Mostrar mensagens com a etiqueta Paulo Jorge de Sousa Pinto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Paulo Jorge de Sousa Pinto. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Era uma vez… Portugal (XIII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 19/04/09

D. FRANCISCO MANUEL DE MELO

São por demais conhecidos, na História da Literatura Portuguesa, alguns autores que aliaram a produção literária á dura vida de soldado, sendo os casos mais citados os de Luís de Camões, Diogo do Couto e Fernão Mendes Pinto. Todos conhecem a célebre alocução do Poeta em trazer numa mão a espada, e noutra a pena, sintetizando a ligação entre a escrita e a vida militar. Vamos hoje falar de uma personagem que personifica na perfeição esta imagem. Trata-se de um dos maiores nomes da Literatura Portuguesa do século XVII, por vezes um pouco esquecido, e cuja riqueza do seu trabalho é bem a medida da sua vida aventurosa e atribulada: D. Francisco Manuel de Melo.

D. Francisco Manuel de Melo nasceu em Lisboa, a 23 de Novembro de 1608. Descendia de família fidalga, pelo menos por parte do pai. A sua infância e juventude foi a normal para um elemento da nobreza do seu tempo: teve a sua educação no Paço, e estudou no colégio de Santo Antão, da Companhia de Jesus. Tendo manifestado uma especial inclinação para a Matemática, escreve a sua primeira obra aos 17 anos, nesta disciplina. Porém, logo com esta idade viria a virar-se para a vida militar, que seguiu até ao fim da sua vida. Aos 18 anos teve então o seu baptismo de fogo: em 1626 embarca numa armada destinada a esperar as naus da Índia. Nesta época, a navegação portuguesa, sobretudo os navios que regressavam do Oriente carregados de ricas mercadorias, sofriam o assalto constante de corsários holandeses e ingleses, pelo que a protecção dos navios de carga era uma preocupação constante. De qualquer modo, esta primeira incursão de D. Francisco Manuel de Melo nas lides da guerra foi uma experiência terrível, pois uma tempestade fez dispersar a armada pelas costas do norte de Espanha e a fez naufragar. O desastre, de que a má organização da armada foi em parte culpada, havia de marcar o autor, que lhe dedicou mais tarde uma das suas Epanáforas, a Epanáfora Trágica. É o próprio que confessa a forma como o episódio marcou a sua vida e a sua personalidade:

"Cumprindo-se hoje trinta anos que passei este naufrágio, me está a memória com tanta viveza representando aqueles trabalhos, como se realmente agora me vira entre eles".

Nos anos seguintes, D. Francisco Manuel de Melo vive a vida da Corte a que se dedica com algum empenho, repartindo o tempo entre a escrita, os corredores dos palácios de Madrid e a vida militar. É por esta altura que escreve as suas primeiras obras em verso. Tal como Camões, era irrequieto e turbulento, tendo ficado registado o duelo que trava com um castelhano em plena cidade de Lisboa. Porém, ao contrário do Poeta, D. Francisco Manuel de Melo ultrapassa este percalço sem dificuldade. Pelo contrário, consegue uma boa posição na corte, em grande parte pelos seus serviços militares. É primeiro armado cavaleiro, depois capitão, e finalmente em 1634 é admitido na Ordem de Cristo. É com o agravamento das condições de vida em Portugal, com o despoletar das revoltas que mais tarde conduzirão á Restauração, que a sua vida irá mudar substancialmente.

Até esta altura, D. Francisco Manuel de Melo não havia despertado ainda para os problemas políticos. Eis então que, em 1637, estala a revolta de Évora. Devido ao seu prestígio e ás capacidades que lhe eram reconhecidas, é enviado como representante do Duque de Bragança, e depois como embaixador de Filipe IV, para conduzir os contactos e as negociações com os rebeldes. Parece que o governo espanhol não terá ficado muito satisfeito com a sua acção, pois envia-o de imediato para a Flandres. Será preso pouco depois, por motivos desconhecidos, mas que indicam já um mau relacionamento com o governo espanhol. No ano de 1640, nas vésperas do 1º de Dezembro, D. Francisco Manuel de Melo está na Catalunha, comandando um exército com o objectivo de combater a revolta contra o governo de Madrid. Quando estala igual rebelião em Portugal, é acusado de simpatia para com os revoltosos e preso durante quatro meses. Acabará por alcançar a liberdade, mas foge imediatamente para Inglaterra onde se declara partidário de D. João IV. Eis como, após uma série de peripécias, D. Francisco Manuel de Melo adere á causa da Restauração em Portugal.

A sua vida ao serviço de D. João IV não ocorreu, porém, como esperara. O seu feitio turbulento, assim como inimizades que criou junto de homens próximos do rei acabariam por lhe provocar graves problemas. Entretanto, fixa-se em Lisboa, cidade onde nasceu, e participa no esforço de defesa contra a tentativa de invasão espanhola em 1643. No ano seguinte, como já assinalámos, é preso devido a intrigas de corte onde se deixa enredar. Permaneceu recluso longos anos, até que em 1655 parte degredado para o Brasil.

D. Francisco Manuel de Melo, degredado para o Brasil, fixou-se na Baía, onde esperava certamente acabar os seus dias. Porém, as alterações políticas em Portugal acabaram por alterar este cenário. D. João IV, que se lhe havia mostrado hostil, morre no ano seguinte, pelo que o escritor decide tentar a sua sorte e regressar ao reino. Muda-se primeiro para os Açores, onde pediu para regressar a Lisboa, o que faz em 1659. Porém, a sua sorte só muda dois anos mais tarde, quando o conde de Castelho Melhor, seu amigo pessoal, toma o governo. É imediatamente amnistiado, sendo-lhe entregues importantes responsabilidades políticas, nomeadamente junto da Santa Sé onde a influência espanhola minava a posição diplomática portuguesa. Teve então finalmente ocasião de publicar alguns trabalhos seus, as Obras Morais e Cartas Familiares. Viajou, tendo frequentado a corte inglesa assim como a Cúria Papal. A sua influência política em Portugal era cada vez mais importante, mas D. Francisco Manuel de Melo não viveria o suficiente para a exercer. Morreria em 1666, após uma vida tumultuosa e acidentada.

A sua obra literária é, com a do Padre António Vieira, a mais importante do século XVII. Escreveu sobre os mais variados temas, em teatro como em prosa e em verso, onde pontificam tanto o humor como o conhecimento da língua portuguesa, o rigor formal como o estilo cuidado. Escreveu obras de crítica social, de que a mais famosa é o Auto do Fidalgo Aprendiz. Deixou uma série de importantes obras de historiador, onde relata vários episódios em que participou directamente, e que reuniu com o nome de Epanáforas de Vária História Portuguesa. O seu trabalho mais conhecido mostra o seu carácter multifacetado, até pelo facto de o autor ter permanecido solteiro: trata-se da célebre Carta de Guia de Casados.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Era uma vez… Portugal (XII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 16/04/09

FERNANDO OLIVEIRA

A época dos Descobrimentos foi fértil em vidas aventurosas, de que são conhecidos tantos exemplos. Ficou célebre, entre outras, a de Fernão Mendes Pinto, descrita pelo próprio na sua Peregrinação. Mas outras personagens, igualmente interessantes e não menos curiosas, viveram no século XVI uma vida recheada de peripécias. Entre elas destaca-se uma, pouco conhecida ou mesmo geralmente ignorada. Trata-se do Padre Fernando Oliveira, de cuja vida verdadeiramente excepcional e obra ímpar vamos hoje falar.

Fernando Oliveira nasceu em 1507, em Aveiro, não se possuindo informações seguras sobre a sua ascendência. Estudou durante a sua juventude em Évora, no Convento de S. Domingos, Ordem na qual ingressa. Cedo se distinguiram os seus dotes académicos, sobretudo na disciplina de Gramática. Porém, Fernando Oliveira aliava a mais fina inteligência a um carácter irrequieto e desassossegado, que lhe causaria diversos problemas ao longo da sua vida. O primeiro surgiu cedo quando, aos 25 anos, o nosso homem, por motivos desconhecidos, deserta da Ordem religiosa e e foge para Castela. Mas alguns anos mais tarde está de regresso. Publica então uma Gramática de Língua Portuguesa, a primeira que se conhece. Até 1545 exerce a profissão de professor, chegando a dirigir a educação dos filhos de João de Barros, o célebre cronista. Fernando Oliveira ganha a amizade de gente poderosa, que mais tarde lhe seria necessária em tempos de dificuldades. Sabe-se que por esta altura viajou a Itália, desconhecendo-se os motivos de tal estadia. De qualquer modo, o seu carácter irrequieto não se adaptava a uma vida sedentária, pelo que não ficou muito tempo em Lisboa. Nesse ano de 1545 alista-se como piloto, e com nome falso, numa armada francesa ancorada no porto. Esta parte rumo a Inglaterra, com o objectivo de defrontar as armadas inglesas. Fernando Oliveira participa nos combates que se seguem, alcançando uma grande notoriedade junto do almirante francês. Acabou por ser feito prisioneiro pelos ingleses, e levado para Inglaterra. Os seus dotes diplomáticos, a sua habilidade, inteligência e cultura levaram a que alcançasse grande prestígio na corte inglesa, mesmo junto do rei Henrique VIII. Vive durante alguns anos em Inglaterra, regressando depois a Lisboa, onde entrega a D. João III uma carta do rei inglês.

As aventuras de Fernando Oliveira, a sua estadia em Inglaterra, a simpatia que sentia pela religião protestante, o contacto com o rei inglês que se havia revoltado contra o Papa, acabaram por lhe criar problemas. Pouco depois do seu regresso a Portugal é denunciado á Inquisição como hereje, preso e interrogado. Só em 1551, e devido á amizade de gente influente, é posto em liberdade. Este período difícil não o fez esmorecer no seu gosto pela aventura. Embarca imediatamente numa armada com destino a Marrocos. Esta é atacada por uma frota de piratas argelinos, e derrotada. Tal deveu-se em grande parte á má preparação dos marinheiros portugueses que navegavam na armada, que rapidamente se desorientaram, como ficou escrito numa das suas obras:

"Os marinheiros eram lavradores de Entre Douro e Minho, e soldados vagabundos de Lisboa (…); desta feição equipadas as nossas caravelas, com a vista dos Turcos desatinou a gente delas de tal maneira que ferviam de uma para outra sem ordem, como formigueiro esgravatado. Uns faziam vela sem haver vento, (…) outros cortavam as amarras sem olhar para onde viravam as proas, outros deixavam os navios como homens que não cuidavam o que faziam. (…) A graça toda foi (…) quererem depois de perdidos dar a culpa uns a outros, tendo-a todos (…)".

Foram os portugueses levados como prisioneiros para Argel, e mais uma vez conseguiu o nosso homem destacar-se, sendo encarregue das negociações com vista á obtenção do resgate. Regressado uma vez mais a Lisboa, segue para Coimbra, onde exerce o ofício de revisor na Imprensa da Universidade. Entre 1554 e 1555, Fernando Oliveira rege na mesma Universidade a cadeira de Humanidades. Mas os seus problemas não tinham ainda terminado. Fernando Oliveira era o que se pode chamar de um homem "sem papas na língua", rebelde e irrequieto; a sua sinceridade e frontalidade grangeavam-lhe grandes amizades, mas criavam igualmente grandes inimigos. De qualquer modo, em 1555 é novamente preso pela Inquisição, que lhe criou problemas até ao fim da sua vida. Não sabemos a data da sua morte, e pouco conhecemos dos últimos anos da sua vida. Apenas sabemos que, mais tarde, quando contava cerca de 58 anos de idade, D. Sebastião lhe concedeu uma pensão vitalícia de 20 000 reis.

O padre Fernando Oliveira deixou-nos algumas obras escritas, sendo as mais importantes as que tratam de náutica e construção naval, onde revela ser um profundo conhecedor. A mais famosa chama-se "A arte da guerra do mar". É um tratado de guerra naval, verdadeiramente notável e avançado para a época, onde se pode notar a lucidez e inteligência do autor ao tratar de problemas ainda actuais no nosso tempo. Eis como define ser a guerra justa:

"Mal feito é fazer guerra sem justiça, e os cristãos a não podemos fazer a nenhuns homens que seja, de qualquer condição nem estado. (…) doutro modo seria falso nosso nome, e poder-nos-iam culpar de hipócritas, como aqueles de que Cristo diz; dizem e não fazem. Os quais ele mesmo chama hipócritas, que quer dizer falsos e mentirosos. Mentiroso é aquele que apregoa vinho e vende vinagre, aquele que se nomeia pacífico e faz guerra sem justiça."

No resto da obra, o padre Fernando Oliveira traça o quadro completo da vida naval, desde a qualidade das madeiras para a construção dos navios, a escolha, treino e comportamento dos marinheiros e soldados, as tácticas navais, os equipamentos, materiais e mantimentos adequados, as condições de navegação, os ventos e marés. Tal decorria do conhecimento prático que tinha dos navios e navegação, do contacto com as gentes e lides do mar. Veja-se, por exemplo, e para terminar, o que diz acerca dos mantimentos adequados para os navios:

"O biscoito, que é a principal vitualha, de trigo é o melhor, porque o centeio e cevada são mais húmidos e frios, e o pão deles toma mais bolor e corrompe-se mais cedo; o melhor é muito seco, e sendo muito cozido segundo se requere para biscoito por tempo esboroa-se e desfaz-se em pó."

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Era uma vez… Portugal (XI)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 16/04/09

OS PORTUGUESES NA ETIÓPIA

Quando se fala de Descobrimentos Portugueses, é comum referir-se os contactos com as civilizações africanas e asiáticas, nomeadamente a Índia, a China e o Japão, efectuados pelos portugueses no século XVI. De facto, a chegada ao Oriente e o prolongado diálogo com estas culturas deixou marcas bem visíveis que se estendem até aos nossos dias. No entanto, outros locais há de que se fala hoje muito pouco, mas onde a presença portuguesa se fez sentir com grande vigor naquela época. Um dos reinos mais importantes que os portugueses ansiavam alcançar, e que se revelou um dos locais onde os contactos foram mais proveitosos, foi a Etiópia. É sobre a presença portuguesa neste reino africano que vamos falar hoje.

A Etiópia, ou Abissínia, era no século XVI um remoto reino cristão, conhecido na Europa e em Portugal sob o nome de Prestes João. Acerca deste nome corriam as mais fabulosas histórias, imaginando os europeus tratar-se de um poderoso e riquíssimo reino cristão, que se encontrava para além do Mundo Muçulmano, e que ansiava por contactar a Europa cristã para poder em conjunto, imaginava-se então, derrotar o Islão e libertar Jerusalém e os Lugares Santos. Acerca deste reino mais ou menos mítico circulavam na Europa ideias vagas e confusas, que só os portugueses vieram definitivamente esclarecer. Aliás, o Prestes João está directamente ligado ás origens da Expansão Portuguesa. Uma das motivações do Infante D. Henrique em ultrapassar o Cabo Bojador e promover o avanço e exploração da costa ocidental africana foi a de tentar contornar Marrocos e o Mundo Muçulmano, tentando encontrar o tal reino cristão de que se falava na sua época. Mais tarde, D. João II prosseguiu tal política, mas agora subordinada ao objectivo de encontrar o caminho marítimo para a Índia.

Ficou a dever-se a este monarca a primeira iniciativa bem sucedida de contactar o Prestes João, ou seja, a Etiópia. Trata-se da famosa expedição de Afonso de Paiva e Pero da Covilhã, que seguindo por terra até ao Médio Oriente deveriam aí recolher todo o tipo de informações a enviar para Lisboa, de modo a complementar a viagem marítima que simultâneamente efectuava Bartolomeu Dias, e que dobrou o Cabo da Boa Esperança. Pero da Covilhã tinha como objectivo a Índia, cabendo a Afonso de Paiva encontrar e contactar a Etiópia, e inteirar-se da condição deste reino. Após uma série de peripécias, entre as quais a morte do mesmo Afonso de Paiva, é Pero da Covilhã encarregado pelo rei de seguir o caminho do Prestes João. Assim fez, tendo sido o primeiro português a ali chegar. Nunca regressou a Portugal, por motivos que só alguns anos mais tarde se vieram a descobrir.

Nenhuma das informações sobre a Etiópia recolhidas por Pero da Covilhã chegou a Lisboa. Não foi, assim, possível desfazer as ideias fabulosas sobre este reino que desde há muito circulavam na Europa. Os portugueses continuavam a acreditar que o Prestes João era um reino extenso, muito populoso e poderosíssimo em termos militares. Entretanto, morrera D. João II e subira ao trono D. Manuel I. Este monarca possuía o seu próprio projecto de expansão, que assentava no estabelecimento português no Oriente, mas também na aliança com a Etiópia. Os portugueses chegaram entretanto à Índia, avançando cada vez mais para Oriente. Afonso de Albuquerque tomara Goa, Ormuz e Malaca, estabelecendo as bases do futuro Estado da Índia. Quanto à Etiópia, foram feitos os primeiros contactos, embora a verdadeira dimensão e importância daquele reino ainda não fosse clara, nem sequer para os portugueses que se encontravam na Índia.

É em 1514 que esta situação se altera. A rainha etíope, tendo tomado conhecimento do estabelecimento dos portugueses no Oriente, decide enviar um embaixador a D. Manuel, chamado Mateus. Este homem deveria ser imediatamente transportado para Lisboa, mas na verdade foi tratado com muito pouco respeito pelos portugueses. É que muitos destes o tomaram como um falsário, sujeitando-o a todo o tipo de discriminações. Há, porém, outra razão para tais descortesias: uma boa parte da corte e da classe dirigente portuguesa opunha-se aos projectos do rei D. Manuel, nomeadamente à sua política de aliança com a Etiópia para uma futura frente comum contra os muçulmanos. Assim sendo, é natural que os capitães ligados a estes sectores da corte tudo fizessem para dificultar a vida ao embaixador etíope. Este, no entanto, acabou por chegar a Lisboa, sendo recebido pelo rei com cortesia.

D. Manuel decide responder com uma outra embaixada, chefiada por Duarte Galvão e que deveria entregar valiosos presentes ao imperador etíope. Porém, a morte deste embaixador, já não muito longe da Etiópia, fez abortar a missão e adiou os contactos com aquele reino. O pobre Mateus, que já à ida para Portugal sofrera toda uma série de vexames, enfrentou assim novas atribulações. Vagueou durante vários anos pela Índia, sofrendo um tratamento inadequado à sua dignidade de embaixador.

Só em 1520 é que o novo vice-rei Diogo Lopes de Sequeira decidiu refazer a embaixada, que atingiu finalmente a Etiópia. Aqui, os portugueses aperceberam-se finalmente da realidade deste reino, bem diferente das histórias que corriam na Europa sobre o Prestes João: tratava-se na verdade de um pequeno reino montanhoso, cristão é certo, mas de dimensão modesta, cercado por reinos muçulmanos por todos os lados e que esperava a ajuda portuguesa para se libertar da crescente asfixia a que se via sujeito. A embaixada trocou uma série de presentes, demorando-se cerca de seis anos nesta região.

Existe um relato pormenorizado desta embaixada, escrito pelo padre Francisco Álvares e chamado "Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias". Trata-se de um precioso testemunho da situação social, política e económica da Etiópia daquela época, na verdade a primeira descrição deste reino de que há conhecimento. É o padre Francisco Álvares que nos desvenda finalmente o destino de Pero da Covilhã, que chegara a este reino mais de trinta anos antes. Fora bem recebido pelo rei, passando a ocupar um lugar na sua corte. Porém, havia sido impedido de regressar a Portugal, sendo forçado a permanecer no reino. Eis o que diz a este respeito Francisco Álvares, apercebendo-se de que elementos da corte etíope pressionavam o rei a que os não deixasse sair:

"[Estes homens] aconselhavam ao Preste que nos não deixasse tornar nem sair de seus reinos porque dizíamos mal da terra, e que sempre fora costume destes reinos não deixarem ir os forasteiros que a eles vinham. Nós tínhamos suspeita disto pelo que ouvíamos e estes nos diziam e pelo que já sabíamos de João Gomes e João clérigo, portugueses que cá vieram. E a estes portugueses não os deixaram ir, porque diziam que lhes causaria morte irem-se. E assim Pero da Covilhã, outro português que há quarenta anos que partiu de Portugal, por mandado del rei D. João, e trinta e tantos anos que é nestes reinos."

Mau-grado estes mal-entendidos, a embaixada foi bem sucedida, e os contactos entre Portugal e a Etiópia desenvolveram-se nos anos seguintes. A presença portuguesa neste reino passou a ser cada vez mais marcada pela missionação, principalmente jesuítica, que tentava modificar a religião local. É que os etíopes eram cristãos, mas não católicos. Eram coptas, estando sujeitos ao Patriarca de Alexandria, e não ao Papa de Roma. Havia, assim, diversas diferenças que os jesuítas tentaram, em vão, eliminar, fracassando igualmente em tentar submeter a igreja local à obediência papal. De resto, a influência portuguesa manteve-se forte durante o século XVI e o XVII, deixando profundas marcas na construção das casas e das fortalezas, pontes e vias de comunicação, que ainda hoje podem ser apreciadas em diversas cidades e ruínas etíopes.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Era uma vez… Portugal (X)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 15/04/09

DUARTE PACHECO PEREIRA E O "ESMERALDO DE SITU ORBIS"

Duarte Pacheco Pereira é uma das figuras mais interessantes da História dos Descobrimentos Portugueses. Tendo sido um dos homens de confiança de D. João II, e mais tarde de D. Manuel I, acompanhou e participou nalguns dos momentos-chave da Expansão Portuguesa do seu tempo. Foi marinheiro e guerreiro, geógrafo, cosmógrafo e diplomata. A ele se ficaram a dever importantes vitórias militares, mas igualmente observações e estudos que compilou numa obra a que deu o estranho título de Esmeraldo de Situ Orbis. Se a parte final não oferece dúvidas, tratando-se do título de uma obra de Geografia da Antiguidade, já o nome Esmeraldo é obscuro. De qualquer modo, trata-se de um roteiro da costa africana, desde Marrocos ao Cabo da Boa Esperança, que escreveu entre 1505 e 1508, mas que nunca chegou a completar. É desta obra singular e de alguns aspectos da vida do seu autor que vamos hoje falar.

Não se conhece a data exacta de nascimento de Duarte Pacheco Pereira, mas tal ocorreu provavelmente por volta de 1460, em Lisboa. Era da média nobreza de serviços da Coroa, sendo o seu antepassado mais célebre Diogo Lopes Pacheco, um dos assassinos de Inês de Castro. Cavaleiro da casa de D. João II, desde muito cedo manifestou interesse pelas viagens de descobrimento da costa africana então promovidas por aquele monarca. Foi durante as décadas de 1480 e 1490 que Duarte Pacheco Pereira acompanhou de perto a exploração da costa e o desenvolvimento da ciência náutica portuguesa, tendo desenvolvido uma série de observações e estudos de náutica, de carácter prático. Para tal deslocou-se à Mina, a S. Tomé, e a outros diversos pontos da costa africana. Em 1488 encontrava-se doente na ilha do Príncipe, tendo sido Bartolomeu Dias, no regresso da sua célebre viagem de descobrimento do Cabo da Boa Esperança, que o trouxe de regresso a Portugal. Em 1494, a sua experiência nos assuntos de náutica levou a que acompanhasse a delegação portuguesa que nessa data assinou o célebre Tratado de Tordesilhas, que dividiu definitivamente o mundo em duas esferas de influência.

Nos primeiros anos do século XVI, Duarte Pacheco Pereira deslocou-se á Índia, onde tomou conhecimento dos primeiros passos que a presença portuguesa percorria naquela região. A ele se deveu uma formidável vitória contra o Samorim de Calecut, em 1504, quando conseguiu sucessivamente derrotar as investidas deste rei com uma força de apenas 150 portugueses, aliados do rei de Cochim. Por este facto foi recebido com todas as honrarias em Lisboa, pelo rei D. manuel, e Luís de Camões chama-o de "Aquiles Lusitano" nos seus Lusíadas.

Duarte Pacheco Pereira inicia então a escrita da sua obra, fruto do seu longo contacto com a costa africana e da sua vasta experiência acumulada de navegação. O Esmeraldo destinar-se-ia a servir de roteiro da costa, de uso comum dos pilostos e marinheiros portugueses. Contém inúmeras referências de utilidade prática, tal como o modo de reconhecimento da costa, a forma de determinar a latitude e o melhor rumo a seguir a cada momento. Está igualmente repleto de informação comercial sobre os produtos trocados em cada ponto de África e os cuidados a ter com as populações mais belicosas. Eis um exemplo:

"Jaz o porto de Ali e o rio do Barbacis Leste e Oeste, e tem na rota cinco léguas, e este rio é muito aparcelado e de grandes baixos; há resgate de escravos, seis e sete por um cavalo, posto que não seja bom; e o capitão que a este resgate for, guarde-se destes negros, que são muito má gente; e este rio se aparta em latitude da linha equinocial contra o polo ártico catorze graus e quinze minutos".

O Esmeraldo de situ orbis é geralmente considerado como o resultado da experiência prática de navegação dos portugueses, que pela primeira vez punha em causa uma série de tradições geográficas herdadas da Antiguidade e que agora se vinha a constatar estarem erradas. Duarte Pacheco Pereira, embora conheça algumas e se baseie frequentemente nelas, é o primeiro a notar que estão em muitos aspectos desfazadas da realidade. Por exemplo, dizia-se que as regiões mais próximas do equador eram desabitadas, formando a chamada Zona Tórrida, pois a extrema temperatura impedia a vida humana. Os portugueses provaram o contrário, e Pereira di-lo no seu trabalho. Por exemplo, quando fala do Cabo de Lopo Gonçalves:

"Esta terra é muito vizinha do círculo da equinocial [ou seja, do Equador], da qual os antigos disseram que era inabitável e nós por experiência achamos o contrário".

O critério de veracidade deixou assim de ser os autores da Antiguidade, e passou a ser, numa frase célebre da sua autoria: "A experiência, que é madre de todas as coisas, que nos desengana e toda a dúvida nos tira".

É ainda motivo de polémica a sua misteriosa viagem para Ocidente em 1498, que refere brevemente na sua obra. Dizem alguns que chegou ao Brasil antes de Pedro Álvares Cabral, outros á América do Norte, outros ainda que nunca terá empreendido tal viagem. Eis o misterioso passo do Esmeraldo:

"Temos sabido e visto como no terceiro ano de vosso reinado no ano de Nosso Senhor de 1498, dondo nos Vossa Alteza mandou descobrir a parte ocidental, passando além da grandeza do Mar Oceano, onde é achada e navegada uma tão grande terra firme, com muitas e grandes ilhas adjacentes a ela (…) e posto que seja assaz fora, é grandemente povoada".

Duarte Pacheco Pereira deixou o seu Esmeraldo incompleto. A sua descrição cessa repentinamente no Rio do Infante, ou seja, no ponto exacto onde chegou Bartolomeu Dias na sua viagem. Não terá tido tempo de a terminar, ou provavelmente não conseguiu reunir com a profundidade desejada as informações respeitantes à costa oriental de África. De resto, a sua obra permaneceu inédita durante muitos anos. O precioso original, ilustrado de mapas e desenhos de sua autoria, perdeu-se até hoje, só se conhecendo duas cópias, que ficaram inéditas até ao final do século passado.

A sua biografia não cessa aqui. Em 1508, como já referimos, cessou a escrita do seu Esmeraldo, e logo em 1509 segue em perseguição de um célebre corsário francês que ameaçava as costas portuguesas e a navegação atlântica. Consegue localizá-lo ao largo do Cabo Finisterra, onde alcança a vitória. Prestou ainda outros serviços ao serviço do rei D. Manuel, que o nomeia capitão da fortaleza da Mina. Os últimos anos da sua vida foram, porém, mais cinzentos. Acusado de corrupção no desempenho do seu cargo, é enviado para Lisboa e afastado. O novo rei D. João III não o favoreceu como o seu antecessor, pelo que Duarte Pacheco Pereira chega mesmo a ameaçar colocar-se ao serviço do rei de Espanha Carlos V. Não o chegou, porém, a fazer. Faleceu entretanto, cerca de 1530, talvez pobre, mas certamente injustiçado dos serviços que cumpriu e da obra que escreveu durante a sua vida.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

terça-feira, 14 de abril de 2009

Era uma vez… Portugal (IX)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 14/04/09

DUARTE PACHECO PEREIRA
E OS PRIMÓRDIOS DO IMPÉRIO PORTUGUÊS DO ORIENTE

A viagem de Vasco da Gama abriu definitivamente as portas da Índia aos portugueses. Resolvido o problema da rota para Oriente, colocou-se então a questão de avaliar as realidades locais, de modo a viabilizar a melhor actuação. Vasco da Gama, chegado a Calecut, procura estabelecer relações de amizade com o rei local, de forma a permitir futuramente o comércio. Porém, se este primeiro contacto é marcado pelo optimismo, já Pedro Álvares Cabral, na armada seguinte, se apercebe que as condições são bem menos favoráveis: existem muito menos cristãos do que se supunha inicialmente, e o comércio das especiarias é controlado pela comunidade muçulmana, hostil aos portugueses. Assim, o rei D. Manuel conclui que o estabelecimento dos portugueses na Índia exige o uso da força militar. Nos anos seguintes, a política seguida pretendia criar uma alternativa a Calecut, que se mostrou hostil. Os portugueses acabam por se aliar ao rei de Cochim, rival de Calecut, de modo a canalizar as apetecidas especiarias da costa do Malabar, ao mesmo tempo que se alargam os contactos com outras cidades. É nestes primeiros anos que se joga o futuro Império Português Oriental, já que a fragilidade das posições portuguesas só podia ser compensada pela bravura e coragem de alguns homens. E um destes, protagonista da primeira grande vitória militar, foi Duarte Pacheco Pereira.

Duarte Pacheco Pereira é uma das figuras mais interessantes da História dos Descobrimentos Portugueses. Cavaleiro da casa de D. João II, cosmógrafo e geógrafo, explorador do Atlântico Sul, adquiriu desde muito cedo uma grande experiência de navegação, que nos deixou no seu roteiro, chamado Esmeraldo de Situ Orbis. Desconhece-se a data do seu nascimento, mas sabe-se que efectuou diversas viagens de exploração da costa africana, cujo conhecimento é aliás demosntrado na sua obra. Em 1488 encontra-se doente na ilha do Príncipe, e é Bartolomeu Dias, no regresso da sua histórica viagem de dobragem do Cabo da Boa Esperança, que o transporta para Portugal. Em 1494, participa na negociações do Tratado de Tordesilhas, integrado na equipa de D. João II que assinou com Espanha a divisão do mundo em duas esferas de influência. É ainda muito debatida e polémica a sua misteriosa viagem para Ocidente em 1498, que refere brevemente na sua obra. Dizem alguns que chegou ao Brasil antes de Pedro Álvares Cabral, outros á América do Norte, outros ainda que nunca terá empreendido tal viagem.

Mas falemos da sua estadia no Oriente. Duarte Pacheco Pereira parte para a Índia na armada de Afonso de Albuquerque em 1503, chegando a Cochim em Outubro. Aí já se encontra uma outra armada portuguesa. O objectivo comum era o do definitivo estabelecimento em Cochim, aproveitando a abertura do rei local. Para tal era porém necessário construir uma fortaleza, e preparar a inevitável guerra com Calecut. Nos fins de 1504, Afonso e Francisco de Albuquerque regressam a Lisboa, deixando Duarte Pacheco Pereira em Cochim com uma pequena força de apenas 150 portugueses.

Com esta pequena força militar, Duarte Pacheco Pereira tinha várias missões a cumprir, a mais importante das quais era a defesa de Cochim dos ataques de Calecut. De facto, o Samorim de Calecut prepara imediatamente uma poderosa e numerosa força militar, de vários milhares de homens, para invadir o seu pequeno vizinho. De Março a Julho de 1504 atacou por várias vezes, utilizando diversas técnicas, desde o ataque maciço e em força ás surtidas ocasionais, chegando mesmo a envenenar os poços em que os portugueses se abasteciam de água. Todas fracassaram, e Duarte Pacheco Pereira conseguiu que este poderoso rei se retirasse, finalmente, a 24 de Julho. Sobre este dia escreveu o cronista João de Barros:

"Finalmente, o dia não foi tão próspero como os feiticeiros do Samorim lhe tinham prognosticado; e porque ainda lhe ficou esperança, que tornando outra vez alcançaria vitória que refizesse todas as perdas passadas, veio daí a certos dias em hora de melhor eleição (…). Simulando ele que se tornava a refazer para tornar á guerra, se recolheu de todo com perda de dezoito mil homens, treze ne enfermidade, que por duas vezes sobreveio no seu arraial, e os cinco na guerra que continuou, a qual guerra durou seis meses."

O Samorim de Calecut retirou-se, assim, definitivamente, aceitando a derrota e assinando a paz. Estava, assim, ganha a primeira grande prova por que passaram os portugueses no início da sua fixação na Índia. Duarte Pacheco Pereira foi então triunfalmente recebido pelo rei de Cochim, que se manteve, assim como os seus sucessores, um tradicional aliado dos portugueses até á conquista da cidade pelos holandeses em 1663.

Duarte Pacheco Pereira empreendeu ainda várias acções de pacificação e de aprofundamento da fixação portuguesa, nomeadamente em Coulão, onde os feitores portugueses enfrentavam dificuldades. Parte de Cananor no início de 1505 com destino a Portugal, onde chega alguns meses depois. É recebido com uma grande procissão em Lisboa, em que participou ao lado do rei D. Manuel, que mandou celebrar esta vitória por todo o país. Os feitos de Duarte Pacheco Pereira no Oriente ficaram célebres, sendo registados por todos os cronistas e poetas, inclusivamente por Luís de Camões, que o designa por "Aquiles Lusitano" n'Os Lusíadas.

Duarte Pacheco Pereira não terminou aqui os seus feitos. De facto, logo em 1509 segue em perseguição de um célebre corsário francês que ameaçava as costas portuguesas e a navegação atlântica. Consegue localizá-lo ao largo do Cabo Finisterra, onde alcança a vitória. Prestou ainda outros serviços ao serviço do rei D. Manuel, que o nomeia capitão da fortaleza da Mina. Os últimos anos da sua vida foram, porém, mais cinzentos. Acusado de corrupção no desempenho do seu cargo, é enviado para Lisboa e afastado. O novo rei D. João III não o favoreceu como o seu antecessor, pelo que Duarte Pacheco Pereira chega mesmo a ameaçar colocar-se ao serviço do rei de Espanha Carlos V. Não o chegou, porém, a fazer. Faleceu entretanto, cerca de 1530, talvez pobre, mas certamente injustiçado dos serviços que cumpriu ao longo da sua vida.

A presença portuguesa no Oriente foi-se fortalecendo progressivamente. Pouco depois da acção de Duarte Pacheco Pereira, chega á Índia o primeiro vice-rei, D. Francisco de Almeida, que vinha estabelecer definitivamente a presença portuguesa na região. Foi, porém, o seu sucessor, o famoso Afonso de Albuquerque, o fundador do Império Português do Oriente. Mais do que fixar a presença portuguesa em várias cidades, estabelecendo acordos de comércio com as autoridades locais, Afonso de Albuquerque segue uma política de conquista das cidades mais importantes do Índico, o que consegue em Goa, Ormuz e Malaca. Mas o seu bom sucesso muito deve á acção pioneira de alguns homens, entre os quais tem um lugar destacado Duarte Pacheco Pereira.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Era uma vez… Portugal (VIII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 13/04/09

DUARTE LOPES E A "RELAÇÃO DO CONGO"

Em 1578, partia de Lisboa, com destino a Luanda, um português chamado Duarte Lopes, acompanhando um seu tio que seguia para África com diversas mercadorias. Os portugueses ensaiavam então uma primeira fixação definitiva nesta região, com a fundação de Luanda três anos antes, por Paulo Dias de Novais. Os contactos com o reino do Congo eram, porém, muito anteriores. Na verdade, contavam já com quase um século, desde que Diogo Cão chegara à foz do Zaire e fora bem recebido pelas autoridades locais. Duarte Lopes teve ocasião de conhecer com alguma profundidade a região, efectuando diversas vigens no interior do continente que o tornaram no primeiro grande explorador europeu de África. Vamos hoje acompanhar alguns passos da sua vida, assim como a obra que nos deixou, chamada de "Relação do Reino do Congo e das terras circumvizinhas".

Conhece-se muito pouco da vida de Duarte Lopes. Sabe-se que terá nascido em Benavente em meados do século XVI, de família cristã-nova, e ignora-se a data da sua morte. Os dados da sua biografia referem-se sobretudo à sua estadia no reino Congo. Aqui viveu durante alguns anos, até 1584. Durante este tempo, Duarte Lopes viajou por diversas regiões de África, em parte graças aos favores do rei do Congo, que conseguiu captar, em parte devido à sua curiosidade e espírito aventureiro. No decorrer de tais viagens recolheu um vasto conjunto de informações, que mais tarde viriam a ser publicadas, e que constituem a primeira descrição fidedigna do interior de África. Por esta altura, os portugueses detinham um conhecimento de África que só muito mais tarde veio a ser suplantado. Todos conhecemos as viagens pioneiras de Livingstone e de Stanley, e também dos portugueses Serpa Pinto, Capelo e Ivens, no século passado. Estes homens exploraram o interior de África, mas não foram os primeiros, ao contrário do que muitas vezes se julga. Já alguns portugueses, entre os quais Duarte Lopes, haviam dados os primeiros passos. A este propósito escreveu um historiador belga, no século XIX:

"Comparando uma carta de África, feita no ano de 1850, antes das viagens de Barth, Livingstone e Speke, com uma carta dos fins do século XVI, depois das grandes explorações de Diogo Cão, Francisco Gouveia e Duarte Lopes, vê-se que o interior desse continente era muito menos conhecido há 30 anos do que há 300 anos".

Em 1585, após as suas viagens, Duarte Lopes regressa à Europa. A sua posição no interior do reino do Congo era tal que é nomeado embaixador deste reino junto do agora rei de Portugal Filipe I, e também junto do Papa. O Congo era nesta altura um reino cristão, mas havia uma situação de tensão e conflito com os portugueses estabelecidos em Angola. Duarte Lopes não consegue os seus objectivos junto do rei de Portugal, e segue para Roma, onde o Papa Sisto V o recebe favoravelmente. A política do rei do Congo nesta época, de que Duarte Lopes era porta-voz, era a de obter margem de manobra e apoio que contrabalançasse o peso crescente dos portugueses de Luanda, que ameaçavam o seu poder local e o seu prestígio.

É em Roma que Duarte Lopes entra em contactado com o humanista Filippo Pigafetta, certamente interessado em obter informações acerca com continente africano, que o português parecia conhecer tão bem. Dos contactos entre as duas personagens viria o italiano a escrever uma obra, chamada de "Relação do reino do Congo e das terras circumvizinhas", que sairia em 1591. Na verdade, não sabemos se o italiano escreveu directamente dos relatos de Duarte Lopes, nem se este acompanhou de perto a redacção do texto. Desta forma, é impossível distinguir o que proveio das informações do português do que foram os acrescentos e correcções do humanista italiano.

Mas tal não diminui o interesse da "Relação". Nela o autor mistura descrições do Congo e das suas diversas regiões com a história do reinado desde a chegada dos portugueses, onde estão patentes as diferenças com a mentalidade europeia, mas igualmente o sentimento de curiosidade e interesse pela civilização africana. Eis como Lopes e Pigafetta descrevem os habitantes da terra:

"Os homens e mulheres são negros, alguns menos, tirando mais a baço, e têm os cabelos crespos e negros, alguns também vermelhos, a estatura dos homens é de mediana grandeza, e tirando-lhes a cor negra, são parecidos com os Portugueses: as pupilas dos olhos de diversas cores, negras e da cor do mar, e os lábios são grossos, como os Núbios e outros negros, e assim os seus rostos são cheios e subtis e váricos como nestas regiões, não como os negros da Núbia e da Guiné, que são disformes."

Esta obra conheceu uma rápida expansão por toda a Europa, tendo sido traduzida pouco depois para outras línguas, o que revela o interesse que este tema despertava na época. Pigafetta fez acompanhar o texto com uma série de desenhos e ilustrações supostamente baseadas no relato de Duarte Lopes. Mas estas mostram que quem as desenhou nunca esteve em África: os habitantes parecem europeus, as cidades congolesas assemelham-se a Roma Clássica e mesmo os animais não têm correspondência com a realidade: a zebra, por exemplo, é claramente um cavalo pintado às riscas.

Noutros aspectos, provavelmente os que provêm mais directamente de Duarte Lopes, a obra revela rigor e cuidado. A descrição da capital do reino, S. Salvador do Congo (no Norte da actual Angola) e das suas diversas províncias, assim como a história do reino desde a chegada dos portugueses, é muito interessante e provavelmente fidedigna. É particularmente curiosa a forma como descreve as alterações que a conversão do rei ao Cristianismo e o contacto com os portugueses provocaram ao nível do quotidiano e do vestuário local:

"Antigamente este rei e os seus cortesãos vestiam-se de panos de palma, com os quais se cobriam da cintura para baixo, apertando-os com cintos feitos da mesma matéria e de belos lavores; no ombro traziam um rabo de zebra preso a um cabo, por ser de uso antigo naquelas regiões; na cabeça tinham carapuças de cor amarela e encarnada; andavam descalços a maior parte deles. Mas depois daquele reino ser cristianizado, os grandes da corte começaram a vestir-se à moda dos portugueses, trazendo mantos, capas, tabardos de escarlata e de telas de seda; na cabeça, chapéus e barretes, nos pés, alparcas de veludo, de couro, e borzeguins à moda portuguesa. Logo que o rei se converteu ao Cristianismo, reformou também a sua corte de certo modo imitando a de Portugal, e principalmente quanto ao modo de estar à mesa. Possui baixela de ouro e de prata, com um salva para comer e beber."

Duarte Lopes regressou novamente a Madrid, onde voltou a contactar Filipe II e a informá-lo das vantagens de intervir no Congo e de promover o relacionamento com o aquele rei. Lopes pretendia provavelmente incrementar a acção evangelizadora naquela região de África, invocando para tal o interesse da Coroa Portuguesa nas possíveis riquezas, como ouro e prata, que estariam hipoteticamente por descobrir no interior do reino. Nada mais conhecemos da sua vida, nem sequer se alguma vez regressou a África. Apenas conhecemos a sua "Relação do Congo", que permaneceria durante muito tempo como a mais importante descrição de um reino africano.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Era uma vez… Portugal (VI)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 07/04/09

DIOGO DO COUTO - Um cronista do oriente

Quando se fala da Expansão Portuguesa é vulgar relembrar os grandes nomes dos Descobrimentos, que geralmente se associam aos grandes generais e cabos-de-guerra, aos vice-reis, aos descobridores de novas terras. Ficam, por vezes, um pouco esquecidos aqueles que, muitas vezes suportando imensas adversidades e sendo mesmo vítimas de injustiça, nos legaram, sob a forma de relatos ou crónicas, os factos, a história e a memória desse tempo. Registar e contar a verdade histórica era, ontem como hoje, tarefa difícil e ingrata. Por entre os cronistas portugueses no Oriente destaca-se o nome de um homem que, pela sua rectidão e amor á verdade, tornou-se um pouco o modelo da historiografia portuguesa. A sua vida, como a sua obra, reflecte o misto de esforço, empenho e glória, assim como algumas misérias que fizeram a História dos portugueses no Oriente. Foi soldado, escritor e um homem de cultura; chamava-se Diogo do Couto e é de quem iremos falar hoje.

Diogo do Couto nasceu em 1542, em Lisboa. O seu pai, Gaspar do Couto, era natural de Amarante, e serviu o Infante D. Luís, filho de D. Manuel. Aos 10 anos entra Diogo do Couto ao seu serviço, estudando no Colégio Jesuíta de Sto. Antão e no Mosteiro de Benfica. Ali foi colega do filho do Infante, D. António, futuro Prior do Crato e candidato á Coroa portuguesa em 1580. Em 1555, devido á morte de D. Luís, seu patrono, Couto muda-se para o Paço, onde serve D. Sebastião como moço de câmara. Embora o seu pai tivesse sido ordenado cavaleiro, falta a Couto raízes fidalgas que lhe permitiriam o acesso aos altos cargos da administração. Após a morte de seu pai, decide então, como tantos, tentar a sua sorte como soldado na Índia. Parte em 1559, apenas com 17 anos, tendo-se alistado por três anos. Serve em diversos locais da Índia durante cerca de uma década, tendo participado em diversos combates. Aqui aprendeu Couto a dura vida de soldado, e o contacto com os problemas que se avolumavam no Estado da Índia viria a moldar definitivamente a sua personalidade, assim como a sua obra literária. Em 1569, farto da vida de soldado, decide voltar a Portugal. Parte de Goa na armada do vice-rei D. Antão de Almada, fazendo escala em Moçambique. Aqui encontra o seu amigo Luís de Camões, companheiro de andanças na Índia. É o próprio Couto que relata o facto numa das suas obras, nos seguintes termos:

"Em Moçambique achámos aquele Príncipe dos Poetas de seu tempo, meu matalote e amigo Luís de Camões, tão pobre que comia de amigos, e para se embarcar para o reino lhe ajuntámos os amigos toda a roupa que houve mister, e não faltou quem lhe desse de comer (…)."

Partiram juntos para Lisboa, onde chegam em Abril de 1570. Couto, cujo temperamento não se adequava á vida mundana da corte, ficaria pouco tempo em Portugal. Logo no ano seguinte regressa á Índia, estabelecendo-se definitivamente em Goa, onde casa com Luísa de Melo. Aqui finda a fase militar da sua biografia. Doravante dedicar-se-ia a outras artes. Fica durante alguns anos empregado nos armazéns de mantimento, o que lhe permite o contacto com o mundo de negócios e com a administração do Estado da Índia. A fase mais interessante da sua vida, e também a mais frutuosa, iniciar-se-ia apenas após a subida ao trono de Filipe II. Couto escreve ao rei propondo a elaboração de uma crónica sobre a história dos portugueses na Índia após 1581, data da sua aclamação. O rei, a quem já havia chegado o conhecimento deste funcionário notado pelo seu zelo e rigor, acaba por encarregá-lo de uma tarefa mais vasta: organizar o Arquivo de Goa e continuar o trabalho de João de Barros, entretanto falecido, de escrever a história dos portugueses na Índia. Ambas eram tarefas pesadas e ingratas: na primeira, para além de organizar toda a documentação administrativa, já volumosa e em risco de se perder, teria ainda de passar certidões de serviços; na segunda, teria de retomar o difícil trabalho de escrever a história dos portugueses na Índia. Couto, com o seu carácter rigoroso e recto, pouco dado a lisonjas e a favores, está decidido a escrever a verdade, por muito que isso desagradasse a alguns.

Diogo do Couto inicia então o seu trabalho, aproveitando algum material já elaborado anteriormente. A sua condição de organizador do arquivo de Goa permite-lhe uma visão próxima e bem informada sobre a história do Estado da Índia. Porém, este facto, assim como a incorrigível imparcialidade do autor, serão motivo de vários dissabores pessoais e do destino atribulado da sua obra. Na verdade, a fatalidade que se abateu sobre as suas Décadas da Ásia é ainda hoje motivo de investigação por parte dos historiadores: a VI ardeu em casa do impressor, a VII perdeu-se, tomada pelos ingleses ao ser transportada para Portugal; a VIII e a IX foram roubadas ao próprio autor, que as recompilou mais tarde; da XII resta apenas parte. A XI, que tratava do vice-reinado de Matias de Albuquerque, desapareceu até hoje. Por outro lado, Diogo do Couto suportava a impressão da sua obra com o seu baixo salário, não obtendo sucesso com a venda e sofrendo da indiferença geral .

Parece certo que a rectidão do autor, que resistia a pressões e parecia não hesitar em relatar o que lhe surgia como verdadeiro, lhe trouxe inimizades várias, nomeadamente por parte daqueles que se sentiam atingidos pela sua obra. A isto se refere várias vezes o próprio Couto, lamentando as difíceis condições em que vivia, o seu magro salário, a incompreensão dos que o rodeavam. É que Diogo do Couto não era mais do que um funcionário administrativo, sendo obrigado a conciliar o seu trabalho no arquivo com a escrita da sua obra. Até ao fim da sua vida, fez vários pedidos para ser aumentado, de forma a poder trabalhar sem sobressaltos. A ajuda, porém, nunca se revelou suficiente. Na verdade, vários conspiravam para calar esta voz incómoda. Acabou por morrer em 1616, pobre e minado pelas intrigas tecidas á sua volta.

Além das suas Décadas, Diogo do Couto deixou-nos outras obras: várias cartas e discursos, um pequeno relato, o "Naufrágio da nau S. Tomé", incluído mais tarde na colectânea da História Trágico-Marítima. Mas é o seu Diálogo do Soldado Prático que suscita maior interesse e admiração. É, de facto, notável a lucidez e espírito crítico com que Diogo do Couto elabora esta pequena obra, que constitui um diagnóstico implacável, diremos mesmo impiedoso e por vezes injusto, da situação do Estado da Índia nos finais do século XVI. O seu estilo, como nas Décadas, é vivo e desembaraçado. O Soldado Prático constitui, na verdade, um testemunho ímpar de um homem que, ao contrário de outros que escreviam sobre os portugueses no Oriente, lá viveu, acompanhou e sentiu parte do que escreve. Esta obra constitui, digamos, o reverso da medalha d'Os Lusíadas do seu amigo Luís de Camões: as glórias e as misérias, a grandeza e a mesquinhez, os valores e os defeitos, as duas faces da história da Expansão Portuguesa. Diogo do Couto, a sua vida e a sua obra, é, como o tempo e o meio em que viveu, a expressão desta dualidade.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Era uma vez… Portugal (VII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 08/04/09

A POLÍTICA AFRICANA DE D. JOÃO II

Comemoram-se este ano os 500 anos sobre a morte do rei D. João II. Este foi, certamente, um dos mais importantes monarcas da História de Portugal, quer pela política de centralização do poder que executou no reino, quer sobretudo pela acção decisiva que desempenhou no processo dos Descobrimentos, salvaguardando a empresa iniciada nos primeira décadas do século XV pelo Infante Henrique e imprimindo-lhe um novo fôlego e um novo vigor. Os resultados são de todos bem conhecidos: salvaguarda do Atlântico, vantagem sobre os principais rivais de Portugal neste processo, descobrimento do Cabo da Boa Esperança e abertura do caminho marítimo para a Índia, que viria a ser inaugurado já pelo rei seguinte, D. Manuel. Vamos hoje relembrar uma faceta importante da política ultramarina de D. João II, por vezes um pouco esquecida em vista dos grandes sucessos do seu reinado, como o Tratado de Tordesilhas ou a viagem de Bartolomeu Dias, mas igualmente importante na época: os contactos e a política de alianças com os reinos africanos.

Os contactos com as civilizações africanas a sul do Sará despertaram desde muito cedo o interesse dos navegadores portugueses; as diferenças de clima, de fauna e da flora, mas também os contrastes culturais entre os diversos reinos africanos e os padrões europeus foram um motivo de curiosidade e interesse permanente. Desde o momento em que se estabeleceram os contactos e o comércio pacífico e foram proibidas as presas, ou seja, a tomada de bens ou pessoas pela força, o que aconteceu na década de 1440, estavam reunidas as condições para o aprofundamento das relações entre Portugal e diversos reinos africanos, sobretudo os que revelavam maior interesse em promover o comércio com os portugueses e em se converter ao Cristianismo.

No reinado de D. João II, este vector sofreu um notável incremento. O monarca desenvolve uma política coerente de aproximação e de promoção de alianças com diversos reinos africanos, o que se revelava essencial para o seu plano de expansão ultramarina, sob diversos pontos de vista: permitia uma melhor exploração económica, com o estabelecimento de acordos de comércio vantajosos para ambas as partes; fortalecia a presença portuguesa face a uma eventual concorrência castelhana na região da Guiné; facilitava a transmissão de conhecimentos sobre vários objectivos a atingir, nomeadamente a existência de reinos cristãos a Oriente e a passagem para o Oceano Índico, que se procurava a todo o momento alcançar.

A política levada a cabo por D. João II obteve bons resultados junto de diversos reinos africanos. O primeiro foi o dos Jalofos, na região do Senegal, que os portugueses haviam entrado em contacto já há várias décadas. Tal aproximação culminou com a conversão do rei africano, em 1488, data em que se fez baptizar em Lisboa com o nome de D. João Bemoim, após ter sido recebido com todas as honrarias por D. João II, como assinala o cronista Rui de Pina:

"Chegou Bemoim a Lisboa, e com ele alguns negros de seu sangue real (..). Como el-rei foi de sua vinda avisado, mandou que se viessem aposentar a Palmela, onde mandou logo prover aos seus mui abastadamente, e servir a ele com prata, e oficiais, e todos os outros cumprimentos que têm semelhança de Estado. E a todos mandou dar de vestir de panos finos e ricos, e como a qualidade e merecimento das pessoas o requeria. (…) E aos 3 dias do mês de Novembro o dito Bemoim, e seis dos príncipes que com ele vieram, foram feitos cristãos ás duas horas da noite, na câmara da rainha (…); foram seus padrinhos el-rei, a rainha, o príncipe e o duque, e um comissário do Papa que na Corte andava, e o bispo de Tânger."

Também na região da Mina, onde D. João II mandou erguer um fortaleza em 1482, tentaram os portugueses obter alianças políticas e fomentar a evangelização, embora com resultados menos satisfatórios. Um pouco mais a Sul, na região do Benim, os contactos foram pelo contrário mais profundos. A importância deste poderoso reino do interior era tal que D. João II ali enviou por duas vezes (em 1486 e 1487) uma embaixada chefiada por João Afonso de Aveiro. Tinha como objectivos a fundação de uma feitoria, a promoção da amizade com Portugal e a preparação para uma futura evangelização naquela região, no que foi bem-sucedido. No entanto, a melhor recepção aos marinheiros portugueses estava reservada para uma outra região, completamente isolada até então da civilização europeia: o reino do Congo.

O Congo foi contactado pela primeira vez por Diogo Cão, que ali foi muito bem recebido logo na sua primeira viagem. Posteriormente, constatando a boa-vontade local, este mesmo capitão transportou para Lisboa uma embaixada deste reino de africano, que presenteou D. João II com peças de marfim e panos de palma. O rei respondeu com o envio de uma embaixada portuguesa em 1491 (chefiada por Rui de Sousa), após uma fase de intensos contactos onde se destacava a excelente predisposição local a receber a presença portuguesa, promover o comércio e até mesmo a aceitar a missionação cristã. A embaixada foi recebida em triunfo na capital do Congo, ao que se seguiu o baptismo do rei e das principais figuras da sua corte.

Desta forma, D. João II conseguia obter um conjunto de alianças políticas que lhe permitiam fomentar a presença portuguesa junto de uma série de poderosos reinos africanos cristianizados ou em vias de o ser. No seio do projecto global acalentado pelo monarca, tal perspectiva estava articulada com a procura do mítico reino cristão do Prestes João e com o descobrimento do caminho marítimo para a Índia. D. Manuel viria a dar continuidade a este plano, incrementando a política de alianças e de evangelização de diversos reinos de África, que só viria a abrandar a atenuar-se mais tarde, já com D. João III.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

terça-feira, 7 de abril de 2009

Era uma vez… Portugal (V)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 06/04/09

O Livro dos Conselhos de El-Rei D. Duarte

D. Duarte, segundo monarca da dinastia de Avis, ficou conhecido como um dos reis mais cultos da nossa História. Assumiu o governo do país após a morte do seu pai, D. João I, em 1433, até 1438, data do seu falecimento. Subiu ao trono já com 42 anos, mas também com uma longa experiência política, pois desde novo foi associado á governação. Foi um rei letrado e culto, muito bem preparado para o poder, e cujo gosto pelas letras se tornou célebre. De sua autoria conhecem-se duas obras, ambas excelentes exemplos do seu carácter erudito e da sua personalidade madura, mas também dos gostos literários da época: o Leal Conselheiro e a Ensinança de Bem-Cavalgar a Toda a Sela. Numa trata dos problemas que enfrenta e das regras de justiça que deverá seguir o bom governante; na outra, da arte de montar, da caça e da guerra. Não vamos hoje abordar nem uma, nem outra. Preferimos escolher um outro exemplo, o chamado Livro de Conselhos de El-Rei D. Duarte, ou Livro da Cartuxa, pequeno conjunto de textos de origens diversas, espécie de bloco de apontamentos onde o rei anotava vários temas de seu interesse.

O reinado de D. Duarte marca um dos períodos mais interessantes da História de Portugal. Um dos debates mais importantes da época dizia respeito á política africana: após a conquista de Ceuta, o que fazer? Prosseguir a conquista do norte de África, avançando para outras posições, ou abandonar estes projectos militares, e apostar no comércio pacífico? Sabemos hoje que as políticas do Infante D. Henrique, com a colonização da Madeira, a descoberta dos Açores, e a dobragem do Cabo Bojador, estavam condenadas ao sucesso, mas na época tal não podia ainda ser sentido, e as empresas militares de conquista de Marrocos detinham ainda um grande prestígio. Podemos perguntar o que tem isto a ver com o Livro dos Conselhos de El-Rei D. Duarte. Na verdade, este livrinho começa precisamente por transcrever diversos pareceres de várias pessoas sobre se se devia ou não prosseguir a guerra em Marrocos, cada um indicando ao rei os seus motivos; assim, a sua leitura leva-nos a concluir que a maior parte se inclinava para a continuação da política de conquista, que, na verdade, veio a vencer, e que conduziu ao desastre de Tânger. Mas outras vozes mais sensatas e prudentes opunham-se a esta linha; a mais importante era a do Infante D. João, irmão do rei: este declara-se abertamente contra a guerra em Marrocos que, segundo ele, só dava prejuízo e não servia ninguém. Quando confrontado com a velha ideia de que fazer a guerra aos mouros era serviço de Deus, responde do seguinte modo:

"(…) não somos certos se é serviço de Deus, porque eu não vi nem ouvi que Nosso Senhor nem algum dos seus Apóstolos nem doutores da Igreja mandassem que guerreassem infiéis, mas antes por pregação e milagres os mandou converter (…)".

Mas o Livro dos Conselhos não trata só de problemas políticos. Na verdade, é uma compilação de apontamentos sobre variados temas, desde cartas a várias ordens do rei, poesias, diversos textos religiosos e de carácter moral, música, pesos e medidas, orações e rezas, algumas de particular interesse e curiosidade. Por exemplo, podemos encontrar aqui uma das mais antigas formas do Padre-Nosso em Português que, como se pode comparar, não se modificou muito em quinhentos e cinquenta anos:

"Padre Nosso que és nos Céus                    O pão nosso de cada dia nos dá hoje
Santificado seja o Teu Nome                      Quita-nos as nossas dívidas
Venha a Nós o Teu Reino                            Como nós quitamos a nossos devedores
Seja Feita a Tua Vontade                            Não sejamos derribados na Tentação,
Assim na Terra como nos Céus.                 Mas livra-nos do Mal."

Diversas notícias, mais ou menos insólitas, estão também presentes neste Livro, e que certamente só a curiosidade e interesse do rei permitiram que ficassem registadas. Uma das mais interessantes é o registo de um fenómeno meteorológico ocorrido em Santarém, para o qual não é dada nenhuma explicação:

"Dia de Santo Antão 17 dias de Janeiro da era de 1431, a horas de vésperas, caíram em Santarém e ao redor dele muitas fagulhas, assim como se queimassem algum grande canavial ou muitas vides, e isto sem na vila nem fora dela haver fogo de que viesse".

O Livro dos Conselhos de El-rei D. Duarte que chegou aos nossos dias é uma cópia tardia, e encontra-se actualmente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. O original perdeu-se, ou espera ainda nalgum canto de algum arquivo. Não sabemos se terá ou não sido escrito pela mão do próprio rei, o que não causaria grande espanto, conhecido que é o seu gosto pela escrita e pelos livros. De qualquer modo, é certo que foi composto para seu uso pessoal, sendo provavelmente actualizado e acrescentado a cada momento.

Este Livro dos Conselhos é um verdadeiro manual, um compêndio de conhecimentos e apontamentos úteis, quer para a política quer para a vida quotidiana. É igualmente a prova de que, no século XV, a cultura popular estava ainda perfeitamente integrada na vida da Corte e do rei: assim, um dos capítulos ensina a semear a alfafa, outro a como conservar o pescado fresco durante quinze dias, outro ainda ensina a saber as horas, quer durante o dia quer de noite, através da observação do céu. Mas mais interessante é ainda o grande número de páginas dedicadas á medicina e farmacopeia, que tomam a forma, sobretudo, de receitas para diversos males, quem sabe se ainda utilizadas nalgum canto de Portugal: para a dor de olhos, dores nas articulações, diarreia, peste, ciática, febres várias, dores de dentes.

Algumas receitas podem causar, nos nossos dias, algum espanto; por exemplo, o Livro apresenta-nos a certa altura uma receita para afastar o demónio áquele que for tentado, quer seja homem ou mulher, mas só funciona se não for bêbado nem mudo; ou ainda, para o peito das mulheres, após o parto, propõe vários emplastros: sementes de algodão pisadas com vinagre, raízes de abróteas com óleo de macela, ou ainda minhocas fritas em manteiga. Para terminar, e como se aproxima o Inverno, apresentamos a receita para as dores nos ossos, quem sabe se não será de grande utilidade para quem nos escuta:

"Esta mezinha é boa para a frialdade que está no osso ou juntura:

Tomar a linhaça galega tanto com água que se faça assim como massa, e pô-la num pano de cor, e tanto que ela for com temperatura que a possam suportar, pô-la onde for a dor, e isto por cinco ou seis vezes juntamente. Isto lhe farão por três ou quatro dias, e isto feito traga cada ano até nove dias ou mais se for tempo frio, coberto de pano de linho dobrado ou de lã o lugar que doer."

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Era uma vez… Portugal (IV)

Era uma vez… Portugal (IV)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 05/04/09

DIOGO DE AZAMBUJA E A EXPANSÃO PORTUGUESA NO REINADO DE D. JOÃO II

É bem conhecida de todos a importância da figura do rei D. João II, o Príncipe Perfeito, no processo dos Descobrimentos. É, de facto, durante o seu reinado que se consolida a Expansão Portuguesa e se assegura a descoberta da passagem marítima para o Oceano Índico, abrindo caminho á instalação dos portugueses no Oriente. Os Descobrimentos recebem, assim, um impulso decisivo para o seu bom sucesso, definindo este rei uma série de objectivos claros a atingir. Embora a grande etapa fosse a descoberta do caminho marítimo para a Índia, D. João II pretendia também assegurar a presença portuguesa em África, garantindo a segurança das rotas marítimas e promovendo a exploração económica, nomeadamente através do comércio. Neste sentido, uma das acções mais importantes desencadeadas no seu reinado é precisamente a construção de uma fortaleza na costa africana, que se viria a chamar São Jorge da Mina. É disto que falaremos hoje, acompanhando a biografia do seu construtor, Diogo de Azambuja.

Mas recuemos um pouco no tempo. Iniciado pelo Infante D. Henrique, o avanço e exploração da costa africana pelos portugueses havia começado pelo dobrar do Cabo Bojador por Gil Eanes, em 1434, prolongando-se pelas décadas seguintes. Á data da morte do Infante, em 1460, já haviam chegado á Serra Leoa, no Golfo da Guiné. Quando o príncipe D. João, ainda infante, chama a si o encargo de conduzir o processo dos Descobrimentos, em 1474, já os portugueses dominavam a navegação nas águas atlânticas, e já se tornava bastante proveitoso o comércio na costa africana, efectuado em pequenos estabelecimentos fortificados a que se dava o nome de feitorias-fortalezas. A mais importante era nessa altura a existente na ilha de Arguim, onde florescia o comércio do ouro, que os portugueses adquiriam em troca de objectos diversos levados de Portugal ou comprados em Marrocos, como pulseiras de latão, bacias, colares, tecidos, etc. Mas tal era já insuficiente para as potencialidades que a vastidão da costa africana oferecia, e cedo o jovem D. João II sentiu a necessidade de criar um entreposto mais sólido. Este rei tinha, porém, como principal objectivo a chegada á Índia contornando África, e todo o proveito obtido no comércio africano deveria ser canalizado nesse sentido. Para melhor entendermos o sentido da sua actuação, falta-nos referir outro dado importante: pela primeira vez, com D. João II, os Descobrimentos se tornam uma verdadeira empresa de Estado, sendo todas as viagens feitas por conta do rei, e os lucros obtidos canalizados para o Tesouro Real, num sistema de monopólio. Como em 1479 havia sido assinado com Castela o Tratado de Alcáçovas, que reservava para Portugal todo o espaço geográfico a sul das Canárias, o rei vê-se assim de mãos livres para realizar o seu plano de avançar nas viagens de Descobrimento. E a construção do castelo de S. Jorge da Mina, logo de seguida, constituiu um instrumento importante nesse avanço.

Assim, o rei prepara em 1481 uma expedição composta por nove caravelas e duas grandes naus, designadas por urcas. Tinha como missão a construção de uma fortaleza no Golfo da Guiné, num local propício para o comércio. Levava esta armada cerca de 600 soldados e 100 pedreiros e carpinteiros, e carregava a pedra necessária para a construção da fortaleza. Após alguma hesitação, D. João II acaba por entregar o comando desta expedição a um Diogo de Azambuja, homem já dos seus cinquenta anos. Quem era esta personagem, a quem o rei confiou o sucesso de tão importante missão?

Diogo de Azambuja, não sendo propriamente um navegador, era no entanto um homem inteligente e hábil, um excelente militar e estratega, da confiança, evidentemente, do rei, e capaz de erguer no espaço de tempo mais curto possível uma fortaleza numa região ainda em grande parte desconhecida. Era cavaleiro da Casa de el-rei, sendo um dos primeiros fidalgos ligados á empresa dos Descobrimentos de que temos conhecimento. Membro da Ordem de Cristo, havia servido D. Pedro, (filho do Infante D. Pedro da Ínclita Geração morto em Alfarrobeira), tendo prestado serviço em Alcácer-Ceguer e em Aragão. Após a morte do seu senhor, em 1466, havia retornado ao Reino, entrando depois ao serviço do Príncipe Perfeito. Participa nas guerras com Castela, recebendo em 1480 o privilégio de fidalgo.

Vemos, assim, que D. João II entrega a responsabilidade da construção da fortaleza não a um navegador, mas a um militar experiente, capaz de conduzir tal tarefa arriscada e difícil. A armada parte em Dezembro de 1481, rumando para Sul. Curiosamente, um dos navios era capitaneado por Bartolomeu Dias, que mais tarde dobraria o Cabo da Boa Esperança, e um outro, por Pedro de Sintra, provavelmente o descobridor da Serra Leoa, ainda no tempo do Infante D. Henrique. A expedição segue até ao Golfo da Guiné, na Costa mais tarde designada Da Mina, procedendo Diogo de Azambuja ao reconhecimento da costa, de forma a encontrar o local mais favorável para a construção da fortaleza. Escolhe uma baía para desembarcar, o que faz a 19 de Janeiro de 1482, e de imediato se iniciam os trabalhos de construção. Ao cabo de 20 dias, já estava a fortaleza bem encaminhada, concluindo-se a sua construção pouco depois. Á data encontrava-se no local um navio português, que procedia ao comércio com as populações locais, mas o seu bom senso, o tacto de Diogo de Azambuja e, sobretudo, a boa recepção do rei local permitiram evitar conflitos e foram o factor decisivo para o êxito da missão.

Acabada a fortaleza, estabelecidos os contactos amigáveis com as populações locais e accionadas as trocas comerciais, Diogo de Azambuja considerou terminada a tarefa, pelo que mandou regressar a armada a Lisboa com notícia do sucesso da missão, ficando ele próprio como capitão da fortaleza com sessenta soldados. Exerceu o cargo até 1484, data em que regressou a Lisboa. A fortaleza ficou conhecida como S. Jorge da Mina, devido á devoção que o rei tinha a este santo. Assim ficou assegurada a presença portuguesa na região, sendo a fortaleza a sede de um rico tráfico de ouro. Era uma peça importante no projecto de D. João II, como base da navegação portuguesa e do combate á pirataria, principalmente espanhola, que acorria a esta região atraída pelos lucros do comércio. Por outro lado, pretendia canalizar o grosso volume do comércio africano do ouro, que chegava ao Norte de África e á Europa através de caravanas. Para tal promoveu por todos os meios as boas relações com os reis locais, e elevando em 1486 a Mina á categoria de cidade, concedendo os privilégios adequados aos habitantes em redor. Interessa salientar que o comércio da feitoria era de tal modo importante que foi durante muito tempo o entreposto comercial mais rico das possessões portuguesas, mesmo após a chegada á Índia. Funcionou também como um importante ponto de apoio ás naus de regresso da Índia durante todo o século XVI e parte do século XVII, até ser tomada pelos holandeses.

Quanto a Diogo de Azambuja, não terminaram aqui os seus feitos como homem de armas. Recompensado pelo rei com o cargo de alcaide de Monsaraz, para além de outras recompensas como a nomeação para o Conselho Real, Diogo de Azambuja manteve-se porém ligado á Corte e ao serviço do rei, embora a sua idade e uma deficiência física aconselhassem já a sua retirada. E é já com mais de setenta anos que aceita uma missão que o rei D. Manuel o encarrega, em 1506: construir uma fortaleza na região de Safim, no sul de Marrocos, de forma a aí permitir a fixação portuguesa. Diogo de Azambuja não só cumpriu tal missão com êxito, como tomou a própria cidade de Safim, permanecendo como capitão da cidade até 1509, com a idade de cerca de 77 anos. Nesta data regressa a Portugal, vindo a falecer em 1518.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Era uma vez… Portugal (II)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 01/04/09

A CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA E O DESCOBRIMENTO DO BRASIL

O século dos grandes Descobrimentos portugueses foi, como é conhecido, uma época de intensos contactos entre diversas culturas, que viriam a facilitar um melhor conhecimento do mundo e da sua diversidade. Um momento privilegiado neste conhecimento ocorria com a descoberta de uma cultura ainda desconhecida, sobretudo no Novo Mundo de que se ignorava anteriormente a existência. Na História da Literatura Portuguesa há um pequeno relato que ocupa um lugar de destaque, por constituir a descrição do primeiro contacto entre os navegadores portugueses e os índios brasileiros: a "Carta de Pêro Vaz de Caminha a el-rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil". Vamos hoje falar sobre este pequeno documento precioso, e sobre o lugar que a chegada dos portugueses ao Brasil ocupa na História dos Descobrimentos.

É, de um modo geral, por todos conhecido que o rei D. João II deu um novo impulso ao processo dos Descobrimentos que se encontrava com alguma perda de vitalidade desde a morte do Infante D. Henrique em 1460. Igualmente sabido é o facto de que, após a viagem de Cristovão Colombo, Portugal e Espanha procederam a uma nova partilha do Mundo (de que comemoramos, aliás, os 500 anos este ano), segundo a qual caberia aos nossos vizinhos as terras encontradas por Colombo, e a Portugal a África e a Ásia, segundo uma linha que o nosso rei insistiu que se localizasse o mais possível para Oeste. Se D. João II teria ou não conhecimento prévio da existência do Brasil, é algo que ainda hoje se discute. Mas a verdade é que, de facto, uma fatia do continente americano ficou na área demarcada como pertencente a Portugal segundo o mesmo Tratado.

Nos finais do século XV não havia, por parte da Coroa portuguesa, qualquer interesse em descobrir terras localizadas a Ocidente. Na verdade, com a viagem de Vasco da Gama tinha-se provado que o projecto de D. João II estava correcto, e estava aberta a ligação directa entre Portugal e a Índia. Assim, todos os esforços eram canalizados, agora sob a orientação do novo rei D. Manuel, para explorar esta recém-descoberta rota, e permitir que afluíssem a Lisboa as tão famosas mercadorias do Oriente, sobretudo as cobiçadas especiarias.

Deste modo, parte a 9 de Março de 1500 a segunda armada para a Índia, fortemente armada, com vista a firmar a posição de Portugal e a permitir o estabelecimento de relações comerciais com diversos reinos da costa ocidental indiana. Era esta armada comandada por Pedro Álvares Cabral, e levava a bordo um escrivão que foi registando as informações mais importantes da viagem. Passaram as Canárias e Cabo Verde, mas seguidamente as condições atmosféricas arrastaram a armada para oeste, e a 21 de Abril os marinheiros detectam alguns sinais de terra, como algumas ervas e aves; no dia seguinte, 22 de Abril de 1500, avistam terra, que Pero Vaz de Caminha regista do seguinte modo:

"Neste dia, a horas de véspera [ou seja, de tarde], houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome -O Monte Pascoal - e á terra - a Terra de Vera Cruz."

Tinham os portugueses descoberto o Brasil. A exploração desta nova terra, de que não suspeitavam ainda ser um imenso continente, começou imediatamente, logo no dia seguinte. Desembarcam e contactam de imediato com os índios, que andavam sobre a praia. Causam estranheza por andarem nus, e traziam arcos e flechas. Um marinheiro português mais afoito, chamado Nicolau Coelho, tratou imediatamente de tentar contactar estes estranhos personagens; a língua era diferente, mas tal não impediu o contacto amigável, como diz o cronista:

"Ali não pôde deles haver fala, nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Deu-lhes somente um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça e um sombreiro preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave compridas, com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal grande de continhas brancas, miúdas (…)".

Assim, desta forma amistosa, se iniciou o contacto com as populações locais, com quem viveram os portugueses durante alguns dias. No dia seguinte, 24, foram os contactos mais prolongados, quando os portugueses levaram alguns índios a visitar um navio. Ali puderam observar melhor a diferença de costumes, de alimentação e de vestuário. No domingo seguinte, de Pascoela, a 26 de Abril, o capitão decidiu mandar rezar uma missa em terra, o que é feito sob o olhar curioso de vários índios. Assim se passaram vários dias, repartidos entre a exploração da costa, o abastecimento dos navios e o contacto com a população local, geralmente sob a forma de diversas trocas que lhes amainava a desconfiança inicial. O cronista regista com alguma admiração alguns traços desta cultura desconhecida: não tinham rei nem autoridade visível, não criavam gado, antes viviam do que a floresta lhes dava, não conheciam o ferro, mostravam grande interesse em relação aos portugueses e, como considerava que viviam num estado de ingenuidade e inocência, diz que poderiam ser facilmente convertidos ao cristianismo.

Entretanto, Pedro Álvares Cabral enviava de regresso a Lisboa um navio com a notícia do descobrimento da nova terra, e preparava-se para retomar a viagem á Índia, deixando na nova terra dois degredados como "lançados" que, como em África, eram deixados para melhor conhecerem as populações locais, e recolherem informações que pudessem ser úteis aos portugueses. Assim se estabeleceu pela primeira vez o contacto entre portugueses e os índios do Brasil. Destes breves dias ficaram registados os momentos porventura mais importantes, como este, em que Pero Vaz de Caminha descreve o encontro entre um grupo de portugueses e outro de índios, na praia:

"Passou-se então para além do rio Diogo Dias (…), que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras e salto mortal, de que eles se espantavam e riam muito."

A armada de Pedro Álvares Cabral seguiu então a sua viagem rumo á Índia. Pelo caminho se perdeu entre outros o navio comandado pelo homem que havia pela primeira vez contornado o Cabo da Boa Esperança, Bartolomeu Dias, mas a armada acabaria por chegar a bom porto e por desempenhar a sua missão de consolidar a presença portuguesa no Oriente. Pelo caminho havia, porém, descoberto o Brasil e iniciado o contacto com a terra que mais tarde viria a suplantar a Índia como alvo de exploração e colonização.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Era uma vez… Portugal (III)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 02/04/09

A POLÍTICA CASTELHANA DE D. AFONSO V E O TRATADO DE ALCÁÇOVAS

Os Descobrimentos Portugueses, iniciados nas primeiras décadas do século XV pelo Infante D. Henrique, não deixaram de suscitar cobiça por parte de outros reinos peninsulares, sobretudo a partir do momento em que a exploração da costa africana começou a dar grandes lucros. Assim, o ritmo do avanço dos portugueses para Sul está ligado ao relacionamento com os países vizinhos, sobretudo Castela, e ao modo como conseguiram os monarcas portugueses salvaguardar para si a exclusividade da navegação e comércio no Atlântico. Vamos hoje falar de um período particularmente difícil neste processo, em que a interferência de D. Afonso V nos assuntos internos do reino de Castela colocou em perigo a primazia portuguesa nos Descobrimentos.

É bem conhecida a inclinação do rei D. Afonso V para a expansão em Marrocos e o seu desinteresse pelos problemas do descobrimento e avanço na costa africana. Desde 1460, data da morte do Infante D. Henrique, que as viagens de exploração estavam arrendadas a particulares, uma vez que não havia interesse visível do rei em chamar a si a condução das viagens. Por outro lado, esta nova fase dos Descobrimentos é marcada pelo comércio cada vez mais rendoso que os portugueses conseguiam obter nas costas africanas, uma vez que se havia já alcançado regiões onde o rico tráfico do ouro era possível. Finalmente, resta lembrar que em 1474 entrara em cena uma nova personagem, o príncipe D. João, futuro D. João II, que desde logo se interessa por este processo, vindo gradualmente a acompanhar e conduzir a empresa africana. Nesta época, Portugal havia conseguido obter do Papa importantes garantias do seu direito á exclusividade de navegação e comércio naquelas paragens, medida indispensável para tentar afastar a cobiça castelhana. No entanto, entre 1475 e 1479 o rei português promove uma política intervencionista nos assuntos internos de Castela, o que provocou a guerra aberta entre os dois países e constituíu um excelente pretexto para os reis espanhóis promoverem a navegação nas costas africanas, entrando em concorrência directa com Portugal e não respeitando a exclusividade portuguesa naquelas regiões.

Este incidente foi provocado pela morte, em Dezembro de 1474, do rei de Castela Henrique IV. A corte Castelhana estava dividida em duas facções: os que apoiavam a irmã do rei, Isabel, casada com o rei de Aragão, e os apoiantes da princesa D. Joana, sobrinha de D. Afonso V. Esta detinha a teoricamente a legitimidade, como filha do falecido rei, mas na prática a sua pretensão ao trono era posta em causa por vários sectores da corte castelhana, tanto mais que se murmurava nos bastidores que ela não era filha do rei, mas de um nobre castelhano pelo qual a rainha se havia apaixonado no passado. Ficou, aliás, para a História com o nome de Joana, a Beltraneja, cognome retirado do tal nobre castelhano, chamado Beltrán de la Cueva.

De qualquer modo, o rei português D. Afonso V empreende imediatamente uma arriscada política de intervenção em Castela, ao promover o seu casamento com a sua sobrinha e coroar-se rei de Castela e Leão, recolhendo apoio de parte da nobreza espanhola. Abriu-se, assim, um período de guerra entre os dois países, pois os reis Católicos, Isabel de Castela e Fernando de Aragão, imediatamente reagiram a esta pretensão do rei português, atacando várias praças fronteiriças portuguesas e enviando várias esquadras para as costas da Guiné.

Portugal estava, deste modo, de novo em guerra com Castela, arriscando-se agora a perder os seus direitos adquiridos no que toca á exploração do Atlântico e das costas da Guiné, o que a longo prazo poria em risco o futuro do processo dos Descobrimentos. O país arruinava-se devido ás despesas militares decorrentes da guerra. No plano militar, a situação não era melhor. A batalha do Toro, ocorrida a 2 de Março de 1476, anunciara o arrastar das hostilidades por tempo indeterminado. Porém, o cansaço provocado pela guerra, assim como os riscos que o seu arrastamento poderiam provocar para a soberania nacional, cedo obrigaram a uma rápida solução. O próprio príncipe D. João, certamente mais interessado em dedicar-se ás viagens de Descobrimento do que a dar cobertura á ambição política de seu pai, manifestara-se contra o prosseguimento da guerra. As Cortes do Reino, reunidas em Montemor-o-Novo e depois em Santarém no ano seguinte, demonstraram as dificuldades financeiras em prosseguir o conflito e assinalaram o descontentamento popular face á situação do país na época. Cresceram assim as pressões para que o problema fosse resolvido pela via diplomática. Foram então iniciadas as conversações para a obtenção da paz. As negociações foram longas e difíceis, devido á complexidade e gavidade dos problemas a resolver. Os Reis Católicos, embora numa posição mais favorável, acusaram igualmente um grande desgaste interno e uma igual vontade em resolver o conflito. A paz viria então a ocorrer algum tempo depois, em 1479, com a assinatura do Tratado das Alcáçovas, que resolveu de uma vez por todas os diversos conflitos que opunham Portugal a Castela.

O Tratado de Alcáçovas garantiu a Portugal a salvaguarda dos seus direitos sobre a navegação e comércio das costas africanas, permitindo assegurar a cantinuidade dos Descobrimentos e afastar de vez a interferência castelhana na região. Ficou estipulado que todo o espaço a sul do paralelo das Canárias e do Cabo Bojador, assim como todas as terras descobertas e a descobrir, incluindo os arquipélagos atlânticos, ficariam sob jurisdição portuguesa, obtendo ainda o direito á conquista do reino marroquino de Fez. Em troca, o rei de Portugal foi obrigado a desistir de todas as pretensões sobre o trono de Castela, assim como a sua sobrinha D. Joana. Do mesmo modo, foi obrigado a reconhecer a soberania castelhana sobre as Canárias, que desde há muito eram um foco de tensão entre os dois estados, e reconhecer a Castela o direito de conquista de Granada. Estamos, assim, perante o primeiro Tratado de partilha do Mundo, que garantia a Portugal, sob a direcção do príncipe D. João, o caminho livre para prosseguir o descobrimento da costa africana a caminho da Índia e do Oriente. Foi sob os seus auspícios que se avançou rapidamente para Sul e se contornou o Cabo da Boa Esperança, até que a viagem de Cristóvão Colombo, em 1492, ao serviço dos reis espanhóis, veio a provocar novo conflito diplomático e a assinatura de um novo Tratado, em Tordesilhas, sobre o qual comemoramos este ano o 5º Centenário.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

A Imprensa periódica portuguesa na época da Restauração

via Memória Virtual de Leonel Vicente em 01/04/09

O surgimento da Imprensa na Europa, no século XV, permitiu, como é por demais conhecido, uma rápida expansão dos conhecimentos e da cultura. Os seus efeitos foram profundos e duradouros, permitindo a difusão de obras de todo o tipo, que anteriormente teriam de ser copiadas á mão, e logo com um grau de difusão muito menor. Uma das consequências da invenção de Guttenberg foi o aparecimento por toda a Europa dos primeiros jornais. Considera-se como jornal uma edição impressa composta com o objectivo de difundir informações ou notícias, com uma certa periodicidade e continuidade, ou seja, algo que informa ou pretende informar regularmente, e não apenas um folheto ou manifesto isolado.

Em Portugal, o surgimento da imprensa periódica, ou seja, do primeiro jornal, está ligado á nossa história política. De facto, o primeiro jornal português surgiu num período muito particular da nossa História, a época das Guerras da Restauração, servindo a causa de D. João IV. É deste tema e da sua importância no contexto geral da retomada e fortalecimento da independência de Portugal neste período que iremos falar hoje.

O golpe executado em Lisboa a 1 de Dezembro de 1640, que abriu caminho á subida ao trono do Duque de Bragança, como D. João IV, foi apenas o primeiro passo do longo processo da Restauração, que só terminaria mais de 20 anos mais tarde com a assinatura da paz e o reconhecimento da independência de Portugal por parte de Espanha. Durante este tempo, foi empreendido um enorme esforço nacional, quer militar, político e económico, mas também no plano diplomático e cultural. Neste último caso, havia que legitimar a nova dinastia e o novo reino, no que se distinguiram diversos autores, como o Pe. António Vieira. Por outro lado, num estado de guerra, havia que informar o país dos sucessos militares que se alcançavam contra os espanhóis, manter esperanças e animar a população nos anos difíceis que se viviam.

Já anteriormente haviam surgido alguns simulacros de jornal. Durante o período filipino, tratou-se sobretudo de folhetos e manifestos contra o domínio castelhano, pelo que logo na década de 1620 a censura prévia aos folhetos impressos passou a ser cuidadosamente efectuada. Também por esta altura Manuel Severim de Faria imprime, numa proximidade evidente ao que chamamos hoje jornalismo, uma Relação Universal do que Sucedeu em Portugal e mais Províncias do Ocidente e Oriente, de que saíram dois números.

No entanto, o que mais propriamente chamamos o primeiro jornal português apenas surgiu na nova conjuntura da Restauração, destinado a relatar ao público a aclamação de D. João IV e a informar regularmente o público sobre os sucessos militares e outros acontecimentos, quer nacionais, quer estrangeiros. Era, assim, um instrumento de propaganda ao serviço da Restauração, e o primeiro número foi impresso em Lisboa logo em Novembro de 1641. Tinha como título completo Gazeta em que se Relatam as Novas Todas que Houve Nesta Corte e que Vieram de Várias Partes. Dava conta de várias notícias de carácter diverso, era mensal e resultou de alvará atribuído pelo rei a Manuel de Galhegos. As informações militares ocupavam lugar de destaque, como se pode comprovar neste exemplo:

"Pelejou a armada de Holanda com uma armada da Esquadra Real de Castela, em que vinham muitas fragatas de Dunquerque; durou a pendência mais de 24 horas. Foi-se a pique um galeão dos Castelhanos e ficaram alguns destroçados e todos com muita gente morta. O Holandês com algum dano se retirou a este porto, onde está aguardando que El Rei Nosso Senhor lhe dê socorro para sair outra vez a atemorizar os portos da Andaluzia".

Porém, outras notícias vinham incluídas na Gazeta, meras referências de casos ocorridos e relatados nas ruas de Lisboa, alguns pequenos apontamentos mundanos, como este caso:

"O Conde da Castanheira, que estava preso numa torre de Setúbal, pediu a El Rei Nosso Senhor que lhe mudasse a prisão, porquanto estava indisposto; e El Rei Nosso Senhor, usando de sua natural benignidade o mandou trazer para o Castelo de Lisboa."

Este foi, assim, o primeiro jornal português, ainda muito semelhante ás notícias dispersas que se imprimiam com grande intensidade por todo o país, dando informações sobre as Guerras em curso. Não era barato: cada número custava 6 réis, pelo que não conseguiu uma grande difusão. No entanto, a brevidade da vida da Gazeta não se ficou a dever a falta de leitores. Pelo contrário, foi o próprio poder político que, nesta época de grandes dificuldades, temia a divulgação de notícias que pudessem dar informações ao inimigo, pelo que passou a vigiar atentamente que o jornal quer outros folhetos informativos que circulavam no país. A Gazeta foi suspensa durante alguns meses, e acabou por publicar apenas notícias do estrangeiro. Em 1647 deixou definitivamente de se publicar.

Seria necessário esperar alguns anos para assistir ao surgimento do segundo jornal, já em 1663. Trata-se do Mercúrio Português, tomando o nome do que era, para os romanos, o deus mensageiro. Seguia, aliás, o exemplo de outros Mercúrios que se imprimiam por toda a Europa. O seu fundador foi António de Sousa Macedo, escritor e diplomata. Embora variando um pouco, quer em forma quer em conteúdo, da anterior Gazeta, o Mercúrio pretendia também informar o público acerca de diversos temas, destacando-se uma vez mais a Guerra da Restauração que ainda prosseguia. Podemos afirmar que era mais politizado do que a Gazeta, pois destinava-se principalmente a contrariar o enorme esforço de propaganda que os espanhóis promoviam na altura, denegrindo a imagem de Portugal na Europa e difundindo informações falsas sobre o conflito com os portugueses. Porém, este Mercúrio não durou mais do que alguns anos. Passado o período das Guerras da Restauração, não se registam sinais de interesse pelo reactivar da imprensa periódica. Assim, durante o resto do século XVII não se publicou mais nenhum jornal. Só em 1705 é que surgiu um novo, chamado também Gazeta. A partir de 1715 toma a designação de Gazeta de Lisboa, que existiu por muitos anos, tornando-se um jornal oficial.

 Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal