terça-feira, 8 de julho de 2008

Rosa Coutinho, o incendiário

via nonas by nonas on 7/7/08
«"Rosa Coutinho, oficial superior da Marinha de Guerra Portuguesa - e não..."Almirante" até ao "25 de Abril de 1974"- anos antes havia sido capturado no rio Zaire, onde a sua vedeta fazia patrulhamento das águas territoriais, por forças da FNLA, o ELNA (Exército de Libertação Nacional de Angola). Fora levado para o campo de treinamento militar do ELNA em Kinkuzu, na República Democrática do Congo, depois "do Zaire"; ali ficou meses detido, constando que o seviciaram, sujeitando-o a diversas humilhações, até ser libertado na fronteira de Angola, após negociações aturadas, a nível internacional, com intervenção de Mobutu Seseko, presidente "zairense" que também armava, financiava e cedia soldados ao ELNA da FNLA e, segundo rumores, era cunhado (o que não confirmamos), de Holden Roberto. É evidente que Rosa Coutinho não podia ter qualquer simpatia ou indiferença por quem o capturara e maltratara".
"Uma carta do almirante Rosa Coutinho, quando era presidente da Junta Governativa de Angola, está a provocar polémica em Angola. A carta, em papel timbrado do gabinete do Governo-Geral e com a assinatura de Rosa Coutinho, era dirigida a Agostinho Neto e nela se pode ler: «Após a última reunião secreta com os camaradas do PCP resolvemos aconselhar-vos a dar execução imediata à 2ª fase do plano.(...) Dê por isso instruções secretas aos militantes do MPLA para aterrorizarem por todos os meios os brancos, matando, pilhando e incendiando a fim de provocar a sua debandada de Angola». Holden Roberto, presidente da FNLA, que cedeu uma cópia da carta ao EXPRESSO, garantiu a sua autenticidade, acrescentando: «Um homem que escreveu uma carta destas é um criminoso». Rosa Coutinho, reconhece a veracidade da assinatura. Entretanto, a polémica prossegue em Angola, com o MPLA a dizer que a carta «nunca existiu e foi forjada pelos serviços secretos portugueses ou pela própria FNLA, que a divulgou» e Holden Roberto, da FNLA, a agitar o documento".»

In Telémaco A. Pissarro, Memórias - 1951-1975, pág. 20.

Rosa Coutinho visto por Holden Roberto (FNLA)

via nonas by nonas on 7/7/08
O jornal A Província de Angola publicou, em 15 de Maio de 1975, um artigo de Holden Roberto onde este define o almirante vermelho:
«Conheci o sr. Rosa Coutinho em 1961. Ele foi prisioneiro da FNLA. O sr. Rosa Coutinho, a chorar, a dizer-me que era mandado, que não era responsável, que era militar na Marinha, capitão de fragata ou tenente, não sei. Hoje depois de ter servido o fascismo, hoje, o sr. Rosa Coutinho diz-se progressista. Em Portugal, durante o jantar que o Presidente da República Portuguesa ofereceu aos elementos das Delegações dos Movimentos da Libertação, o sr. Rosa Coutinho falou. Realmente o sr. Rosa Coutinho, sabe falar, fala muito. Houve um Ministro que estava ao seu lado e que lhe disse: foste corrido de Angola não foi? Todos nós ouvimos... E acrescentou: tu não és político. É melhor não falares, porque cada vez que falas, abres a boca e só dizes asneira. Defini quem é o sr. Rosa Coutinho.»

http://pissarro.home.sapo.pt/memorias19a.htm

segunda-feira, 7 de julho de 2008

SALAZAR GRANDE E PEQUENO

via ÁREA NACIONAL de camisanegra em 07/07/08
(um artigo de Nuno Rogeiro, com a devida vénia ao Futuro Presente)

Haverá duas formas de encarar a experiência política do Estado Novo, entre Julho de 1932 e Setembro de 1968: integrá-la e compreendê-la no seu tempo, ou transplantá-la para o presente, e reinventá-la.
"Salazaristas" e "anti-salazaristas", isto é, aqueles que pensam continuar a obra política do ex - Presidente do Conselho de Ministros, ou continuar a opor-se a ela, costumam optar pela segunda via.
Mas nunca a primeira se tornou mais importante do que hoje, quando parece ter-se feito alguma distância para olhar, com serenidade e olhos de ver, o que aconteceu a Portugal, depois da queda da Primeira República.
Este pequeno ensaio limita-se, como é óbvio, a relançar algumas pistas.

2: O QUE É SER GRANDE
Deve observar-se, em primeiro lugar, que a pergunta "foi Salazar um grande português?" nunca terá uma resposta universalmente válida.
Desde logo, porque não existe, codificada ou comungada por um grupo suficientemente vasto (na história, ou na mesma época), a definição de "grande português", a não ser que se confunda com a de "Português notável". Agigantado no seu tempo, Salazar foi um português notado, mas essa é uma observação banal.
Depois porque a pergunta envolve, mal ou bem, um julgamento político-moral, que divide, mais do que une.
Salazar devia ter encerrado a colónia penal do Tarrafal, evitando o regresso aos processos expeditos de alguns figurões da Primeira República? E seria isso uma prioridade? Devia ter "descolonizado" antes ou depois de 1945? Devia ter autorizado partidos, e restaurado os de 1911? Devia ter declarado o regime monárquico, quando da chegada, com honras de estado, dos restos mortais de D. Manuel II? Devia ter viajado mais, ou menos? E dentro, ou fora?
Devia ter-se casado? Apegou-se demasiado, ou de menos, ao poder? E a quê: à sua capacidade de transformação, ou aos seus benefícios?
Há, no julgamento, centenas de tópicos de inquirição, em diversos modelos e situações. Mas convém dizer que, se tratássemos de um mero juízo técnico, por exemplo em torno do reconhecido saneamento financeiro do país, entre 1932 e 1945, talvez se pudesse dizer, sem dificuldade, que Salazar foi um "grande português".
Mas, como sabemos, não é um juízo técnico que se pretende, nem ele é possível.
Em último lugar, a pergunta perde-se, porque "grande português" corresponde a uma visão global, sobre-humana, cientista e impossível do passado. Em boa verdade, entendendo-se que o processo da independência nacional é um todo coerente, só se pode passar juízo, e estabelecer balanço e contas...no fim da história.
Não estamos ainda na sua antevéspera, salvo melhor opinião.

3: AS ÉPOCAS DE SALAZAR (I)
"Mais do que em "regime de Salazar" ou "Salazarismo", há que falar em "épocas" do sistema político em causa.
O período de 28 de Maio de 1926 a 5 de Julho de 1932 é o do estabelecimento das bases e legitimidades.
É aqui que Salazar passa de tecnocrata a político, de "mero" reconstrutor das finanças públicas a teorizador das tarefas do Estado, de disciplinador orçamental e fiscal, a estratego da nacionalidade. O seu braço de ferro com Sinel de Cordes, em 1928, a propósito das condições dos primeiros empréstimos internacionais putativos, traça, antes da letra, uma linha de rumo de conduta do estado. Podemos hoje discutir as razões reais de recusa das condições impostas pelo ágio exterior, mas a justificação oficial foi sempre a de não-humilhação nacional, da manutenção do tecido social, da soberania operativa, e da capacidade de decisão económica.
Se fica ali logo traçada a estrutura básica de auto-determinação internacional, delimita-se o clima interno, político-institucional e "ideológico", no discurso de 23 de Novembro de 1932. Eis que se declaram os partidos contrários ao estado revolucionário, e em que se dissuadem "direitas" e "esquerdas" de ensaiar a tomada do poder pela via das facções organizadas. É também nessa altura que Salazar pede a dissolução do Centro Católico, que o formara e onde militou. E não se pode esquecer que Salazar participou, activamente, na aventura de influenciar a junta militar no sentido "centrista", longe da aliança pretoriana – proto-fascista ensaiada por Gomes da Costa.
De 1933 a 1945, o Estado Novo precisa de afirmar super-estruturas, e de ganhar um lugar no mundo. Em parte, por causa das guerras (de Espanha e Mundial), em parte por causa da pressão externa dos totalitarismos e das democracias.
Esta é a época da política de obras públicas, da propaganda mediática, da arte de estado, mas também da afinação jurídico-doutrinal. Começa esta, claro, com a Constituição Corporativa, e com uma série de elementos que, desagradando a gregos e troianos, afirmam o espaço próprio do novo regime.
O Estado Novo afirma-se subordinado à Moral, reconhece a Igreja e a história, mas abstém-se de restaurar a monarquia, e mantém o 5 de Outubro como feriado, mesmo se envergonhado. Isto é significativo, se tivermos em conta que o 28 de Maio se fez contra muito do espírito dessa efeméride, e que tinham decorrido apenas 23 anos sobre a revolução republicana.
Afirma-se antidemocrático e anti-liberal, mas rejeita o totalitarismo (1). Rejeita o pluralismo partidário, ilegaliza o PCP, mas fá-lo igualmente face ao nacional-sindicalismo de Rolão Preto, em 1934/35.
É também nesta altura que Salazar adapta as instituições do interregno, da Liga Patriótica "União Nacional" (criada em 1930, antes da sua chegada ao poder executivo máximo) à sucessora da Polícia Preventiva da Segurança do Estado (fundada pela Primeira República,
para lutar contra a subversão política e a contestação social).
É deste período o famoso comentário do Secretário de Estado norte-americano, Dean Acheson, sobre a sua visita a Salazar, em plena segunda guerra. Descreve o chefe de governo português como:
(...) um ditador – gestor, empregado e mantido pelo poder do exército, para dirigir o país em benefício das classes médias, de onde provinha a maioria dos oficiais (2).
Acheson escreve que Salazar está mais próximo do estadista de Platão do que das democracias, mas que a ausência de "força excessiva" no governo o separa dos totalitarismos. O chefe da diplomacia americana, insuspeito, foi membro do Partido Democrata toda a vida, e opôs-se, mais tarde, veementemente e com coragem pessoal, à caça às bruxas do senador McCarthy."

4: AS ÉPOCAS DE SALAZAR (II)
"Entre 1945 e 1961, os desafios são outros: a modernização económica, social e política, a modernização do estado e das suas estruturas, a modernização "ideológica", a re-centragem do regime. Tudo isto, face às realidades do triunfo das democracias, da debilidade espanhola, da guerra fria, e também a consideração de um movimento contestatário interno mais organizado, e liberto do bode expiatório comunista, culminando na campanha de Humberto Delgado.
Pode perguntar-se, objectivamente, porque é que Salazar não protagonizou ele próprio a "abertura", antecipando a Primavera Marcellista, porque é que não renovou em profundidade o pessoal dirigente, porque é que não usou o tema da neutralidade face à guerra, e da distância dos totalitarismos, para encontrar novos adeptos e uma nova lógica.
Para os que acham que isto teria sido possível, porque havia paz (e logo capacidade de manobra), as coisas tornaram-se especialmente delicadas, entre 1961 a 1968.
Tratou-se, neste período do ocaso salazarista, de manter uma política ultramarina entre a guerra e o desenvolvimento, entre a emergência e a continuidade, manobrando face a aliados reticentes, e inimigos numerosos.
O potencial para novas ideias existia, porém. Repare-se que, num discurso de 12 de Agosto de 1963, Salazar, então já com 75 anos, nega a necessidade de "dualidade territorial" entre metrópole e ultramar (sugerindo, em abstracto, a possibilidade uma capital em África), explica a necessidade de uma "igualdade jurídica de todas as etnias", e "o multiracialismo nas leis e na vida".
A influência de novas gerações, algumas vindas de áreas da oposição (os casos de Franco Nogueira e Adriano Moreira são os mais conhecidos), fazia-se sentir, e até um autor crítico, o politicólogo americano Paul Lewis, reconhecia uma evolução do regime no sentido da "tecnocracia" (3).
Mas era então demasiado tarde. Não para o regime, que continuou, mudado, sob Marcello Caetano, mas para o próprio Salazar, que acabava, politicamente, e que, dois anos depois, morria físicamente, ao mesmo tempo que Almada Negreiros. O mesmo Almada que dissera, um dia:
"as pessoas que eu admiro são aquelas que nunca acabam."

(continua)

A propósito de exames

via sorumbático de noreply@blogger.com (A. M. Galopim de Carvalho) em 07/07/08
Por A. M. Galopim de Carvalho

O EXAME ORAL sempre foi, quanto a mim, o que melhor avalia o aluno. Nunca apreciei, nem enquanto aluno nem, mais tarde, como professor, o estilo de exame oral no qual o examinador fazia uma pergunta, bem concisa, e ficava, friamente, à espera da resposta que, ou não vinha ou era titubeada ou recitada, estereotipadamente, sem qualquer suporte reflexivo. Em quarenta anos de docência na Universidade de Lisboa, foram milhares os alunos que examinei. Nas provas escritas muitos eram, entre alunos e professores, os que preferiam os "testes à americana", com respostas imediatas, no estilo de colocar uma cruz numa casinha entre duas, três ou quatro à escolha. Não obstante a comodidade de classificar um tal tipo de prova, este não foi o meu modo de conceber os pontos de exame. Sempre preferi as questões proporcionando respostas de desenvolvimento. Permitem mais correcta avaliação da competência do aluno, não só na disciplina em causa, como na globalidade dos seus conhecimentos e respectiva maturidade intelectual. Não estamos a avaliar crianças, estamos a lidar com adultos.

Se é certo que esta modalidade de provas escritas tem vantagens no conjunto geral da avaliação, ela representa um esforço considerável por parte do avaliador. Deste esforço sobressai, com uma evidência e uma frequência que chegam a ser escandalosas, a má utilização da língua materna, a deficiente ortografia e a péssima caligrafia reveladas por um número preocupante dos nossos alunos, tudo fruto de uma orientação pedagógica ineficaz que, de há décadas, se instalou no nosso sistema de ensino. Ler dias a fio, dezenas e dezenas de provas escritas nestes moldes nacionais foi dos trabalhos mais confrangedores que me foi dado cumprir, como docente. Também por esta razão sempre me foi mais agradável e, até, repousante o exame oral. Via de regra, a maioria dos nossos alunos expressavam-se oralmente melhor do que escreviam.

Provas orais de dez minutos, de enfiada, «vai-te embora, venha o próximo», como fiz algumas, enquanto aluno, e nessas nem revelei (por sorte) a minha ignorância em algumas matérias, nem me foi dado demonstrar o interesse e o cuidado com que preparara outras. Comigo, na situação de examinador e em determinadas disciplinas, não se fazia prova escrita. Todo o aluno ia à oral e esta prova, rapidamente, se transformava numa conversa, "como as cerejas". Começava sempre por dissertar em torno de um qualquer assunto, dando ao aluno a oportunidade de entrar em diálogo. Nesta modalidade duas situações extremas e opostas podiam acontecer. Numa delas, a mais agradável, o aluno interrompia-me constantemente e a prova decorria com grande vivacidade sem nos darmos conta do tempo, atingindo-se, nestes casos, as máximas classificações. Na outra, a pior, quer do ponto de vista do examinando quer do meu, eu falava o tempo todo e ele, calado, ouvia, ouvia, na maior parte das vezes visivelmente interessado, até chegarmos a um ponto em que era inevitável convidá-lo a vir na próxima época, mas bem preparado.

Um dia, um aluno, daqueles que não frequentavam as aulas teóricas, porque trabalhavam, ao levantar-se da cadeira, no final de uma prova oral da qual saíra excluído e com plena consciência da justeza desse resultado, disse-me:

- Sabe, professor, vim à sorte, com uma certa inconsciência, é certo, a ver se calhava, mesmo que fosse um dez. A licenciatura permite-me subir na repartição. Para ser chefe de serviço tanto faz geologia como história ou filosofia. O que é preciso é ser doutor. Mas há uma coisa, - continuou - nesta meia hora de exame: aprendi a gostar desta matéria. Em Outubro, ou melhor, talvez para o ano, cá estarei.

E esteve. E ficou aprovado.
-
Esta e outras crónicas do autor estão também em «Sopas de Pedra»

O TERRITÓRIO

O TERRITÓRIO

via NOVA ÁGUIA de Klatuu o embuçado em 06/07/08

A Espanha dos nossos dias é o resto de um continente terciário que, ligado à África por Gibraltar, fechava num lago o Mediterrâneo, e estendo-se para Noroeste, em territórios depois submersos, ia talvez chegar à América.
Observe-se o mapa geológico da Península, e ver-se-á que, cingindo-a em duas metades quase iguais pelo meridiano de Madrid, se tem para Oriente uma Espanha terciária lacustre, para Ocidente um maciço de terrenos silúricos e graníticos principalmente. Foi esta circunstância que levou a geologia a reconhecer a necessidade da existência de uma Atlântida, na qual grandes rios terciários vinham, rumando a Sueste, entrar pela Biscaia e formar os lagos de então, hoje bacias do Ebro, do Douro, do Esla, e o planalto central de Castela, origem do Tejo, do Guadiana e do Jucar. Através das actuais províncias de Tarragona e Múrcia, o sistema lacustre da Espanha terciária vazava para o lago que então era o Mediterrâneo.
As revoluções que assinalaram a entrada da nossa idade geológica cindiram a Espanha da África pondo em comunicação o Mediterrâneo e o Atlântico, subverteram a Atlântida limitando a Espanha por Norte no Mar Cantábrico, e, secando as fontes que alimentavam os lagos interiores, erguendo contra o mar as barreiras cretáceas da Biscaia, deixaram a nu o fundo dos velhos lagos que são hoje campinas regadas por novos rios, cobertas de plantações e vilas.
[…]
A Espanha é outra para o Sul do paralelo que de Coimbra, em Portugal, acompanhando as cumeadas da espinha dorsal da Península vai passar em Madrid e através da Serra de Molina chegar a Tarragona no Mediterrâneo. Desde Perpinhão nos Pirinéus, por Barcelona a fabril, pelas bocas do Ebro, cujos vinhos são célebres, por Tortosa, até Valência, teatro das campanhas do Cid, nós já vimos que um cordão de montanhas limita contra o Mediterrâneo os vales interiores da Espanha Oriental.
A Ocidental, nesta metade, pode dividir-se em três zonas: o planalto das Castelas com as suas vertentes mediterrâneas até Valência e Múrcia; os vales do Tejo e do Guadiana, vertentes ocidentais ou atlânticas, com as serranias divisórias, isto é, a Lusitânia dos romanos; e, finalmente, a velha Bética ou a Bacia do Guadavalquivir engastada pela Serra Morena, montes Marianos, e pela Nevada, montes de Hipula. – Na primeira e na última destas regiões, dominam quase absolutamente os terrenos terciários; pertencem ambas à metade da Espanha geologicamente moderna. A segunda forma o resto da primitiva construção geognóstica da Península.

Oliveira Martins

In História da Civilização Ibérica, Oliveira Martins, Guimarães Editores, 13ª edição, Lisboa, 2007, pp. 21 e 25.

Link.

A Viagem (VI)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 06/07/08

Assim, a 16 de Novembro fazem-se de novo ao mar, a caminho do Cabo da Boa Esperança. Neste momento - talvez mais do que em qualquer outro, desde que tinham partido de Cabo Verde -, é fundamental o recurso à experiência do piloto Pêro de Alenquer, que por aquelas paragens, anos antes, tinha navegado com Bartolomeu Dias. E o aviso do piloto não é muito claro, talvez porque - informa o texto - no regresso da viagem de 1487-1488 tinham passado ao largo do cabo de noitem e «por estes respeitos não eram em conhecimento donde éramos».

Mas, de facto, estão muito perto. Dois dias depois, no sábado, dia 18, avistam finalmente o Cabo. Mas, até o alcançarem, serão necessários quatro dias, e não poucas manobras. Estamos no início do Verão austral, e, como anos antes tinha acontecido a Bartolomeu Dias, sopra ao largo da costa africana o forte vento austral: «E, em este dia mesmo, virámos em a volta do mar e de noite virámos em a volta da terra. E ao domingo pela manhã, que foram dezanove dias do mês de Novembro, fomos outra vez com o Cabo e não o pudemos dobrar porque o vento era su-sueste e o dito Cabo jaz nordeste-sudoeste. E, em este dia mesmo, virámos em a volta do mar; e à noite de segunda-feira, viemos em a volta da terra. E à quarta-feira, ao meio-dia, passámos pelo dito Cabo ao longo da costa com vento à popa.»

Sigo aqui a cronologia do roteiro, uma vez que Barros e Góis apresentam uma versão diferente: a passagem do Cabo teria tido lugar no dia 20. Mas é um pormenor.

"Vasco da Gama - O Homem, A Viagem, A Época", Luís Adão da Fonseca, Edição do Comissariado da Exposição Mundial de Lisboa de 1998 e da Comissão de Coordenação da Região do Alentejo, 1997, p. 131

SALAZAR EM GRANDE E PEQUENO - 3: AS ÉPOCAS DE SALAZAR (I)

via O FUTURO PRESENTE de noreply@blogger.com (Miguel Freitas da Costa) em 04/07/08
"Mais do que em "regime de Salazar" ou "Salazarismo", há que falar em "épocas" do sistema político em causa.
O período de 28 de Maio de 1926 a 5 de Julho de 1932 é o do estabelecimento das bases e legitimidades.
É aqui que Salazar passa de tecnocrata a político, de "mero" reconstrutor das finanças públicas a teorizador das tarefas do Estado, de disciplinador orçamental e fiscal, a estratego da nacionalidade. O seu braço de ferro com Sinel de Cordes, em 1928, a propósito das condições dos primeiros empréstimos internacionais putativos, traça, antes da letra, uma linha de rumo de conduta do estado. Podemos hoje discutir as razões reais de recusa das condições impostas pelo ágio exterior, mas a justificação oficial foi sempre a de não-humilhação nacional, da manutenção do tecido social, da soberania operativa, e da capacidade de decisão económica.
Se fica ali logo traçada a estrutura básica de auto-determinação internacional, delimita-se o clima interno, político-institucional e "ideológico", no discurso de 23 de Novembro de 1932. Eis que se declaram os partidos contrários ao estado revolucionário, e em que se dissuadem "direitas" e "esquerdas" de ensaiar a tomada do poder pela via das facções organizadas. É também nessa altura que Salazar pede a dissolução do Centro Católico, que o formara e onde militou. E não se pode esquecer que Salazar participou , activamente, na aventura de influenciar a junta militar no sentido "centrista", longe da aliança pretoriana – proto-fascista ensaiada por Gomes da Costa.

De 1933 a 1945, o Estado Novo precisa de afirmar super-estruturas, e de ganhar um lugar no mundo. Em parte, por causa das guerras (de Espanha e Mundial), em parte por causa da pressão externa dos totalitarismos e das democracias.
Esta é a época da política de obras públicas, da propaganda mediática, da arte de estado, mas também da afinação jurídico-doutrinal. Começa esta, claro, com a Constituição Corporativa, e com uma série de elementos que, desagradando a gregos e troianos, afirmam o espaço próprio do novo regime.
O Estado Novo afirma-se subordinado à Moral, reconhece a Igreja e a história, mas abstém-se de restaurar a monarquia, e mantém o 5 de Outubro como feriado, mesmo se envergonhado. Isto é significativo, se tivermos em conta que o 28 de Maio se fez contra muito do espírito dessa efeméride, e que tinham decorrido apenas 23 anos sobre a revolução republicana.
Afirma-se antidemocrático e anti-liberal, mas rejeita o totalitarismo (1). Rejeita o pluralismo partidário, ilegaliza o PCP, mas fá-lo igualmente face ao nacional-sindicalismo de Rolão Preto, em 1934/35.
É também nesta altura que Salazar adapta as instituições do interregno, da Liga Patriótica "União Nacional" (criada em 1930, antes da sua chegada ao poder executivo máximo) à sucessora da Polícia Preventiva da Segurança do Estado (fundada pela Primeira República, para lutar contra a subversão política e a contestação social).
É deste período o famoso comentário do Secretário de Estado norte-americano, Dean Acheson, sobre a sua visita a Salazar, em plena segunda guerra. Descreve o chefe de governo português como:

(...) um ditador – gestor, empregado e mantido pelo poder do exército, para dirigir o país em benefício das classes médias, de onde provinha a maioria dos oficiais (2).

Acheson escreve que Salazar está mais próximo do estadista de Platão do que das democracias, mas que a ausência de "força excessiva" no governo o separa dos totalitarismos. O chefe da diplomacia americana, insuspeito, foi membro do Partido Democrata toda a vida, e opôs-se, mais tarde, veementemente e com coragem pessoal, à caça às bruxas do senador McCarthy."

SALAZAR EN GRANDE E PEQUENO - 4: AS ÉPOCAS DE SALAZAR (II)

SALAZAR EN GRANDE E PEQUENO - 4: AS ÉPOCAS DE SALAZAR (II)

via O FUTURO PRESENTE de noreply@blogger.com (Miguel Freitas da Costa) em 06/07/08
Continuação do ensaio de Nuno Rogeiro:

"Entre 1945 e 1961, os desafios são outros: a modernização económica, social e política, a modernização do estado e das suas estruturas, a modernização "ideológica", a re-centragem do regime. Tudo isto, face às realidades do triunfo das democracias, da debilidade espanhola, da guerra fria, e também a consideração de um movimento contestatário interno mais organizado, e liberto do bode expiatório comunista, culminando na campanha de Humberto Delgado.
Pode perguntar-se, objectivamente, porque é que Salazar não protagonizou ele próprio a "abertura", antecipando a Primavera Marcellista, porque é que não renovou em profundidade o pessoal dirigente, porque é que não usou o tema da neutralidade face à guerra, e da distância dos totalitarismos, para encontrar novos adeptos e uma nova lógica.
Para os que acham que isto teria sido possível, porque havia paz (e logo capacidade de manobra), as coisas tornaram-se especialmente delicadas, entre 1961 a 1968.

Tratou-se, neste período do ocaso salazarista, de manter uma política ultramarina entre a guerra e o desenvolvimento, entre a emergência e a continuidade, manobrando face a aliados reticentes, e inimigos numerosos.
O potencial para novas ideias existia, porém. Repare-se que, num discurso de 12 de Agosto de 1963, Salazar, então já com 75 anos, nega a necessidade de "dualidade territorial" entre metrópole e ultramar (sugerindo, em abstracto, a possibilidade uma capital em África), explica a necessidade de uma "igualdade jurídica de todas as etnias", e "o multiracialismo nas leis e na vida".
A influência de novas gerações, algumas vindas de áreas da oposição (os casos de Franco Nogueira e Adriano Moreira são os mais conhecidos), fazia-se sentir, e até um autor crítico, o politicólogo americano Paul Lewis, reconhecia uma evolução do regime no sentido da "tecnocracia" (3).
Mas era então demasiado tarde. Não para o regime, que continuou, mudado, sob Marcello Caetano, mas para o próprio Salazar, que acabava, politicamente, e que, dois anos depois, morria físicamente, ao mesmo tempo que Almada Negreiros. O mesmo Almada que dissera, um dia:

as pessoas que eu admiro são aquelas que nunca acabam."