segunda-feira, 21 de abril de 2008

O 25 de Abril por Manuel Maria Múrias

COMEMORAR A TRAIÇÃO, A VERGONHA E A COVARDIA

«As comemorações do 25 de Abril tiveram várias vantagens. Em primeiro lugar permitiram que os mais moços se apercebessem bem da infâmia; em segundo lugar porque, apesar da propaganda desenfreada, contribuíram bastante para desmistificar a vergonhosa revolução. Cada um dos seus actores dizendo enormidades, a direita ripostando valentemente. Comunistas e socialistas metendo a viola no saco durante as discussões, para irem falar sozinhos para onde os não contradizem.
Acabou-se com o mito terrorífico da P.I.D.E. O inspector Óscar Cardoso, sem receios e com orgulho, calou sobranceiramente o desgraçado do Tengarrinha e o pobre do Sousa Castro, desmentindo-os sem apelo nem agravo. A P.I.D.E. foi uma polícia como as outras, tão dura e tão bruta como as demais. Não se encontrou uma prova que negasse a valentia, o patriotismo e a honradez da maioria dos seus agentes. Durante dezenas de anos perseguiu implacavelmente os comunistas, os conspiradores, os desertores, os traficantes de droga e os proxenetas internacionais. Prendeu assassinos como o Francisco Martins Rodrigues, ladrões como o Palma Inácio, desertores como o Manuel Alegre, bombistas como João Roque. Cometeu excessos? Com certeza. Não se apurou todavia, nada de tão violento, de tão terrorífico ou de tão ordinário como foi a acção do COPCON ao longo dos anos de 74/75, nem nada que se possa compara às infâmias praticadas no Porto pela miserável Corvacho. Os tribunais que, um a um, julgaram os homens da P.I.D.E. só condenaram uma a uma pena pesada. Os outros sentenciados a alguns dias de prisão (já largamente cumpridos antes dos julgamentos) foram condenados porque uma lei com efeitos retroactivos pelo simples facto de terem pertencido à P.I.D.E. e, evidentemente defendido Portugal contra a canalha que hoje ainda nos governa.
Quanto à descolonização ficámos também conversados. Na aflição das desculpas, os abrileiros tentam desesperadamente atirar as culpas para cima de Salazar (se se tivesse descolonizado mais cedo...) ou procuram achar nos eventuais intentos descolonizadores de Marcello Caetano a prova da sua razão. Deliberadamente esquecem que antes e depois da sua descolonização todas as outras se afundaram e continuam a afundar-se no sangue e nos ódios tribais; a maioria das populações da África Negra vive ainda na Idade da Pedra; abandoná-las sozinhas a instituições estatais mais ou menos europeias, dominadas por calcinhas foi entregá-las ao genocídio, à corrupção e à inépcia infantil de uns mulatos semi-civilizados alcandorados ao poder.
Em relação ao desenvolvimento económico retrogradámos para os índices de 1962. Caminhamos com rapidez para a destruição da indústria e para o fim da agricultura. Diante de qualquer crise internacional, sem Ultramar, sem marinha mercante, sem dinheiro, crivados de dívidas, diminuída de forma catastrófica a produção nacional — corremos o risco de morrer de fome e da desordem que, inevitavelmente trará consigo a intervenção espanhola.
A ruína de Portugal é um facto atestado pela maioria dos intervenientes dos vários talk-shows com que as televisões nos ensafuaram o juízo nos últimos tempos. Desde a esquerda aparvalhada à direita amaricada, ninguém se atreveu a negar a realidade. Como girândola final, para além do ridículo da sessão solene no Largo do Carmo, explodiu a polémica entre o Spínola e o Costa Gomes insultando-se mutuamente nas páginas do «Diário de Notícias». Os marechaloides não pouparam amabalidades. Para Spínola, Costa Gomes é um traidor nato; para Costa Gomes o Spínola é um esquizofrénico. Entre a traição nata do Gomes e a esquizofrenia inata do Spínola, Portugal desgraçou-se.
De todos os personagens do 25 de Abril, Costa Gomes é, talvez, o mais complicado. Traiu — é verdade. A sua traição, todavia, é muito mais provocada pela imbecilidade e traição do Spínola do que, propriamente, pela sua vontade de trair. Gomes é levado pelas circunstâncias enquanto Spínola foge. Costa Gomes fica para não perder o lugar, mas também para evitar males maiores. Que teria sido de Portugal se Costa Gomes, como Spínola, tivesse fugido em 74 e em 75, deixando-nos entregues às fúrias epilépticas do Vasco Gonçalves e do mefás?
Guiado pela vaidade, o antigo governador da Guiné, ao contrário de Costa Gomes, embarca na primeira frioleira que lhe propõem os acólitos. Primeiro em 28 de Setembro de 1974, aceita como boa a impossível manifestação da maioria silenciosa com a qual pretendia fazer um golpe de estado; depois, em 11 de Março de 1975, estimula a sublevação dos páraquedistas aquartelados em Tancos, para depois outra vez fugir, abandonando com o rabinho entre as pernas e o monóculo no olho, quantos contavam com ele.
Nos primeiros momentos da sua efémera glorieta de 74 Spínola não parece ter-se apercebido de que não dispunha de autoridade. Ronceiro de entendimento e, por pouco, iletrado, baldo de qualquer senso moral, o generaloide do monóculo vivia ensimesmado na sua estulta fesporrência. Nem uma vez lhe relampejou na ténue cabeça poder ser desprezado pelos «rapazes» do M.F.A. Era o «maior» — segredava-lhe a presunção. Os outros eram menores — e, enquanto os comunistas se iam, apoderando dos manípulos da governação ele entretinha-se a pilotar a barca do estado, sem atentar que deixara de haver estado. Rapidamente se esvaneceram todos os vão sonhos de grandeza que acalentara na Guiné enquanto Governador da província.
Spínola, já em 1968, era considerado nos meios ultramarinistas como um sujeito ininterruptamente tonto, vaidoso como um pavão, ambicioso e perigoso por ser azoinado da cabeça. Dos secretos dinheiros da província que podia gastar sem o visto do Tribunal de Contas, dispendeu muitos milhares em propaganda pessoal, procurando impôr-se à opinião pública como um militar da estirpe de Rommel, de MacArthur, do Mousinho ou, ao menos, do Eric von Stroheim. Dizia ter lido relatórios do Mousinho e aspirava pelo seu Marracuene, pelo seu Chaimite, com a correspondente entrada triunfal em Lisboa no alto duma quadriga, coberto de loiros, o Amílcar Cabral algemado de pés e mãos como acontecera ao Gungunhana. Queria ser Presidente da República. Suspeitava que Marcello Caetano lhe acarinhava as ambições. Para chegar a Belém e ter mais uma estrela na manga do dólman, seria capaz de matar a mãe.
Atingira o generalato porque Salazar o impusera em Conselho de Ministros, recordado dos tempos em que o pai do «herói» fora seu secretário, e duma carta amanteigada em que o homenzarrinho lhe escrevera em 61, depois do gorado golpe de Botelho Moniz e Costa Gomes. Chegara a Governador da Guiné nos últimos tempos decadentes de Salazar, depois de lhe ter sido negado o Governo Geral de Angola.
Desembarcado em Bissau, poucos meses antes de Salazar ser demitido, não precisou de muito tempo para verificar que o seu Chaimite tinha sido chão que dera uvas. Em Moçambique, no final do séc. XIX, os vátuas, armados e financiados pelos rodesianos, lutavam de cara descoberta; ali, no meio de pântanos e picadas enlameadas, os turras, armados pelos soviéticos, batiam e fugiam. Fugir é a táctica suprema do guerrilheirismo — e não por medo, não — por inteligência. Guerrilheiro que não sabe fugir não dura um piscar de olhos — e o Spínola não sabia fazer aquela Guerra que não vinha explicada nos manuais da Escola do Exército. Nem a queria fazer. O que queria era a Campanha da Rússia. O que desejava era Austerlitz, o Almeida Bruno e o António Ramos feitos duques no amanhecer encarniçado da vitória. O que ambicionava era vencer Iena, ganhar Friedland, atravessar os Alpes no dorso dum elefante. Sofria de caprolália. Faltava-lhe um rim. Só bebia água do Luso e comia galinha cozida.
Quando no princípio de 1972 um advogado do Porto, especulador bolsista, o dr. Francisco de Sá Carneiro o convidou para se candidatar à Presidência da República recusou, convencido de que Marcello Caetano o levaria a Belém. Quando o Presidente do Conselho de Ministros resolveu fazer recandidatar o Almirante Américo Thomaz, sentiu-se traído. Resolveu, então trair a Pátria fomentando o descontentamento corporativo dos capitães que começava a ronronar.
Chegado a Belém, cavalgando o M.F.A., ainda tentou dissolver e atraiçoar os capitães, e vigarizar Costa Gomes; mas, enganado pela própria jactância, acabou no exílio. Arranjara mais uma estrela no dólman. Destruíra Portugal.
Graças aos Spínolas, aos Costa Gomes aos Soares, aos Sás Carneiros, aos Freitas do Amaral e a muitos outros, nós somos hoje um estado exíguo na iminência da dissolução. Ao comemorar-se o 25/A comemora-se a estupidez e a traição. Só quando nos livrarmos desta sarna fulurenta poderemos tentar ressurgir.

In Agora!, n.º 6, pág. 3, Junho/Agosto de 1994.

Fonte: Blogue "Nonas - post de 19Abr2008

quarta-feira, 16 de abril de 2008

“Foi Assim” por Zita Seabra - Comentário de Silvino Silvério Marques

Trata-se de um livro que se lê bem nas suas 437 páginas. A autora escreve de uma forma simples, escorreita, e o assunto interessa a muitos curiosos pelo tema e, de um modo particularmente apelativo, aos que viveram como adultos no período do Estado Novo. Dá para que gente séria e responsável medite o perigo que então se passou por acção de um grupo apaixonado que absorveu a doutrina soviética como religião em que os fins justificavam todos os meios…A obra de Zita Seabra constitui um documento essencia como esclarecedora de aspectos importantes das últimas quatro décadas da nossa história.

Zita Seabra, viveu, como filha única, uma infância feliz numa família nortenha de média burguesia, agnóstica, mas não anti-clerical, da oposição, segundo conta . A sua paixão era ser bailarina clássica, tendo feito ballet desde os sete anos e revelado, em várias oportunidades, especial e promissora aptidão. Aluna, no Porto, do Liceu de D.Maria Micaelis, frequentou variados “movimentos associativos” que proliferaram na altura, tornou-se notada pelo PCP e acabou por ser recrutada como seu militante pelo dirigente associativo da Faculdade de Engenharia do Porto, destacado para o efeito pelo “Partido”. Decorria o ano de 1965 e frequentava, com 15 anos, o sexto ano do Liceu. Líder do movimento associativo do Porto e, já endoutrinada e muito apaixonada pelo comunismo, passou, em 1967, à clandestinidade e foi destacada como “camarada de uma casa do “Partido.” Foi distribuidora do “Avante” e operadora no correio para, e de, presos do “Partido” (correio processado em mortalhas de cigarros). As suas faculdades, e a sua militância, guindaram-na a posições de destaque nos anos que serviu o “Partido” na clandestinidade. Foi dirigente importante da U.E.C. (União de Estudantes Comunistas). Empenhou-se na captação e na doutrinação de estudantes, e no seu encaminhamento para o estrangeiro (incluindo a Rússia) ou para as tropas que combatiam em África. Após o 25 de Abril, regressou à vida livre e, especialmente considerada por Álvaro Cunhal, desempenou missões importantes ao serviço do “Partido”, no País e no estrangeiro, incluindo a própria Rússia. Eleita, pelo mérito evidenciado, membro da Comissão Política do Comité Central, no X. Congresso do “Partido”, foi afastada da Comissão Política em Maio de 1988 e definitivamente expulsa do Partido em Janeiro de1989. Manteve-se deputada de 1975 a 1988,

Conhecedora, por dentro do “Partido”, do comunismo (e “os comunistas portugueses sempre souberam de tudo” e “nunca o P.C.P. disse uma palavra sobre as vítimas do comunismo, como se não existissem”, comenta a pág. 437) e das suas técnicas, revela muito destas, com um pormenor que torna o seu trabalho um precioso tratado, raramente disponível, muito útil para alguns serviços que certamente não deixarão de o estudar. Conheceu e pôde apreciar em várias circunstâncias o carácter, a personalidade, do dirigente máximo do P.C.P. E conta, com evidente conhecimento, a que não falta a identidade de intervenientes, muitas ocorrências relativas ao acompanhamento e à participação do P.C.P. na génese do M.F.A. e na infiltração de milicianos nas forças destacadas para o Ultramar. Refere algumas relações entre importantes responsáveis do M.F.A. e do P.C.P.

Constituindo uma obra rara de corajosa frontalidade, o texto não pode deixar de ser lido como uma decidida exautoração do sovietismo, por alguém que, sem abjurar das suas mais puras convicções, se sentiu profundamente desiludida e enganada, no empenho com que apaixonadamente viveu e serviu o Partido; e também como um certo e delicado, mas importante, desnudar da personalidade de Álvaro Cunhal que nela sai diminuído do seu mítico pedestal.

Somente se me afigura extraordinário que, para contar o que pessoalmente cada dia mais a envergonhava, como confessa (pág. 430), tenha necessidades de recorrer à exautoração de um regime que conheceu essencialmente como militante do “Partido” que agora corajosa e frontalmente abjura, regime no qual o que sofreu e viu sofrer foi, essencialmente, em resultado do combate que a ele foi feito, para que se não estendesse ao nosso País “o maior embuste do século XX na opinião insuspeita de um seu amigo “(pág. 430) . E nem o facto de ter sido procurado, e que, para felicidade do País, tivesse, por tal combate, sido evitado, que se viesse a viver o que define (pág. 437) como uma “tragédia de proporções gigantescas, do tamanho de um continente, na real dimensão que tem uma tragédia da humanidade” justifica e compensa as restrições de liberdade, e consequentes sofrimentos, que ao longo do texto refere e que foram, em geral, custo de responsabilidades voluntariamente assumidas, por engano posteriomente verificado. É uma atitude que traz à minha recordação o seguinte episódio que vivi. Anos atrás fui convidado para um almoço num bom hotel de Lisboa por pessoa conhecida e amiga, sempre muito amável comigo. Os convidados eram, com minha surpresa, politicamente muito heterogénios: lá se encontravam, que me recorde, entre outros, General Eanes, Padre Melícias, Jaime Serra, Palma Inácio… e dois médicos, um que vim a saber ser comunista e outro, que foi especialmente simpático comigo, que eu reconheci, pelo nome, como importante apoiante do MPLA, no Portugal europeu. Estes dois médicos foram-me apresentados logo que cheguei e ficámos a conversar enquanto se reuniam os convivas para as várias mesas. Vivia-se a época da “perestróica” e os dois médicos empenharam-se perante mim por execrar o sovietismo e o perigo que havia representado. Com lógica simplicidade, observei que da sua opinião teria de se concluir ter sido prestimosa a acção da Polícia Internacional (na luta contra tal vírus, subentendia-se)…A reacção , civilizada, foi : Oh Senhor General!...

Num nível inferior de pura cobardia, que evidentemente não é o de qualquer dos casos, ocorre-me aquela generalizada e tristíssima atitude de tantos que para referirem qualquer coisa que consideram mal do presente, se escudam dizendo pior, seja do que for, do passado…

Fonte: Blogue "Alameda Digital" - post de Silvino Silvério Marques

domingo, 13 de abril de 2008

Como gosto de ler Vitorino Nemésio!

Enviado para você por Rui Moio através do Google Reader:

via Estado Sentido de cristina ribeiro em 13/04/08
Não é apenas o romancista, de por exemplo «Mau Tempo no Canal», que me encanta; é, também, o que escreve:
"Este homem elegante e amadurecido que sobe o Chiado de mão metida no colete e vai parando nalguns escaparates para fingir que não tem pressa de chegar lá a cima, às Portas de Santa Catarina, o que tem são falhas de coração. Se não está velho, está gasto. É o ano da graça de 1852: façam os senhores um esforço e sejam, comigo,desse tempo. O nosso elegante, mais tarde, vai dar o nome à rua que hoje lhe custa a subir. Em vão. Será batido pelo revisteiro do século XVI que por ali andou. O elegante transeunte está com cinquenta e três anos, mas faz-se distraído de idades e nunca passa dos quarenta. No fundo mente mal; porque na alma, na verdura, no sangue, está com os vinte e três que tinha quando, casado de fresco, fugiu para Inglaterra, ou com a idade de Cristo que levou para Bruxelas como Encarregado de Negócios, para florear na conversa e dançar com uma ponta de fastio e um ardor secreto, triste."
Vemos, pois, pelos seus olhos, um Almeida Garrett longe dos fulgores da juventude, ou nem tanto assim...

Coisas que você pode fazer a partir daqui:

quarta-feira, 19 de março de 2008

SEMANA SANTA

Enviado para você por Rui Moio através do Google Reader:

via NOVA ÁGUIA de Ivo Korytowski em 19/03/08
MACHADO DE ASSIS


A SEMANA foi santa — mas não foi a semana santa que eu conheci, quando tinha a idade de mocinho nascido depois da guerra do Paraguai. Deus meu! Há pessoas que nasceram depois da guerra do Paraguai! Há rapazes que fazem a barba, que namoram, que se casam, que têm filhos, e, não obstante, nasceram depois da batalha de Aquidabã! Mas então que é o tempo? É a brisa fresca e preguiçosa de outros anos, ou este tufão impetuoso que parece apostar com a eletricidade? Não há dúvida que os relógios, depois da morte de López [ditador paraguaio], andam muito mais depressa. Antigamente tinham o andar próprio de uma quadra [época] em que as notícias de Ouro Preto gastavam cinco dias para chegar ao Rio de Janeiro. [...]

As semanas santas de outro tempo eram, antes de tudo, muito mais compridas. O Domingo de Ramos valia por três. As palmas que traziam das igrejas eram muito mais verdes que as de hoje, mais e melhores. Verdadeiramente já não há verde. O verde de hoje é um amarelo escuro. A segunda-feira e a terça-feira eram lentas, não longas; não sei se percebem a diferença. Quero dizer que eram tediosas, por serem vazias. Raiava, porém, a quarta-feira de trevas; era princípio de uma série de cerimônias, e de ofícios, de procissões, sermões de lágrimas, até o sábado de aleluia, em que a alegria reaparecia, e finalmente o Domingo de Páscoa, que era a chave de ouro. [...]

Como entender, depois da passagem de Humaitá [episódio da Guerra do Paraguai], que as procissões do enterro, uma de São Francisco de Paula, outra do Carmo, eram tão compridas que não acabavam mais? Como pintar-lhes os andores, as filas de tochas inumeráveis, as Marias Behus, segundo a forma popular, centurião, e tantas outras partes da cerimônia, não contando as janelas das casas iluminadas, acolchoadas e atapetadas de moças bonitas — moças e velhas — porque já naquele tempo havia algumas pessoas velhas, mas poucas. Tudo era da idade e da cor das palmas: verde.

(Trecho de crônica publicada na revista A Semana em 25 de março de 1894)


Esta postagem, transcrita do meu blog Literatura & Rio de Janeiro, é uma homenagem ao genial escritor brasileiro cujo centenário de morte se comemora este ano.


Coisas que você pode fazer a partir daqui:

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Regicídio - Visto por D. Mauel II

http://historiaaberta.com.sapo.pt/lib/doc012a.htm

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Guiné 63/74 - P2397: Cusa di nos terra (12): Susana, chão felupe - Parte VII...

Sent to you by Rui Moio via Google Reader:

via Luís Graça & Camaradas da Guiné by Luís Graça on 1/1/08
Guiné > Re~gião do Cacheu > Susana > Junho de 1972 > Cabeça do Comandante de Bigrupo do PAIGC, Malan Djata, cortada por elementos da população, felupe, após a sua captura na sequência de um ataque falhado ao aquartelamento de Susana. Segundo esclarecimento, acabado de dar pelo Luís Fonseca (estamos no concelho de Vila Nova de Gaia, eu neste momento na Madalena e ele presumivelmente em Gulpilhares, aqui ao lado, sem nos conhecermos pessoalmente), "naqueles momentos foi de todo impossível determinar o 'autor' da decapitação. Creio que nessa data, fins de Junho de 1972, o João Uloma nem sequer estaria em Susana"...


Guiné <> Susana > c. 1972 > Visita ao Alferes Comando João Uloma, por parte de jornalistas nacionais e estrangeiros, entre os quais uam equipa do New York Times. O então Cap Otelo Saraiva de Carvalho, da REP/ACAP (Assuntos Civis e Acção Psicológica), fez as honras da casa e o elogio do guerreiro felupe.

Texto e fotos: © Luís Fonseca (2007). Direitos reservados.


1. Texto, de 19 de Dezembro último, do Luís Fonseca, ex-Fur Mil Trms (CCAV 3366/BCAV 3846, Susana e Varela, 1971/73), que tem aqui publicado uma série de apontamentos sobre o chão felupe (1):

Assunto - João Uloma...

Provavelmente mais uma vítima que um réu em todo o cenário da guerra. Provavelmente mais que usado e abusado, utilizando palavras tuas.

Conheci pessoalmente João Uloma haviam já decorrido largos meses de comissão. Mas o seu nome, dentro da etnia e tradição felupe, sempre nos chegou como símbolo de respeito e tido como exemplo. Daí a minha curiosidade pela pessoa.

Era de facto um guerreiro felupe, em estatura. Dos seus predicados operacionais não posso nem devo emitir qualquer comentário pois não tive oportunidade de os constatar.

A imagem que junto é prova de mais uma das demonstrações da utilidade do João Uloma. Durante uma das muitas visitas de jornalistas, nacionais e estrangeiros, esta creio que do New York Times (Alice Barstow e John Burton), ao chão Felupe, ele é apresentado como um herói na defesa do território.

O enquadramento é oficial, com direito a DO privada, e com pessoal da REP/ACAP presente (Cap Otelo Saraiva Carvalho), que faz as honras da casa, com o respectivo e longo elogio. Ao lado esquerdo do João Uloma, seu pai, homem grande da tabanca.

Foi uma das suas poucas visitas a Susana durante a minha comissão, que me recorde apenas mais duas vezes, sempre por períodos de tempo relativamente curtos.

Nessas ocasiões não era demasiado visível, diria que era até recatado. Dedicava-se à caça, quando tal era possível e a algum convivio com camaradas dos seus tempos de Pelotão 60, quase todos.

Não era uma visita constante no aquartelamento, aparecia de quando em vez, e, quando picado, relatava algumas das suas histórias, sendo no entanto parco em detalhes, o que me pareceu estranho face ao que dele se propalava.

Na sua morança não existiam, pelo menos nas casas que vi, crâneos de inimigos, o que já não sucedia em muitas outras moranças de outros guerreiros menos notáveis. Tal trofeú era, para um felupe, apanágio de valentia e quantas mais cabeças tivesse cortado mais respeitado era.

Diga-se que esse foi o encontro com o destino do Cmdt Bigrupo Malan Djata quando, em Junho de 1972, foi capturado, após ataque falhado a Susana. Mesmo com a oposição do graduado da CCAV 3366 ("tu ou ele") cumpriu-se o ritual...

Essa tradição ancestral marcava ainda a vida daqueles que sentiram o primeiro impacto de uma guerra que jamais foi sua, pelo menos no sentido de libertação, porque isso os Felupes foram-no sempre, desde o tempo da luta contra a dominação mandinga: Livres!

Acrecente-se que a imagem que envio, deixando a sua edição ao vosso critério, foi já aproveitada por João Melo (Os anos da guerra - II volume, Cap. III - Operação Nó Górdio -Moçambique - pg. 51 - Circulo de Leitores e Publicações D. Quixote) tendo eu alertado o autor da imprecisão. Nunca soube se recebeu a missiva.

Do Alf Comando João Uloma guardo uma placa dos Comandos Africanos, oferecida, não sei porque razão especial, já no final da minha estada no seu Chão. Recordo ter havido alguém que lhe pediu o crachat de Comando o que ele recusou afirmando que "aquele era dele até à morte"... Premonição...

Sobre a sua morte poderei afirmar que não foi fuzilado, mas sim morto por espancamento, à paulada, creio que em Brá, para onde teria sido convocado para ser integrado no novo exército (2).

De felupes ao serviço das NT, em número relativamente reduzido, tanto quanto me foi referido posteriormente por um militar guinéu do Pel [Caç Nat] 60, não teria havido mais desaparecidos, já que a grande maioria e após lhe terem sido retiradas as armas optou por se refugiar na região do Casamance (Senegal) ou voltar à vida civil embora com uma ameaça velada ("tropa tira arma mas fica com arco e flecha, para lutar contra bandido"). Tal terá sido a sorte que coube ao primeiro comissário político dos novos senhores que apareceu na zona, ser morto e corpo sem cabeça (degolado ritualmente com a curta faca felupe?) para não voltar a nascer noutra qualquer tabanca.

Se os meus editores me permitem, nesta faca de dois gumes, ficaria por aqui e não virava o gume para a outra face pois poderia ferir susceptilidades de alguns, de ambos os lados, que, com as suas tomadas de posição e demonstrações de poder, em nada honraram os militares que nasceram, passaram, lutaram e ficaram naquele território.

Penso voltar ao assunto.

Por hoje

Kassumai

Luis Fonseca
ex-Fur Mil Trms CCAV 3366

2. Comentário de L.G., em resposta ao Luís Fonseca:

Luís Fonseca:

É um notável texto teu, assertivo, objectivo, que ajuda a compreender melhor o comportamento do João Uloma ao serviço das NT... (Conheci-o, superficialmente, nos comandos, em Fá) (3).... Não o vou publicar já, sobretudo por causa da foto do comandante do PAIGC, degolado... Por estarmos na altura do Natal, e isso poder ferir algumas pessoas mais sensíveis... Fá-lo-emos a seguir, ao Natal...

A ti, peço-te que entretanto completes o texto... Sei que não queres ferir susceptibilidades, de um lado e de outro... Mas, bolas, tu podes falar de cátedra, como ninguém, porque conheceste o João e os felupes, os seus costumes, o seu chão... Se deixas o dossiê inacabado, é pior...

Passados estes anos todos, temos o direito à verdade... No meu tempo, o João cortava cabeças, com o beneplácito (?) dos seus superiores hierárquicos... Ele estava nos comandos africanos e havia a cultura do ronco... Temos de perceber tudo isto: havia homens, muito perturbados, nos comandos, com comportamentos patogénicos... Não estou sugerir nomes...E evito julgá-os. Hoje quero compreendê-los...

Luís: Connosco estás à vontade, não há tabus... Peço-.te, portanto, que não deixes o assunto "para melhor oportunidade", o que na nossa terra equivale a dizer "para as calendas gregas" ou para o Dia de São Nunca... Aqui não conhecemos amigos e protegidos... Mas, claro, tens sempre o direito de omitir nomes... Boas Festas. Kassumai.

Luís Graça

PS - Luís, não chegaste a receber o livro do pai do Pepito sobre os costumes jurídicos do felupes, pois não?! Creio que o Pepito enganou-se no nome, e em vez de mandar para ti, mandou para um outro gajo que ainda não descobri quem é... e que se antecipou a ti.

____________

Notas de L.G.:

(1) Vd. último post da série > 25 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2215: Cusa di nos terra (11): Suzana, Chão Felupe - Parte VI: Princípio e fim de vida (Luís Fonseca)

(2) Vd. post de 23 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCLXXXIV: Lista dos comandos africanos (1ª, 2ª e 3ª CCmds) executados pelo PAIGC (João Parreira

(3) Vd. post de 11 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - CIII: Comandos africanos: do Pilão a Conacri (Luís Graça)

Things you can do from here:

domingo, 27 de janeiro de 2008

Guiné 63/74 - P2429: Lançamento do meu/nosso livro: 6 de Março de 2008, na S...

Sent to you by Rui Moio via Google Reader:

via Luís Graça & Camaradas da Guiné by Luís Graça on 1/10/08
Lisboa > Círculo de Leitores > Capa do livro do Mário Beja Santos, Diário da Guiné 1968-1969: Na Terra dos Soncó. Ainda no prelo, irá ser lançado em 6 de Março de 2008, na Sociedade de Geografia de Lisboa.

Foto: Círculo de Leitores (2008). (Gentileza da Dra Isabel Mafra, da Editora Temas e Debates)



1. Mensagem do nosso camarada e amigo Beja Santos, com data de 9 de Janeiro:

Luís e tertulianos:

Reuni hoje com a Drª Guilhermina Gomes, do Círculo de Leitores e Temas e Debates, para saber da data de lançamento do primeiro livro. Está confirmada a data para 6 de Março, pelas 18:30 horas, na Sala Algarve, da Sociedade de Geografia de Lisboa, Rua Portas de Santo Antão, 100 (edifício do Coliseu dos Recreios) (1).

Os apresentadores serão o General Lemos Pires (2) e o escritor Mário de Carvalho (3).

Venho pedir com veemência a presença de todos, a despeito de se tratar de dia de semana. Este livro nasceu neste blogue e pertence a todos. As receitas de uma das suas edições reverterá para uma obra que os tertulianos designarão, a seu tempo.

Gostava igualmente de saber se a malta pretende reunir num convívio, nesta tarde e nestas instalações, pois nessa circunstância temos que pedir a competente autorização à Direcção da Sociedade de Geografia.

Um abraço do Mário Beja Santos

_______________________

Notas de L.G.:

(1) É um belíssimo sítio - do ponto de vista cultural, histórico, institucional e... gastronómico - para o lançamento dum livro sobre a guerra colonial/guerra do ultramar e para um encontro tertuliano.

Segundo a Wikipédia portuguesa, a Sociedade de Geografia de Lisboa é "uma sociedade científica criada em Lisboano ano de 1875 com o objectivo de em Portugal promover e auxiliar o estudo e progresso das ciências geográficas e correlativas. A Sociedade foi criada no contexto do movimento europeu de exploração e colonização, dando na sua actividade, desde o início, particular ênfase à exploração do continente africano".

(2) Mário Lemos Pires, nascido em 1930, é mais conhecido da opinião pública como o último governador militar de Timor (18 de Novembro de 1974 a 27 de Novembro de 1975). Autor de Descolonização de Timor: Missão Impossível ? (Lisboa: Dom Quixote. 1994).

(3) Mário Carvalho é hoje considerado como um dos maiores escritores portugueses. Na página da Editorial Caminho, pode ler-se o seguinte:

Mário de Carvalho nasceu em Lisboa, em 1944. Licenciou-se em Direito, em 1969. O serviço militar foi interrompido por prisão em Caxias e, posteriormente, em Peniche, por actividade política contra a ditadura, ainda nos tempos de estudante. Mais tarde exilou-se em França e na Suécia. Regressa após o 25 de Abril de 1974. Dominando soberbamente a língua, o estilo de Mário de Carvalho não se reconhece em nenhuma escola, e o seu registo é ao mesmo tempo de uma grande modernidade. A crítica aponta-o unanimemente como um dos mestres do romance português contemporâneo. Vários dos seus livros foram traduzidos no estrangeiro: A Paixão do Conde de Fróis, Os Alferes, Era Bom que Trocássemos umas Ideias sobre o Assunto, Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde.Vencedor, em 2004, do Grande Prémio de Literatura ITF/DST. (...)

(4) A sugestão de Beja Santos muito nos honra e iremos fazer tudo para que este dia seja uma festa e uma grande oportunidade de convívio tertuliano da malta do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Aliás, já o tínhamos dito há seis meses, atrás... Vd. post de 27 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P2002: Blogoterapia (29): O Mário escreve com a mesma teimosia, perseverança, paixão e coragem com que ia a Mato Cão (Luís Graça)

(...) É claro que vamos fazer uma festa... Até já há sugestões: 3º encontro da tertúlia e almoço na Sociedade de Geografia (um sítio central e simbólico), em Lisboa, e depois, às 18h, lançamento do livro, com direito a.. um bom espumante português (que os temos até melhores que o champanhe francês!)...
O Mário Beja Santos já tem três livros publicados no Círculo de Leitores, de temática relacionada com o consumo e os direitos dos consumidores...Espero com isso que ele nos abra a porta, do Círculo de Leitores, para outras iniciativas editoriais nossas... O Mário faz questão de fazer reverter uma parte dos direitos de autor para o funcionamento do nosso blogue e para apoio a iniciativas nossas na área da cooperação e ajuda com a Guiné (Não aceito que ele prescinda da totalidade dos direitos de autor!) (...).

Things you can do from here:

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

0862 - O CONFRONTO DO OLHAR

INTRODUÇÃO- - 9- - António Luís Ferronha- - Notas- - 26- - Bibliografia- - 27

1. encontro origem etimológica

Entraldo FONTE 12 ( ENTRALDO - pág. (373))
origem etimológica da palavra encontro :
" sentir que o outro está contra mim "
encontro —> nome de uma ave brasileira que também é conhecida por soldado
latim —> incontra = em contra

2. Modos principais do encontro e da relação :

FONTE - PÁG 12 pág (461 - 462). Modos principais do encontro e da relação :
- relação de objectividade - o outro vai ser para mim um objecto
- relação de personalidade - o outro vai ser uma pessoa
- relação de proximidade - o outro vai ser um próximo, se me corresponde

3. Distinção entre pág

Percepção do outro - é imediata e irredutível
- conhecimento do outro - é mais lenta e implica falibilidade

4. prefácio de Alfredo Margarido Margarido

FONTE PÁG 13 PÁG 13 - " o corte epistemológico dos séculos XV e XVI introduz a diversidade do outro - uma problemática que as sociedades europeias ainda não conseguiramm nem integrar nem superar "

5. alteridade - duplo movimento

Esse encontro foi marcado por esta ambiguidade: alteridade humana é simultaneamente revelada e recusada. As navegações ibéricas simbolizam este duplo movimento . os outros interiores (Judeus, árabes, berberes) são repudiados e expulsos e «descobre-se » o outro exterior ( africano, ameríndi, asiático). A unidade destes dois movimentos está na propagação da fé cristã. Pág. 13

6. expansão - segunda fase

A partir do segundo quartel do século xv~ e já noutro espaço atlântico (para alem de Cabo Verde e dos rios Gâmhia e Senegal), que se estabelece o contacto através do comércio; organizou-se o «cruzeiro», em nome do crescimento, esse Deus escondido da sociedade ocidental, um deus cruel, exigindo sacrifícios humanos, com a sua liturgia contraditória - o lucro e a fé. Pág. 19

7. expansão -primeiros livros impressos - causas

Curioso é oue os livros impressos em Portugal- até à primeirametade do Século XVI relacionam as navegaçoes com a cruzada, a conquista e a procura do Preste João (O paraíso terrestre) falam sobre as actividades mercantilistas, como se estas fossem apenas secundárias, os «suportes» dos outros aspectos fundamentais da sociedade que ainda tem muito de medieval. a glória, dentro de um imaginário cristão - os portugueses estão no mundo para realizar a cidade de Deus, Tommé Pires di-lo em substância. Pág. 21

8. cultura diferenças entre oriente - ocidente Boubou Hama

No Fundo, o encontro dos povos teve que esperar cinco séculos pela evocação feita pelo africano Boubou Hama no seu livro Le Retard de l'Afrique (ed. Présence Africaine, 1972, p. 163):
«.Até aqui," escreve ele, «conheceram-se dois homens, isto é, oespiritual, o da India antiga, materialista, o da civilização técnica ocidental. Será que as sabedorias africanas podem realizar a síntese entre esta manipulação da materia e esta cultura do espírito? Na perspectiva africana, o universo inteiro eslá concebido como um campo de forças, quer se trate das forças da natureza, dos antepassados ou do próprio homem. Por exemplo, o laço que une o africano à sua terra é qualquer coisa bem diferenle do que concerne a um dirreito ; esta dependencia tem uma significação biológica e quase metafísica, ele idenlifica-se com esta terra, faz parte dela como ela faz parte dele, em qualquer caso, pertencem ao mesmo campo de forças." Pág. 25

CAPÍTULO I- - Breves considerações sobre o outro na cartografia portuguesa- - 31- - Luís de Albuquerque

CAPÍTULO 11- - Nota introdutória aos capítulos 11 e 111- - 41
- - A imagem do Africano pelos portugueses antes dos contactos- - 43- - José da Silva Horta- - Notas- - 65- - Bibliografia- - 70

9. antes da expansão - código referencial no qual se valorizam ou desvalorizam os povos extra-europeus

primeiro tópico - esteriótipos directamente associados à côr negra e ao africano - negro ; noutro momento - em articulação com o primeiro - as categorias mais englobantres da iagem dos povos não ocidental-cristãos em que o Africano se integra. Escolhendo o campo religioso como núcleo dessa imagem, veremos como as categorias - Cristão, Mouro, Gentio, etc - aparecem articuladas e hierarquizadaas,compondo assim uma classificação antropológica, que será, a posteriori, largamente utilizada na caracterização dos povos, nãosó africanos como ameríndios e asiáticos, com que a expansão europeia dos séculos XV e XVI se viu confrontada Pág. 44

10. negro imagem negativa antes do século XV DEVISSE, 1979

1. Nas fontes portuguesas confirma-se o grande peso negativo para a imagem do Africano do século XIV e inícios do século XV dos esteriótipos de origem medieval anterior, assopciados à cor negra e ao negro (2)
(2) - l' image des noirs dans l'art occidental

11. cor negra associada a desgraçado

Nas Cantigas de Santa Maria, uma obra de meados do século XIII, o adjectivo negral é mesmo sinónimo de desgraçado..A cor negra é também cor do castigo dos maus ou pecadores por oposição à cor branca, da recompensa dos bons, como no Boosco Deleitoso (4). A contraposição branco/negro de sentidos respectivamente positivo e negativo não representa em si qualquer preconceito de tipo racial, mas é tão-só o rcsultado do sistema de cores próprio do código cultural. Pág. 45

12. cor negra - diabo

O diabo intervém sob a forma animal - cavalo negro, ave de cabeça negra, etc. - e principalmente sob a forma humana ou semelhante. Toma a aparência de uma criança negra no Espelho dos Reis de Álvaro Pais, em duas situações Semelhanles: no capílulo sobre as tentações: «E de S. Marlinho se lê que o diabo amiUde lhe apareceu em forma humana. Semelhavelmente se Ia de S. António a quem apareceu na forma de um menino negro e na forma de diversas alimárias.»Pág. 45

13. negro associado a africano e mouro Courteaux

o Negro aparece frequentemente «camuflado» sob as designações rnais abrangentes de Africano e Mouro que são frequentemente sinónimas, como observa Courteaux:
«O termo Mouros designa os Muçulmanos em geral e no caso da Peninsula iberica recobre duas realidades: os Muçulmanos Negros e os Muçulmanos Brancos sem que seja feita distinção de cor quando se trata do povo., (23) Pág. 51

14. guerreiros de Guynoia

Na cronística portuguesa, tal como na sua antecedente castelhana, é possível isolar um dos tipos mais correntes de mouro negro: o guerreiro negro. Na Crónica Geral de Espanha de 1344, para além de serem designados sob a categoria global de mouros, de diversos povos africanos que integram os exércitos muçulmanos - inclusive guerreiros de «Guynoia» (i.e., Guiné) -, nas armas do rei de Aragão que aí são descritas, têm lugar «(quatro cabeças de mouros negros que vencera em uma batalha» (25): rnenção de um tipo de representação heráltica do negro corrente na epoca. Pág. 51

15. negro associado ao capo religioso

Nos primeiros olhares dos séculos xv c XVl sobre o Africano e no caso de classificações genéricas como a do campo religioso sobre a globalidade dos povos extra-europeus, estará bem presente uma herança cultural, que em parte foi retratada nas páginas antecedentes. O peso do código referencial faz-se sentir na representação do Outro,mas vai sofrendo, progressivamente, as modificações e adequações resultantes do confronto com o rea1. Pág. 64

CAPÍTULO III- - Primeiros olhares sobre o Africano do Sara Ocidental à Serra
- - Leoa (meados do século XV-inícios do século XVI- - 73- - José da Silva Horta- - Notas- - 121- - Bibliografia- - 125

16. expansão - as cinco razões Zurara

«Capftulo VII - No qual sc mostram cinco razõcs por quc o Senhor lnfantc foi movido dc musdar buscar as tcrras dc Guiné. As cinco razões porque o Infante D. Henrique foi movido em mandar buscar as terras da guiné in crónica dos feitos da Guiné de Gomes Eanes de Xurara. Pág. 73-74

17. primeiros encontros com habitantes do deserto além do Bojador Zurara

Como Afonso Gonçalves Baldaia chegou ao Rio do Ouro - na Crónica dos feitos da Guiné de Gomes Eanes de Zurara~pág. 74-75

18. primeiros cativos Zurara -- Antáo Gonçalves

cap XII Crónica dos feitos da Guiné de Zurara Pág. 77

19. Nuno Tristão mata um mouro numa arremetida no interior litoral Zurara Pág. 78-79

20. dificuldades linguísticas Zurara
depois de passadas as fronteiras mouras

21. venda da primeira leva de escravos em Lagos Zurara
« o Infante era ali, em cima de um poderoso cavalo, acompanhado de suas gentes, repartindo suas gentes, repartindo suas mercês como homem que de sua parte queria fazer pequeno tesouro. Porque de 46 almas que aconteceram no seu quinto, ui reve fez deles sua partilha, pois toda a sua principal riqueza estava em sua vontade, considerando com grande prazer na salvação daquelas almas que antes eram perdidas. E certamente que seu pensamento não era vão, pois como já dissemos, logo que haviam conhecimento da linguagem, com pequeno movimento se tornavam cristãos.
« E eu, que esta história ajuntei em este volume, vi, na vila de Lagos, moços e moças, filhos e netos destes, nados em esta terra, tão bons e tão verdadeiros cristãos como se descendessem do começo da lei de Cristo, por geração, daqueles que primeiro foram bbaptizados.» Pág. 81

22. sobrevalorização da alma sobre o corpo como estratégia de justificação da escravatura Zurara Pág. 82-83

A «perdição » das almas é mais importante do que aprópria conservação da vida « corporal ». Na representação da religião, uma hierarquia é estabelecida entre o mouro do Norte ( de aquém-Bojador e Península) e o «novo» mouro árabo-berbere capturado ou resgatado nas costas sarianas, este isento da caracterização psicológica negativa tradicionalmente presente na imagem cristã-peninsular dos Muçulmanos, em particular a renitência na sua Fé. O mouro negro é ainda aquele que goza de um melhor posicionaento : a sua ligação à linhagem dos gentios assegura ua conversão mais fácil ao cristianismo. Pág. 83

23. capacidade de defesa dos guinéus Zurara
A capacidade de defesa demonstrada pelos guinéus, que conduz ao reconhecimento da sua superioridade nesse campo, reafirma-se como o traço mais marcante das representações: ao «artifício» do trabalho de curtir, da carpintaria e da cordoaria, junta-se o «artifício» das suas armas. Não obstando a uma certa lógica da economia da escrita, o cronista não deixa de registar, mesmo que de passagem, estes e outros sinais de descontinuidade com o viver bestial dos povos do deserto. É paradigmática a narrativa de uma incursão nas margens do rio Gâmbia, em 1446, com resultados desastrosos para os portugueses:Pág. 94

24. Nuno Tristão - morte Zurara Pág. 94

25. negro - primeira imagem associada a gentio
Neste primeiro retrato do africano, ser negro não acarreta uma desvalorização global do Homem, deetectável noutros níveis de representação; é antes saliente a conotação positiva da cor negra no horizonte religioso, pela associação à categoria de Gentio. O próprio tópico bíblico da maldição da geração de Cam ( ver o extracto do capítulo XVI - cuja interpretação medieval terá uma longevidade assinalável na legitimação da escravatura do Africano - não tem sequência no discurso para a globalidade dos negros : « homens muito fortes e artificiosos em sua defesa », os guinéus são caracterizados ais poderosos que os mouros do Sara, não se lhes submetendo. Pág. 95

26. Cadamosto - viagem de Pedro de Sintra e Diogo Goes Cadamosto
Desta nova fase de relacionamento com os africanos (a partir de 1448), repercutida nas representações, são testemunho presencial - entre outros - os relatos do veneziano Alvise da Cà da Mosto (vulgo Luís de Cadamosto) - que inclui uma narrativa das viagens de Pedro de Sintra - e de Diogo Gomes (35). pág. 96

27. Cadamosto descreve a chegada dos portugueses às terras do Senegal Cadamosto Pág. 96-97

28. negros - asseio Cadamosto
« As mulhers desta região são muito asseadas de corpo, pois se lavam completamentee, quatro ou cinco vezes ao dia; e, assim, também os homens, as no comer são porcalhões, e sem nenhuma educação.São pessoas muito simples e rudes nas coisas dee que não têm prática ( que são uitas ) ; mas naqueelas em que são práticos, sabem tanto como qualquer de nós. São homens de muitas palavras, e nunca acabam de falar ; e, são todos, sempre, mentirosos e enganadores, em extremo ; por outro lado, são caritativos, porque dão de comer e de beber a qualquer estrangeiro que, de passagem, chegue a sua casa por uma refeição ou por uma noite, sem qualquer remuneração» Pág. 100

29. mercado wolof- descrição Cadamosto Pág. 104

30. recepção de Cadamosto pelo rei Kaloor (1455) Cadamosto Pág. 105

31. ilha de Arguim Cadamosto Pág. 110

32. Mandingas Cadamosto Pág. 111

33. mercado Banhiiis Cadamosto
entre o rio Cacheu e Casamansa, Pág. 113

34. Mandingas - caracterização psicológica Duarte Pacheco Peerira
« E a gente desta terra toda fala a língua dos Mandingas, e são macometas que guardam a lei ou seita de Mafoma; são vestidos de camisas de algodão azuis, e ceroulas do mesmo pano. São gente de muitos vícios, têm as mulheres que querem, e a luxúria entre eles tolalmente é comum, são muito grandes ladrões, bêbados e mentirosos e ingratos; e todos os males que há-de ter um mau, eles o têm.. (69)Pág. 116

35. comparação entre negro e indio quanto às causas da cor da pele Duarte Pacheco Pereira
« Muitos antigos disseram que, se alguma terra estivessee oriente e ocidente com outra teerra, que ambasteriam o grau do Sol igualmente e tudo seria de uma qualidade. E quanto à igualeza do Sol é verdade ; mas como quer que a ajestade da grande natureza usa de grande variedadee, em sua ordem, no criar e gerar das cousas, achámos, por experiência, que os homens dest promontório de Lopo Gonçalves ( 75) e toda a outra terra de Guiné são assaz negros, e as outras gentes que jazem além mar oceano ao ocidente ( que tem o grau do Sol por igual, como os Negros da dita Guiné) são pardos quási brancos ; e estas são as gentes que habitam na terra do Bbrasil, de que no segundo capítulo do primeiro livro fizemos enção. E que algum queira dizer que estes são guardados da quentura do Sol, por nesta região haver muitos arvoredos que lhe fazem sombra, e que, por isso, são quási alvos, digo que se muitas árvores nesta terra há, que tantas e mais, tão espessas, há nesta parte oriental d' aquém do oceano da Guiné. E se disserem que estes d' aqu'em são negros porque andam nus e os outros são brancos porque andam vestidos, tanto privilégio deu a natureza a uns como a outros, porque todos andammm segundo nascera ; Assim que podemos dizer que o Solnão faz mais impressão a uns que a outros. E agora é para saber se todos são da geração de Adão. » Pág. 119-120

CAPÍTULO IV- - Quando o sagrado se manifesta - as brancas imagens- - 129- - Antônio Luís Ferronha- - Notas- - 148- - Bibliografia- - 150

36. africanos proveta ou turgimãos Zurara Pág. 129

37. recepção cordial nos primeiros contactos André Álvares d'Almada Pág. 130

38. chegada dos portugueses a M' pinda - tradição oral Bernardo de Gallo - missionário italiano Pág. 135

39. chegada dos portugueses a Luanda - vumbi Haveau - citado por Randles pág. 135

40. Fernão Veloso Damião de Góis - crónica de D. Manuel
A incompreensão da cultura do outro funcionou nos primeiros encontros de forma negativa. Tal aconteceu na Africa do Sul, como nos relara àlvaro Velho na sua Viagem de Vasco da Gama. Os povos africanos convidaram os portugueses para ua refição. Acto que naqueelas paragens significa bom acolhimento e amizade. Quando os nautas de Vasco da Gama que desembarcaram viram a comida, recusaram-na, o que originou um conflito.
« ... Com esta familiaridade um homem honrado por nome Fernão Veloso deseejou de m companhia de alguns deste negros, a que se já fizera familiar, ir ver suas habitações, e modo que tinhamm eem suas casas, e por isso houve de Vasco da Gama, os quais mostrarão nisso contentamento o levarem consigo, e de caminho tomarão um lobo matinho com o que o festejare, e como nem a Fernão Veloso, acabado o banquete começou a caminho para onde as naus estavam. Os negros que por ventura faziam conta de o trazerem consigo mais tempo para o festejarm a seeu modo vendo-o a tornar tão de súbito, se vieram com ele até à praia, mandando aos modos da aldeia que os seguissem com suas armas, que são dardos ee azagaias, guarnecidos nos cabos de ossos, e pontas de cornos de alimárias ... (26) Pág. 147
CAPìTULO V- - O encontro de Portugal com a Ásia no século XVI- - 155- - Rui Loureiro- - Notas- - 208

41.Chegada a Calecute - mouros de Tunes de lingua castelhana Àlvaro Velho PÁG. 155

42.
incapacidade de compreender o outro civilizacional -Vasco da Gama confunde igreja hindu com igreja cristã Àlvaro Velho Pág. 157

43. Piloto anónimo - armada Pedro Álvares Cabral - costumes do povo de Calecute Pág. 159

44. destruição da feitoria de Calecute Piloto Anónimo Pág. 162

45. encontro com o povo cingalês Gaspar Correia - Lendas da India
Chegada da frota portuguesa em 1506 comandada por D. Lourenço de Almeida filho de D. Frnacisco de Almeida vice-rei da India, Pág. 170

46. conquista de Goa Brás de Albuquerque Pág, 173

47. Uma crónica cingalesa da época, o Rajavali, relata a chegada da frota portuguesa a Ceilão. Cipolla, 1967
« Sucedeu que um navio procedeente de Portugal cheegou a Colombo, sendo o rei informado de que havia no porto uma raça de gentes brancas e formosas, que usam botas e chapéeus de ferro, e nunca se detem em parte alguma. Comem uma espéecie de pedra brnaca e bebbem sangue. Se se lhes oferece um peeixe, dão por ele dois ou três ridé de ouro. Possuem, além disso, canhões que produzem um ruído semlhante ao trovão. Uma bala disparada por qualquer deles, deepois de percorrer uma légua, é capaz de destruir um castelo de mármore.» (24) Pág. 172

48. casamentos mistos de Albuquerque Cartas de ALBUQUERQUE
Após a conquista de Goa, logo casou soldados seus com « algumas mouras, mulheres alvas e dee bom parecer» que tinham sido capturadas na cidade Pág. 175

49. casamentos mistos
por volta de 1524, como escrevia um nobre português de Goa eram « todos ou a mor parte casados com negras que levam à igreja com cabelo mmui untado» (37)

50. conhecimento do oriente Duarte Barbosa - livro das Cousas do Oriente -
« no seu discurso são raros os termos depreciativos, quer dirigidos aos gentios quer mesmo aos mouros » foi feitor de Cananor (32)

51. conhecimento do oriente Tomé Pires - Suma Oriental
foi boticário e feitor das drogas em Malaca Pág. 179

52. descrição dos habitantes do Pegu Tomé Pires
Tb Duarte Barbosa o fez Pág. 180

53. atitude euricêntrica Tomé Pires
A atitude dominante de Tomé Pires face ao outro é, clara e maioritariamente, eurocêntrica ; os valores do outro são frequenteemente desvalorizados, apenas pelo facto de serem difeerentes. De uma forma geenérica, o autor da Suma apenas eencara positivamente os traços do mundo do outro que encontram oaralelo na realidade europeia. Pág. 181

54. conhecimento do oriente Domingos Pais - a descrição de Bisnagar ou Narsinga Pág. 185

55. conhecimento do oriente Diogo Lopes de Sequeira
Lembrança de algumas cousas de Bengala falava persa e tv árabe Pág. 186

56. descrição dos habitantes da ilha de Socotorá
D. João de Castro, 1541 Pág. 188

57. descrição dos habitantes de Ceilão
carta do padre Manuel de Morais Senior em Colombo, 1552 descreve os habitantes de Ceilão Pág. 189

58. perseguição aos hindus e budistas
Com o estabelecimento dos jesuítas e da inquisição, e como reflexo do aumento do fanatismo reliogioso na Europa, o ódio voltou-se para os hindus e budistas na àsia portuguesa, como se manifestara antes contra os maometanos. Pág. 191

59. descrição dos habitantes de Java Fernão Lopes de Castanheda Pág. 195

60. descrição dos habitantes de Ormuz Damião de Góis
abertura ao outro por parte de Damião de Góis, Pág. 196

61. chegada dos portugueses ao Japão O Livro das espingardas, 1606
Crónica japonesa, escrita por um monge budista Pág. 197

62. descrição do Japão Jorge Álvares
inserto na colectânea de 1548 O Livro das cousas da India e do Japão - o trabalho foi feito a pedido do padre Francisco Xavier Pág. 199

63. descrição da China Frei Gaspar da Cruz, 1570
Tratado das cousas da China publicado em Évora Pág. 201

64. caracterização do povo chinês Gaspar da Cruz, 1570
Tratado das cousas da China publicado em Évora Pág.203

65. RRR - formas do encontro - religiosidade -hostilidade para com os muçulmanos, 61. intolerância progressiva para com os denominados gentios Pág. 206

66. brancura da pele
no que respeita à raça, é muito clara a valorização atribuída nos textos portugueses à brancura da pele. Os portugueses tinham sem dúvida preconceitos para com os povos de pele mais escura Pág. 207

CAPÍTULO VI - - O encontro inesperado
Parte I: As primeiras imagens do Brasil- - 215- - António Luís Ferronha- - Notas- - 252- - Bibliografia- - 256

67. funções do chefe indio R. Lowie
um fazedor de paz ; ser generoso com os seus bens ; tem que ser um bom orador Pág. 228

68. alteridade - Brasil
Numa tipologia das relações, entre portugueses e ameríndios, os suportes da problemática da alteralidade podem sintetizar-se da seguinte maneira :
1. através de um julgamento dee valor : o suporte axiológico. Para os portugueses, o outro é bom ou mmau, etc, ;
2. o contacto pressupóe uma aproximação e simultâneamente um distanciammento ( quando a permanência se metamorfoseeia na exploração das riquezas materiais ) : o suporte praxiológico ;
3. finalmente, quando esta presença implica conhecimento ( estuda-se a língua tupi, comparandio-a ao grego ou à biscainha para melhor evangelizar, conhecer os costumes ) ; ou ignora-se a identidade do outro ( quando se afirma que não têm religião, ou desconheceem a agricultura) : suporte epistémmico. Pág. 251
Parte II: A visão do índio brasileiro nos tratados portugueses de finais do século xvi- - 259- - Rui Loureiro- - Bibliografia- - 284

69. tratados sobre as gentes do Brasil - último quartel do século XVI
Pêro de Magalhâes de Gândaro - História da Provincia de Santa Cruz, 1576
Fernão Cardim - tratados, c. 1585
Francisco Soares Padre - coisas notáveis do Brasil, 1590

70. resumo - História da Provincia de Santa Cruz Pêro de Magalhâes de Gândaro
é composta por três núcleos informativos distintos : materiais sobre a geografia do Brasil, núcleo quantitativamente dominante, relação de acontecieentos da história recente da colónia e descrições de carácter antropológico sobre o indio brasileiro Pág. 260

71. assimilação linguística inversa - lingua tupi Fernão Cardim
«Em toda esta província há muitas e várias nações de diferentes línguas. Porem, uma é a principal, que compreende algumas dez nações de indios: estes vivem na costa do mar e em uma grande corda do sertão. Porém, são todos estes de uma só língua, ainda que em algumas palavras discrepam, e esta é a que entendem os Portugueses. É fácil e elegante e suave e copiosa: a dificuldade dela está em ter muitas composições (comparações). Porém, dos portugueses, quase todos os que vêm do Reino e estão cá de assento e comunicação com os indios a sabem em breve lempo, e os filhos dos portugueses cá nascidos a sabem melhor que os portugueses, assim homens como mulheres» (Do Princípio, PP. 194--195.)Pág. 265

72. lingua tupi Francisco Soares
«É a sua língua muito copiosa, e não há coisa a que não tenham posto nomc, como dc crvas, árvorcs, ctc. Sua composição discrepa pouco da latina e regras» (Coisas, (2) p. 150.) Pág. 269

CAPÍTULO VII- - A lconografia do encontro- - 289- - António Luís Ferronha- - Notas- - 303- - Bibliografia- - 305

73. negros em Portugal Münzer
Os africanos estavam espalhados por Porlugal e no dia-a-dia traziam para a Sociedade portugucsa da altura aspectos da sua cultura. Jerónimo Münzer (Itenerarium, 1484-94) refere quenuma visita a uma grande ferraria com muitos fornos, ondee se fazem âncoras colubrinas e outras coisas respeitantes ao mar, eram tantos os trabalhadorees negros junto dos fornos que nos poderíaos supor entre os ciclopes no centro do vulcão». Pág. 296

74. expansão para Africa - primeira fase
durante breves instantes o ocidente toma África em plena consideração, admite a difeerença de cor. Recordemos que àfrica neste período não foi penetrada, mas simplesmente contornada. Pág. 297

75. marfim lavrado Pina
Rui de Pina na sua Crónica a D. João II, com relação ao Congo (p. I59), afirma :
«O presente do dito rei do Congo para El-Rei, era dentes dee alifantes e coisas de marfim lavradas, e muitos panos de palma bem tecidos ee com finas cores.P+ag. 301

76. Mayaka - arte africana
Os Mayaka, principais vítimas desse tráfico na rcgião dc Angola, começam a identificar na sua artc o escravo, o aristocrata, o colono e o padre como figuras da história, ganhando cstas um humor crítico. E vão fixar o lado grotesco dos tipos sociais, em particular os chefes administrativos europeus e os seeus auxiliares africanos, etc. O mesmo acontecendo à cultura ambaquista de crítica e retrato social e à songo, também retratando o colono. Pág. 302

CONCLUSÃO- - 307- - António Luís Ferronha
Conclusão

77. História assocciada a migrações e colonizações
A História não é mais do que a História de sucessivas migrações e colonizações. O Mar foi para os portugueses essa grande estrada de comunicação / contaminação cultural, eso para os que, como Spengler, defendem que as culturas são incomunicáveis de comunicação/contaminação cultural, mesmo para os que, corno Spengler, defendem que as culturas são incomunicáveis.
Mas a História ultrapassou o Mar e obrigou os portugueses a abandonarem o lastro do seu passado, enquanto imposto aos outros.
Como Portugal, acabámos a nossa aventura neste puzzle que não tivemos a vcleidade dc completar. Viajámos com os navegadores de antanho, saltámos de olhar para olhar numa metamorfose biológica/ /civilizacional, esse grande arco-íris cultural do tempo do primeiro encontro. Tivemos os mesmos anseios, desilusões e abandonos no barco, mas também aqui e ali o gozo de espreitar no buraco da fechadura da História os personagens dessa época.
Convidámo-lo a viajar, a meditar, a criticar este caleidoscópio de ideias, para ver melhor, para construir o presente em função do futuro e não como uma secreção do passado, que deve ser a nossa grande lição.

78. educação - o que deve ser Valéry
O essencial da educação é a do «espírito»... é preparar o homem para ser o que ele nunca foi, como dizia Paul Valéry.