quinta-feira, 24 de abril de 2008

Mandingas, ou um pouco da história da Guiné

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via Guiné, ir e voltar de Gil em 23/04/08
Origem e localização
"A tomar como verdadeiros os elementos escritos legados pelos árabes, acerca da provável origem do grupo étnico mandinga, constatamos que os seus descendentes provêm do cruzamento de autóctones com negros oceânicos da segunda invasão (sucessores dos bantús, da primeira) e brancos do Mediterrâneo. Os segundos, quando há milénios passaram o Equador para a conquista de um "habitat" favorável á sua fixação, invadiram as vastas regiões de Massiná e Hodh, então de máxima fertilidade, chocando-se com os negros aborígenes pelo sul. Os brancos do Mediterrâneo, por sua vez, impulsionados pelo mesmo desejo de fixação, vieram sobre as massas negras. Estabeleceram-se os mais variados cruzamentos e, muito provavelmente, dessa miscelânea nasceu o grupo negro "báfur" – designação dada na Mauritânia a toda a população das regiões de Hodh, Uagadu e Massiná.
Nos primeiros anos da era de Cristo, um povo de origem semita, e de civilização adiantada, entrou no Saara e, caminhando para o centro, encontrou o referido grupo "báfur" com o qual manteve contacto durante muitíssimos anos – séculos talvez. Com um evidente predomínio sobre o grupo negro, os semitas teriam modificado profundamente o modo de vida da população e produzido, segundo uma maior ou menor duração dos contactos, outros elementos étnicos com características ou condições especiais que autorizaram a sua diferenciação.
Apareceram em consequência de tais uniões, partindo-se do princípio que o "báfur" constitui o tronco genealógico dos chamados negros sudaneses, segundo os mais autorizados estudos, os seguintes grupos: sonrhai, a leste; seréré, a oeste; e uangará, ao centro e ao sul.
Posteriormente, com as varias invasões de semitas e afins, nómadas e sedentários, também de civilização superior, vieram a formar-se outros grupos saídos das uniões com os três atrás referidos (sonrhai, seréré e uangará), dando lugar ás modernas famílias negras do Sudão: sarakolé ou soninké e fuibés ou fulas. Os primeiros provêm da união de uangarás negros e semitas sedentários e os segundos da de serérés com semitas nómadas. Foi desta mestiçagem de semitas brancos com negros diversos, estes também cruzados entre si, que veio a massa de população denominada genericamente "negros do Sudão", espalhada nas regiões das margens do Níger ao Senegal, até ao Saara Sul.
Partindo-se, portanto, daquela base de formação dos grupos referidos, verifica-se que, depois, as ondas invasoras do centro de África, umas provenientes do norte (berbéres-tuaregues) outras do leste (negros etíopes), deixaram largos vestígios da sua influência, verificáveis por traços étnicos uns, e por determinadas facetas dos usos e costumes, outros.
Interessam mais directamente á finalidade em vista os sarakolés ou soninkés e os fuibés ou fulas, porque destes saiu a massa invasora da Guiné Portuguesa. Os primeiros porque, constituindo o grupo mais numeroso e importante, deram origem ao mandinga, e o segundo porque deu a existência á facção fula, tão interessante sobre o aspecto étnico e psicológico.
Ao analisarem-se as influências exercidas pelas uniões da população autóctone do centro de África com as do litoral e com as invasoras (brancas e negras) destaca-se o limite provável da respectiva zona de acção. A maior ou menor duração daquelas uniões deixou os seus vestígios, isto a avaliar pelo cabelo, pela pigmentação e pelo aspecto físico geral.
O soninké, fugindo ao cerco dos berberes, quando esta falange quis predominar no Hodh e Massiná e encostando-se aos negros etíopes e aos núbios que também disputavam a supremacia, manteve mais diferenciadamente as principais características da raça de origem e impediu assim a adulteração do seu fácies primitivo, embora já viesse bastante mestiçado. A cor preta mais ou menos acentuada, o cabelo encrespado, o nariz achatado, a boa constituição física, o apego á terra e umas outras tantas características peculiares ajudam a sustentar aquela opinião.
Contrariamente, o seréré, por circunstancias várias, entre as quais se destaca a situação geográfica da região a leste da Mauritânia, estava colocado em posição de difícil defesa contra os elementos étnicos diferentes (semitas e berberes), e, portanto, quase impossibilitado de impedir o predomínio de civilização e até de número. Enclausurado entre os mouros (a oeste), os sonrhais (a leste) e os soninkés (a sul), recebeu o embate do norte que, além de duradouro, foi decisivo para a formação do tipo especial – que é o fula, de cor acobreada, estatura alta, o cabelo encaracolado ou um pouco corredio algumas vezes, carácter nómada, difícil de congregar para a formação de um meio social estável, franzino, sem qualidades físicas que o permitam impor-se pelo cruzamento a qualquer outro grupo.
Consoante os movimentos produzidos pelas invasões, vamos assim encontrar estas duas facções indígenas: a soninké (hoje mais propriamente designada por mandinga) e a fula. A primeira, que tem a sua pátria provável na região de Mandên situada na margem esquerda do Djalibá (Níger) e sob o habitat mandinga— próximo do actual Bamako, é, por assim dizer, uma das principais do Sudão, quer olhada pela sua importância numérica, quer sob os aspectos político-religiosos. Procurou sempre internar-se para o centro. A fula, impossibilitada pela mandinga de penetrar para o interior, cingiu o seu domínio ás regiões a oeste de Uagadou e de Massiná, sempre empurrada para o litoral — Futa-Tóró, Bandu e Futa--Djaló.
Com o decorrer do tempo vieram as lutas religiosas e de predomínio dos povos habitantes do norte de África e, portanto, novamente em descida vertiginosa sobre as populações negras do litoral e do centro. Aqueles, fascinados pelas doutrinas de Maomé, quiseram conquistar adeptos nas massas feiticistas (animistas?). Vieram, até junto destas, pregadores e conquistadores que, aproveitando certas afinidades étnicas com alguns povos, conseguiram impor a sua religião aqui e ali. Noutras regiões, porém, distanciadas pela ordem de cruzamento e pela diferença psicológica, foram repelidos, provocando êxodos consideráveis, mas também algumas conversões. Chegou, então, a necessidade de determinar os grupos da "família mandinga", segundo as crenças religiosas de cada facção. Uns, os convertidos ao islamismo, optaram pela denominação de mandingas — nome da região considerada sua pátria, Mandên, outros, os fetichistas (feiticistas, animistas?), ficaram com a primitiva designação da raça, soninké.

Muito embora dentro da própria "família mandinga" estejam consideradas algumas subdivisões, umas provenientes da referida diferença de crenças religiosas, outras por questões políticas ou económicas, actualmente elas só devem ser observadas segundo os índices populacionais ou pela situação geográfica do território habitado. De todas as divisões actuais* é a de M. Delafosse a mais consentânea com a posição dos grupos estabelecidos na Guiné e, por isso, será a seguida neste trabalho.
Consideram-se ali, quanto aos estabelecidos no Sudão, os seguintes:
Ao norte: bonzos, soninkés e djôlás;
Ao centro: kagôros, bambarás ou markas, kassonkés e mandingas propriamente ditos;
Ao sul: djàlonkés, samôròs e siás.
Ora, observadas as nomenclaturas convencionadas, verifica-se simplesmente que a maioria dos grupos foi procurar a sua designação no nome da região respectiva: bambarás na área de Bambara ou Marka; kassonkés na de Kassó (homens de Kassó ou Kasso-n'ké); djàlonkés na de Futa-Djalon, a leste do maciço do mesmo nome (homens de Djàló ou simplesmente Djàló-n'ké), etc.
O primitivo habitat da "família mandinga" está provavelmente situado entre 10° e 15° de latitude norte e 4° e 1o°,5o' de longitude oeste Greenwich. No entanto, actualmente, devido às pugnas internas e às necessidades de expansão, aquelas proporções foram avolumadas dando lugar a, de um modo geral, poder ser considerado como a enorme área territorial cercada pelos paralelos 10° e 15° de latitude norte e 4° e 16°,5o' de longitude oeste Greenwich. Dos confins do Sudão estende-se para o litoral ocidental abrangendo os 36.000 quilómetros quadrados da actual Guiné (Bissau); aquele trapézio rectângulo, delimitado pelos paralelos e meridianos referidos, tem uma área calculada, grosso modo, de cerca de 640.000 quilómetros quadrados e alberga uma população de 3.400.000 indivíduos só da "família mandinga", segundo os censos publicados.
Pelo exposto verifica-se que estamos em presença de indivíduos da raça negra da África, fortemente mestiçados com outros componentes étnicos, enfileirados dentro do grupo sudanês e com tendências linguísticas que podem caber ao ramo bantú (segundo F. Muller).
Tratada como está a sua generalidade, passamos agora a considerar os mandingas (islamizados e fetichistas), dentro da parte restrita que interessa ao estudo, isto é, apenas os agrupamentos que se fixaram nos territórios mais tarde integrados na Guiné (Bissau). De resto, como presentemente se observam diferenças sensíveis nos costumes, na organização social e até na língua, não há razão nenhuma para ligar intimamente povos que perderam, através de algumas gerações, bastantes traços que chegaram a ser comuns.
Este povo invasor é constituído, na Guiné, por três elementos da "família mandinga":
O mandinga, propriamente dito (o islamizado);
O soninké ou soninkêó (o fetichista); e
O djôlá, procedente de Djôládu (terra de Djôlás), aqui impropriamente designado por beafada.
A importância política e numérica dos dois primeiros é patente, como patente está o desvirtuamento do último, quase a desaparecer pela infiltração de outros ou absorvido pelo maior número.
Segundo os censos oficiais (da época, nota do editor) o mandinga representa 41.000 almas, mas não se errará afirmando que deve ultrapassar 50.000; está distribuído muito irregularmente em consequência das antigas lutas políticas e religiosas pelas regiões de Patchisse, Maná (Gabu), Gussará, Ganadú, Badora (Batata), Caniço e Oio (Farim e Bissorã) e o seu habitat pode ser calculado, também grosso modo, na Guiné (Bissau), com uma superfície de cerca de 6.000 quilómetros quadrados.

História

A história está sempre ligada à proveniência de cada povo e, assim, nesta ordem de ideias, vamos buscar os principais factos relacionados com a formação, expansão e êxodo dos mandingas desde a sua origem até à entrada na Guiné (Bissau), para que se possam conjugar as variadas alternativas de poderio ou supremacia de tal grupo.
Tomando como exactos os muitos elementos escritos da tradição árabe, os semitas, penetrando na África, atingiram a parte ocidental de Massiná conduzidos, em época impossível de estabelecer, pelos chefes Kará e Gama, procedentes da então Uagadou.
Encontraram os negros uangarás, nascidos e fixados nessas regiões havia, provavelmente, alguns séculos, pois que já tinham grande desenvolvimento as povoações de Kumbi (Gana, segundo os árabes) e Nema.
Uma outra onda de semitas (brancos), esta procedente de Tuat, juntou-se à de Massiná e, sob a sua autoridade e orientação, subjugaram os negros autóctones, mantendo com eles uniões sucessivas e longas que deram origem aos sarakolés. Assim, nos princípio da Era Cristã, estava já alinhavada a base da fundação do primeiro império do Sudão – o de Ganá para os árabes e de Kumbi para os negros – que teve à sua testa, antes de quaisquer outros, príncipes semitas brancos em número de 44 (tradição oral dos árabes). Por circunstâncias muito difíceis de estabelecer, a direcção dos destinos desse império passou, talvez, pela mais aturada mistura de sangue negro (etíopes e núbios) à posse do grupo nascido daquela união com semitas: sarakolé ou soninké.
Calcula-se que os negros se apossaram das rédeas do governo à volta de 850 da Era Cristã, pela audácia da família sarakolé "Sissé", que passou a reinar, ramificando-se, muito mais tarde, para o ramo "Sissé Tuncará". Este ramo foi o que maior impulso deu à administração de Kumbi, talvez até porque pressentisse a aproximação dos berberes, cujo contacto com os sarakolés data da referida época.
No século X (Era Cristã) o império de Kumbi estava firmado pela força de expansão, absorvendo outros domínios negros de Diakà e Tagant e do Sanará ao Senegal. À autoridade e força do governo de Kumbi sujeitaram-se todos os povos vizinhos, nos quais se incluem os próprios berberes do grupo "Lentuma".
A exploração das minas de ouro, o comércio de permuta, o tráfico de escravos e os consideráveis tributos exigidos às massas vassalas, deram grande fama ao reino de Kumbi, despertando a cobiça de muitos.
Os mercadores árabes, seduzidos pelos lucros do comércio de ouro das minas de Gangará, Bambuk e Falemé (dependentes do reino negro) e pelo tráfico de escravos destinados às feiras do Cairo e Bagdad, não sentiam sequer as dificuldades e privações da grande travessia.
O império dos almorávidas, em Marrocos, alargando os seus tentáculos para o sul, quis submeter o negro tirando-lhe a força e a riqueza, porque Macan (dono do ouro e do território) desafiava, arrogante, os vizinhos. Yaiaben Ornar foi encarregado de, diplomaticamente, conseguir a subordinação de Kumbi, mas, mal sucedido, retirou-se. Então, em 1076, depois de violento combate, Kumbi caiu às mãos dos almorávidas que, profanando todos os lugares sagrados dos "Sissé", pilharam a povoação, massacraram parte dos habitantes e obrigaram a outra a converter-se ao islamismo.
Durante algumas dezenas de anos (talvez 70) as riquezas de Bambuk passaram para os berberes.
Após a reconquista da independência, os negros verificaram a impossibilidade de consolidar um Estado politico da grandeza do de Kumbi, porque a perturbação causada pela submissão, o pouco tacto dos governantes, aliados à superstição criada pela morte, pelos berberes, da serpente sagrada (Uagadu-Bida) protectora dos monarcas, e aos fenómenos atmosféricos que alteraram o regime das chuvas, produzindo a esterilidade do solo, colocaram a população entre a morte pela fome ou a fuga e, consequentemente, o abandono de todos os projectos (inicio do século XIII).
A dominação berbere trouxe, além de outras consequências, a ideia de formação de pequenos Estados vassalos de Kumbi e disso resultou praticamente a independência de alguns reinos.
Em 1203, os sossos, até então vassalos, comandados por Sumanguru Kanté, atacaram e venceram os soninkés obrigando-os a prestar vassalagem, isto depois de Kanté ter maduramente premeditado e estudado as maiores traições e barbaridades de que resultou o assassinato, por sua ordem, dos onze principais soninkés.
Os mandingas (os islamizados), que sempre acalentaram a ideia do seu predomínio, vendo a perturbação causada com a submissão dos soninkés aos sossos, estes já estabelecidos em Nêma, próximo de Kumbi, aproveitaram a oportunidade para sacudir o jugo de uns e de outros, construindo o seu sonhado reino. Para tanto dispunham de um valoroso chefe, Sundjata Keta que já então se intitulava imperador dos mandingas. Sundjata, organizada a ofensiva, caiu sobre o rei sôsso Sumangura e, na batalha de Kirianá, em 1235, bateu-o. No entanto, Nema continuava insubmissa para os mandingas, mas, em vista do êxito de Kiriná, por volta de 1240, foi destruída ferozmente, consolidando-se daí o poderio de Sundjata.
Estavam passados 164 anos sobre a queda dos berberes, e os mandingas faziam grandes esforços para dominar as correntes políticas e ambições dos vários grupos étnicos eivados das tendências daqueles. Sundjata, embora novo e activo, não podia acudir inteiramente à desordem que vinha do antecedente, mas procurava atenuar o êxodo da população fazendo-a crer que, reunida e comandada, poderia enfrentar melhor o problema. Era muito difícil ordenar as coisas e conseguir a colaboração de todos porque a reacção dos elementos avassalados, mesmo daqueles com intimas afinidades de raça (sarakolés, djôlás, etc.), pretendia destruir aquilo que tanto esforço custara. Mas, foi, pode dizer-se, Sundjata Keta o fundador do segundo império negro, o império de Mandên, digno sucessor do de Kumbi.
Estava mais ou menos lançada a ideia religiosa do Islão, desde a conquista dos berberes (1076) e isso concorreu para que não pudessem ser aplanadas as desinteligências geradas no meio. Porém, nem todos os povos aceitaram de bom grado o novo credo religioso. Em face disso a propaganda assumiu foros de verdadeiras atrocidades, pelo que tiveram de se impor pela força das armas aos mais avessos à penetração dos fanáticos das doutrinas de Maomé.
O ramo de mandingas, vassalo de Kumbi até 1203 e dos sossos até 1235, a cujos destinos presidiu sempre a família "Keta", pelo lado varonil e "Kanté" pelo feminino, habitava o planalto mandinga, na margem esquerda do Djalibá (Níger) próximo de Bamako, e assim recebia influência do islamismo proveniente das regiões do leste. Entre 1315 e 1218 já um dos reis, de nome Mussá, mais conhecido por Alah-Koi (Deus branco), seguindo o exemplo do seu antecessor, Baramendaná Keta, primeiro peregrino a Meca, envia a esta cidade santa quatro dos seus filhos a fim de conhecerem as riquezas dos Estados negros. Destes proveio, muito provavelmente, a formação mental de Sundjata Keta, segundo filho do rei Fumaga.
Proclamado, após a queda de Nema, imperador de Mandên, Sundjata reuniu à sua volta um grupo de homens activos, lançando-os, sob a sua orientação, na reconstituição do poderio mandinga. Para seu lugar-tenente escolheu Amari Soncó, mais tarde célebre pela audácia. A este entregou o governo dos territórios anexados a Mandên pela conquista ou pela infiltração política.
Em poucos anos o império de Mandên estendia o seu predomínio sobre os reinos de Bélédu, Diàká, Uagadil e Kaarta e Bambuk e Bundu, estes dois últimos entregues a Amari, visto que só ele conseguira fazer sentir a influência dos mandingas até aos djolôfos, no Tekrur e na Gâmbia, engrandecendo-os e à autoridade de Sundjata, e reconquistando os antigos soninkés de Kumbi.
Kankaran, situado entre os rios Bafing (Bàh-fin, ou rio preto, em mandinga), Bákoi (Bah-kôhió, ou rio branco) e Tinkissó; Konkodu (lugar das altitudes ou da fome, em mandinga), situado ao sul de Bambuk, que só veio a consolidar-se definitivamente no reinado de Mansa Ulên (Rei Vermelho) e à testa do qual ainda no XIX século estava um Keta; e Bambuk, situado entre o Falémé e o Bafing e que era atravessado de norte a sul pela famosa cadeia aurífera de Tambahura, foram também outros tantos Estados formados pela energia dos auxiliares de Sundjata. O último (Bambuk) foi alvo de uma grande acção de Mussá Sissôko, no sentido da sua pacificação, e que, com bastante habilidade, chegou a obter de Sundjata a autorização precisa para o dividir politicamente em pequenas fracções entregues à responsabilidade de seus filhos. A Mussá se deve a grande propaganda do islamismo no Estado de Bambuk.
Após uma série de lutas e contrariedades, Sundjata Keta veio a falecer em 1255, em consequência de um ferimento recebido numa grande festa pública, segundo uns, ou afogado no rio Sankari, perto de Niani, segundo outra versão que parece ser mais verdadeira. A sua influência e poder foram de tal ordem que ainda hoje o seu nome é lembrado com saudade e cantada a sua heroicidade; os mandingas do Alto Níger veneram-no, fazendo do presumível lugar da sua morte um canto sagrado de peregrinação e onde celebram várias cerimónias com sacrifício de animais.
Sucedeu-lhe Mansa Ulên (Rei Vermelho), seu filho mais velho, que ocupou o trono durante 15 anos (1255-1270). Durante o seu reinado intensificaram-se as relações com os povos islamizados, devido ao seu feitio fanático. Por sua morte o trono foi concedido a um seu irmão, mas pouco tempo depois usurpado por Abú Bakar, sobrinho de Sundjata (1275-1285). Neste último ano esboçou-se uma revolta acompanhada de grandes manifestações de desagrado contra Abú Bakar que, em vista da agitação política e de um golpe de audácia praticados por Sakurá, servo da casa reinante, foi deposto.
Sakurá conseguiu, por meio de alguma astúcia, exercer grande preponderância sobre os chamados "nobres", detendo o poder durante 15 anos. Foi morto quando regressava da peregrinação a Meca, próximo de Djibuti.
A usurpação do trono feita por Sakurá, relegou os "Keta" para segundo plano, impossibilitados pelos manejos daquele de o reaver. Mal chegou a nova da morte do usurpador, um descendente do verdadeiro ramo dinástico foi proclamado imperador, com as pompas devidas.
Em fins de 1307 foi proclamado Kankan Mussá, também conhecido por Gongo Mussá (Gongo era o nome da mãe), que se conservou no poder durante 25 anos (1307-1332) levando ao máximo o predomínio dos "Keta", a ponto de ser justamente considerado como o mais digno imperador de Mandên, depois de Sundjata.
Conta-se que em 1324-1325 empreendeu uma peregrinação a Meca, fazendo-se acompanhar de cerca de 60.000 pessoas, entre as quais 500 escravos carregados de ouro em barra e em pó. De regresso trouxe o célebre poeta árabe Ibrahim-el-Sahèli e um filho dos soberanos almohades, de nome El-Mamer, este procedente de Ghadamés (Tripolitânia). Aquele poeta descreveu, largamente, em verso, a grandeza do império de Mandên, celebrando o seu dirigente e o povo.
Ainda no deserto de Saara, a caminho de Ninani, apareceu ao encontro de Mussá o grande guerreiro Saca-Mandiá que vinha trazer a notícia da submissão dos sonrhais, de Tombuctu e Gao, ao domínio mandinga, regiões estas que marcam os limites extremos da expansão daquele império. Entusiasmado, Mussá dirigiu-se logo para Tombuctu a receber os protestos de vassalagem do povo, e a Gao onde o régulo Assibai, rendendo as maiores homenagens ao seu poder, lhe entregou como reféns dois dos seus filhos. Um destes, passados 10 anos, numa correria célebre e num gesto de heroicidade, libertou o seu povo da tirania mandinga, fundando a grande dinastia de Sonin, em Gao.
Influenciado pelos dois estranhos da comitiva – El-Mamer e Ibrahim – que lhe mostravam os inconvenientes, para a propagação do islamismo, de um dos maiores chefes negros residir em palhotas cobertas de palha, Mussá incumbiu Ibrahim, conhecido também como arquitecto, da construção de uma mesquita toda em tijolo de barro cozido, digna da superioridade do culto maometano. Marca esta medida através da história a importância da civilização árabe no Sudão, porque o género arquitectónico de Saheli era inteiramente desconhecido dos negros. Foi o ponto de partida para outras construções similares no império mandinga, e mais tarde até no Alto Volta, porquanto as famílias reinantes habitavam as tradicionais palhotas cilíndricas.
O governo de Mussá fixou uma época de intenso progresso em todos os ramos de actividade e sob a sua superior orientação a expansão do império ficou largamente assinalada. A riqueza do Estado e a da população, graças ao comércio intenso (até o de escravos) e à exploração hábil das minas de ouro, concorreu para colocar Mandên ao lado dos mais prósperos Estados muçulmanos ou cristãos daquela época.
Nessa altura, os árabes estendiam a sua influência sobre as populações negras do Sudão, exercendo um certo predomínio espiritual.
Macan, filho de Mussá, foi proclamado em 1332, em consequência do suicídio deste. Reinou até 1336, deixando poucas saudades porque o julgaram responsável pela independência de Tombuctu, levada a efeito por Yatenga, em 1333, massacrando os mandingas que ali estavam de guarda. Sucedeu-lhe seu tio Suleimane que reinou 23 anos (1336-1359) sem que nada de notável tivesse acontecido. Ficou conhecido na história porque durante o seu reinado Nêma foi visitada (1352) pelo explorador árabe Ibn Batuta que tão bem descreveu o povo mandinga pelas observações feitas durante a passagem pelo centro do Sudão.
Em 1359, Mari Djata II (porque Sundjata também foi conhecido por Mari Djata) destrona Kamba, colocado pouco tempo antes. Mari não tinha qualidades para se impor. A sua crueldade, a prodigalidade e o deboche na corte, fizeram com que o império se depauperasse, legando ao sucessor um bloco muito carcomido. Entre outras acusações que lhe são feitas avultam as que respeitam à despreocupação com que mandava assassinar qualquer pessoa e à venda a mercadores egípcios da jóia considerada pertença da coroa dos "Keta", uma pepita de ouro de enormes dimensões.
Veio a morrer em 1374 com doença do sono, segundo as mais acreditadas versões, sendo-lhe, talvez justamente, imputada a responsabilidade de ter, com as más medidas, iniciado a desagregação de Mandên, verificada cerca de século e meio mais tarde.
O monarca seguinte, Mussá II, excessivamente fraco e indolente, mostrou logo a incapacidade de deter a coroa. Valeu-lhe, no entanto, a actividade do seu primeiro-ministro, Djata, que de facto era praticamente o rei.
De 1387 a 1400 acentuou-se, de uma forma alarmante, a divisão do império. A repetição (início do século XV) dos fenómenos atmosféricos semelhantes aos verificados no século XIII, agravada com as contendas políticas internas, indicou a próxima decadência de Mandên.
Mussá III e Mussá Ulên U, que se sucederam num pequeno período de tempo, auxiliaram muito a desunião dos principais elementos de preponderância política. A fraqueza demonstrada na execução dos actos administrativos, nomeadamente na escolha de régulos para os territórios vassalos, e a falta de ponderação dos orientadores dos monarcas, teve uma enorme influência nos acontecimentos que causaram o desmembramento. Por um lado os actos de terrorismo praticados pelos régulos e por outro as manifestações do povo no sentido da independência dos Estados, segundo a massa étnica, fizeram pouco a pouco a desgraça de um dos maiores impérios negros do Sudão.
Para amenizar a responsabilidade dos que mais directamente procuraram aquele estado de coisas, contam que Alá, o grande condutor dos povos muçulmanos, cansado de ver tanto destrambelhamento e falta de tacto dos mandingas, no intuito de os castigar severamente, ordenou a retracção das chuvas para produzir a fome e mandou o exército divino, representado por anjos armados de espadas, a fim de exterminarem os chefes, entregando o mando a quem melhor soubesse orientar o povo.
De tudo isto nasceu a separação dos territórios quase todos chefiados por indivíduos que sempre manifestaram, embora veladamente, uma orientação perfeitamente desencontrada com a dos soberanos. O primeiro, golpe foi vibrado pelo régulo flossi, de nome Bongá, que invadindo Massiná, conquistou todas as regiões até junto do lago Dêbó. Seguidamente, em 1435, os tuaregues tomam Tombuctu, desligando-se definitivamente dos mandingas.
De 1465 a 1473, pausadamente, os sonrhais proclamaram a sua liberdade quase sem efusão de sangue, desfazendo os laços tutelares que os uniam a Mandên. Por último, em 1480, o régulo Mossi de Yatengá vibra o golpe mortal, deixando os mandingas circunscritos apenas aos do seu próprio ramo étnico.
Ninguém tinha já dúvidas acerca dos destinos do famoso império, esfrangalhado por circunstâncias, políticas, morais e económicas inevitáveis. Se um ou outro monarca teve sérias responsabilidades ligadas ao fim de tão importante Estado, essa responsabilidade é restrita em atenção ao muito que as circunstâncias e a época fizeram.
Os inimigos do Estado mandinga não desarmavam, certos de que a ocasião era propícia para vibrar as machadadas precisas ao desmantelamento da unidade política. As fronteiras estavam limitadas ao que primitivamente fora o reino mandinga, ou pouco mais; tinham desaparecido, como por encanto, as grandes áreas conquistadas pelas armas ou por mera absorção. Mandingas, soninkés, djôlàs, etc., todos pertencentes ao mesmo tronco étnico, tentavam, ainda, congregar esforços no sentido de evitar um total predomínio de outros elementos, predomínio quase iminente pelo ataque de numeroso inimigo externo, então mais do que nunca espicaçado pela cobiça e por estranhos que aproveitavam o campo assaz especial e benéfico para o desenvolvimento da propaganda do islamismo. Mas tudo isso não ultrapassou o domínio das alternativas políticas.

Já então os portugueses estavam na posse de uma parte do litoral ocidental da África, em contacto com a Mauritânia e com a população do baixo Senegal (1436), penetrando até ao coração do Sudão embaixadores encarregados de negociar um pacto de comércio com as populações mandingas e afins. Não se errará afirmando que foi dessa penetração dos portugueses no Sudão, entendendo-se directamente com os monarcas, que nasceu entre os povos selvagens e os primeiros europeus que eles conheceram um entendimento perfeito e as boas relações ainda existentes. Isto mesmo afirmou o abade Durand, professor da Universidade de Paris, explicando claramente que as regiões tropicais exploradas há poucos anos pelos americanos e por europeus, já tinham sido objecto de rigorosa observação e estudo por parte dos portugueses nos séculos XV, XVI e XVII.
As visitas que os portugueses fizeram à costa ocidental durante o período áureo das descobertas, nomeadamente a ida, cerca de 1455, a Tombuctu onde trataram do comércio de ouro e escravos, e mais tarde a descoberta da Guiné, consolidaram fortemente as relações entre os povos do interior e os do litoral. Tanto assim é que, depois de terem estabelecido fortalezas e feitorias na costa, e, portanto, considerados vizinhos brancos mais próximos do reino de Mandên, Mansa Mamadú, que ocupou, o trono de 1481 a 1496, solicitou-lhes protecção contra os ataques dos inimigos, protecção que não foi possível prestar em vista das condições especiais em que os portugueses se encontravam.
A permanência em Niani dos portugueses que anteriormente haviam tentado uma ligação entre as minas de Eambuli e o litoral, servira nesta última conjuntura para animar Mansa Mamadú a fazer o referido pedido de protecção, tão gratas eram as recordações deixadas. Quase todos aqueles heróis baquearam em terras vizinhas de Mandên, uns devorados pela acção do clima e pelo caminho, outros massacrados e comidos pelos povos antropófagos.
Decorrera um período de intranquilidade provocada pelos inimigos. Passado esse tempo, Mandên entrou numa fase de relativo progresso, durante a qual recebeu a visita do viajante Leão, o "Africano", nos primeiros anos do século XVI. Segundo este, Niani, que ao receber a corte negra se tornara a capital, era habitada por 6.000 famílias, entre as quais figuravam artistas e comerciantes.
O islamismo, em virtude do golpe final vibrado pelos reis de Espanha em 1495, expulsando os seus últimos baluartes da península, virara a sua atenção para o centro de África em busca de um maior desenvolvimento, passou a digladiar-se com o fetichismo (animistas?), pretendendo impor-se numa guerra sem tréguas.
Então, como nunca, exterminava violentamente todas as populações que tentassem opor-se-lhe por qualquer forma, bradando o seu espírito intolerante. Onde a força de armas dos sectários de Maomé não podia chegar, entrava a intriga, a espionagem e todos os actos degradantes para preparar terreno às revoltas internas entre os mais renitentes.
Assim, depois de passados 480 anos (1050-1530), entre as populações negras do Sudão ainda não tinha conseguido reunir adeptos fervorosos capazes de garantir a supremacia religiosa, de absorver os restantes. Não tinha, mesmo sem outras competições, depois de tanta actividade, passado do campo da conveniência de muitos e do snobismo de alguns; convictos, absolutamente invulneráveis, eram em tão reduzido número que não ficaram registados. Logo que diminuísse a acção dos pregadores, diminuía também o fervor religioso dos convertidos, voltando ao mais grosseiro feiticismo, à barbárie primitiva sem a mais insignificante noção dessa retroactividade.
O grosso da população só se servia das partes da religião do Islão que mais lhe conviesse, fazendo uma amálgama dos dois credos (islamismo e feiticismo) que adoptava segundo as conveniências do lugar ou do meio.
Os fulas ocupadores do Futa-Tònò, que, num caminhar constante para o sul, entre o Falémé e o Gâmbia, vieram ocupar a região do Futa-Djalon, nome da parte montanhosa, estavam, principalmente as facções vindas do Tèrmes, imbuídos do muçulmanismo e, em conquista de adeptos e de supremacia de poder, atiraram-se sobre os mandingas com os dois referidos fins.
Koli Tên-hêlá, régulo do Futa-Djalon, entre 1530 e 1535 arma um exército, empreendendo com ele a conquista dos reinos vizinhos. Ataca impetuosamente o monarca de Mandên, Mamadu II, que, conhecendo os portugueses estabelecidos no baixo Senegal, relativamente a pouca distância de Niani, lhes pede protecção e socorro no sentido de repelir os fulas.
Ora atacados por Tén-hêlá, ora por povos vizinhos da mesma raça mas ciosos de uma supremacia, Mandên foi afinal desaparecendo, dividido por fulas, retalhado por bambarás, djôlas, etc.

Entre 1530 e 1550, deve ter sido a época provável do êxodo de mandingas e soninkés para as regiões do baixo Gâmbia, alto e baixo Casamansa até à Guiné-Bissau, êxodo que teve a sua origem nos vários factores político, moral e económico absolutamente palpáveis.
A tradição oral vinda até nós diz que à frente dos grupos que penetraram nos territórios da actual Guiné, Firdú, etc., vinham dois chefes importantes: Coli Mané e Irá Sani, troncos dos ramos dinásticos que imperaram nas regiões que vieram a pertencer a Portugal. A fuga obedeceu a um plano preconcebido e uma orientação baseada na ideia religiosa-supersticiosa: os pontos cardiais Gâmbia (norte), Kàkândè (sul), Tilibô (nascente) Tilidji (poente) e a selecção dos grupos fugitivos pela eliminação dos responsáveis nos fracassos.
Dos primeiros anos do século XVII até 1670, apenas se tratou do rescaldo de tamanho incêndio, procurando cada grupo rácico a instituição de pequenos reinos independentes que garantissem uma tranquilidade relativa. Ao norte, os bambarás edificaram os reinos de Segú e Kaarta, tornando-se vizinhos próximos do fula; ao sul, o ramo sarakolé independente em Estado próprio; a leste os sonrhais já haviam embandeirado o trono com a expulsão do régulo mandinga; a oeste, os fulas, segundo as várias facções, tratavam de consolidar política e demograficamente a área compreendida entre o maciço de Futa-Djalon a entestar com Massiná, para o norte até ao Futa-Tòrò, embora intermitentemente, numa posse legítima daquilo que a desagregação dos outros lhe dava.
De todo o império restavam apenas pequenos núcleos mandingas desgarrados, sem força suficiente para impor um novo predomínio, cercados por reinos independentes. Do que era antigo só restava, como símbolo de um poder desfeito, Bambuk, reduto homogéneo e rico, à frente do qual esteve até ao seu esfrangalhamento, um "Keta" (Mama Macan), um dos chefes oriundos do ramo dinástico negro, detentor do poder durante muitos anos.
As regiões do leste de Futa-Tòrò, do sul da Gâmbia, do alto e baixo Casamansa, de Patchisse, Maná, Corlá e SanCorlá (estas quatro últimas da Guiné-Bissau), foram as escolhidas pelos foragidos mandingas e soninkés para a sua fixação após o desfecho da dramática queda de Mandên.

Há, pois, cerca de 400 anos que a faixa de território designada por Guiné (Bissau) recebeu a massa invasora de tão grandes tradições: a mandinga (islamizada) e a soninké (fetichista), vinda em busca de refúgio seguro que não conseguia encontrar na sua pátria ou imediações.
O mal, de que enfermou Mandên parecia contagioso. Os fulas de Tèrmes e de Massiná, estes durante muito tempo dependentes de mandingas, entraram, também, entre si, em luta pela supremacia de determinadas famílias nobres e pela imposição do credo muçulmano às massas feiticistas, mais conhecidas por fulas pretos, representados por elementos que menos se cruzaram com semitas. Aproveitando estas circunstâncias, os bambaras, vizinhos próximos, invadiram a parte de Massiná habitada por fulas, no segundo quartel do século XVII e subjugaram-nos. Aflitos com o domínio Bambara, iniciaram lentamente o êxodo para o alto e baixo Casamansa, onde a par de colónias mandingas já existiam agregados fulas, uns procedentes do Tèkrur (fulas pretos) e alguns de Tèrmes.
Durante o século XVIII assiste-se ao desmembramento dos regulados fulas do Futa-Tòrò pelas emigrações constantes para o sul, abrangendo a Gâmbia, alto e baixo Casamansa até à Guiné, fugindo às perseguições dos muçulmanos que impunham a aceitação do seu credo religioso pelas massas fetichistas, nomeadamente do bloco de "fulas pretos".
No final do século XVIII, "fulas pretos" procedentes de Toro e alguns de Búndu, iniciam, com a sua descida para o baixo Casamansa, a penetração na Guiné, com enorme intensidade, devidamente autorizados pelos mandingas, senhores do Gabú e de grande parte do Firdú.
Começa o século XIX e com ele novas migrações de "fulas pretos" (feiticistas) de Toro e de Búndu, estes em maior número; os primeiros, dirigindo-se para o sul, e os segundos para oeste, cada um procurava fugir à acção dos pregadores muçulmanos, internando-se em regiões onde a tolerância fosse um facto, porque até os próprio irmãos de raça (os fulas saídos de cruzamentos mais aturados com semitas brancos, maometanos intolerantes) faziam-lhes uma guerra sem tréguas. Desta onda migradora também beneficiou o território da Guiné Portuguesa.
Em todas as áreas referidas, existiam facções, maiores ou menores, de "fulas pretos", relativamente em boas relações com djôlofos e mandingas, que, imperando, autorizavam a fixação, talvez esperançados em apoderar-se pela torça das grandes quantidades de gado de que as hordas emigrantes se faziam acompanhar.
Ficam assim estabelecidas as direcções prováveis seguidas pelas massas mandingas e fulas em épocas distintas mas por motivos semelhantes, durante os períodos de migrações fixados nos séculos XVI aos primeiros anos do XIX, isto no tocante às que penetraram no território da Guiné.
De uma maneira geral foi abordada a parte histórica que mais interessa ao povo em questão, o mandinga, até à sua entrada na colónia. Daqui por diante só serão considerados factos ocorridos aquém-fronteiras, estes mesmos divididos em duas partes: a que podemos dar a designação de "Lutas religiosas e de predomínio entre negros" e a que diz respeito à "Oposição ao domínio da civilização europeia".
Certamente, os mandingas, após o seu estabelecimento na Guiné (Bissau), quiseram fundar um grande Estado político. Essa ideia, porém, não tomou vulto porque, fraccionados em grupos relativamente pequenos, se fixaram muito distantes uns dos outros, sem condições para obter uma rígida unidade política.
Os territórios formados, com as variadas designações, no Gabú, em Bafatá, em Farim e mais tarde em todo o Oio, dão uma ligeira impressão do que deveria ter sido o desenvolvimento primitivo.
A falta de dados escritos que ligassem os vários factos ocorridos e, ainda, a imensidade de personagens que actuaram nesses pequenos Estados, obrigam a pôr de parte a observação sobre cada um de per si, para tomar como ponto de partida só o bloco mandinga, como sendo o único que interessa ao caso vertente.
Com a necessária permissão dos mandingas, começou (fins do século XVII ou início do século XVIII), como já ficou dito, a entrada de grupos de fulas pretos (feiticistas) para se fixarem no Gabú. Como eram portadores de bastante gado, nomeadamente vacum, os mandingas viram neles excelente fonte de rendimento, num futuro próximo, tanto mais que a autorização para a feitura de casas dependia do pagamento de determinado tributo, e condicionado o levantamento de tabancas em lugares vizinhos da "reinança". Mas tudo foi aceite pelos fulas porque representava menos do que as atrocidades dos maometanizados.
Anos depois, quando as migrações seguintes avolumaram, as massas fulas, mandingas e soninkés lançaram sobre os "hóspedes" uma exagerada tributação, exercendo sobre eles um despótico poder na administração da justiça com a imposição de pesadas penalidades por insignificantes delitos.
Estas prepotências eram admitidas pelos fulas porque a pequenez do seu número não permitia sequer uma reacção contra a vexatória dominação a que se tinham sujeitado.
No seu espírito foi-se vincando, no entanto, a ideia da revolta e até, talvez, de uma possível desforra.
Todos os estratagemas que pudessem engendrar cabiam perfeitamente no meio de tanta crueldade, desde que fossem destinados a sacudir o jugo mandinga, já nessa altura absolutamente insuportável.
À falta de outro pretexto, os fulas, com as suas habilidades políticas, fizeram-se convertidos ao islamismo, para assim poderem convencer os fulas do Futa, então principais dominadores dos povos habitantes das regiões limítrofes, a prestar um auxilio precioso para o esmagamento dos mandingas, transformando-os de senhores em vassalos.
A tendência natural proveniente dos cruzamentos mais demorados com semitas brancos tornou os fulas do Futa-Djalon os mais fervorosos propagandistas da religião de Maomé, acobertando assim a cobiça de predomínio com um suposto altruísmo.
Foi a estes que os fulas pretos de Sancorlá pediram protecção, esperançados sempre no poder guerreiro do soberano de Timbó, então principal departamento do Futa.
"Almami" Humarú, assim se designava o rei do Futa, suserano de oito chefados (Fugumbá, Buriá, Lâbé, Kohin, Kêlâbé, Timbi, Kôlâdé e Lêhibâlá) dispunha de grandes recursos, mas nessa altura, entretido com conquista de maior valia, não podia prestar os socorros solicitados pelos fulas pretos, no sentido de bater os soninkés. Entretanto, passados alguns anos, em satisfação de constantes pedidos dos fulas de Sancorlá, organizou um corpo de soldados composto de efectivos de cavalaria, infantaria e carregadores de azagaias, estes calculados em 6.000 (escritos árabes), e veio sobre Sancorlá.
Vindo por Firdú (baixo Casamansa) entrou em Sancorlá, por volta de 1849 (século XIII da Hégira) e dirigiu-se a Bère-colon, onde Cabu Soncó, chefe soninké, tinha concentrado tropas numa paliçada de dimensões consideráveis.
Recusadas as condições de vassalagem impostas pelo régulo de Futa, travou-se grande combate que acabou pela derrota dos soninkés. O recontro foi violento e nele o régulo fula perdeu o grosso da sua cavalaria.
Destruída a povoação de guerra, "Almami" Humarú regressou a Timbó, deixando Sancorlá na posse dos fulas pretos, orientados, por grupos de Futa, com ordens expressas para dispensarem aos feridos e prisioneiros o tratamento compatível com a sua situação (sic)!
Foi este o primeiro recontro que merece a designação de batalha, porque os anteriores resumiram-se a ligeiras escaramuças.

Esta submissão dos soninkés (parte deles) aos fulas pretos acirrou o ódio dos restantes mandingas que ainda apertaram mais as medidas de perseguição sobre os habitantes fulas da parte não atacada, Patchisse e Patchana, entre outras.

Por volta de 1854, sempre na sanha de conquistar adeptos e bater mandingas, um régulo de Labé, Alfa Ibrahima Maudó, foi encarregado pelo soberano de Timbó "Almami" Humarú, filho do que fez a guerra de Bère-colon, de sondar as possibilidades de resistência dos soninkés de Gabú, pelo que entra nesta região, mas com pouca permanência e sem ter procurado impor-se pelas armas.
Segue para Nhampaio (baixo Casamansa) e ali bateu um núcleo soninké, matando Mansa Uai, seu chefe. Não contente com isso, Alfa Ibrahima estendeu a sua penetração até à Gâmbia em cobrança de tributação imposta aos povos vassalos de Timbó, deixando, contudo, parte das tropas e a família em Nhampaio. Durante a viagem para a Gâmbia as tropas foram atacadas por uma epidemia de varíola que dizimou a sua maior parte, obrigando-o a regressar para Labé, directamente, por outro itinerário.
Os soninkés vizinhos, conhecedores destes acontecimentos, dirigiram-se a Nhampaio onde massacraram as tropas, aprisionam as mulheres e conduzem-nas a Tabá-Djan (Maná).
Este desastre, considerado em Labé como o produto da imperícia de Alfa Ibrahima, causou profunda consternação. Em sinal de sentimento o "Almami" decreta a suspensão, por 7 anos, de quaisquer expedições a terras de "kafirós" (kafires, do árabe). Nesse intervalo dá-se o falecimento de Alfa Ibrahima, bastante desgostoso e desmoralizado.
O seu sucessor, Braima Maúdó, régulo de Labé, organizou um corpo de tropas destinado à libertação das mulheres fulas aprisionadas em Nhampaio. Mas receando um revés dirigiu-se à Gâmbia onde estabeleceu um acordo com o régulo Bacar Sahàda, a fim deste lhe prestar auxílio. Aceites as condições, vêem os dois sobre Tabá-Djan, centro de actividade de Farani, guerreiro soninké, tido como grande estratega. Depois de algumas horas de combate os soninkés renderam-se, entregando as mulheres e prestando vassalagem. Bacar Maúdó estabeleceu-se pelo espaço de dois anos em Tabá-djan em companhia do régulo gambiense Bacar Sahàda, porque, teve medo de novas investidas dos soninkés, com as consequências das de Nhampaio.
Durante a estada em Tabádjan, coadjuvado pelo referido Bacar Sahàda, fez uma incursão a Patchisse, território governado pelo soninké Mussá Baman, com um recontro na povoação de Kutan (Guiné Francesa). As baixas foram maiores no exército fula, porquanto, numa defesa heróica, os soninkés não chegaram a ser desalojados da paliçada.
Pouco tempo depois do combate de Kutan, o régulo da Gâmbia retirou-se, o mesmo acontecendo a Braima Maúdó.
Os "fulas pretos" animados pelos bons resultados das operações dos de Futa, solicitaram novamente o auxílio de "Almami" Humarú para tentar a batida definitiva dos soninkés.
Reunidos 32.000 homens, dos quais 12.000 cavaleiros, aquele régulo de Timbó fez a concentração de tropas em Kitchar (imediações de Kadé), acompanhado pelo citado Braima Maúdó e por Tcherno Nhamadjo, homens de sua confiança. De Kitchar mandou três emissários a Cam-Salá, também conhecida por Durubâle (Gabú), a fim de se entenderem com o chefe de guerra Djanké Ulli, desde que este quisesse prestar vassalagem a Timbó e a população se convertesse ao islamismo.
Djanké Uáli, alcoólico inveterado, de temperamento sujeito a frequentes cóleras, recebeu mal os parlamentares e afirmou peremptoriamente a sua recusa perante quaisquer tentativas de submissão ao Futa ou de conversão.
Daí em diante dispôs-se a receber o ataque do régulo de Timbó, e, por isso, tratou de concentrar todas as forças possíveis em Cam-Salâ, chamando para tanto todos os chefes da mesma raça, mesmo os mais distantes; veio gente do baixo Casamansa e de toda a restante área de Gabú.
Da resposta levada pelos parlamentares a "Almami" Húmaru, resultou o levantamento das tropas de Kitchar para o Gabú, onde entraram pela região de Patchisse. Depois de longa marcha acamparam próximo a Cam-Salá (a dois quilómetros, dizem os árabes). Daqui, novos parlamentares foram enviados a Djanké, mas estes ainda com maiores poderes para aceitar as condições da paz, desde que não ofendessem os princípios estabelecidos pelo "Almami". Como era de esperar foram mal recebidos.
Então, os soninkés, desejando conhecer as forças que acompanhavam o chefe fula, enviam um sobrinho de Djanké de nome Turá Sàni, ao acampamento, sob o disfarce de impor condições em que poderiam capitular. Turá regressou com os cavaleiros que o acompanhavam e, no caminho, fez um embrulho de areia, utilizando para esse fim um pano indígena; na presença dos "homens grandes" entregou o pano a seu tio, dizendo-lhe: "conte os grãos de areia e pelo seu número saberá os dos soldados do régulo fula". Insultado, por isso, pelo tio e pelos "homens grandes" e apodado de cobarde, Turá saiu sem nada responder. Impassível a tudo, apenas fez sentir que não desejava assistir ao massacre dos seus irmãos de raça, uma vez verificada a inferioridade numérica dos soninkés. Fugiu nessa mesma noite, com alguns companheiros e mulheres, em direcção a Caniço (Farim), onde fundou a povoação de Bissari.
Depois das habituais cerimónias religiosas, levadas a efeito depois do sol declinar no zénite (no dia 19 de Maio de 1864, segundo os escritos árabes), os fulas do Futa começaram a tocar o "Tabuléu" (grande tambor de guerra), dando o sinal de prevenção para o ataque. A gritaria dos cantores e o barulho dos tambores indicavam os grandes preparativos para o combate.
Os corpos de exército divididos sob os comandos de "Almami" Humarú, Tcherno Nhamadjo e Braima Maüdó, encaminharam-se em direcção à paliçada de Cam-Salã, na respectiva ordem de combate. A infantaria acometeu a paliçada com tiros de espingarda (de pederneira e de espoleta) e azagaias, respondendo os soninkés com um ataque impetuoso a ponto dos fulas recuarem. Neste momento estabeleceu-se certo pânico nas linhas fulas. No entretanto, "Almami" Flumarú assume uma atitude de heroicidade, correndo perfeitamente a descoberto de espada desembainhada até às proximidades do cercado. Os fulas então, recobraram o ânimo e caíram sobre o inimigo com uma verdadeira chuva de azagaias e tiros. Iniciaram mesmo a escalada do entrincheiramento, mas a posição em que se encontravam, em relação à dos soninkés, fê-los desistir.
Ao pôr-do-sol tudo mostrava que a vitória seria dos fulas do Futa, pois que, encerrados os inimigos no recinto da paliçada, estes já nem respondiam aos tiros. O movimento dentro do cercado sofreu, de repente, uma brusca paralisação. Perante o espanto de todos, os soninkés entoam um canto de guerra com acompanhamento de tambores, sentindo-se, no meio de tudo, o crepitar do fogo e as detonações da pólvora. Tinham resolvido o suicídio em massa, uma vez perdida a batalha, para não sofrerem o domínio dos fulas. Régulos e chefes pereceram quase todos no incêndio, incluindo Djanké Uali, todos embriagados. Renitentes em aceitar a religião imposta, preferiram a morte.
As perdas resultantes do combate e do incêndio, atingiram, por parte dos soninkés, cerca de 1000 indivíduos e dos fulas 750, os prisioneiros foram em grande número, mas uma parte avultada fugiu para o mato.
O medo que se apossou dos fugitivos, devido principalmente às atrocidades dos fulas, foi de tal ordem que esta batalha ficou conhecida na história por "guerra de Turu-Bân", palavras estas que significam, em mandinga, "acabou a sementeira". "Turu-Bân" passou a ser a expressão mais corrente para dar a entender que neste memorável combate foram exterminados quase todos os mandingas, e que, por isso, muito dificilmente se reconstituiriam como povo independente.
"Turu-Bân", também conhecido pelo nome da povoação em que se deu, Cam-Salá, pôs termo ao poder mandinga em todo o Gabú e deu início á dinastia fula, com a nomeação de Alfa Bacar Demba Marun (Marun era o nome da mãe), fula procedente de Fôro-iá, onde reinava, feita por "Almami" Húmaru a pedido do régulo Braima Maúdo e sob a condição de ficar vassalo de Timbó. Alfa Bacar Demba nunca manteve um domínio efectivo no Gabú, porque residindo no Fôro-iá não podia prestar a sua atenção à política daquele território.
Data, pois, de 1864, à volta de 1284 da Hégira, o início da dominação dos mandingas e soninkés pelos fulas, sujeitando-os a um regime de grande opressão para os tentar converter.
Essa árdua tarefa de conversão de indivíduos de ideias religiosas diferentes, teve pequeno resultado a principio. Aferrados às suas crenças, os soninkés, apenas procuraram a adaptação ao ambiente em que passaram a viver, conservando, no entanto, espiritualmente aquilo que a consciência lhes apontava.
O embate produzido por estas duas forças, os sectários de Maomé e os feiticistas, reveste-se de um carácter interessante, olhada a dualidade de aspectos: o da dominação pelo poder temporal e o da dominação pelo poder espiritual. Sobre o primeiro, os fulas conservaram o regime político que existia, substituindo apenas as autoridades e produzindo imediatamente o desarmamento da população dominada e um aumento de tributação.
Além dos impostos normais, chamemos-lhes assim, impuseram transitoriamente, pesados encargos destinados à indemnização de guerra, tudo satisfeito rapidamente.
No entanto, a dominação pelo poder espiritual tomou outro caminho, porque as imposições feitas pelas armas não lograram uma aceitação íntima, muito embora a obediência em tudo o que respeitasse à prática de actos religiosos fosse um facto. As entidades a quem competia o exercício do culto, constituíram uma novidade no meio feiticista. Porém a persistência dos dominadores foi muito além do que pensavam os dominados e, passados anos, muitos soninkés, por uma questão de lenta transformação operada no espírito ou por meras conveniências, converteram-se quase radicalmente.
Muitos, contudo, talvez os mais fortes de espírito ou os mais arredados da actividade fula, resistiram bravamente ao choque do islamismo e continuam inabaláveis na sua profissão de fé: uma parte de Patchisse e uma facção do Oio.
Convém no entanto acentuar que, por uma questão de pausada absorção ou porque se aperceberam de algumas das vantagens da conversão, os soninkés tendem a integrar-se numa grosseira modalidade religiosa, criada para as suas conveniências, num misto do islamismo e do feiticismo. Suprimiram o uso de bebidas alcoólicas, o consumo da carne de porco, puseram, talvez com reserva, de parte as peregrinações ao "Iram", embelezaram-se com os amuletos de couro e metal dos muçulmanos, mas entretanto, entre estes convertidos têm-se verificado actos de regressão às primitivas práticas religiosas em consequência de certos acontecimentos na sua vida que o espírito não apercebe com facilidade. Mesmo assim as idas ao "Iram" são revestidas de cautelas para que o vulgo não murmure.
Pouco ou nada se conhece acerca da acção desenvolvida pelos fulas após "Turu-Bân". No entanto sabe-se que chegaram à Guiné, ainda que ligeiramente, as consequências das pilhagens dos chefes Bubakar Sahàda, de Bundu e Alfa Mòló, de Firdú (1878-1881), em todo o Casamansa, isto a avaliar pela entrada nos territórios dos fugitivos, receando a condição de escravos.
Mais tarde, vem Mussá Môló, filho de Alfa Môló, que, de caçador e assassino de seu tio Bacar Demba e três sobrinhos, se proclamou rei de Firdú (1881-1882), fazendo-se pretendente aguerrido a um império tendo como limite sul o rio Corubal. Na memória de alguns indígenas ainda estão gravadas as atrocidades praticadas sobre as populações mandingas e fulas, durante as correrias em território da Guiné, vindo do Fulandu por Sediou até Gussará (Bafatá), visitar a sepultura de seu pai Alfa, onde deixou como sua autoridade o antigo chefe de seus escravos leró Biri, pai do régulo Mamadu Alfa (1894-1896), e que, talvez por posse pacífica e contínua, ali foi deixado. Por todo o alto e baixo Casamansa até à Gâmbia deixou vastamente assinalada a sua passagem por actos de terrorismo, incêndios e assaltos.
Submetido mais tarde pela força, Mussá Môló rendeu-se à evidência dos factos e, modesto e ignorado, vulgar chefe de família, foi residir para a Gâmbia sob as vistas do governo inglês.

Agora tratemos da segunda parte deste capítulo: a referente à "Oposição ao domínio da Civilização Europeia".
No final do século XIX, período da maior actividade dos portugueses no interior da colónia, foi necessário pôr cobro a determinados abusos praticados por soninkés, que insistentemente recusavam a intromissão no seu meio.
Assim, no Oio, em Janeiro de 1891, um corpo de Caçadores 1 destrói a povoação de Némanacó e mais seis. Em 1897, em Fevereiro, as forças militares, já então com destacamento permanente no Oio, infringiram um revés aos soninkés, depois de vários e encarniçados combates.
Em 1902 os soninkés obrigam a novas operações militares.
Em 1908, no Cuór, Infali Soncó, coadjuvado por seu sobrinho Boncó Sanha (régulo de Badora, mercê dos portugueses) subleva-se, tendo sido necessário desencadear várias operações militares para o submeter.
Mesmo perante os constantes fracassos, os soninkés não desistem de revoltas contra a ocupação e, por isso, em 1910, a seguir a uma outra tentativa, os portugueses tiveram necessidade de lhes aplicar um correctivo, muito embora, mais tarde, se verificasse a insuficiência deste, em face das atitudes assumidas.
Vem o ano de 1912 e com ele Teixeira Pinto, que imediatamente dirige a sua atenção para o Oio. Interna-se nesta região disfarçado de inspector comercial estudando as condições estratégicas e de defesa dos soninkés.
Conhecidas as povoações melhor defendidas e as condições económicas dos indígenas, iniciou a marcha sobre os soninkés em 14 de Maio de 1913, batendo as povoações de Cambajú, N'aron e Dandú (fim do mundo, em Mandinga), da área de Bissorã, seguiu pelo Oio dentro até Gendú e toda a margem esquerda do rio Farim.
Rapidamente batido o Oio, pois a 27 de Junho daquele ano foi dissolvida a coluna de operações, Teixeira Pinto dirigiu a sua actividade para outros pontos de rebelião.
Com a submissão daquele núcleo, o Oio, operou-se, imediatamente, uma transformação do espírito do indígena. Compenetrou-se do domínio português, uma vez verificada a insistência na ocupação dos territórios, entrou pelo caminho do desenvolvimento agrícola, mostrando-se, posteriormente, pacífico.
A ocupação do Oio, devido às medidas administrativas adoptadas, não satisfez inteiramente as necessidades da sua população. Antes do território ter sido batido pelos portugueses, já os indígenas tinham a sua organização política restringida a chefes de tabanca, cada um destes com limitada ingerência na vida dos habitantes. Os soninkés haviam conhecido em "Turu-Ban" até onde podia chegar a nefasta actuação dos grandes chefes de território e, assim, trataram de se integrar dentro daquelas modalidades, pondo-se a coberto de novos predomínios, mesmo dos da sua raça.
Cada aglomerado de população (tabanca) administrava independentemente os seus actos por intermédio de agente (talvez mais como poder moderador), sem atritos nem alterações que prejudicassem a sua vida.
O Governo português resolveu, a título de recompensa pelos serviços prestados, colocar à frente do regulado do Oio (então e propositadamente criado) o tão conhecido Abdul Indjai, djôlofo nascido na Gâmbia, de tribo diferente da que ia administrar.
Abdul, dotado de espírito aventureiro, foi-se insinuando, durante as operações militares em que tomou parte, no ânimo de Teixeira Pinto a ponto deste oficial promover junto do Governo a concessão de algumas prerrogativas, entre as quais a respectiva investidura como régulo do Oio.
Para tal lugar havia deitado as vistas em 1913, isto a avaliar pelo que ele mesmo chegou a afirmar.
Esperto e com fama de valentão, pouco tempo depois de assumir a direcção daquele povo, instituiu o grupo de célebres "ejauras" (nome dado à quadrilha de suruás, que compunha a sua corte) para poder pôr em prática o preconcebido plano de assassinatos e roubos, todos habilmente orientados do seu quartel-general em Mansabá.
Quatro anos passados à frente desse formidável bando de criminosos, bem armado e municiado, julgou-se com força para fazer imposições ao Governo que ali o colocara e que, num dado momento, em vista de tantas solicitações da autoridade administrativa, se preparou para pôr cobro aos desmandos.
O seu carácter de bandido e ladrão astucioso estava descoberto e, portanto, só restava jogar com o amo a ultima cartada: mostrar-se armado com grossos efectivos que acudiam do Senegal ao Oio - fonte inesgotável de gado e dinheiro - exibidos grotescamente em Farim, e fazer exigências atentatórias da autoridade colonial, pondo em causa os direitos de soberania.
Nada foi aceite e as tropas portuguesas marcharam para o Oio em socorro de uma coluna bastante dizimada e empobrecida por Abdul.
A breve trecho, a Calábria africana, o Oio, sentiu o peso das operações militares iniciadas em Julho de 1919 e terminadas com a prisão de Abdul e sequazes, levada a cabo a 4 de Agosto no meio da satisfação dos habitantes.
Nada justificava a atitude de Abdul. Nem aquelas hipotéticas "razões subterrâneas e inconfessáveis" que alguém pretendeu apresentar como causa de tão graves delitos.
Depois de tanto crime, tanta luta de autoridades administrativas e militares para os evitar, e tanta fanfarronada de Abdul que dizia "que desta vez morreria mas não se entregava", tudo acabou por uma prisão vulgar, miserável até, sem um gesto de revolta íntima contra tão ridícula aventura.
E com Abdul acabou a luta contra os portugueses.

* De Henry Labouret "Terre et La Vie".
"Geografia Antiga e Moderna", Botelho (Ed. 1878)
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Nota do editor: adaptação do texto da responsabilidade do editor.

Coisas que você pode fazer a partir daqui:

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Guiné 63/74 - P2789: Notas de leitura (9): Costa Gomes: uma biografia rigoro...

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via Luís Graça & Camaradas da Guiné de Luís Graça em 23/04/08

Título: Marechal Costa Gomes: No Centro da Tempestade.
Autor: Luís Nuno Rodrigues.
Editora: A Esfera do Livro, Lisboa.
Ano: 2008.
Colecção: História Biográfica
Preço: c. 27 €
Nº páginas: 408 + 24 extratextos
Encadernação: Cartonado

COSTA GOMES,O MARECHAL QUE NOS AJUDOU A FUNDAR ESTA REPÚBLICA
por Beja Santos

Os seus detractores chamaram-lhe "Chico Rolha" ou "O Cortiça" mas também o "Agente dos Vermelhos". No entanto, foi a figura decisiva de uma revolução, a última que tivemos no século passado, que moderou sem nunca ter tido aspirações a ser revolucionário.

Foi indiscutivelmente o oficial general mais prestigiado e brilhante das Forças Armadas Portuguesas no século XX, mas nunca deixou de pensar como um civil, sem, contudo, ter deixado em momentos decisivos de agir como o garante da dignidade dos militares. É considerado uma figura modelar ao nível da estratégia, sobretudo em Moçambique e Angola, mas previu que não havia solução militar para os conflitos armados nos três teatros de guerra. Quando, em Agosto de 1973, Caetano sugeriu o abandono discreto da província da Guiné, reagiu desfavoravelmente, lembrado da tragédia de Goa.

Homem da matemática, nunca escondendo a sua formação católica, esteve no centro dos acontecimentos políticos e militares entre 1974 e 1976. Suscitou invejas, ódios, acusações e, logo que possível, muitos políticos que tanto lhe deviam, tudo fizeram para procurar apagar ou distorcer a marca indelével que ele deixou na História de Portugal.

Marechal Costa Gomes, no centro da tempestade é a biografia que lhe consagrou Luís Nuno Rodrigues, um relato rigoroso e muito acessível da trajectória de um militar-político, que indiscutivelmente conseguiu conter as tensões extremadas do Verão Quente de 1975, evitando o perigo da guerra civil e manobrando com êxito para que se viesse a fundar o regime democrático em Portugal (A Esfera dos Livros, 2008) (1).

Francisco da Costa Gomes tornou-se presidente da República quando António de Spínola renunciou ao cargo, em 30 de Setembro de 1974, em consequência de uma prolongada tensão com as forças do MFA, sobretudo a sua Comissão Coordenadora, e depois de uma tentativa falhada em criar uma onda de simpatia para o seu projecto autocrático.

Tratando-se de uma biografia, o autor descreve as principais etapas da educação e formação do presidente da república: o Colégio Militar, os seus primeiros passos na carreira militar, a sua missão em Macau (etapa fundamental para o prestígio que granjeou na hierarquia), depois a sua passagem pela NATO, a sua nomeação como Subsecretário de Estado do Exército, onde teve um papel capital na reorganização das forças ultramarinas, nos finais dos anos 50 e início dos anos 60. Teve igualmente um papel discreto nos acontecimentos do pronunciamento militar conhecido por "Abrilada" ou "Golpe Botelho Moniz", em Abril de 1961.

Afastado do poder, foi "recuperado" quando eclodiu em todo o seu fragor a guerra colonial, a seguir a 1965: segundo-comandante da Região Militar de Moçambique, de 1965 a 1967, e depois seu comandante até 1969, tendo indiscutivelmente travado o esforço militar da FRELIMO; em 1970 parte para Angola onde exerceu as funções de comandante da Região Militar e onde vai permanecer até meados de 1972, conseguindo assinaláveis sucessos na modernização do dispositivo militar, atraindo e formando tropas locais, reduzindo a guerra de guerrilhas a quase nada. Em Setembro de 1972 foi nomeado chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas.

A partir de 1973, quando estala o conflito entre o Governo de Marcelo Caetano e os capitães do Quadro Permanente, Costa Gomes aparece como defensor dos interesses destes oficiais, ouvindo-os e alertando os ministros do Exército e da Defesa para as razões do descontentamento. Criado o Movimento das Forças Armadas, Costa Gomes foi o general mais votado para surgir como líder do Movimento. Enquanto Spínola se mantém activo e acolhe regularmente um grupo de oficiais, Costa Gomes deliberou manter o seu distanciamento.

Luís Nuno Rodrigues escreve com documentação segura tudo quanto se vai passar ao nível das relações militares com Marcelo Caetano até ao 25 de Abril de 1974: a amizade entre Spínola e Costa Gomes e as suas carreiras diferenciadas, em que pesou o princípio do desmoronamento do teatro da Guiné, em 1973, e que revela a contingência do colapso militar. Costa Gomes visita a Guiné nesse momento crítico e propõe a redução da área efectivamente ocupada, proposta recebida desfavoravelmente por Spínola. Spínola pede a demissão de governador e comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné e é substituído.

A leitura de Marcelo Caetano, como se disse acima, ainda era mais drástica, pois propunha o acantonamento das Forças Armadas à península de Bissau, o que também não foi aceite, já que parecia configurar-se como uma manobra aparentada com o desastre da Índia, com a consequente hipótese de haver acusação de cobardia militar.


A autorização da publicação do livro de Spínola, Portugal e o Futuro, foi o detonador para as movimentações militares, até então circunscritas às reuniões clandestinas dos jovens oficiais. Caetano entrega o poder a Spínola no convento do Carmo, mas não houve equívoco no que os militares pensavam da personalidade de Costa Gomes, incapaz de um acto impulsivo e nunca tentado para o poder pessoal.

Enquanto Spínola se emaranha na formação do 1º Governo e nas tensões da descolonização, Costa Gomes viaja pelas províncias ultramarinas e constata que não há margem de manobra para continuar as guerras, em qualquer dos teatros de operações. O conflito de Spínola/MFA é indisfarçável após a queda do primeiro Governo Provisório. A relação entre os dois oficiais generais é de progressivo afastamento, embora, mesmo depois do 28 de Setembro tenham mantido um recíproco bom trato. O 11 de Março mudou tudo.

Nomeado presidente da República, Costa Gomes colocou a descolonização como o principal problema que se punha ao país, continuou um bom relacionamento com o MFA, apaziguou conflitos levantados ao nível da sua ala radical, é um período de inúmeros encontros internacionais com políticos das principais áreas de decisão, sobretudo na Europa e Estados Unidos.

A sua voz e a sua serenidade revelaram-se da maior importância perante o acumular de preocupações com a degradação da situação interna. Com efeito, a partir de Outubro e Novembro de 1974 vive-se numa atmosfera de permanente sobressalto, de golpismo, de crescimento de utopias, de tensões entre o PS e o PCP até se chegar ao 11 de Março de 1975, onde a postura de Costa Gomes foi decisiva para a manutenção das propostas iniciais do MFA quanto a eleições e à formação de uma Assembleia Constituinte.

Assim se chega ao Verão Quente e o autor vai destacando ao longo desses meses determinantes as declarações de Costa Gomes que evidenciam um pensamento firme quanto à manutenção do pluralismo partidário. Lendo à distância dos anos estas declarações, é incontestável uma deliberada postura de Costa Gomes, pautada por uma elevada cautela na redução dos conflitos num período em que o PS e o PPD saíram do Governo, em que se forma o V Governo Provisório, em que os boatos de todos os matizes proliferam no país, em que se estabelece uma ponte aérea para retirar os fugitivos de Angola, em que toda a gente de manifestava a qualquer hora do dia e da noite e em que o MFA se cindia em grupos cada vez mais irredutíveis.

Assim se chegou ao 25 de Novembro, talvez o ponto culminante da ágil capacidade de manobra de Costa Gomes, bem sucedido em travar os confrontos militares e políticos. A documentação invocada por Luís Nuno Rodrigues é de inexcedível importância, e é base irrefutável do papel desempenhado por Costa Gomes.

Trata-se de uma biografia marcada pela elegância das atitudes do biografado, escusando-se a destacar a mesquinhez dos políticos que tudo fizeram para a apoucar o papel de Costa Gomes na consolidação do processo democrático, ou as manobras para o impedir de continuar a servir Portugal, ele que possuía tantos talentos e que inclusivamente ganhara prestígio na cena internacional.

Luís Nuno Rodrigues ganhou a aposta em relançar o mais prestigiado militar português do século XX no seu papel de presidente da República naqueles momentos tão conturbados que se viveram entre 1974 e 1976. O que esta biografia deixa em suspenso é saber como e quando Portugal irá reconhecer na plenitude o papel desempenhado por Costa Gomes na fundação da nossa República.
__________

Nota dos editores:
(1) Vd. poste de 16 de Abril de 2008 > Guiné 63/74 - P2765: Convite (4): Lançamento do livro Marechal Costa Gomes no Centro da Tempestade (Esfera dos Livros, Lisboa)

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Entrevista ao Inspector Óscar Cardoso sobre o relacionamento da PIDE com a guerra em África

Entrevista ao Inspector da PIDE Óscar Cardoso

Entrevista ao Inspector Óscar Cardoso sobre o General Humberto Delgado

Rui Ramos, *Haverá sangue?*, hoje no *Público*. Extractos:

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via Da Literatura de Eduardo Pitta em 23/04/08

Rui Ramos, Haverá sangue?, hoje no Público. Extractos:


«Afinal, não foi preciso a bomba. Menezes foi-se embora. Disse ele que por causa da "guerra interna". E nós, curiosamente, acreditamos: não no motivo da saída, mas na guerra que eles, no PSD, dizem fazer uns aos outros. Mas alguém viu sangue?

Que eles não gostam uns dos outros é óbvio. Que tentam limitar-se e inutilizar-se uns aos outros também. Mas onde estão os confrontos em órgãos directivos, como na última transição do CDS? Os deputados expulsos, como no PCP? Os candidatos dissidentes, como aconteceu ao PS nas presidenciais e em Lisboa? Ou as grandes cisões, como no tempo de Sá Carneiro? Por enquanto, a actual "guerra interna" no PSD arde sem se ver, como o fogo de Camões. [...]

É que se os rivais de Menezes perceberam entretanto o "erro" de terem deixado Mendes perder, também Menezes percebeu o "erro" de ter ganho a Mendes. [...] A sua saída é, na prática, uma proposta de negociação. Por ele, só haverá guerra agora, se não arranjar quotas devidamente honrosas nas célebres "listas". Têm um mês para ficarem todos mais ou menos contentes. E como as querelas são sobretudo pessoais, sem nada de ideológico ou "social" (ao contrário do que gosta de imaginar a imprensa, para dar profundidade ao que a não tem), não é impossível um entendimento: tudo é uma questão de equilíbrio e bom senso.

E não, não é a interpretação que é cínica, é o PSD que é assim: uma meada de calculismos, da qual ninguém tem o fio. A pressão sobre Manuela Ferreira Leite para se candidatar revela o que procuram as gentes do PSD: ninguém espera uma Thatcher, mas uma
"federadora", uma santa da "unidade" e "pacificação", supostamente abençoada em Belém. Se Ferreira Leite se deixar propor nesses termos, o PSD terá à frente uma espécie de "presidente da mesa do congresso" glorificada, para arbitrar entre personalidades e facções. É, aliás, o que mais convém a um partido que existe sobretudo como uma federação de autarquias, naturalmente avessas a lideranças nacionais demasiado exigentes.

Ficará Santana de fora destes eventuais compromissos? Nesse caso, talvez haja algum sangue. Mas apenas o necessário para expelir um agitador diminuído. Quanto ao mais, os que desejam grandes debates, grandes líderes, grandes "diferenças" em relação ao PS devem talvez sentar-se, porque vão ter de esperar. [...] Até porque o que está em jogo em 2009, do ponto de vista da elite do partido, pode não ser suficiente para justificar uma "guerra interna" a sério.

Seja qual for o novo chefe, não faltará o entusiasmo inicial da praxe — como houve com Menezes. Os imaginativos hão-de conseguir ver Sócrates, com a ajuda da "crise", já diminuído ou até apeado — como também conseguiram ver com Menezes. Sobreviverão essas esperanças — como não sobreviveram com Menezes? Talvez não, e por duas razões. Em primeiro lugar, porque o PSD continua a tentar responder à mesma pergunta do PS (como conjugar o modelo social com a competitividade?), e condenado por isso a chegar a uma resposta mais ou menos semelhante. Ora, não podendo dizer, no fundo, que fará diferente, também não conseguirá convencer ninguém, devido ao seu passado recente, de que fará melhor. Sem uma catástrofe, Teixeira dos Santos vencerá sempre Ferreira Leite. Em segundo lugar, quanto mais credível a liderança do PSD, mais o PS poderá suscitar voto útil à esquerda. O que perder num lado ganhará no outro. Daí que, muito provavelmente, um PSD reforçado seja uma notícia pior para Louçã e Jerónimo do que para Sócrates.»

terça-feira, 22 de abril de 2008

PATRIOTISMOS - Faces do Batalhão 114 em Nambuangongo, 1961.

Enviado para você por Rui Moio através do Google Reader:

via ABRUPTO de JPP em 21/04/08
PATRIOTISMOS



Faces do Batalhão 114 em Nambuangongo, 1961.

Não tive ocasião de ver os episódios da série sobre a guerra colonial que o Joaquim Furtado fez para a RTP quando passaram originalmente. Como às vezes me acontece quando quero mesmo ver alguma coisa e não tenho tempo para a ver toda, todos os episódios, toda a série, adio para depois e acabo por não ver. Disfunções. Faltas de tempo. Pouco interessa. Tenho visto agora alguns episódios referentes ao ano de 1961 e junto-me tardiamente ao coro dos louvores sobre a qualidade e a importância da série, a primeira a mostrar o drama da guerra colonial nas suas componentes testemunhal e visual, exactamente as mais "poderosas" e as que mais faltavam no nosso conhecimento. É uma grande série documental de televisão em qualquer sítio do mundo e, no caso português, uma contribuição para a nossa autognose que não se vê com indiferença. Já é história, mas ainda não é história - é a nossa história.

Mas há mais. Ela coloca-nos perante o melhor e o pior de nós mesmos, não no passado longínquo para onde fugimos quando queremos encontrar as virtudes que faltam no presente, mas para acontecimentos, atitudes, que nos são contemporâneas, sobre as quais poderíamos também testemunhar porque aconteceram de algum modo connosco. Eu saio da visão daqueles episódios com um forte sentimento de admiração por quem nunca pensei tê-lo assim: pelos nossos soldados, por aqueles portugueses pequenos e desajeitados, com fardas bizarras e atamancadas, que poderiam parecer que estavam no filme errado e que pediam para os tirarem dali. Não, pelo contrário, estavam no filme certo, num filme trágico, mas certo.

Sem deixar de ser o que sou, e o que era, sem dúvidas existenciais sobre o meu anticolonialismo nem a minha oposição à guerra, dou por mim a ver os documentários de Joaquim Furtado e a identificar-me com aqueles soldados e oficiais portugueses que em 1961, quase sem nada, foram mandados para uma guerra para que não foram preparados, perdidos no meio das matas perante um inimigo ou invisível no meio do capim, ou demasiado visível nos seus ataques suicidas em massa, sem armas capazes, sem munições, sem comida, e que avançavam para hastear a bandeira portuguesa em meia dúzia de edifícios desventrados no meio de terras do café que lhes deveriam ser totalmente estranhas.



Está lá o colonialismo, mas não é nos soldados, é nas ridículas, então e hoje, afirmações de "portuguesismo" dos negros de Angola, a cantar uma estranha A Portuguesa, a saudar a bandeira, a servir de decoração à tardia mistificação que éramos todos portugueses quando ainda ontem éramos uns portugueses, outros indígenas: uns pretos e outros brancos. Isso é que soa a falsete e era falsete, porque em 1961 não havia negros bons a não ser na propaganda. A série de Joaquim Furtado mostra uma realidade que continuamos a esconder, é que aos massacres da UPA se seguiram massacres perpetrados pelos portugueses, pelos colonos e pela tropa, a que não escapava um racismo instrumental onde o único negro em que se podia confiar era no negro morto. Foi assim em 1961, e é um serviço para a nossa memória colectiva que se conheça como foi.

Voltemos aos soldados. Percebe-se que aqueles homens estão lá profundamente convencidos de que estão a defender uma realidade que para eles, ali em Angola, no mais estranho dos lugares, não é etérea - estavam a defender Portugal. Portugal pelo qual estão dispostos a sacrificar-se, a correr riscos e a morrer. O que os motiva é aquilo que é um dos sentimentos mais estranhos, complicados, mortíferos que há, o patriotismo. E percebe-se que estão motivados. Não é a tropa de 1970, é a tropa de 1961, os primeiros contingentes chegados a Luanda, recebidos pelos colonos desesperados e atirados no dia seguinte para as picadas do Norte.

Olhando aqueles homens, rudes, vindos de um Portugal então muito rural, desajeitados, com capacetes de aço feitos para a II Guerra Mundial, no meio das picadas, ainda tendo como obstáculos principais árvores cortadas e sem minas, os aviões e avionetas de um catálogo de velharias, vendo a face do medo que os homens corajosos têm, sentimo-los não só próximos, nossos, mas como gente que merece um reconhecimento que não lhes demos porque ficaram do lado que perdeu. Só que também nós perdemos com eles e não o queremos reconhecer. Num país à míngua de virtude e com um enorme catálogo de defeitos colectivos, lá estão aqueles homens, que mostram que somos capazes, no meio do maior deserto moral como era o Portugal de Salazar, de ter "portuguesinhos valentes", uma frase que diz imenso, tão capazes de uma heroicidade simples como a que louvamos nos de "quinhentos" e que hoje achamos perdida.

Eu olho do lado oposto. A guerra colonial também fez a minha vida, por isso não sou indiferente àquelas imagens e relatos que não o são de tempos normais, mas sim excepcionais. Ali matava-se e morria-se, não é a mesma coisa que ir trabalhar pela manhã, estudar pela tarde, ler um livro, pagar uma conta, ter um engarrafamento ou uma gripe. Aquilo é a sério e onde é que estava eu? Como é que a guerra colonial me "interpelou"?, para usar uma palavra de que os católicos gostavam nos tempos em que era preciso ter compromissos.

Como muitos jovens da minha geração que combatiam o regime de Salazar e Caetano, nunca me passou pela cabeça fazer a guerra. Sabia que, a uma determinada altura, o dilema se colocava e nunca duvidei um segundo sobre o que fazer quando tivesse que prestar serviço militar: fosse em que circunstância fosse, como refractário ou como desertor, iria para o estrangeiro ou para a "sombra" da clandestinidade. Não era sequer um dilema, era uma certeza, sobre a qual nunca hesitei. A guerra colonial não me colocava nenhum dilema, não me "interpelava", sabia o que devia fazer.

Hoje, como não há memória, pode-se pensar que este caminho que milhares de jovens da minha geração tomaram era fácil e cómodo. Não era. Também não era o medo da guerra, porque de um modo geral havia mais coragem em recusá-la do que em fazê-la, era mais um acto de vontade recusá-la do que seguir na onda da obrigação legal, mesmo que contrafeita.
A frase anterior resulta ambígua e permite críticas como a que fez Vítor Dias no Tempo das Cerejas, que são legítimas devido exactamente à frase não ter ficado clara. Não era minha intenção fazer qualquer medição de coragem que seria sempre absurda. O que eu queria dizer é que, no momento da decisão, de ir ou não, a última escolha implicava de imediato mais consequências, a começar pelo facto de se estar a cometer um acto ilegal que interrompia de imediato a possibilidade de se continuar uma vida normal . A decisão de ir era mais passiva. Não penso que neste dilema ir / desertar se possa sobrepor o par coragem / cobardia, mas penso que a decisão consciente de recusa da guerra, com todas as suas consequências, era uma decisão corajosa.

Claro que aqui há, nesta questão levantada por Vítor Dias a sobrevivência de uma polémica, que só os que padecem de memória excessiva se lembram hoje, entre o PCP e a extrema-esquerda na altura, sobre o modo como se devia actuar contra a guerra, ir ou não à tropa, ser refractário ou desertor, desertar onde e como e com quê (com as armas por exemplo).
O caminho da emigração política era complicado, implicava riscos consideráveis para se passar a fronteira, ou as fronteiras, porque havia duas antes de chegar a França, ambas perigosas. Fronteiras que se passava indocumentado, porque a maioria não era autorizada a ter passaporte quando estava em idade de cumprir o serviço militar.



Era o exacto oposto daquilo que hoje se chama uma "carreira", era um caminho de imprevisibilidades. Era, como diziam os pais sábios, "estragar a tua vida". Rompidos os laços com Portugal, que se presumiam sem retorno, o que é que se podia fazer lá fora, muitas vezes com poucos recursos e em ruptura também com a família? No Portugal do início dos anos sessenta, o "estrangeiro" era uma incógnita para um país periférico e isolado e era uma aventura ir para lá. Muitos dos que recusaram a guerra viveram com muitas dificuldades, trabalharam como contínuos, em fábricas, em restaurantes, em hotéis, em aviários, numa profusão de profissões menores e só alguns estudavam com as bolsas que eram dadas pelos países de acolhimento. É verdade que não durou muito, mas ninguém sabia que não iria durar muito. Alguns ficaram para sempre e vivem na Holanda, na França, na Suécia, na Itália, no Reino Unido. Para eles, Portugal perdeu-se de vez.

O que é que movia quem se recusava a fazer a guerra colonial? Ideologia, "anticolonialismo", ser contra Salazar, comunismo, pacifismo, objecção de consciência? De tudo um pouco, mas, bem vistas as coisas, a esta distância, é a mesma atitude que vejo nos homens de 1961 que aparecem nesta série televisiva: patriotismo. Por isso, uma natural proximidade devia envolver os homens desses dois mundos, cada um patriota a seu modo, acima de tudo na disponibilidade de viver uma vida difícil e perigosa por alguma coisa que não era individual, mas estava acima do conforto de cada um.

(Versão do Público de 19 de Abril de 2008.)

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segunda-feira, 21 de abril de 2008

Carta de Rosa Coutinho a Agostinho Neto

O 25 de Abril por Manuel Maria Múrias

COMEMORAR A TRAIÇÃO, A VERGONHA E A COVARDIA

«As comemorações do 25 de Abril tiveram várias vantagens. Em primeiro lugar permitiram que os mais moços se apercebessem bem da infâmia; em segundo lugar porque, apesar da propaganda desenfreada, contribuíram bastante para desmistificar a vergonhosa revolução. Cada um dos seus actores dizendo enormidades, a direita ripostando valentemente. Comunistas e socialistas metendo a viola no saco durante as discussões, para irem falar sozinhos para onde os não contradizem.
Acabou-se com o mito terrorífico da P.I.D.E. O inspector Óscar Cardoso, sem receios e com orgulho, calou sobranceiramente o desgraçado do Tengarrinha e o pobre do Sousa Castro, desmentindo-os sem apelo nem agravo. A P.I.D.E. foi uma polícia como as outras, tão dura e tão bruta como as demais. Não se encontrou uma prova que negasse a valentia, o patriotismo e a honradez da maioria dos seus agentes. Durante dezenas de anos perseguiu implacavelmente os comunistas, os conspiradores, os desertores, os traficantes de droga e os proxenetas internacionais. Prendeu assassinos como o Francisco Martins Rodrigues, ladrões como o Palma Inácio, desertores como o Manuel Alegre, bombistas como João Roque. Cometeu excessos? Com certeza. Não se apurou todavia, nada de tão violento, de tão terrorífico ou de tão ordinário como foi a acção do COPCON ao longo dos anos de 74/75, nem nada que se possa compara às infâmias praticadas no Porto pela miserável Corvacho. Os tribunais que, um a um, julgaram os homens da P.I.D.E. só condenaram uma a uma pena pesada. Os outros sentenciados a alguns dias de prisão (já largamente cumpridos antes dos julgamentos) foram condenados porque uma lei com efeitos retroactivos pelo simples facto de terem pertencido à P.I.D.E. e, evidentemente defendido Portugal contra a canalha que hoje ainda nos governa.
Quanto à descolonização ficámos também conversados. Na aflição das desculpas, os abrileiros tentam desesperadamente atirar as culpas para cima de Salazar (se se tivesse descolonizado mais cedo...) ou procuram achar nos eventuais intentos descolonizadores de Marcello Caetano a prova da sua razão. Deliberadamente esquecem que antes e depois da sua descolonização todas as outras se afundaram e continuam a afundar-se no sangue e nos ódios tribais; a maioria das populações da África Negra vive ainda na Idade da Pedra; abandoná-las sozinhas a instituições estatais mais ou menos europeias, dominadas por calcinhas foi entregá-las ao genocídio, à corrupção e à inépcia infantil de uns mulatos semi-civilizados alcandorados ao poder.
Em relação ao desenvolvimento económico retrogradámos para os índices de 1962. Caminhamos com rapidez para a destruição da indústria e para o fim da agricultura. Diante de qualquer crise internacional, sem Ultramar, sem marinha mercante, sem dinheiro, crivados de dívidas, diminuída de forma catastrófica a produção nacional — corremos o risco de morrer de fome e da desordem que, inevitavelmente trará consigo a intervenção espanhola.
A ruína de Portugal é um facto atestado pela maioria dos intervenientes dos vários talk-shows com que as televisões nos ensafuaram o juízo nos últimos tempos. Desde a esquerda aparvalhada à direita amaricada, ninguém se atreveu a negar a realidade. Como girândola final, para além do ridículo da sessão solene no Largo do Carmo, explodiu a polémica entre o Spínola e o Costa Gomes insultando-se mutuamente nas páginas do «Diário de Notícias». Os marechaloides não pouparam amabalidades. Para Spínola, Costa Gomes é um traidor nato; para Costa Gomes o Spínola é um esquizofrénico. Entre a traição nata do Gomes e a esquizofrenia inata do Spínola, Portugal desgraçou-se.
De todos os personagens do 25 de Abril, Costa Gomes é, talvez, o mais complicado. Traiu — é verdade. A sua traição, todavia, é muito mais provocada pela imbecilidade e traição do Spínola do que, propriamente, pela sua vontade de trair. Gomes é levado pelas circunstâncias enquanto Spínola foge. Costa Gomes fica para não perder o lugar, mas também para evitar males maiores. Que teria sido de Portugal se Costa Gomes, como Spínola, tivesse fugido em 74 e em 75, deixando-nos entregues às fúrias epilépticas do Vasco Gonçalves e do mefás?
Guiado pela vaidade, o antigo governador da Guiné, ao contrário de Costa Gomes, embarca na primeira frioleira que lhe propõem os acólitos. Primeiro em 28 de Setembro de 1974, aceita como boa a impossível manifestação da maioria silenciosa com a qual pretendia fazer um golpe de estado; depois, em 11 de Março de 1975, estimula a sublevação dos páraquedistas aquartelados em Tancos, para depois outra vez fugir, abandonando com o rabinho entre as pernas e o monóculo no olho, quantos contavam com ele.
Nos primeiros momentos da sua efémera glorieta de 74 Spínola não parece ter-se apercebido de que não dispunha de autoridade. Ronceiro de entendimento e, por pouco, iletrado, baldo de qualquer senso moral, o generaloide do monóculo vivia ensimesmado na sua estulta fesporrência. Nem uma vez lhe relampejou na ténue cabeça poder ser desprezado pelos «rapazes» do M.F.A. Era o «maior» — segredava-lhe a presunção. Os outros eram menores — e, enquanto os comunistas se iam, apoderando dos manípulos da governação ele entretinha-se a pilotar a barca do estado, sem atentar que deixara de haver estado. Rapidamente se esvaneceram todos os vão sonhos de grandeza que acalentara na Guiné enquanto Governador da província.
Spínola, já em 1968, era considerado nos meios ultramarinistas como um sujeito ininterruptamente tonto, vaidoso como um pavão, ambicioso e perigoso por ser azoinado da cabeça. Dos secretos dinheiros da província que podia gastar sem o visto do Tribunal de Contas, dispendeu muitos milhares em propaganda pessoal, procurando impôr-se à opinião pública como um militar da estirpe de Rommel, de MacArthur, do Mousinho ou, ao menos, do Eric von Stroheim. Dizia ter lido relatórios do Mousinho e aspirava pelo seu Marracuene, pelo seu Chaimite, com a correspondente entrada triunfal em Lisboa no alto duma quadriga, coberto de loiros, o Amílcar Cabral algemado de pés e mãos como acontecera ao Gungunhana. Queria ser Presidente da República. Suspeitava que Marcello Caetano lhe acarinhava as ambições. Para chegar a Belém e ter mais uma estrela na manga do dólman, seria capaz de matar a mãe.
Atingira o generalato porque Salazar o impusera em Conselho de Ministros, recordado dos tempos em que o pai do «herói» fora seu secretário, e duma carta amanteigada em que o homenzarrinho lhe escrevera em 61, depois do gorado golpe de Botelho Moniz e Costa Gomes. Chegara a Governador da Guiné nos últimos tempos decadentes de Salazar, depois de lhe ter sido negado o Governo Geral de Angola.
Desembarcado em Bissau, poucos meses antes de Salazar ser demitido, não precisou de muito tempo para verificar que o seu Chaimite tinha sido chão que dera uvas. Em Moçambique, no final do séc. XIX, os vátuas, armados e financiados pelos rodesianos, lutavam de cara descoberta; ali, no meio de pântanos e picadas enlameadas, os turras, armados pelos soviéticos, batiam e fugiam. Fugir é a táctica suprema do guerrilheirismo — e não por medo, não — por inteligência. Guerrilheiro que não sabe fugir não dura um piscar de olhos — e o Spínola não sabia fazer aquela Guerra que não vinha explicada nos manuais da Escola do Exército. Nem a queria fazer. O que queria era a Campanha da Rússia. O que desejava era Austerlitz, o Almeida Bruno e o António Ramos feitos duques no amanhecer encarniçado da vitória. O que ambicionava era vencer Iena, ganhar Friedland, atravessar os Alpes no dorso dum elefante. Sofria de caprolália. Faltava-lhe um rim. Só bebia água do Luso e comia galinha cozida.
Quando no princípio de 1972 um advogado do Porto, especulador bolsista, o dr. Francisco de Sá Carneiro o convidou para se candidatar à Presidência da República recusou, convencido de que Marcello Caetano o levaria a Belém. Quando o Presidente do Conselho de Ministros resolveu fazer recandidatar o Almirante Américo Thomaz, sentiu-se traído. Resolveu, então trair a Pátria fomentando o descontentamento corporativo dos capitães que começava a ronronar.
Chegado a Belém, cavalgando o M.F.A., ainda tentou dissolver e atraiçoar os capitães, e vigarizar Costa Gomes; mas, enganado pela própria jactância, acabou no exílio. Arranjara mais uma estrela no dólman. Destruíra Portugal.
Graças aos Spínolas, aos Costa Gomes aos Soares, aos Sás Carneiros, aos Freitas do Amaral e a muitos outros, nós somos hoje um estado exíguo na iminência da dissolução. Ao comemorar-se o 25/A comemora-se a estupidez e a traição. Só quando nos livrarmos desta sarna fulurenta poderemos tentar ressurgir.

In Agora!, n.º 6, pág. 3, Junho/Agosto de 1994.

Fonte: Blogue "Nonas - post de 19Abr2008