quarta-feira, 2 de julho de 2008

Acromiomancia - II. 17 de Setembro de 1964



 
 

Enviado para você por Rui Moio através do Google Reader:

 
 

via DRAGOSCÓPIO de dragão em 02/07/08

«Examinando a situação espanhola, Salazar deixou cair: "Franco, como eu, chegou ao fim. Que problema terrível vai ter a Espanha com a sucessão! Nós aqui, não. O Chefe do Estado escolhe-me um sucessor, e o caso liquidou. Se ele se fará ou não obedecer, esse é outro aspecto.»- Franco Nogueira, "Um político confessa-se (Diário: 1960-1968)"

Infelizmente, Salazar errou onde mais nos convinha (que não

 
 

Coisas que você pode fazer a partir daqui:

 
 

(título desconhecido)

via Grand Monde de Grand Monde em 02/07/08
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Número de Julho / Agosto já nas bancas.
"A filha do carcereiro", um texto sobre o fotógrafo Júlio Siza
por Ângela Camila Castelo-Branco
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Thomaz Teixeira Nunes ao lado a filha Laurentina Nunes Siza, as fotografias (albuminas) de cerca de 1865, foram posteriormente coladas nos cartões do estúdio que Manoel Nunes Siza abriu em Barbados nas Ilhas das Caraíbas. © Colecção Teresa Siza


A filha do carcereiro

Quando em 1997 Manuel Maria Carrilho convidou Teresa Siza para estar à frente do maior projecto fotográfico até então sonhado para Portugal e que culminaria na criação do Centro Português de Fotografia – CPF, na Cadeia da Relação do Porto, estava ela longe de imaginar os enredos à moda de Camilo que a espreitavam.
Em 2001 Teresa Siza adquiriu na Livraria Histórica Ultramarina em Lisboa – espaço que, infelizmente, já desapareceu, e onde reuniam alguns intelectuais à conversa com José Maria Costa e Silva (Almarjão) -, um Almanaque de Anúncios de 1873, onde descobre que Tomás Teixeira Nunes (Braga?-?), seu trisavô, era o carcereiro da Cadeia da Relação do Porto em 1873. Até então Teresa desconhecia este dado.
Tomás Teixeira Nunes, o carcereiro da Relação, tinha dois filhos: o fotógrafo Henrique Nunes (1820-1882), com estúdio desde 1863 na Rua das Flores, n.º 152, no Porto, e onde, por ventura, terá trabalhado Júlio Augusto Siza (Braga,1841-Matosinhos, 1919), antes mesmo de casar com a filha do carcereiro, Laurentina Augusta Nunes (1839-1878). Quando casou em 1865, a noiva tinha 26 anos e vivia com o pai na Relação, como aliás consta da certidão de casamento.
Em 1862 o trisavô de Teresa Siza, Tomás Teixeira Nunes, ainda não seria o carcereiro da Relação do Porto – pelo que, possivelmente, aí não conheceu Camilo Castelo-Branco. O escritor não se refere a Tomás Teixeira Nunes nas Memórias do Cárcere escritas na cela n.º 12 daquela cadeia num período conturbado da sua existência e em que a escrita funcionou como um salvatério para a sua alma amargurada.
No entanto, no curso da narrativa, editada em 1862 mas redigida enquanto durou a detenção (1/10/1860 a 16/10/1861), Camilo refere-se, pelo menos três vezes, a um carcereiro ("Fui visitado pelo carcereiro Nascimento..."; " ... tinha injuriado o inofensivo Nascimento" e "O carcereiro era um alferes de veteranos... Era de supor que o senhor Nascimento (já lá está na presença do Rei dos reis)...". Cita, igualmente, e por duas vezes um outro carcereiro ("Quando o carcereiro interino, um tal Guimarães - despedido depois como ladrão -"; "... demitindo-o virtualmente por ladrão. Chamava-se ele José Francisco Guimarães...")*.
Possivelmente Tomás Teixeira Nunes terá entrado ao serviço da Cadeia da Relação depois da libertação de Camilo e Ana Plácido. Se fosse anteriormente o carcereiro da Relação, teria, certamente, participado na autorização que permitiu as deambulações do escritor pelo estabelecimento o que facilitaria encontros - nem que fosse apenas de troca de olhares - com Ana Plácido, aí também enclausurada na ala das mulheres em virtude do caso de adultério de que ambos eram acusados. Teria, igualmente, conhecimento da autorização concedida a Camilo para, por motivos de saúde, sair a tomar ares na cidade, oportunidades que o escritor não perdia para arrostar a inimizade da burguesia portuense. Na cadeia, escreveu Camilo "Amor de Perdição", um dos grandes romances da literatura romântica portuguesa.
Tomás Teixeira Nunes seria, então e igualmente, carcereiro de Abílio da Cunha Moraes (1825-1871), o relojoeiro/fotógrafo que daí partiu para o degredo em Angola em 1863, condenado por falsificar moeda e acusado de ter subornado meia Coimbra, de jornalistas a juízes. Abílio tornar-se-ia o primeiro da família Moraes a fotografar a África ocidental portuguesa. Os filhos seguir-lhe-iam os passos, primeiro Augusto César, depois José Augusto seguido por Joaquim Júlio e finalmente pelo irmão mais novo Alfredo Adelino Cunha Moraes. Mas estas são outras estórias, também envolventes, também na senda de enredos camilianos. Do que temos a certeza é de que o carcereiro Tomás Teixeira Nunes aí viveu, na Cadeia da Relação do Porto, entre 1865 e 1873.


Henrique Nunes e Júlio Siza, ca de 1870 © Colecção Teresa Siza

Pouco depois do casamento Júlio Siza foi para Lisboa onde trabalhou para o cunhado no atelier de Fillon (1825-1881), que Henrique Nunes ficou a dirigir quando o francês se ausentou para participar na Comuna de Paris. Trabalhou, ainda, noutros estúdios da capital: na Casa Fritz e como operador do Atelier Camacho na sua casa de Lisboa na Rua Nova do Almada, n.º 116. Daí passou para o estúdio de Camacho na Rua de S. Francisco n.º 21 no Funchal, Madeira. Isto mesmo anuncia João Francisco Camacho no Diário de Notícias do Funchal de 9 de Setembro de 1881. No ano seguinte já está a trabalhar na casa Photographia Vicentes (http://www.nesos.net/imgdocs/nesos_publicar/exposicoes/museu/contacto.html) na Rua da Carreira, já depois de remodelada.
Laurentina, a filha do carcereiro, deu oito filhos a Júlio Siza, alguns não sobreviveram à nascença. Os mais velhos, Manuel Nunes Siza (Lisboa, 1867–Brasil, 1938) e Henrique Nunes Siza (Porto, 1869–Brasil, 19??), seguiram a profissão do pai que os terá iniciado no oficio já em Demerara (região da então Guiana britânica, nomeada pela alta qualidade do açúcar aí produzido). Manuel Nunes Siza teve estúdio em Barbados, W.I. (West Indies), o "Anglo-Luzo Photographic Gallery"; Manuel assinava "Nunes Siza" ou "M.N.Siza". Henrique Nunes Siza também teve estúdio, o "Union Photographic Gallery", igualmente em Barbados, nas ilhas das Caraíbas.

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Júlio Siza na casa Photographia Vicentes na Madeira, quando aí foi operador. No cartão ao lado, Júlio Siza com os filhos Manoel e Henrique Nunes, a 15 de Setembro de 1887 no seu estúdio no Guiana Britânico. © Colecção Teresa Siza.

Quando Júlio Siza resolve emigrar, entre 1884 e 1897, fixa-se na Guiana Britânica (hoje Guiana), primeiro em Demerara e depois em Georgetown onde abriu o "Lusitana Photographic Gallery", na Water Street, como podemos ler no Directório Britânico do Guiana de 1887.
Numa das suas viagens à Madeira em 1889, vai contrair o segundo matrimónio com D. Guilhermina Alves de quem terá 2 filhos. Dídio Alves Siza (Geogetown, 1890 - ?) e Ângela Alves Siza (Georgetown, 1895 – Belém do Pará 1986).
Cerca de 1897 Júlio Siza decide trocar Georgetown por Belém do Pará. O estúdio da Guiana poderá ter sido comprado pelo industrial da fotografia C.K. Jardine. Júlio Siza chegou ao Brasil a 3 de Maio de 1897, em Belém do Pará abriu estúdio na Rua do Conselheiro João Alfredo, n. º 7, a "Photographia Amazónia". Soube recentemente que de mão em mão, a Photographia Amazónia (depois Fotografia Amazónia) durou pelo menos até aos anos 1960's. Mas ninguém sabe se conservava ou não o espólio inicial.
Apresentou trabalhos nas exposições de Londres de "1884 e 1886" e em Chicago, 1893. Foi premiado com a medalha de Bronze na Colonial and Indian Exhibition (Londres 1886) e em 1892-93 recebeu a medalha de Bronze na World Columbian Exposition, (Chicago) e em 1894 a medalha de Mérito na Berbice Industrial Exhibition.

Diploma World Columbian Exposition, 1893 Chicago

Diploma World Columbian Exposition, 1893 Chicago © Colecção Teresa Siza

"Os Estados Unidos da América, por acto do seu Congresso, autorizaram a Comissão do Mundo Colombiano na Exposição Internacional que teve lugar na cidade de Chicago, Estado de Illinois, no ano de 1893, premiar com uma medalha pelo mérito específico descrito em baixo em nome de um júri que exerce o papel de examinador, após ter sido encontrado um grupo de jurados internacionais, a Júlio Siza, Georgetown, Guiana Britânica."

W.F. Terry, (President of Department Committee); Alice M. Fletcher, (Individual Judge); (?), (Director General); (?), (Chairman Executive Committee of Awards); T. W. Palmer, (President, World's Columbian Commission); J. J. Dickinson, (Secretary, World's Columbian Commission).

No diploma da medalha de Mérito que recebeu em Chicago está descrita a versatilidade do fotógrafo, permitam-me expor aqui a tradução de uma parte desse documento que concerne ao trabalho do fotógrafo português:
"Esta colecção de fotografias representa as diversas raças e gentílicos da Guiana Britânica. Os chineses e os coolies, ou indianos orientais, representam as importadas classes trabalhadoras; o negro, a raça herdada dos tempos da escravatura africana; as tribos de índios da floresta, savana e costa, a etnia nativa do país; os tipos de descendentes de espanhóis, franceses, crioulos, escoceses e ingleses. A série mostra adultos e crianças e proporciona um interessante estudo das raças e das modificações climáticas. Existem imagens de habitações nativas, assim como cenas de floresta, além de testemunhos do actual e considerável desenvolvimento do país que está sob a influência dos europeus. A totalidade da colecção é um valioso contributo para a compreensão do povo da Guiana britânica, assim como do seu ambiente."
"Fotografias que ilustram as casas, indústrias e pessoas da Guiana Britânica"

Pela descrição são as imagens reunidas num álbum com 86 fotografias que se encontra na Cambridge University Library: Royal Commonwealth Society Library. As que seguramente são de Siza representam: a High Street e a Câmara (Town Hall) de Georgetown (248x199mm); uma "vista" de uma aldeia índia nas margens do rio Masuruni, com um grupo de índios e um europeu posando em frente de uma cabana (242x191mm); uma sepultura de índio Orinoco numa clareira, com o cadáver envolto em folhas de palmeira e amarrado a um cavalete de madeira, vendo-se ainda 3 índios ao fundo (171x235mm); um acampamento de pesquisadores de ouro numa clareira, com trabalhadores europeus e da Guiana posando para o fotógrafo em frente das tendas; um homem ao fundo mostra uma bandeira inglesa (243x193mm).

Aldeia índia nas margens do rio Masuruni, com um grupo de índios e um europeu posando em frente de uma cabana (242x191mm). Fotografia de Júlio Siza. Cambridge University Library: Royal Commonwealth Society Library

Acampamento de pesquisadores de ouro numa clareira, com trabalhadores europeus e da Guiana posando para o fotógrafo em frente das tendas; um homem ao fundo mostra uma bandeira inglesa (243x193mm). Fotografia de Júlio Siza. Cambridge University Library: Royal Commonwealth Society Library

Como se pode concluir estamos perante um grande fotógrafo. Acrescente-se o facto de Júlio Siza e os dois filhos Manoel e Henrique não serem os únicos portugueses fotógrafos a trabalharem naquela época na região.

High Street e a Câmara (Town Hall) de Georgetown (248x199mm) Fotografia de Júlio Siza. Cambridge University Library: Royal Commonwealth Society Library.

Georgetown, Market Square Looking South. Fotografia de Júlio Siza. Cambridge University Library: Royal Commonwealth Society Library

Escreve Maria Cristina no blogue, Cultura Pará que: "Segundo alguns poucos e primários registros locais, o primeiro fotógrafo a chegar na Amazônia, atraído pelo exotismo da região, foi Charles Fredricks, em 1844. Depois de uma passagem conturbada, retornou em 1846 e inaugurou o 1º estúdio fotográfico, dando início a uma prática que veio confrontar o medo diante do novo, porque supunha-se que aquele invento "roubava-lhes a alma". Sem sucesso, permaneceu apenas três meses na cidade onde oferecia "em superior grau de perfeição (..) uma semelhança de seu original (...) por modicos preços".
Junto com a comitiva do Imperador D. Pedro II, que veio a Belém para a Abertura dos Portos da Amazônia ao Comércio Exterior, chegou Felipe Augusto Fidanza, que aqui se estabeleceu e se tornou o maior nome da fotografia paraense, abrindo o Photo Fidanza, maior referência na cidade, que se manteve por aproximadamente 100 anos sobressaindo-se em qualidade e solidez, não obstante os outros estabelecimentos de igual porte que já existiam no final do século, como o Photo Oliveira, inaugurado em 1884." e também a Photographia Amazónia de Júlio Siza, não referenciada por Maria Cristina mas, da maior importância. Isso podemos constar nas imagens em postais e no álbum "Belém da Saudade", algumas das fotografias do álbum foram reproduzidas em selos.
Teresa Siza mostrou-me ainda belíssimas fotografias que o bisavô fez da filha Ângela e dos netos. Fotografias à maneira do escritor Lewis Carroll, pseudónimo de Charles Lutwidge Dodson, (1832 – 1898) ou à maneira da fotógrafa inglesa Julia Margaret Cameron (1815 – 1879).
Júlio Siza era mais que um simpatizante da causa republicana e, talvez que tal facto não seja alheio ao seu regresso à Pátria em 1910, ano da implementação da Republica. Veio acompanhado da filha Júlia, o genro Joaquim Vieira, os 6 filhos do casal e a 2ª mulher; não há a certeza que tivessem regressado para ficar. Se pensavam regressar ao Brasil isso não aconteceu. Guilhermina faleceu no Porto em 1915 e Júlio Siza quatro anos depois em Matosinhos, em 1919. No mesmo ano da morte do pai, Manuel Nunes Siza abria ainda um pequeno estúdio a "Fotografia Ideal", na Rua 28 de Setembro no Reducto, bairro de Belém do Pará, Brasil. Desconhecemos a data da morte de Henrique; Manoel Siza, morreu em Belém do Pará em 1938. Teresa Siza preparou recentemente uma exposição sobre a vida do fotógrafo Júlio Siza, que inaugurou em Belém do Pará, no Brasil, no dia 3 de Junho, e que está inserida numa homenagem ao Arquitecto Álvaro Siza Vieira. Trabalha também num livro sobre o fotógrafo Júlio Augusto Siza, que terá texto de Maria do Carmo Serén e que todos aguardamos impacientemente.
Este texto só foi possível graças a Maria Teresa Melo Siza Vieira Salgado Fonseca (Matosinhos, Portugal, 19 de Fevereiro de 1948). Licenciada em Filosofia, (Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1970); Professora efectiva do ensino secundário de Filosofia, Comunicação Social e Fotografia (1970-1977); Professora do Curso Superior de Fotografia da Árvore, Cooperativa de Ensino Superior e Artístico (1984-1989); directora do Curso (1986-1989); Directora-adjunta e comissária de exposições dos Encontros de Fotografia de Coimbra (1991-1996); Directora do Centro Português de Fotografia / Ministério da Cultura desde Junho de 1997 até 2007. Fotógrafa e autora de textos sobre crítica e história da fotografia. Obrigado Teresa.

Ângela Camila Castelo-Branco, APPh.

* V. Memórias do Cárcere de Camilo Castelo Branco, edição da Parceria A. M. Pereira, comemorativa da inauguração da sede do Centro Português de Fotografia na Cadeia da Relação do Porto (Outubro de 2001), prefácio e fixação do texto de Aníbal Pinto de Castro. Referências aos carcereiros: Nascimento (pp. 98, 195 e 435) e Guimarães (pp. 251 e 309).

A Viagem (III)

A Viagem (III)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 02/07/08

Compreende-se a razão de ser da paragem. Em certa medida, até Cabo Verde, a viagem atlântica não levanta grandes problemas. Depois de quase meio século de navegações naquela região, seguindo uma rota que, a partir da Europa, acompanha a costa e as ilhas, pode-se dizer que os portugueses se encontram em latitudes familiares. A rota usual - a da exploração dos rios da Guiné e das viagens costeiras mais meridionais - inflectia depois para nascente, a caminho da Mina. Fora, anos antes, a caminho do Atlântico Sul, a rota descobridora de um Diogo Cão e de um Bartolomeu Dias.

Mas agora, o itinerário marítimo é outro. Trata-se de, partindo de Cabo Verde, proceder às delicadas manobras que, em pleno oceano, vão conduzir a armada directamente ao extremo meridional do continente africano. Vão ser longas semanas de mar alto, sem ver terra. Um erro naquelas cruciais manobras, nessa estreita faixa do Atlântico Central, pode ser fatal para a expedição. Podem ser obrigados pelos alísios a regressar ao Atlântico Norte…, ou podem entrar na zona das calmarias que tantos problemas criou a Cristóvão Colombo na sua terceira viagem americana… ou, finalmente, podem ser apertados para os mares do interior do golfo da Guiné. Em certa medida, o segredo da rota do Atlântico Meridional, a porta do cabo da Boa Esperança está ao largo de Cabo Verde.

Por isso, Bartolomeu Dias, que acompanha a armada de Gama até essas manobras, uma vez realizadas, pode abandonar a frota, dirigindo-se à Mina. Como escreve João de Barros, depois «da partida da qual ilha, Bartolomeu Dias os acompanhou até se pôr no caminho da derrota para a Mina, Vasco da Gama na sua». E Damião de Góis afirma que, à saída da ilha de Santiago, a frota, «seguindo seu regimento», se dirige ao cabo da Boa Esperança. Com efeito, na rota portuguesa a caminho do Atlântico Sul, o mais difícil parece estar feito…

"Vasco da Gama - O Homem, A Viagem, A Época", Luís Adão da Fonseca, Edição do Comissariado da Exposição Mundial de Lisboa de 1998 e da Comissão de Coordenação da Região do Alentejo, 1997, pp. 112 e 113

terça-feira, 1 de julho de 2008

Acromiomancia - I. 13 de Novembro de 1966

via DRAGOSCÓPIO de dragão em 01/07/08
Já toda a gente decerto ouviu falar na quiromancia - a adivinhação do futuro através da leitura das linhas na palma da mão, pois. Todavia, é apenas uma entre muitas. De facto, exercem-se, há séculos, imensas modalidades de adivinhação, das quais cito algumas deveras pitorescas:- Dendromancia (adivinhação pela leitura dos troncos de árvores derrubadas);
- Oniromancia (adivinhação pela leitura dos

(título desconhecido) - Poeira de 1 de Julho

via ABRUPTO de noreply@blogger.com (JPP) em 01/07/08
POEIRA DE 1 DE JULHO


Hoje, há noventa e três anos, Viriginia Woolf tinha deixado de escrever o diário que começara nesse ano e encontrava-se deprimida, violenta, agressiva. No meio da sua depressão deixou de dormir e perguntava aos seus amigos como é que faziam à noite. Um deles, talvez o seu cunhado Clive Bell, disse-lhe que todas as noites lia meia dúzia de páginas de Tucídides, descrevendo batalhas ou escaramuças da guerra do Peleponeso. Depois fechava a luz e imaginava-as com todos os precisos detalhes, o cheiro da urze, o barulho das espadas, a pedra onde se sentou um guerreiro de Esparta olhando para o por-do-sol enquanto morria, as azeitonas comidas à sombra depois de uma batalha, o pó levantado pelos caminhos, o silêncio. Muitas destas coisas não vinham em Tucídides, inventava-as e permanecia centrado naquilo em que queria pensar e não naquilo em que pensava e não o deixava dormir. Quando não conseguia, voltava a Tucídedes.

George Sorel (II)

via INCONFORMISTA.INFO de Miguel Vaz em 01/07/08
No começo era a acção

Retomando a distinção, já hoje clássica, entre guerra «justa» e guerra «injusta», opõe a violência burguesa à violência proletária. Esta última, possui a seus olhos uma dupla virtude. Não só deve assegurar a revolução futura mas é ainda o único meio de que dispõem as nações europeias, «embrutecidas pelo humanitarismo», para reencontrar a sua antiga energia.
A luta de classes é por um afrontamente de vontades firmes, mas não cegas. A violência torna-se na manifestação de uma vontade. Ao mesmo tempo, exerce uma espécie de função moral: produz um estado de espírito de equipa.
— A violência, declara Sorel ao seu amigo Jean Variot, é uma doutrina intelectual: a vontade de cérebros poderosos que sabem o que querem. A verdadeira violência é o que é necessário para se ir até ao fim das ideias (Propos de George Sorel, Gallimard, 1935).
Sorel teria aprovado estas palavras de Goethe: «No começo era a acção». Para ele, faça o que fizer, o homem que age é sempre superior ao homem que se submete: «A verdadeira violência faz surgir no primeiro plano o orgulho do homem livre».
Para que o mundo actual readquira a sua energia é preciso um «mito», isto é, um tema que não seja nem verdadeiro nem falso, mas que aja poderosamente nos espíritos, mobilize e incite à acção.
George Sorel via na Prússia do último século a herdeira da antiga Roma.
Para cantar as «virtudes prussianas», encontra um tom que não deixa de evocar Moeller Van der Bruck (Der Preussische Stil). «Sorel, o artesão, tem o culto do trabalho bem feito, nota Claude Polin, e o trabalho bem feito deve constituir um fim em si, independentemente dos benefícios que dele se retiram. Este desinteresse é próprio da violência: no fundo do pensamento de Sorel há a intuição de que todo o trabalho é uma luta, em especial o trabalho bem feito e até, de que o trabalho só é bem feito quando é uma luta. Esta ideia retoma a intuição do carácter essencialmente prometeíco do trabalho. Todo o verdadeiro trabalho é uma transformação das coisas que comporta a necessidade de se transformar a si próprio e aos outros consigo».
Pouco a pouco, Sorel acaba por denunciar a democracia (verdadeira ditadura da incapacidade) conjugando o já acentuado por um Maurras, um Bakounine e um Secrétan.
A ditadura do proletariado surge-lhe mais ou menos como um engodo: «É preciso ser-se ingénuo para supor que todas as pessoas que retiram proveito da ditadura demagógica abandonariam facilmente as suas vantagens». De passagem, recusa o papel de vanguarda que o bolchevismo intelectual pretende para si: «Todo o futuro do socialismo reside no desenvolvimento autónomo dos sindicatos operários» (Matériaux pour une Théorie du Prolétariat). «Marx nem sempre foi bem inspirado», prossegue ele. «Nos seus escritos, acontece-lhe introduzir quantidades de velharias provenientes dos utopistas.»
Esta concepção da acção está em completa oposição com as teorias «vanguardistas» (o trotskysmo, por exemplo). Mas encontramo-la nas propostas do sindicalismo revolucionário e do anarco-sindicalismo.
Finalmente, se Sorel defende o proletariado com um tal encarniçamento, não é por sentimentalismo, como Zola, nem pelo gosto pequeno-burguês da culpabilidade, nem mesmo porque o aflige uma «consciência de classe». É por que está convencido que, no seio da sociedade burguesa, só no povo se poderá encontrar a energia que as classes dirigentes perderam. Consciente das «ilusões do progresso», constata que as sociedades, como os homens, são mortais. A esta fatalidade, opõe uma vontade de viver de que a violência é uma das manifestações.
Hoje em dia, Sorel denunciaria tanto a sociedade mercantil como os mestres pensadores da contestação. «Marcuse representaria a seus olhos», escreve Polin, «o exemplo típico do homem degenerado pela crença beatífica do progresso, iludido por um progresso de que nada compreendeu e tudo esperava, incapaz de pôr a sua esperança para além de um progresso exacerbado, radicalizado, nesse sonho de uma abundância, de tal modo automática, que traria em primeiro lugar a felicidade tornando possível a saciedade desordenada das paixões mais loucas, numa palavra, incapaz de compreender que a fonte do mal está no homem, desvirilizado pela fé económica».

Alain de Benoist
in "Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas", Lisboa, Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite, 1981.

A caminho de Madrid

A caminho de Madrid

via sorumbático de noreply@blogger.com (Nuno Crato) em 01/07/08
Por Nuno Crato
SÃO OITO, E ESTÃO A PREPARAR-SE intensamente em Coimbra. Dentro em breve irão defrontar os olímpicos de outros países. Na realidade, a sua preparação começou há muitos anos, quando se estrearam nas primeiras letras. Foi então que começaram a adquirir sistematicamente a noção de número, que estudaram melhor o espaço e as figuras geométricas e que aprenderam as operações. Ganharam gosto pela resolução de problemas e estão agora a desenvolver técnicas para serem capazes de enfrentar mais e mais problemas. Estão a caminho das Olimpíadas Internacionais de Matemática — é claro! Vão para Madrid, onde de 10 a 22 de Julho estarão muitos jovens talentosos, seleccionados entre os melhores do mundo inteiro.
Só em Portugal, foram 30 mil os estudantes que participaram este ano nas olimpíadas. Os oito que vão representar o nosso país recebem um treino adicional no Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra. Um treino em técnicas e em pensamento criativo, pois as duas coisas são indissociáveis. Quanto melhor se domine a técnica, quanto mais rápido se for nos algoritmos, quanto mais mecanizadas estiverem as operações e quanto mais rica for a memória, mais fácil é ser-se criativo. Em matemática como noutras disciplinas.
Um dos maiores génios matemáticos contemporâneos, jovem Terence Tao, é um dos muitos investigadores que se iniciaram nas olimpíadas. Escreveu então um livrinho dedicado aos seus colegas olímpicos e intitulado "Como Resolver problemas Matemáticos". O livro vai esta semana ser lançado em Coimbra, no Encontro Nacional da Sociedade Portuguesa de Matemática.
Vale a pena lê-lo. Percebe-se como a criatividade é irmã do trabalho.
«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 28 de Junho de 2008

A Viagem (II)

A Viagem (II)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 01/07/08

Uma semana depois, navegam ao largo das Canárias. Seguem a rota usual ao longo da costa ocidental africana. Na madrugada seguinte, passam a Terra Alta, tradicional ponto de referência para os barcos portugueses, onde pescam durante duas horas. Estão perto do Rio do Ouro, lugar muito frequentado desde o tempo das navegações henriquinas, onde surge o primeiro contratempo: sendo «de noite tamanha a cerração», lê-se no relato de Álvaro Velho, certamente no decorrer das manobras, perde-se a nau de Paulo da Gama e, logo a seguir, a do próprio Vasco da Gama. Felizmente que as instruções são claras: numa situação dessas, devem reunir-se todos em Cabo Verde.

Assim, no domingo seguinte, encontram-se na ilha do Sal. Estão a 23 de Julho. Estão todos, menos a nau de Vasco da Gama, que só será encontrada três dias depois, entre o Sal e a ilha de Santiago. Escreve o autor do mesmo texto que «sobre a tarde nos viemos a falar com muita alegria, onde tirámos muitas bombardas e tangemos trompetas, e tudo com muito prazer pelo termos achado». Nesta última ilha, a armada mantém-se alguns dias; reabastece-se de carne, água e lenha, e levam-se a cabo pequenos arranjos nos navios.

"Vasco da Gama - O Homem, A Viagem, A Época", Luís Adão da Fonseca, Edição do Comissariado da Exposição Mundial de Lisboa de 1998 e da Comissão de Coordenação da Região do Alentejo, 1997, p. 112