sexta-feira, 25 de julho de 2008

(title unknown) [... o homem sem pátria, o homem sem história...]

via antónio quadros by noreply@blogger.com (AQF) on 6/16/08
"(…) o homem sem pátria, o homem sem história, o homem sem família, sem crenças, sem paisagem…. Triunfa a arquitectura para habitação de homens abstractos: as casas são todas iguais, as ruas são todas iguais, o arquitecto deixou de ser um artista para ser um politico (…) Triunfam a pintura e a escultura abstractas: assim como o artista abstracto ignora e despreza as formas dor corpos, ignora e despreza igualmente a forma das almas (…) Triunfa a literatura em que as personagens se poderiam substituir por outras indiferentemente (…) Triunfa a moda uniformizante. (…) Um cavalo ou outro cavalo? É o mesmo. O que importa é que o cavalo obedeça às rédeas e se integre na monotonia do seu viver quotidiano. Um homem ou outro homem? É o mesmo. O que importa é que o homem obedeça às leis e integre passivamente na máquina da produção e do consumo, de forma a não criar problemas. (…)"

António Quadros in, A Angústia do nosso Tempo e a Crise da Universidade (1956)

«Diário Popular», 26 de Janeiro de 1974

via antónio quadros by noreply@blogger.com (AQF) on 7/15/08
"Meu Caro Afonso Cautela:
É com amizade, com simpatia e com apreço que, desde há anos, venho seguindo a sua actividade de intelectual e de escritor. Desde há quantos anos?! Lembro-me, como se fosse ontem, dos seus esforços por impulsionar e valorizar a vida cultural do Alentejo. Do seu combativo suplemento no jornal A Planície, de Moura. Da carta que um dia o grupo de jovens reunidos em sua volta enviou para o meu 57 -- jornal que se queria de pensamento activo e português. Da visita que certa tarde, perdido, lhe fiz na Aldeia de S. Luís, onde era professor e onde procurava uma espécie de ascetismo humilde no ensino de uma escola primária. Da sua passagem pelas Bibliotecas Itinerantes da Fundação, como encarregado.
Depois, a sua vinda para Lisboa, as suas actividades relacionadas com o cinema, as suas intervenções jornalísticas, as suas antologias, por exemplo: a antologia de Poesia Portuguesa do pós-Guerra ( 1945-1965) , organizada por si em colaboração com Serafim Ferreira para a Ulisseia. E, mais recentemente, a sua preocupação com o futuro da humanidade, o seu interesse por tudo quanto se relaciona com futurologia e prospectiva. A este respeito, até tivemos, há meses, um projecto comum, aliás gorado! Foi quando tive ocasião para conhecer a grande documentação que sobre o tema você possui.
Nada me admirou, por conseguinte, a orientação da colecção Dossier Zero, por si dirigido e organizado para a Arcádia e que acaba de publicar um livro antológico, arrepiante pela multiplicidade e extensão dos sinais que apresenta quanto ao porvir do planeta, e a que você deu o título pessimista de Os últimos Dias da Terra.
Nesta ordem de ideias, você organizou também para semanário de grande divulgação um inquérito acerca da situação do mundo e do homem daqui a 100 anos. Convidou-me a colaborar, eu disse-lhe que sim, mas o tempo passou e nada lhe dei, afinal o inquérito saiu sem a minha prometida colaboração e decerto não perdeu nada com isso!
Porque não respondi ao seu inquérito?
Porque, depois de muito moer e remoer a sua pergunta, cheguei à conclusão de que é totalmente impossível responder-lhe, pelo menos em termos racionais ou racionalistas!
Para onde vamos? Quem seremos?
Talvez que o astrólogo do seu bairro, meu caro Afonso Cautela, lhe dê uma resposta...
O Jean Viaud apresenta no número de Janeiro da revista Horoscope , a lista das predições feitas por ele nos últimos anos e que resultaram certas: desde a revolução na Hungria ao assassínio de Kennedy, desde o escândalo Watergate até ao novo conflito israelo-árabe e à crise do petróleo...
Seria tentador, por outro lado, fazer de profeta, como Jeremias ou Daniel, mas confesso que me sentiria bastante (?!) ridículo se o tentasse, a não ser que fosse um génio da prosa e do pensamento, como o padre António Vieira; a sua História de Futuro não rivaliza com os acertos fantásticos de Jean Viaud, mas é uma das mais magistrais peças especulativas e literárias que jamais se escreveram.
O engano do nosso grande Vieira não terá sido tanto o de afirmar e proclamar os nossos mitos, o do Quinto Império e o do Encoberto - até porque o mito é uma prodigiosa força capaz de impulsionar todo um povo para o futuro -, como o de os querer traduzir em termos muito concretos, muito históricos, muito positivos.
A mitogenia do Encoberto era demasiadamente grandiosa para caber na pele de D. João IV e o Quinto Império era sonho excessivo para o Portugal dos Braganças, mesmo senhor do Brasil, que mais tarde Guerra Junqueiro (um sebastianista desiludido e em processo de transferência do mito da sua expressão monárquica para a expressão republicana) cobriria de sarcasmos no poema A Pátria.
Os discípulos de Vieira, mais prudentes, aceitam também a profecia, mas não arriscam situá-la no espaço e no tempo.
Fernando Pessoa ainda aponta Sidónio Pais como o possível Encoberto ( Ode ao Presidente Rei Sidónio Pais) , mas na Mensagem já não se arrisca em apostas positivas. Agostinho da Silva faz depender o advento do Império (mais espiritual do que terrenal) de condições: sociais, morais, culturais...
Fora dos âmbitos da astrologia ou da revelação profética, meu caro Afonso Cautela, penso que nada é possível adiantar sobre o futuro. Fracassaram todas as tentativas de considerar a história como uma ciência, no sentido de lhe descobrir princípios inalteráveis e leis estáveis. O conhecimento do passado (sujeito a uma enorme margem de erro e às interpretações subjectivas ou ideológicas dos historiadores, aliás) pouco ou nada nos adianta acerca do conhecimento do futuro, porque a existência do homem em sociedade e os próprios homens na sua estrutura biopsicológica se encontram sob a influência de demasiados factores aleatórios, imprevisíveis, incontroláveis.
Já dizia Sampaio Bruno que «ninguém, à luz de toda a sociologia moderna, depois de ler todo Comte, todo Spencer, todo Gillings, todo este, todo aquele, pode escrever uma página, uma linha sequer desse volume inescrevível da história do futuro. Eu posso prever em astronomia , mas não posso prever em política. Sei a que horas, minutos e segundos há-de ser o eclipse do sol, mas não sei sequer se haverá eclipse do ministério..."
A futurologia e a prospectiva poderão predizer, por exemplo, índices de desenvolvimento ou de aumento de custo de vida, mas a curto prazo - e desde que as condições do presente não se alterem muito. Veja-se o que aconteceu com a crise do petróleo, que é um bom paradigma da impossibilidade de previsão histórica: os futurólogos que tinham calculado o desenvolvimento industrial europeu nos próximos anos ou que tinham marcado datas à unificação da Europa tiveram de baixar bandeira, porque tudo é agora completamente diferente. Até as ameaças, da poluição ou do esgotamento dos recursos energéticos, adquirem uma nova tonalidade. E que dizer das transformações sociais, políticas, morais, religiosas, económicas? Da balança de poderes? Da evolução da Rússia e da China? Da promoção ou estagnação dos povos africanos, agora que o mundo industrializado tem outras preocupações? Quem previu o fenómeno "hippy" e a fome de misticismo de muitos jovens divorciados da sociedade de consumo? Um sem-número de interrogações e de dúvidas!
Em última análise penso, muitas vezes, caro Afonso Cautela, que todos nós, há 5000 anos ou nos dias de hoje, no Tibete ou em Lisboa, tivemos e temos em frente de nós o mesmo inevitável apocalipse: o da nossa própria morte individual. E é a nossa única certeza histórica...
Quanto ao que será o mundo daqui a 100 anos nada poderei, pois, adiantar. Por certo que é fundamental tomarmos em linha de conta os avisos que você salutarmente vai reunindo no seu Dossier Zero. Tempos houve (nos fins do século XIX) em que a ideologia da ciência e do progresso acreditou num futuro risonho e cor-de-rosa; sabemos hoje que a ciência não tem em si o poder de conferir a felicidade aos homens e que, ao progresso das ciências, das técnicas e das indústrias não correspondeu idêntica evolução nos planos moral e espiritual, a pontos de nos vermos hoje numa situação de desorientação e de perplexidade gerais.
Mas, se não podemos ser muito optimistas, não tombemos, por outro lado, no absoluto pessimismo. Ao lado de motivos de desânimo, há também motivos de esperança.
O homem é e será sempre o homem; capaz do mal, mas também do bem; de matar e de salvar; de destruir e de construir. Há forças, poderes, factores aleatórios, correntes vitais e espirituais que nos ultrapassam e cuja direcção nos não é permitido perscrutar, a não ser por hipótese.
Perante o nebuloso futuro deverá importar-nos principalmente o exprimirmos e projectarmos os valores que poderão tornar melhores os dias do porvir: os valores da verdade e de amor, de liberdade e de justiça, de espiritualidade e de beleza, que teremos de assumir estóica e corajosamente nas nossas vidas particulares, antes de os expandirmos e divulgarmos, seja sob que orientação acharmos preferível.
E termino com mais uma esplêndida citação de Sampaio Bruno, esse pensador ainda tão mal conhecido dos próprios portugueses: " Tudo o que existe tem de passar, mas as gerações sucedem-se e é maravilhoso que, sendo tudo o mesmo, tudo é diverso."
Um abraço do seu amigo
António Quadros"


"A estranha aventura de Sintra"

via antónio quadros by noreply@blogger.com (AQF) on 7/18/08
"E Cíntia, como lhe chamavam os gregos e os túrdulos, deriva o nome de Sintra. Cíntia era então, para sábios e poetas, o promontório da lua. O promontório da lua! Fantástica, misteriosa designação... Que realidade escondida, que verdade ignorada entreviram, lucidamente, os nossos longínquos antepassados? Nada ficou escrito, e a tradição oral não conserva vestígios dos reines sonhados, dos caminhos pressentido-os. Os séculos foram passando e, pouco a pouco, os homens foram destruindo implacavelmente os velhos mitos. Não importa. Nós sentimos, nós sabemos que só eles tinham razão, que Sintra não é um lugar como outro qualquer, que Sintra caiu entre nós por qualquer morta aventura, que Sintra não nos pertence, e nós não a merecemos porque não cremos na sua estranha origem. Condições climatéricas, natureza do terreno, constituição geológico ? Mentira, horrível mentira! A força que alimenta os fetos, erguendo-os até ao céu, e dando-lhes natureza de Piore, a seiva que oferece às flores tão belos e variados matizes, as mil tonalidades do verde, a harmonia duma paisagem em que os rochedos e os penhascos se conjugam com as camélias e com os cisnes brancos, o sangue que palpita nas veias da serra de Sintra, vêm da lua, da nuvem, de toda a parte, menos deste mundo. Os que amam Sintra, os adeptos da sua doce religião pagã, sabem-no bem. É um mundo diferente, onde a beleza é o ar que se respira, e a poesia é a própria respiração. Este ponto fresco do vale, em que o olhar sobe, trepando a vegetação da montanha, atravessando as paredes frias do Palácio da Pena e perdendo-se ao longe, para lá do dia e da noite; aquele panorama do Castelo dos Moiros em que, sentados nas ameias gastas da muralha, avistamos o mar confundido com o céu; aquele outro lugar onde o Paço Real de Sintra, pesado de história, se esconde por detrás dum muro inteiramente coberto de musgo velho—ou o momento irreal em que a vista da serrania, com o céu, a floresta, e a rocha, o cheiro húmido da erva medrando em todo o lado, o fino som da água caindo da fonte e das aves cantando nas copas das árvores, se transformam numa única sensação, nova, selvagem e indiferenciada—, nada disso pode fazer parte da nossa humanidade.
Estivemos em Sintra há pouco, por uma tarde calma, uma tarde de silêncio e de frescura. Visitámos as belas salas do Paço, onde viveram os reis de Portugal, percorremos as ruelas estreitas e íngremes, as escadarias tortuosas serra-acima, emolduradas de céu e de montanha, descemos ao vale onde os riachos frios alimentam canaviais ondulantes, e onde as mulheres lavam a roupa rindo e cantando, passeámos nos caminhos poéticos, profundos de sombra e verdura das pequenas quintas cercadas de muros altos, cobertos de trepadeiras, fomos a Monserrate, onde a colina é verde e a água é escura como um mistério, funda como a própria existência, admirámos a beleza cuidada do Parque de Pena, e estivemos também no palácio, donde a vista da terra não tem fim, e a vista do céu parece ter limites, passamos por todos os pontos consagrados de Sintra, os Capuchos, Seteais, a Fonte dos Passarinhos... O trabalho do homem, em Sintra, não briga com o trabalho da natureza, antes o auxilia—e disso nos devemos orgulhar, nós,- portugueses. Que naquele ponto da terra, o homem tenha recuado, tenha hesi V, indica um respeito, uma admiração, que não fazem parte da sua índole. O homem apagasse, ocupa voluntariamente ali, a posição de segundo plano. Porquê? Que poder sobrenatural se desprende das faldas luxuriantes da serra? Sintra é a terra das interrogações, das surpresas. Porque é que naquele recanto nevoento, se juntam plantas e flores dos cinco continentes? Porque é que as nuvens vêm cobrir, a todo o instante, os seus píncaros que não ultrapassam, no entanto, os quinhentos e quarenta metros? As nuvens buscam o promontório da lua, saudade dum planeta ou duma estrela onde estiveram um dia. Ah, sim! Sintra nasceu de qualquer aventura esquecida pelos séculos, e veio até nós como cometa, bólide de outros espaços e outras dimensões. E como se compreendem à luz desta realidade, as sombras e as encostas verdes de Monserrate, os pequenos lagos tranquilos da Pena, os rochedos bravios da serra, as ramagens intermináveis das fervores, formando um tecto de penumbra, os arbustos desconhecidos na Europa, as quintas emolduradas na natureza, os campos de flores, como se compreende o mistério enevoado de Sintra? Abandonemos inteligência, lógica, raciocínio. Sintra é para sentir, e só sentindo, se pode conhecer. Abandonemos regras e ciências: é a única maneira de possuir a eterna poesia de Sintra.
Aqui deixamos a brisa da mensagem que uma tarde mansa e silenciosa de Sintra, nos ofereceu. Tinha acabado de chover havia pouco tempo.: As nuvens, opacas e cinzentas, afastavam-se pouco a pouco, levadas por uma breve aragem. Dum momento para o outro, o céu ficou descoberto e o azul invadiu a atmosfera, tal um sorriso súbito. Desprendia-se da terra um cheiro de ervas molhadas e de folhas a secarem. O sol chegou também, um sol fresco e alegre, e ficaram mais brancas as penas dos cisnes que, de novo, um a um, se lançavam à água. O Castelo e o Palácio, que antes se erguiam sombriamente, ficaram mais leves, mais claros, como se tivessem esquecido o passado e tornassem à vida. Do vale, as vozes e os ruídos do trabalho no campo ganharam sonoridades e ecos. O canto dum rouxinol cresceu no silêncio, atravessou matas e penedos, e foi-se perder, para lá dos contornos da montanha. Foi como uma revelação. A presença de qualquer coisa mais, a presença duma voz surda e irreal, a presença dum mundo diferente tornou-se-nos evidente e irrefutável. Mensagem invisível e impalpável, ela tocava-nos, todavia, e manifestava-se como sentimento nunca experimentado. Era a lembrança, a saudade da estranha aventura de Sintra, do promontório da lua Quem duvidar, quem zombar desta vida transcendente que a alimenta, então nunca poderá, realmente, entrar em Sintra."

«A Estranha Aventura de Sintra», António Quadros

14 de Julho

via antónio quadros by noreply@blogger.com (AQF) on 7/24/08
António Quadros se estivesse vivo faria 85 anos. O desafio é este: enviem-nos um pequeno texto, um poema, um verso ou apenas uma frase em sua memória. O primeiro é da autoria de: Mafalda Ferro (filha).

"Como todas as meninas, adorava o meu pai. Era o melhor do mundo. Sabia contar histórias melhor que os outros pais. Brincava comigo como se, também, fosse pequenino. Perseguia-me de gatas pela casa fora, até a minha mãe ralhar com ele. Ria até as lágrimas lhe caírem pela cara abaixo. Olhava-me sempre com um sorriso cúmplice e amigo. Quando eu estava triste ou alguém era mau comigo ele dava-me um beijinho e dizia-me que gostava muito de mim e, nada mais tinha importância. Quando me levava à escola, já sabia que se iam zangar comigo pois ia chegar atrasada mas não me importava, pois com ele havia sempre uma aventura ou uma história. Às vezes dizia piadas sem graça nenhuma mas ria-me porque gostava dele. Tinha amigos muito chatos. Quando estava com eles, a ler, a escrever ou a comer aperitivos, não tinha paciência para mim e eu ficava triste. Tinha um mundo que era só dele e de alguns amigos. Nesse mundo ele era muito sério. A minha mãe zangava-se quando ele lá estava. No domingo, a seguir à missa da uma, no Loreto, o meu pai ia para a Brasileira tomar café e falar de coisas que eu não entendia. A minha mãe levava-nos para a Benard com as suas amigas chiques que tinham filhos bem vestidos e sorridentes. Mas, apesar dos rins de chocolate, eu queria ter ido com o meu pai. A seguir íamos todos almoçar ao "Noite e Dia", porque a criada tinha folga aos domingos.
Adorava brinquedos de corda. Já eu era crescida e ainda ele descobria uns feirantes à beira da estrada que vendiam ursinhos aos saltos. Ficava tristíssimo porque queria comprá-los e não sabia para quem. No fundo, era ele quem lhes achava graça. Odiava livros de quadradinhos. Dizia que nos estragavam o português. Um dia queimou na lareira uns do Mandrake que uma amiga me tinha emprestado. Fartei-me de chorar e ele ficou aflitíssimo mas… a língua portuguesa era uma prioridade, lá em casa."


14 de Julho

via antónio quadros by noreply@blogger.com (AQF) on 7/24/08

António Quadros se estivesse vivo faria 85 anos. O desafio é este: enviem-nos um pequeno texto, um poema, um verso ou apenas uma frase em sua memória. O segundo é da autoria de: Maria Ana Ferro (neta).

"Às vezes é preciso um esforço. Procuro não me prender às imagens de hoje que já não são iguais. Ele não era assim. Era como eu o via. Havia a cultura e as letras e os pensamentos, havia tanto que ainda está por descobrir. Havia uma mente para além do tempo e do espaço e à frente desse tempo e desse espaço. Ele era como eu o vejo. Para além dos feitos e dos ganhos e dos percursos e dos textos e das teses e do talento. Era tudo isso que era ser tão grande, mas era ainda maior quando sabia ser pequeno.

António Quadros, um grande pensador, um enorme homem, sabia tão bem ser pequeno, como nós.E travámos o carro por culpa da família de elefantes invísiveis, e recebemos de Natal uma casa de montar onde passámos meses a fio, e recebemos os miminhos vindos de outros países, os doces. E vimos dar na missa uma nota e ficámos impressionados, e rimo-nos com a água quente para regar o jardim e recebemos 50 centávos por cada duas favas que apanhássemos e jogámos futebol na praia, brincámos com os truques das mãos quando se finge ser capaz de cortar e voltar a colocar um dedo, perdemo-nos com os bonecos de movimentos perpétuos e as bonecas que vão da maior para a mais pequena e se encaixam umas nas outras e hoje sabemos que se chamam matrioshka's. E sentímos aquele cheiro todo a livros e questionámos a pulseira com as duas bolinhas que tinha no braço e achámo-lo por isso moderno e observámos o seu tique com os dedos de uma só mão que tocavam um no outro, o indicador e o polegar e o outro tique do pescoço e queríamos tanto comer dos seus aperitivos de queijo e questionámos o porquê de só comer marmelada, queijo e banana ao jantar e o porquê de guardar todos os seus remédios num cesto que era um galo... E a maneira de se sentar na cadeira na praia com as mãos em cima do joelho e um panamá azul claro e quando saltava a rede no court de ténis sem pestanejar e chateáva-se quando dúvidavamos que nos adorava e adormecia com um garfo na mão para acordar e ainda se lembrar do sonho e às vezes fingia ouvir-nos e estava a ser o outro homem que também era tão bom... Não é só disto que me lembro...Ele era um mágico. E é assim que ainda o vejo, como o homem que escreveu uma simples e incrível história para crianças. («O Pedro e o Mágico») A luz que há de ficar para sempre nas nossas vidas, mesmo que nunca nunca mais se veja um pirilampo. "

angola não é nossa

angola não é nossa

via cinco dias by Fernanda Câncio on 7/24/08

Nunca fui a Angola, nem em trabalho nem em férias - e tenho pena. Não nasci lá, como tantos portugueses, nem deixei lá saudades, pertences, fortunas ou amores, nem perdi lá um parente ou uma parte dele. Não tenho mágoas angolanas - nem, já agora, moçambicanas, guineenses, cabo-verdianas ou são-tomenses. Os países africanos de expressão portuguesa não são para mim diferentes de tantos outros países, africanos ou não. Não me assaltou nenhuma nostalgia colonialista nos que visitei, Moçambique e Cabo Verde. Não senti nada de especial a não ser, em Moçambique, uma mágoa parecida com remorso herdado perante a miséria, os escandalosos fossos socioeconómicos e a subserviência do povo perante "os brancos". Mas isso já sentira noutras partes de África - alguém chamou a isso "o remorso do homem branco" (neste caso, de mulher, e morena).

Não tenho nada com Angola, portanto, a não ser uma ligação profissional feita de bocados de histórias, entrevistas, reportagens. Sei o básico: uma longa guerra civil, um país dividido ao meio, cadáveres inchados nas ruas de Luanda em 1992/93 depois da primeira volta das primeiras e únicas eleições presidenciais, o corpo meio despido de Savimbi cheio de moscas em 2002, os baixíssimos scores nos índices de desenvolvimento humano, os processos a jornalistas, os jornalistas presos, as denúncias de falta de liberdade política e de falta de liberdade de imprensa, as denúncias sobre a riqueza pessoal do presidente em funções vai fazer 30 anos, as ligações da sua família a uma série de empresas.

Não, não sou uma especialista em Angola. Não tenho histórias em primeira mão para contar nem relatórios de organizações internacionais para estrear. Mas não preciso. Basta-me saber que não há eleições no país desde 1992 para não gostar do Governo nem do presidente. E para tal tanto me faz que fale português ou outra língua qualquer. Tanto me faz que "nós" - sendo nós essa entidade chamada "os portugueses" - tenhamos "lá andado" 500 anos como não. Não aceito culpas históricas nem acusações de complexos colonialistas quando se trata de olhar para um país independente há 33 anos e constatar que está muito longe de ser uma democracia e por esse motivo muito longe de ser admirável ou "a todos os títulos notável".

Percebo, claro, que uma coisa são os meus sentimentos enquanto pessoa, por acaso portuguesa, e outra muito diferente os interesses do meu país - sejam eles económicos, estratégicos, linguísticos, o que for. Percebo que as relações entre países não são relações pessoais e que se fazem muitas coisas em nome da chamada real politik que eu agradeço ao destino nunca ter estado em posição de ter de fazer. Mas creio que há coisas escusadas. E creio, sobretudo, ser tempo de percebermos, todos, portugueses e angolanos, que chega de facturas. Chega de confusões. Portugal colonizou e descolonizou, Angola é dos angolanos. Nenhuma razão para tantos paninhos quentes, nenhum motivo para tanto eufemismo, para tanto elogio rasgado. Façam-se negócios, certo. Apertem-se mãos, assinem-se acordos. Defenda-se isso a que se chama "o interesse português". Mas, por favor, não exagerem.

(publicado hoje no dn)

Traição de Marcello Caetano

via nonas by nonas on 7/24/08
«Para mim, existiram vários factores, que levaram ao precipitar do 25 de Abril. Pelos contactos tidos, na altura, com o meu pai(1) e com o Eng. Santos e Castro(2), sabia-se estar em preparação, a nível político português, uma manobra de grande envergadura, ligada àquilo que estava a ser feito com o complexo de Sines. Esta estrutura destinava-se a destilar o petróleo de Angola, fugindo aos esquemas de produção controlada, de modo a oferecer ao mercado europeu um petróleo de custo extremamente mais baixo que o do mundo árabe. Assim Portugal passaria a ter um peso maior, a nível internacional.
Daí poderiam advir numerosas contrapartidas, tais como condescendência política e diplomática, a nível internacional, em relação ao problema africano. Também com a baixa de preços poderia haver outra política de aquisições de material de guerra…» (p. 201)
«(…) Esse petróleo tornar-se-ia num reforço da capacidade de manobra de Portugal no mundo. Assim, nas nossas conversas chegámos à conclusão de que o facto de a oposição portuguesa acabar por ter, então, o apoio internacional e até meios financeiros de que terão passado a usufruir, foi exactamente a necessidade de contrariar essa grande manobra do governo português…
- Qual a razão do falhanço dessa estratégia?
Porque a nível internacional não interessava que Portugal viesse ter a poder económico. Que ficasse na CEE, mas na cauda da fileira… Tal não interessava, até aos países europeus: Portugal continuar a utilizar meios que a eles tinham sido negados, ou obrigados a isso.
- Passaram, então, a boicotar esse projecto…
Chegou a ser projectada uma acção, com o efectivo apoio da França, em relação à Guiné-Conakry, e não como a que tinha sido realizada, anos antes…
Encontrava-se também previsto o fornecimento do petróleo angolano à África do Sul, através de um pipe-line, que atravessaria o Sudoeste Africano (hoje Namíbia), com a contrapartida de fornecimento de material de guerra, incluindo aviões militares. Isso foi recusado por Marcello Caetano, por considerar não haver relações com um Governo racista.
- Mas muita gente pensava que estava a ser ultrapassado o timing, em relação às possíveis negociações a fazer para normalizar a situação naqueles territórios…
Para mim a negociação apenas devia ser efectuada numa situação de supremacia militar. Assim, quando um país não consegue ter os seus fornecimentos de material de guerra suficientes e não possui a força diplomática necessária, a negociação será sempre em seu prejuízo…» (p. 202)

Nuno Barbieri
1.º Tenente

In Manuel Maria Bernardo, Memórias da Revolução, Prefácio Editora, Lisboa, 2004.

(1) - Refere-se ao ex-Director-Adjunto da DGS, Barbieri Cardoso.
(2) – Governador Geral de Angola até ao 25 de Abril e irmão do Coronel Gilberto Santos e Castro, fundador dos "Comandos" em Angola e, posteriormente, comandante da força da FNLA, apoiada por americanos e zairenses que, em 1975, invadiu Angola, com a intenção de ocupar Luanda.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Etnias

via sorumbático by noreply@blogger.com (Joaquim Letria) on 7/24/08

Por Joaquim Letria

NA QUINTA DA FONTE vai ser difícil resolver as questões levantadas a tiro. Aquilo é entre etnias. E de etnias não há cá quem perceba. Na ditadura, havia o Dr. Pinto Bull, ilustre deputado da Nação e um dos poucos negros licenciados. Era ele e o Dr. Nazareth, cardiologista negro de olhos verdes que garantia que Salazar tinha coração.
Na Televisão havia o Adriano Parreira, um preto que dava notícias como os brancos.
Hoje não há um único deputado de cor, no Governo e na RTP nem pensar, depois dos retornados e africanistas terem tomado conta disto. Até a Assembleia da República perdeu a sua pérola do Ganges, que era o Dr. Narana Coissoró...
Hoje, a AR só tem etnia caucasiana, e tão caucasianos são eles que os portugueses ignoram se são moldavos ou ucranianos, tanto os deputados têm a ver connosco!
Na Quinta da Fonte aquilo só se resolve quando os pretos falarem com os ciganos e vice-versa. Enquanto os caucasianos meterem etnias nisto, não se vai a lado nenhum.
«24 Horas» de 24 de Julho de 2008