"Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida anterior. E a interior, bem entendido, porque sem referência do passado morrem os afectos e os laços sentimentais. E a noção do tempo, que relaciona as imagens do passado e que lhes dá a luz e o tom que as datam e as tornam significantes, também isso"
In De Profundis, Valsa Lenta
de José Cardoso Pires
Fonte: Blogue "Pedro Rolo Duarte" - post de 30Mar2008 - comentário de A, de 3Abr2008
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Sobre a memória
Jarancadás em flor
"ESTA FOI A SEMANA em que a flor dos jacarandás voltou à cidade! Os primeiros a florescer, tímidos, apareceram no Rato (mão amiga me levou lá!), em Belém e na Av. D. Carlos I. Mesmo previsíveis, as rotinas e as repetições têm destas coisas. Umas, como as comemorações oficiais do 25 de Abril, são cada vez mais maçadoras e destituídas de sentido. Outras, como a floração anual dos jacarandás, anunciam, com alegria, o eterno recomeço."
Fonte: Blogue Sorumbático - post de 27Abr2008
RELIDO: (Episódios históricos de Macau) "Dois telegramas e uma mulher coerente"
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domingo, 27 de abril de 2008
Fins-de Semana
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(«O Leopardo», de Giusepe Tomasi di Lampedusa)
Sentada no sofá, muitas foram as vezes em que os olhos paravam neste título, na lombada de um livro fininho, há muito tempo na estante, sem vontade de o abrir, com receio de me decepcionar, tanto gosto do filme protagonizado por Burt Lancaster.
O normal é o contrário: decepção com a adaptação cinematográfica da obra literária; mas este filme de Visconti está num pedestal tão alto...; acontecera uma coisa assim com «Despojos do Dia», em que tive medo de o livro não ser digno das interpretações de Anthony Hopkins e Emma Thompson...
Até que ontem o livrinho venceu esses receios, e já vou a meio, sem que tivesse ainda vontade de o pôr de lado.
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sexta-feira, 25 de abril de 2008
o 25 de abril d’o saloio
o comentador 'o saloio' contou a sua experiência da manhã de abril no post 'a revolução na montra'. aqui fica.
Pelas 07H00m, ao ser acordado pela minha mãe esta disse-me que havia "qualquer coisa", pois ouvia-se no rádio músicas militares e apelos a que os civis ficassem em casa nessa manhã. A minha mãe concordava com os locutores e dizia-me para eu ficar na cama. Eu, com 19 anos, achei que não - queria ir ver o que era.
Nessa altura, estudante do Conservatório, aí vim eu no 46, entre Benfica e os Restauradores (ou Rossio, já não me recordo). Lembro-me que no autocarro (daqueles ingleses, de dois andares, que faziam muito fumo e onde eu tentava ocupar um dos lugares da frente no 1º andar), só se falava da derrota do Sporting na véspera - nem uma única pessoa falou nas notícias da rádio.
Seriam uma 08H00 quando desembarquei na baixa, e fui a pé até ao Terreiro do Paço. Um pouco antes, na zona da Rua do Comércio, vi então os soldados - tinham mais um ano ou dois que eu, e um ar de quem não sabiam porque é que estavam ali. Eram recrutas, estavam com um joelho por terra e G3 a tiracolo, encostados à parede do prédio da Rádio Marconni, e olhavam para os telhados.
Os poucos civis àquela hora iam passando e olhavam, como eu, com curiosidade. Perguntei o que é que estavam ali a fazer, e um dos soldados disse-me que o capitão lhes tinha dito para estarem atentos aos telhados. Disseram-me que eram recrutas com apenas três meses de quartel, e alguns mostraram as culatras das armas vazias - sem balas.
Deixei-me ficar por ali - para trás e para diante. Mas que raio se estava a passar? Tudo aquilo era inédito e a verdade, é que nada parecia perigoso, pois as espingardas estavam descarregadas. o único receio era quando a PIDE, ali próxima, soubesse do que se estava apassar, e viesse por aí abaixo. Logo no café, iria contar uma história diferente…
No quarteirão a seguir, era o Terreiro do Paço: havia jipes e chaimites dispostos na periferia da praça, não muitos - uns 15. A malta civil não percebia nada do que se estava a passar. Estaávamos todos atentos a um tipo mais mexido, de quico na cabeça, de G 3 ao ombro, e que parecia que era ali determinante, porque atrás dele corria sempre um outro tipo mais bem fardado (de blusão de cabedal, com um grande coldre à cintura em que segurava com a mão quando corria atrás do outro), e um magala de capacete com um grande rádio preto às costas, tipo mochila, com uma antena alta em fita larga.
O tipo do quico na tola andava para a frente e para trás, tinha um megafone branco pendurado, e os outros dois pareciam aqueles polícias dos filmes mudos antigos…iam também descrevendo o mesmo percurso.
O sol começou a despontar vindo do rio Tejo, dando alguma cor à manhã baça, e cada vez havia mais malta, vinda da outra banda nos barcos. Nas arcadas, todos compreendíamos que era um golpe militar, pois alguns recordaram em voz alta o movimento havido uns dias antes e que tinha "corrido mal".
Por volta das 09H00, apareceu entre os populares o jornalista Adelino Gomes, com a careca branca e os cabelos laterais compridos ao vento. Como sabia quem ele era, um jornalista "do contra", colei-me a ele para ver se percebia mais qq coisa. Mas ele estava muito nervoso e desesperava em contactos e deslocações, entre o desconfiado e a esperança.
Na opinião dele, podia tratar-se de um golpe militar de extrema-direita, para depor o Prof. Marcelo que era um "fraco". Os soldados que estávamos a ver seria tropa do Gen. Kaúlza (da Arriaga), e portanto a coisa não era boa.
Olhámos de soslaio o tipo do quico na cabeça, que soube mais tarde ser o Sr. Capitão Salgueiro Maia e o tipo que corria agarrado à pistola (o actual presidente da câmara de Grândula - Sr. Gen. …Pinto???). Com a dúvida instalada, assisti de longe à vinda dos carros de combate da 24 de Junho, junto ao rio - e que após algumas correrias, se vieram a juntar ao movimento. O jipe e os três carros de combate, após algumas manobras complicadas, ficaram enquadrados com os da EPC.
Mais tarde pela manhã, assisti também, mas de longe, a uns carros de combate que vieram pela Rua do Arsenal (a que refere o post). Eram mais que os primeiros e aqui a coisa foi mais demorada, e no meio da confusão gerada pela grande quantidade de populares, só via a antena do soldado do rádio de um lado para o outro. Os carros de combate de Santarém foram tomando posições de combate, e a malta anónima manteve-se, impávida, debaixo das arcadas, assistindo a tudo com curiosidade e dando, como sempre, as opiniões mais díspares e cómicas.
O Cap. Salgueiro Maia ia dando ordens à multidão civil para retirar, que a coisa podia ficar perigosa, mas a malta fazia-se mouca e não retirava. Acabou tudo em abraços, depois de nos termos apercebido de alguma tensão.
Eram já umas 11H30 quando os chaimites puseram os motores a trabalhar. O Sr. Cap. Salgueiro Maia, através do megafone, dizia para os seus que se iam dirigir para o Carmo. A malta, atenta, decidiu segui-los e aí fui eu…
Fiquei de pé horas, em cima da capota de um Datsun 1200 branco, estacionado à porta da sapataria na lateral. Éramos uns 20 em cima da capota que, devido ao peso, dobrou toda para o interior do veículo.
Só fui para casa a 27 de Abril…sorridente.
Digo eu…
lembrem-se como foi
Às vezes apetece-me agarrar em certas pessoas e levá-las numa viagem no tempo. Há filmes para isso, e até séries de TV - do Conta-me como Foi aos domingos na RTP1 à Guerra, o espantoso documento de Joaquim Furtado sobre a guerra colonial que está de novo a ser transmitido pela RTP2. Mas sei que não funcionam. Nem funcionaria, sequer, uma viagem aos anos pré-1974. Se nem a memória funciona para quem os experimentou, como esperar que alguma coisa funcione?
Quando oiço ou leio elogios a Salazar e ao "outro tempo" a gente que tem idade para se lembrar, fico estupefacta. Nunca deixa de me espantar que se considere que "se vivia melhor" ou "havia mais segurança". É que não é uma questão subjectiva: não me venham com questões subjectivas. Nada há mais objectivo que os indicadores do Instituto Nacional de Estatística, e a forma como nos últimos 34 anos as provas do bem-estar dos portugueses aumentaram de modo quase milagroso. A mortalidade infantil e materna, por exemplo: passámos de um índice de país do Terceiro Mundo para um dos mais honrosos da UE. A esperança de vida. A electricidade, a água canalizada, as casas de banho dentro das casas. A quantidade de jovens que conseguem aceder ao ensino superior. Quem acha que isso não tem nada a ver com a democracia e que era inevitável deve questionar-se, por exemplo, sobre o motivo pelo qual em quase todos os países totalitários, independentemente da sua riqueza, a maioria das pessoas vive tão mal.
Porque antes da democracia a esmagadora maioria dos portugueses vivia mal. Havia miséria como não há, nem por sombras, hoje. Havia pobreza como não há, nem por sombras, hoje. Há gente a viver mal hoje, idosos com reformas miseráveis. Mas antes da democracia não havia sequer reforma garantida para todos - lembram-se? E podia não haver carjacking - não havia sequer carros que chegassem para isso - mas havia tropa obrigatória, lembram-se? E minas nas picadas, e emboscadas na selva. Quantos portugueses morreram, obrigados, na guerra? Quantos voltaram deficientes? Quantos tiveram de fugir para não serem enviados para África? Quantos fugiam, "a salto", para tentar uma vida melhor no estrangeiro? Quantos morriam de medo de dizer alguma coisa errada que os levasse a serem considerados anti-regime, a perder o emprego, a serem presos? Era seguro, ser português? Era seguro, viver numa ditadura?
Há, claro, sonhos que se perderam e traíram. Não somos todos felizes - mas só nos cartazes das ditaduras toda a gente sorri. Os amanhãs cantaram, mas desafinados para muitos ouvidos. Desafinam ainda, e ainda bem - porque agora depende tudo de nós, e cada voz canta diferente. Sobretudo, não me digam que "há medo de falar" nem usem a palavra "fascismo" a torto e a direito. Porque é ridículo, demasiado ridículo, mas porque, sobretudo, é um insulto a todos os que realmente souberam o que era ter medo e viver num regime totalitário, todos os que no "dia inicial, inteiro e limpo" de Sophia se sentiram, enfim, inteiramente inteiros.
(publicado hoje no dn)
Pensamento de Miguel Torga
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Estranha revolução esta, que desilude e humilha quem sempre ardentemente a desejou. A mais imunda vasa humana a vir à tona, as invejas mais sórdidas vingadas, o lugar imerecido e cobiçado tomado de assalto, a retórica balofa a fazer de inteligência. Mas teimo em crer que apesar de tudo valeu a pena. Assistir ao descalabro. Pelo menos não morro iludido, como os que partiram na véspera do terramoto.»
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O 25 de Abril e a História por António José Saraiva
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