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terça-feira, 29 de setembro de 2009

Entre trapos, linhas e botões

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 28/09/09
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JÁ O CONTEI NOUTROS escritos, entrei tarde e mal preparado para a escola oficial. A aprendizagem das 1ª e 2ª classes fi-la em casa, com a minha mãe, nas muitas horas que ela dedicava à costura, recitando a tabuada e juntando as letras na Cartilha Maternal de João de Deus.

Nesse tempo, quase tudo o que vestíamos, pais e filhos, era feito em casa, das cuecas às camisas, dos vestidos aos fatos, das roupas de cama e de mesa às cortinas e cortinados, tudo ela fazia de novo, passajava, remendava e adaptava dos mais crescidos para os mais novos. Solteira, havia aprendido costura e trabalhara, sobretudo, para alfaiates, em fatos de homem. De agulha na mão ou a pedalar na máquina Singer, era trabalho que fazia por necessidade e, também, por gosto. Mais do que cozinhar para uma família, nesse tempo, com cinco filhos, sendo eu o mais novo, a mãe gostava de costurar.

Um fato que o pai deixasse de vestir era desmanchado, virado do avesso e feito de novo para o filho mais velho, aproveitando as mesmas entretelas e os mesmos forros e chumaços. Só se notava a transformação, porque o bolso do peito, onde ainda hoje se coloca um lenço a condizer com a gravata, passava a ficar do lado direito, denunciando a situação, o que agastava o filho que não tinha outro remédio que não fosse usá-lo assim até que voltasse para o cabide, à espera que o irmão mais novo crescesse. As camisas tinham, também, a sua história. Quando os colarinhos e os punhos, ao fim de um certo tempo de uso e de lavagens, ficavam roçados, cortavam-se as mangas e, com elas, faziam-se novos colarinhos. Reparada a camisa, agora de meia manga, ficava nova uma segunda vez. Mas havia uma terceira ressurreição destas peças do vestuário masculino. Inutilizado o último colarinho, ou seja, o que nascera das mangas, cortavam-se as fraldas, das quais ressurgia a última geração de colarinhos. A camisa, amputada da sua fralda original, recebia um transplante de uma qualquer camisa dadora, posta de lado para se transformar em pano de limpeza, depois de lhe serem retirados os botões.

Foi assim, entre trapos, linhas e botões, que aprendi, mal, os rudimentos da leitura, da escrita e da aritmética. Em 1940 dei entrada na Escola Oficial de São Mamede, na 3ª classe, na classe da dona Júlia, professora nova, simpática e bondosa que, praticamente, não nos batia e que, quando tinha de nos aplicar umas reguadas, como instrumento pedagógico então aceite e seguido, o fazia num jeito de deixar cair a régua sobre a mão da criança. Nada que se comparasse com os castigos dos outros mestres-escola que conheci.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Exomuseu da Natureza

Exomuseu da Natureza

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 20/09/09
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Nas Portas de Ródão

EM 1983 FUI DESIGNADO pelos meus pares da Faculdade de Ciências de Lisboa para dirigir o Museu Mineralógico e Geológico, parte importante do Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa, confinado às suas paredes, como ainda é, trinta anos volvidos sobre o grande incêndio de 1978. Um tal vazio e a inexistência de qualquer propósito de recuperação, não obstante as promessas, por parte da tutela, deixaram-me espaço para conceber um outro tipo de musealização que me conduziu, à ideia de um Exomuseu da Natureza.

Concebido como um conjunto de ocorrências naturais, esta estrutura museológica, geograficamente dispersa, é coordenada a partir de uma dada instituição (um museu, uma autarquia, uma universidade, uma fundação) que as identifica, inventaria, e as aceita como "peças" que, como tal, protege, estuda, valoriza e explica ao visitante. Expu-la no 1º Encontro Nacional do Ambiente, Turismo e Cultura, reunido em Sintra, em 1989, por iniciativa do Centro Nacional de Cultura, ao tempo da saudosa Helena Vaz da Silva.

Entre essas ocorrências, que podemos considerar também como pólos desse exomuseu, devem estar, entre outras do património natural, os geossítios e os geomonumentos localizados em pontos diversos de um dado território. Sendo evidente que tais ocorrências não cabem, fisicamente, dentro do edifício de um museu convencional e tendo em atenção que o seu enquadramento natural, no local onde se encontram, é essencial à sua compreensão, elas têm, forçosamente, de permanecer fora das paredes da referida instituição.

É esta particularidade, que sai fora do conceito tradicional de museu, que determinou o neologismo, no qual o prefixo exo, do grego ekso (fora, de fora, por fora), a distingue de um outro tipo – o ecomuseu – já conhecido do grande público. O conceito de exomuseu abarca, ainda, todas as ocorrências que, embora tenham sofrido intervenção humana, continuem a ser considerados como documentos da história da Terra e da Vida, como são, por exemplo, as minas e as pedreiras abandonadas.

Passadas duas décadas sobre a sua formulação, o exomuseu é hoje algo mais do que um nome ou do que uma ideia. Não tendo ainda realidade jurídica, nem figurando nos dicionários, esta estrutura já existe no terreno, representada pelos vários geomonumentos entretanto musealizados e nos textos oficiais dos protocolos assinados entre o Museu Nacional de História Natural e algumas autarquias.

Alguns geomonumentos referenciados em Portugal foram convertidos em pólos dispersos de uma estrutura museológica, nos moldes referidos atrás, mediante protocolos já celebrados entre o citado Museu e as Câmaras Municipais de Évora, Lisboa, Setúbal e Viseu. Nos acordos assim firmados, estes geomonumentos foram considerados pólos da Universidade de Lisboa nos citados concelhos. Nestes, o cimo granítico de uma colina nos arredores de Évora é hoje o Núcleo Museológico do Alto de São Bento, em funcionamento efectivo e permanente ao serviço, sobretudo, das escolas da região. Na cidade de Lisboa foram musealizados, ou estão em vias de o ser, uma série de geomonumentos. O sítio da Pedra Furada, recuperado e explicado ao público, é uma realidade em Setúbal. O Museu do Quartzo, na pedreira de Santa Luzia, em Viseu, está prestes a ser inaugurado.

Outra sorte não tem tido o Museu e Centro de Interpretação de Pego Longo (Carenque) – a grande jazida com pegadas de dinossáurios do Cretácico - com projecto iniciado há mais de vinte anos e aprovado pela autarquia sintrense, já lá vão oito, continua, lamentável e incompreensivelmente, à espera de concretização e de poder constituir a fonte de receita turística que se lhe adivinha.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

OS CHAPARROS CRESCEM E AS AZINHEIRAS MINGUAM

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 13/09/09
O SENHOR CAMILO era o mordomo da Sociedade Harmonia Eborense nos anos quarenta e cinquenta. De nacionalidade espanhola, dizia-se à boca pequena que era refugiado da Guerra Civil. Nunca soube ao certo se era ou não, nem isso me interessava nessa altura. Cedo conquistou a estima e a muita amizade de todos os que com ele privavam, acabando por se tornar figura querida da cidade. Barrigudo, de meia-idade, de ralos cabelos grisalhos e farto bigode a tapar-lhe metade da cara macia e sempre risonha, o senhor Camilo era uma figura carinhosa e doce, mesmo no seu "portunhol" que nunca perdeu. Este homem bom, com provas dadas de grande amizade pela nossa família, tinha um gosto muito particular pela arte dos sabores e introduziu em muitos dos seus amigos o hábito de "pinchar". A cozinha do senhor Camilo era um salão confortável, enorme, onde as frutas e os legumes, artisticamente dispostos em belos cestos e outros recipientes, eram sempre motivo de decoração. Do mesmo modo que os vinhos, as mercearias e os mais variados utensílios, de todos os tamanhos e feitios, davam ao espaço uma organização estética a condizer com os aromas sempre ali reinantes, entre os quais o do seu inseparável charuto. Ali saboreámos todas as guloseimas que sempre tinha para nos regalar. Para nós, crianças, que ali passámos muitos dos nossos tempos livres, no jogo da glória, no dominó e, mais tarde, no do bilhar, o senhor Camilo ficou-me na memória como o avô que não tive.

– Quieres un helado, hijo mio? No le digas nada, que te dé um regalo.

Nesse tempo os homens saíam sempre depois de jantar. O meu pai reunia-se com os amigos na Sociedade e aí passava o serão, as mais das vezes, em torno do bilhar. Vê-lo jogar era uma festa, sempre animada por assistência numerosa e atenta. Vê-lo ganhar enchia-me de uma vaidade gostosa. Ouvir os elogios do outro jogador, acompanhados das convencionais pancadinhas com o taco no soalho, em sinal de aplauso, faziam-me transbordar de satisfação. Tantas vezes que, nas séries de duzentas carambolas, ele as fazia de seguida, sem que o companheiro tivesse tido oportunidade de pegar no taco. As bolas, a puxar e a seguir, com massés, tabelas secas ou outras habilidades, acabavam sempre por se juntar num canto. Aí, o meu pai iniciava a "série americana", algo monótona, diga-se, mas de uma precisão extrema. Sempre juntas, as três bolas, tacada a tacada, iam dando a volta à mesa. E se alguma se afastava demasiado, era de imediato recolocada no devido lugar com uma tacada aberta que a enviava e trazia de volta, a morrer, como se dizia. Havia sempre um voluntário que, no final, contava em voz alta as derradeiras carambolas.

–... cento e noventa e sete, cento e noventa e oito, cento e noventa e nove... duzentas!

– Boa tacada! - Gritava alguém, excitado pela qualidade da última carambola, espectacular, de amplo desenho geométrico, alargado às várias tabelas.

Seguiam-se os aplausos, ruidosos, as felicitações e os comentários, só então se quebrando o silêncio em que decorriam as partidas.

– E tu, já sabes jogar? – Perguntou-me, um dia, o senhor Firmino, colega de emprego do meu pai, acrescentando – Filho de peixe sabe nadar.

Eu apenas sorria, vaidoso, encolhendo os ombros e olhando para o pai como que esperando que respondesse por mim.

– Lá irá, lá irá – dizia ele, rematando com uma frase que só mais tarde entendi. – Os chaparros crescem e as azinheiras minguam.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Flutuantes como Espuma

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 06/09/09
SENDO O CRESCIMENTO da litosfera oceânica um facto plenamente comprovado, sabendo-se que os enrugamentos montanhosos não são suficientes para compensar esse alastramento e, uma vez que a Terra não está em expansão, é forçoso que haja, em simultâneo, destruição de litosfera, o que acontece ao longo das chamadas zonas de subducção, por mergulho e reabsorção por fusão no manto. Estas zonas estão associadas quer a arcos insulares, isto é, conjuntos de ilhas vulcânicas que se alongam em arco (Curillas, Aleutas e outras), quer a margens continentais de tipo andino, de que é exemplo a margem frontal à cordilheira dos Andes, no bordo ocidental da América do Sul. Nos arcos insulares, o contacto estabelece-se entre duas placas oceânicas em aproximação e, então, qualquer uma delas pode mergulhar sob a outra. Nas margens de tipo andino, a aproximação põe em confronto uma placa continental e uma oceânica, sendo esta que, por ser mais densa, mergulha, no geral, sob a outra. Parte dos sedimentos acumulados na margem continental, ao longo de dezenas de milhões de anos, acabam por ser enrugados e emergir, participando na formação de montanhas, como é o caso nas várias cadeias recentes (Alpes, Andes, Montanhas Rochosas, entre outras), ainda em construção e, portanto, activas. Quando a subducção engole a totalidade da placa oceânica situada entre dois blocos continentais em aproximação, eles acabam por colidir. Foi o que aconteceu nos Himalaias, há uns 40 milhões de anos, em resultado da colisão da Índia com o Sudoeste da Ásia. Nesta região verifica-se uma excepção à generalizada flutuabilidade da crosta continental. Uma porção considerável do continente indiano deslizou sob o continente eurasiático, sendo a causa da elevação do planalto do Pamir.

Tendo muita dificuldade em mergulhar no manto, os continentes encerram as mais antigas rochas do planeta, algumas com mais de 4000 milhões de anos. São, por assim dizer, entidades permanentes à superfície do planeta, quais jangadas à deriva. Flutuantes como a espuma, as placas litosféricas estão sujeitas a fragmentações, translações e subsequentes rearranjos, sempre à superfície do globo. Claude Allègre chamou-lhes l'écume de la Terre, a espuma da Terra. Mesmo o desgaste que sofrem, por erosão, não os destrói. Com efeito, os sedimentos resultantes da sua erosão acumulam-se nas respectivas margens e são-lhes devolvidos em episódios orogénicos posteriores.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Vista Cansada

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 31/08/09
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HIPERMETROPIA, como se diz no jargão médico, tão ao gosto dos profissionais, sempre foi para a grande maioria do povo "vista cansada". É aquela perda progressiva de visão ao perto que a grande maioria começa a dar-se conta por volta dos 40 a 50 anos de idade. É o franzir dos olhos ou o afastar das páginas do jornal quando se desejam ler as letras mais miudinhas, é o enfiar, a tacto, a linha no orifício da agulha. Com o uso e o passar dos anos, a vista cansou-se. Felizmente que há lentes que fazem aquilo que os nossos olhos já não conseguem fazer e que é focar a imagem na retina.

Nos anos da minha meninice e adolescência, a par dos dois oftalmologistas da cidade de Évora, com consultório aberto a uma clientela mais endinheirada, ainda persistiam os oculistas ambulantes que percorriam o país, de feira em feira. Um destes feirantes, que conheci, vinha todos os anos pela Feira de São João. Montava um pequeno toldo, sob o qual estendia uma banca onde dispunha o material que trazia: dezenas e dezenas de pares de óculos, de muitos tamanhos e feitios, todos eles completos, isto é, com as lentes já montadas. Não se fazia ali qualquer avaliação prévia da deficiência ocular dos interessados. Cada um colocava nos olhos um par, ao acaso, e num pedaço de jornal e experimentava a eventual melhoria que o mesmo lhe proporcionava. Ia escolhendo e pondo de lado e, ao fim de muitas tentativas, das duas uma: ou, por sorte, encontrava uns óculos que lhe melhorassem a visão, ou acabava por desistir porque nenhum dos ali à sua disposição lhe resolvera o seu problema.

O senhor Alberto oculista, assim era conhecido, configurava um homem de uma certa idade, de pequena estatura, algo franzino, míope, de cabelo grisalho, ralo e liso. A bata, um tanto roçada pelo uso e que já não era bem branca, dava-lhe, apesar disso, o ar de eficiência e respeito profissional pretendido. De espanador na mão, ia removendo o pó, sempre muito, constantemente depositado sobre o delicado artigo exposto, e afugentando as moscas, também muitas, que lhe invadiam o espaço, fugidas do brasido naquelas tardes de finais de Junho no grande espaço térreo que ainda hoje é o Rossio de São Brás.

Era, sobretudo, gente do campo, com poucas posses, que fazia o grosso da sua clientela e, nesta, predominavam as mulheres. Dos homens só alguns sabiam ler, pelo que eram sempre poucos os que sentiam a necessidade de ir ao oculista. Viam ainda muito bem o chão onde enterravam a enxada ou o macho que lhes puxava o arado. Mas para as mulheres ver ao pé era crucial, apenas "por mor" da costura.

- Enfiar as linhas na agulha, é que me custa. É a minha neta que mas enfia. – Lamentava-se uma quintaneira, uma das muitas habitantes das redondezas que todos os anos só nesta ocasião vinham à Feira em busca do que ali podiam comprar e também para encherem a alma de multidão, luzes, cores, sons e festa, depois de meses e meses de isolamento, silêncio, solidão e luz de petróleo ou candeias.

- Passajar, vá que não vá, é a tacto. Pregar um botão é a mesma arrelia. Falta-me a vista. – Dizia ela para o senhor Alberto, que a ouvia ao mesmo tempo que procurava o par que melhor servisse esta sua possível cliente. Depois de várias tentativas e escolhido um que lhe pareceu adequado, deu-lhe uma limpeza com a flanela, que trazia no bolso superior da bata, e ajeitou-o na cara da mulher.

- Experimente lá estes, tiazinha - disse o oculista, ao mesmo tempo que lhe passava para a mão meia folha do "Notícias d' Évora". – Veja lá se consegue ler aí nas letras mais pequeninas?

- Leve lá daqui o jornal, criatura de Deus, "quê cá nã sê ler"! Eu trouxe aqui com que tirar a prova. – Disse a mulher, com ar de quem brinca com a sua própria mágoa, enquanto buscava na mala o trapinho onde espetara uma agulha e enrolara um pedaço de linha.

- Estes são uma maravilha! – Exclamou entusiasmada a quintaneira depois de, logo à primeira tentativa, ter enfiado a linha no buraquinho da agulha. Até vejo os fiozinhos mais fininhos. Louvado seja Deus!

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Nada se cria...

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 23/08/09
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Lavoisier no seu laboratório
Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, arrazoado que, ainda meninos, aprendemos e recitámos de cor, é a expressão filosófica da conhecida lei da conservação de massa, formulada pelo grande químico francês Antoine Lavoisier (1743-94), guilhotinado na voragem da Revolução Francesa. Este mesmo princípio regulador das reacções químicas aplica-se também, como não podia deixar de ser, às rochas. Com efeito, as rochas não se criam a partir do nada. São sempre o produto de uma transformação a partir de outros materiais, que tanto podem ser outras rochas preexistentes, como detritos minerais (sedimentos), ou substâncias químicas dissolvidas nas águas como, ainda, restos esqueléticos (conchas, carapaças, etc.) de seres vivos.

As primeiras rochas formadas na crosta primitiva nasceram da transformação, por solidificação, da parte externa de um oceano de magma à escala global. Estas primeiras rochas são classificadas de magmáticas e o magma primordial que lhes deu origem foi, por seu turno, o resultado da diferenciação do planeta por transformação dos materiais condensados a partir do que restou da nébula solar.

As rochas geradas num dado ambiente são aí estáveis e reflectem as características físicas (temperatura e pressão) e químicas desse mesmo ambiente, quer através das suas composições mineralógicas, quer através das suas texturas, expressas pelo tamanho, forma e disposição ou arranjo dos respectivos minerais. Quando mudam de ambiente (ou porque se deslocam de um ambiente para outro, ou porque houve modificações ambientais no local onde se encontram), as rochas ficam instáveis e tendem a adaptar-se aos novos parâmetros, transformando-se. Muitos dos minerais das rochas geradas a grande profundidade, onde a pressão e a temperatura são elevadas, alteram-se quando ascendem à superfície, dando origem a produtos que irão participar na formação de rochas sedimentares. Neste processo, os sedimentos acumulados e ainda incoesos podem sofrer acções que passam por expulsão da água intersticial, compactação, cimentação e, quase sempre, recristalização dos seus minerais, num conjunto de processos conhecido por diagénese, litificação ou petrificação, três expressões que querem dizer transformação do sedimento em pedra. Se as rochas sedimentares forem levadas a afundar-se na crosta, vão ficar submetidas a pressões e temperaturas crescentes com a profundidade, transformando-se mais ou menos intensamente, originando rochas que classificamos de metamórficas. Podem, inclusivamente, dar origem a rochas magmáticas, e isso acontece sempre que as condições de temperatura, pressão e quantidade de água presente atinjam valores que as levem à fusão, gerando magmas secundários, assim designados para os distinguir dos magmas primários, isto é, os que têm origem no manto, como são os que geram os basaltos das dorsais oceânicas.

Os processos geradores, ou transformadores, das rochas sucedem-se ciclicamente, segundo uma sequência que, por vezes, se fecha e se repete, que alguns autores referem por ciclo geoquímico da litosfera. Poderíamos dizer, em linguagem figurada mas expressiva que, ao transformarem-se umas nas outras, as rochas nascem, vivem e morrem, como aliás, tudo na Natureza. O nosso planeta é, pois, uma máquina complexa de reciclagem de rochas, que se alimenta de umas para dar origem a outras, tendo por fonte de energia, para umas (as ígneas e metamórficas), o muito calor interno que ainda conserva e, para outras (as sedimentares), a inesgotável radiação solar. Esta reciclagem constante e permanente explica, entre outras particularidades da crosta, a relativa escassez de rochas muito antigas.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O chão que Lisboa pisa

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 09/08/09
COM MUITAS RARAS EXCEPÇÕES o cidadão de Lisboa não conhece nem a natureza nem a história do chão que pisa e no qual assentam as fundações do prédio onde vive. Que sabe ele da sua história para trás do dia em que o malogrado Martim Moniz ficou entalado entre as portas do Castelo? Sabe, de facto, muito pouco. Mas ainda sabe menos de tudo o que aqui aconteceu antes do primeiro humano ter pisado estas terras, milhares de anos atrás e do que se passou nesta região há milhões de anos.

Não sabe que o lioz, ou seja, o calcário usado na construção dos Jerónimos, da Torre de Belém, do Palácio da Ajuda, e da maior parte da cantaria e estatuária locais, nasceu num mar muito pouco profundo, de águas mais quentes do que as que hoje banham as nossas praias no pino do verão. Nesse mar raso, há cerca de 95 milhões de anos, populações imensas de moluscos, a que chamamos rudistas, com conchas mais espessas do que as das ostras, cobriram os fundos e, proliferando uns sobre os outros, edificaram, camada após camada, os estratos de calcário que ainda podemos ver, por exemplo, na Avenida Calouste Gulbenkian, sob o aqueduto das Águas Livres, ou na base do bairro dos Sete Moínhos, à entrada de Lisboa pela ponte Duarte Pacheco.

Mas voltemos ao chão de Lisboa, dizendo que os seus habitantes também não sabem que a maior parte da pedra negra das velhas calçadas da cidade é basalto, ou seja, lava consolidada de vulcões que aqui estiveram em grande actividade há uns 70 milhões de anos. Ignoram que no tempo imenso que se seguiu a este mar de fogo e cinzas, toda esta região evoluiu num ambiente continental marcado pela secura do clima, propício a grandes enxurradas, como as que ainda se podem observar na Calçada de Carriche, nas camadas sedimentares repletas de calhaus arredondados (cuja idade remonta aos 40 milhões de anos) e à deposição de calcários lacustres como os de Alfornelos e da Brandoa. Não se dão conta que o mar aqui regressou depois, há cerca de 23 milhões de anos, e que aqui se gerou, de novo, um ambiente construtor de calcário, mas, desta vez, por um grupo de minúsculos invertebrados coloniais – os briozoários – à semelhança dos recifes de coral. Por último, não lhes ocorre que as diversas fábricas de cerâmica, hoje desactivadas ou demolidas, que aqui moldaram o barro extraído dos próprios locais, só existiram porque esse mar recuou e passou a haver nesta região, há pouco mais de uma dezena de milhões de anos, intensa deposição de sedimentos argilosos acumulados numa paisagem aplanada, vestibular de um grande rio, povoada por mastodontes (grandes herbívoros ancestrais dos elefantes), grandes crocodilos e muitos outros animais entretanto extintos, cujas ossadas desenterradas dos respectivos sedimentos são objecto de estudo dos paleontólogos.

Páginas desta história, milagrosamente conservadas na densa malha urbana, são visíveis em alguns raros afloramentos rochosos nas ruas da capital. Porque escaparam ao camartelo ou porque não foram encobertos pelo betão ou pelo asfalto, são testemunhos valiosos que aqui nos ficaram desses tempos antigos. À semelhança de um qualquer património construído, aceite como um monumento, também certas ocorrências geológicas devem ser entendidas como tal e, assim, merecer-nos a atenção e o cuidado de os legarmos aos vindouros como documentos de um património natural que a civilização, o progresso e, também, a ignorância foram destruindo ou soterrando.

Após alguns anos de estagnação posteriores à presidência, na Autarquia, de João Soares e à devotada acção do vereador Rui Godinho na defesa e valorização dos geomonumentos de Lisboa, a actual vereação retomou esse trabalho, estando neste momento a concluir o que havia sido iniciado e a estender esta mesma preocupação a sítios entretanto referenciados por funcionários com preparação geológica adequada.

Bem-hajam por isso!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

As três cordas do navio


via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 02/08/09
Navio oceanográfico Almeida Carvalho
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MAIS POR CORTESIA do que para trabalhar, o Instituto Hidrográfico convidou-me a participar num dos muitos cruzeiros realizados no âmbito dos projectos de investigação em Geologia Marinha, de parceria com o Museu Nacional de História Natural, sob a minha responsabilidade. Corria o ano de 1989. Ancorado no porto de Leixões, o navio oceanográfico Almeida Carvalho ia zarpar, desta vez com o objectivo de permitir aos nossos investigadores e estagiários (bolseiros) procederem a amostragens de sedimentos finos (lodos), de profundidade, na vertente continental, ao lago da costa norte do país. Era Outono e o tempo estava magnífico, a convidar para uma semana de relaxe flutuante num mar chão, bem instalado e com mesa de muita qualidade, na agradável companhia do comandante e dos oficiais da guarnição. Sem responsabilidades ou incumbências operacionais fui, como em criança, aprendiz de todos os trabalhos inerentes à vida a bordo. O navio está sempre acordado. Seja dia, seja noite, o trabalho é sempre muito e igual. O que muda são os protagonistas. Enquanto uns dormem ou usam o tempo como lhes convém, outros fazem "quartos", nome oficialmente usado para designar cada um dos turnos de quatro horas a cumprir por cada embarcado, seja ele da guarnição ou da equipa técnica. Os quartos da noite oferecem-nos um ambiente muito particular, agradavelmente marcado pela abundância de luz no navio, em contraste com a absoluta negridão envolvente. Os quartos da madrugada, os meus preferidos, permitiam-me dar continuidade ao meu hábito de escrever naquelas horas e admirar o nascer do sol no mar, uma novidade para quem, como nós, portugueses, no mar, só testemunhamos ocasos. A essa hora mágica a superfície da água parecia óleo com reflexos metálicos acobreados, num espectáculo, para mim, inédito e inesquecível. Era o "mar de azeite", como lhe chamam marinheiros e pescadores.

Entre as muitas coisas que, a bordo, acrescentei ao meu conhecimento, aprendi que na Marinha não há barcos. Só há navios. Fiquei a saber que no navio apenas existem três cordas: a corda do sino, a corda do relógio e "acorda que já são horas". Tudo o mais são cabos. Fiquei ainda a saber que o nome deste navio ao serviço da Armada e do Instituto Hidrográfico entre 1972 e 2002 (abatido ao efectivo em 2006) evoca o Comandante Ernesto Tavares de Almeida Carvalho, português ilustre e autor de importantes trabalhos hidrográficos e oceanográficos ao largo das costas de Portugal e de Moçambique.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Esposa, filha ou irmã da terra

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 19/07/09
FAZ 40 ANOS que Neil Armstrong pisou o solo lunar, um facto notável que testemunha não só o poder da ciência e da tecnologia, mas também a bravura dos que protagonizaram aventuras semelhantes, a começar pelos navegadores de quinhentos que deram "novos mundos ao mundo".

Muito se escreveu e continua a escrever sobre o nosso inseparável e belo satélite natural. Da ficção à ciência, passando pela poesia, a Lua sempre esteve presente bem dentro das nossas vidas. Como geólogo, sempre esta nossa companheira ocupou parte importante da minha curiosidade. Acompanhei com o maior entusiasmo, sobretudo, através da imprensa escrita, a competição americano-soviética pela conquista do espaço, a meados do século que passou. Recordo o discurso do presidente John F. Kennedy, no início dos anos 60, em que afirmou que, até ao fim da década, a América enviaria uma missão tripulada ao solo lunar e trá-la-ia, em segurança, de volta à Terra. Recordo a madrugada de 20 de Julho de 1969, dia em que essa promessa foi cumprida, Colado ao televisor, vi, em directo, Neil Armstrong descer a escada da Apollo 11 e deixar no solo selenita a primeira pegada daquele passo gigantesco do génio humano.

Sem água nem atmosfera, não há na Lua o tipo de erosão que bem conhecemos na Terra. Por isso, o nosso satélite mostra-nos o mesmo visual de há mais de três mil milhões de anos. Uma superfície marcada por esparsos e vastos derrames de basalto – os chamados mares lunares – em contraste com vastíssimas regiões densamente pejadas de crateras de impacto meteorítico, pode ser vista por qualquer um com a simples ajuda de uns binóculos vulgares. Uma tal ausência de actividade erosiva faz com que a celebérrima pegada deixada pelo primeiro homem que ali chegou persista intacta por muitas dezenas de milhões de anos.

Aquando da minha estadia na capital dos franceses nos primeiros anos da década de 60, o nosso satélite era tema de ensino nas aulas de geologia da Universidade, ministradas pelo Prof. Charles Pomerol, cientista e grande divulgador, com quem tive frequente e proveitoso contacto. Ensinava ele que relativamente à origem da Lua se debatiam três concepções dominantes: A "Lua filha da Terra", como uma porção desta que, desde muito cedo, se teria separado dela; a "Lua esposa da Terra", como um corpo planetário estranho, vindo de algures e por ela capturado graviticamente; e a "Lua irmã da Terra", de formação independente e simultânea, ambas geradas, lado a lado, nos primórdios da evolução do Sistema Solar. Para este professor, e segundo os elementos científicos então disponíveis, esta última concepção era a mais verosímil. Passaram quarenta anos de estudo intenso do nosso satélite e a convicção da maioria dos cientistas do presente é aquela que então se referia à Lua como filha da Terra.


(Publicado no DN de 18 de Julho de 2009)

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Gostar de saber e dever cívico de estudar

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 12/07/09
GOSTAR DE SABER é uma das chaves que abrem as portas ao binómio ensino-aprendizagem e, portanto, ao sucesso escolar e à valorização do indivíduo. A outra, não menos importante, é a consciência do dever cívico de estudar. Compete aos pais, em casa, e aos professores, na escola, desenvolver uma e outra.

Terminada a licenciatura em Geologia, em 1961, e sem qualquer preparação no domínio das ciências da educação, comecei imediatamente a leccionar, primeiro como assistente em aulas práticas e, só mais tarde, após o doutoramento, como regente de aulas teóricas. Os tempos eram outros e a tarimba do docente universitário desse tempo era passar pela maioria, senão todas, as disciplinas do Departamento. Quer em trabalhos práticos no laboratório e no campo, quer em auditórios, por vezes com mais de uma centena de alunos, os docentes dos anos 60 e 70 do século que virou eram conduzidos a uma visão eclética da área científica da respectiva licenciatura. Tal procura de ecletismo, consentida por uma então muito menor especialização do saber científico, estava bem patente nas modalidades de doutoramento e de agregação de então, marcadas por provas incidindo sobre a totalidade das disciplinas dessa área científica, em complemento das necessárias dissertações. O docente da minha geração criava a sua própria pedagogia, determinava-lhe os conteúdos, regia-a a seu modo e examinava os próprios alunos no final do ano ou do semestre.

Por razões diversas, umas bem conhecidas, outras não tanto assim, é frequente, numa qualquer turma, haver um, dois ou mais estudantes menos motivados, visivelmente desinteressados da matéria em estudo. Face a estes alunos, logo identificados nas primeiras aulas, adoptei uma estratégia que quase sempre resultou. Dava-lhes mais atenção, procurando estabelecer com eles um relacionamento de simpatia que lhes tornava agradável o convívio comigo e, consequentemente, a frequência às aulas. Colocava-lhes problemas muito simples, ajudando-os a resolvê-los sem que dessem conta dessa ajuda. Posto isto, elogiava os seus progressos e dava-lhes tratamento que lhes despertava auto-estima, os estimulava a gostar de saber e, por essa via, a gostar de estudar. Para as dúvidas e para recuperarem parte dos atrasos, contavam comigo sem reservas nem receios de revelar dificuldades. Estabelecida uma tal relação de simpatia e confiança, era fácil abordar temas que fossem dar à cidadania e ao dever cívico do estudante que é, em particular, estudar.

Este que foi o meu modo de conviver com os alunos, alegre, cordial, transparente e responsável, tinha como consequência a presença nas aulas da grande maioria dos alunos, do começo ao fim do curso. Uma grande aproximação entre nós intensificava-se nas saídas ao campo e tinha efeitos benéficos até durante os exames, em especial, nas provas orais. Nestas o examinando sentia-se na presença de quem lhe transmitia conhecimento, mas também de um amigo, e não na de um qualquer frio e distante examinador.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Pesamos mais na praia do que na montanha

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 06/07/09
TODOS SABEMOS que a massa de um corpo é a medida da quantidade de matéria nele contida e que o peso desse corpo é a força com que a Terra o atrai. Essa força gravítica, como nos ensinou Newton (1642-1727) e que todos decorámos na escola, é directamente proporcional às massas do planeta e desse corpo e inversamente proporcional ao quadrado da distância que separa os respectivos centros de gravidade. Uma vez que a Terra não é perfeitamente esférica, uma mesma massa tem pesos diferentes consoante os locais onde se encontra. Nos pólos, onde o raio do planeta é menor, qualquer corpo pesa mais do que no equador, onde o raio é cerca de 25km mais longo. No cimo do Monte Evereste (8 848m), os corpos pesam menos do que ao nível do mar. São cerca de nove quilómetros de diferença na distância ao centro do planeta. Podemos afirmar, então, que pesamos mais na praia do que na montanha.

Um outro factor interfere na referida força de atracção, e esse factor é a densidade das rochas do subsolo onde se proceda à pesagem de um corpo. Quanto mais densas forem essas rochas, maior é a força da gravidade. Assim, no mar, longe os continentes, um mesmo corpo pesa mais do que em terra, uma vez que a crosta oceânica, basáltica, é mais densa (2,9) do que a crosta continental (2,7), essencialmente granítica. Há, pois, uma relação estreita entre as anomalias da gravidade e o equilíbrio isostático.

Os gravímetros são aparelhos de alta precisão com capacidade para medir o valor da aceleração da gravidade em qualquer lugar, em terra ou no mar. A sua grande sensibilidade põe em evidência variações mínimas daqueles valores, em função da latitude, da altitude e da natureza geológica dos locais onde são instalados.

Através de cálculos matemáticos podemos sempre determinar o valor da aceleração da gravidade em qualquer ponto da superfície da Terra. Os valores medidos com o gravímetro necessitam de ser referidos à superfície do geóide e corrigidos de interferências de natureza geológica, a fim de serem comparados com os valores calculados. Verifica-se, então, que, em geral, os valores medidos e corrigidos não coincidem com os valores calculados matematicamente. A diferença entre estes dois resultados é entendida como uma anomalia da gravidade, passível de interpretação geológica. Consideram-se anomalias negativas quando o valor calculado supera o valor medido, e positivas na situação contrária. Nos continentes, as anomalias da gravidade são negativas e aumentam em valor absoluto nas regiões montanhosas, onde a crosta continental (menos densa) é mais espessa. Nos oceanos as anomalias são positivas e variam em função da estrutura do respectivo substrato.

«DN» de 3 de Junho de 2009

Ardósia da minha infância

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 28/06/09
PARA ALÉM DO GRANITO que conheci ao sentar-me nele, na soleira da porta da casa da minha avó, na rua de Frei Brás, em Évora, a pedra com que privei de perto foi a ardósia, uma espécie de xisto compacto que se deixa laminar permitindo talhar aqueles delgados rectângulos emoldurados, a que chamávamos, simplesmente, pedra, e nos quais as crianças da minha geração aprenderam a escrever as primeiras letras e os primeiros algarismos. Esta mesma ardósia ou lousa, aparada para fazer as vezes de telhas, exportámo-la para Inglaterra com o nome de "soletos", um aportuguesamento popular da palavra inglesa slate, com o mesmo significado. Acrescente-se que na ardósia, que todas a crianças levavam para a escola, se escrevia com lápis da mesma pedra, sendo curioso assinalar que lápis, do latim, lapis, quer dizer, precisamente, pedra.

- Amanhã começas a ir para a mestra Chica. - Disse a minha mãe ao mostrar-me aquela pedra preta, encaixilhada em madeira de pinho, acabadinha de comprar.

Ir para a mestra era uma promoção nos degraus da primeira infância. Dos vizinhos da minha idade, rapazes e raparigas, só eu ainda não frequentava aquela espécie de jardim-escola artesanal, onde a mestra, não sendo uma educadora diplomada como hoje acontece, era apenas uma das poucas mulheres que sabia os rudimentos da leitura e da escrita, que tinha jeito para lidar com crianças e que, assim, angariava uns tostões ao fim do mês.

Foi com a pedra enfiada na sacola de serapilheira novinha em folha e com uma caderinha alentejana empalhada, comprada no Alfredo cadeireiro que, pela mão da minha mãe, dei entrada na mestra Chica.

A sala de aula era a própria sala da casa, onde se almoçava e jantava, se trabalhava e se convivia em família. Digo bem, convivia, pois a telefonia e a televisão estavam longe de invadir os lares e, era falando umas com as outras, contando e ouvindo histórias, que as pessoas desfrutavam os seus tempos de lazer. Além da mesa, das cadeiras, do guarda-loiça e do aparador, lá estava a máquina de costura Singer e uma pequena bancada onde a mestra, ao mesmo tempo que ia entretendo os seus minúsculos pupilos, ia estendendo um melaço de açúcar, amarelado, espesso e quente que, depois de frio e endurecido, cortava em pedacinhos, com que fazia rebuçados para fora. Dizia-se "para fora" porque estas guloseimas caseiras, enroladas em papelinhos de diversas cores, eram fornecidas às lojas que lhas encomendavam e que, por sua vez, as vendiam a uma clientela jovem.

Era num espaço mais alargado desta, que era a maior divisão da casa, que uma meia dúzia de crianças, em idade pré-escolar, sentadas em cadeirinhas ou banquinhos de tamanho a condizer, com a dita pedra sobre os joelhos, procuravam desenhar as letras e os algarismos que a mestra escrevia para que elas copiassem. Muito longe da reconhecida actividade pedagógica dos actuais jardins de infância, apoiados em profissionais com preparação adequada, estar na mestra da minha infância, pouco mais era do que libertar as mães de então que, assim, podiam dispor de tempo para o muito trabalho doméstico que desenvolviam, onde não faltava a costura inerente a uma família inteira, numa época que roupa de casa e de vestir era quase toda confeccionada em casa.

Da mestra Chica ficou-me uma certa fixação à ardósia, não só a do pequeno objecto de estimação, que continuo a ter em casa, na cozinha, e onde se tomam notas próprias do dia-a-dia, como a do grande "quadro preto" da sala de aula que me acompanhou, como aluno, da primária à universidade, e onde durante quatro décadas, como docente, escrevi a giz, ao tempo em que esse auxiliar pedagógico não tinha a concorrência de retroprojectores, diapositivos e de todos os equipamentos electrónicos que marcam presença no ensino dos dias de hoje.

domingo, 14 de junho de 2009

Ler nas rochas

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 14/06/09.
DE HÁ MUITO que buscamos utilidade nas rochas e em muitos dos minerais que as formam ou nelas ganham existência. Do sílex dos nossos mais primitivos avós ao quartzo piezoeléctrico dos relógios de pulso dos dias de hoje, ou do breu explorado e usado como combustível, há milhares de anos, na Mesopotâmia ao crude, ao gás natural e ao urânio consumido nas centrais nucleares da modernidade, sempre o homem as utilizou como bens que a Natureza colocou ao seu dispor. Mas as rochas não podem deixar de ser vistas também como documentos valiosos de uma história só através delas passível de ser desvendada.
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Todos aceitamos naturalmente um velho pergaminho, uma catedral, uma ruína ou qualquer vestígio pré-histórico como documentos de um passado mais ou menos antigo. Do mesmo modo, as rochas, na sua diversidade e modos de ocorrência, podem e devem ser entendidas como documentos de uma outra história bem mais remota que, em vez de séculos e milénios, se desenrolou ao longo de milhões e até de milhares de milhão de anos.
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As rochas testemunham uma evolução planetária profundamente antiga, feita de lavas incandescentes, de dilúvios intermináveis, de longos Invernos gelados, de desertos abrasadores e de catastróficas colisões com outros corpos seus irmãos no Sistema Solar. Falam-nos de continentes à deriva e revelam-nos oceanos que se abriram e fecharam, deixando como testemunhos sucessivas cadeias de montanha, umas já desaparecidas, outras mais recentes, de relevo vigoroso e em plena ascensão. Durante essa evolução a vida surgiu e progrediu, sofreu extinções mais ou menos generalizadas e profundas e recompôs-se sempre, até chegar aos milhões de espécies que caracterizam a actual biodiversidade. De tudo isto ficaram-nos testemunhos arquivados nas rochas que, assim, nos permitem investigar também a história da Vida a que deram berço e suportam. As rochas são, pois, a memória da Terra, memória que pode ser lida e contada, bastando para tal que se conheçam os caracteres dessa escrita.
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Como documentos da evolução do nosso planeta, desde a sua origem até os nossos dias, podemos ler nas rochas, à semelhança do que faz o paleógrafo ao descodificar velhos pergaminhos, do que todos fazemos nos livros ou do que faz o músico ao trautear uma partitura. Decifrar a história da Terra passa, pois, por saber ler nas rochas através dos seus minerais, dos seus fósseis e de outros elementos nelas conservados.
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Publicado no «DN» de 6 de Junho de 2009

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Petra

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 07/06/09
A PALAVRA PEDRA chegou-nos, do grego, através do latim, petra, que traduz a ideia de uma entidade natural, rígida, coesa e dura, a que também chamamos rocha. Petra é a antiga cidade da Jordânia repleta de monumentais ruínas escavadas na rocha e Petróleo é o óleo saído do chão, de dentro das pedras, assim como o carvão-de-pedra é o que se extrai das entranhas da Terra, como se de pedra se tratasse. Petrologia é a ciência que estuda as rochas e petrólogos os seus cultores. Petrificados ficamos quando uma notícia nos gela o sangue e nos imobiliza. Petrificados estão os fósseis, ou seja, os restos dos seres vivos do passado que chegaram até nós. Pedra de moinho, pedra de afiar ou de amolar, pedra preciosa, pedra lascada e pedra polida, Idade da Pedra, pedra-mármore, pedra-pomes, pedra-ume, pedra-sabão, chuva de pedra, pedrinha de sal, pedrada, pedra no sapato são expressões que caracterizam o conceito empírico que todos temos de pedra como rocha. De pedra eram a ardósia e o lápis em que esboçámos as primeiras letras, sendo curioso assinalar que lápis, do latim lápis, também quer dizer pedra.

Empedernido diz-se daquele que é insensível como a pedra e pedernal ou pederneira é o sílex, que os nossos avós usavam nos bacamartes, ou que os tetravós destes lascavam, fazendo machados, facas e pontas de seta.

Pedra angular quer dizer fundamento, base ou suporte. Pedro, nome de gente, vem de pedra. «Tu és Pedro e sobre ti levantarei a minha Igreja» disse Jesus ao discípulo. São Petersburgo é o nome da antiga Petrogrado, na Rússia, em homenagem a Pedro, o Grande, e Petrópolis é a cidade brasileira assim chamada em memória do seu primeiro imperador, D. Pedro II de Portugal.

Pedra filosofal ou da sabedoria, que em árabe se diz, al kimia, foi o lema de um saber notável durante a Idade Média, nem sempre devidamente valorizado, onde radicam ciências como a Química e a Mineralogia.

Pedrógão, Alter Pedroso, Pedrouços e Pedrulha são topónimos relacionados com pedras. Aumentativo de pedra, pedrão deu padrão, o marco que os nossos navegadores deixaram na rota dos descobrimentos. Pêro é o nome arcaico de Pedro e Peres são os seus descendentes. Pêro Vaz de Caminha e Pêro da Covilhã são nomes conhecidos da nossa história e Pêro Botelho é o Diabo que não pára de rugir na caldeira que tem o seu nome, no sítio das Furnas, na ilha açoriana de S. Miguel. Peroliva, Peramanca e Perafita são nomes de sítios do Alentejo que evocam grandes marcos de pedra, através do prefixo pera, que traduz a mesma ideia. Tais pedras ou eram verdes (oliva) ou estavam mancas, isto é, tombadas, ou ainda se mantinham fitas, maneira antiga de dizer erguidas, na postura fálica em que as colocavam os nossos antepassados do período megalítico e que os pré-historiadores franceses divulgaram sob o nome de menhires, mantendo a expressão original bretã, men hir, que significa pedra comprida.
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Ampliação do texto publicado no «DN» em 6 de Junho de 2009

quarta-feira, 3 de junho de 2009

O Pirolito

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 31/05/09
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ENTRE GEÓLOGOS com menos de cinquenta anos de idade, quando se fala de pirolito (ou pirólito, como alguns preferem acentuar) apenas vem ao pensamento uma hipotética rocha do manto terrestre a partir da qual se segrega o basalto, de que temos boa representação nos Açores, e muito afim do que abundantemente se derramou na região entre Lisboa e Mafra, há pouco mais de 70 milhões de anos.
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Mas para mim, que vivi as minhas infância e adolescência nos anos 30 e 40 do século que passou, e para os homens e mulheres da minha geração, pirolito era um popular refrigerante, uma gasosa do tipo Seven-Up, contida numa garrafa de vidro muito especial. Especial, em primeiro lugar, porque não tinha rótulo nem a tradicional carica das gasosas e cervejas desse tempo e dos dias de hoje. Em sua substituição tinha um berlinde. Empurrado de baixo para cima, sob a pressão do gás, esta perfeita esfera de vidro colava-se a uma anilha de borracha junto ao gargalo, vedando eficazmente a dita garrafa. Especial era, ainda, a forma deste vasilhame, fabricado num vidro transparente esverdeado, testemunhando um certo grau de impureza da areia usada como matéria-prima. Impureza que os industriais vidreiros sabem ser devida a um certo teor de ferro que caracteriza alguns minerais habitualmente associados ao quartzo, o mineral francamente dominante das nossas areias. Essa forma distinguia-se por um estrangulamento abaixo do gargalo que impedia o berlinde de cair para o fundo, ficando ali a badalar, numa sonoridade vítrea, inesquecível, sempre que a bandeávamos, num gesto que nunca deixávamos de repetir.
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Ainda na vidreira, com o vidro quente e ainda deformável, o artífice fazia-lhe o dito estrangulamento e introduzindo sobre ele o berlinde. Só depois afunilava o gargalo, deixando prisioneira aquela bolinha tilintante. Depois, na fábrica do refrigerante, a gasosa era introduzida na garrafa virada de boca para baixo e, uma vez concluído o enchimento, o berlinde caía, colando-se à anilha, por efeito da pressão do gás. Podia-se, finalmente, endireitar a garrafa, metê-la numa das doze células das muitas grades de madeira, em que viajavam a caminho dos estabelecimentos onde eram servidas a rapazes, raparigas e mulheres. Os homens bebiam cerveja.
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Sempre que uma destas garrafas se quebrava, aproveitava-se o berlinde para jogar um jogo praticado no chão, em terra batida. Um jogo que vinha de gerações anteriores, hoje quase esquecido e que entreteve, horas e horas, anos a fio, os rapazes da minha geração.

Por falar em berlinde, ocorre-me um episódio protagonizado por um dos mais ilustres geógrafos portugueses. Foi na Reitoria da Universidade de Lisboa, por volta dos anos 60 do século que virou. Corriam as provas de doutoramento de um jovem assistente da Universidade de Coimbra. Fazendo uso de um discurso correcto e, até, brilhante, este doutorando não dispensava, a propósito de tudo e de nada, de aludir às suas proezas como desportista em diversas modalidades. Terminada a exposição e iniciada a argumentação, o meu saudoso mestre Orlando Ribeiro, no seu reconhecido bom humor e na sua verbal eloquência, disse, a certa altura da sua intervenção, dirigindo-se ao candidato a doutor, algo que procuro transcrever de memória, mas que respeita o essencial: «Não posso também deixar de o felicitar pelas suas qualidades desportivas. Felicito-o tanto mais porque, devo confessar, o único desporto que pratiquei foi o berlinde mas, mesmo assim, perdia sempre!»

terça-feira, 26 de maio de 2009

Museu Geológico

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 24/05/09

-PATRIMÓNIO DE UMA RESPEITADA e saudosa instituição pioneira, nascida m 1857, sob o reinado de D. Pedro V, com a designação de Comissão Geológica do Reino, o Museu Geológico é a memória, que teima em não morrer, de uma instituição que prestigiou o País durante cerca de um século e meio, inexplicavelmente extinta em 2003, num grave atentado à Geologia portuguesa e sentida ofensa aos seus cultores.
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Nos tempos mais recentes, que me foi dado testemunhar, e sob a designação oficial de Serviços Geológicos de Portugal (desde 1917), foi notável a parceria que esta nobre instituição desenvolveu com as universidades nacionais, em especial com a de Lisboa, sobretudo, através dos professores Carlos Teixeira, Orlando Ribeiro e Torre de Assunção, meus mestres. A cartografia geológica do território nacional teve então progressos reconhecidos. Foram muitos os docentes desta Universidade que concluíram os seus doutoramentos com o suporte logístico dos Serviços Geológicos, e foram muitos os geólogos destes mesmos Serviços que se doutoraram na Universidade de Lisboa sob a orientação científica de alguns dos seus professores.
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Por portaria oficial de 1859, a velha Comissão Geológica do Reino ficou instalada em Lisboa, no 2º piso do edifício do antigo Convento de Jesus, na Rua da Academia das Ciências, e é aí que resiste o Museu Geológico, uma relíquia do século XIX, que não pode deixar de ser visitado. Este, que é o mais completo e valioso arquivo da geodiversidade portuguesa, foi constituído aquando da criação da citada Comissão, em especial, a partir dos exemplares colhidos pelos pioneiros e grandes vultos nacionais das Ciências da Terra, Carlos Ribeiro, Nery Delgado, Paul Choffat e por muitos outros que lhes seguiram as pisadas.
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Além do seu enorme valor científico, tem grande interesse histórico e museológico, uma vez que foi nas suas instalações que nasceram a Geologia e a Arqueologia portuguesas, como escreveu o Prof. Magalhães Ramalho, o seu incansável defensor e actual director. Igualmente, a vastidão das salas, o mobiliário e o modelo expositivo muito marcado pelas concepções museográficas e pelo estilo da época, conferem-lhe um carácter único no País, cuja importância patrimonial é reconhecida por especialistas dos vários cantos do mundo.
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As suas vastas colecções, nomeadamente, as de Paleontologia, Estratigrafia, Arqueologia e Pré-história do Homem, revestem-se de grande interesse científico como material de referência, continuando abertas aos investigadores nacionais e estrangeiros.
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Visita a não perder.

domingo, 17 de maio de 2009

SENHOR ENGENHEIRO

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 17/05/09
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- Ser engenheiro em Portugal é ser cidadão de primeira -, dizia um velho amigo meu, com anos e anos de trabalho de campo, nos saudosos Serviços Geológicos de Portugal, calcorreando montes e vales, umas vezes pela torreira dos estios, outras, por entre chuva, lama, e geadas de engadanhar pés e mãos, longe dos cómodos do lar, onde vinha aos fins de semana para estar com mulher e filhos e mudar de roupa.
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- É vê-los na política, nos conselhos de administração e em tudo o que são bons tachos -, dizia e continuava a desabafar. - Até num serviço como o meu, em que a geologia foi e continua a ser a razão de ser da sua existência, quem é que decide e manda? É um geólogo? Não! É um engenheiro, claro!
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Não é difícil perceber que esta era a razão principal daquela "pedra no sapato" do meu amigo geólogo, não só de profissão, mas também de coração, face à classe dos engenheiros. Nada que se compare com o tempo de permanência no terreno cumprido por este meu colega, também eu somei dias, semanas e meses de trabalho de campo, nos fins-de-semana e férias de anos e anos de docência. Numa destas andanças, fui protagonista de um episódio que dava razão a este meu amigo. Um belo dia, nos anos 70, andava eu entre a Vidigueira e Marmelar, de martelo na mão e uma bússola de geólogo pendurada ao pescoço, marcando, na Carta Militar 1:25 000, a natureza dos terrenos que ia reconhecendo, quando um pastor, acomodado à sombra de um sobreiro, curioso de me ver por ali naqueles preparos, meteu conversa comigo na sequência do «boa tarde» que lhe dirigi.
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- Então o senhor engenheiro aguenta este sol, sem chapéu na cabeça?
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Conversa puxa conversa e o homem sempre a tratar-me por engenheiro, até que resolvi dizer-lhe:
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- Olhe, amigo, não me trate por engenheiro, que é coisa que não sou. Engenheiros são esses fulanos que andam aí a marcar os pontos para as estradas e para os postes das linhas de alta tensão.
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A esta resposta, que não esperava, o pastor mirou-me de alto a baixo, intrigado.
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- Então, vossemecê não é engenheiro? Estão, não é nada? Tem de ser qualquer coisa que eu não estou a ver o que seja, - disse, por fim, como que a solicitar-me que lhe satisfizesse a curiosidade.
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Expliquei-lhe, então, o que fazia. Falei-lhe do terreno areento que tínhamos debaixo dos pés, do barro que havia bem perto dali e que se tornava lama pegadiça no Inverno, dos seixos, bem visíveis e abundantes à superfície do solo, semelhantes aqueles que se viam lá em baixo, na ribeira. Expliquei-lhe o porquê dessa semelhança e acrescentei:
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- As pessoas que, como eu, trabalham no campo, a ver e a estudar as rochas, chamam-se geólogos. Assim como há médicos e advogados, há geólogos. É uma profissão como outra qualquer.
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- Sim senhor -, respondeu, - agora já entendi.
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A sombra do Quercus era agradável e convidava à conversa. O badalar de um ou outro chocalho era relaxante e relaxante era também o rafeiro, sonolento, estendido ali ao lado. Sentado no chão e encostado a uma cortiça de nove anos, pronta a arrancar, ali fiquei com ele à conversa até à hora a que o Land Rover me aguardava no sítio combinado da estrada, pondo fim a mais um dia de trabalho de campo.

domingo, 10 de maio de 2009

Açores, um laboratório vulcanológico desaproveitado

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 10/05/09
Vulcão do Pico
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JÁ O TENHO ESCRITO por diversas vezes e afirmado em vários fóruns que é lamentável que não se promova uma certa regionalização no ensino da Geologia, nesta e noutras parcelas do território nacional. Aqui, onde o programa oficial é exactamente o mesmo que vigora nas escolas do continente, os professores, ao cumpri-lo obrigatoriamente, não lhes resta tempo para abordar, sequer, a única matéria face à qual dispõem de exemplos didácticos bem concretos, variados e abundantes.
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No conjunto das suas nove e belas ilhas, os Açores são um laboratório vulcanológico do maior interesse, excepcional, tendo em conta, não só as múltiplas expressões de uma prolongada e complexa actividade vulcânica passada e presente, como também o quadro tectónico, à escala global, onde se inserem, dada a sua localização no encontro de três grandes placas litosféricas (americana, eurasiática e africana), num chamado "ponto triplo", sobreposto a um muito provável hot spot (ponto quente), entendido como uma imensa fonte de calor em profundidade, no manto superior, e sem esquecer as investigações em curso nos fundos marinhos envolventes, com destaque para o hidrotermalismo a nível do substrato oceânico.
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Vêm estas considerações a propósito da recente instalação, no Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores (OVGA), em São Miguel, de um terminal electrónico que vai possibilitar ao cidadão, em geral, e aos estudantes, em particular, a observação em tempo real de alguns vulcões activos neste nosso planeta e ouvir as explicações que sobre eles são dadas por especialistas. Inserido na Rede Vulcanológica Internacional, o OVGA é mais um argumento a favor desta possibilidade de permitir à Região Autónoma promover o ensino, a sério, da Vulcanologia e demais temas a ela associados, nomeadamente, Petrologia, Geoquímica, Geodinâmica, Sismologia, Geotermia, entre os mais destacáveis.

Caldeira de colapso do Faial
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Cones vulcânicos imponentes e embrionários, testemunhos dos mais variados tipos de actividade, desde as escoadas lávicas de basalto às violentamente explosivas, com pomitos e ignimbritos, caldeiras de colapso, macro e microssismos, fumarolas e outras expressões de vulcanismo residual, há de tudo nestas belas paisagens da Macaronésia.
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E uma coisa é certa. A experiência mostra que um ensino deste tipo, praticando e aprofundando um dado tema, cria hábitos de trabalho e incentiva a procura da excelência, com reflexos positivos numa melhor atitude face às restantes disciplinas curriculares.

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«DN» de 9 de Maio de 2009

domingo, 19 de abril de 2009

Darwin tinha razão

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 19/04/09
-CONTRA A VISÃO DA IGREJA DE ENTÃO, que impunha para a idade da Terra uma cifra de escassos milhares de anos, o escocês James Hutton (1726-1797), considerado o pai da moderna Geologia, afirmava que os fenómenos geológicos tinham durações de muitos e muitos milhões de anos. Charles Lyell (1797-1875), continuador do pensamento de Hutton, advogava a necessidade de um tempo geológico suficientemente longo que permitisse explicar a grandiosidade dos efeitos da erosão e as consideráveis espessuras de sedimentos acumulados, na ordem de milhares de metros.
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No século seguinte desabrochava uma nova concepção da vida, para a qual a evolução biológica exigia muitíssimo tempo, constituindo um outro sério desafio aos ensinamentos da Igreja. Charles Darwin (1809-1882) encontrava nesta visão dilatada do tempo o suporte necessário às suas ideias sobre a evolução das espécies. Com base em estimativas várias, este ilustre naturalista chegou a valores na ordem das centenas de milhões de anos para o tempo geológico.
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Entretanto, o físico inglês, William Thomson (1824-1907), mais conhecido por Lord Kelvin, debruçava-se sobre a relação entre a temperatura interna do planeta, que supunha em arrefecimento, e a sua idade. Usou neste propósito os seus vastos conhecimentos de termodinâmica e o cálculo matemático, tendo estimado entre 20 a 98 milhões de anos o nascimento do nosso planeta, acrescentando que ele se teria tornado habitável há 20 a 40 milhões de anos.
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Confrontada entre estes números, saídos da física por via matemática, e os outros, estimados por naturalistas a partir de valores supostos de velocidade de erosão ou de sedimentação, a comunidade científica da época não hesitou. Os números de Kelvin, tidos por mais credíveis, arrasaram a vastidão do tempo pressuposta na concepção de Darwin, fazendo baixar drasticamente a idade da Terra, Aparentemente irrefutáveis, as premissas físicas utilizadas por Kelvin e a vénia pela matemática conduziram a valores que geólogos e biólogos não podiam aceitar.
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Com a descoberta da radioactividade, em 1896, passou a saber-se que os minerais com elementos radioactivos fornecem calor às rochas que os contêm. O calor da crosta terrestre não é apenas um calor residual da fornalha primitiva. É também o resultado da radioactividade associada às rochas. Foi o fim do arrefecimento global que serviu de fundamento aos cálculos do físico . Os valores para a idade da Terra (4570 milhões de anos), hoje aceites pela comunidade científica, dão plena razão ao ilustre naturalista, bem como ao igualmente ilustre geólogo James Hutton.


«DN» de 11 de Abril de 2009

terça-feira, 14 de abril de 2009

o mais radioactiva, melhor”

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 12/04/09
-JÁ LÁ VAI O TÃO AFAMADO tempo das termas e das águas medicinais, um privilégio de uns tantos, nascido em finais do século XIX. Preteridas progressivamente pela imensa, poderosa e democratizada oferta turística associada ao litoral e, sobretudo, às praias, as que ainda existem são relíquias da arquitectura e exploração hoteleiras do primeiro quartel do século XX. A par do seu uso, nos próprios locais, com instalações adequadas, algumas dessas águas passaram a ser comercializadas engarrafadas. Captadas, entre outras, ao longo de uma importante falha geológica, a mesma rotura da crosta terrestre que determinou a extensa depressão que se estende, para norte da Régua, até Verin (Ourense), já em Espanha, passando pela bela e fértil veiga de Chaves. Estas águas, ao circularem no granito, recebem dele, por contaminação, uma certa dose de radioactividade a níveis que, parece estar provado, não têm efeitos indesejáveis sobre a saúde de quem a bebe.
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Recuando à passagem do século XIX ao XX, com a descoberta da radioactividade, por Becquerel, em 1897, e do rádio, pelo casal Marie e Pierre Curie, em 1902, vamos assistir à utilização deste elemento químico radioactivo, associado ao urânio (elemento que, nessa altura, era considerado um material sem qualquer utilidade) na nossa mina da Urgeiriça (Nelas), numa então novíssima terapêutica, a designada radioterapia, ainda hoje aplicada em oncologia, já não com o dito elemento rádio, mas com substitutos mais eficazes e de manipulação menos perigosa, como é, por exemplo, o cobalto radioactivo. Radioactividade era, assim, nesses anos, o dernier cri em medicina. Como tal, a palavra tinha uma conotação altamente positiva, tendo-se tornado comercialmente interessante. Neste enquadramento, assistiu-se à valorização deste processo natural na publicidade destas águas que, além de carbonatadas sódicas e carbogasosas, com base em análises disponibilizadas pela então Direcção-Geral de Minas e Serviços Geológicos, passaram a estar rotuladas, de "fortemente radioactivas".
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Nessa época ninguém imaginava o que viriam a ser, anos depois, os trágicos acontecimentos de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, com mais de 200 000 mortes de civis. Com esta tragédia a radioactividade passou, de imediato, a estar associada à bomba atómica, uma associação sempre renovada com os lamentáveis acidentes em centrais nucleares como foram os de Three Miles Island, na Pensilvânia, em 1979, e de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986. Radioactividade tornou-se, assim, palavra proscrita e, nessa medida, a sua alusão nos rótulos e na publicidade destas águas desapareceu como por encanto.