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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

POSTAL DE WAGENINGEN. ENTRE A HISTÓRIA E O AFECTO

POSTAL DE WAGENINGEN. ENTRE A HISTÓRIA E O AFECTO

via Justino Pinto de Andrade by Justino on 9/29/10

1. Envio-vos este "postal" a partir de um dos países mais antigos e mais simbólicos da Europa – um país de que se conhecem vestígios humanos há, pelo menos, 100.000 anos. Estou por alguns dias nos Países Baixos, incorrectamente chamados Holanda, pois as "Holandas" são apenas duas das suas doze Províncias, a Holanda do Norte e a do Sul. Ler mais

sábado, 30 de janeiro de 2010

O FIM DA LIVRARIA BUCHHOLZ

O FIM DA LIVRARIA BUCHHOLZ

via Justino Pinto de Andrade by Justino on 1/5/10
1. O encerramento, por falência, da Livraria Buchholz, entristeceu-me. Conheci a Buchholz e frequentei-a. Sempre que regressei a Lisboa, visitei-a. Fi-lo, às vezes mesmo, pelo simples prazer de a percorrer. É que eu sempre gostei de livrarias, de livros, mesmo até sentir o prazer de apreciar as suas estantes e prateleiras.

2. Em Luanda, nesta Luanda de agora, não posso dar vazão ao meu prazer pelas livrarias, por várias razões: porque elas existem em número exíguo; porque as poucos que existem, nem sempre possuem o conforto que gosto de desfrutar; porque estacionar o meu carro em local próximo e seguro é já uma miragem.

3. No período colonial, em Luanda, havia não só livrarias consagradas, mas, igualmente, livreiros consagrados. Em muitos casos, os livreiros eram nossos cúmplices. Alguns desses livreiros tiveram um papel importante na minha tomada de consciência e no meu enriquecimento cultural. Houve livreiros que nos guardavam livros declaradamente proibidos, ou que tornavam suspeito quem os lesse. Tínhamos a Lello, o Centro do Livro Brasileiro, a Argente Santos, a Minerva, quer a da Baixa, quer a do São Paulo.

4. Herdámos do nosso pai e da nossa mãe o hábito da leitura e o respeito pelos livros. Qualquer um deles possuía os seus próprios livros. Por isso, fui assíduo utilizador dos livros da Biblioteca da Câmara e também da Biblioteca do Liceu Salvador Correia, onde estudei. Mantive esse estilo de vida, enquanto vivi em Lisboa. Daí o meu carinho especial pela Buchholz.

5. A Buchholz teve sempre frequentadores de referência. Por norma, eram homens e mulheres da sociedade portuguesa: políticos, gente de cultura, académicos, também gente ligada a profissões liberais. Foi também muito requisitada por estudantes do ensino superior. Antes de frequentar a Buchholz, eu já ouvira falar dela como uma livraria de referência. Tinha, pois, um enorme simbolismo.

6. A Livraria Buchholz não estava muito exposta. Estava recatada, quase sobre a esquina da Rua Duque de Palmela, na Baixa da cidade. Era emblemática. Dentro da Buchholz respirava-se conforto e serenidade. Um ponto de encontro seguro. Depois, procurava-se um outro local para trocar um bom dedo de conversa, geralmente nos seus arredores. Ou então, caminhava-se num qualquer dos sentidos da Avenida dos Restauradores. Fiz isso algumas vezes.

7. Quando alguém me perguntasse onde nos poderíamos encontrar, em função do interlocutor e da conversa, eu escolhia o local. Se fosse alguém com os mesmos interesses intelectuais e científicos que eu, a resposta era quase inevitável: "Na Buchholz, na Duque de Palmela. Depois, logo se vê para onde vamos!"

8. Foi na Buchholz que estive com o Mário Pinto de Andrade, no nosso derradeiro encontro, poucos dias antes da sua morte. Eu, o Mário, o Vicente. Coube ao Mário escolher o local. Afinal, a Buchholz também exercia sobre ele um forte poder atractivo. Inclusive, o Mário era conhecido, e até mesmo amigo de algumas das suas empregadas. Registei, por exemplo, a excitação de uma delas, sua amiga de longa data, quando nos reconheceu como parentes. Também ficámos amigos, até hoje. Revelou a mim e ao Vicente que um dia esteve tentada a seguir o Mário, a ir trabalhar com ele, quando ocupou o cargo de Ministro da Informação e Cultura na Guiné-Bissau, no governo do também já falecido Luís Cabral. São memórias que perduram, que o tempo não apaga… Elas dão um sentido melancólico à vida, emprestado-lhe um singular significado.

9. Uma das características marcantes no Mário era a modéstia. Por isso, levou-nos a almoçar num restaurante relativamente simples, de classe média. O restaurante era ali mesmo junto da Buchholz – ficava do outro lado da rua. Comemos e falámos de muita coisa. Naturalmente, falámos de cultura, da família, de política. Trocámos informações. Esse meu último encontro com o Mário foi quase uma conspiração. Foi um encontro de velhos camaradas de trincheira política. Gente que partilhou cumplicidades.

10. Do ponto de vista anímico, o Mário estava bem, e parecia determinado a retomar o percurso político. Disse-nos que era a altura de fazermos de novo alguma coisa em conjunto. Assim, contribuiríamos, mais uma vez, para a pluralidade de ideias. Urgia, pois, criar um novo espaço democrático, retomar o perfil do MPLA original, reagrupar a gente sã que nele existia. O Mário queria a nossa opinião, queria saber se isso ainda tinha viabilidade, no novo contexto.

11. Aí estava novamente o Mário a convocar-nos, naquele que seria o seu derradeiro esforço. Traçámos projectos de intervenção. Parecia que, por dentro daquele corpo frágil, reemergia o espírito do leão. Por isso, senti uma tremenda comoção por vê-lo ali, firme, determinado, entusiasta, depois de ter feito tudo o que fez na vida… Ainda com vontade de retomar o percurso da nossa terra.

12. Voltámos à Buchholz para nos despedirmos das suas amigas. Seguimos, então, em busca de uma farmácia, porque o Mário sentia-se ligeiramente apoquentado. Era, aparentemente, um simples mal-estar que, disse-nos, estar a sentir desde que regressara de uma recente viagem de pesquisa nos Estados Unidos, onde estivera a investigar, para fundamentar os seus próximos trabalhos. Que o Embaixador de Angola, Manuel Pedro Pacavira, o convidara a almoçar em sua casa. Que, depois desse almoço, nunca mais se sentira bem. Era aquele mal-estar persistente… Que comprara também um computador portátil, pequeno, barato, mas muito prático, etc. Estávamos, pois, a caminho da farmácia, ali próximo, na subida da Bramcamp. Nós os três: eu, o Mário, o Vicente. Duas gerações separadas por cerca de 20 anos. Mas duas gerações unidas na causa. Para além do sangue…

13. Ainda tivemos um pouco de tempo para dar uma saltada até à Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII. Depois, o último adeus ao Mário. Até hoje…

14. Passados dias, o seu estado de saúde agravou-se. Foi hospitalizado no Egas Moniz, em Lisboa. Posteriormente, transferido para um hospital de Londres. E aí faleceu, dois ou três dias antes de fazer 62 anos de idade. Tudo isso aconteceu em Agosto de 1990. Para mim, este último encontro deu mais simbolismo à Livraria Buchholz.

15. Foi na Buchholz também que tomei conhecimento da vontade do Presidente da República, Eduardo dos Santos, de dotar o seu gabinete de livros de economia, penso que para servir de material de consulta para os seus assessores e colaboradores. Foi um seu assessor na época, meu ex-aluno na Universidade, que foi à Buchholz comprar livros, por especial recomendação de Eduardo dos Santos, segundo me disse. Fiquei satisfeito. Era bom que assessores de Eduardo dos Santos tivessem um mais fácil acesso aos livros, para melhor o ajudarem no entendimento da complexidade da matéria económica. Eis, pois, mais outro motivo para o simbolismo da Buchholz.

16. Priorizei sempre essa Livraria para me municiar de livros. Foi também lá que, de uma assentada, comprei os primeiros 15 livros de Direito para a minha filha Katila, quando ela ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. Fiz-lhe, então, a recomendação de que deveria constituir a sua própria biblioteca. Que deveria cuidar dela, como se de um filho se tratasse. Ela ouviu-me e assim faz.

17. Para mim, a Livraria Buchholz é memória. Ela deixa saudades, marca um pouco o meu percurso intelectual e científico, tal como a Lello, o Centro do Livro Brasileiro, a Biblioteca da Câmara de Luanda.

18. A Buchholz não resistiu às incidências da crise mundial que abalou muitos bolsos e descomandou muitas contas. Por isso, ela faliu. No confronto inevitável entre as receitas e os encargos, perderam as receitas, e sobressaíram os encargos. Muitos clientes deixaram de poder honrar os seus compromissos. Desaparece, assim, a Buchholz, deixando uma fila enorme de credores e uma dívida de 1,3 milhões de euros.

19. Foi esse, pois, o destino de um dos emblemas da Lisboa Científica e Cultural, uma marca que ajudou a formar gerações. Não só gerações de portugueses mas, igualmente, gerações de angolanos e, seguramente, de outras nacionalidades.

20. Quando eu regressar a Lisboa, vou sentir a sua falta. Sei que o seu espaço vai continuar a ser uma Livraria da Coimbra Editora. Se mantiver o velho perfil, terei apenas que me habituar à sua nova denominação. Se não, terei que "emigrar" para um outro espaço da cidade, em busca do conforto espiritual que a Buchholz me transmitia.

21. Seguramente, daqui a muitos anos, talvez ela já não seja lembrada com este sentimento de perda. Afinal, a minha geração, e também as outras gerações passarão, tal como passou a geração do Mário Pinto de Andrade.

MORREU CODÉ DI DONA

via Justino Pinto de Andrade by Justino on 1/13/10
1. Em cerca de três meses, a música e a cultura cabo-verdianas perderam dois grandes vultos: Manuel d'Novas e Codé di Dona.

2. Manuel d'Novas era um renomado poeta e compositor, e faleceu aos 28 de Setembro último, aos 71 anos, no Hospital Baptista de Sousa, na Ilha de São Vicente. Segundo se disse, a sua morte adveio das sequelas de um AVC (Acidente Vascular Cerebral) que o atingira há três anos, em Portugal.

3. Manuel d'Novas foi dos mais privilegiados compositores de mornas e coladeiras. Nasceu na Ilha de Santo Antão, tendo feito, porém, quase toda a sua vida no Mindelo, a capital da Ilha de São Vicente, que o adoptou como um filho. Foi autor de algumas das mais belas músicas interpretadas por Cesária Évora ou por Bana. Nunca me canso de ouvir, por exemplo, "Apocalipse", "Cumpade Ciznone", "Lamento d'um Emigrante", "Nôs Morna".

4. Pensar em Manuel d'Novas faz-me também retornar às letras e às músicas de B. Leza, como "Eclipse", "Noite de Mindelo", ou mesmo "Lua Nha Testemunha", esta, um autêntico hino. E porque não as composições de Eugénio Tavares?

5. Dizem os estudiosos da música cabo-verdiana que a morna nasceu na Ilha da Boavista, passando depois para as restantes ilhas do Arquipélago, "adaptando-se e tomando a feição psíquica de cada povo", como escreveu Eugénio Tavares.

6. Sobre a morna, Eugénio Tavares disse ainda mais: "Na Boavista, a morna não se elevou na linha sentimental; antes, planou baixo, rebuscando os ridículos de cada drama de amor, cantando o perfil caricatural de cada episódio grotesco, ironizando fracassos amorosos, sublimando a comédia gentílica das Moias (naufrágios de navios tão frequentes nas costas da ilha), tudo no estilo leve e arrebitado que afeiçoa a vida despreocupada do povo boavisense, o mais alegre, e o mais amorável de entre as gentes do Arquipélago. Música elegante psicatada de sorrisos finos e harmonias ligeiras. Na Ilha Brava em que os homens casam com o mar, como no poema de Pierre Loti, a dulcíssima estância da saudade, mercê da vida aventureira e trágica do seu povo, a morna fixou os olhos no mar e no espaço azul, e adquiriu essa linha sentimental, essa doçura harmoniosa que caracteriza as canções bravenses. Elevou-se de riso e pranto, e finou, amorosamente, pelo portuguesíssimo diapasão da saudade." Oh, meu Deus, quão poética é esta prosa de Eugénio Tavares…

7. Desde pequeno, tive o ensejo de ouvir canções de Eugénio Tavares. Muito em especial, e com um tremendo enlevo, eu ouvia "A Canção ao Mar – O Mar Eterno", de que destaco aqui as primeiras estrofes:

"Oh mar eterno sem fundo sem fim
Oh mar das túrbidas vagas, oh! mar
De ti e das bocas do mundo a mim
Só me vem dores e pragas, oh mar

Que mal te fiz, oh mar
Que ao ver-me pões-te a arfar, a arfar
Quebrando as ondas tuas
De encontro às rochas nuas

Suspende a zanga um momento e
escuta
A voz do meu sentimento na luta
Que o amor ascende em meu peito
desfeito
De tanto amar e penar, oh mar"

Na minha infância, a minha mãe, Maria Luzia, filha de um cabo-verdiano de origem judaica, natural de Santo Antão, cantava esta música, quase em pranto. Era para nós quase uma cantiga de ninar. Esse e outros poemas marcaram-me o sentimento e despertaram a minha curiosidade para a leitura dos livros de Baltazar Lopes, Manuel Lopes, Aurélio Gonçalves, Gabriel Mariano, Onésimo Silveira e outros vates da cultura do Arquipélago.

8. A Morna, tida como o género musical mais representativo do povo cabo-verdiano, foi, por isso, um objecto do mais aprofundado estudo. A Coladeira, mais ritmada que a morna, em alguns casos, tida mesmo como uma aceleração da morna, é hoje também uma fiel companheira das noites cabo-verdianas. Ao longo do tempo, a coladeira foi sofrendo múltiplas influências, quer vindas do outro lado do Atlântico, quer mesmo idas do nosso próprio continente.

9. Coube agora a vez a Codé di Dona, falecido no dia 5 de Janeiro, no principal hospital da cidade da Praia, o Hospital Agostinho Neto. O texto do seu obituário dizia apenas que foi vítima de "doença prolongada".

10. Quando leio ou escuto a expressão "doença prolongada" ganho inteira liberdade para imaginar qualquer maleita, da mais conhecida e corriqueira até à mais sombria e enigmática. Porém, do que li e, depois, percebi, provavelmente Codé di Dona tenha sido mais uma vítima da muito temida doença pulmonar – a tuberculose. Seja essa, seja outra doença, afinal, o que mais importa é que, no dia 5 de Janeiro, Cabo Verde perdeu um dos seus mais emblemáticos compositores. Codé di Dona foi justamente consagrado como Rei do Funaná.

11. O Funaná é um género musical e uma dança nascidos no interior da Ilha de Santiago, a ilha mais africana das dez ilhas que compõem o Arquipélago de Cabo Verde. Com a adaptação de novos instrumentos musicais electrónicos que se juntaram à gaita (o acordeão) e ao ferrinho, o Funaná ganhou espaço não somente na capital, mas, igualmente, nas outras ilhas.

12. Daí, seguramente, o sentimento colectivo de perda que invadiu todo o Arquipélago de Cabo Verde, quando se anunciou a passagem para a eternidade desse grande músico e compositor, Codé di Dona. É assim que se tece o tempo e se compõe a história, umas vezes com felizes entradas, outras com tristes saídas…

domingo, 26 de abril de 2009

Quatro ex-prisioneiros doTarrafal interrogam o último carcereiro



O núcleo de Luanda do MPLA pretendia instalar a guerrilha urbana na cidade capital de Angola e em outras cidades da Província. Pela ligação a militares metropolitanos é, bem possível, que também tivesse pretensões de espalhar o terror nas cidades da Metrópole. Uma coisa sei, este grupo de mpelistas pretendia provocar a morte e a desolação entre a população civil de Luanda e de outras cidades de Angola. Foram descobertos pela PIDE e presos.

Aqui, num comentário, MUSOKO informa que o grupo foi descoberto devido à acção de «um português de alcunha «Lua» ou «Vostok», camionista, que hoje reside em Portugal.»
Como os portugueses, no seu todo de nação pluriracial e pluticontinental, e, em especial, os luandenses, deveriam estar profundamente gratos a este anónimo compatriota que os salvou de terríveis horrores, ou seja, este compatriota impediu que se concretizasse o objectivo do inimigo e que era o de espalhar o terror entre a população civil da cidade de Luanda e, previsivelmente também, em cidades da Metrópole.
Onde está um nome de rua, um nome de praça que perpetue este acto de profunda humanidade?
Neste país traído e amputado devido à acção de uma corja de canalhas mais facilmente se homenageiam os nossos inimigos e os criminosos que tanto mal fizeram a Portugal e aos portugueses.
Que tempos horríveis, de tamanha ingratidão e de tantas mentiras!
Rui Moio

ESPECIAL COMEMORAÇÕES DO 25 DE ABRIL DE 1974Quatro ex-prisioneiros doTarrafal interrogam ... « Especial comemorações do 25 de Abril de 1974 « Dossiês « Dossiês « Página Inicial |

Quatro ex-prisioneiros doTarrafal interrogam o último carcereiro

Justino e Vicente Pinto de Andrade, Luís Fonseca e Edmundo Pedro, todos ex-detidos no campo de trabalho do Tarrafal, fizeram, através do Expresso, um cerrado interrogatório ao antigo carcereiro, Eduardo Vieira Fontes, que vive nos EUA. Perguntas e respostas recolhidas por José Pedro Castanheira.

José Pedro Castanheira
9:30 Sábado, 25 de Abr de 2009
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"Chorei no dia em que mataram Amílcar Cabral"

Justino Pinto de Andrade.

Quatro ex-prisioneiros doTarrafal interrogam o último carcereiro
Angola, 61 anos, director da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Católica de Luanda. Esteve preso no Tarrafal de 1970 até ao seu encerramento, a 1 de Maio de 1974. Militante do MPLA, havia sido condenado a oito anos de cadeia.
Será que acreditava que o "Império Colonial" jamais terminaria?
Nunca pensei em Portugal e nas colónias em termos de Império. Acreditei que Portugal seria capaz de construir uma comunidade de nações amigas, cada qual com o seu Governo e Parlamento, que pudessem enfrentar juntas o futuro, com mais segurança que agora. Era esse o meu sonho, e não esse império. Como assinalei no meu livro, fiquei chocado com o estado em que encontrei Angola, depois de 500 anos de presença portuguesa.
Nunca lhe passou pela cabeça que o facto de estarmos ali presos, indivíduos de várias gerações e de origens sociais diversas, era uma clara demonstração da justeza da nossa causa?
Nunca pensei nesses termos. Para mim, os prisioneiros pertenciam apenas a organizações políticas proibidas.
Qual foi a sensação que teve no dia em que fomos libertados e o senhor director ficou ali retido, no seu gabinete, à guarda dos militares?
À guarda dos militares? Não é verdade. Dei um abraço a muitos, entre eles o próprio Justino. E houve um outro, também de Angola, que me deu um abraço tão apertado que fiquei sensibilizado, ao mesmo tempo que me dizia: "acredite que sou seu amigo!"
Hoje, sabendo que Cabo Verde é tido como "um bom exemplo de gestão económica e política em África", não sente que valeu a pena a sua independência?
Em Cabo Verde, o povo não lutou pela sua independência. E os políticos combateram foi pela unidade da Guiné com Cabo Verde. Eu não concordava com isso. Por Cabo Verde, aceitaria; com a Guiné, não! Mas o povo não foi consultado. E Portugal abandonou Cabo Verde - como não abandonou os Açores ou a Madeira. É isso que nunca entendi e não posso esquecer.
Que sensação teve quando tomou conhecimento da morte de Amílcar Cabral, seu colega de escola?
A minha mulher Regina que o diga: ela chorou. E eu também. Quem não chorou?! Dormimos juntos numa caminha de solteiro, na galhofa toda a noite, lembrando-nos dos tempos passados juntos no liceu. Eles não conheceram o Amílcar. Eu conheci!
Sem a pressão da PIDE, teria ido dar a notícia aos presos da morte de Cabral, nos termos em que fez, como se fosse uma "boa notícia"?
Pressões da PIDE? Essa está boa! A PIDE estava na Praia e a do Tarrafal não metia lá o bedelho.
Lembra-se quando, no refeitório do Tarrafal, ao almoço, Justino Pinto de Andrade se recusou pôr-se de pé na presença dos pides, e depois foi de castigo para a Cela Disciplinar?
Pides no Tarrafal? Nunca os pides estiveram no Campo de Trabalho senão comigo e para acompanhar a visita de individualidades vindas da Europa e que queriam conhecer o campo. Convencidos que era a PIDE quem mandava no campo, dirigiam-se ao posto do Tarrafal, que os acompanhavam até ao campo. Só isso. Assim se constrói a mentira.
Mesmo sendo o Director do Campo, não sentiu dentro de si, como africano, uma pontazinha de orgulho por um jovem, na altura com 23 anos de idade, manter o espírito combativo com que tinha entrado para a prisão?
Nunca senti esse espírito combatente. Não houve um só preso que tivesse lá estado por denúncia ou por ordem minha. Não pus ninguém na cadeia. Enquanto lá estive, tratei-os a todos com dignidade e humanidade.

"A PIDE não decidia nada no Campo de Trabalho"


Vicente Pinto de Andrade

Quatro ex-prisioneiros doTarrafal interrogam o último carcereiro
Angola, 59 anos, professor de Sociologia e Economia da Universidade Católica de Luanda. Na cadeia, teve um percurso em tudo idêntico ao seu irmão Justino. No ano passado, anunciou a sua candidatura a Presidente da República.
Por que razão chegou a censurar um pedaço de um discurso do Prof. Marcelo Caetano, publicado no jornal "Arquipélago", numa altura em que o mesmo já era Presidente do Conselho de Ministros?
Não me lembro. A correspondência passava pelos guardas prisionais antes de vir a mim. Isso pode ter sido uma patifaria feita por um deles, não sei, mas eu não fui.
A decisão de nos oferecer o passeio à ilha de Santiago, depois das provas desportivas que nós organizámos, foi decisão sua, ou foi preciso o aval da PIDE?
A PIDE não decidia nada, absolutamente nada, noCampo de Trabalho. A PIDE nunca soube disso.
Qual o sentimento que nutria por pessoas como eu e o meu irmão Justino, uma vez que teve acesso às cartas que nós escrevíamos aos nossos familiares e amigos?
Que era boa gente e que a mãe tinha uma grande coragem. Eu tinha muita pena deles e da mãe, sobretudo desta - já que eles estavam a cumprir uma missão.

"Estou de bem com a minha consciência"


Luís Fonseca

Quatro ex-prisioneiros doTarrafal interrogam o último carcereiro
Cabo Verde, 64 anos, é um dos mais cotados diplomatas do país. Foi até há pouco tempo o secretário-executivo da CPLP. Antes, esteve à frente das embaixadas em Haia, Moscovo e Nova Iorque (ONU). Militante do PAIGC, esteve no Tarrafal durante três anos e meio, tendo sido libertado em Fevereiro de 1973, após o assassínio de Amílcar Cabral. Natural de Santo Antão, está conotado com o PAICV, o partido no poder.
No dia da chegada de um grupo de presos cabo-verdianos ao Campo de Concentração o Director mandou sair da cela disciplinar o poeta e preso político angolano António Cardoso e, depois de uma altercação entre os dois ordenou ao Chefe dos Guardas: "Ó Sr. Reis, dê uma tosa neste gajo" Seguiu-se uma sessão de bastonadas, após o que António Cardoso foi de novo atirado para o isolamento, a pão e água. Tratava-se de um problema pessoal com António Cardoso ou foi um pretexto para avisar os cabo-verdianos que acabavam de chegar?
Não foi isso que se passou. O que conta é uma meia verdade. O António Cardoso não se levantou quando eu passei por ele. Ora, quando eu recebia os presos no meu gabinete, levantava-me e recebia-os em pé, com todo o respeito. Exigia que me tratassem de igual modo. Admoestei-o por isso, ao que ele respondeu de uma forma intempestiva e agressiva. Mandei então um guarda pô-lo na cela disciplinar, mas ele atirou-se ao guarda, que puxou do bastão e abriu-lhe uma pequena ferida no sobrolho. Mas não foi sovado. Aliás, depois, até chamei o guarda e recriminei-o: "Não devia ter feito aquilo". Mandei-o depois para a cela. Foi isto que se passou. As cadeias têm as suas regras.
O Director correspondia-se directamente com a PIDE em Angola e Cabo Verde, como atestam ofícios disponíveis na Torre do Tombo, nos quais ele tece várias considerações sobre a melhor forma de "recuperar" os presos, indicando, por exemplo, medidas restritivas relativamente às leituras que poderiam ter. O cargo de director do Campo implicava este tipo de colaboração, fazia igualmente parte das suas atribuições receber orientações directamente da PIDE ou tratava-se de um esforço para ser bem visto pela polícia política?
O jornalista viu o meu processo na PIDE. Tive muita alegria em ver os elementos que me mostrou. Não houve cartas minhas para a PIDE. Isso são tudo fantasias e mentiras. É incrível! Não lhe disse que tinha inimigos? A verdade é que fui perseguido pela PIDE em Angola e desterrado, com a minha mulher e os nossos quatro filhos, para a Baía dos Tigres.
Qual foi o objectivo de levar o escritor Manuel Lopes a visitar os presos políticos cabo-verdianos dentro das instalações do Campo, onde jamais era permitida a entrada dos familiares dos presos? De quem partiu a iniciativa?
Foi do próprio Manuel Lopes, que pediu para visitar os presos. Eu não escondia nada do campo de trabalho, que foi visitado por muitas outras pessoas. Incluindo, por duas vezes, pela Cruz Vermelha, que só teve palavras de elogio quando comparadas com as restantes prisões de África.
Aristides Barbosa, um dos presos guineenses regressados a Bissau em 1969, beneficiou, enquanto recluso, de privilégios especiais, sendo muito amigo do Chefe dos Guardas, de nome Reis, que não se cansava de elogiar a sua inteligência e outras supostas qualidades. Qual a razão desse tratamento privilegiado?
Desconhecia completamente isso. Nunca me constou essa intimidade com o Reis. A minha intenção era recuperar de facto os prisioneiros políticos, tratando-os com toda a dignidade e humanidade, para se integrarem novamente na sociedade. Tentei inclusivamente reconciliar os homens do MPLA e da UNITA, e disse-lhes isso mesmo. Mostrei-lhe documentação que revela isso mesmo.
Aristides Barbosa foi, mais tarde, associado ao assassinato de Amílcar Cabral, tendo sido condenado à morte e executado. O Director estava a par das relações de Aristides Barbosa com a PIDE e dos planos existentes para eliminar Amílcar Cabral?
Não! Se eu soubesse, dava com a língua nos dentes, através do governador de Cabo Verde, que não deixaria de alertar o governador da Guiné. Eu era amigo e admirador de Amílcar Cabral. A minha mulher também. Era um rapaz sensato e educado. É pena que o governo central não tivesse ouvido o Amílcar como ele queria. É muita pena.
O Director esmerou-se em "recuperar" os presos políticos cabo-verdianos e várias vezes recomendou a manutenção das medidas de segurança para os manter no Campo, muito tempo depois de terem cumprido as penas a que tinham sido condenados. Afirmou a várias pessoas que se orgulhava perante Deus de cumprir o seu dever como Director do Campo. Cabo Verde é um país universalmente reconhecido como tendo grandemente beneficiado da independência, contra a qual Eduardo Fontes tanto se empenhou enquanto director do Campo. 34 anos após o encerramento do Campo, continua a orgulhar-se do seu papel nos anos em que esteve à frente da instituição prisional?
Sim. Estou de bem com a minha consciência. Não me arrependo nada de ter ido para lá. Mas eu não tinha poderes para manter os prisioneiros na prisão. É uma falsidade. Podia propor a prorrogação das penas, se os presos tivessem mau comportamento. Mas isso não aconteceu. Relativamente aos cabo-verdianos, não propus a continuação das medidas de segurança. O próprio Luís Fonseca saiu antes de terminar a pena, em liberdade condicional proposta por mim. Ele próprio me agradeceu em carta que então me enviou. Ele lembra-se certamente da carta que me escreveu - e que, infelizmente, desapareceu do meu arquivo.

"Era um funcionário, tinha que cumprir ordens"


Edmundo Pedro

Quatro ex-prisioneiros doTarrafal interrogam o último carcereiro
Portugal, 90 anos, foi um dos portugueses que "estreou" o campo do Tarrafal quando este foi aberto por Salazar, em 1936. Era então um jovem comunista, de 17 anos. Militante do PS, é um dos dois únicos portugueses "tarrafalistas" ainda vivos. Apesar de não ter conhecido Eduardo Fontes, acedeu em colocar-lhe uma pergunta.
Porque razão demorou tanto tempo a libertar os presos, entre 25 de Abril e o 1º de Maio?
Fiquei à espera de ordens. Logo nos dias seguintes ao 25 de Abril - não posso precisar a data -, quando tive a certeza do que se tinha passado, propus o encerramento do campo e a libertação de todos os presos políticos. Fiz essa proposta ao governador de Cabo Verde, a quem competia depois apresentá-la ao Ministério. Essas eram as vias hierárquicas - o governador é quem despachava com o ministro. Estive, pois, a aguardar ordens. Não me arrependo. Era um simples funcionário. público, que tinha que cumprir ordens.

Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 25 de Abril de 2009, 1.º Caderno, páginas 18 e 19.

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O 1º PROCESSO DE MARCELO
Musoko, 2 pontos , ontem às 10:30
Recordo-me. O Vicente e o Justino faziam parte de um enorme grupo de militantes clandestinos do MPLA (grupo de acção Kimangua integrado no Comité Regional de Luanda do MPLA) que começou a ser preso em Luanda em fins de 1969. Essse grupo era constituído por pescadores da ilha de Luanda, operários, estudantes secundários e do ensino superior e militares do exército português. O primeiro a ser preso foi Juca Valentim (morto em 27 Maio de 1977), que não foi para o Tarrafal.
A Pide dividiu o processo em três.
Os presos brancos foram enviados sob prisão para a cadeia de Caxias em Fevereiro de 1970; os presos mais «intelectualizados», «mestiços» e considerados mais «perigosos» foram enviados de barco para o Tarrafal; os presos considerados mais «básicos» foram para o campo de trabalho de S. Nicolau em Moçâmedes.
Só os dois presos brancos foram julgados, integrados num processo com o Joaquim Pinto de Andrade (defendido pelo dr. Mário Brochado Coelho e condenado a 3 anos de cadeia).
Os outros, inclusive o Justino e o Vicente não foram julgados nem condenados judicialmente, sendo alvo de medidas administrativas impostas pela Pide, creio que de 12 anos. O porta-voz do Presidente angolano. Aldemiro da Conceição, também fazia parte desse grupo.
Quem estava «infiltrado» nesse grupo era um português de alcunha «Lua» ou «Vostok», camionista, que hoje reside em Portugal.
Quem dirigiu as prisões e os interrogatórios foi o chefe de Brigada Vieira.

Fonte: Jornal Expresso de 25Abr2009