descoberta na década de 70, no decorrer de um estudo geológico efectuado aquando do projecto inicial da barragem. Mas, ao que parece, não mereceu qualquer atenção por parte de quem tinha capacidade para decidir. Como resultado, houve uma significativa derrapagem nos custos da construção deste empreendimento - falava-se em 3 000 000 de contos, 15 000 000 de euros, na moeda actual - uma vez que foi necessário consolidar a referida falha com muito mais trabalho e muitos milhares de metros cúbicos de betão.

sábado, 12 de junho de 2010

VENDINHA, UMA ALDEIA DO ALENTEJO

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 6/6/10
O MEU DIÁRIO não é contínuo como o nome parece sugerir. É espaçado. É mais um somatório de lembranças de acontecimentos que, por uma razão ou por outra, resolvi registar na ocasião. É um desses registos que decidi encolher nos cerca de oito mil caracteres de espaço acordado para esta edição do JL.

Entre Évora e Reguengos de Monsaraz, a Vendinha era, há meio século, uma aldeia com muita gente pobre amarrada às fainas agrícolas sempre eventuais e precárias. Os dias sem trabalho somavam-se ao longo dos meses, e as contas, no livro dos fiados, na venda do Ti Zé Calado, cresciam, na esperança solidária de que a ceifa ou a apanha da azeitona saldassem ou, pelo menos, reduzissem os atrasados.

Servindo ao mesmo tempo de taberna, como, aliás, ainda é regra, este estabelecimento era frequentado pelas mulheres e raparigas, quase só para as compras necessárias ao governo da casa, das mercearias, às drogarias e aos precisos para as costuras caseiras. Pelos homens, a venda era frequentada ao fim da tarde, ao serão e ao Domingo todo o dia, para conviverem, cantando, comendo e bebendo. Sardinhas fritas, linguiças e farinheiras assadas num prato com aguardente, queijo e muito pão, comido à navalha, faziam lastro ao branco e ao tinto, segundo o gosto de cada um. Muitos deles jogavam ao corno. Este jogo de azar, de braço dado com a bebida, dizimava a magra féria de uns tantos, para grande arrelia das mulheres e constantes discórdias entre casais.

As famílias mais desafogadas, uma meia dúzia se tanto, eram, por isso, consideradas ricas. Era tudo gente de bem, simples e solidária. Nesses anos, no seio desta pequena comunidade, todos os vendinhenses, os pobres e os tais ditos ricos, se ajudavam entre si. Todos se tratavam por igual e a única diferença estava nas idades de cada um. Os mais velhos tratavam a todos por tu e recebiam, dos mais novos, o "vossemecê" que lhes era devido. Neste cenário rural havia, ainda, os seareiros, lavradores sem terra própria, mas que a alugavam a quem a tinha para nela semearem, sobretudo, trigo. Os grandes senhores da terra não viviam ali. Tinham por lá os feitores, nas suas herdades, mas residiam na cidade e um deles, até, em Lisboa. Frequentavam o Grémio da Lavoura, em Évora, e ali tratavam dos seus negócios, bem como no Café Arcada, às terças-feiras.

Não é surpresa para ninguém que a religiosidade dos alentejanos fica muito aquém da dos seus irmãos do Centro e Norte do país. Do mesmo modo, deixa muito a desejar a veneração que dispensam à figura do padre. Anos muito duros na vida dos camponeses desta vasta região do sul, mostraram-lhes que a Igreja e a generalidade dos seus ministros sempre estiveram mais do lado daqueles que os exploravam e oprimiam. A pequena propriedade rural e a notória religiosidade das gentes das Beiras, do Minho e de Trás-os-Montes sempre iam abastecendo a despensa do pároco com tudo o que a terra dá, do azeite ao vinho, da galinha ao cestinho com ovos, das batatas e das couves à fruta, da broa aos bolos e ao anho, pela Páscoa, proporcionando-lhe uma vida bem mais confortável do que a dos poucos padres resignados a permanecer nas aldeias do Alentejo. Isto numa visão que, diria, estatística, porque excepções sempre as houve. Serve esta reflexão para dar sentido a um dos episódios mais inesperados que me foi dado presenciar.

Num desses anos fui convidado para assistir às festas em honra de São Vicente do Pigeiro, o taumaturgo português cuja imagem se encontra na pequena igreja matriz local, de finais do século XVI. Cheguei à aldeia na véspera, ao fim de um dia de muito calor, e fiquei hóspede de um dos "meus compadres". A alvorada do grande dia foi assinalada pela chegada da banda, vinda de Montoito, contratada pelos festeiros. Tocando e marchando, com o mestre à frente, os músicos percorriam as ruas principais, detendo-se, por momentos, frente à Junta de Freguesia e à Casa do Povo. Seguiam-se, depois, os cumprimentos às famílias tidas por mais importantes, os tais ditos ricos, onde, como era costume, havia sempre um "mata-bicho" à sua espera. Em frente de cada uma destas residências, a banda parava, interpretava uma curta peça, finda a qual os seus elementos eram convidados a entrar e a regalar-se com bolos caseiros, vinho doce ou aguardente. Cumprida esta primeira fase das cerimónias e eventos programados, o povo começava a debandar a caminho da igreja matriz, a uns quilómetros de distância da aldeia. Eles a pé, nos seus fatos escuros, domingueiros, meio cobertos pelo pó do caminho, e elas sentadas em cadeirinhas, em cima de carros puxados por parelhas de mulas. Esperava-os a procissão da bênção às searas seguida da missa, a única a que assistiam por ano. De acordo com os termos apalavrados, a banda abrilhantava a procissão, logo a seguir ao padre e ao andor do orago. Com o povo atrás, a pequena imagem, em madeira dourada, de São Vicente do Pigeiro, levada ao ombro dos homens mais destacados da freguesia, percorria um dado itinerário por entre o restolho ressequido de um campo de trigo já ceifado, e regressava ao seu altar para a celebração da santa eucaristia em sua honra.

À missa assistiam, sobretudo, mulheres e raparigas. As crianças ficavam a brincar, correndo em volta da igreja, e os homens concentravam-se no adro, confraternizando frente a uma banca de comes e bebes, ali improvisada pelos festeiros com o fim de conseguirem mais alguns fundos para a festa. Foram, assim, passando o tempo à espera que o padre subisse ao púlpito. A prédica era a parte da missa que melhor entendiam. Ao sinal de um rapaz, mandado estar atento ao começo da dita, entraram no templo, de chapéu na mão, silenciosos e em postura de muito respeito, permanecendo à entrada, junto à porta. Porta que transpunham sempre que se enfadassem ou lhes apertasse a sede.

A Vendinha não tinha padre e, como em anos anteriores, era preciso ir buscá-lo a Montoito. Mas, naquele ano, o pároco desta aldeia vizinha não era o mesmo a quem estavam habituados, pelo que tiveram de se haver com um desconhecido. A curiosidade de o ouvir e conhecer era, pois, grande. Com música de Bach, de permeio, tocada por dois ou três dos metais da banda, a cerimónia decorreu normalmente até ao momento em que o celebrante iniciou o sermão. Aí, do alto da sua importância face ao rebanho a seus pés, em vez da prédica que o povo esperava, o pastor teve a infeliz e mal pensada ideia de, num discurso muito fundamentalista e desagradável, comentar as roupas de algumas das raparigas e a sua falta de pudor, ao vestirem-nas, mandando sair da igreja aquelas cujos decotes e cavas, segundo ele, ofendiam a Deus e à Virgem. Indignadas por um tamanho atrevimento, estas e as suas mães não se contiveram, começando a invectivá-lo, de baixo para cima, e ele a responder-lhes, na mesma moeda, de cima para baixo. Os ânimos exaltaram-se, as imprecações subiram de tom, de parte a parte, e os homens aproximaram-se em defesa das suas mulheres e filhas. Nesta peleja de palavras, uma das mães desabafava, para quem quisesse ouvir.

- Estive eu a fazer o vestido à rapariga, para ela estrear hoje, e o estupor do padre a mandá-la sair da igreja!? Padreca de merda! Nunca mais cá põe o cu!

Recuando na sua intransigência e amainados os ânimos, o celebrante lá conseguiu dar por finda a missa. A caminho da aldeia, as conversas do pessoal, ainda acaloradas, tinham por mote o insólito acontecimento. Durante a tarde, em pleno arraial, ainda se ouviam, aqui e ali, relatos da ocorrência. Nunca o padre, que ninguém mais viu, sonhou as rodas de "filho dum…" e de "filho duma…" que lhe foram dirigidas, à distância e ainda a quente, pelo pacato povo da Vendinha.
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Publicado no Jornal de Letras de 2 Jun 10

quarta-feira, 2 de junho de 2010

TORCER SEM QUEBRAR

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 5/30/10
QUEM TENHA O HÁBITO de olhar as rochas no campo reparou, certamente, que muitas vezes os estratos das rochas sedimentares ou metamórficas se apresentam dobrados e enrugados, exibindo aspectos diversos, mais ou menos afastados do que foi o seu modo de jazida original, isto é, sobrepostos horizontalmente. Observou, ainda, que certas rochas se apresentam finamente laminadas segundo planos paralelos, assumindo xistosidade, um tipo particular de laminação independente da inclinação das camadas, mas que reflecte a direcção do esforço compressivo a que estiveram sujeitas.

Para quem não está preparado, estas ocorrências não deixam de ser intrigantes, sobretudo, habituados que estamos a considerar as rochas como materiais rígidos, quebradiços, e que, como tal, teríamos tendência a considerar indeformáveis, em termos de plasticidade e maleabilidade.

Numa série sedimentar, a forma, a disposição e as relações entre os estratos, isto é, as estruturas observáveis no terreno, resultam dos próprios processos que lhes deram origem e, ou são contemporâneas da formação de cada unidade, ou são consequência de acções posteriores que as deformaram. No caso particular das rochas sedimentares, a reconstituição da estrutura original é facilitada, pois a estratificação é, em princípio, inicialmente plana e horizontal. Além desta condição, estas rochas possuem, geralmente, fósseis e outros elementos, cuja forma original é conhecida, permitindo medir o valor de eventuais deformações sofridas. A deformação das rochas nas cadeias de montanhas resulta, sobretudo, das pressões e das temperaturas que se fazem sentir no interior da crosta onde são geradas, mas ainda, em parte, da natureza dessas rochas. Por exemplo, nos níveis mais superficiais da crosta, uma camada argilosa, relativamente plástica, reage a esses factores de modo diferente do de uma camada de calcário compacto ou de quartzito, dois tipos de rocha de acentuada rigidez. O aumento da pressão litostática e da temperatura com a profundidade, além de promoverem o metamorfismo, transformam os materiais rígidos em outros cada vez mais plásticos (dúcteis), a ponto de fluírem como um líquido muito viscoso, situação que antecede a sua transformação num magma. O tempo é ainda um factor determinante nestes processos extremamente lentos, que necessitam de dezenas e até de centenas de milhões de anos para se consumarem.

Nas rochas que, pela sua natureza e pelas pressões e temperaturas a que estiveram sujeitas, apresentam comportamento quebradiço, a deformação manifesta-se apenas pela existência de numerosos planos de ruptura, ou falhas. Pode, neste caso, falar-se de deformação descontínua, sendo o cisalhamento o principal mecanismo.

A partir de uma certa profundidade, as rochas começam a adquirir plasticidade (ductilidade), ou seja, passam a ter capacidade de se deformar sem sofrer fracturação, levando ao aparecimento de dobras. Nestas condições, os estratos adquirem curvaturas mais ou menos acentuadas, sem que haja variação sensível da sua espessura ao longo dos diferentes sectores da dobra. Num estádio mais evoluído da deformação, em condições termodinâmicas correspondentes a maiores profundidades, onde a ductilidade é já suficientemente grande, as rochas, de um modo geral, sofrem um achatamento generalizado, segundo uma direcção perpendicular à do esforço máximo a que são sujeitas. Deste modo, as rochas argilosas adquirem xistosidade e as dobras ficam com espessuras diferentes, mais delgadas nos flancos do que nas charneiras. Em condições extremas de pressão e temperatura, correspondentes a grandes profundidades, as rochas comportam-se como fluidos viscosos, originando um tipo de dobras bastante diferente das anteriores, designadas por dobras de fluência.

A deformação não é a mesma em todos os pontos de uma cadeia montanhosa, o que se comprova pelo facto de exibirem zonas intensamente deformadas passando, gradualmente, a outras, onde esse efeito não se faz sentir. As correspondentes estruturas são tão variadas quanto as pressões e temperaturas que as criaram e quantos os tipos de rocha ali representados. Assim, nas cadeias orogénicas é possível distinguir vários domínios ou níveis estruturais, escalonados consoante as profundidades a que se deram as respectivas deformações. No nível estrutural superior a deformação faz-se, essencialmente, por fracturação, que tem lugar nas zonas mais superficiais da crosta sob pressões litostáticas muito fracas ou, mesmo, nulas. Apenas as rochas muito plásticas (argilitos e evaporitos) chegam a dobrar. É o domínio das falhas ou das fracturas e de outros tipos menores de rupturas (fissuras). No nível estrutural médio predomina a flexão; os materiais apresentam comportamento dúctil. É o domínio ou zona das dobras concêntricas, frequentemente acompanhadas de fracturação e de fendas de expansão no bordo convexo das dobras. No nível estrutural inferior, muito vasto e podendo atingir espessuras de 20 a 30km, predomina o achatamento, evidenciado pela xistosidade, nas zonas mais elevadas. Abaixo destas faz-se sentir a fluência e, finalmente, a anatexia, isto é, a fusão dos materiais e consequente magmatismo que conduz à formação dos granitos e rochas afins.

(In "COMO BOLA COLORIDA – A Terra, Património da Humanidade", Âncora Editora, Lisboa, 2007).

quinta-feira, 13 de maio de 2010

DINOSSAURO versus DINOSSÁURIO


via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 5/9/10
"Aramosaurus", na Pedreira do Galinha, Fátima
(escultura do Arqº. Martins Barata)
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SEM SER MEU PROPÓSITO, os dinossáurios entraram na minha vida, tarde, mas em força, potenciados por uma série de acasos ocorridos ao longo dos anos em que assumi a direcção do Museu Nacional de História Natural. As descobertas de importantes jazidas com pegadas de dinossáurios no território nacional e as lutas cívicas em que me envolvi pela sua salvaguarda e valorização foram as causas desta minha relação com os grandes bichos.

A partir dessa altura confrontei-me com duas expressões ou duas grafias para o mesmo tipo de animais, durante muito tempo tidos como seres do passado e hoje renascidos, na medida em que os zoológos e os palentólogos consideram as aves como a sua continuação no tempo presente. Os dinossáurios não desapareceram todos. A sua memória está hoje no nosso quotidiano, nos museus e no cinema, onde atraem multidões; estão na televisão, nos livros de divulgação e na banda desenhada; estão nos peluches e em muitos dos brinquedos; estão na nossa imaginação e, ainda, bem reais, voando no céu, cantando no galho de um jacarandá, correndo pelos campos ou vegetando aos milhões, prisioneiros dos desumanizados aviários da sociedade de consumo.

A utilização do seu nome é hoje, como nunca, uma presença no nosso dia a dia, umas vezes sob a forma dinossáurio, outras sob a forma dinossauro.

Têm razão os filólogos, como José Pedro Machado, no «Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa» ou Cândido de Figueiredo, no «Dicionário da Língua Portuguesa», quando usam a grafia dinossauro, retirando-a do grego deinos (terrível, medonho) e sauros (lagarto, réptil), pois que de filologia quem sabe são os estudiosos da dita. Têm igualmente razão os naturalistas, quando, na taxonomia e na nomenclatura zoológica e paleontológica dizem, e escrevem dinossáurio. Com efeito, quando em 1841, Richard Owen, professor de anatomia comparada e primeiro director do Museu de História Natural de Londres, criou o termo cientifico Dinosauria, pretendeu aludir ao facto de as grandes ossadas, então recém-descobertas, terem características reptilianas, como se de enormes e aterradores lagartos se tratassem e, daí, os elementos gregos de composição erudita, supracitados. Dinossáurio é a grafia usada na Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e no Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa do clássico António de Morais.

Insignes estudiosos na paleontologia destes animais nacionais e estrangeiros (escrevendo em português) usam desde sempre a grafia dinossáurio. Entre eles destacam-se Jacinto Pedro Gomes, em finais do século XIX, Georges Zbyszewski e Carlos Teixeira, a meados do século XX e, pelos seus continuadores. Dinossáurio é ainda a versão utilizada pelos nossos vizinhos espanhóis, tanto pelos cultores da ciência como pelos defensores da língua.

Se existem, como parecem existir, razões linguísticas para preferir o termo dinossauro, não é menos verdade que há regras da nomenclatura científica a respeitar e, então, prevalece o termo dinossáurio.

Entre muitos que dizem e escrevem dinossauro, são certamente muito poucos os que o fazem por razões de erudição filológica. A razão do uso desta versão está, sobretudo relacionada com a forma mais imediata da tradução do inglês ou do francês, em qualquer destas línguas dinosaur.

Além disso, quer escrevendo, quer falando, dinossáurio representa um esforço maior. A grafia que os naturalistas preferem tem mais um i e mais um acento agudo no a. A articulação da palavra exige um esforço maior ao colocarmos um i antes do o final. Não devemos esquecer que os dicionários não têm força de lei, até porque os delitos não constam do código penal, e quem faz a língua é quem a usa.

Atento a estas duas realidades, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, editado em 2001, aceita as duas versões. Assim, que cada um diga e escreva como quiser, mas que fique sabendo que o termo defendido pelos filólogos não é mais legítimo do que aquele que usam os naturalistas.
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(In "FORA DE PORTAS - Memórias e Reflexões", Âncora Editora, Lisboa, 2008)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

SUPORTES MATERIAIS DA CIVILIZAÇÃO

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 4/11/10
COM EXCEPÇÃO dos poucos minerais resultantes da actividade de alguns seres vivos, como são, por exemplo, a calcite e o quartzo de muitas rochas sedimentares, a imensa maioria teve origem muito antes da aparição da vida sobre a Terra. Formados durante a diferenciação do planeta e alguns, ainda mais velhos, do tempo do nascimento do Sistema Solar, há 4570 milhões de anos, os minerais já aqui estavam, como que à nossa espera. Coube ao génio humano o mérito de os descobrir e de lhes dar utilidade.

Se recuarmos aos primórdios da Humanidade, vemos os nossos antepassados em busca do sílex, um material quase exclusivamente formado por quartzo microcristalino. Muito duro e fácil de lascar, na obtenção de pontas e arestas cortantes, esta rocha constituiu uma das primeiras matérias-primas minerais com que estes nossos avós "fabricaram" machados, facas, pontas de seta e outros utensílios que marcaram o começo das civilizações. Vemo-los ainda recolher o ocre vermelho (hematite), o ocre amarelo (limonite) e outros minerais corados que usaram nas pinturas rupestres que nos deixaram em Lascaux e Altamira. Vamos observá-los a minerar o ouro, o cobre (na calcopirite) e o estanho (na cassiterite) que souberam caldear em bronze. Observamo-los, depois, a produzir ferro a partir dos seus óxidos naturais, como a hematite e a magnetite. Vemo-los a utilizar a argila na feitura de cerâmicas e, mais tarde ainda, a transformar a areia de quartzo em vidro. De então para cá, os minerais fazem parte da vida do Homem, na escolha dos locais onde se instalaram, no artesanato e, mais tarde, na indústria, no comércio e, até, na guerra.

Muitos minerais assumem formas cristalinas, cores e brilhos que lhes conferem enorme beleza, sendo alvo de grande interesse por parte de museus e coleccionadores. Um tal interesse, desenvolvido, sobretudo, a partir do século XVIII, tem vindo, nas últimas décadas, a assegurar uma actividade especializada de oferta e procura, à escala mundial, que chegou ao nosso país em 1989, com a primeira Feira de Minerais, Gemas e Fósseis, realizada no Museu Nacional de História Natural, a caminho da sua 24ª edição.

Entre as mais de 3500 espécies minerais conhecidas, umas são curiosidades com interesse científico, outras são comuns, abundantes e até banais na nossa relação diária com a Natureza. Entre elas, algumas têm hoje grande valor económico como matérias-primas essenciais à sociedade. São os minérios de ferro, de cobre, de alumínio, de tungsténio (volfrâmio), de enxofre, de arsénio, entre os muitos que exploramos. Desde o machado de sílex das civilizações mais primitivas, às modernas tecnologias, o Homem não deixou de procurar, conhecer, explorar e utilizar os minerais. É dos minerais que se extraem os metais e se fabricam numerosos tipos de ligas metálicas. Metais e ligas metálicas estão nas nossas casas, nos talheres, no filamento das lâmpadas e nos cabos eléctricos, no frigorífico, no fogão, no forno de microondas, no rádio, no telefone e na televisão, no computador e no automóvel, nas ferramentas, nas agulhas de coser, na joalharia, etc., etc.

Outros produtos essenciais à civilização têm nos minerais a única fonte. Basta que citemos a cal, o cimento e o gesso, as cantarias, as calçadas e as britas, os vidros, as faianças e as porcelanas, sem esquecer o cloreto de sódio, o ácido sulfúrico, os boratos, os fosfatos e os nitratos. Nos minerais assentam ainda indústrias como as do papel, dos plásticos e das borrachas, das tintas, dos fertilizantes, dos detergentes e sabões, dos medicamentos e dos cosméticos. Pode, pois, afirmar-se, sem receio de faltar à verdade, que os minerais constituem as matérias-primas basilares da civilização, desde a Pré-história aos dias de hoje.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

SAL-GEMA

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 4/4/10
A PALAVRA sal foi-nos deixada pelos romanos (sal, salis), que tanto a empregavam para designar o produto material extraído por evaporação da água do mar, como para aludir, em sentido figurado, à vivacidade, à finura cáustica, ao espírito picante, ao bom gosto, à inteligência. E foi assim, com estes dois sentidos, que sal entrou na nossa linguagem quotidiana, da menos à mais erudita. Tal não aconteceu com o termo equivalente halós, dos gregos, cuja passagem pela Península, muito anterior, não teve nem a duração nem a importância da ocupação romana. Apenas no jargão científico e tecnológico dispomos de vocábulos construídos com base no étimo grego. Diz-se que um solo é halomórfico quando salgado, que um organismo é halofílico quando suporta bem a presença de sal e designa-se por halogenetos o conjunto dos minerais salinos, entre os quais a halite, o mineral essencial do sal-gema.

Em química, sal é um composto resultante da interacção de um ácido com uma base, ou da acção de um ácido sobre um metal. Cloretos, sulfatos, iodetos, fosfatos, etc. são sais. Porém, todos eles necessitam de um qualificativo que os distinga dos restantes, como são, por exemplo, o sal amargo (cloreto de magnésio), o sal de fósforo (fosfato de sódio e amónia) e muitos outros. Só o cloreto de sódio dispensa esse cuidado, bastando-lhe a palavra sal dita ou escrita isoladamente. É este o constituinte quer do sal marinho, ou sal de cozinha, produzido em salinas (marinhas) à beira-mar, quer do sal-gema, extraído das entranhas da Terra.

A halite ocorre em pequenos cubos, transparentes e incolores. Pode, no entanto, apresentar-se cinzenta, amarelada ou avermelhada, devido à presença de impurezas, como matéria orgânica e óxidos de ferro.

São conhecidas ocorrências de sal-gema em todos os tempos, dos mais antigos aos mais modernos, em todos os continentes. Amplamente explorado, é considerado uma entre as mais importantes matérias-primas que alimentam a moderna indústria química, a par do petróleo e do enxofre. Considerado o georrecurso de mais longo e variado uso pela Humanidade, o sal-gema determinou a localização de núcleos populacionais no interior dos continentes, onde dificilmente chegava o sal marinho. Salzburgo, na Áustria, é disso um exemplo.

Em Portugal, o sal-gema surge na base do Jurássico em ocorrências que testemunham a existência de um cordão de lagunas litorais formadas há cerca de 200 milhões de anos, sob um clima quente e muito seco. São particularmente importantes as explorações de Torres Vedras e de Loulé. A primeira, em Matacães, realiza-se dissolvendo o sal por injecção de água no corpo salino, sendo a salmoura (água + sal) recolhida e enviada, por pipeline, até às instalações fabris na Póvoa de Santa Iria, através de um percurso de mais de cinquenta quilómetros. Em Loulé, o sal é explorado "a seco", em mina subterrânea. Com vários quilómetros de galerias, amplas e desprovidas de humidade, a mais de 230m de profundidade, esta mina oferece óptimas condições ambientais aos asmáticos que ali buscam alívio. Loulé tem reservas para milhares de anos de laboração e o sal, que ali se extrai, é dirigido à indústria química de Estarreja.

Na Fonte da Bica, em Rio Maior, há poços de água salgada abertos em terrenos ricos em sal-gema. Esta água é lançada em tanques (talhos) e aí evaporada, precipitando o sal, num processo que vem desde tempos imemoriais. A repartição desta salmoura pelos salineiros locais obedece a um regime tradicional, escrupulosamente respeitado, conhecido desde o século XII.

Entre nós, a exploração de sal-gema está muito aquém das nossas disponibilidades nesta matéria-prima. Tal é devido à grande qualidade do sal produzido nas nossas marinhas e também à importação deste produto ditada pelas regras do mercado internacional.

SEDIMENTOLOGIA E ROCHAS SEDIMENTARES

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 3/28/10
A SEDIMENTOLOGIA, como a definiu H. A. Wadell, em 1932, é o estudo científico dos sedimentos, quer dos depositados e litificados, quer dos que se encontram em deposição temporária, quer ainda dos que se mantêm em trânsito. Como disciplina especializada, a Sedimentologia teve início na década de 40 do século passado, afirmando-se como uma das mais importantes das Ciências da Terra, desenvolvendo tecnologias e metodologias adequadas ao estudo das rochas sedimentares, desde a sua génese (sedimentogénese) e eventuais transformações (diagénese), à respectiva localização no espaço e no tempo, em estreita associação com a Paleontologia, a Estratigrafia e a Geocronologia e, ainda, à sua utilização como georrecursos.

"A Sedimentologia justifica-se pelo leque de aplicações práticas em que pode ser envolvida", escreveu, em 2003, o Prof. Soares de Carvalho, da Universidade do Minho. Para nos darmos conta da oportunidade desta afirmação basta pensar no interesse posto na prospecção, exploração e usos industriais dos combustíveis fósseis, dos calcários, das areias e argilas, do sal-gema e, ainda, nas suas aplicações em hidrogeologia, geologia do ambiente, geologia de engenharia e em problemas inerentes ao ordenamento do território.
Sedimentologia é, pois, outra maneira de dizer Petrologia Sedimentar, expressão que se não deve confundir com Petrografia Sedimentar, uma vez que petrografia é o estudo das rochas, visando a sua descrição, identificação e classificação, e petrologia, mais abrangente, é a ciência das rochas, na sua globalidade, incluindo a interpretação dos processos genéticos.

Terrae adquae Solis filiae, expressão latina que quer dizer "as filhas da Terra e do Sol", é uma maneira alegórica de referir as rochas sedimentares. Na mesma alegoria, pode dizer-se que, fecundada pela radiação solar, indutora dos processos geodinâmicos e biológicos próprios da sua capa externa, a mãe Terra dá nascimento às rochas sedimentares, outra categoria das suas criações. As rochas sedimentares trazem consigo não só as marcas dos seus progenitores, mas também as das condições ambientais em que foram geradas e, muitas delas, ainda, a data do seu nascimento.

As rochas sedimentares no seu todo, desde as mais recentes, incoesas e móveis (como as areias) às mais antigas, compactadas e consolidadas, são consequência de um conjunto de condições próprias e originais da superfície do nosso Planeta. São elas: 1) uma atmosfera oxidante (a partir de uma certa altura) e, em grande parte, húmida, particularmente agressiva para os minerais das rochas aflorantes; 2) uma hidrosfera que promove não só a alteração química das rochas, mas também a erosão, o transporte e a deposição dos sedimentos; 3) a distância a que se encontra do Sol, permitindo-lhe o fluxo de energia radiante necessária e suficiente aos processos inerentes à sua formação e que também lhe assegura a Vida nos mais variados ambientes da sua superfície.

Sem atmosfera, hidrosfera e biosfera não se teriam formado os sedimentos e as rochas sedimentares que, por todo o lado, nos rodeiam. Na ausência destas geosferas, a superfície terrestre estaria, à semelhança da Lua, reduzida a uma capa de rególito, isto é, de poeiras e fragmentos rochosos resultantes dos impactes meteoríticos ocorridos ao longo de milhares de milhões de anos. Face a esta realidade, a Sedimentologia não pode deixar de ser entendida como uma disciplina fundamental no âmbito das ciências geológicas.

As rochas sedimentares representam um conjunto particular de produtos naturais gerados na parte mais externa da crosta terrestre e, portanto, nas condições de pressão e temperatura próprias da superfície, ocupando uma posição bem delimitada no ciclo das rochas. Consumindo, sobretudo, energia solar, a sedimentogénese é aceite como uma das expressões da geodinâmica externa, a par da erosão do relevo, da formação dos solos e do aparecimento e manutenção da Vida. Geradas na interface da litosfera com as atmosfera, hidrosfera e biosfera, as rochas sedimentares são essencialmente constituídas por um, dois ou três dos seguintes componentes fundamentais: 1) terrígenos, herdados por via detrítica de outras rochas preexistentes; 2) quimiogénicos, resultantes da precipitação de substâncias dissolvidas nas águas; e 3) biogénicos, quer edificados por alguns organismos em vida, quer acumulados detriticamente a partir de restos esqueléticos, após a morte dos respectivos seres.

Se, em termos de volume, as rochas sedimentares representam apenas 5% do volume da crosta terrestre (contra 95% das rochas ígneas e metamórficas), tal é devido ao conceito implícito no respectivo qualificativo. Porém, tendo em conta que a grande maioria das rochas metamórficas como xistos, metagrauvaques, mármores, quartzitos e outras, são materiais litológicos transformados a partir de rochas sedimentares preexistentes, aquela cifra aumenta substancialmente. Aumenta ainda mais se nos lembrarmos que a maior parte dos granitos e rochas afins resultaram da fusão parcial (anatexia) de rochas sedimentares e metamórficas. Em termos de área exposta, as rochas sedimentares perfazem cerca de 75% das terras emersas e cobrem a maior parte dos fundos marinhos, embora neste domínio a sua espessura seja ínfima, se comparada aos milhares de metros das acumulações integradas na arquitectura da crosta continental, isto é, nos continentes, incluindo as margens continentais submersas.

(In: "Geologia Sedimentar", Volume II, Âncora Editora, 2005)

quarta-feira, 31 de março de 2010

LISBOA – PARIS no SUD-EXPRESS

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 3/21/10
A MEIO DE UM ESTÁGIO CIENTÍFICO de três anos, em Paris, mais precisamente no verão de 1963, viemos, eu e a Isabel, gozar um mês de vacances com a família. O regresso à capital dos franceses, fizemo-lo, um mês depois, no Sud-express. Com saída de Santa Apolónia, cerca do meio-dia, chegava à Gare d'Austerlitz pelas dezoito horas do dia seguinte. Aguardavam-nos trinta intermináveis horas de "pouca-terra" e imensos silvos sonoros, durante a noite, ao longo do vasto planalto de Castela-a-Velha e dos profundos vales e escarpados dos Cantábricos.

Pouco comum para a época, o dia começara e ia manter-se chuvoso e ventoso, o que me impedia de cumprir o que tanto gostei desde criança – fazer quilómetros e quilómetros debruçado numa das janelas do corredor, sentir a velocidade e o vento e apreciar a extensão do comboio sempre que as curvas tinham a concavidade do meu lado.

Acomodados num compartimento de primeira classe, em outra companhia que não fossem um adequado farnel e uns livros para matar o tempo, tínhamos a confortar-nos o prazer de regressar ao trabalho que ali desenvolvíamos.

Num outro compartimento da mesma carruagem viajava – soubemo-lo porque ele próprio no-lo fez saber – um agente da Polícia Internacional de Defesa do Estado, mais conhecida pelo acrónimo PIDE. Nesse tempo era regra que o percurso ferroviário entre Lisboa, Vilar Formoso e vice-versa, fosse acompanhado por um funcionário desta odiada instituição que juntamente com a censura constituíam o suporte musculado de um poder ilegítimo que nos asfixiava e amesquinhava aos olhos do mundo esclarecido. Era sua função verificar passaportes e, certamente, proceder a outras acções de vigilância política dos passageiros.

Passados uns minutos da partida, o tempo suficiente para colocar as malas nos incómodos e altos alojamentos destinados ao arrumo da bagagem, o agente da Pide surgiu-nos à porta do compartimento ainda aberto. Depois de um respeitoso Boa tarde, e de mostrar a identificação, pediu-nos os passaportes. O meu era um documento oficial, de capa vermelha, que o distinguia do dos comuns dos passageiros, passado pela mesma polícia que o credenciava, e isso deve-lhe ter dado o ar cordial com que estabeleceu um primeiro e curto diálogo.

-Irei convosco até à fronteira. Até lá tenho de verificar a documentação dos passageiros. Há dias em que quase não tenho tempo de fazer todo o trabalho, tantos são os emigrantes. Amanhã regresso no Sud e faço trabalho semelhante com os que entram. Não se gasta tempo nem nas partidas nem nas chegadas. Estou no compartimento ao lado, se necessitarem de algo, façam favor de dizer – e retirou-se.

Com gabinete improvisado num dos compartimentos da primeira classe, o agente começava por percorrer todo o comboio, recolhendo os passaportes dos viajantes com destino ao estrangeiro. Instalava-se, depois, no seu compartimento e, um a um, verificava todos aqueles documentos, entre os quais não era raro aparecerem algumas contrafacções. Organizações à margem da lei arranjavam passaportes falsos para perseguidos políticos, emigrantes clandestinos ou para as famílias daqueles que já se haviam fixado nos locais onde trabalhavam.

A meio da tarde, estávamos nós no corredor da carruagem, olhando o temporal através dos vidros, o agente aproximou-se, trazendo consigo meio aberto, na mão, um passaporte e, num tom quase familiar comentou.

- Só uma extrema ignorância faz com que alguém pague uma fortuna por uma coisa desta que se vê logo que é falsa. É a capa, é o papel, são as letras. É tudo falso! Acabei de o receber das mãos de uma passageira. Carregada de cestos e sacos e ainda por cima doente, vai, assim, sozinha para França, onde tem o marido e o único filho. E dá-me isto para as mãos, ingenuamente, na ilusão de que tudo está em ordem.

Deu-nos, então, aquele passaporte a ver. De facto, não passava de um caderninho mal acabado, que não deixava dúvidas quanto à sua origem fraudulenta e de péssima qualidade. As únicas verdades ali presentes eram o nome da portadora e a sua fotografia.

- O que é que eu posso fazer com isto? Prendo-a? De prender gostava eu os criminosos sem escrúpulos que roubam estas desgraçadas. Se fecho os olhos e a deixo passar, corre o risco de ser presa na fronteira com a França e ser recambiada sabe Deus em que condições.

- Talvez não – ripostei, na intenção de o encorajar, acrescentando: - De todas as vezes que tenho entrado em França, saindo de Espanha, da Bélgica ou da Alemanha, eles nem olham para o passaporte.

- Pois é – respondeu com ar de manifesta preocupação. - Mas se der para o torto, também eu fico em maus lençóis.

Antes da Guarda começámos a sentir um desacelerar brusco e contínuo da marcha e, por fim, a travagem em pleno campo. Foi uma sorte. Podíamos ter descarrilado. A espera que se seguiu, mais de duas horas, até que o piquete de desobstrução da linha concluísse o trabalho, permitiu que falássemos um pouco mais com o agente. Um fortíssimo silvo atravessou a noite chuvosa. Seguiu-se-lhe o chiar das carruagens no arranque da marcha.

- Ainda tenho montes de papelada para arrumar e passaportes para entregar antes de chagarmos à fronteira – despediu-se, agradecendo a atenção que lhe havíamos dado.

Parados em Vilar Formoso e à janela sobre a gare, vimos o agente sair do comboio acompanhado de uma mulher de pequena estatura, magra, de aspecto cansado, aparentando uns cinquenta e muitos anos. Ele virou-se para nós e, com um jeito de cabeça, indicou-nos ser aquela a passageira do tal passaporte falsificado.

Não mais os vimos. O Sud entrou em Espanha onde o percurso se fez durante a noite. O céu limpara e a noite, de breu, permitia a visão de miríades de estrelas, tantas que, aqui e ali, mais pareciam partículas de uma poeira iluminada. Golpes de vento traziam até nós o matraquear da máquina, ainda a vapor, sobrepondo-se ao "pouca-terra", "pouca-terra" dos rodados da nossa carruagem sobre os carris.

Procurando recuperar o atraso, todo o percurso no planalto de Castela foi feito na máxima velocidade. Em Hendaia o Sud francês não esperaria por nós. Ao romper da manhã, numa curtíssima paragem numa gare perdida na imensidão desértica da paisagem, pudemos saborear os bocadillos de jamon acompanhados de café com leite a escaldar, servidos em grandes copos de vidro. Dois longos apitos do comboio e a voz do revisor, pondo termo a esta que foi a última paragem, retomámos os nossos lugares para vencer a etapa que nos levaria à Europa democrática.

À entrada em Hendaia ninguém se interessou pelos nossos passaportes, confirmando o que eu dissera ao agente. Depois seguiu-se uma viagem mais veloz, menos ruidosa. Reabrimos o farnel e esperámos pacientemente pela chegada a Paris, o que aconteceu à hora e ao minuto previstos, como já então era apanágio dos Caminhos-de-Ferro franceses. Aí, no meio da enorme confusão de gente que descia do comboio, de malas, cestos e sacos à portuguesa, e dos muitos familiares aguardando na gare, vimos a mulher do passaporte falsificado, tralha no chão, sorridente, abraçada aos seus homens.

(In: "Fora de Portas - Memórias e Reflexões", Âncora Editora, 2008)