quarta-feira, 23 de abril de 2008

Entrevista ao Inspector da PIDE Óscar Cardoso

Entrevista ao Inspector Óscar Cardoso sobre o General Humberto Delgado

Rui Ramos, *Haverá sangue?*, hoje no *Público*. Extractos:

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via Da Literatura de Eduardo Pitta em 23/04/08

Rui Ramos, Haverá sangue?, hoje no Público. Extractos:


«Afinal, não foi preciso a bomba. Menezes foi-se embora. Disse ele que por causa da "guerra interna". E nós, curiosamente, acreditamos: não no motivo da saída, mas na guerra que eles, no PSD, dizem fazer uns aos outros. Mas alguém viu sangue?

Que eles não gostam uns dos outros é óbvio. Que tentam limitar-se e inutilizar-se uns aos outros também. Mas onde estão os confrontos em órgãos directivos, como na última transição do CDS? Os deputados expulsos, como no PCP? Os candidatos dissidentes, como aconteceu ao PS nas presidenciais e em Lisboa? Ou as grandes cisões, como no tempo de Sá Carneiro? Por enquanto, a actual "guerra interna" no PSD arde sem se ver, como o fogo de Camões. [...]

É que se os rivais de Menezes perceberam entretanto o "erro" de terem deixado Mendes perder, também Menezes percebeu o "erro" de ter ganho a Mendes. [...] A sua saída é, na prática, uma proposta de negociação. Por ele, só haverá guerra agora, se não arranjar quotas devidamente honrosas nas célebres "listas". Têm um mês para ficarem todos mais ou menos contentes. E como as querelas são sobretudo pessoais, sem nada de ideológico ou "social" (ao contrário do que gosta de imaginar a imprensa, para dar profundidade ao que a não tem), não é impossível um entendimento: tudo é uma questão de equilíbrio e bom senso.

E não, não é a interpretação que é cínica, é o PSD que é assim: uma meada de calculismos, da qual ninguém tem o fio. A pressão sobre Manuela Ferreira Leite para se candidatar revela o que procuram as gentes do PSD: ninguém espera uma Thatcher, mas uma
"federadora", uma santa da "unidade" e "pacificação", supostamente abençoada em Belém. Se Ferreira Leite se deixar propor nesses termos, o PSD terá à frente uma espécie de "presidente da mesa do congresso" glorificada, para arbitrar entre personalidades e facções. É, aliás, o que mais convém a um partido que existe sobretudo como uma federação de autarquias, naturalmente avessas a lideranças nacionais demasiado exigentes.

Ficará Santana de fora destes eventuais compromissos? Nesse caso, talvez haja algum sangue. Mas apenas o necessário para expelir um agitador diminuído. Quanto ao mais, os que desejam grandes debates, grandes líderes, grandes "diferenças" em relação ao PS devem talvez sentar-se, porque vão ter de esperar. [...] Até porque o que está em jogo em 2009, do ponto de vista da elite do partido, pode não ser suficiente para justificar uma "guerra interna" a sério.

Seja qual for o novo chefe, não faltará o entusiasmo inicial da praxe — como houve com Menezes. Os imaginativos hão-de conseguir ver Sócrates, com a ajuda da "crise", já diminuído ou até apeado — como também conseguiram ver com Menezes. Sobreviverão essas esperanças — como não sobreviveram com Menezes? Talvez não, e por duas razões. Em primeiro lugar, porque o PSD continua a tentar responder à mesma pergunta do PS (como conjugar o modelo social com a competitividade?), e condenado por isso a chegar a uma resposta mais ou menos semelhante. Ora, não podendo dizer, no fundo, que fará diferente, também não conseguirá convencer ninguém, devido ao seu passado recente, de que fará melhor. Sem uma catástrofe, Teixeira dos Santos vencerá sempre Ferreira Leite. Em segundo lugar, quanto mais credível a liderança do PSD, mais o PS poderá suscitar voto útil à esquerda. O que perder num lado ganhará no outro. Daí que, muito provavelmente, um PSD reforçado seja uma notícia pior para Louçã e Jerónimo do que para Sócrates.»

terça-feira, 22 de abril de 2008

PATRIOTISMOS - Faces do Batalhão 114 em Nambuangongo, 1961.

Enviado para você por Rui Moio através do Google Reader:

via ABRUPTO de JPP em 21/04/08
PATRIOTISMOS



Faces do Batalhão 114 em Nambuangongo, 1961.

Não tive ocasião de ver os episódios da série sobre a guerra colonial que o Joaquim Furtado fez para a RTP quando passaram originalmente. Como às vezes me acontece quando quero mesmo ver alguma coisa e não tenho tempo para a ver toda, todos os episódios, toda a série, adio para depois e acabo por não ver. Disfunções. Faltas de tempo. Pouco interessa. Tenho visto agora alguns episódios referentes ao ano de 1961 e junto-me tardiamente ao coro dos louvores sobre a qualidade e a importância da série, a primeira a mostrar o drama da guerra colonial nas suas componentes testemunhal e visual, exactamente as mais "poderosas" e as que mais faltavam no nosso conhecimento. É uma grande série documental de televisão em qualquer sítio do mundo e, no caso português, uma contribuição para a nossa autognose que não se vê com indiferença. Já é história, mas ainda não é história - é a nossa história.

Mas há mais. Ela coloca-nos perante o melhor e o pior de nós mesmos, não no passado longínquo para onde fugimos quando queremos encontrar as virtudes que faltam no presente, mas para acontecimentos, atitudes, que nos são contemporâneas, sobre as quais poderíamos também testemunhar porque aconteceram de algum modo connosco. Eu saio da visão daqueles episódios com um forte sentimento de admiração por quem nunca pensei tê-lo assim: pelos nossos soldados, por aqueles portugueses pequenos e desajeitados, com fardas bizarras e atamancadas, que poderiam parecer que estavam no filme errado e que pediam para os tirarem dali. Não, pelo contrário, estavam no filme certo, num filme trágico, mas certo.

Sem deixar de ser o que sou, e o que era, sem dúvidas existenciais sobre o meu anticolonialismo nem a minha oposição à guerra, dou por mim a ver os documentários de Joaquim Furtado e a identificar-me com aqueles soldados e oficiais portugueses que em 1961, quase sem nada, foram mandados para uma guerra para que não foram preparados, perdidos no meio das matas perante um inimigo ou invisível no meio do capim, ou demasiado visível nos seus ataques suicidas em massa, sem armas capazes, sem munições, sem comida, e que avançavam para hastear a bandeira portuguesa em meia dúzia de edifícios desventrados no meio de terras do café que lhes deveriam ser totalmente estranhas.



Está lá o colonialismo, mas não é nos soldados, é nas ridículas, então e hoje, afirmações de "portuguesismo" dos negros de Angola, a cantar uma estranha A Portuguesa, a saudar a bandeira, a servir de decoração à tardia mistificação que éramos todos portugueses quando ainda ontem éramos uns portugueses, outros indígenas: uns pretos e outros brancos. Isso é que soa a falsete e era falsete, porque em 1961 não havia negros bons a não ser na propaganda. A série de Joaquim Furtado mostra uma realidade que continuamos a esconder, é que aos massacres da UPA se seguiram massacres perpetrados pelos portugueses, pelos colonos e pela tropa, a que não escapava um racismo instrumental onde o único negro em que se podia confiar era no negro morto. Foi assim em 1961, e é um serviço para a nossa memória colectiva que se conheça como foi.

Voltemos aos soldados. Percebe-se que aqueles homens estão lá profundamente convencidos de que estão a defender uma realidade que para eles, ali em Angola, no mais estranho dos lugares, não é etérea - estavam a defender Portugal. Portugal pelo qual estão dispostos a sacrificar-se, a correr riscos e a morrer. O que os motiva é aquilo que é um dos sentimentos mais estranhos, complicados, mortíferos que há, o patriotismo. E percebe-se que estão motivados. Não é a tropa de 1970, é a tropa de 1961, os primeiros contingentes chegados a Luanda, recebidos pelos colonos desesperados e atirados no dia seguinte para as picadas do Norte.

Olhando aqueles homens, rudes, vindos de um Portugal então muito rural, desajeitados, com capacetes de aço feitos para a II Guerra Mundial, no meio das picadas, ainda tendo como obstáculos principais árvores cortadas e sem minas, os aviões e avionetas de um catálogo de velharias, vendo a face do medo que os homens corajosos têm, sentimo-los não só próximos, nossos, mas como gente que merece um reconhecimento que não lhes demos porque ficaram do lado que perdeu. Só que também nós perdemos com eles e não o queremos reconhecer. Num país à míngua de virtude e com um enorme catálogo de defeitos colectivos, lá estão aqueles homens, que mostram que somos capazes, no meio do maior deserto moral como era o Portugal de Salazar, de ter "portuguesinhos valentes", uma frase que diz imenso, tão capazes de uma heroicidade simples como a que louvamos nos de "quinhentos" e que hoje achamos perdida.

Eu olho do lado oposto. A guerra colonial também fez a minha vida, por isso não sou indiferente àquelas imagens e relatos que não o são de tempos normais, mas sim excepcionais. Ali matava-se e morria-se, não é a mesma coisa que ir trabalhar pela manhã, estudar pela tarde, ler um livro, pagar uma conta, ter um engarrafamento ou uma gripe. Aquilo é a sério e onde é que estava eu? Como é que a guerra colonial me "interpelou"?, para usar uma palavra de que os católicos gostavam nos tempos em que era preciso ter compromissos.

Como muitos jovens da minha geração que combatiam o regime de Salazar e Caetano, nunca me passou pela cabeça fazer a guerra. Sabia que, a uma determinada altura, o dilema se colocava e nunca duvidei um segundo sobre o que fazer quando tivesse que prestar serviço militar: fosse em que circunstância fosse, como refractário ou como desertor, iria para o estrangeiro ou para a "sombra" da clandestinidade. Não era sequer um dilema, era uma certeza, sobre a qual nunca hesitei. A guerra colonial não me colocava nenhum dilema, não me "interpelava", sabia o que devia fazer.

Hoje, como não há memória, pode-se pensar que este caminho que milhares de jovens da minha geração tomaram era fácil e cómodo. Não era. Também não era o medo da guerra, porque de um modo geral havia mais coragem em recusá-la do que em fazê-la, era mais um acto de vontade recusá-la do que seguir na onda da obrigação legal, mesmo que contrafeita.
A frase anterior resulta ambígua e permite críticas como a que fez Vítor Dias no Tempo das Cerejas, que são legítimas devido exactamente à frase não ter ficado clara. Não era minha intenção fazer qualquer medição de coragem que seria sempre absurda. O que eu queria dizer é que, no momento da decisão, de ir ou não, a última escolha implicava de imediato mais consequências, a começar pelo facto de se estar a cometer um acto ilegal que interrompia de imediato a possibilidade de se continuar uma vida normal . A decisão de ir era mais passiva. Não penso que neste dilema ir / desertar se possa sobrepor o par coragem / cobardia, mas penso que a decisão consciente de recusa da guerra, com todas as suas consequências, era uma decisão corajosa.

Claro que aqui há, nesta questão levantada por Vítor Dias a sobrevivência de uma polémica, que só os que padecem de memória excessiva se lembram hoje, entre o PCP e a extrema-esquerda na altura, sobre o modo como se devia actuar contra a guerra, ir ou não à tropa, ser refractário ou desertor, desertar onde e como e com quê (com as armas por exemplo).
O caminho da emigração política era complicado, implicava riscos consideráveis para se passar a fronteira, ou as fronteiras, porque havia duas antes de chegar a França, ambas perigosas. Fronteiras que se passava indocumentado, porque a maioria não era autorizada a ter passaporte quando estava em idade de cumprir o serviço militar.



Era o exacto oposto daquilo que hoje se chama uma "carreira", era um caminho de imprevisibilidades. Era, como diziam os pais sábios, "estragar a tua vida". Rompidos os laços com Portugal, que se presumiam sem retorno, o que é que se podia fazer lá fora, muitas vezes com poucos recursos e em ruptura também com a família? No Portugal do início dos anos sessenta, o "estrangeiro" era uma incógnita para um país periférico e isolado e era uma aventura ir para lá. Muitos dos que recusaram a guerra viveram com muitas dificuldades, trabalharam como contínuos, em fábricas, em restaurantes, em hotéis, em aviários, numa profusão de profissões menores e só alguns estudavam com as bolsas que eram dadas pelos países de acolhimento. É verdade que não durou muito, mas ninguém sabia que não iria durar muito. Alguns ficaram para sempre e vivem na Holanda, na França, na Suécia, na Itália, no Reino Unido. Para eles, Portugal perdeu-se de vez.

O que é que movia quem se recusava a fazer a guerra colonial? Ideologia, "anticolonialismo", ser contra Salazar, comunismo, pacifismo, objecção de consciência? De tudo um pouco, mas, bem vistas as coisas, a esta distância, é a mesma atitude que vejo nos homens de 1961 que aparecem nesta série televisiva: patriotismo. Por isso, uma natural proximidade devia envolver os homens desses dois mundos, cada um patriota a seu modo, acima de tudo na disponibilidade de viver uma vida difícil e perigosa por alguma coisa que não era individual, mas estava acima do conforto de cada um.

(Versão do Público de 19 de Abril de 2008.)

Coisas que você pode fazer a partir daqui:

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Carta de Rosa Coutinho a Agostinho Neto

O 25 de Abril por Manuel Maria Múrias

COMEMORAR A TRAIÇÃO, A VERGONHA E A COVARDIA

«As comemorações do 25 de Abril tiveram várias vantagens. Em primeiro lugar permitiram que os mais moços se apercebessem bem da infâmia; em segundo lugar porque, apesar da propaganda desenfreada, contribuíram bastante para desmistificar a vergonhosa revolução. Cada um dos seus actores dizendo enormidades, a direita ripostando valentemente. Comunistas e socialistas metendo a viola no saco durante as discussões, para irem falar sozinhos para onde os não contradizem.
Acabou-se com o mito terrorífico da P.I.D.E. O inspector Óscar Cardoso, sem receios e com orgulho, calou sobranceiramente o desgraçado do Tengarrinha e o pobre do Sousa Castro, desmentindo-os sem apelo nem agravo. A P.I.D.E. foi uma polícia como as outras, tão dura e tão bruta como as demais. Não se encontrou uma prova que negasse a valentia, o patriotismo e a honradez da maioria dos seus agentes. Durante dezenas de anos perseguiu implacavelmente os comunistas, os conspiradores, os desertores, os traficantes de droga e os proxenetas internacionais. Prendeu assassinos como o Francisco Martins Rodrigues, ladrões como o Palma Inácio, desertores como o Manuel Alegre, bombistas como João Roque. Cometeu excessos? Com certeza. Não se apurou todavia, nada de tão violento, de tão terrorífico ou de tão ordinário como foi a acção do COPCON ao longo dos anos de 74/75, nem nada que se possa compara às infâmias praticadas no Porto pela miserável Corvacho. Os tribunais que, um a um, julgaram os homens da P.I.D.E. só condenaram uma a uma pena pesada. Os outros sentenciados a alguns dias de prisão (já largamente cumpridos antes dos julgamentos) foram condenados porque uma lei com efeitos retroactivos pelo simples facto de terem pertencido à P.I.D.E. e, evidentemente defendido Portugal contra a canalha que hoje ainda nos governa.
Quanto à descolonização ficámos também conversados. Na aflição das desculpas, os abrileiros tentam desesperadamente atirar as culpas para cima de Salazar (se se tivesse descolonizado mais cedo...) ou procuram achar nos eventuais intentos descolonizadores de Marcello Caetano a prova da sua razão. Deliberadamente esquecem que antes e depois da sua descolonização todas as outras se afundaram e continuam a afundar-se no sangue e nos ódios tribais; a maioria das populações da África Negra vive ainda na Idade da Pedra; abandoná-las sozinhas a instituições estatais mais ou menos europeias, dominadas por calcinhas foi entregá-las ao genocídio, à corrupção e à inépcia infantil de uns mulatos semi-civilizados alcandorados ao poder.
Em relação ao desenvolvimento económico retrogradámos para os índices de 1962. Caminhamos com rapidez para a destruição da indústria e para o fim da agricultura. Diante de qualquer crise internacional, sem Ultramar, sem marinha mercante, sem dinheiro, crivados de dívidas, diminuída de forma catastrófica a produção nacional — corremos o risco de morrer de fome e da desordem que, inevitavelmente trará consigo a intervenção espanhola.
A ruína de Portugal é um facto atestado pela maioria dos intervenientes dos vários talk-shows com que as televisões nos ensafuaram o juízo nos últimos tempos. Desde a esquerda aparvalhada à direita amaricada, ninguém se atreveu a negar a realidade. Como girândola final, para além do ridículo da sessão solene no Largo do Carmo, explodiu a polémica entre o Spínola e o Costa Gomes insultando-se mutuamente nas páginas do «Diário de Notícias». Os marechaloides não pouparam amabalidades. Para Spínola, Costa Gomes é um traidor nato; para Costa Gomes o Spínola é um esquizofrénico. Entre a traição nata do Gomes e a esquizofrenia inata do Spínola, Portugal desgraçou-se.
De todos os personagens do 25 de Abril, Costa Gomes é, talvez, o mais complicado. Traiu — é verdade. A sua traição, todavia, é muito mais provocada pela imbecilidade e traição do Spínola do que, propriamente, pela sua vontade de trair. Gomes é levado pelas circunstâncias enquanto Spínola foge. Costa Gomes fica para não perder o lugar, mas também para evitar males maiores. Que teria sido de Portugal se Costa Gomes, como Spínola, tivesse fugido em 74 e em 75, deixando-nos entregues às fúrias epilépticas do Vasco Gonçalves e do mefás?
Guiado pela vaidade, o antigo governador da Guiné, ao contrário de Costa Gomes, embarca na primeira frioleira que lhe propõem os acólitos. Primeiro em 28 de Setembro de 1974, aceita como boa a impossível manifestação da maioria silenciosa com a qual pretendia fazer um golpe de estado; depois, em 11 de Março de 1975, estimula a sublevação dos páraquedistas aquartelados em Tancos, para depois outra vez fugir, abandonando com o rabinho entre as pernas e o monóculo no olho, quantos contavam com ele.
Nos primeiros momentos da sua efémera glorieta de 74 Spínola não parece ter-se apercebido de que não dispunha de autoridade. Ronceiro de entendimento e, por pouco, iletrado, baldo de qualquer senso moral, o generaloide do monóculo vivia ensimesmado na sua estulta fesporrência. Nem uma vez lhe relampejou na ténue cabeça poder ser desprezado pelos «rapazes» do M.F.A. Era o «maior» — segredava-lhe a presunção. Os outros eram menores — e, enquanto os comunistas se iam, apoderando dos manípulos da governação ele entretinha-se a pilotar a barca do estado, sem atentar que deixara de haver estado. Rapidamente se esvaneceram todos os vão sonhos de grandeza que acalentara na Guiné enquanto Governador da província.
Spínola, já em 1968, era considerado nos meios ultramarinistas como um sujeito ininterruptamente tonto, vaidoso como um pavão, ambicioso e perigoso por ser azoinado da cabeça. Dos secretos dinheiros da província que podia gastar sem o visto do Tribunal de Contas, dispendeu muitos milhares em propaganda pessoal, procurando impôr-se à opinião pública como um militar da estirpe de Rommel, de MacArthur, do Mousinho ou, ao menos, do Eric von Stroheim. Dizia ter lido relatórios do Mousinho e aspirava pelo seu Marracuene, pelo seu Chaimite, com a correspondente entrada triunfal em Lisboa no alto duma quadriga, coberto de loiros, o Amílcar Cabral algemado de pés e mãos como acontecera ao Gungunhana. Queria ser Presidente da República. Suspeitava que Marcello Caetano lhe acarinhava as ambições. Para chegar a Belém e ter mais uma estrela na manga do dólman, seria capaz de matar a mãe.
Atingira o generalato porque Salazar o impusera em Conselho de Ministros, recordado dos tempos em que o pai do «herói» fora seu secretário, e duma carta amanteigada em que o homenzarrinho lhe escrevera em 61, depois do gorado golpe de Botelho Moniz e Costa Gomes. Chegara a Governador da Guiné nos últimos tempos decadentes de Salazar, depois de lhe ter sido negado o Governo Geral de Angola.
Desembarcado em Bissau, poucos meses antes de Salazar ser demitido, não precisou de muito tempo para verificar que o seu Chaimite tinha sido chão que dera uvas. Em Moçambique, no final do séc. XIX, os vátuas, armados e financiados pelos rodesianos, lutavam de cara descoberta; ali, no meio de pântanos e picadas enlameadas, os turras, armados pelos soviéticos, batiam e fugiam. Fugir é a táctica suprema do guerrilheirismo — e não por medo, não — por inteligência. Guerrilheiro que não sabe fugir não dura um piscar de olhos — e o Spínola não sabia fazer aquela Guerra que não vinha explicada nos manuais da Escola do Exército. Nem a queria fazer. O que queria era a Campanha da Rússia. O que desejava era Austerlitz, o Almeida Bruno e o António Ramos feitos duques no amanhecer encarniçado da vitória. O que ambicionava era vencer Iena, ganhar Friedland, atravessar os Alpes no dorso dum elefante. Sofria de caprolália. Faltava-lhe um rim. Só bebia água do Luso e comia galinha cozida.
Quando no princípio de 1972 um advogado do Porto, especulador bolsista, o dr. Francisco de Sá Carneiro o convidou para se candidatar à Presidência da República recusou, convencido de que Marcello Caetano o levaria a Belém. Quando o Presidente do Conselho de Ministros resolveu fazer recandidatar o Almirante Américo Thomaz, sentiu-se traído. Resolveu, então trair a Pátria fomentando o descontentamento corporativo dos capitães que começava a ronronar.
Chegado a Belém, cavalgando o M.F.A., ainda tentou dissolver e atraiçoar os capitães, e vigarizar Costa Gomes; mas, enganado pela própria jactância, acabou no exílio. Arranjara mais uma estrela no dólman. Destruíra Portugal.
Graças aos Spínolas, aos Costa Gomes aos Soares, aos Sás Carneiros, aos Freitas do Amaral e a muitos outros, nós somos hoje um estado exíguo na iminência da dissolução. Ao comemorar-se o 25/A comemora-se a estupidez e a traição. Só quando nos livrarmos desta sarna fulurenta poderemos tentar ressurgir.

In Agora!, n.º 6, pág. 3, Junho/Agosto de 1994.

Fonte: Blogue "Nonas - post de 19Abr2008

quarta-feira, 16 de abril de 2008

“Foi Assim” por Zita Seabra - Comentário de Silvino Silvério Marques

Trata-se de um livro que se lê bem nas suas 437 páginas. A autora escreve de uma forma simples, escorreita, e o assunto interessa a muitos curiosos pelo tema e, de um modo particularmente apelativo, aos que viveram como adultos no período do Estado Novo. Dá para que gente séria e responsável medite o perigo que então se passou por acção de um grupo apaixonado que absorveu a doutrina soviética como religião em que os fins justificavam todos os meios…A obra de Zita Seabra constitui um documento essencia como esclarecedora de aspectos importantes das últimas quatro décadas da nossa história.

Zita Seabra, viveu, como filha única, uma infância feliz numa família nortenha de média burguesia, agnóstica, mas não anti-clerical, da oposição, segundo conta . A sua paixão era ser bailarina clássica, tendo feito ballet desde os sete anos e revelado, em várias oportunidades, especial e promissora aptidão. Aluna, no Porto, do Liceu de D.Maria Micaelis, frequentou variados “movimentos associativos” que proliferaram na altura, tornou-se notada pelo PCP e acabou por ser recrutada como seu militante pelo dirigente associativo da Faculdade de Engenharia do Porto, destacado para o efeito pelo “Partido”. Decorria o ano de 1965 e frequentava, com 15 anos, o sexto ano do Liceu. Líder do movimento associativo do Porto e, já endoutrinada e muito apaixonada pelo comunismo, passou, em 1967, à clandestinidade e foi destacada como “camarada de uma casa do “Partido.” Foi distribuidora do “Avante” e operadora no correio para, e de, presos do “Partido” (correio processado em mortalhas de cigarros). As suas faculdades, e a sua militância, guindaram-na a posições de destaque nos anos que serviu o “Partido” na clandestinidade. Foi dirigente importante da U.E.C. (União de Estudantes Comunistas). Empenhou-se na captação e na doutrinação de estudantes, e no seu encaminhamento para o estrangeiro (incluindo a Rússia) ou para as tropas que combatiam em África. Após o 25 de Abril, regressou à vida livre e, especialmente considerada por Álvaro Cunhal, desempenou missões importantes ao serviço do “Partido”, no País e no estrangeiro, incluindo a própria Rússia. Eleita, pelo mérito evidenciado, membro da Comissão Política do Comité Central, no X. Congresso do “Partido”, foi afastada da Comissão Política em Maio de 1988 e definitivamente expulsa do Partido em Janeiro de1989. Manteve-se deputada de 1975 a 1988,

Conhecedora, por dentro do “Partido”, do comunismo (e “os comunistas portugueses sempre souberam de tudo” e “nunca o P.C.P. disse uma palavra sobre as vítimas do comunismo, como se não existissem”, comenta a pág. 437) e das suas técnicas, revela muito destas, com um pormenor que torna o seu trabalho um precioso tratado, raramente disponível, muito útil para alguns serviços que certamente não deixarão de o estudar. Conheceu e pôde apreciar em várias circunstâncias o carácter, a personalidade, do dirigente máximo do P.C.P. E conta, com evidente conhecimento, a que não falta a identidade de intervenientes, muitas ocorrências relativas ao acompanhamento e à participação do P.C.P. na génese do M.F.A. e na infiltração de milicianos nas forças destacadas para o Ultramar. Refere algumas relações entre importantes responsáveis do M.F.A. e do P.C.P.

Constituindo uma obra rara de corajosa frontalidade, o texto não pode deixar de ser lido como uma decidida exautoração do sovietismo, por alguém que, sem abjurar das suas mais puras convicções, se sentiu profundamente desiludida e enganada, no empenho com que apaixonadamente viveu e serviu o Partido; e também como um certo e delicado, mas importante, desnudar da personalidade de Álvaro Cunhal que nela sai diminuído do seu mítico pedestal.

Somente se me afigura extraordinário que, para contar o que pessoalmente cada dia mais a envergonhava, como confessa (pág. 430), tenha necessidades de recorrer à exautoração de um regime que conheceu essencialmente como militante do “Partido” que agora corajosa e frontalmente abjura, regime no qual o que sofreu e viu sofrer foi, essencialmente, em resultado do combate que a ele foi feito, para que se não estendesse ao nosso País “o maior embuste do século XX na opinião insuspeita de um seu amigo “(pág. 430) . E nem o facto de ter sido procurado, e que, para felicidade do País, tivesse, por tal combate, sido evitado, que se viesse a viver o que define (pág. 437) como uma “tragédia de proporções gigantescas, do tamanho de um continente, na real dimensão que tem uma tragédia da humanidade” justifica e compensa as restrições de liberdade, e consequentes sofrimentos, que ao longo do texto refere e que foram, em geral, custo de responsabilidades voluntariamente assumidas, por engano posteriomente verificado. É uma atitude que traz à minha recordação o seguinte episódio que vivi. Anos atrás fui convidado para um almoço num bom hotel de Lisboa por pessoa conhecida e amiga, sempre muito amável comigo. Os convidados eram, com minha surpresa, politicamente muito heterogénios: lá se encontravam, que me recorde, entre outros, General Eanes, Padre Melícias, Jaime Serra, Palma Inácio… e dois médicos, um que vim a saber ser comunista e outro, que foi especialmente simpático comigo, que eu reconheci, pelo nome, como importante apoiante do MPLA, no Portugal europeu. Estes dois médicos foram-me apresentados logo que cheguei e ficámos a conversar enquanto se reuniam os convivas para as várias mesas. Vivia-se a época da “perestróica” e os dois médicos empenharam-se perante mim por execrar o sovietismo e o perigo que havia representado. Com lógica simplicidade, observei que da sua opinião teria de se concluir ter sido prestimosa a acção da Polícia Internacional (na luta contra tal vírus, subentendia-se)…A reacção , civilizada, foi : Oh Senhor General!...

Num nível inferior de pura cobardia, que evidentemente não é o de qualquer dos casos, ocorre-me aquela generalizada e tristíssima atitude de tantos que para referirem qualquer coisa que consideram mal do presente, se escudam dizendo pior, seja do que for, do passado…

Fonte: Blogue "Alameda Digital" - post de Silvino Silvério Marques

domingo, 13 de abril de 2008

Como gosto de ler Vitorino Nemésio!

Enviado para você por Rui Moio através do Google Reader:

via Estado Sentido de cristina ribeiro em 13/04/08
Não é apenas o romancista, de por exemplo «Mau Tempo no Canal», que me encanta; é, também, o que escreve:
"Este homem elegante e amadurecido que sobe o Chiado de mão metida no colete e vai parando nalguns escaparates para fingir que não tem pressa de chegar lá a cima, às Portas de Santa Catarina, o que tem são falhas de coração. Se não está velho, está gasto. É o ano da graça de 1852: façam os senhores um esforço e sejam, comigo,desse tempo. O nosso elegante, mais tarde, vai dar o nome à rua que hoje lhe custa a subir. Em vão. Será batido pelo revisteiro do século XVI que por ali andou. O elegante transeunte está com cinquenta e três anos, mas faz-se distraído de idades e nunca passa dos quarenta. No fundo mente mal; porque na alma, na verdura, no sangue, está com os vinte e três que tinha quando, casado de fresco, fugiu para Inglaterra, ou com a idade de Cristo que levou para Bruxelas como Encarregado de Negócios, para florear na conversa e dançar com uma ponta de fastio e um ardor secreto, triste."
Vemos, pois, pelos seus olhos, um Almeida Garrett longe dos fulgores da juventude, ou nem tanto assim...

Coisas que você pode fazer a partir daqui:

quarta-feira, 19 de março de 2008

SEMANA SANTA

Enviado para você por Rui Moio através do Google Reader:

via NOVA ÁGUIA de Ivo Korytowski em 19/03/08
MACHADO DE ASSIS


A SEMANA foi santa — mas não foi a semana santa que eu conheci, quando tinha a idade de mocinho nascido depois da guerra do Paraguai. Deus meu! Há pessoas que nasceram depois da guerra do Paraguai! Há rapazes que fazem a barba, que namoram, que se casam, que têm filhos, e, não obstante, nasceram depois da batalha de Aquidabã! Mas então que é o tempo? É a brisa fresca e preguiçosa de outros anos, ou este tufão impetuoso que parece apostar com a eletricidade? Não há dúvida que os relógios, depois da morte de López [ditador paraguaio], andam muito mais depressa. Antigamente tinham o andar próprio de uma quadra [época] em que as notícias de Ouro Preto gastavam cinco dias para chegar ao Rio de Janeiro. [...]

As semanas santas de outro tempo eram, antes de tudo, muito mais compridas. O Domingo de Ramos valia por três. As palmas que traziam das igrejas eram muito mais verdes que as de hoje, mais e melhores. Verdadeiramente já não há verde. O verde de hoje é um amarelo escuro. A segunda-feira e a terça-feira eram lentas, não longas; não sei se percebem a diferença. Quero dizer que eram tediosas, por serem vazias. Raiava, porém, a quarta-feira de trevas; era princípio de uma série de cerimônias, e de ofícios, de procissões, sermões de lágrimas, até o sábado de aleluia, em que a alegria reaparecia, e finalmente o Domingo de Páscoa, que era a chave de ouro. [...]

Como entender, depois da passagem de Humaitá [episódio da Guerra do Paraguai], que as procissões do enterro, uma de São Francisco de Paula, outra do Carmo, eram tão compridas que não acabavam mais? Como pintar-lhes os andores, as filas de tochas inumeráveis, as Marias Behus, segundo a forma popular, centurião, e tantas outras partes da cerimônia, não contando as janelas das casas iluminadas, acolchoadas e atapetadas de moças bonitas — moças e velhas — porque já naquele tempo havia algumas pessoas velhas, mas poucas. Tudo era da idade e da cor das palmas: verde.

(Trecho de crônica publicada na revista A Semana em 25 de março de 1894)


Esta postagem, transcrita do meu blog Literatura & Rio de Janeiro, é uma homenagem ao genial escritor brasileiro cujo centenário de morte se comemora este ano.


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