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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

1235.º LUGAR NA CLASSIFICAÇAO NACIONAL

1235.º LUGAR NA CLASSIFICAÇAO NACIONAL

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 11/5/08
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DURANTE A LONGA E ÁRDUA CAMPANHA que conduzi em defesa da jazida com pegadas de dinossáurios de Pego Longo, na vizinhança de Carenque, localizada no fundo de uma pedreira abandonada, a servir de lixeira, contei, entre outros, com o grande e empenhado apoio da então Escola Preparatória e Secundária (C+S) de Queluz, a funcionar, desde 1985, em instalações provisórias, "a dois passos" desta importante jazida.
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O bom relacionamento que estabeleci com os professores desta escola levou a que estes, sem nada me dizerem, acordassem fazer de mim o seu patrono. Comunicaram esta sua escolha à Câmara Municipal de Sintra, em cuja área concelhia ela se situa, e esta autarquia, por sua vez, transmitiu essa pretensão à Secretaria de Estado da Administração Educativa. Na sequência deste processo, o Diário da República de 21 de Maio de 1999 (2ª série) publicava o Despacho nº 10 091/99, daquela Secretaria de Estado, no qual se determinava que esta escola passava a chamar-se Escola Básica 2,3 Professor Galopim de Carvalho. Os anos que se seguiram têm sido marcados por uma colaboração permanente e dela nasceram, entre outras realizações, belas e participadas exposições, algumas centradas na temática dinossáurios, e o Geoclube, dinamizado inicialmente por meia dúzia de alunos (que agora são já uma vintena) enquadrados por uma professora, com actividades nos domínios da mineralogia, da paleontologia e da geologia, entre as quais merece destaque a organização de um minimuseu ao serviço da escola. Acompanhante de muito perto e colaborador em algumas destas actividades, verifico, com preocupação crescente, que a carga burocrática que, nos últimos dois anos, se abateu sobre esta escola, à semelhança do que é notório e alarmante por todo o Pais, ameaça ferir de morte muitas destas voluntariosas acções, uma responsabilidade que terá de ser imputada a alguém.
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Esta escola, nas suas actuais, novíssimas, óptimas e belas instalações, inauguradas em 2001, continua a servir uma população maioritariamente constituída por famílias oriundas das ex-colónias, cidadãos que a nossa sociedade acolheu e explora mas aos quais não proporcionou condições mínimas de integração. De um estrato sociocultural baixo a muito baixo, muitas destas famílias vivem situações difíceis e complexas, sendo pouco ou nenhum o apoio que dão ao papel da escola na formação dos seus filhos.
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Neste cenário, a grande maioria dos alunos não tem hábitos de estudo nem motivação para a vida escolar, além de que manifesta uma deficiente formação pessoal e cívica, condições que se reflectem no ambiente de trabalho na sala de aula, sendo fraco o seu rendimento e frequentes os actos de indisciplina, violência e roubo.
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Nestas condições, e acrescidos os factos da superlotação da escola e da notória falta de pessoal auxiliar, classifico de Muito Bom este modesto 1235.º lugar, na avaliação das nossas escolas. E isso deve-se ao esforço, à dedicação e à coragem de um punhado de docentes e auxiliares que fazem desta escola a sua casa e destas crianças e adolescentes os seus filhos de adopção.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

DIAMANTES

DIAMANTES

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 11/3/08
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ESPÉCIE MINERAL CONSTITUÍDA POR CARBONO, frequentemente com impurezas de azoto, é a substância mais dura que se conhece na natureza. Esta qualidade e a sua muita resistência química conferem-lhe grande durabilidade, o que o tornou matéria-prima em inúmeras aplicações industriais. O seu nome, vindo da Antiguidade, radica no grego, adamans, que quer dizer indestrutível. Por outro lado, as suas características ópticas, com destaque para a transparência, o brilho e a dispersão da luz, fazem deste mineral uma das pedras preciosas mais procuradas e de mais alta cotação no mercado joalheiro. Geralmente incolor, ocorre, muitas vezes, em tons de amarelo e castanho claro, (no caso das gemas de maior circulação) e, muito raramente, em laranja, rosa, verde, azul e vermelho, tendo, nestes casos, a designação comercial de fancy, atingindo os mais altos preços. Gerado no interior da Terra, a grande profundidade, na ordem de 150 a 200 km, por vezes a quase 700 km, em rochas próprias desses ambientes (muito quentes e a grandes pressões), como são os eclogitos e os peridotitos, ascende, à superfície da crosta, em chaminés vulcânicas, como acontece na África do Sul, no Canadá ou na Austrália. Devido às suas grandes dureza e resistência química, sobrevive aos processos de alteração e erosão das rochas onde se encontra incluído, acabando por se libertar e concentrar em depósitos detríticos de areias e cascalho (placers) fluviais ou marinhos.
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A sua utilização como gema consome cerca de 20% da lavra, cifrada em mais de 160 milhões de quilates/ano (um quilate equivale a 0,2g). Além das variedades com interesse gemológico, há duas variedades, em agregados terrosos – o bort e o carbonado – com interesse nas indústrias de abrasivos e de equipamentos de corte e de perfuração.
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O grande valor desta espécie mineral, quer como gema quer como matéria-prima em muitas outras indústrias, levou à produção de diamantes sintéticos. Hoje vulgarizada, esta actividade, desenvolveu-se a partir dos anos 50 do século XX, datando de 1953 a produção do primeiro diamante artificial, por Henri Moisson, em Paris. Produzem-se anualmente mais de 100 toneladas de diamante sintético maioritariamente para a indústria, registando-se, no mercado, um número crescente de pedras com qualidade gemológica, quer incolores, quer em cores vivas.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O GRANDE RIO DO SUL

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 10/30/08
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Guadiana em Mértola. In: www.tripadvisor.com
NAQUELE ANO DE 1961 o director do meu departamento, na Faculdade de Ciências, mandou-me acompanhar um seu colega francês, da Universidade de Reims, a realizar trabalho de campo na região de Mértola. Tive, assim, oportunidade de percorrer o Guadiana em alguns dos seus mais belos troços, hoje submersos, e isso encorajou-me a conhecê-lo de outros ângulos que não os da geologia.
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"Dizem que havia um pastor antre Tejo e Odiana, que era perdido de amor per ua moça Joana", escreveu, no século XVI, Bernardim Ribeiro, na Écloga de Jano e Franco.
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Grande rio do sudoeste ibérico, de importância capital na estruturação do território peninsular, o Guadiana foi usado pelos Romanos como divisória entre duas das grandes províncias administrativas do império, a Bética, a oriente, e a Lusitânia, a poente, confrontadas ao longo do troço que hoje corre a jusante do Caia. Rio designado, até ao século VIII, por Ana, os Árabes respeitaram-lhe o nome, antepondo-lhe uadi, que significa rio, o mesmo elemento composicional que nos ficou nas designações de alguns cursos de água no sul do país, como Odeleite, Odemira e outros mais, termo que está igualmente em uso nos uedes do noroeste africano, os vales secos correspondentes aos rios temporários característicos das terras semiáridas do Magrebe.
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Uadiana ou Odiana foi o nome deste importante curso de água, eixo do al Garb al Andalus, expressão que, em árabe, quer dizer o ocidente da Hispânia, ou seja, grosso modo, a Andaluzia, hoje na Espanha, o Alentejo e o Algarve. Odiana sobreviveu à reconquista, no século XIII, e assim se manteve, por mais três centenas de anos, na linguagem dos portugueses. Antre Tejo e Odiana era o nome da grande comarca e da circunscrição administrativa meridionais, ao tempo em que este rio foi fronteira entre os reinos de Portugal e de Leão. Por seu lado, os castelhanos transformaram o uadi, radicado na região ao longo de cinco séculos de ocupação islâmica, em guadi, elemento que ainda hoje compõe o nome de muitos rios do sul de Espanha, como Guadalimar, Guadalupe, Guadojoz e, o mais conhecido de todos, o grande Guadalquivir. Guadiana é, assim, um nome importado que se impôs em virtude da sua posição raiana e que substituiu o antigo Odiana, influência que não se verificou com os nomes Odeleite, Odiáxere e outros com a mesma raiz, correspondentes a rios mais afastados da influência castelhana.
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Desde sempre, como qualquer grande rio, o Guadiana foi pólo de atracção das populações. Os mais antigos testemunhos datam do Paleolítico, representado por abundantes utensílios em pedra lascada jacentes nos seus terraços. Tal atracção percorreu toda a Pré-história e os tempos históricos até aos nossos dias, sendo de assinalar, entre outros, os vestígios da ocupação romana, deixados nas minas de pirite de S. Domingos, a presença islâmica, hoje bem conhecida em Mértola, os vários castelos e praças fortes edificados nas suas margens e cercanias, o porto mineraleiro do Pomarão e as muitas dezenas de açudes construídos no seu leito a fim de lhe represarem as águas e, com isso, mover as respectivas azenhas.
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Na continuidade da relação do Homem com a terra, temos hoje a barragem de Alqueva, obra imensa que representa, para muitos, o mais recente e talvez o mais grandioso e esperançoso abraço entre o Alentejo e o grande rio. Assim os inconfessáveis interesses de alguns não estraguem as esperanças desses muitos.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Núcleo museológico do Alto de São Bento

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 8/25/08
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Núcleo museológico do Alto de São Bento, em Évora

DOIS ANOS DEPOIS DA CONQUISTA DE ÉVORA, em 1165, por Geraldo Geraldes, o Sem Pavor, e do foral que lhe foi dado por D. Afonso Henriques, erguia-se, a 2 km da cidade, no sopé de uma colina, uma pequena ermida dedicada a São Bento, italiano nascido no ano de 480, em Núrsia, fundador do monaquismo ocidental e criador da ordem religiosa que alude ao seu nome - a Ordem Beneditina. Um século mais tarde, sobre esta ermida nascia o convento cisterciense de São Bento de Castris, uma das mais antigas instituições religiosas femininas e, oito séculos depois, no cimo do cabeço, ali ao lado, o Núcleo Museológico do Alto de São Bento.
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Numa tradição vinda dos avós, muitas famílias de Évora comiam o "assado" neste cabeço arborizado e fresco onde, há mais de 3000 anos, existiu um castro da Idade do Ferro. Reminiscência pagã, a anunciar a primavera, esta romaria popular, no dia a seguir ao Domingo de Páscoa, ou seja, na Segunda-feira de Festa, como ainda por lá se diz, não tinha deuses nem santos. Para mim e para os que ali confraternizavam, São Bento era apenas o nome de uma colina de granito com três ou quatro moinhos abandonados e em ruína. Logo pela manhã eram muitos os que partiam rumo a São Bento, uns a pé, outros em carroças carregadas de cestos, garrafões, mantas e cadeirinhas, para ali se instalarem o dia todo, à sombra de uma azinheira ou de um sobreiro. Seguras com pedras, para que o vento as não levantasse, as toalhas brancas eram mostruários das muitas e variadas confecções ao dispor e regalo da família e de um ou outro que passasse e fizesse boca para mais um copo. Mas havia sempre uma iguaria comum a todas, própria desse dia. Era o dito assado, ou seja, a perna de borrego tostadinha, com batatinhas novas e muita cebola, em assadeira de barro queimada do forno de lenha.
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Os meus pais não apreciavam estas festanças de comezainas, com muito pó, muitas moscas e bebedeiras à mistura. Mas eu sempre gostei e muitas foram as vezes em que, adolescente, ali passei esse dia de feriado municipal, saltando de chaparro em chaparro ou, o que é o mesmo, de toalha em toalha, saboreando o que de muito bom por lá havia. Nesses anos não me passava pela cabeça que, meio século mais tarde, assinava, em 1999 e em nome do Museu Nacional de História Natural (MNHN), um protocolo com a Câmara Municipal de Évora, visando a classificação do Alto de São Bento como património natural a defender e valorizar. Era presidente da autarquia o Dr. Abílio Fernandes, um goês que fez história, pelas boas razões, na governação autárquica e que a vivência entre alentejanos fez dele mais um e dos bons.
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No desenvolvimento do projecto educativo levado a efeito pela Divisão de Educação da Câmara Municipal de Évora, "A Escola adopta um Monumento", e na sequência do citado protocolo, a autarquia decidiu criar o "Núcleo Museológico do Alto de São Bento", com particular incidência nos seus aspectos naturais. Em apoio desta vertente, a Câmara mandou restaurar dois velhos moinhos para servirem de centros de actividades experimentais e de documentação, um para a geologia e mineralogia e outro para a florística. Com um monitor e uma educadora, em permanência, todos os dias há ali alunos das escolas do concelho a aprenderem coisas da natureza e a respirarem ar puro. Neste projecto a autarquia contou, ainda, com o apoio do Departamento de Ecologia da Universidade de Évora.
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Em Setembro de 2007 o Núcleo Museológico do Alto de São Bento foi galardoado com o Prémio Nacional de Boas Práticas Locais Para o Desenvolvimento Sustentável, na categoria "Sociocultural", promovido pela Direcção-Geral das Autarquias, em articulação com o Centro de Estudos sobre Cidades e Vilas Sustentáveis e a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.
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Espera-se que, no futuro, o Alto de São Bento fique mais valorizado pelo restauro de um dos moinhos ainda em ruína, restituindo-lhe a capacidade para moer cereal nos moldes que ditaram a sua localização nesta colina. A ruína de um outro moinho será brevemente recuperada para recepção e loja, estando ainda previstos um centro experimental de ciência, uma cafetaria e um pequeno anfiteatro ao ar livre. Os principais pontos de observação do cimo rochoso de colina estão já assinalados com marcas cravadas na rocha com as devidas referências em painéis explicativos ali colocados.

sábado, 23 de agosto de 2008

O “milagre das couves”

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 8/21/08
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Imagem obtida [aqui]
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NO TEMPO EM QUE FUI CRIANÇA E ADOLESCENTE, os castigos corporais, longe de serem considerados crime, como hoje, felizmente, acontece, eram perfeitamente tolerados pela sociedade e até vistos, por muitos cidadãos respeitáveis, como a forma mais eficaz de educação.
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Era o par de açoites à criancinha, por causa da sopa rejeitada ou como castigo pelas mais diversas diabruras. Eram as reguadas e orelhadas, na escola primária, usadas como estímulo pedagógico, e o sonoro estalo na cara, dado pelo reitor do liceu, como o melhor garante da boa disciplina. Era o pontapé no cu do recruta que não conseguia acertar o passo na formatura de espingarda ao ombro. Era a bordoada de criar bicho, no interior da esquadra da polícia ou no posto da GNR, para não falar das sevícias infringidas pela Pide aos comunistas e demais opositores do regime dos Doutores Salazar e Caetano.
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Dos menos aos mais violentos, os castigos corporais estiveram na ordem do dia das nossas vidas. Sopapos, nalgadas, chineladas (dadas com o chinelo), bofetadas, cascudos, torcegões de orelhas e outros mimos do género, convenhamos que suaves, fizeram parte do meu aprender a ser gente. A menina-de-cinco-olhos, o cavalo-marinho e o cinto do pai foram expressões correntes usadas como ameaças nunca cumpridas. Sova, surra, coça e tareia eram vocábulos cedo aprendidos. Felizmente, não senti, na carne, certas modalidades correctivas, cujos nomes, só de os ouvir, desencorajavam muitas das asneiras a que se é tentado nesses anos de preparação para a vida adulta.
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A ameaça do cinto do pai não impediu que o Vasco, um primo por afinidade, na altura um rapaz nos seus treze ou catorze anos, tivesse cometido uma daquelas tolices de bradar aos Céus, como era costume dizer. Logo ali castigado pela mãe com um vigoroso par de tabefes, prometeu-lhe esta que teria de se haver com o pai, quando ele chegasse a casa, à hora do jantar.
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Bem dito, bem feito. Ao fim da tarde, a mãe do Vasco, ainda muito acalorada pelo comportamento do filho, relatou ao marido, na presença do rapaz, a asneira cometida por ele. O semblante do homem ia-se carregando, à medida que ouvia o desenrolar do acontecido, ao mesmo tempo que o do meu primo denunciava a expectativa do correspondente castigo.
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Ouvido o relato, nos seus pormenores, seguiu-se aquilo que o Vasco já conhecia de experiência própria. O desapertar do cinto e o sair deste, lento e ameaçador, das presilhas das calças. O passo seguinte, bem interiorizado por ele, era debruçar-se sobre a mesa e oferecer a retaguarda à acção correctiva que o esperava. Aos primeiros açoites, milagre! Grossas folhas de lombarda começaram a despontar das pernas dos calções do rapaz, acabando por cair no chão.
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Na verdade, não houve aqui nada de equiparável ao que se passou com a nossa Rainha-santa Isabel que, à pergunta intimidatória de D. Diniz, seu esposo, respondeu, graciosa e segura:
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- São rosas, Senhor!
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O que se passou foi que, conhecedor deste tipo de castigo, o Vasco tinha-se prevenido. Assim, nessa tarde fora à horta e enchumaçara o traseiro com as folhas da dita crucífera.


segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Vida para lá da Terra

Vida para lá da Terra

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 8/14/08
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TÉCNICOS E CIENTISTAS DA NASA e muitos cidadãos deste mundo estão suspensos dos resultados das análises em curso, pela Phoenix, na superfície de Marte. A recente comprovação da existência de água no solo marciano fez renascer o interesse pela procura de indícios de vida presente ou passada, por mais simples que possa ser, através da presença de substâncias associáveis à actividade biológica.
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São muitos os estudiosos ao mais alto grau do saber científico que aceitam a vida como uma consequência inevitável da evolução natural da matéria no Universo. Como se se tratasse de um destino, às partículas subatómicas primordiais seguiram-se os átomos e, só depois, as moléculas, começando pelas mais simples, a que se sucederam, progressivamente, as mais complexas com capacidade de se reproduzirem. Basta que se reúnam as condições necessárias, ela surje. Foi o que aconteceu aqui, no "planeta azul", com o nascimento de seres muito primitivos, à semelhança das arqueobactérias. A evolução que se seguiu, numa interacção permanente e ao longo de 3800 a 4000 milhões de anos, entre as sucessivas formas de vida, o ar, a água e as próprias rochas, conduziu à biodiversidade actual, cujo expoente de maior complexidade é, sem dúvida, o cérebro humano. Para surgir onde isso lhe é permitido, a vida só precisa de esperar que a matéria cumpra o seu "destino", e, nessa espera, a enormidade do tempo consumido tem uma dimensão que ultrapassa a nossa capacidade de o abarcar. Nada nos diz, pois, que não possa haver vida no "planeta vermelho", tão velho como este seu vizinho que é o nosso. E quem diz em Marte, diz em outro qualquer corpo planetário exterior ao Sistema Solar.
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São já muitos os chamados exoplanetas, associados a outras estrelas da Galáxia (Via Láctea), referenciados por diversos astrónomos. Este conhecimento, cientificamente comprovado em relação com estrelas relativamente próximas, permite extrapolar esta certeza à totalidade das estrelas do céu, as que vemos e as que nem os mais potentes telescópios conseguem ver, a milhares de milhões de anos de luz de distância, num número da ordem dos 10^22 (cerca de cem mil milhões de galáxias com cerca de cem mil milhões de estrelas, em média, cada uma)
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Com um número tão descomunal é de admitir razoável probabilidade de existirem estrelas com um sistema planetário no qual um planeta tem com ela a mesma relação de massa e distância que caracteriza a relação da Terra com o Sol. Uma tal relação determinou os níveis de temperatura favoráveis à presença significativa de água no estado líquido, tida por berço da vida que conhecemos.
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Neste enquadramento cósmico, de que ainda não conhecemos o fim, a existência de planetas nos quais se desenvolveram civilizações tanto ou mais avançadas do que a nossa não é, de todo, impossível. As incomensuráveis distâncias (milhares de milhões de anos-luz) que nos separam é o grande factor que impede a confirmação deste raciocínio logicamente correcto.

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«DN» de 13 de Agosto de 2008

O Café Arcada

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 8/18/08
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COM UM VASTÍSSIMO ESPAÇO, aberto sob as arcadas da Praça do Geraldo, o café cujo nome nelas se inspirou, nasceu para o público eborense da classe média, nos anos 40 do século passado. Com linhas muito modernas, um sem número de mesas, muitos criados e música ao vivo nas tardes de Domingo, assegurada por uma pequena orquestra, ao estilo de café-concerto, enchia-se até à porta, onde ficavam muitos dos que esperavam uma possibilidade para entrar. Por oito tostões (0,04 euros), nas ditas tardes de Domingo, mandava vir um "garoto" e, na companhia do meu irmão Mário e de mais três ou quatro amigos, à roda de uma mesa redonda, ouvíamos as músicas mais em voga, jogávamos à batalha naval e conversávamos. Só nessas tardes musicais era aceite, sem reparos, a presença das senhoras e das filhas adolescentes, desde que acompanhadas dos respectivos maridos e pais. No resto do tempo, o "Arcada" era espaço dos homens. De manhã dava assento e convívio a uns tantos reformados e a alguns ociosos com gente a trabalhar por sua conta. Depois do almoço, tomava-se ali a bica na companhia dos amigos, fazendo tempo de voltar ao emprego e, depois do jantar, enchia-se com todos aqueles que quisessem conviver fora de casa, sempre muitos nesse tempo, enquanto as mulheres ficavam a lavar a loiça, a costurar e a cuidar dos filhos.
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Às terças-feiras, o grande café, transformado em bolsa de valores e em câmara de comércio, fervilhava de homens ligados à lavoura. Neste formigueiro de gente, entre produtores, compradores e intermediários, transaccionava-se toda a cortiça de um montado, a azeitona de um olival ou uma vara de porcos, alugava-se uma debulhadora ou uma porção de hectares de terra para fazer uma seara de pão. Também por ali andava um ou outro agiota, cuja presença era providencial no fecho de muitas transacções. Combinavam-se preços, datas e taxas de juros e os negócios eram fechados, sem papéis, com apertos de mão. Na grande maioria, estes homens conviviam bem com o regime político de então mas, entre eles, havia um muito pequeno número de donos de terras, cuja ideologia social e política apontava noutras direcções, e isso fazia com que, também no meio desta pequena multidão, andassem por ali, vendo e ouvindo, alguns informadores da Pide.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

GESSEIRA DE SANTANA

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 8/7/08
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Agregado cristalino de gesso
HÁ CERCA DE 200 MILHÕES DE ANOS, no começo do Jurássico, com os continentes norte-americano e eurasiático ainda não separados pelo Oceano Atlântico, braços de mar pouco profundos, vindos de sul, invadiram partes do que são hoje as nossas margens ocidental e meridional. Nas lagunas aí formadas e sob um clima quente e seco, teve lugar intensa e prolongada evaporação das águas marinhas que aí entravam permanentemente. Essa evaporação, à semelhança das salinas artificiais, deu origem a grandes espessuras de sais com destaque para o gesso e o sal-gema. O gesso é a matéria-prima do pó branco, com o mesmo nome, que todos conhecemos, usado em estuques e moldes diversos; o sal-gema é, praticamente, o mesmo cloreto de sódio do sal de cozinha. A região onde hoje se situa Sesimbra fez parte deste rosário de lagunas e, aqui, as condições ambientais de então foram favoráveis à precipitação de gesso, ao contrário de outras, nas quais predomina o sal-gema, como é, por exemplo, a região de Loulé, no Algarve.
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A gesseira de Santana, desactivada e abandonada desde os anos 60, é uma ocorrência única no concelho de Sesimbra, representativa deste remoto episódio, desenvolvido ao longo de milhões de anos, com interesse não só local como regional e global. Constitui, em nosso entender, um georrecurso cultural, com o valor de um geomonumento, com óptima localização e fácil acesso, que urge preservar, valorizar, fruir e legar aos vindouros. A sua salvaguarda e competente musealização permitirão uma conveniente e resguardada acessibilidade dos cidadãos ao conhecimento da história geológica da região, proporcionando-lhes uma relação mais próxima com o ambiente natural. Por outro lado, a gesseira de Santana representou, num passado recente, uma actividade económica importante para o concelho, em termos de indústria extractiva, devendo também, por via desta memória, merecer a nossa atenção como património cultural dos sesimbrenses.
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A proposta de musealização deste sítio, apresentada por mim, na qualidade de director do Museu Nacional de História Natural, à Câmara de Sesimbra, há quase dez anos (03.11.1998) continua a aguardar uma resposta por parte da autarquia. Extremamente simples, com custos mínimos e uma total disponibilidade por parte do proprietário do terreno, a musealização da gesseira de Santana resume-se à definição de uma pequena área de protecção e à colocação de um painel explicativo. Numa época em que os Parques geológicos e a musealização de geossítios surgem por toda a Europa e em que o geoturismo cresce de ano para ano, não se entende, como este concelho, riquíssimo neste tipo de património natural, continue a ignorar e desperdiçar toda a colaboração que lhe temos vindo a oferecer, graciosamente, acentue-se. Entre a Lagoa de Albufeira e a Serra da Arrábida, duas pérolas paisagísticas, recheadas de ensinamentos sobre a nossa história mais antiga, são muitos os sítios a integrar num itinerário onde o turismo da natureza vai de mãos dadas com o outro turismo – o que procura o património construído, o gastronómico, o etnográfico, o desportivo, ou, simplesmente, a praia.
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Publicado no «DN» de 26 de Julho de 2008

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

As papas da Avó Isabel

via sorumbático by noreply@blogger.com (A. M. Galopim de Carvalho) on 8/4/08
Por A. M. Galopim de Carvalho
A CASA DA MINHA AVÓ, na rua de Frei Brás, em Évora, já não existe. Tenho ideia que era o nº 30. No seu lugar, está lá outra. Eu nasci nessa rua, mas um pouco mais acima, no nº 24. Nessa casa, eu e o meu irmão Mário passámos muito do nosso tempo de crianças. Ali brincámos, aí nos zangámos e voltámos a brincar, vezes sem conta. Ali comemos e dormimos muitos dias e muitas noites, fruindo a doçura e a paciência da mãe da minha mãe, que assim procurava aliviar esta filha da carga dos cinco netos que lhe dera.
Entre as muitas recordações desse tempo, a meados dos anos trinta, do século que acabou de virar, mantenho bem vivas as papas da minha avó Isabel. Feitas com farinha de trigo, que ela própria passava na peneira de seda, de malha mais fina, são um manjar de recordações que se libertam à mistura com os aromas da canela e da casquinha do limão.
Ao aspirar-lhes o perfume, vêm-me à memória o cheiro a barro do ladrilho regado, um expediente contra o calor do Verão, ou o conforto da lareira nos dias de Inverno, onde ela as fazia, numa sertã de asa comprida, sobre uma trempe de ferro aconchegada ao braseiro. Vejo as cortinas das janelas com pavões em croché e duas grandes oleogravuras polícromas, pendendo da parede, uma evocando a implantação da República, outra, a travessia do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Vejo, ainda, o poial dos cântaros e o nicho na parede caiada, que lhe servia de aparador, e onde estava o copo da água sempre coberto por um naperão bordado. Oiço a sua voz doce, o crepitar da lenha e o chiar da água a abrir fervura na cafeteira e, ainda, o outro chiar, quando, misturado e mexido o café, lhe metia dentro a brasinha que lhe baixava a borra.
Tão simples quanto boas, as papas da minha avó não levavam leite. Além da farinha, faziam-se com água, uma colherzinha de banha de porco, "para dar sustento", açúcar e uma casquinha de limão, tudo ao lume, mexendo sempre, no mesmo sentido, com a colher de pau, até engrossarem. Estavam prontas logo que a libertação do vapor, vencendo a viscosidade da mistura, começava a fazer bolhas espessas e sonoras.
- Já estão a dar bufas! – exclamava eu, logo que as via borbulhar, lentas e grossas.
Nessa altura a avó arredava-as do lume e misturava-lhes o açúcar amarelo, que era o que então se usava, tornava a mexer bem e levava-as, de novo, ao borralho, durante mais uns instantes.
- Já estão boas – dizia eu, impaciente.
- Não tenhas pressa que ainda temos de as deixar arrefecer primeiro. Assim quentes, fazem-te mal à barriga – avisava, experiente.
A avó vertia-as, então, em pratinhos rasos, polvilhava-as com mais açúcar e, a seguir, com canela, a fazer enfeites. Depois era esperar um tempo, que sempre me parecia imenso.
NOTA (CMR): esta e outras crónicas do mesmo autor estão no seu blogue Sopas de Pedra.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

As papas da Avó Isabel

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 7/23/08
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Imagem colhida in: www.flickr.com
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A CASA DA MINHA AVÓ, na rua de Frei Brás, em Évora, já não existe. Tenho ideia que era o nº 30. No seu lugar, está lá outra. Eu nasci nessa rua, mas um pouco mais acima, no nº 24. Nessa casa, eu e o meu irmão Mário passámos muito do nosso tempo de crianças. Ali brincámos, aí nos zangámos e voltámos a brincar, vezes sem conta. Ali comemos e dormimos muitos dias e muitas noites, fruindo a doçura e a paciência da mãe da minha mãe, que assim procurava aliviar esta filha da carga dos cinco netos que lhe dera.
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Entre as muitas recordações desse tempo, a meados dos anos trinta, do século que acabou de virar, mantenho bem vivas as papas da minha avó Isabel. Feitas com farinha de trigo, que ela própria passava na peneira de seda, de malha mais fina, são um manjar de recordações que se libertam à mistura com os aromas da canela e da casquinha do limão.
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Ao aspirar-lhes o perfume, vêm-me à memória o cheiro a barro do ladrilho regado, um expediente contra o calor do Verão, ou o conforto da lareira nos dias de Inverno, onde ela as fazia, numa sertã de asa comprida, sobre uma trempe de ferro aconchegada ao braseiro. Vejo as cortinas das janelas com pavões em croché e duas grandes oleogravuras polícromas, pendendo da parede, uma evocando a implantação da República, outra, a travessia do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Vejo, ainda, o poial dos cântaros e o nicho na parede caiada, que lhe servia de aparador, e onde estava o copo da água sempre coberto por um naperão bordado. Oiço a sua voz doce, o crepitar da lenha e o chiar da água a abrir fervura na cafeteira e, ainda, o outro chiar, quando, misturado e mexido o café, lhe metia dentro a brasinha que lhe baixava a borra.
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Tão simples quanto boas, as papas da minha avó não levavam leite. Além da farinha, faziam-se com água, uma colherzinha de banha de porco, "para dar sustento", açúcar e uma casquinha de limão, tudo ao lume, mexendo sempre, no mesmo sentido, com a colher de pau, até engrossarem. Estavam prontas logo que a libertação do vapor, vencendo a viscosidade da mistura, começava a fazer bolhas espessas e sonoras.
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- Já estão a dar bufas! – Exclamava eu, logo que as via borbulhar, lentas e grossas.
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Nessa altura a avó arredava-as do lume e misturava-lhes o açúcar amarelo, que era o que então se usava, tornava a mexer bem e levava-as, de novo, ao borralho, durante mais uns instantes.

- Já estão boas – dizia eu, impaciente.
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- Não tenhas pressa que ainda temos de as deixar arrefecer primeiro. Assim quentes, fazem-te mal à barriga – avisava, experiente.
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A avó vertia-as, então, em pratinhos rasos, polvilhava-as com mais açúcar e, a seguir, com canela, a fazer enfeites. Depois era esperar um tempo, que sempre me parecia imenso.


segunda-feira, 14 de julho de 2008

Açorda de mão no bolso

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 7/14/08
Pastor, por Dordio Gomes
NESSES ANOS DA MINHA INFÂNCIA, a fome nos campos do Alentejo era muita. Sem um quinhão de terra para cultivarem, as famílias viviam das magras e esporádicas jornas, ao sabor dos caprichos do Sol, das chuvas e das geadas. Sem trabalho, os cifrões cresciam no livro dos fiados, na venda da aldeia, sem esperança de os ver reduzir ou apagar. Os homens, nunca as mulheres, acabavam por vir para a cidade, pedir esmola, Vinham aos grupos de três ou quatro, não para se imporem pelo número, mas porque se envergonhavam e intimidavam se viessem sozinhos.
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Batiam-nos à porta, e tendo vindo abrir-lha, cumprimentavam de chapéu na mão e o que falava apenas dizia que não tinham trabalho e que precisavam de levar de comer para os filhos. Voltando à cozinha, a chamar a mãe, dizia:
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- Estão ali os trabalhadores do campo a pedir!
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Não lhes chamávamos pobrezinhos nem, muito menos, mendigos porque, de facto, não o pareciam nem eram. Tinham dignidade e majestade estes homens e, na resignação que mostravam, adivinhava-se a revolta dentro do peito. Pediam pão ou algum dinheiro para comprarem avio que levassem de volta para casa. A minha mãe respeitava-os profundamente e dava-lhes o que podia, como se fossem irmãos. Sem que o dissesse abertamente, ensinou-me a amá-los. E, embora a vida fizesse mais de mim um menino, um rapaz e um homem da cidade, sempre me senti filho do campo e irmão dos camponeses. Com eles aprendi o que é "comer pão com navalha", uma forma muito expressiva de dizer pão sem conduto, e que "açorda de mão no bolso", no seu sentido crítico pleno de humor, muito comum neste povo, significa que, não havendo mais do que o caldo e o pão migado, só se usava a mão que pegava na colher.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Deserto e desertificação

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 7/10/08
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INDO À ORIGEM DA PALAVRA, que nos chegou do latim, desertere, que significa abandonar, deserto apenas quer dizer desabitado de gente, ermo, e, portanto, inculto. Por exemplo, o Deserto Pintado, no Arizona (EUA), a seguir a escassos períodos de chuva que o atingem, revive numa explosão de cor e vida, que nega a ideia generalizada que o cidadão comum tem do deserto, um mar de areia com camelos e berberes e, algures, um oásis verdejante com palmeiras e um poço de água fresca.
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O vínculo climático dado à palavra deserto resultou do facto de estas áreas, consideradas inaptas para a agricultura, dada a sua muito pouca pluviosidade, não atraírem as populações, ficando, por isso, desabitadas ou desertas. O deserto, no sentido geológico do termo, é definido como uma região de escassa pluviosidade, geralmente inferior a 500mm/ano, e forte evaporação, pouco favorável à ocupação vegetal, animal e, consequentemente, humana. Há desertos hiperáridos, áridos e semiáridos, uns quentes e outros frios.
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A precipitação atmosférica no Sudeste do país encontra-se próxima deste limite, e esse facto está bem marcado, do ponto de vista geológico, pela ocorrência de calcretos (caliços, na linguagem popular) em vários pontos do Alentejo e do Algarve. Estas rochas, de natureza calcária, igualmente referenciadas, pelas mesmas razões climáticas, no Nordeste Transmontano, são conhecidas em muitos locais da Terra, sempre em relação com a subaridez temperada a quente.
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Estas condições climáticas não prenunciam que, nos próximos milhões de anos, o Sul do País se transforme num deserto como o Sara ou outro, entre os muitos conhecidos. Ao falarmos em desertificação nesta parcela do território, estamos a voltar à raiz latina da palavra, isto é, ao abandono das terras pelos seus naturais. Saímos do domínio da Geologia, cabendo aos sociólogos e aos políticos a tarefa de a explicarem.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

A propósito de exames

via sorumbático de noreply@blogger.com (A. M. Galopim de Carvalho) em 07/07/08
Por A. M. Galopim de Carvalho

O EXAME ORAL sempre foi, quanto a mim, o que melhor avalia o aluno. Nunca apreciei, nem enquanto aluno nem, mais tarde, como professor, o estilo de exame oral no qual o examinador fazia uma pergunta, bem concisa, e ficava, friamente, à espera da resposta que, ou não vinha ou era titubeada ou recitada, estereotipadamente, sem qualquer suporte reflexivo. Em quarenta anos de docência na Universidade de Lisboa, foram milhares os alunos que examinei. Nas provas escritas muitos eram, entre alunos e professores, os que preferiam os "testes à americana", com respostas imediatas, no estilo de colocar uma cruz numa casinha entre duas, três ou quatro à escolha. Não obstante a comodidade de classificar um tal tipo de prova, este não foi o meu modo de conceber os pontos de exame. Sempre preferi as questões proporcionando respostas de desenvolvimento. Permitem mais correcta avaliação da competência do aluno, não só na disciplina em causa, como na globalidade dos seus conhecimentos e respectiva maturidade intelectual. Não estamos a avaliar crianças, estamos a lidar com adultos.

Se é certo que esta modalidade de provas escritas tem vantagens no conjunto geral da avaliação, ela representa um esforço considerável por parte do avaliador. Deste esforço sobressai, com uma evidência e uma frequência que chegam a ser escandalosas, a má utilização da língua materna, a deficiente ortografia e a péssima caligrafia reveladas por um número preocupante dos nossos alunos, tudo fruto de uma orientação pedagógica ineficaz que, de há décadas, se instalou no nosso sistema de ensino. Ler dias a fio, dezenas e dezenas de provas escritas nestes moldes nacionais foi dos trabalhos mais confrangedores que me foi dado cumprir, como docente. Também por esta razão sempre me foi mais agradável e, até, repousante o exame oral. Via de regra, a maioria dos nossos alunos expressavam-se oralmente melhor do que escreviam.

Provas orais de dez minutos, de enfiada, «vai-te embora, venha o próximo», como fiz algumas, enquanto aluno, e nessas nem revelei (por sorte) a minha ignorância em algumas matérias, nem me foi dado demonstrar o interesse e o cuidado com que preparara outras. Comigo, na situação de examinador e em determinadas disciplinas, não se fazia prova escrita. Todo o aluno ia à oral e esta prova, rapidamente, se transformava numa conversa, "como as cerejas". Começava sempre por dissertar em torno de um qualquer assunto, dando ao aluno a oportunidade de entrar em diálogo. Nesta modalidade duas situações extremas e opostas podiam acontecer. Numa delas, a mais agradável, o aluno interrompia-me constantemente e a prova decorria com grande vivacidade sem nos darmos conta do tempo, atingindo-se, nestes casos, as máximas classificações. Na outra, a pior, quer do ponto de vista do examinando quer do meu, eu falava o tempo todo e ele, calado, ouvia, ouvia, na maior parte das vezes visivelmente interessado, até chegarmos a um ponto em que era inevitável convidá-lo a vir na próxima época, mas bem preparado.

Um dia, um aluno, daqueles que não frequentavam as aulas teóricas, porque trabalhavam, ao levantar-se da cadeira, no final de uma prova oral da qual saíra excluído e com plena consciência da justeza desse resultado, disse-me:

- Sabe, professor, vim à sorte, com uma certa inconsciência, é certo, a ver se calhava, mesmo que fosse um dez. A licenciatura permite-me subir na repartição. Para ser chefe de serviço tanto faz geologia como história ou filosofia. O que é preciso é ser doutor. Mas há uma coisa, - continuou - nesta meia hora de exame: aprendi a gostar desta matéria. Em Outubro, ou melhor, talvez para o ano, cá estarei.

E esteve. E ficou aprovado.
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Esta e outras crónicas do autor estão também em «Sopas de Pedra»

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Como na banheira de Arquimedes

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 30/06/08
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O SOERGUIMENTO E AFUNDAMENTO de porções maiores ou menores de áreas continentais resultam de movimentos verticais da crosta terrestre, de há muito conhecidos. Sabemos que a Escandinávia se está a elevar à razão de 10mm por ano. Coberta por uma camada de gelo, com dois a três mil metros de espessura, durante a última glaciação, esta parte da Europa afundou-se. No período que se seguiu, marcado pelo degelo e pelo recuo da grande calote polar gelada, este bloco, aligeirado dessa sobrecarga, tem vindo, continuadamente, a soerguer-se. Estes movimentos são comparáveis aos de um barco na água, no qual se coloca ou do qual se retira uma carga. Os continentes, por assim dizer, flutuam sobre uma camada, mais densa, estando sujeitos a uma procura de equilíbrio semelhante ao do barco, mas muitíssimo mais lenta, como acontece com o bloco escandinavo. Trata-se, pois, do mesmo fenómeno físico a que Arquimedes terá sido sensível durante o banho. A mesma impulsão, de baixo para cima, sofrida por um corpo mergulhado num líquido, formulada na conhecida lei, que tem o seu nome e que todos aprendemos na escola, está na base destes quase imperceptíveis movimentos verticais dos continentes. Uma tal lentidão decorre do facto da camada subjacente não ser um verdadeiro líquido, antes, sim, um corpo de altíssima viscosidade, comportando-se como um sólido, para solicitações bruscas, e como um líquido muito pastoso, para solicitações muito lentas e prolongadas.
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A erosão de uma grande montanha dá lugar a uma superfície, sob a qual permanecem as suas raízes. Uma vez anulado o peso correspondente a essa montanha, esta superfície começa a elevar-se, e toda a área aplanada ganha altitude, adquirindo as características de um planalto. Trata-se de uma situação comum a todos os continentes e que temos aqui na Península Ibérica. A maior parte do território ocupado por Portugal e pela Espanha é o que resta do arrasamento de uma importante cadeia montanhosa formada no sul da Europa há mais de 300 milhões de anos. Este importante enrugamento da crosta, tão grandioso como os Alpes, ou talvez mais, foi quase totalmente erodido ao longo de tão dilatado espaço de tempo que se seguiu, transformando-se na altiplanura que caracteriza a Meseta Ibérica. Esta superfície elevada está basculada, descendo de nordeste para sudoeste. Dos planaltos de Castela-a-Velha e do Nordeste Transmontano, alguns a mais de 1000m de altitude, desce-se gradualmente até à planície do Baixo Alentejo, à cota média de 200m. Esta diferença de altitudes reflecte-se no carácter mais vigoroso do relevo do norte do país. Aí, os vales são mais profundos e quem viaja por estrada, percorrendo curvas e contracurvas, a subir ou a descer, interioriza uma sensação de relevo montanhoso, que contrasta com a que experimenta nas confortáveis rectas do Sul.

Que futuro para a Politécnica?

via sorumbático de noreply@blogger.com (A. M. Galopim de Carvalho) em 30/06/08
Por A.M.Galopim de Carvalho
ESTRANHAMENTE, SÓ AGORA, em pleno século XXl, 170 anos depois da sua criação, se põe em causa a sustentabilidade financeira deste magnífico conjunto arquitectónico, histórico, científico e cultural, que nos ficou da prestigiada Escola Politécnica, hoje um valioso e utilíssimo conjunto museológico, de que fazem parte o Museu de Ciência, o Museu Nacional de História Natural, incluindo o Jardim Botânico, e o venerando Instituto Geofísico Infante Dom Luís.
Quando, há duzentos e quarenta anos, o Marquês de Pombal criou o Museu Real da Ajuda, não lhe passou pela ideia questionar a sustentabilidade financeira deste pequeno museu, um embrião à semelhança de outros que o liberalismo, na Europa do século XVIII, encorajou desenvolveu e glorificou como autênticas catedrais do iluminismo - os Museus de História Natural. Concebidos ao serviço da cidadania, foram subsidiados pelos Estados e, só mais tarde, com a sociedade de consumo, muitos deles recorreram à cobrança das entradas, uma prática entendida necessária ao seu cabal funcionamento. Quando, em 1837, foi fundada a Escola Politécnica, em substituição do caduco Colégio dos Nobres, foram ali instalados "Gabinetes de História Natural", visando os três "Reinos da Natureza", sem que a Fazenda se preocupasse com a respectiva sustentabilidade financeira. Em 1858, o espólio do Museu Real da Ajuda foi incorporado nos Gabinetes de História Natural da Escola Politécnica que, anos mais tarde, viriam a unir-se no que é hoje o Museu Nacional de História Natural. Também desta vez não se pôs em causa a sua sustentabilidade financeira. Pelo contrário, foi-lhe atribuído um orçamento compatível com a importância que lhe era outorgada pelos decisores políticos de então, os mesmos iluminados que criaram a Academia das Ciências. Um tal desafogo permitiu-lhe crescer consideravelmente, através de expedições científicas no país e além-mar - as então chamadas "viagens filosóficas" - em busca de testemunhos da Natureza, permitiu-lhe estudá-los e arquivá-los cientificamente e, ainda, colocar esse conhecimento, de forma acessível, ao alcance dos cidadãos.
Texto integral [aqui]
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Publicado no «Público» de 23.06.2008, com o título "Os museus da Politécnica são descartáveis?". As imagens são da capa do livro «O edifício da F. Ciências», de José Lopes Ribeiro.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Onde as cabras “comem pedras”

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 27/06/08
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O TÍTULO E A IMAGEM são enganosos, pois, na realidade, estes herbívoros domesticados não poderiam viver com uma matéria tão intragável e destituída de quaisquer nutrientes, Mas lá que parece que comem, parece!
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Foi há pouco tempo, na terra dos faraós, junto de um entre os muitos templos diariamente devassados por turbas de turistas. Ali, num terreno aberto, pedregoso e poeirento, sem uma erva à vista, dei por mim a observar duas cabras de focinho colado ao chão, no mesmo jeito que aqui, na nossa terra, as suas irmãs trincam as plantinhas mais rasteiras. À primeira vista, dir-se-ia que estavam a comer pedras. Mas não! O que estas pobres procuravam era o lixo, ocasionalmente entalado sob as pedras soltas do chão e, assim, não varrido pelo vento. Os animais desviavam as pedras e comiam o que lá encontravam: um pedaço de papel ou de plástico, um rolo de cabelos, um farrapo de algodão, tudo o que Osíris, encarnação das forças da terra e das plantas, concede pôr ao seu alcance.
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Foto do autor

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Que futuro para a Politécnica?

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 23/06/08
ESTRANHAMENTE, SÓ AGORA, em pleno século XXl, 170 anos depois da sua criação, se põe em causa a sustentabilidade financeira deste magnífico conjunto arquitectónico, histórico, científico e cultural, que nos ficou da prestigiada Escola Politécnica, hoje um valioso e utilíssimo conjunto museológico, de que fazem parte o Museu de Ciência, o Museu Nacional de História Natural, incluindo o Jardim Botânico, e o venerando Instituto Geofísico Infante Dom Luís.
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Quando, há duzentos e quarenta anos, o Marquês de Pombal criou o Museu Real da Ajuda, não lhe passou pela ideia questionar a sustentabilidade financeira deste pequeno museu, um embrião à semelhança de outros que o liberalismo, na Europa do século XVIII, encorajou desenvolveu e glorificou como autênticas catedrais do iluminismo - os Museus de História Natural. Concebidos ao serviço da cidadania, foram subsidiados pelos Estados e, só mais tarde, com a sociedade de consumo, muitos deles recorreram à cobrança das entradas, uma prática entendida necessária ao seu cabal funcionamento. Quando, em 1837, foi fundada a Escola Politécnica, em substituição do caduco Colégio dos Nobres, foram ali instalados "Gabinetes de História Natural", visando os três "Reinos da Natureza", sem que a Fazenda se preocupasse com a respectiva sustentabilidade financeira. Em 1858, o espólio do Museu Real da Ajuda foi incorporado nos Gabinetes de História Natural da Escola Politécnica que, anos mais tarde, viriam a unir-se no que é hoje o Museu Nacional de História Natural. Também desta vez não se pôs em causa a sua sustentabilidade financeira. Pelo contrário, foi-lhe atribuído um orçamento compatível com a importância que lhe era outorgada pelos decisores políticos de então, os mesmos iluminados que criaram a Academia das Ciências. Um tal desafogo permitiu-lhe crescer consideravelmente, através de expedições científicas no país e além-mar - as então chamadas "viagens filosóficas" - em busca de testemunhos da Natureza, permitiu-lhe estudá-los e arquivá-los cientificamente e, ainda, colocar esse conhecimento, de forma acessível, ao alcance dos cidadãos.
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Com a República, em 1910, a Escola Politécnica, incluindo o Museu Nacional de História Natural e o Instituto Geofísico Infante Dom Luís, passaram a integrar a então criada Faculdade de Ciências, sob a tutela da Universidade de Lisboa. Também, desta vez, os republicanos não levantaram problemas à sustentabilidade financeira deste museu. Deram-lhe, sim, importância e um orçamento suficientes para suportar o ensino, a investigação científica e todas as actividades inerentes às licenciaturas nas áreas da Biologia e da Geologia, um privilégio que terminou na sequência do incêndio de 1978. Sempre os museus aqui instalados e o Jardim Botânico, estiveram abertos ao público com entrada gratuita. Foi assim ao longo do século que passou. Os tempos que se seguiram aquela trágica noite que, há 30 anos, iluminou o céu da 7ª Colina, foram anos difíceis, com orçamentos de miséria, em termos de financiamento estatal, foram anos de promessas enganosas por parte dos sucessivos governos, mas foram anos de intensa e frutuosa produção científica suportada por projectos de investigação, financiados do exterior, e, ainda, os anos das exposições mais visitadas, faladas e jamais igualadas no nosso Pais, com centenas de milhar de visitantes.
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Foi preciso chegarmos ao século XXI, no seio de uma sociedade economicista, em que a especulação bolsista domina a economia e as nossas vidas, para que se recorresse ao pagamento das entradas em alguns dos seus espaços. Foi preciso chegarmos aqui para nos virem falar da sustentabilidade financeira destas "Torres do Tombo" da biodiversidade e da geodiversidade; para nos virem falar da inevitabilidade de alienar e eventualmente, aviltar património a este pólo, mais que centenário, de cultura científica. Mas uma coisa é criar receitas próprias, pela imaginação e pelo trabalho, outra coisa é pôr-lhe em causa o presente e, deste modo, comprometer-lhe o futuro ao serviço do interesse público.
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Os que aqui trabalham não são assalariados de uma empresa que, naturalmente, visa o lucro e que, em situação de dificuldades de tesouraria, opta pela alienação de parte dos seus haveres. São, antes do mais, zeladores e guardiões intransigentes do património que receberam dos seus antecessores, um bem nacional que têm vindo a aumentar, a estudar e a divulgar. Do mesmo modo, estes museus e todo o espaço que, anos futuros de "vacas gordas", permitirão desenvolver e, assim, recuperar todo o atraso de décadas de contenção orçamental, não podem ser tratados como peças ou armazéns de drogaria alienáveis para saneamento financeiro da empresa.
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É forçoso e urgente que a Universidade, longe de procurar alienar património, como é, já hoje, um dado adquirido e público, venha, finalmente, fazer coro com os que, aqui, entendem ser seu dever profissional e cívico não abrir mão de um palmo, que seja, deste espaço, no sentido de obter, do Estado, a solução dos seus graves problemas financeiros.
Texto saído no «Público» de 23.06.2008, com o título "Os museus da Politécnica são descartáveis?"

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Arroz de enguia

via sorumbático de noreply@blogger.com (A. M. Galopim de Carvalho) em 15/06/08
Por A. M. Galopim de Carvalho
A MINHA AVÓ PATERNA morreu muito pouco tempo antes de eu nascer. Casara e tivera três rapazes: o meu pai, Mário, o único que estudou no liceu, encorajado por um professor que o estimava; o Manuel, que não concluiu a instrução primária, desempregado por vocação e, de vez em quando, caiador; e o Óscar, o mais novo, que viera cedo para Lisboa e que por cá viveu, tendo casado tarde com uma mulher da região de Tomar. Esta tia, que mal conheci, sempre nos tratou – a mim e aos meus irmãos – com as maiores atenções e carinho, como que a querer prestar homenagem ao irmão mais velho do marido que, como era sua convicção, ocupava o ponto mais alto do pedestal da família, pois tinha estudado e era escriturário de profissão.
Ao tempo dos filhos crianças, já viúva, a avó Mariana e a sua muito jovem família viviam numa velha casa com quintal, para os lados do Farrobo, na cidade de Évora. De terra batida, com uma bela nespereira ao centro, este quintal, pintado na minha imaginação a partir das histórias que ouvi, era ladeado por alegretes, nome que então se dava aos canteiros, os quais tanto podiam ser de flores como de cheiros, quase sempre salsa, poejos, coentros e hortelã.
Uma ocasião entrou-lhe quintal adentro, vindo da casa ao lado, um belo coelho que pronto se anichou num canto, o que tornou fácil e imediata a sua captura. A família vivia com muitas dificuldades, em franco contraste com o desafogo dos vizinhos. A minha avó deve ter feito umas reflexões sumárias em torno de temas tais como moral, justiça social e outros afins e, tomada que foi a sua decisão, olhou em volta, certificando-se da inexistência de terceiros, pegou no bicho e deu-lhe aquele esticão entre pernas e orelhas que nesses tempos toda a gente sabia dar, pois não havia supermercados nem talhos que nos poupassem daquela desagradável operação. De seguida, esfolou-o. Não lhe guardou a pele que, como era regra, se punha a secar ao ar, virada do avesso e com sal, até que a levasse o peleiro ou o «ferro-velho», dando por ela umas migalhas que se não deviam nem podiam desperdiçar. Nesse dia, excepcionalmente, a avó abdicou desse pequeno rendimento. Já lhe bastava o ganho – e não era pouco – da parte comestível. Assim, e por razões evidentes, enterrou-a bem fundo num canteiro, o mesmo fazendo às vísceras e à cabeça do animal. Perder aquela cabeça foi o que mais lhe custou nesta operação de acautelamento que o bom senso ditava. E ela que gostava tanto daquela carne agarrada aos ossos e dos miolos, que comia, no fim, depois de a abrir ao meio com a faca da cozinha. Mas paciência, não se podia ter tudo. Assim, era mais seguro!
Esquartejou-o aos pedacinhos, que lavou bem lavados, e fez o refogado. Pô-lo ao lume e escolheu e lavou o arroz...
Quando, à tardinha, cheios de fome, os filhos entraram, correndo, vindos da escola e das brincadeiras da rua, e perguntaram à mãe o que era o jantar, a minha avó Mariana, sem trejeito que a denunciasse, levantou os olhos azuis da costura e, de agulha na mão, a espetá-la no peito da blusa, num gesto tradicional de quem interrompe o trabalho, respondeu apenas «arroz de enguia!».
E é por isso que, no passado, em casa dos meus pais, e hoje, na minha, o arroz de coelho sempre se chamou e chama "arroz de enguia".
Esta e outras crónicas do autor estão também no blogue-arquivo Sopas de Pedra

segunda-feira, 19 de maio de 2008

O Planeta Azul

via sorumbático de noreply@blogger.com (A. M. Galopim de Carvalho) em 19/05/08
Por A. M. Galopim de Carvalho

No dia do planeta Terra, neste Ano Internacional que lhe foi dedicado pela Unesco, parece-me oportuno retomar algumas reflexões que não é de mais relembrar.

É NESTA TERRA, O PLANETA AZUL, envolta nos farrapos brancos das nuvens, que reside tudo o que temos: o ar que respiramos, a água que bebemos, o chão que pisamos e nos dá o pão. É só com isto que contamos para viver. É, pois, fundamental, conhecer melhor esta nossa casa que nos transporta através da imensidão do espaço, à velocidade de 30km por segundo.
O nosso Planeta, velho de quase quatro mil e seiscentos milhões de anos, lar da biodiversidade, incluindo a humanidade inteira, não foi sempre como hoje o conhecemos. Esta nossa Terra é o resultado de uma longa e complexa evolução, e o homem é o fruto mais jovem dessa mesma evolução, numa cadeia imensa de inter-relações em que participaram as rochas, a água, o ar e todos os seres vivos. Assim, interessa ao cidadão conhecê-la melhor, a fim de bem avaliar os problemas que se lhe põem no seu relacionamento com o ambiente natural.
O grau de complexidade a que chegámos foi crescente desde o início do tempo, isto é, nos treze a quinze mil milhões de anos de existência do Universo que julgamos conhecer. Das partículas primordiais passou-se aos átomos e, só depois, às moléculas, cada vez mais complexas. A partir destas, a evolução caminhou no sentido das células mais primitivas, que fizeram a sua aparição na Terra há mais de três mil e oitocentos milhões de anos, através de uma cadeia abiótica de estádios progressivamente mais elaborados, onde o ensaio e o erro tiveram a seu favor 75% ou mais dessa enormidade de tempo. Dos seres unicelulares mais rudimentares aos primeiros metazoários, surgidos há seiscentos a setecentos milhões de anos, foi consumido mais cerca de 20% desse mesmo tempo. Restou, pois, pouco mais de 5% para que, numa nova cadeia de complexidade crescente e a ritmo cada vez mais acelerado, se caminhasse dos invertebrados primitivos ao Homem. Do nosso aparecimento no Planeta Azul, onde ocupamos o topo da escala biológica, aos dias de hoje, foi um passo de apenas 0,000 1% do tempo universal da criação. Face à eternidade que falta cumprir a este nosso planeta, estimada em mais alguns milhares de milhões de anos, a presença do Homem na Natureza é ainda extraordinariamente curta, insignificante e, portanto, passível de erro e de extinção, como aconteceu com inúmeras espécies. A Terra, no quadro em que se nos apresenta hoje, é o resultado de um sem número de agressões sofridas ao longo da sua velhíssima história. Contudo, ela é um sistema dinâmico que se auto-regula e, como tal, tem sabido encontrar resposta a todas essas vicissitudes e vai, sem dúvida, continuar a fazê-lo. O dano que lhe podemos causar, no mau uso que dela fizermos, é mudar-lhe as condições que nos são favoráveis e que bem conhecemos, dando origem a outras que nos poderão ser altamente adversas. Assim, ao maltratá-la, o Homem está a atentar também contra si próprio, contra a humanidade. Porém, o planeta irá prosseguir, mesmo sem a nossa inteligência, e acabará por encontrar novos caminhos, podendo voltar a criar um outro ser inteligente ou, até, mais inteligente do que esta versão moderna e egoísta de Homo sapiens, que somos nós. Para tal só necessita de tempo, de muito tempo, e isso não lhe irá faltar.
«Público» de 23 Abr 08