segunda-feira, 16 de junho de 2008

O Todo que pulsa em cada qual

via DRAGOSCÓPIO de dragão em 16/06/08
Em 10 de Fevereiro de 1969, numa das suas conversas em Família, Marcelo Caetano, dizia:
«Andam hoje outra vez muito em voga os termos "direita" e "esquerda" para significar posições políticas em relação às quais se procura situar o governo. Trata-se de palavras de sentido muito equívoco. Todavia, se a essência da "esquerda" está no movimento, se o espírito da "esquerda" é o da reforma social, não

Os olhos, em ditadura

Enviado para você por Rui Moio através do Google Reader:

via Caminhos da Memória de Diana Andringa em 14/06/08

Fizeram bem em escolher aquela fotografia para os cartazes. A da menina que se entre esconde, laço no cabelo, dois ou três dedos na boca, a olhar para o lado esquerdo. Fizeram bem, porque os olhos são, talvez, o que mais marca neste filme, Cartas a uma Ditadura.

Entendam-me: não pretendo, nesta frase, menorizar o documentário de Inês de Medeiros. Pelo contrário: entendo sublinhar a força de algumas das imagens de arquivo que escolheu. Imagens que mais facilmente nos voltam à memória, quando - ao contrário do que então sonhávamos - a Democracia não resolveu, até agora, o problema da pobreza: a oferta de géneros a quem deles precisa, o peixe, em vez da cana de pescar.

Chamávos-lhe, então, «a caridadezinha». José Barata Moura escreveu mesmo, sobre ela, uma canção. Lembram-se? «Vamos todos brincar à caridadezinha, festa, canasta e boa comidinha». Também ele provavelmente acreditava que bastava derrubar o regime para acabar com a humilhação da esmola.

A humilhação da esmola. A de quem recebe, por certo: é isso que mostram os olhos, duros, sem um soriso, daquela mulher a quem oferecem - nas imagens de arquivo do documentário de Inês de Medeiros - enxoval para o filho recém-nascido. É uma imagem longa - como se a pessoa que filmava, constrangida, sentisse a necessidade de aguardar que a mulher finalmente sorrisse. E ela finalmente sorri, mas sem que os olhos mudem. Recebe a esmola - e devolve-nos o desconforto. A humilhação de quem recebe, mas também a humilhação de quem dá: como a senti quando, no Ramalhão, o Natal significava uma visita à «nossa» pobre, com roupinhas para a criança que esse ano tivera, porque as gravidezes se seguiam umas às outras, para alegria do país católico e conservador e das senhoras esmoleres, mães de muito menos filhos.

Os olhos. Os olhos dessa mulher no filme. Os olhos das crianças que, também elas, recebem roupas e brinquedos e guloseimas e não sorriem. Os olhos duros. Os olhos no chão. Acodem-me à memória versos de Manuel Alegre: «Pergunto à gente que passa/ por que vai de olhos no chão. / Silêncio — é tudo o que tem/ quem vive na servidão».

Era esse o país que tínhamos. O que queríamos mudar. As senhoras que falam no filme, as que escreveram a Salazar, as que ainda hoje - não são todas - não distinguem «ditadura» de «democracia» já não me iritam, magoam-me. Porque fazem parte de nós, porque aquele país está dentro de nós, os que vivemos nele, ainda que contra ele. Ainda nos sustém o riso e a alegria. Ainda nos perturba.

Ao meu lado, uma jovem ri - e tem razão. Nascida em democracia, o Estado Novo parece-lhe, sobretudo, ridículo. Não tem, como os que o viveram, o peso desses anos a endurecer-lhes os olhos, a retraír-lhes o riso.

E fico grata aos cineastas que, crianças ainda no 25 de Abril, têm vindo a preservar a memória do que vivemos: Teresa Vilaverde e «Idade Maior», Serge Tréfaut e «Um Outro País», Maria de Medeiros e «Capitães de Abril», Inês de Medeiros e estas «Cartas a uma Ditadura», entre outros. Que recusam a amnésia.

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A pessoa depois do prémio

Enviado para você por Rui Moio através do Google Reader:

via Caminhos da Memória de Irene Pimentel em 14/06/08

Pouco depois de receber o prémio Pessoa, passei de pessoa vulgar, a Persona, no sentido de me ter transformado numa máscara, por onde se esperava que saísse uma voz a manifestar posições públicas. De repente pediam-me a opinião sobre tudo e nada. Desde logo, recusei dizer qual era a minha cor preferida, o meu signo, se gostava ou não de café com leite de manhã ou um copo de whisky à noite, ou dar as minhas opiniões políticas sobre as primárias do Partido Democrata nos EUA ou sobre as vicissitudes do PSD.

Decidi apenas falar de história e de memória, do nosso passado recente ditatorial e, nesse sentido, dei prioridade a deslocações a escolas. Quase que me transformei numa caixeira viajante a quem perguntavam sobre a PIDE/DGS, o Estado Novo e a situação das mulheres durante a ditadura. E o certo é que – agora a sério – tive excelentes surpresas, totalmente contraditórias com o que consta sobre a Escola e os professores, nomeadamente de História.

Em todos os estabelecimentos de ensino aonde me desloquei, verifiquei o dinamismo dos professores de História, acompanhados pelo entusiasmo organizativo de alunos. Na Escola Secundária de Rio Maior, estava organizada uma exposição sobre o Estado Novo, com objectos e textos sobre o período provenientes das famílias dos alunos. Na Escola da Merceana, perto de Alenquer, os alunos tinham feito, com a professora, um «powerpoint» sobre a ditadura salazarista e o 25 de Abril de 1974. Em Évora, três alunos do 12.º ano da Escola organizaram eles próprios uma conferência, muito bem preparada.

Em todos os locais, os alunos tinham um rol de perguntas «em carteira», que nunca se repetiam, o que indicava que aquelas sessões para onde me tinham convidado apenas constituíam um culminar de outra espécie de trabalho prévio realizado. Em todas as escolas, sentia-se a curiosidade e a incredulidade relativamente a um passado recente, vivido pelos pais e avós. Entre os temas mais abordados, contavam-se a existência de informadores da polícia política, bem como a situação das jovens na Mocidade Portuguesa Feminina e a das mulheres, privadas de direito, no período até 1974. Para as alunas – estas eram de longe as que mais perguntas faziam – e os alunos, aquele passado tão recente parecia afinal outro mundo, bem longínquo.

Sei que provavelmente essas escolas constituem excepções, mas basta a sua existência para se perceber que em todo o lado onde há iniciativa, preparação, conjunção de esforços de professores e alunos, a História se torna em algo de apetecível. Em muitos casos, perguntavam-me como se investiga em Portugal. Ou seja, os alunos sentiam uma curiosidade renovada e até… a apetência pela investigação histórica. Sentia-se que, longe de ser uma «seca», a História surgia como um conjunto de histórias contadas e de memórias vividas a contribuírem para um sentido de identidade, baseada num passado comum, que reforçava a cumplicidade no presente.

Bem a propósito:

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Viagens de Pêro da Covilhã (XIV)

Enviado para você por Rui Moio através do Google Reader:

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 16/06/08

As terras do Oriente haviam sido um dos sonhos constantes de D. João II, que pensou incessantemente no engrandecimento do seu país; e, se não foi um bom homem, foi inquestionavelmente um grande rei. Penetrar na Índia, dominar ali se tanto fosse possível, atrair para Portugal o comércio, que enriquecia Génova, Veneza e todo o litoral mediterrânico, tudo o que depois se realizou, ou quase realizou, o seu sucessor, estava já mais ou menos nitidamente formulado no seu alto espírito, mais ou menos preparado pela sua acção persistente e hábil. D. João II havia semeado o que D. Manuel colheu; e a felicidade do felicíssimo sucessor representa simplesmente em muitos pontos a habilidade de quem o precedeu, e lhe abriu, ou pelo menos indicou os caminhos a seguir.

A este plano geral correspondiam as duas faces da missão, confiada agora aos seus exploradores – procurar os países donde vinham as especiarias a Veneza pela terra dos mouros, procurar o Preste, o grande rei cristão do Oriente. E no Preste, queria ele encontrar, não já, como na Idade Média, um aliado salvador contra o islamismo; mas simplesmente uma porta aberta para a expansão de Portugal, um meio de penetrar na Índia, tão desejada e ainda tão misteriosa. […]

"Viagens de Pêro da Covilhã", Conde Ficalho, ed. Viagens Alma Azul, Outubro 2004

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Arroz de enguia

via sorumbático de noreply@blogger.com (A. M. Galopim de Carvalho) em 15/06/08
Por A. M. Galopim de Carvalho
A MINHA AVÓ PATERNA morreu muito pouco tempo antes de eu nascer. Casara e tivera três rapazes: o meu pai, Mário, o único que estudou no liceu, encorajado por um professor que o estimava; o Manuel, que não concluiu a instrução primária, desempregado por vocação e, de vez em quando, caiador; e o Óscar, o mais novo, que viera cedo para Lisboa e que por cá viveu, tendo casado tarde com uma mulher da região de Tomar. Esta tia, que mal conheci, sempre nos tratou – a mim e aos meus irmãos – com as maiores atenções e carinho, como que a querer prestar homenagem ao irmão mais velho do marido que, como era sua convicção, ocupava o ponto mais alto do pedestal da família, pois tinha estudado e era escriturário de profissão.
Ao tempo dos filhos crianças, já viúva, a avó Mariana e a sua muito jovem família viviam numa velha casa com quintal, para os lados do Farrobo, na cidade de Évora. De terra batida, com uma bela nespereira ao centro, este quintal, pintado na minha imaginação a partir das histórias que ouvi, era ladeado por alegretes, nome que então se dava aos canteiros, os quais tanto podiam ser de flores como de cheiros, quase sempre salsa, poejos, coentros e hortelã.
Uma ocasião entrou-lhe quintal adentro, vindo da casa ao lado, um belo coelho que pronto se anichou num canto, o que tornou fácil e imediata a sua captura. A família vivia com muitas dificuldades, em franco contraste com o desafogo dos vizinhos. A minha avó deve ter feito umas reflexões sumárias em torno de temas tais como moral, justiça social e outros afins e, tomada que foi a sua decisão, olhou em volta, certificando-se da inexistência de terceiros, pegou no bicho e deu-lhe aquele esticão entre pernas e orelhas que nesses tempos toda a gente sabia dar, pois não havia supermercados nem talhos que nos poupassem daquela desagradável operação. De seguida, esfolou-o. Não lhe guardou a pele que, como era regra, se punha a secar ao ar, virada do avesso e com sal, até que a levasse o peleiro ou o «ferro-velho», dando por ela umas migalhas que se não deviam nem podiam desperdiçar. Nesse dia, excepcionalmente, a avó abdicou desse pequeno rendimento. Já lhe bastava o ganho – e não era pouco – da parte comestível. Assim, e por razões evidentes, enterrou-a bem fundo num canteiro, o mesmo fazendo às vísceras e à cabeça do animal. Perder aquela cabeça foi o que mais lhe custou nesta operação de acautelamento que o bom senso ditava. E ela que gostava tanto daquela carne agarrada aos ossos e dos miolos, que comia, no fim, depois de a abrir ao meio com a faca da cozinha. Mas paciência, não se podia ter tudo. Assim, era mais seguro!
Esquartejou-o aos pedacinhos, que lavou bem lavados, e fez o refogado. Pô-lo ao lume e escolheu e lavou o arroz...
Quando, à tardinha, cheios de fome, os filhos entraram, correndo, vindos da escola e das brincadeiras da rua, e perguntaram à mãe o que era o jantar, a minha avó Mariana, sem trejeito que a denunciasse, levantou os olhos azuis da costura e, de agulha na mão, a espetá-la no peito da blusa, num gesto tradicional de quem interrompe o trabalho, respondeu apenas «arroz de enguia!».
E é por isso que, no passado, em casa dos meus pais, e hoje, na minha, o arroz de coelho sempre se chamou e chama "arroz de enguia".
Esta e outras crónicas do autor estão também no blogue-arquivo Sopas de Pedra

sábado, 14 de junho de 2008

Texto de José Saramago sobre o uso da imagem de Che Guevara

via NOVA ÁGUIA de Ana Margarida Esteves em 14/06/08
Che Guevara já existia antes de ter nascido (07/10/2004)

Não importa que retrato. Qualquer um: sério, sorrindo, arma em punho, com Fidel ou sem Fidel, dizendo um discurso nas Nações Unidas, ou morto, com o dorso nu eolhos entreabertos, como se do outro lado da vidaainda quisera acompanhar o rastro do mundo que teveque deixar, como se não se resignasse a ignorar parasempre os caminhos das infinitas criaturas que estavampor nascer.

Sobre cada uma dessas imagens se poderia reflexionar profundamente, de um modo lírico ou de um mododramático, com a objetividade prosaica dohistoriador ou simplesmente de alguém que se dispõe afalar do amigo que descobre haver perdido porque não ochegou a conhecer. Ao Portugal infeliz e amordaçado de Salazar e deCaetano chegou um dia o retrato clandestino de Ernesto Che Guevara, o mais célebre de todos, aquele feito commanchas fortes de negro e vermelho, que se converteuna imagem universal dos sonhos revolucionários do mundo, promessa de vitórias a tal ponto fertéis quenunca poderiam se degenerar em rotinas nem emexepcismos, antes dariam lugar a outros muitostriunfos, o do bem sobre o mal, o do justo sobre oiníquo, o da liberdade sobre a necessidade.Emoldurado ou fixo na parede por meios precários, esseretrato esteve presente em debates políticos apaixonados na terra portuguesa, exaltou argumentos,atenuou desânimos, namorou esperanças.

Foi visto como um Cristo que havia descido da cruzpara descrucificar a humanidade, como um ser dotado depoderes absolutos que fosse capaz de extrair de umapedra a água na qual se mataria toda a sede, e detransformar essa mesma água no vinho com que sebeberia o esplendor da vida.E tudo isto era certo porque o retrato de Che Guevara foi, aos olhos de milhões de pessoas, o retrato da dignidade suprema do ser humano. Mas foi também usado como adorno incongruente em muitas casas da pequena e da média burguesia intelectual portuguesa, para cujos integrantes asideologias políticas de afirmação socialista nãopassavam de um mero capricho conjuntural, formasupostamente arriscada de ocupar ócios mentais,frivolidade mundana que não pôde resistir ao primeirochoque da realidade, quando os fatos vieram exigir ocumprimento das palavras.Então, o retrato do Che Guevara, testemunha, primeiro, de tantos inflamados anúncios de compromisso e açãofutura, juiz, agora, do medo encoberto, da renúnciacovarde ou da traição aberta, foi retirado dasparedes, escondido, na melhor das hipóteses, no fundode um armário, ou radicalmente destruído, como sefosse motivo de vergonha.

Uma das lições políticas mais instrutivas, nos tempos de hoje, seria saber o que pensavam de si mesmos esses milhares e milhares de homens e mulheres que em todo o mundo tiveram algum dia o retrato de Che Guevara nacabeceira da cama, ou na frente da mesa de trabalho,ou na sala onde recebiam os amigos, e que agorasorriem por haver acreditado ou fingido crer.Alguns diriam que a vida mudou, que Che Guevara, aoperder sua guerra, fez perder a nossa, e por tanto erainútil chorar, como uma criança que chora pelo leitederramado. Outros confessariam que se deixaramenvolver por uma moda da época, a mesma que fezcrescer barbas e cabelos, como se a revolução fosseuma questão de barbeiros.Os mais honestos reconheceriam que lhes dói o coração,que sentem em ummovimento perpétuo de um remorso, como se suaverdadeira vida houvesse suspendido o curso e agoralhes perguntasse, obsessivamente, aonde pensam que vãosem ideais nem esperança, sem uma idéia de futuro quedê algum sentido ao presente.Che Guevara, se assim pode dizer, já existia antes deter nascido.Che Guevara, se assim pode afirmar,continua existindo depois de morto.Porque Che Guevara é somente o outro nome do que há demais justo e digno no espírito humano.O que devemos despertar para conhecer e conhecemos,para agregar o passo humilde de cada um ao caminho de todos.

Acção-Reacção

via INCONFORMISTA.INFO de Miguel Vaz em 14/06/08
"Naturalmente, o termo "reacção" tem em si mesmo um certo tom negativo: quem reage não tem a iniciativa da acção: reage-se, de forma defensiva, perante algo que já se afirmou de facto. É necessário pois precisar que não se trata de deter os avanços do adversário sem dispor de algo positivo. O equívoco poderia ser eliminado associando a fórmula de "reacção" à de uma "revolução conservadora", na qual é posto em relevo o elemento dinâmico, deixando de significar "revolução" a subversão violenta contra uma ordem legítima, mas uma acção projectada para pôr fim a uma desordem ocorrida, remetendo a uma situação de normalidade. De Maistre destacou que aquilo que se trata, mais que uma "contra-revolução" no sentido estrito, é o "o contrário de uma revolução", ou seja uma acção positiva que se remete às origens. É estranho o destino das palavras, "revolução" na sua etimologia original latina não queria dizer algo distinto; derivado de re-volvere, o termo expressava um movimento que remete ao ponto de partida, à origem. Portanto, justamente das origens se deveria obter a força "revolucionária" e renovadora, para actuar contra a situação existente."

Julius Evola
in "Los Hombres y las Ruinas", Ediciones Heracles

Padre António Vieira em dia de Santo António.

Enviado para você por Rui Moio através do Google Reader:

via Um Jardim no Deserto em 13/06/08

SERMÃO DE SANTO ANTÓNIO AOS PEIXES

[...] Diz Deus que comem os homens não só o seu povo, senão declaradamente a sua plebe! Plebem meam, porque a plebe e os plebeus, que são os mais pequenos, os que menos podem e os que menos avultam na república, estes são os comidos. E não só diz que os comem de qualquer modo, senão que os engolem e devoram: Qui devorant. Porque os grandes que têm o mando das cidades e das províncias, não se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos, senão que devoram e engolem os povos inteiros: Qui devorant plebem meam. [...]
(Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes, IV (proferido em 1654 em S. Luís do Maranhão - Brasil)

Leia mais deste extraordinário e actualíssimo texto, neste belo postal do blogue A Imagem da Paisagem.

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