quinta-feira, 15 de maio de 2008

Camilo visto por

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via Estado Sentido de noreply@blogger.com (cristina ribeiro) em 15/05/08
2. Alexandre da Conceição

Este poeta e ensaísta foi uma das muitas pessoas com quem Camilo travou acesas polémicas, género em que era temido, dados o seu agudo sarcasmo e não menos violenta agressividade. Mas tal como aconteceu com outros alvos da sua verve polemista, também Alexandre da Conceição se tornou num grande admirador do autor de « A Queda de Um Anjo», como nos dá conta José Viale Moutinho, o qual coligiu vários textos de contemporâneos do escritor.
"Camilo Castelo Branco é para nós um dos primeiros romancistas da Europa contemporânea. Não conhecemos em Nação nenhuma individualidade literária mais original, mais profundamente acentuada, escritor mais correcto, fantasia mais finamente engraçada, espírito mais vivo e sarcástico. (...) tem personagens cuja criação Balzac invejaria, Cherbuliez, Droz e Zola não seriam capazes de reproduzir mais vivos nem com mais relevo."

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quarta-feira, 14 de maio de 2008

Camilo visto por [Ramalho Ortigâo]

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via Estado Sentido de noreply@blogger.com (cristina ribeiro) em 14/05/08
1. Ramalho Ortigão

Nas últimas noites, antes de adormecer, tenho-me deliciado com a leitura de uns escritos de Ramalho sobre o homem de Seide:
"Pelo conjunto total das exuberâncias e das deficiências da sua natureza de escritor, pelas suas qualidades e pelos seus defeitos, pelo seu temperamento, pela sua educação, pela sua obra, que é a imagem da sua vida, o nome de Camilo Castelo Branco representará para sempre na história da literatura pátria o mais vivo, o mais característico, o mais glorioso documento da actividade artística peculiar da nossa raça, porque ele é, sem dúvida alguma, entre todos os escritores do nosso século, o mais genuinamente peninsular, o mais tipicamente português."

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Artigo publicado em Expresso das Ilhas

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via FÓRUM IGNARA#GUERRA COLONIAL de teatromosca em 13/05/08
"Eu vivi a guerra como um animal", recorda o antigo soldado. "Aí o meu único objectivo era sobreviver. O meu instinto é que funcionava. De tal forma que eu gastei em poucos dias os 70 contos que eu levei para Lourenço Marques. Para o que é que eu necessitava de dinheiro no mato, se a vida podia terminar a qualquer momento?". Regressado à Praia, Fausto Silva trabalhou na alfândega, onde foi reformado, em 2005, compulsivamente. "Há muitos anos que me queriam afastar, porque não havia serviços e, além do mais, não sou nenhum sim Senhor.", rememora.

Hoje, Fausto Silva, confessa viver uma vida tranquila e diz ser um homem realizado.

(...)

Poderá ler o resto do artigo aqui, em Expresso das Ilhas, um jornal on-line de Cabo Verde.
Foto: Expresso das Ilhas on-line

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Um texto de Edmundo Pedro

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via Entre as brumas da memória de Joana Lopes em 13/05/08
Nos últimos meses, tenho lidado quase diariamente com Edmundo Pedro, esse grande senhor da resistência e da democracia, à beira de completar uns 90 anos, tão lúcidos e tão activos, que deixam de rastos todos os que com ele têm de trabalhar numa qualquer militância – fala quem «sofre»... Para além de tudo o mais, tanspira força e determinação, como julgo que é visível nesta fotografia tirada há

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Croniquetas republicanas (5): José Relvas diz de Teófilo Braga

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via Estado Sentido de noreply@blogger.com (Nuno Castelo-Branco) em 13/05/08
"Há no seu aspecto externo um desleixo miserável. Sem hábitos sociais, tendo vivido uma longa existência confinada entre quatro paredes da sua desordenada biblioteca, dotado de uma natureza fundamental e incorrigivelmente plebeia, avarento, fazendo livros sem probidade, atacando sinuosamente os homens em quem receia competidores, descendo até vis insinuações (...), ambicioso, mas de uma vulgar e baixa ambição, sem a nobreza de quem aspira a um alto destino para a realização de um alto ideal, Teófilo Braga exterioriza o tipo do adelo, coçado ao balcão, em que tem vendido a algumas gerações uma obra feita de retalhos, cheia das promiscuidades do bricabraque literário, em que as botas cambadas e rotas dos pontapés que deu a Herculano e Castilho, emparelham com a casaca do casamento, com que teve o impudor de se apresentar na primeira festa diplomática oferecida pelo ministro da Argentina ao Governo da Revolução! (...) É uma fraca inteligência e um coração insensível (...) A sua acção no Directório, como havia de ser mais tarde no governo Provisório, ou era nula (...) ou era ditada pelos seus interesses, pelas suas ambições e muitas vezes pelos seus rancores. "
Eis o juízo que Relvas fazia daquele que era considerado como luminosa inteligência resgatadora da Nação. Foi o segundo presidente da república.

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terça-feira, 13 de maio de 2008

(título desconhecido)

via NOVA ÁGUIA de zigoto em 12/05/08
CASA DOS ESTUDANTES DO IMPÉRIO

Para mais facilmente vigiar os africanos que estudam em Lisboa, a ditadura salazarista funda uma associação: Casa dos Estudantes do Império. Tiro pela culatra! Assim concentrados, para os africanos mais evidentes se tornam as diferenças entre colonizadores e colonizados. Intervenções culturais, debates sucessivos, o nacionalismo negro a levantar fervura. Diz Amílcar Cabral, o guineense estudante de Agronomia:

- Vivo intensamente a vida e dela extraí experiências que me deram uma direcção, uma via que devo seguir, sejam quais forem as perdas pessoais que isso me ocasione. É necessário o regresso a África. Eis a razão de ser da minha vida.

Avança Agostinho Neto:

- É mais triste que espantoso que uma grande parte de nós, os chamados assimilados, não sabe falar ou entender qualquer das nossas línguas! E isto é tanto mais dramático quanto é certo que pais há que proíbem os filhos de falar a língua dos seus avós. É claro, quem conhece o ambiente social em que estes fenómenos se produzem e vê no dia a dia o desenvolvimento impiedoso do processo de "coisificação" não se admirará de tanta falta de coragem. Este desconhecimento das línguas que impede a aproximação do intelectual junto do povo cava um fosso bem profundo entre os grupos chamados assimilados e indígena.

E afirma o Mário Pinto de Andrade:

- Em contexto colonial, a assimilação traduz-se sempre na prática por uma destruturação social dos quadros negro-africanos e pela criação em número reduzido da elite assimilada. No caso português, a assimilação apresenta-se como uma receita (a única) que permite fazer sair o indígena, o negro-africano, das trevas da sua ignorância para entrar no santuário do saber. Uma forma da passagem do não-ser ao ser cultural, para empregar a linguagem de Hegel. O problema hoje é de saber como vai reagir o homem assimilado nessa situação artificial, parasitária de desenraizado. Como se vai afirmar? Fugindo do convívio com o indígena? Perdendo-se ao contacto com as luzes brilhantes da civilização? Aceitando e aprofundando a sua pseudo-condição de mestiço cultural?. Uma tarefa se impõe, a meu ver, no momento histórico que atravessamos, para responder justamente a essas interrogações, que é a de retomar, esquadrinhar no nosso passado as correntes de afirmação, da tomada de consciência, através de atitudes individuais e dos movimentos culturais que se foram desenvolvendo, diante do problema da cultura negro-africana e da assimilação.

Concentrados, os africanos agora querem "redescobrir" a África que era deles e deles deixou de ser...

In: http://www.vidaslusofonas.pt/mario_pinto_andrade.htm

A Casa dos Estudantes do Império, o Clube Marítimo Africano

e Repúblicas coimbrãs

Fundada em Lisboa em 1944, sob a tutela de um ideólogo do regime (Marcelo Caetano), a Casa dos Estudantes do Império foi definitivamente encerrada pela PIDE em Setembro de 1965, durante o período de férias. Estes anos marcam um percurso e a distância abissal que separa os propósitos paternalistas e corporativos face aos "estudantes do Império" do autêntico alfobre de nacionalismo(s) africano(s) em que a CEI se converteu.

Com sede na Avenida Duque d' Ávila, n.º 23, em Lisboa e constituída por secções autónomas das diversas colónias – Cabo Verde e Guiné, S. Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Estado da Índia, Macau e Timor), cedo a Casa de Estudantes do Império se converteu num espaço de liberdade, tolerância, e fraternidade. Aí muitos estudantes das colónias descobriram raízes da sua cultura e identidade nacional em colóquios e debates aprofundados nos domínios antropológico, histórico e político por onde passaram reputados cientistas e intelectuais como Orlando Ribeiro, Henrique Abranches, Óscar Ribas e Humberto Fonseca.

Frequentaram a CEI nomes da música como o Ngola Ritmos e o Duo Ouro Negro, actores e artistas como Mário Barradas, Rogério Paulo, Rui Mingas, Luís Cília, Eleutério Sanches e Lili Tchiumba. Na revista »Mensagem» e outros boletins colaboraram valores das novas literaturas africanas como Alda Lara, Corsino Fortes, Ernesto Lara, Pepetela, Noémia de Sousa ou Manuel Rui.

Pela CEI passaram também líderes políticos e combatentes pelas novas pátrias como Óscar Monteiro, Vasco Cabral, Américo Boavida, Francisco Sousa Machado, Diógenes Boavida, Sampaio Nunes, Luís Cabral, Pedro Pires, Mário Machungo, Joaquim Chissano, Pinto da Costa, Lúcio Lara, Omar Kharim Amahd. O facto de a CEI reunir estudantes de diferentes países ajudou a caldear o cimento da luta contra o inimigo comum, materializado na CONCP – Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas – sob a égide de Amílcar Cabral, Mário de Andrade, Gentil Viana, Miguel trovoada, Agostinho Neto, Eduardo Mondlane e Marcelino dos Santos.

O Clube Marítimo Africano foi uma curiosa associação recreativa e cultural que uniu trabalhadores marítimos africanos e estudantes da CEI, fundindo a componente intelectual com uma base popular que estaria na base dos movimentos de libertação das colónias portuguesas.

Entre os impulsionadores do Clube Marítimo Africano destacou-se, nos anos 50, o estudante Humberto Machado, a par de Francisco Zara, João e Mário Van-Dunem, José Baconza Tomo, Manuel Soares Gomes, Abílio Rodrigues da Costa, Tiago Maria e João de Deus Tervino. Entre os que lhes sucederam, ainda nos anos 50, destacaram-se Lúcio Lara, Agostinho Neto e António Rodrigues Costa, que transportou clandestinamente de barco uma policopiadora para o MPLA – ou seja, garantia certa da vigilância e das intromissões constantes da PIDE na vida associativa do Marítimo.

Em Coimbra destacara-se duas repúblicas de estudantes africanos: a dos "1000-y-onários", onde pontificaram António Jacinto, do MPLA, Manuel Balonas, Presidente da AAC durante a crise de 1962 e Óscar Monteiro, da FRELIMO; e a república do "Kimbo dos Sobas", fundada pelos estudantes angolanos Aníbal Espírito Santo, Manuel Rui Monteiro, José Luís Cardoso, António Segadães, Jaime Martinho, Álvaro Fernandes, António Faria, José Machado Lopes, José e Carlos Marvão, Mário e Henrique Fonseca Santos.

Por estas e outras instituições congéneres passou muita da actividade política, cultural e conspirativa que esteve na base e serviu de retaguarda aos movimentos de libertação africanos em Portugal.

In: "Chaimite, o último ciclo do Império", Museu da República e Resistência, 19 Janeiro 1999

No início dos anos oitenta, um grupo de antigos activistas da Casa dos Estudantes do Império tentou reactivá-la e criar uma fundação com o seu nome; pretendia-se dotar tal instituição de fundos capazes de atribuir bolsas de estudo e criar uma rede de lares, ou "repúblicas", para estudantes universitários das ex-colónias.

Houve várias reuniões, e até se chegou a aprovar os estatutos de uma associação que fosse alicerce da fundação.

Depois de muita pedra partida, surgiram dois apoios oficiais que recordo:

o do então Secretário de Estado, Durão Barroso, prometendo que facilitaria os trâmites jurídicos e diplomáticos;

o de Krus Abecassis, à época presidente da Câmara de Lisboa, que classificou o imóvel da velha sede, impedindo que fosse destruído pela voragem da especulação imobiliária.

Também do governo angolano chegou a promessa de financiamento.

Até hoje!

Na altura escolhemos Agostinho da Silva como figura tutelar e patrono. O que o Professor de bom grado aceitou, após uma reunião de trabalho em minha casa.

Recordo tudo isto a propósito do lançamento da revista "Nova Águia" e do "Movimento Internacional Lusófono", na esperança que esta resenha contribua para relançar a ideia.

Álvaro Fernandes

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E diremos o que Camilo pensava acerca dos republicanos...

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via Estado Sentido de noreply@blogger.com (Nuno Castelo-Branco) em 12/05/08

"O meu ódio, grande, entranhado e único na minha vida, ao Marquês de

Pombal não procede do afecto ao padre nem do desagravo da religião: é por

amor ao homem. Reconhece que a realidade dos factos foi sacrificada a uma

bandeira que lhe emprestaram, porque a Democracia... repele o meu livro da

sua estante de história, e não lhe dará sequer a importância de o ler. Quanto a

refutá-lo, a Democracia não gosta de ilaquear as suas teorias abstractas na

rede da pequena história, feita das malhas dos argumentos sediços. Ela tem

uma ideia, um simbolismo a que chamou – Marquês de Pombal, adulterando-o

até às condições fabulosas do mito... se os ultra-liberais de 1882 estão com o

Marquês de Pombal, quem nos afirma que as confederações republicanas e

ateístas de 1982 não hão-de estar com os jesuítas? As situações parecem-me

equivalentes nas paralelas do absurdo" (Camilo Castelo Branco, ao fazer o

Perfil do Marquês de Pombal). 1882

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domingo, 11 de maio de 2008

25 de Abril. Antes e depois

Enviado para você por Rui Moio através do Google Reader:

via Do Mirante de noreply@blogger.com (A. João Soares) em 11/05/08
Dentro do objectivo de este espaço ser apartidário e aberto a todas as ideias, procurando estimular as reflexões mais abrangentes a fim de analisar os fenómenos por todos os lados, com isenção e desapaixonadamente, transporto para aqui este texto recebido por e-mail do amigo LSC. Trata-se de uma carta de um rapaz ao deu professor de história. Espero que possa despertar um debate de ideias orientadas para um maior esclarecimento dos casos citados, sem paixões, facciosismos, ou radicalismos.

34 anos depois...

Exmo Senhor Professor,

Sou obrigado a escrever-lhe, nesta data, depois de ter escutado, com toda a atenção, a aula de História, que nos deu sobre a Revolução de Abril de 1974.

Li todos os apontamentos que tirei na aula e os textos de apoio que me entregou para me preparar para o teste, que o Senhor Professor irá apresentar-nos, na próxima semana, sobre a Revolução dos Cravos.

Disse o Senhor Professor que a Revolução derrubou a ditadura salazarista e veio a permitir o final da Guerra Colonial, com a conquista da Liberdade do Povo Português o dos Povos dos territórios que nós dominávamos e que constituíam o nosso Império.

Afirmou ainda que passámos a viver em Democracia e que iniciámos uma nova política de Desenvolvimento, baseada na economia de mercado.

Informou-nos também que a Censura sobre os órgãos de Comunicação Social terminara e que a PIDE/DGS, a Polícia Política do Estado Fascista acabara, dando a possibilidade aos Portugueses de terem liberdade de expressão, opinião e pensamento. Hoje, todos eles podem exprimir as suas opiniões nos jornais, rádio, televisão, cinema e teatro, sem receio de serem presos.

Disse igualmente que Portugal era um país isolado no contexto internacional e que agora fazemos parte da União Europeia e temos grande prestígio no mundo. Que somos dos poucos países da União a cumprir, na íntegra, os cinco critérios de convergência nominal do Tratado de Maastricht para fazermos parte do pelotão da frente com vista ao Euro.

Li os textos de apoio do Professor Fernando Rosas, onde me informam que os Capitães de Abril são considerados heróis nacionais, como nunca houvera antes na nossa história, e que eles são os responsáveis por toda a modernidade do nosso país, pois se não tivesse acontecido a memorável Revolução, estaríamos na cauda da Europa e viveríamos em grande atraso, em relação aos outros países, e num total obscurantismo.

Tinha já tudo bem compreendido e decorado, quando pedi ao meu pai que lesse os apontamentos e os textos para me fazer perguntas sobre a tal Revolução, com vista à minha preparação para o teste, pois eu não assisti ao acontecimento histórico, por não ter ainda nascido, uma vez que, como sabe, tenho apenas dezasseis anos de idade.

Com o pedido que fiz ao meu pai, começaram os meus problemas pois ele ficou horrorizado com o que o Senhor Professor me ensinou e chamou-lhe até mentiroso porque conseguira falsificar a História de Portugal. Ele disse-me que assistira à Revolução dos Cravos dos Capitães de Abril e que vira com «os olhos que a terra há-de comer» o que acontecera e as suas consequências.

Disse-me que os Capitães foram os maiores traidores que a nossa História conhecera, porque entregaram aos comunistas todo o nosso império, enganando os Portugueses e os naturais dos territórios, que nos pertenciam por direito histórico. Que a Guerra no Ultramar envolvera toda a sua geração e que nela sobressaíra a valentia dum povo em armas, a defender a herança dos nossos maiores.

Que já não existia ditadura salazarista, porque Salazar já tinha morrido na altura e que vigorava a Primavera Marcelista que, paulatinamente, estava a colocar Portugal na vanguarda da Europa. Que hoje o nosso país, conjuntamente com a Grécia, são os países mais atrasados da Comunidade Europeia.

Que Portugal já desfrutava de muitas liberdades ao tempo do Professor Marcelo Caetano, que caminhávamos para a Democracia sem sobressaltos, que os jovens, como eu, tinham empregos assegurados, quando terminavam os estudos, que não se drogavam, que não frequentavam antros de deboche a que chamam discotecas, nem viviam na promiscuidade sexual, que hoje lhes embotam os sentidos.

Disse-me também que ele sabia o que era Deus, a Pátria e a Família e que eu sou um ignorante nessas matérias. Aliás, eu nem sabia que a minha Pátria era Portugal, pois o Senhor Professor ensinou-me que a minha Pátria era a Europa.

O meu pai disse-me que os governantes de outrora não eram corruptos e que após o 25 de Abril nunca se viu tanta corrupção como actualmente.

Também me disse que a criminalidade aumentara assustadoramente em Portugal e que já há verdadeiras máfias a operar, vivendo à custa da miséria dos jovens drogados e da prostituição, resultado do abandono dos filhos de pais divorciados e dum lamentável atraso cultural, em
virtude de um Sistema Educativo, que é a nossa maior vergonha, desde há mais vinte anos.

Eu fiquei de boca aberta, quando o meu pai me disse que a Censura continuava na ordem do dia, porque ele manda artigos para alguns jornais e não são publicados, visto que ele diz as verdades, que são escamoteadas ao Povo Português, e isso não interessa a certos órgãos de
Comunicação Social ao serviço de interesses obscuros.

O meu pai diz que o nosso país é hoje uma colónia de Bruxelas, que nos dá esmolas para nós conseguirmos sobreviver, pois os tais Capitães de Abril reduziram Portugal a uma «pobreza franciscana» e que o nosso país já não nos pertence e que perdemos a nossa independência.

Perguntei-lhe se ele já ouvira falar de Mário Soares, Almeida Santos, Rosa Coutinho, Melo Antunes, Álvaro Cunhal, Vítor Alves, Vítor Crespo, Lemos Pires, Vasco Lourenço, Vasco Gonçalves, Costa Gomes, Pezarat Correia... Não pude acrescentar mais nomes, que fixara com enorme sacrifício e trabalho de memória, porque o meu pai começou a vomitar só de me ouvir pronunciar estes nomes.

Quando se sentiu melhor, disse-me que nunca mais lhe falasse em tais «sacanas de gajos», mas que decorasse antes os nomes de Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Diogo Cão, D. João II, D. Manuel I, Bartolomeu Dias, Afonso de Alburquerque, D. João de Castro, Camões, Norton de Matos, porque os outros não eram dignos de ser Portugueses, mas estes eram as grandes e respeitáveis figuras da nossa História.

Naturalmente que fiquei admirado, porque o Senhor Professor nunca me falara nestas personagens tão importantes e apenas me citara os nomes que constam dos textos do Professor Fernando Rosas.

Senhor Professor, dada a circunstância do meu pai ter visto, ouvido, sentido e lido a Revolução de Abril, estou completamente baralhado, com o que o Senhor me ensinou e com a leitura dos textos de apoio. Eu julgo que o meu pai é que tem razão e, por isso, no próximo teste, vou seguir os conselhos dele.

Não foi o Senhor Professor que disse que a Revolução nos deu a liberdade de opinião? Certamente terei uma nota negativa, mas o meu pai nunca me mentiu e eu continuo a acreditar nele.

Como ele, também eu vou pôr uma gravata preta no dia 25 de Abril, em sinal de luto pelos milhares de mortos havidos no nosso Império, provocados pela Revolução dos Espinhos, perdão, dos Cravos.

O Senhor disse-me que esta Revolução não vertera uma gota de sangue e agora vim a saber que militantes negros que serviram o exército português, durante a guerra, que o Senhor chamou colonial, foram abandonados e depois fuzilados pelos comunistas a quem foram entregues as nossas terras.

Desculpe-me, Senhor Professor, mas o meu pai disse-me que o Senhor era cego de um olho, que só sabia ler a História de Portugal com o olho esquerdo. Se o Senhor tivesse os dois olhos não me ensinaria tantas asneiras, mas que o desculpava porque o Senhor era um jovem e
certamente só lera o que o Professor Fernando Rosas escrevera.

A minha carta já vai longa, mas eu usei de toda a honestidade e espero que o Senhor Professor consiga igualmente ser honesto para comigo, no próximo teste, quando o avaliar.

Com os meus respeitosos cumprimentos

O seu aluno

P.S.: Todos os anos, nesta data, se fala em comemorações em todo o país,
mas eu pergunto:
COMEMORAR O QUÊ????

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