sábado, 19 de janeiro de 2008

5262 - O Vélo d' Oiro, Henrique Galvão

5262 - O Vélo d' Oiro, Henrique Galvão

Capítulo I - Tentação de África

1. - Tentação de ir para África

Tinha eu vinte e sete anos e estava empregado no Banco do Crédito Agrícola, quando me inquietou, pela primeira vez, a tentação da África.

Fôra por lá que meu avô juntara a fortuna que eu depois consumi em estúpidas doidices e, à África também se tinha aferrado meu primo direit Vasco Benevides-depois duma deportação por motivos políticos e muito desarrumo na vida que levara em Portugal.

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2. - Localização da mulola do Tchimporo

«Existe cá para o Sul uma região misteriosa, à beira das terras do Cuanhama, conhecida pelo I nome de Mulola do Tchimporo, a cujo interior nenhun-ia alma branca conseguiu ainda chegar. «Dizem uns que é terra árida, tôda de areias I soltas e ressequidas, e palpitam outros que, no in-

terior, deve ser povoada e abundantemente ves-

tida de rica vegetação.

«Resulta o mistério da dificuldade de lá se chegar, pois a água falta e não é possível levar automóveis através do areal imenso - e muito menos carros de tracção animal, pois todo o gado

morreria de sêde.

«Tinha eu ouvido falar da região, como tôda a gente, mas nada, até há algum tempo, despertara em mim o desejo de a conhecer.

«Mas, vai em seis meses, e por forma que a seu tempo saberás e que seria muito longa de narrar agora, adquiri a certeza física de que há estonteantes abundâncias de oiro no interior da

mulola.

«Oiro nativo, meu querido Rodrigo, oiro quási puro, que mais trabalho não dá do que meter-lhe a picareta e carregá-lo nos carros! Um preto ganguela, que conseguiu atravessar a região e descobrir caminho provido de água, trouxe-me infonnações e provas das quais não é possível

duvidar.

«Não julgues que são fantasias minhas; sou o mesmo homem que era, de natural desconfiado e pessimista ; não me convenci sem fortes razõesmas, agora, estou convencido e bem convencido, com dados que não enganam.

«Se confias em mim e estás disposto a vir com o teu capital, indispensável para organizar convenientemente a viagem à Mulola, que fica a mais

de seiscentos quilómetros daqui, telegrafa e mete-te a cantinho, pois nunca um homem terá marchado para a Fortuna com tantas probabilidades de a alcançar.

«Quero, no entanto, prevenir-te a tempo de que a aventura não é isenta de perigos nem de fadigas e que é preciso que venhas disposto a tudo. Doutra forma, mais valerá ficares.

«Mas vindo ou ficando, deverás guardar o maior dos segredos. És a primeira pessoa, depois de minha mulher, a quem faço esta revelação. E só de fazê-la fico em tremuras, não vá a carta perder-se e espalhar-se o segrêdo.»

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Capítulo II - Chegada a Moçamedes

3. - Descrição de Moçamedes vista do mar

O Angola ancorou em Mossâmedes por volta das onze horas do dia 13 de Dezembro - mau dia !

O pôrto era uma grande planície de aço polido em infinita tranquilidade. Apenas, de longe em longe, os cardumes de sarrajão o embaciavam com manchas escuras e inquietas.

A terra, com o seu fundo amarelo de areias, as falesias depiladas, sob aquele sol estorricante do verão africano, parecia arder em estremecimentos de febre. Todo o semicírculo, amplo e gracioso, que vai do Saco à Fortaleza, dava a impressão dum grande brazeiro, donde se evolavam as temperaturas abafantes que rarefaziam o ar.

A cidade, coberta das vistas pela fita verde do jardim público - uma mancha esguia na palidez da paisagem - sesteava à sombra magra daquela pobre frescura vegetal. E da banda das fábricas e pescarias, num plano inclinado de ter-

ras sedentas, as casas acachapadas e os barcos de quilha ao léu, tinham a mórbida quietação dos imolados.

Para além da cidade, a paisagem lívida do Deserto a perder de vista-uma grande labareda de tons amarelos que se confundia com um céu agitado por cálidas pulsações.

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4. - Chegada ao porto de Moçamedes

A África!.. Estou em África!

À proa, os homens da manobra, afogueados e sujos, vertiam negras bagas de suor.

Em volta do paquete, ancorado numa imobilidade letárgica de grande paquiderme, acudiam gasolinas nervosos, carregados de gente barulhenta, que se consumia em gestos e dizeres para os passageiros debruçados na amurada.

E foi essa gente que ria, que não trazia nas faces o livor macabro da bilis derramada, que eu via semelhante a um branco prolongamento das fisionomias que tinha deixado em Lisboa, quem me deu ânimo e fé para esperar que nem tudo na África fôsse assim, como eu deduzia das agressões do calor e da amargura da paisagem.

Dum gasolina, que por fim atracou, saltaram senhoras garridas, muito ataviadas de modas europeas, muito prognósticas e desempoeiradas, umas para receber conhecidos, outras para mercar adornos e meias no barbeiro de bordo.

E logo a paisagem do spardeck se modificou. Parecia uma feira alegre e movimentada, com gritinhos femininos e frases rápidas, corridas nervosas e abraços amplos.

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5. - Deserto de Moçamedes como um oceano de areia

Olhei outra vez para terra em busca de confôrto - mas vi-a ainda lívida, esbrazeada, espécie de cais dum outro oceano: O Oceano imenso das areias, que nem me palpitava onde tinham fim!

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6. - Desembarque em Moçamedes

Desembarquei depois do almôço, com duas malas de beliche e um baú verde de fôlha, na velha ponte-cais da cidade, entre uma senhora gorda que vinha de Benguela e'um tropa tisnado ue se destinava ao interior

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7. - Moçamedes: Jardim, ruas, pianos

Enfiei pelo jardim em cata duma sombra onde refrescasse o corpo e descansasse os olhos maguados por violentas agressões de luz, e atirei-me para um banco, derreado por funda melancolia.

Pela álea solitária, apenas umou outro negro de tronco brunido por transpirações violentas, com serapilheiras sórdidas em volta dos quadris, ou pretas com os filhos às costas e enfusas na cabeça, passavam em ar de mândria, silenciosamente.

As fôlhas verdes estavam cobertas de poeira, como se proviessem de longas jornadas, e, duma

bica que alimentava um lago redondo, no meio do jardim, vinha um som cantante e fresco de água a correr, que na continuação, entorpecia e adormentava como as rezas monótonas de velhas fanáticas.

Cerravam-se-me os olhos num torpor de febre e sentia que o crâneo se me esvasiava como uma casa que a noite vai abafando em trevas. Em breve, apenas ouvia o zumbido cálido das tardes encalmadas e apáticas e a melopeia adormecedora das águas.

Lembro-me que sonhei com grandes montanhas d'oiro e que eu as acometia freneticamente com uma picareta que se embotava e não conseguia partir a rocha. Depois, sem transição, vi-me num areal enorme, enterrado até aos joelhos, cheio de sêde, afogueado por angústias inarráveis.

Acordei inundado de suores, com a bôca sêca e os olhos esgazeados, mas senti-me aliviado ao ouvir outra vez o palrar fresco da água e vendo os ramos pendidos nas árvores.

Num quiosque, em frente da Alfândega, alguns encalmados vestidos de branco, chupavam cervejas intermináveis.

A água cantarolava sempre na bica magrinha do jardim.

Sentia os lábios grossos e grandes formigueiros de indolência pelo corpo - uma grande fiacidez em todos os nervos motores.

E avancei para o quiosque, onde bebi a minha primeira cerveja africana - o grande vício, o grande veneno dos europeus que vão à África.

já os automóveis corriam pelas ruas e a cidade se mostrava desentorpecida e movimentada.

Às janelas ensombradas acudiam meninas garridas, com um ar lisboeta da rua dos Douradores, muito bem rebocados ; das lojas saíam figuras europeas que desmentiam a idea que eu fizera da África.

Percorri as ruas da cidade, enormes, geométricas, paralelas - três ruas de casas baixas ' que me lembraram muitas vezes as moradias dalgumas cidades do Algarve.

De vez em quando chegavam-me aos ouvidos a música dum Fado ou as notas eléctricas dum Charleston americano, tangidos em pianos desafinadotes.

imuitos pianos há em Mossâmedes! Cantavam em tôdas as ruas, adivinhavam-se na penumbra que ficava para além de certas janelas!

E pela tarde, com menos calor e bem atestado de refrescos, já a cidade me parecia mais simpática e acolhedora, com a sua fisionomia europea, as suas casas algarvias, as suas meninas dengosas e os seus pianos desafinados.

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8. - Seca de peixe na praia de Moçamedes

Por baixo de nós as barcas de pesca despejavam abundâncias prateadas de peixe e nos espaços livres, entre as fábricas e os estaleiros, secavam ao sol largos estendais de peixe esbarrigado.

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Capítulo IV - Reunião com o Mandobe

9. - Reunião com o Mandobe

Sentámo-nos. O Mandobe acocorou-se diante de nós e contou a sua história - uma história longa, cheia de derivações, num português destrambelhado e confuso, que o Vasco ia esclarecendo e que eu escutava tomado por ânsias e curiosidades.

Foi o primeiro capftulo do nosso romance do Oiro:

O Mandobe era um pastor ganguela, que vivia para as bandas do Menongue, na paz da sua senzala e na obediência animal das suas mulheres.

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10. - Rumo a seguir para a Mulola do Tchimporo

Combinaram então, para se furtarem a vistas

indiscretas, seguir pela margem direita do Cubango e tomar depois, tangencialmente, pela Mulola do Tchimporo, até à fronteira da Damaralândia.

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11. - Gimuto e o reconhecimento do oiro

E o Gimuto descobriu que os veios amarelos eram de oiro.

Êle conhecia-o bem desde que andara com uns ingleses, na região de Cassinga, onde bastas vezes o tinha visto. Simplesmente, enquanto em Cassinga as pedras tinham apenas ligeiríssimas incrustações, ali, o oiro formava veios maciços, compactos, abundantes.

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Capítulo V - Preparativos para a jornada à mulola do Tchimporo

12. - Rosa acompanha o cozinhiero Janota

Teimou o janota, o tal cozinheiro, em fazer-se acompanhar pela mulher - uma elegantíssima matrona, de abundantes tranças e muito ataviada de missangas e manteiga. Não houve outro remédio senão ceder. Ainda julgámos que desistiria porque estava para ser papá, mas a Rosa deu-lhe hoje o seu último filho, de modo que está amanhã pronta para a viagem.

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Capítulo VI - O meu diário (de 28 de Março a 2 de Maio)

13. - Morte do filho de Janota

30 de Março

Morreu esta tarde o filho do Janota. A Rosa aina não deixou de soltar brados de dor, apenas interrompidos para perguntar ao pequeno cadá-

ver quem foi o autor do malefícios De resto, tam-

bém o janota e os outros negros afiançam que a

morte foi produzida por feitiço.

Pág. 65 e 66

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14. - Acampamento no Capelongo

1 de Abril

Acampamos no Capelongo.

Por baixo de nós, o Cunene, como uma grande chapa de aço polido, neste fim de tarde dourado e calmo, corre tranqüilamente. Em volta dos bois as carraceiras brancas e elegantes parecem lírios de que a paisagem se enfeita.

Amanhã passaremos na jangada da circunscrição para a outra margem.

O acampamento, hoje, neste cenário largo e doce, entre as casas da circunscrição e um cotovelo metálico do rio, tem maior encanto e mais pitoresco. O caniço das margens, alto, compacto, com imagens delicadas na superfície espelhenta do Cunene, é uma cabeleira suave que contrasta com a grenha hirsuta das matas que temos atravessado.

A-pesar-das casas - uma escassa meia dúzia

- que há em volta da circunscrição, esta é bem uma paisagem de África. Sinto profundamente a impressão do isolamento e da distância. Cada um de nós é uma ilha - juntos, somos um pequeno arquipélago, arredado num canto do Mundo. Tenho uma noção fantástica do ponto do globo onde me encontro.

Pág. 67 e 68

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15. - Soba de Cassinga

6 de Abril

O soba de Cassinga veio ter connosco ao acampamento. Trazia duas galinhas de presente e vinha-nos pedir que lhe matemos um leão que lhe anda a desvastar o gado. Ainda ontem, à noite, entrou no sambo donde levou um garrote, que foi encontrado a mais de dois quilómetros, meio devorado. E o soba descreveu um lindo bicho, de juba loira e arrogante - de-certo o mesmo que ante-onteffi ouvimos rugir.

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16. - Morte do leão

Passava das nove horas. De todos os lados apareciam pretos curiosos - dir-se-ia que alguns surdiam do chão por alçapões misteriosos. Andavam como sombras, sem ruído, todos de olhos muito abertos.

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17. - Biografia de Estela

O seu drama de mulher branca, nestas lonjuras de África, é bem um drama africano.

Filha dum americano, empregado superior da

Companhia do Petróleo, e duma portuguesa, a Estela teve nos primeiros anos da sua vida, por junto, tôdas as alegrias e tôdas as esperanças que a vida tinha para lhe conceder.

Menina mimada pelos pais, filha única dum casal bem instalado na vida, retouçou em pura felicidade, entre a boa sociedade do Pôrto, até aos doze anos.

Um dia o pai teve que vir para Angola, como pesquisador de petróleo, numa comissão choruda e tentadora. Trouxe a mulher, a filha e uma criada - a Marta - que assistira ao nascimento da pequena e lhe era imensamente dedicada.

Instalaram-se todos em Maquela do Zombo, nun-la casa desmontável de linhas americanas, que tinha um jardim em volta e dominava, do alto em que estava assente, a paisagem exuberante do Congo.

Pág. 96 e 97

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18. - Marta assediada por Alves

Seis meses depois a Marta era assediada pelo Alves, um fumante bem apessoado e de cabedais, que ela distinguiu entre todos os esfomeados de mulher que a perseguiam. Casaram e foram viver para Cabinda, onde constava que eram felizes.

Pág. 97

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19. - Estela no Capelongo

Encontrou, todavia, a Estela, no Capelongo, um viver mais tranquilo e arredado. O isolamento em que estava o povoado e a fama de mulher

esquiva e arisca que tinha criado, juntamente com umas cacetadas com que o Alves afastara um pretendente mais teimoso, puseram-na em sossêgo. Adormeceu um pouco a sua irritabilidade latente e os meses foram passando em silêncio e calma monotonia.

Além disso, o amor inalterável da Marta, cheio de delicadezas e transigências, adoçava-a e oferecia-lhe permanentemente o sentimento e a realidade dum afecto que não era suspeito, duma coisa boa entre tantas ruins que a perseguiam e que ela odiava profundamente.

Pág. 101 e 102

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20. - Chefe de posto de Cafima

11 de Abril

Hoje, antes de partirmos, almoçámos com o chefe de pôsto. O Vasco não queria ir para não levantar suspeitas sôbre a presença duma mulher branca no combóio de homens que se destinam a Cafima, mas não teve outro remédio. Se não fôssemos ao pôsto, teria o chefe vindo ao acampamento, onde de-certo descobriria a Estela.

Fomos. E ainda bem que fomos!

A sede do pôsto é uma casa de adobe com telhado de capim. Tem uma varanda em volta e está erguida a um metro do solo, sôbre colunelos de pedra, por causa da salalé. Com dois barracões que tem à ilharga constitui todo o povoado, pois a antiga missão religiosa desapareceu, segundo dizem, por causa do clima que é hostil e traiçoeiro.

Nesta casa vive um homem de cêrca de trinta anos, emagrecido e gasto, com a pele curtida pela mataria e pelo sol, a esclerótica amarela, os matares salientes e os beiços gretados. Já teve duas biliosas e vive só. Passam-se semanas que não vê um branco, recebe correio de três em três meses e mais, ganha uma miséria e é - dizem - um funcionário exemplar!

riste homem tem, sob a sua administração e guarda, uma região quási tão grande como a província do Algarve, povoada por habitantes pobres, a quem a fome visita de vez em quando, e defendida por um clima rigoroso e cruel. É éle quem administra a Justiça, que atrai os indígenas, que os ensina a cultivar, que cobra o imposto, que abre estradas e carreteiros, que constroi as pontes e os aterros, que faz a escrita do pôsto - é êle, enfim, o representante e o símbolo da senhoria de Portugal nestas lonjuras incomensuráveis.

De cima mais de-pressa recebe censuras e apertões que louvores e incitamentos - de baixo surgem-lhe dificuldades de tôda a espécie, que tem de dominar, quási sem recursos. O Mundo ignora que êle existe e os seus heroismos, as suas valentias, a sua coragem persistente não têm as formas teatrais que conduzem à glória. É uma ilha. Amanhã, outra biliosa levá-lo-á talvez e o seu lugar está reservado na vala comum dos esquecidos. As próprias coisas notáveis que fizer

serão florões para adornar a glória doutros mais elevados em hierarquia.

Pois, êste homem espectrificado, que teve uma ale-ria quási infantil em dar-nos de almoçar, não nos falou senão dos seus projectos de trabalho, das obras que tinha empreendido, no aperfeiçoamento das suas estradas, na disciplina dos seus indígenas - de tôdas essas pequenas coisas que são a glória autêntica de Portugal, que explicam a nossa História e que prometem o nosso futuro.

E eu que tenho ouvido tantos discursos patrióticos para exibir oradores, que tenho visto subirem foguetes entre a vozearia dos vivas, que decorei tôdas as fórmulas do patriotismo verbalista, tive de encontrar, em Mossâmedes, o Pompílio e, por estes matos, os heróis de que a História não rezará, para compreender a qualidade da minha raça e encontrar uma razão da Razão para o meu orgulho de ser português.

Em volta da nossa mesa de almôço, rilhando o churrasco indígena e bebendo o vinho da nossa terra, eu venerei aquele homem que trazia a morte nos olhos e que não tinha outra ambição manifestada senão a de ser útil ao seu País - o País que não o conhecia e que vivia das virtudes de tantos como êle.

Ainda bem que fomos almoçar com o chefe de pôsto. Oxalá éle viva quando regressarmos da Mulola com o nosso oiro e a nossa generosidade.

Pág. 106 a 108

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21. - Notícias de um branco na Mulola do Tchimporo

16 de Abril

O Vasco foi hoje visitar uma libata de cuanhamas e voltou preocupado. Ouviu falar da passagem dum branco cujos sinais coincidem com o homem que o Mandobe viu na Mulola. Não trazia carros nem serviçais. Viajava a pé'com uma preta e don-nia onde calhava.

Preguntou se êle era inglês, mas os pretos responderam:

- É branco!

Trata-se por conseqüência dum português. Para os indígenas o branco é só o português. Os outros são o ingrez, o aremão, etc.

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22. - Rasto de elefantes

O Mandobe estudou as pègadas e disse que eram de fêmeas. A pègada dos machos é maior e mais redonda.

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23. - Cuanhamas

Os cuanhamas são negros magníficos, muito diferentes das outras raças que tenho visto. Altos, esguios, elegantes, de expressão altiva e agradável, são bem os descendentes duma raça aguerrida de guerreiros agitados e irrequietos. Muito mais inteligentes e civilizados que os outros povos vizinhos, domina-os ainda o espírito da aventura e da vagabundagem que assinala as raças gentias de mais poder.

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24. - Sanzala do Ganipacho

Tôdas as cubatas são iguais na forma - apenas a do Ganipacho é maior.

A entrada principal da cubata, como é de uso entre os cuanhamas, fica voltada para o nascente e é fechada por uma porta em orgão, por onde entram e saem em boa camaradagem, os homens, os bois, os porcos e as galinhas. Além desta porta existe uma outra, junto ao curral do gado, mascarada or arbustos.

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25. - Mulheres e gado do Ganipacho

Foi depois disto que o Ganipacho resolveu não casar outra vez e acabar os seus dias na companhia das quatro consertes que já tinha. De resto, quatro mulheres e mais de duas mil cabeças de gado eram já uma bonita fortuna.

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26. - Mandume

Remontámos aos tempos áureos da independência dos cuanhamas-independência de facto, pois só platónicamente, de direito, as suas terras

pertenciam a outros. Eram então os cuanhamas

um grande povo militar, aguerrido, indomável, que viera de chefes heróicos até ao Oghamba Mandume, o último que levantara o Cuanhama contra o domínio português.

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27. - Constituição das hostes cuanhamas

Estavam todos os guerreiros - e guerreiro era todo o homem dos quinze aos sessenta anos agrupados em tangas, verdadeiros batalhões de cem homens, que o bater da cua, em sinal de rebate, rapidamente juntava. Um lenga, chefe de guerra, comandava quatro, cinco e mais tangas. Seiscentos homens tivera o lenga Ganipacho sob as suas ordens, quando tinha quarenta anos.

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28. - Adoração de Cupido

22 de Abril

Quando hoje me aproximava da abata do Ganipacho deparei com um espectáculo imprevisto. Numa clareira da mata, mais de vinte mu leques de ambos os sexos, o mais velho dos quais não devia ter mais de dez anos, completamente nus, adoravam Cupido segundo o ritual em voga em todo o mundo.

Espantados com a minha presença fugiram, a ganir desesperadamente, não sei se enfurecidos pela interrupção, se amedrontados.

Com a minha ingenuidade europeia fui con-

tar a cena ao Ganipacho, entendendo que a minha denúncia era moral e cabida, pois visava a reprimir a precoce preversidade dos miudos.

O Ganipacho ouviu, com o ar de quem ouve coisas banais, e observou apenas, com certo desfastio :

- É para aprender senhor!

Começo a compreender porque é tão raro encontrar uma preta adulta sem um filho às costas. É da aprendizagem!...

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29. - Rasto de elefantes

O Vasco preguntou:

- Ódiripi óno jamba? ( (onde estão os elefanfes ?)

Não os tinham sentido naquela noite. Era preciso ir rio abaixo, ern c-ata dum rasto fresco, e segui-lo depois.

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30. - A escrita das pegadas

Vamos seguindo os rastos.

O passeio das enormes feras deduz-se tão claramente, tão precisamente, como uma fórmula algébrica: Chegaram ao rio pelas nove horas da noite, depois dum passeio tranquilo de vagabundos. Eram cinco fêmeas e um macho. Estiveram largo tempo a banhar-se regaladamente, ora nadando nas águas do «poço», ora chapinhando nas margens como praístas desenfastiados. Depois aproveitaram a casca rugosa duma mulemba para se coçar vagarosamente. E a árvore enorme, massagista improvizada, devia ter os-

cilado num murmúrio lamentoso de ramos, sob a pressão gigantesca de algumas toneladas de carne animada por movimentos voluptuosos.

Cêrca das quatro horas da madrugada deviam ter deixado o rio, pingando largas bagas de água, bem dispostos, felizes. Ali mesmo comeram os primeiros ramos - os mais tenros - lançando a tromba por entre a folhagem, farejando, escolhendo, arrancando depois num movimento brusco a parte mais apetitosa e macia. Mas não param. Tôda a floresta é um grande restauram de lista variadíssima. Por vezes é cerrada, áspera, densa e emaranhada. Êles abrem a sua estrada, cilindrando-a, sem esfôrço, em pura e fácil fôrça viva.

No alto duma árvore há vagens apetitosas, ainda húmidas de orvalhos. Erguem a tromba para avaliar da sua delicadeza e, se lhes apetecem, não importa que elas tenham nascido em altos ramos, numa árvore robusta, com mais de meio metro de diâmetro na base e meio século de existência entre as mais. Encostam a cabeça ao tronco e empurram quási sem esfôrço. A árvore range, lamenta-se por todos os ramos e cai ferida de morte. O elefante tem as vagens ao alcance da tromba. Escolhe, come umas tantas e passa adiante, retomando a sua marcha vagabunda de fantasista, a cabeça nunca agitação incessante, umas vezes magestoso e inteligente, tomando ventos, outras vezes bonacheirão e desenfastiado.

Vamos seguindo o rasto, que nos vai contando, na sua grafia bizarra, a fantasia das feras. já o sol nos cai pesadamente nas costas -o tronco dos pisteiros parece envernizado, mas a sua marcha é sempre ágil, ritmada, elegante.

A mata vai-se tornando mais densa. Pouco a pouco, à medida que avançamos, a cabeleira verde dos capins, vai dando logar à grenha hirsuta e irritante das matas de espinheiros.

No terreno, já endurecido nesta quadra do ano, a perseguição torna-se mais difícil: os rastos fogem, somem-se e escapam, por vezes, à vista mais apurada. Outras vezes há rastos vários que se cruzam. É preciso descobrir, entre o de ante-ontem, o de ontem à tarde e de hoje, aquele que nos convém. A marcha toma-se assim mais vagarosa e fatigante, por causa do dispêndio de atenção a que obriga.

Um pouco mais longe cerram-se mais as espinheiras. Só com infinitos cuidados conseguimos defender-nos da agressão irritante daqueles espinhos aduncos que nos rasgam a roupa e a pele.

O vento que ia de feição - isto é, soprando contra nós - torna-se instável, leviano, consentindo que as feras nos vão pressentir, a algumas centenas de metros, e se ponham em fuga. Acendemos cigarros uns sôbre os outros, nervosamente, para verificarmos a direcção do vento. Temos mais de vinte quilómetros andados e sentimos que o nosso esfôrço se vai inu izar por causa

daquela brisa quási imperceptível. Prevemos já o regresso ao acampamento, arrasados, tristes, sob os olhares irónicos do janota.

Mais umas dezenas de metros e a decepção confir.rna-se. Umas passadas mais largas, a impressão da pègada sôbre a ponta do pé, dizem-nos, com a clareza duma frase, que o animal fugiu desordenadamente. Aquele é o rasto da corrida, bem diferente das pègadas tranquilas dos seus passeios de vagabundo.

A poucos metros descobrimos, ainda quente, a cama da sesta.

É a decepção. Aqueles elefantes não se deterão tão cedo, nem nós os conseguiremos alcançar.

Parámos desalentados. Os pisteiros deram ainda uma volta que desiludiu as últimas esperanças.

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31. - Desculpa de Janota por ter perdido o almoço

Increpado por ter perdido a carga - cesto do almôço e alguns pratos de alumínio - afiançou: - jamba comeu tudo, siô. Comeu mesmo!

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32. - Distirbuição pela população da carne do elefante morto

Surdiam de todos os lados, armados de catanas afiadas, silenciosos como sombras, atrás da notícia de carne abundante, que rapidamente se tinha espalhado. Eram em tal número e aumen-

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33. - Corpo de Estela versus as Vénus negras

Olho para o seu corpito frágil, com os ombros descaídos, os braços quási lineares, para a sua face cavada e para a sua beleza lirial mas macerada, e, entre a piedade, a comiseração, o dó que me inspira, não lobrigo sombra de atracção física ou chama de desejo. Mais me têm impressionado certas Vénus negras, de carnes túrgidas e linhas triunfantes, embora a escorrerem manteiga rançosa e repelente, e que são menos esquivas e complicadas.

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34. - Pai de Ganipacho e a travessia da Mulola do Tchimporo

O Ganipacho assegurava que o pai do seu pai tinha atravessado a, Mulola, com duas tangas de guerreiros e que sempre tinha encontrado água nas cacimbas que abrira. Nem êle nem ninguém sabia que trilho tinham seguido, mas era positivo que marcharam do Bié para Namakunde, devendo pois ter atravessado a Mulola numa direcção sensivelmente Norte-Sul.

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35. - Acampamento entre o Cuvelay e a missão da Mupa

26 de Abril

Acampámos entre o Cuvelay e a Missão religiosa da Mupa, debaixo duma linda figueira brava, de copa hospitaleira e maternal - um suntuoso palácio de fôlhas erguido na planura de capim. De longe parece uma ave enorme, na atitude de acolher os filhos debaixo das azas.

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36. - Missão da Mupa

A Missão a Mupa forma um largo quadrilátero de casas compridas e brancas, com telhados à portuguesa, e varandas coloniais em volta, que fecha um terreiro alegre e amaneirado, de suave frescura. Um dos lados do quadrilátero é formado pela igreja pobrezinha, onde os pretos, quando cheguei, rezavam a oração da noite. Nas outras casas ficam as oficinas, farmácias, escolas, refeitório, habitações, armazéns - tôdas as peças engenhosas e cuidadas de que precisam uma escola, uma oficina, uma lavoira e uma igreja, a mais de quatrocentos quilómetros de terras de recursos!

Por detrás da igreja ficam a horta e o pomar - milagres de vegetação arrancados a estas terras bravias - e os sambos do gado.

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37. - Padre Mateus da Missão da Mupa

Recebeu-me e fez-me as honras da casa o padre Mateus, uni vèlhinho de barbas patriarcais e olhar doce, desembaraçado nos gestos e nos movimentos, muito simples e agradável dentro da sua sotaina branca de missionário. Tem a pele aperganúnhada e rugosa-, os cabelos ralos e desencan-iinhados, o corpo cüiciado por torturas do clima - mas os seus olhos são claros e vivos como os das crianças.

Com êle vivem e trabalham na Missão mais dois missionários. O mais novo tem vinte anos e chegou há seis meses, o mais velho - o Padre Mateus justamente - tem sessenta anos e chegou há quarenta. E em quarenta anos foi uma vez à Europa!

A sua expressão satisfeita e feliz, a sua tranqüilidade impressionante, o seu olhar puro de criança foram inteiramente ganhos em lonjuras como esta a desbastar selvagens e a revelar-lhes o aspecto superior da senhoria dos brancos.

Ao mesmo tempo que outros brancos vieram ocupar pelas armas e dominar com a guerra, em cata de glórias terrenas, mercês da Pátria e cumprimento de deveres, veio êle conquistar com o amor e a caridade, em cata do agrado de Deus! Os primeiros voltaram ao som de fanfarras, cantando vitória, com a sua galhardia militar de ven-

cedores a quem a História será grata - êle e os seus ficaram, humildes e ignorados, para uma glória mais alta, que não está na mão dos homens conceder.

Sinto um grande respeito pelos heróis da África e avalio hoje, em boa consciência, o raro quilate dos seus heroismos - mas venero estes, que não têm ambições de riqueza nem de glória, que consomem os corpos a fogo lento de muitos anos, que amam sem alarido e constroem sem espectáculo, que não esperam recompensas na terra e que fazem o dom total da sua vida, ao Deus em que creem e à Pátria que servem.

Todos nós admiramos, franca ou intimamente, os homens que realizam as grandes coisas que as nossas possibilidades não alcançam. E eu que vim à África apenas para ganhar dinheiro e que sou incapaz de desistir do meu intento ou renunciar, sob o exemplo superior dum grande gesto, aos meus apetites e às minhas ambições, não posso deixar de reconhecer na minha inferioridade o ponto de referência que me permite avaliar a superioridade deles.

É preciso estar em África, sob o pêso da Distância e do Isolamento, conhecer a dureza dum longo mês de viagem atrás dum carro boer e sentir, inesperadamente, a doçura desta casinha perdida no sertão, onde tangem sinos de aldeia e as almas podem despir o colete de forças em que

mato as prende, para compreender a grandeza

e o heroismo dos missionários.

já tinha ouvido falar deles. Mas hoje senti-os.

O Padre Mateus fez-me beber a sua magnífica berlunga, bebida fermentada feita de farinha de milho, e conversou largamente comigo, na varanda da Missão, depois de terminada a resa da noite e recolhidos os muleques.

Veio para a África quando o Sul de Angola era praticamente uma Terra de Ninguém. Era o tempo dos sobados poderosos e indomáveis e do absolutismo indígena, em que os comerciantes que se atreviam para o interior tinham que pagar direitos de passagem, que muitas vezes eram a própria vida. Para muitos povos indígenas foi êle o primeiro branco que viram.

Em quarenta anos de missão assistiu e colaborou na evolução que levou a soberania de Portugal a todos os cantos de Angola e que transformou as antigas raças guerreiras e crueis em povos nacionais e pacíficos de trabalhadores. Caniinhou algumas vezes à frente das colunas militares, bifurcado numa mula, como guia das tropas, interprete, medianeiro, e salvou muitas vidas de prisioneiros de guerra. Mas também andou só por entre os povos rebeldes, a lutar com palavras e exemplos de amor contra a sua barbarie e a sua ignorância, e conquistando uma influência cuja acção pacificadora deixou muitas vezes a perder de vista o êxito das armas.

O Padre Mateus não acredita que nenhum outro povo colonizador saiba tratar e fazer-se estimar pelo indígena como o português.

Pág. 143 a 146

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38. - Caça de um jacaré

Num areal do rio já depois de acamparmos, estavam dois portentosos jacarés estendidos na areia, em doce ripanço, saboreando as delícias do sol poente. Apontei demoradamente à cabeça do n-laior e a minha bala certeira foi vingar a pobre Rosa. O jacaré atingido em cheio deu um salto prodigioso - uma explosão de energias poderosas a transformarem-se - e cafu de barriga ao léo, com a cauda a mergulhar na água.

Pág. 151

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39. - Quissonde e um esqueleto humano

Sob as ramadas pendentes a rvore i com o seguinte espectáculo: O quissonde, uma formiga escura, de grandes mandíbulas, carnívora e nauseabunda, num exército de muitos milhões, que marchava de longe, em cordão compacto e grosso, escabichava as últimas fibras de carne num esqueleto humano. Era um assalto em massa, repelente, encarniçado.

O meu cavalo assustou-se e recuou espavorido - e eu, mal percebi a cena, abalei imediatamente a prevenir o Vasco.

O esqueleto estava sentado junto ao tronco

da figueira, espernegado, a cabeça deitada sôbre o ombro.

Aventou o Vasco que devia ser recente a morte do preto, pois alguns ramos da árvore, partidos de-certo por êle, ainda estavam frescos.

O assalto do quissonde dera-se portanto algumas horas antes - umas horas que bastaram para que o cadáver fôsse inteiramente devorado pelas terríveis formigas.

Pág. 156 e 157

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Capítulo VII - Terra de Cuanhamas

40. - Lenda do Vélo d' Oiro

Eu era como aquele pastorinho da lenda que foi sentar-se na praia e viu luzir sobre o metal ilusório das águas, muito longe, um lindo Vélo ar. d'Oiro. Como êle, também eu me deitei a nadar,

palpitante, confiado, a estalar de entusiasmos

explosivos.

E hoje, que não sou pobre nem desgovemado como era, quanto eu não dava para ser ainda o pastorinho arrebatado que se meteu a cortar as águas estonteado pelo fulgor do Vélo d'Oiro!

Pág. 168

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41. - Telegrafia indígena

As notícias no mato correm quási tão depressa como numa grande cidade. A telegrafia indígena, não menos complicada nem confusa para os leigos do que a nossa telegrafia de civilizados, não é também menos rápida nem menos perfeita. Aconteceu por vezes termos notícias de regiões distantes de centenas de quilómetros nalguns postos por onde passámos. Achei o caso natural durante muito tempo, pois em todos os postos havia um telefone. Mas o que só muito tarde vim a saber é que essas notícias eram muitas vezes dadas aos Chefes de Pôsto pelos indígenas e não pelo telégrafo.

Desta maneira, três horas depois, não só o Chefe de Pôsto sabia que andávamos à procura duma mulher branca, como também o sabiam todos os negros da região.

Era um exército a procurar a Estela.

Pág. 171

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42. - Chefe de posto do Evale

Depois entraram a zumbir-me nos ouvidos vibra-

ções estranhas e mal tinha fôrças para levantar

as pálpebras. Deixei de ver.

Voltei a n-iim no acampamento. Estavam junto da minha cama o Chefe de Pôsto do Evale e o Vasco que acabava de injectar-me o soro anti-

-venenoso.

Pág. 172 e 173

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43. - Soba do Evale descobre a Estela

A Estela tinha sido encontrada pelo soba do

Evale, a cêrca de nove quilómetros acampa-

mento, junto dum tufo de capim. Foi o Vascc> quem a foi buscar na carrinha e a reanimou. Estava arrazada de fadiga - verdadeiramente na ante-câmara da morte - quando deram com ela. Por felicidade nem as feras nem o cacimba a acabaram. Recolheram-na na tenda de lona e

ali estava quando eu voltei ao acampamento às

costas do Catuba.

Pág. 173 e 174 (cont.)

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44. - Sede, roubo do cavalo e descoberta do ladrão

É preciso sentir a sêde - a sêde que é a imperios necessidade de prover de água os tecidos desidratados, e não a simples vontade de beber que se ganha na calma das cidades e na tentação das carapinhadas - para respeitar aquela água opaca, adormecida do fundo sujo das cacimbas, que tem a babugem dos animais do mato e é muitas vezes a água que resta dos seus banhos.

Eu que tantas vezes bebia água em Lisboa com receio de me perder por via de febres tifoides, água que era clara e transparente, bebi muitas vezes as águas imundas das cacimbas com a esperança de me salvar.

Oito dias depois do Evale passámos Cafima e encontrámos a última libata indígena - uma libata rica de secúlo, que tinha muitos bois e

muitas mulheres.

Nesse dia desapareceu n-iisteriosqmente o meu cavalo. Fiquei um pouco desorientado ante a perspectiva da falta de transporte.

O janota aconselhou imediatamente que se interrogasse o ôlho de vidro do Vasco, que devia ter visto para onde fôra o cavalo. Mas o Vasco, mais prático e experiente nas coisas do Cuanha-

ma, logo que soube da falta do «Estoril», garantiu:

- Foram os cuanhamas.

]Êstes indígenas são ótimos cavaleiros e apreciam imenso os cavalos que, em geral, trocam por bois na África do Sul, mas que acham cómodo obter também sem mais trabalhos nem despezas do que as que o meu lhes tinha custado.

Dirigimo-nos imediatamente à senzala. O Vasco agarrou no braço do primeiro negro que lhe apareceu e apertou com fôrça.

E antes que o invectivasse ou lhe fizesse alguma pregunta, respondeu o preto:

- Não fui eu senhor... Foi o Chilulo!

Sherlock Holmes não teria sido mais rápido. Dez minutos depois já cavalgava no meu Estoril a caminho do acampamento.

Pág. 178 e 179

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45. - Descobereta do Esqueleto do Gimuto

um ponto de referência. Efectivamente um dia viemos a encontrar um esqueleto desmantelado, que o Mandobe logo reconheceu como sendo o do

Gimuto, pois tinha ao lado uma catana e, sôbre

os ilíacos, restos estampados duma tanga.

Pág. 182 e 183

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46. - Mucancala

E com o braço apontava-nos um vulto distante, quási um pingo escuro no creme do areal.

Era um mucancala.

Metemos os cavalos à carga numa correria doida. o vulto, imóvel ao princípio, não tardou em perceber as nossas intenções e lançou-se tam-

bém em correria desabalada. Não foi longa a perseguição. O galope dos cavalos ganhava terreno, vertiginosamente, e poucos minutos depois estávamos em cima do mucancala espavorido.

Deitou-se de costas no chão, com a bôca escancarada pelo esfalfamento, os olhos desvairados de terror e de fúria, os joelhos levantados em atitude defensiva, a flecha em riste ameaçando - e gania desesperadamente como um mabeco.

Era um tipo repelente de animal bravio. A sua expressão anatómica oscilava entre a do homem e a do símio. A pele de côr desvanecida, num quási amarelo-torrado, tinha um aspecto sujo e incardido, como que lambuzada de argilas em lama, o corpo enf esado de liliputiano, dava a impressão da timidez física, os braços longos, a cabeça repugnante e assimétrica, muito rapada dos lados, com uma crista de carapinha cerrada que ia da testa ao cocuruto, a face esquálida, os maxilares salientes, os olhos oblíquos e encovados, a bôca irregular e grossa com um geito de fístula infectada, formavam um conjunto repelente, de causar náuseas.

Se realmente é de admitir que o homem descende do macaco e se as certezas científicas de Darwin são mais alguma coisa do que as habituais fantasias duma Ciência, que todos os dias nega o que ontem afirmou para dar legar a uma nova afirmação, os mucancalas representam, dentro dessa verdade, o ser de transição - uma

espécie de característico marco miliário do grande caminho que vai do gorila ao homem apurado

da Europa.

Pág. 184 a 186

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Capítulo VIII - Rumo à mulola do Tchimporo

47. - Partida para a mulola do tchimporo

Investimos finalmente com o areal na madru-

gada de 1 de junho, aos primeiros alvores do dia.

Pág. 189

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48. - Carrinha: carroça puxada por duas juntas de bois

Levávamos apenas a carrinha, puxada por duas juntas de bois, seis pretos e mais uma junta de reserva.

Pág. 191

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49. - Mucancala preso

À noite, à fôrça de cuidados e de drogas da nossa farmácia, o selvagem parecia escapo e reanimado. Mas nem um momento perdeu as atitudes bravias e esquivas. Chegou a morder o Mandobe quando êste lhe dava de comer.

Pág. 204

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Capítulo IX - No interior da mulola do Tchimporo

50. - Balanço das perdas

Estivemos dois longos dias a refazer-nos , e pudemos então, no mesmo logar onde em tempos o Mandobe e o Gimuto tinham armado a sua cubata, fazer o balanço das nossas perdas: dois serviçais, e dois bois ; os vivos trôpegos e derreados, o carro desmantelado !

Pág. 214

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51. - Mutiati

Predominava o mu-

tiati e as leguminosas de espinho, mas viam-se também, por todos lados, anafadas mulembas, sicomoros, grandes rubiaceas, o nucibe, a otalamba e o vivungo (plantas da borrracha), enormes figueiras bravas e, um pouco mais espaçados, os ibondeiros alambazados, feios, fortes, verdadeiros aquidermes da flora.

Pág. 215

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52. - Imbondeiro e o armazenamento de água

Ao terceiro dia mudámos o acampamento seis ou oito quilómetros mais para diante, até junto dum ibondeiro ôco onde as chuvas tinham deixado uma água límpida e fresca como a de Sintra.

Pág. 217 e 218

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53. - Goncho, Catutba e Jaisse

Lembro-me que uma noite èle, o Goncho, o Catuba e o jaisse, comeram uma cabra inteira em volta da fogueira, enquanto nós doriniamos. Rasgaram-na em tiras, que passaram pelo sal, assaram-nas no lume e foram-nas tasquinhando insaciavelmente até de manhã.

Pág. 218

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54. - História de um leão e de um porco no jardim zoológico de Luanda

Passou-se o caso no jardim Zoológico de Loanda e numa jaula onde o humorismo ou a curiosidade científica de alguém tinha instalado, conjuntamente, um leão e um porco. Eram ambos recem-nascidos, quando lhe impuzeram a comunidade, e foram crescendo em boa camaradagem e amizade até à idade adulta. Tratava dos bichos um condenado que se lhes afeiçoara e que

tinha o máximo cuidado em não lhes faltar com as refeições na abundância necessária e a horas exactas. Durante as horas de calor dormiam ambos muitos chegados um ao outro; e de manhã, pela fresca, era frequente verem-se brincar, o porco dando trombadas no leão, o leão sapateando o suíno com carinhoso bom humor. Isto durou cêrca de dois anos - o tempo suficientemente para fazer do porco um grande cevado e do leão uma imponente fera. Mas nem a gordura apetitosa dum nem os instintos sanguinários do outro alteraram, durante êsse tempo, a boa harmonia da sociedade.

Um dia, o condenado que os tratava terminou o tempo de degredo, expiou a pena e foi-se embora. Veio outro para tratar dos animais, mas não lhes tinha, infelizmente, o mesmo amor. Acabaram-se as refeições a horas certas e aquela abundância tranqüilizadora em que tinham vivido.

Uma noite o condenado apanhou tão grande bebedeira que esteve dois dias sem dar de comer aos bichos. O leão suportou heroicamente a fome um dia inteiro e mais a manhã do outro dia. Depois começou a exasperar-se e a ser tentado pelas formas roliças do companheiro. Velhos instintos ancestrais despertaram e a biologia da fera dominou, como era de esperar, a sua sentimentalidade de camarada. À tardinha foi-se ao porco e comeu-o!

Até aqui decorre apenas a história banal dum leão e dum porco tal como qualquer homem, desde Lineu a João Fernandes, a teria compreendido e previsto. Mas a história tem uma conti-

nuação.

O leão ficou só. As delícias da gula e da digestão, como tôdas as delícias do físico, passaram depressa. Notou então que lhe faltava o companheiro, lembrou-se, possivelmente, do seu focinho meigo e das suas carícias ternas - e entrou a entristecer. Passava os dias deitado, melancólicamente, a um canto da jaula, e perdeu aquele mesmo apetite que o levara a devorar o companheiro. Emagreceu, pôs-se num estado miserável, perdeu a altivez leonina do olhar e a arrogância decorativa da juba, adoeceu. Uma manhã foram encontrá-lo morto na jaula - imorto com saüdades do porco!

Pág. 229 a 231

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Capítulo X - Regresso à Humpata

55. - O administrador de Capelongo e a resolução de uma indaca

Foi o Vasco dar com o administrador a resolver uma indaca entre dois secúlos da região. Por baixo duma grande figueira brava que existe em frente da secretaria da circunscrição tinham-se reünido as duas partes litigantes, com as respectivas testemunhas, e alguns anciãos que faziam de jurisconsultos do direito indígena.

O Administrador, com o intérprete ao lado, muito senhoril e sentencioso, interrogava e ouvia as partes.

O queixoso começou a expôr o seu caso, numa língua de trapos acompanhada por esgares e gestos. De vez em quando o Administrador preguntava ao intérprete:

- O que diz êle ?

E o intérprete muito sério e compenetrado do seu papel, respondia:

- Por enquanto, senhor, ainda não disse nada - só falou!

Ao cabo duma boa meia hora, o participante disse enfim alguma coisa. Tratava-se dum caso grave: O queixoso tinha roubado um boi negro ao réu. Descoberto por êste quando pretendia disfarçar o boi, pintando-o de branco, não conseguiu esconder o latrocínio, porque começou a chover e a negrura do boi apareceu em pleno explendor. Na noite dêsse dia morreu o boi com

a caonha, antes de ter recolhido à libata do legítirno proprietário. Concordou o queixoso que devia ao outro uma indemnização e tiveram por êsse tempo uma indaca - a primeira - pois o roubado exigia um boi melhor do que o seu e o gatuno fazia tôda a diligência por impingir um pior. Resolvida a questão pelo Administrador recolheram as partes para cumprir a sentença, que devia executar-se ao outro dia. Mas durante a noite que mediou entre a indaca e a execução da sentença, o larápio, e agora queixoso, teve uma formidável dor de dentes. E como era a primeira de que sofria e não conseguiu repouso em tôda a noite, por via da violência das dores, concluiu que tinha sido feitiço arranjado pelo outro para se vingar do furto do boi. E logo resolveu indemnizar-se dando apenas um garrote pequeno. Não quis o outro, que negava a sua intervenção no feitiço e que apenas queria o seu boi, e veiu o primeiro queixar-se à Administração.

Ameaçava durar horas aquela questão, com o depoimento das testemunhas e o conselho dos anciãos, quando o Vasco, para abreviar, se prestou a servir de intérprete.

Pág. 241 e 242

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56. - Chegada à Chibia

Ia Março entrado quando a atingimos a Chibia, a quarenta quilómetros, aproximadamente, da

Humpata - dois dias de viagem com um bocadinho de vontade.

Pág. 244

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Capítulo XI - Chagada a Lisboa

57. - Chegada a Lisboa

Cheguei a Lisboa em Agosto.

Quando por entre a bruma duma manhã cinzenta os meus olhos começaram a encher-se da ânsia de enxergar os primeiros contornos do Cabo da Roca, saltava-me o coração do peito em doida alegria.

Pág. 253

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58. - Pátria Portuguesa na Europa e em África

A minha saudade era apenas - e nunca julguei que pudesse ser tão grande - a saudade física e substancial pela terra. Compreendi que não era um grilheta libertado, mas apenas o filho criado e apetrechado que se desgarra do lar paterno e vai à sua vida. A minha saudade por uma terra a penetrar no meu entusiasmo por outra, realizava em mim a unidade espiritual duma Pátria e está na Europa e na África.

Pág. 269

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5262 - O Vélo d´Oiro, Henrique Galvão - Índice

Índice de Rui Roberto Ramos

Capítulo I Tentação de África 5

Capitulo II Chegada a Moçamedes 15

Capíto III Chegada ao Lubango e ida para a Humpata 27

Capítulo IV Reunião com o Mandobe 35

Capítulo V Preparativos para a jornada à mulola do Tchimporo 53

Capítulo VI O meu diário (de 28 de Março a 2 de Maio) 61

Capítulo VII Terra de Cuanhamas 167

Capítulo VIII Rumo à mulola do Tchimporo 189

Capítulo IX No interior da mulola do Tchimporo 214

Capítulo X Regresso à Humpata 237

Capítulo XI - Chagada a Lisboa 253

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

0845 - DE CEUTA A TIMOR - -LUÍS FILIPE F. R. THOMAZ


Proémío - IX


I. - Expansão Portuguesa e Expansão Europeia reflexões em torno da gênese dos - Descobrimentos 1

1.mouros - tratamentos diferentes entre cruzados e portugueses

(18) O radicalismo dos cruzados do Norte da Europa que pretendiam exterminar os Muçulmanos em vez de os integrar como tributários na sociedade cristà, como tradicionalmente se fazia na Peninsula, causou numerosos problemas aos reis peninsulares a que pretenderam ajudar, a começar por Fernando Magno ; O mesmo choque se verifica entre nós na tomada de Lisboa, na de Silves e na de Alcácer do Sal. No século XV a oposição entre as duas mentalidades não se esBatcra ainda, e Zurara nota a in~genuidadc dos embaixadores de Granada quc, para se assegurar de que a expedição que se preparava não tinha por alvo o seu reino, foram com presentes a D. Filipa de Lencastre, esquecendo que esta « era naturll d' hingraterra, cuja naça amtre as do mundo naturallente e desamam todollos jmfiees »( Crónica da Tomada de Ceuta, cap XXXIV). Pág. 12

II. - A evolução da política expansionista portuguesa- na primeira metade de Quatrocentos - 43

- Os primeiros projectos de expansão - 44

- A crise e a expansão - 52

- A mudança dinástica e a expansão 58

2.expansão portuguesa

Como é bem sabido. a expansão não conseguiu impor-se como vector permanente da potítica portuguesa senão com a Casa de Avis, jsto é, após a vitória da realeza apoiado pelo terceiro estado sobre a aristocracia fundiária e da estratégia Atlântica sobre a estratégia ibérica.

Apenas se impôs após um duplo malogro: o da intervenção portuguesa em Caste1a sob D. Fernando e o da intervençào castelhana em Portugal no reinado de D. João I. Após este duplo fracasso Portugal tornara-se como que ua ilha segundo a bela expressâo de Zurara «de ua parte nos cerca o mar, de outra temos muro em os reinos de Castela (32). pág. 58 - Crónica de Ceuta cap VI de Zurara

O tempo das dificuldades: os anos cruciais - 68

3.cerco de Ceuta - apoio de Granada

Estavam as coisas neste pé quando, com o apoio de uma frota granadina, uma grande coalizão de forças da Berheria veio cercar Ceuta 60. Pág. 69 Zurara, Crónica de D. Pedro de Mnezes

- A paz, o recomeço da expansão e o seu malogro - 82

- A grande mutação da regência - 102

- Epílogo: de Alfarrobeira ao Império - 127

III- O Projecto Imperial joanino (Tentativa de interpretação - global da política ultramarina de D. João II - 149

4.As sete frentes distintas de D. João II

A primeira linha é a preparaçào técnica das empresas futuras.

A segunda linha é a organizaçao da exploraçao do comércio nas costas africanas, de que o grande marco é, .sem dúvida, a construçâo de S. Jorge da Mina (45). Podemos associar-lhe o povoamento de S. Tomé e Príncipe (46), de iniciativa joanina, cujo escopo foi, sem duvida, antes do mais, proporcionar aos Portugueses uma escala cómoda na volta da Mina, inviável em navegaçào costeira devido à contra-corrente da Guiné.

A terceira linha. quiçá a mais conhecida- é o prosseguimento do descobrimento da costa ocidental africana. O escopo é agora, decididamente, virar o Cabo o e penetrar no Índico,

A quarta linha é a colheita de informações no Oriente, mediante o envio de exploradores por via terrestre até ao Índico. Referimo--nos, é c1aro às viagens de Pero da Covilhâ e Afonso de Paiva, para não citar senão as que tiveram algum sucesso. (53)

A quinta tinha de acção são as tentativas de penetração no interior do continente afíicano, seja co o obbjectivo decontactar, enfim, o Preste João, seja com o de assentar diploaticaente o trato com os potentados do ouro.

viagem de Joào Afonso de Aveiro ao Benim (1484 ou 1485) e envio de missionários-astónomos para o pais, com o fito de alcançar o Ogané (1486); viagens Até junto dos reis do Songo e dos Mosses a partir de S. Jorrge da Mina; tentativas de subir o Senegal e o Gâmbia ; viagens de Gonçalo de Antas, Gil e Vicente Anes a Felu ; etc (52)

5.A sexta linha de acçào joanina

consiste em iniativas de criação de abcessos de cristianização no continente africano, de que,a mais espectacular é a que conduziu á cristianizaçâo do Congo em 1491 (54) Pág. 163

Finalmenre a sétima linha de actuação é a actividadc diplomática tendente a reservar para Portugal a influência, quer sobre os territórios descobertos. quer .sohre a área oceânica indispensável às comunicações entre estas e Portugal. e entre Portugal e as terras que pretendia descobrir no futuro. Pág. 164

VI. Os portugueses e a rota das especiarias - 169

V. - A «Política Oriental» de D. Manuel I - as suas contracorrentes - 189

VI. - Estrutura política e administrativa- do Estado da índia no século XVI - 207

VII. - Goa: Uma Sociedade Luso-indiana - 245

6.Goa - importância da História ..

É seguramente a história e não a geografia que explica a presença desta cultura enquistada. Pág. 245

7.Goa - geografia

Todavia, este território de 3400 Kmz e de 750 000 habitantes permanece vivo. Quando o visitamos vindos de Bombaim ou do interior da Índia, depressa nos apercebemos de que penetramos num outro mundo e que Goa, ainda que decaída da sua antiga grandeza, conserva ua vida e ua cultura próprias. Foram sohre os geógrtafos que puseram em evidência a originalidade sua ciIilizaçào 1(1)

Veja-se Orlando Ribeiro - Aspectos e problemas da Expansão Portuguesa, Lisboa, Junta de Investigações do Ultramar, 1962, em particular o estudo »Originalidade de Goa»

Veja-se Raquel Soeiro de Brito, Goa e as Praças do Norte, Lisboa, J.I.U., 1966 e o número especial sobre Goa da Revista Garcia da Orta, Lisboa , J.I.U. 1956.

Pierre Gourou - « um duplo tesouro de civilização », citado por Orlando Ribeiro op cit p. 184

8.Originalidade da civilização de Goa - geeógrafos

Orlando Ribeiro, Raquel Soeiro de Brito Pierre Gourou

9.Goa - assimilação

Quatro séculos de influência cristã foram aqui tão profundamente absorvidos por um meio geográfico e por uma sociedade completamenle indianos que seria impossível acreditar que, `a semelhança do hinduismo, o cristianismo tivesse nascido à sombra daqueles palmares e nas margens daqueles rios Pág. 246

1. A Evolução da Sociedade Goesa - 246

10.concani - proibição de a utilizar

No século XVII que esta política repressiva atinga o apogeu. Com o objectivo de lavar ainda mais longe a assimilação da população à cultura portuguesa e impedir os contactos entre hindus e cristãos, reputados perigosos para a ortodoxia, o vice-rei Francisco de Távora, por sugestão dos Franciscanos de Bardez, chega ao ponto de interditar, em 1684, o uso da língua local, o concani, que todavia, os Jesuítas tinham estudado, transcrito em caracteres latinos e adoptado como língua de pregação e de catequese. (21) - é ainda hoje a única lingua indiana romanizada. Pág. 257

11.Goa - cargos públicos - população local

É ainda a nobreza indo-portuguesa que domina nas câmaras municipais, das quais a de Goa, rica, poderosa, regida pelo mesmo foral que a de Lisboa e usufruindo aproximadamente dos mesmos privilégios, é de longe a mais importante. Desde- a Restauração .faz-se representar nas Cortes, ao lado da Baía, ao tempo capital do Brasil (24). Pág. 258

12.discriminação religiosa

a discriminação eessencial é religiosa ais do que racial, sendo a profissão de fé cristã sempre considerada, pelo menos em princípio, como equivalente à cidadania portuguesa. (25) - C. Boxer - Race relations in the portuguese colonial epire 1415-1825, oxford university press, 1963.

13.Goa - população local na governação

Com a revolução de 1820 que instaurou em Portugal o regime.liberal as possibilidades de expressão e de participação politica dos nativos goeses tomaram-se maiores. A Índia Portuguesâ esteve desde entào e até aos nossos dias reprcscntada no Parlamcnto de Lisboa por dois deputados eleitos mediante sufrágio directo e já não, como os procuradores as Cortes tradicionais, escolhidos pela Câmara unicipal Pág. 264

14.Goa -- imprensa

O primeiro diário, o Heraldo, fez a sua aparição em 1900. Em 1961 pubblicava--se nove jornais, seis em português, dois e concani e u e mmarata. Pág. 267

15.Goa - população letrada

Afora dois ou três reeinóis (metropolitanos) como Cunha Rivara e Tomás Ribeiro e de alguns descendentes como Germano Correia, as figuras que dominam a cena cultural goesa, nas letras , no jornalismo, no ensino são maioritariamente brâmanes e chardós, membros das castas superiores da sociedade cristã. Pág. 268

16.Goa - emigração

Dado que este surto da instrução não foi acompanhado por um desenvolvimento econóico - tendo o território permanecido a este respeito mmuito estagnado - depressa se produziu uma situação desubbemprego da élite culta que a levou a expatriar-se . Pág. 269

11.Traços fundamentais da Sociedade e da Vida Goesa, 271

17.Goa -- Timor - influência espiritual -- contraste co a influência aterial

Em Goa, como em Timor e noutros territórios do Oriente onde a presença portuguesa logrou fixar-se, observamos com estranheza que, se a vida espiritual e cultural revela uma nítida influência portuguesa, a vida material e aorganizaão social das populações ostram uito poucos traços dessa influência. A razão é que os estabeleciemmntos portugueses no Oriente permaneceram até aos nossos dias coo sobrevivêencias anacrónicas da primeira expansão europeia, predoinanteente mercantilista, e pouco influenciados pela segunda, de carácter francamente colonial, que decorre da revolução industrialdo século XVIII. Pág. 271

III. A Diáspora Goesa - 282

18.Goa - emigração

Pelas suas ligações à colonizaçâo portuguesa, as suas origens .sociais. as suas direcçôes geográficas e os seus caracteres, a emigração goesa que se esboça a partir do século XVI e se desenvolve a partir do último quartel do século XVIII distingue-se da emigraçao indiana. que só se inicia mais tarde. Pág. 282

19.Goa - emigração

Esta emigração apenas toca as classes superiores ou médias. Pág. 282

20.Goa - emigração

Os primeiros casos de emigração goesa, no quadro da expansão portuguesa, datam do século XVI: há já alguns goeses entre os membros da expedição de Francisco Barreto a Moçambique (1568) e em 1598 um catequista goês, Lourenço Gonçalves, é martirizado em Lamaquitos (Timor). Por volta de 1560 havia dois missionários de Goa no Japão, os pactres Baltazar da Costa e Belchior Figueirecto. Dos setenta e dois membros da « embaixada mártir» enviada de Macau aoJapão em 1640, sessenta dos quais foram mortos, três eram goeses (52) - Peregrino da Costa - A expansão do Goês pelo mundo. Pág. 283

21.Moçambique - goeses

É no século XVII e sobretudo na centuria seguinte que os Goeses se começam a tornar numerosos em Moçambique, como já vimos. Quatro ou cinco atingiram aí o posto de capitão-mor; e quando. Pombal separou o governo de oçambique do de Goa o primeiro secrefário-geral de Moçambiquc foi também um goês, Caetano Xavier. Pág. 283

22.Portugal -- Europeu - goeses

É por esta época que começamos a cncontrá-los no próprio Reino. Entre os cem estudantes vindos do Ultramar que, entre 1833e 1857, frequentaram a Univcrsidadc dc Coimbra encontramos quarenta e oito goeses, seis dos quais descendentes e quarenta e dois nativos Onze fizeram_estudos de mdicina, seis estudaram Direito e quatro Teologia; quatro deles obtiveram o grau de doutor, enquanto oitoo outros se tornaram oficiais do Exército ou da Marinha, Pág. 283

23.goeses emigrantes em Portugal

Peregrino da Costa enumera entre os que se estabeleceram na metrópole portugueesa : vinte e três professores universitários ( entre os quais toda a dinastia dos Gonçalves Pereira, brâmanes de ilha de Divar, na Faculdade de Direito de Lisboa Pág. 284 vários goeses ou descendentes ilustres representaram Portugal Pág. 284

24.Origem goesa -- primeiros ministros

Para tenninar, assinale-se ainda que dois primeiros-ministros de Portugal eram de origem goesa: Marcello Caetano (1968-1974), originário de Assagâo (Bardez) e Nobre da Costa (1978), proveniente de uma família brâmane de Salsete. Pág. 284

25.goeses no estrangeiro

Uma centena de goeses fizeram carreira em outros países da Europa. Op primeiro deles foi, provavelmente, D. Mmateus de Castro, o primeiro prelado goês, sagrado bispo titular de Grisopolis e 1652, que fez a sua carreira em Itália. O seu caso é interessante sobretudo coo símbbolo de u desenvolviento cultural do pequeno território e da assimilação dos seus habitantes à cultura europeia. Pág. 285

26.goeses no Oriente -- Bombaim

A emigração dos Goeses no Oriente, por seu lado, é, pelo seu carácter, um pouco diferente e apresenta outro significado. Segundo uma estimativa de 1954, o seu número atingia 180 000, dos quais 80 000 em Bombaim e 20 000 no resto da Índia, 10 000 em carachi 20 000 no GoIfo Pérsico (55). Como em Bombaim, possuem organizações próprias quase por toda a parte; é o caso do Goan Institute e do Santa Cruz Club em Momhaça, do Catholic Recreative Clubb no Barém, etc. Pág. 285 (55) - B. Graciano de Sousa, p. 203

27.Goeses em Bombbaim

A colónia de Bombaim é a mais aniiga. Começou a constituir--se no fim do século XVIII, quando os ingleses iniciaram o desenvolvimento quc fez desta cidade uma das grandes metrópoles da Ásia. Os goeses contaram-se entre os primeiros que ali se foram eslabclecer, da mesma forma que os cristãos lusófonos de Malaca figuram entre os primeiros habitantes de Singapura e os lusófonos de Macau cntre os de Hong-Kong. Em qualquer destes três casos, trata-se de comunidades formadas pela expansão portuguesa que foram atraídas para a órbita da colonização inglesa, desde que esta assume decididamente a dianteira em relação àquela. Pág. 285

28.goeses em Bombaim - profissões

Entre os 40 000 membros dos trezentos e quarenta e um ctubes goeses de Bombaim contam-se 14 000 homens do mar, 7000 cozinheiros e empregados de hotelaria. 3000 funcionários, 3000 alfaiates, 3000 amas e enfcrmeiras ee 700 úsicos (56) - B. Garcia d' Sousa , p. 205

29.Goa - difusor do cristiasnismo

Goa se..tornou verdadeiramente como que um foco difusor do cristianismo na Ásia e dos contactos culturais entre a Índia e o mundo, Ocidental. A este respeito, a emigraçào goesa parece desempenhar um papel cõnsiderável : é graças a ela que a cultura goesa é, ais do que uma sorevivência enquistada nu recanto perdido do Condão, um princípio activo, um elemento dinâico que, ao irradiar a sua influência, assume na história universal, ua função be mais importantedo que aquela que as dimensões do território permitiria prever Pág. 289

VIII. - De Malaca a Pegu - 291-

Iª. Parte. As duas viagens do feitor Pero Pais (1512-1515) - 291

- Os Portugueses, o Pegu e o «comércio de índia em índia» - 291

- As viagens : rota, organização e carga - 303

- Explicação dos Pesos, Medidas e Moedas:

- Pesos - 323

- Peso Novo de Lisboa - 324

- Dacbim grande de Malaca - 324

- Dacbim pequeno de Malaca - 325

- 3º. Sistema de Malaca (cate de taéis) - 325

- Dacbim de Pacém - 326

- Sistema de Martabão - 326

- Medidas - 327

- Moedas - 327

- Moedas Portuguesas - 327

- Moedas indígenas de Malaca - 328

- Moedas de Pacém - 328

- Moedas de Pegu - 328

- Caxas - 329

- 2ª. Parte. A viagem de António Correia - 345

- Quem era Antônio Correia - 345

- A conjuntura político-militar nas vésperas da viagem - 352

- A viagem: cronologia e aspectos gerais - 361

- A viagem: organização - 369

- A feitorla em Pacém - 373

- As transacções comerciais - 378

- As diligências diplomáticas - 385

- Presentes dados em Pacém - 395

- Presentes dados em Pegu - 396

- Actividade Militar - 397

- Conclusão - 401

IX. - Os Portugueses e o mar de Bengala - na Época Manuelina 403

- 1. Da primeira imagem ao Primeiro contacto - 403

- 2. Constragimentos, contradiçõese mal-entendidos.-

- as características estruturais da expansão portuguesa - 417

- 3. Os particulares à descoberta do golfo - 435

- 4. As primeiras missões oficiais e suas consequências - 440

- 5. A embaixada de 1521 - 457

30.X - Nina Chatu e o Comércio Português em Malaca - 487

- Documentos - 508

XI - Malaca e suas comunidades mercantis

- na viragem do século XVI - 513

- O sultão primeiro mercador dos seus estados - 515

- As comunidades estrangeiras - 518

- Técnicas comerciais e forlunas-privadas - 526

- Cosmopolitismo e Islão - 528

- Os efeitos da presença portuguesa - 531

31.população de Malaca -- alteração com a conquista

Um novo grupo fez a sua apariçào: o dos casados, isto é, soldados portugueses que desposaram mulheres da terra, O Estado, desejoso de melhor assegurar a sua presença na Ásia, via estc pequeno grupo com bons olhos; concedia dotes às esposas e entregava aos maridos propricdades confiscadas aos muçulmunos. Pág. 531

32.Malaca - inversão hierarquica das comunidades

É notório que a hierarquia das comunidades se encontra de alguma forma invertida. Passam a ser os cafres e especialmente os quelins os favorecidos pelo poder. Neina Chatu é o principal conselheiro comercial de Rui de Brito Patalim, primeiro capitão português de Malaca . Pág. 533

33.Malaca - mestiços - área de habitação

Estes portugueses, mestiços ou assimilados, estabelecera-se sobretudo no centro da cidade, ao redor da fortaleza e da igreja, que tinha substituído, respectivamente , a esquita e o palácio dos sultões. O bairro foi fortificado (entre 1527 e 1542) com baluartes e encheu--se de igrejas e conventos. Pág. 532

34.Malaca - evangelização

A partir de 1550 instalam-sc em Malaca diversas ordens religiosas e a evangelizaçào ganha um novo incremento. O número dos cristãos indígenas recrutado entre os quelins e os chineses tende a aumentar. O bendara, sem dúvida um neto de Neina Chatu, converte-se em 1564 e confia a cducação de seu filho aos jesuítas: é provavelmente ele quem. com o nome de Dom joâo, morre em 1513. batendo-se contra os Achens que cercam a praça. Pág. 534

XII - Maluco e Malaca - 537

XIII - Os Portugueses nos mares da Insulíndia no século XVI - 567

- Monopólio e comércio livre - 569

- Rotas e mercadorias - 581

XIV - Relance da História de Timor - 591

- Pré-história - 591

- Proto-história - 593

- História moderna e contemporânea - 593

- História Religiosa - 597

35.Timor cristianismo - origem

O cristianismo foi introduzido na segunda metade do séc. XVI.Após a pregaçào do franciscano Fr. António Taveira (1556), que não teve continuidade. Timor foi evangelizado pelos dominicanos, estabelecidos em Solor desde 1562. A primeira igreja de que há noticia foi consítuida em 1590 no reino de Mena (perto de Oé-cussi) por Fr. Belchior da Luz: mas é com a pegaçâo de Fr. Cristóvão Rangel (c. 1633) e Fr. António de S.Jacinto (c. 1639) que a religiào católica cria na ilha raízes decisivas. Para o fim do século, ao mesmo tempo quc se espalha pelas vizinlas ilhas de Savu, Adunara e Flores testa, ainda hoje, o coração católico da Indonésia), o catolicismo progride em Timor.Pág. 598

- História Cultural - 600

36.Timor - influências culturais

A civilização de Timor é herdeira, sobretudo, da dos austronésios e. como tal, um ramo da civilização chamada por vezes «austro-asiática," comum a todo o Sudeste do Continente Asiático e Insulíndia,onde subsiste hoje, pouco alterada, entre as populações mais isoladas- A influência do substrato papua é porém mais forte que no resto da lnsulíndia. A esse fundo vieram juntar-se elementos introduzidos pela influência de Dong-Son e das civilizações javanesa e malaia: mas os introduzidos pelos Porugueses sào os mais vultosos.

37.Timor - influência portuguesa

Trazida pelos missonários, sobretudo, a influência portuguesa é mais nítida no aspeçto espiritual (religião, lingua, arte) que no material;..neste traduziu-se sobretudo na introduçào de novas plantas (milho de maçaroca, hoje base da alimentação nativa, mandioca, goiaba, teca, etc.), na sua maioria oriundos do Brasil. e novos animais (vaca, ovelha); Pág. 600

38.música aculturada

Na úsica aculturada, o instruento fundammental é o violino ( uitas vezees de fabrico local) ; o acompanhamento é feito por cavaquinho, bombo, tabor e ferrinhos. As elodias são e parte de origem europeeia (valsa, polcas, etc.), e parte alaia ou indonásia. Pág. 601

- A grande crise e a invasão índonésia - 603

- Bibliografia - 611

39.Timor influência portuguesa - razões da aculturação

mas a sua individualidade foi reforçada quer pela unificaçâo política quer pela difusão de uma cultura luso-timorense em que avulta, pelo seu papel aglutinador, o catolicismo que ao mesmo tempo acentuou a oposição dos timorenses quer aos povos predominantemente muçulmanos da Indonésia Ocidental e de Celebes. quer aos Holandeses, calvinistas). A fidelidade a Portugal materializou-se no culto da bandeira, aparentemente identificada. no contexto do totemismo tradicional, ao totem do grupo mais vasto em que os timorenses se sentiam.intregados.

40.Timor influência portuguesa -- razões da aculturação

Em segundo lugar, explica-se pela separaçào entre o poder económico e o político, pois estando todo o comércio e a nascente indústria nas ãos da comunidade chinesa, o poder português nâo aparecia como de exploração económica, mas antes, como uma força arbitral, potencialmente morigeradora do poder económico.

41.Timor influência portuguesa -- razões da aculturação

Em terceiro lugar, deve notar-se a fraca concorrência no mercado do emprego entre a nascente elite cultivada timorense e os metropolitanos, escassos, e em grande parte integrados pelo matrmónio em famílias timorenses - 81 por cento dos quadros do funcionalismo. por exemplo. era intregados por timorenses.

Pág. 604

42.Timor - consequências da ocupação da Indonésia

A ocupação alterou profundamente as posiçôes das forças políticas timorenses, levando-as a uma aproximaçâo contra o invasor estrangeiro. O contacto directo com os indonésios fez realçar aos olhos dos timorenses as diferenças que os separam, exaltando o seu sentimento de individualidade étnica, com todas as mani-festaçôes tradicionais (incluindo o culto da bandeira portuguesa, como outrora perante os Holandeses e durante a ocupação japonesa). Esse sentimento, de ordem estrutural, foi conjunturalmente exarcebado pela corrupção da administração indonésia, de venalidade indescritível e sobretudo pelo comportamento bárbaro das suas tropas : Díli foi saqueada e removidos para Jacarta a rádio, o bloco operatório do hospital, viaturas, recheio de casas, etc.; no cais forom fuzilados, «para mostrar como seriam tratados os que se opusessem à integraçào» 27 homens e 33 mulheres escolhidos à sorte enrte a multidão convocada para o efeito; em muitas localidades do interior a população adulta foi fuzilada, deixando apenas as crianças; pessoas pouco afectas à ideia da integraçâo foram levadas de suas casas e atiradas ao mar de helicóptero; Pág. 610

XV. - A formação do Tétum-Praça língua veicular de Timor leste - 613

- Nota sobre a transcrição do Tétum - 635

- Bibliografia - 635

XVI. A língua portuguesa em Timor - 637

- I- Vias de difusão do português na Ásia - 637

43.Lingua portuguesa - oriente - causas da expansão

A situação do nosso idioma no Oriente afigura-se-nos à primeira vista assaz paradoxal: em pontos onde a presença política portuguesa se limitou outrora a um pequeno espaço urbano e cessou. para mais. já desde há séculos. continua o português em uso. como sucede. por excmplo. em Chaul ou em Malaca onde a ocupação foi mais extensa. alargada a zonas rurais adjacentes de dimenssão razoável, e mais duradoura por cima, atingindo como em Goa e em Timor os nossos dias. o seu enraizamento afigura-se menor e o seu uso. por tal razâo. quase moribundo. Pág. 638

44.lingua portuguesa - trêes vias de difusão

Este aparente paradoxo nâo se pode explicar se nâo se tomar em conta a diversidade das vias por que o português se difundiu, nem de igual maneira a multiplicidade das funç6es que preencheu. Pág. 638

O português espalhou-se pelas costas dos países que marginam o Oceano Índico essencialente por três vias : por via de dominação política, por via do coércio e por via da missionação. Pág. 638

45.difusão da lingua portuguesa - causas

facilitou-a, sobretudo nos grandes centros em que se fixou razoável quantitativo de portugueses reinóis, a presença de falantes que o tinham como lingua materna; prolongou-a o constante aumento do número de mestiços; assegurou-a ainda, pelo menos nalguns pontos, a criação de escolas em que o português era ensinado: assim, por exemplo, em Goa, onde desde o vice-reinado de D. Joao de Castro (1545-1548) se criaram escolas elementares em todas as paróquias rurais, Num ou noutro caso houve mesmo por parte do poder público um deliberado esforço para o impor em detrimento do falar local: assim na Goa do século XVII - que se queria uma Roma oriental, capital de um grande império cristão de cultura portuguesa, um bastião da Contra-Reforma; aí decretou em 1684 o vice-rei Francisco de Távora, a instâncias dos Franciscanos de Baraéz, a proscrição local, do.concani~, o que, naturalmente, nào sortiu efeito. Pág. 639

46.lingua doinante - causas da sua difusão

Em todas as sociedades etnicamente nâo homogéneas com efeito, a Iíngua da etnia dominante adquire ipso facto um considerável prestígio falá-la é mostrar-se integrado no grupo que ocupa o cimo da jerarquia social, é, pelo menos, aproximar-se e poder comunicar com ele. A adopção da língua do conquistador, fenómeno de que formigam os exemplos ao longo da história universal, parece pois muito mais de natureza social do que política. no estrito sentido da palavra. Ainda hoje em Salcete - o distrito mais meridional das Velhas Conquistas de Goa, em que a aristocracia local de brâmãnes e chardós cristãos conserva bastas vezes em família o uso do português - é frequente os indivíduos de mais baixa Na extracçào social diligenciarem por mostrar, quando o Ouvem. que o sabem falar também, pois o português, língua das grandes famílias terratenentes da região, conserva aí, independentemente de toda a pressão do poder público. uma conotaçào de aristocracia e de bom tom. Pág. 639-640

47.divulgação do português - missionação

A sorevivência do~português no seio~de comunidades cristãs enquistadas entre infiéis, como sucede em Damâo, em Chaul ou em Malaca tem por certo a ver com tal fenómeno, Pág. 642

- II-Evolução bistórica da da presença do português em Tímor 643

- III - O português no espaço social timorense - 643

- IV- O português nas redes marítimas tangentes a Timor - 643

- V- O português em Timor - 643

48.Português de Bidau

Quase nada podemos dizer do «português de Bidau». A Unica referência escrita que lhe encontramos é a de Osório ae Castro, que na sua obra A Ilha Verde e Vermelha de Timor transcreve algumas conversas e um pequeno poema. Sabemos ainda que a Missào Antropológica de Timor, dirigida pelo recém-falecido Prof, António de Almeida (de quem tivemos esta informação) recolheu da boca de velhos que o falavam ainda algumas gravações magnéticas, que até hoje nào foram, que saibamos, transcritas nem estudadas. Pág. Pág. 658

49.português de Bidau - causas da decadência

Quanto ao «português de Bidau» a sua decadência, que tem no fundo a mesma causa é paralela à do indo-português e Damão e à do crioulo macaista em Macau : desaparecida a rede marítima que lhe deu origem sem ter a protegê-los um enquistamento socio--religiomso, estiolara a coberto da manutençào da soberania portuguesa, como que entalados entre o prestígio da língua oficial e a pressão da língua veicular do espaço circundante. Foi, por certo,por uma razào semelhante que em Goa não chegou, aparentemente,a instalar-se um dialecto crioulo: não lhe deixava espaço social de um lado o peso, forte aí, do português literário (consolidado quer pela presença da nobreza descendente (28) e de um clero numeroso, quer pela utilizaçào precoce da imprensa), de outro a força integradora do concanim, prestigiado ele também pelo emprego que dele fazia a Igreja e pela romanizaçâo que lhe deu desde o século XVI o cariz de urna língua de cristaos. Pág. 658

- VI - Futurro do português em Timor - 643

50.Filipinas - mudança da lingua oficial

O exemplo das Filipinas, onde o inglês baniu quase totalmente em três gerações , o castelhano , implantado de há três séculos e veiculado por um ensino que comportou desd o século XVI o nível universitário, é elucidativo. Pág.. 664

XVII. O afluxo ao meio urbano no Timor português

- Nota prévia - 667

- Antecedentes históricos - 668

- Uma sociedade dual - 673

- A cidade de Díli - 682

- Factores de desintegração de indivíduos do meío rural

- tradicional e seu afluxo ao meío urbano - 689

- juizo sobre este movimento - 698

- Perspectivas de evolução - 704

- Conclusão - 708

- Apêndices I - 708

51.Timor - população aculturada - profissões

Os mestiços preferem o funcionalismo, o quadro administrativo, as forças armadas e a enfermagem (que no seu conjunto ocupam 40.3 por cento desse grupo rácico), sem contudo predominarem em nenhuma profissão. A pequena colónia goesa dedica-se tota1mente aos serviços, em especial medicina, clero e comércio bancário. Os cabo-verdianos sào em parte funcionários, em parte artífices . Os timores concentram-se espectacularmente na agricultura; estão totalmente ausentes das profissôes que exigem habilitaçoes de nível universitário, mas estão já bem representados no clero (ao contrário dos mestiços); predominam de modo exclusivo nas forças militarizadas e ainda nitidamente nas forças armadas e no fundonalismo civil: estão mal representados no sector secundário; mostram, nas attividades tradicionais, acentuada tendência para o trabalho famlliar, evidenciada pela desproporção de mais de um para dez enue os trabalhadores agrícolas (assalariados) e os agricultores por conta própria. Pág. 710

- Apêndices II - 722

52assimilado - bai- nó

O tipo social que neste estudo principalmente focamos, o indivíduo aculturado, letrado ou semiletrado, é designado geralmente em Timor pelo termo tétum bai-nó. Este vocábulo merece uma curta explicaçâo. O termo tem hoje uma leve conotaçâo pejorativa devido à tendência para o aplicar sobretudo aos rapazes vadios do meio suburbano, mas na origem era um tratamento de cortesia, aplicado sobretudo aos filhos dos nobres e pessoas importantes, e, portanto, praticamente equivalente ao tratamento português de « menino».

A evolução semântica deste vocábulo confirma de certo modo o que acima afirmámos: que a classe dos letrados timorenses emergiu da aristocracia rural tradicional, a que se mantém vinculada pelos laços de sangue. Pág. 723

Origem dos textos aquipublicados - 725

Outros trabalhos do autor - 729

Cbave das aberturas usadas nas citações - 737

índice antroponímico - 741

índice toponímico - 759

índice temático - 767

índice filológíco - 773