segunda-feira, 9 de junho de 2008

Anatomia do rebelde

Enviado para você por Rui Moio através do Google Reader:

via INCONFORMISTA.INFO de Miguel Vaz em 09/06/08
"No seu Tratado do Rebelde, Ernst Jünger escrevia em 1951: «Duas qualidades são indispensáveis ao rebelde. Ele recusa aceitar por sua a lei dos poderes instituídos, quer eles usem a propaganda ou a violência. E ele está decidido a defender-se». Dominique Venner acrescenta, nas páginas deste número, que o que em todas as épocas os rebeldes tiveram em comum «foi terem descoberto, por vias diferentes, uma incompatibilidade absoluta entre o seu ser e o mundo no qual lhes seria necessário viver».

O rebelde recusa a ordem do mundo no seio do qual foi jogado. Recusa-a em nome de uma legitimidade que excede toda a legalidade. Recusa-a porque é em si mesmo que encontra a legitimidade e a norma – não que ele as decalque simplesmente sobre aquilo que ele é, mas porque sabe que é também o resultado de uma norma que o ultrapassa. E a sua recusa é total. O rebelde é aquele que não cede, desdenhando daquilo com que o procuram deslumbrar: honrarias, interesses, privilégios, reconhecimentos. À mesa de jogo, ele é o que não joga: o espírito do tempo embate nele como a água na pedra. Espírito livre, homem livre, ele não coloca nada acima da liberdade do espírito e da pessoa. Ele é a própria liberdade. «É rebelde quem quer que seja colocado pela lei da sua natureza em ligação com a liberdade» (Ernst Jünger).

Mas ele não é somente um insubmisso. Certamente, como o resistente ou o dissidente, o rebelde é a prova viva de que uma alternativa é sempre possível. Mas a sua rebelião não está somente ligada às circunstâncias. Ela é de ordem existencial. O rebelde sente fisicamente a impostura, sente-a instintivamente. Tornamo-nos dissidentes, mas nascemos rebeldes. O rebelde é rebelde porque qualquer outro modo de existência lhe é impossível. O resistente deixa de o ser quando deixa de ter meios de resistir. O rebelde, mesmo aprisionado, continua a ser um rebelde. É por isso que, se pode perder, nunca está vencido. Os rebeldes nem sempre podem mudar o mundo. O mundo, esse, nunca os conseguiu mudar.

Face a um mundo pelo qual não sente mais que desprezo ou desgosto, o rebelde não pode satisfazer-se com a indiferença, porque essa está ainda demasiado próxima da neutralidade. O rebelde é feito para a luta, mesmo que ela não ofereça esperança. Ele não é, então, um renunciante. O rebelde sente-se estrangeiro ao mundo em que vive, mas sem nunca deixar de querer nele viver: ele sabe que só se pode nadar contra a corrente na condição de não se abandonar o leito do rio. Pertencendo a essa minoria que desde sempre preferiu o perigo à servidão, ele sabe que o respeito de si deve sempre ser conquistado. O seu afastamento puramente interior não impede o contacto, porque esse contacto é necessário à luta. E se ele «recorre à floresta» não é para aí se refugiar – ainda que seja frequentemente um proscrito –, mas para aí reaver forças vivas. «A floresta está presente por todo o lado, prossegue Jünger. Existem florestas no deserto, como nas cidades, onde o rebelde vive escondido sob a máscara de qualquer profissão. Existem florestas na sua pátria como sobre qualquer outro solo onde se possa desenvolver a sua resistência. Mas existem sobretudo florestas na própria retaguarda do inimigo.»

O revolucionário persegue um objectivo, o que não é necessariamente o caso do rebelde. O rebelde pode perfeitamente lutar por afirmar um estilo. Ele luta porque não pode fazer outra coisa que lutar. O revolucionário pretende chegar a um fim onde o rebelde encarna antes de tudo um estado de espírito. Semelhantemente, o rebelde despreza a escalada extremista e a manipulação supostamente eficaz dos slogans. Ele não é dos que se limitam a anunciar o Apocalipse em ter o mínimo meio de o remediar. Antígona é estranha ao narcisismo da radicalidade.

Por relação ao «curso da História», o rebelde sabe, por outro lado, identificar o momento e agarrar esse momento. Para romper o cerco, para tentar introduzir um grão de areia na máquina, ele raciocina sobre situações concretas. Determina a sua estratégia de acordo com o que vê surgir sob os seus olhos, não de acordo com modelos ultrapassados. O rebelde é, antes de tudo, dinâmico. Ele dinamiza o pensamento e torna esse pensamento dinâmico. Não é soldado, mas guerrilheiro. Ele não leva a cabo operações regulares mas lança ataques inesperados. Não está atrás de uma linha da frente, mas atravessa todas as frentes.

O rebelde pode ser activo ou meditativo, homem de conhecimento ou de acção. Sobre o plano estratégico, pode ser carvalho ou junco, raposa ou leão. Há rebeldes de todos os tipos. Na ordem do pensamento, Hugues Rebell, o bem falado Georges Darien, Péguy, Bernanos, Orwell, foram ao seu tempo rebeldes, tal como, mais recentemente, Jack Kerouac, Dominique de Roux, Burroughs, Pasolini, Xavier Grall, Mishima ou Jean Cau. Guy Debord foi também ele um rebelde, mesmo se a sua obra é hoje objecto de uma recuperação póstuma, sinal de que estamos já no para além do Espectáculo. Na ordem da acção, depois de tantos outros «mobilizadores do povo», poderíamos citar o subcomandante Marcos que, sem ter nunca cometido um só atentado, defende de maneira exemplar as liberdades dos índios de Chiapas. De Robin dos Bosques aos «zapatistas»: uma mesma linha!

Sempre houve rebeldes. Mas o mundo actual reserva-lhes um lugar muito particular. Na época da modernidade, o rebelde surgia muito aquém do revolucionário: era reputado por lhe faltar clara consciência ideológica e preferir, às estratégias longamente pensadas, o jogo desordenado das reacções instintivas. Hoje que a modernidade finda, ele reencontra o seu lugar. A mundialização faz da Terra um mundo sem exterior, um mundo sem outro, que já não pode ser atacado a partir de um ponto para além de si. Um tal mundo não está tanto votado à explosão como à depressão implosiva. O rebelde está apto para este mundo precisamente porque fomenta redes e propaga as suas ideias de forma viral. Neste sentido, ele é também uma figura pós-moderna, mas uma figura de oposição. Num mundo cada vez mais homogéneo, ele é a própria singularidade. Ele é um ponto opaco num mundo votado à transparência totalitária, um sujeito que permanece real num mundo de objectos virtuais, um insurrecto por excelência num mundo policiado e tornado polícia. Um estrangeiro que podíamos excluir, de pleno direito, em nome da luta contra a exclusão, se ele não se tivesse previamente excluído a si mesmo. É por isso que, de um certo modo, o futuro pertence ao pensamento rebelde, a esse pensamento que desenha clivagens inéditas, esboça uma topografia nova, prefigura um outro mundo. Porque a história permanece sempre aberta.

Jünger diz ainda que chama rebelde «àquele que, isolado e privado da sua pátria pela marcha do universo, se vê deixado ao nada». Escreve também: «Quando todo um povo prepara o seu recurso às florestas, torna-se uma potência temível.»"

Robert de Herte
in "Eléments" nº 101

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Viagens de Pêro da Covilhã (XI)

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via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 09/06/08

Quando João II mandou chamar à sua presença Pêro da Covilhã, para o enviar ao Oriente, era este já um homem feito, de quarenta anos ou bem perto deles, e tinha atrás de si uma vida longa e acidentada, que o temperava para novas aventuras. Era natural da Vila da Covilhã, com todas as qualidades, seguramente, de energia e persistência, próprias de um beirão da serra; e devia proceder de uma origem obscura, a julgarmos pelas situações modestas em que começou a servir, e também pelo facto de lhe darem sempre o nome da terra de sai naturalidade, e não um apelido de família.

Foi muito novo para Espanha, a procurar ali serviço em alguma casa nobre e opulenta, facto não raro por aqueles tempos, em que os vínculos de nacionalidade foram, sob certos aspectos, menos apertados do que depois se tornaram. […]

Por ali se demorou Pêro da Covilhã seis ou sete anos, fazendo a sua educação militar, e aprendendo ao menos duas coisas. uma, a falar espanhol na última perfeição, o que depois lhe serviu, como veremos; a outra, a confiar principalmente no seu braço e na sua espada, o que também lhe não seria inútil no futuro. Decorridos estes anos, ali pelos fins de 1474 ou princípios do ano seguinte, veio a Portugal com D. João de Guzman, passando então para o serviço pessoal de D. Afonso V, na qualidade de moço de esporas, mas sendo logo acrescentado a escudeiro, servindo de armas e cavalo. […]

"Viagens de Pêro da Covilhã", Conde Ficalho, ed. Viagens Alma Azul, Outubro 2004

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sexta-feira, 6 de junho de 2008

Viagens de Pêro da Covilhã (X)

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via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 06/06/08

O primeiro acto desta nova fase foi a tomada de Ceuta (1415). Era a antiga guerra aos mouros, mas desviada do solo português, já libertado, e levada às terras da própria Mourama – para nos servirmos da expressiva palavra popular. No séquito de D. João I, passou às terras africanas o seu terceiro filho, então ainda uma criança, e que depois devia mais que ninguém influir na nova orientação da vida nacional. O infante D. Henrique era já, por muitos lados, um homem da Renascença: pelo espírito largo e aberto a todas as ideias novas, pela pura curiosidade científica, pelo desejo, eminentemente moderno, de saber para saber. Quando, muito mais tarde, das arribas do Algarve, ele via aos seus pés o oceano azul, desenrolando-se até às brumas do horizonte incinzeirado, irritava-o não lhe conhecer os limites. Parecia-lhe impossível, que aquelas águas, límpidas e claras, tão docemente frisadas nas tardes de Verão pelo norte da costa portuguesa, se convertessem lá ao longe no sombrio e inavegável Mar Tenebroso. E umas após outras, enviava para o sul as suas caravelas, mordido pela febre do desconhecido, a mesma que depois impeliu Colombo e Magalhães, de quem foi o precursor. Mas D. Henrique era também, por outro lado, um homem da Idade Média, um verdadeiro mestre da Ordem de Cristo, herdeira da Ordem do Templo, levado pela índole, pelas tradições, pelos impulsos do seu atavismo de príncipe cristão, para a guerra aos mouros. Essa guerra, concebia-a ele por dois modos: directa nos campos da África Septentrional, em seguimento à empresa de Ceuta, o que o levou à infeliz jornada de Tânger; indirecta, pelos descobrimentos ao longo da costa atlântica, torneando a África dos mouros, reconhecendo-lhes os limites, e – quem sabe? – encontrando talvez ao longe um aliado cristão. E aqui, nós vemos surgir no espírito do Infante a grande figura lendária do Preste. […]

"Viagens de Pêro da Covilhã", Conde Ficalho, ed. Viagens Alma Azul, Outubro 2004

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Viagens de Pêro da Covilhã (I)

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via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 26/05/08

Correndo o ano de 1487, mandou el-rei D. João II chamar à sua presença o seu escudeiro Pêro da Covilhã, que acabava de chegar da Berbéria, para em grande segredo o encarregar de uma alta missão de confiança. Tratava-se nada menos que de partir pela via do Mediterrâneo – que outra ainda não era descoberta – para as terras do Oriente, a fim de procurar ali o célebre Preste João, informando-se ao mesmo tempo da procedência da canela e outras especiarias, que então vinham pelo Levante a Veneza. A missão era difícil, mas o rei confiava no zelo do seu escudeiro, assim como no acerto e felicidade com que ele se havia desempenhado de outros encargos espinhosos. A missão era difícil e era ao mesmo tempo típica, como que fixando antecipadamente as duas feições do nosso futuro domínio na Índia – o proselitismo e a exploração comercial. Mostrava bem, como a rivalidade com Veneza e o intento de lhe disputar o rico tráfico do Oriente estavam já formulados no ânimo do rei; e denunciava igualmente quanto se conservava ainda vivo o desejo de dissipar os mistérios em que se envolvia o lendário Preste João, mistérios que durante séculos tiveram o dom de interessar e apaixonar toda a Europa cristã.

"Viagens de Pêro da Covilhã", Conde Ficalho, ed. Viagens Alma Azul, Outubro 2004

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Viagens de Pêro da Covilhã (II)

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via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 27/05/08

A notícia da existência, ou suposta existência, daquele célebre personagem era anterior de mais de três séculos à missão confiada agora a Pêro da Covilhã. O bispo Otho de Freisingen, irmão do imperador Conrado, a quem acompanhara à Terra Santa na segunda Cruzada, havia escrito no seu Chronicon, como no ano de 1145 se encontrara em Roma com um bispo de Gabala, enviado ao papa Eugénio III pelas igrejas da Arménia. O bispo arménio lamentava-se com muitas lágrimas dos perigos, que ameaçavam as igrejas da Ásia depois da tomada de Edessa; e contava, como alguns anos antes, um certo João, rei e padre, habitando para além da Arménia e da Pérsia no extremo oriente, e seguindo com o seu povo a religião cristã da seita nestoriana, havia feito a guerra a uns irmãos, chamados Samiardos, reis da Pérsia e da Média, desbaratando-os em sangrentas batalhas e tomando-lhes a capital dos seus estados, Ecbatana. Depois destas vitórias, havia marchado para ocidente em socorro da Igreja de Jerusalém; mas infelizmente, chegando ao Tigris, não encontrando meio de passar, e começando a morrer a gente do exército de doença, havia sido forçado a voltar para os seus estados. Este Presbítero João, que assim o costumavam chamar, dizia-se ser da antiga raça dos Reis Magos, e em memória destes Santos Reis seus ascendentes vinha assim em auxílio da Terra Santa.

"Viagens de Pêro da Covilhã", Conde Ficalho, ed. Viagens Alma Azul, Outubro 2004

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Viagens de Pêro da Covilhã (III)

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via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 28/05/08

Tal era, em substância, a história contada pelo bispo de Gabala, e transcrita pelo bispo de Freisingen; e esta história parece ser a primeira, se não a única origem da lenda. A narrativa do bispo de Gabala tem todo o cunho de ser sincera, e de assentar sobre factos reais quaisquer que eles fossem, Mas depois, espalhando-se pela cristandade, vieram a implantar-se sobre ela muitas circunstâncias inventadas. No ano de 1165 circularam algumas cópias de uma carta daquele rei-sacerdote, dando conta da enorme extensão do seu império aos soberanos da Europa. Vinham dirigidas ao Papa, que então era Alexandre III, ao imperador do Oriente, Manuel Coménio, ao famoso imperador do Ocidente, Frederico Barba-roxa, ao rei de França, Luís VII, e também, segundo alguns diziam, ao rei de Portugal, Afonso Henriques. Referia a carta, que o Presbítero João dominava sobre as três Índias, sobre setenta reis tributários, e sobre várias nações, entre as quais se contavam as dez tribos perdidas de Israel, que Alexandre o Grande encerrara na muralha de Gog e Magog, e muitas outras. Quando ia à guerra, levava dez cruzes de ouro e pedraria a cada uma das quais seguiam dez mil homens de cavalo e cem mil homens de pé. Acrescentava ainda a carta muitas outras indicações, tão fantásticas como estas, se não mais, e que seria longo enumerar.

"Viagens de Pêro da Covilhã", Conde Ficalho, ed. Viagens Alma Azul, Outubro 2004

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Viagens de Pêro da Covilhã (IV)

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via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 29/05/08

A carta é evidentemente falsa, e sem dúvida teria sido forjada na Europa; talvez simples impostura de algum aventureiro literário, que daí quisesse tirar proveito, talvez uma pia fraude dos que assim pretendiam fortalecer a coragem dos cristãos, confirmando a existência de um natural e poderoso aliado. É certo, no entanto, que a carta foi naqueles tempos geralmente considerada verdadeira; e a lenda, assim ampliada, foi passando de simples e mal fundado boato, a realidade quase segura e provada. Tanto, que alguns anos depois, no de 1177, o mesmo papa Alexandre III, embora ignorasse onde realmente se poderia encontrar aquele misterioso personagem, parece ter-lhe enviado, ou procurado enviar-lhe, uma carta assim dirigida: Charissimo in Christo filio, illustri et magnifico indorum regi, sacerdotum sanctissimo. […]

A lenda devia, porém, ter um fundo real, que é necessário procurar. E em primeiro lugar podemos estabelecer, que o Preste João dos primeiros tempos, do séc. XII, XIII e em parte ainda do século XIV, se colocava geralmente na Ásia. E digo geralmente, porque não é lícito afirmar, que ninguém então pensasse na África, e nomeadamente na Etiópia. Algumas opiniões valiosas, posto que bastante isoladas, julgam a carta de Alexandre III dirigida já ao rei da Abissínia. Mas, mesmo que a carta seja autêntica e fosse dirigida ao rei abexim – e nenhuma das coisas está provada – fica de pé o que dissemos, isto é, que a opinião geral se voltava para a Ásia. […]

"Viagens de Pêro da Covilhã", Conde Ficalho, ed. Viagens Alma Azul, Outubro 2004

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Viagens de Pêro da Covilhã (V)

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via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 30/05/08

Deixando outras notícias de viajantes, que nos levariam muito longe, devemos, no entanto, examinar um pouco mais longamente a que nos dá Marco Polo. O livro deste célebre veneziano foi muito lido, antes e depois de impresso. Durante séculos constituiu umas das principais ou a principal autoridade em coisas da Ásia. Em Portugal foi lido e estudado já no tempo do infante D. Henrique; foi vertido em português e impresso logo depois de 1500; e ainda anos mais tarde os nossos eruditos, como Damião de Góis e João de Barros, citavam correntemente o que ele havia dito do Preste João. A versão de Marco Polo interessa-nos, por tanto, pela sua essência, e ainda mais pela autoridade de que gozou, porque representa a opinião recebida e clássica durante muito tempo. Marco Polo conta detidamente – escrevia em 1298 pouco mais ou menos – a história daquele grande senhor, de cujo poder todos falavam na Europa, história passada menos de um século antes. Conta como o Preste João se indispôs com os tártaros, que antes eram seus tributários; como um novo, e ainda relativamente obscuro, chefe dos tártaros lhe mandou pedir uma filha em casamento; como o Preste, indignado com aquela audácia de um antigo súbdito e servo seu, tratou desabridamente os enviados: como aquele obscuro chefe dos tártaros, que era nem mais nem menos do que Chenghiz-Khan, se ressentiu e marchou contra ele, desbaratando-o e matando-o numa batalha campal nas planícies de Tenduc. […]

"Viagens de Pêro da Covilhã", Conde Ficalho, ed. Viagens Alma Azul, Outubro 2004

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