domingo, 27 de julho de 2008

Carta de Clarice Lispector

Washington, 13 agosto 1957, terça-feira

Minhas queridinhas,

Quanto à Califórnia. Coisa inteiramente inesperada, que me fez muito bem. Eu não andava dormindo bem, mas com a mudança de clima passei a dormir. Andamos uma semana no meio de milionários, hóspedes de um clube gran-fino, onde só os sócios têm direito de se hospedar e... pagar. O clube é cheio de “cabanas” gran-finas; a nossa, abrindo a porta, e descendo uns degraus, dava para uma praiazinha, onde tomei um banho no Pacífico... O clima de San Diego é inacreditavelmente bom, quente e seco, e leve. Los Angeles é quente demais. San Diego é uma beleza. Mas lamento dizer que Los Angeles e Hollywood se parecem demais com Miami. As mesmas casas baixas, o mesmo ar meio devastado e meio bagunça, sem graça. Naturalmente tem ruas de casas lindas. Mas não era como eu pensava. Não se vê muita gente nas ruas, e não vi nas ruas gente elegante, como a gente pensa que por ali devem existir aos montes. Almoçamos com George Murphy (lembram? Um dançarino, meio chatinho, que agora tem 55 anos, e não é mais ator, trabalha na Metro como “executive”), e é muito simpático para conversar. Nesse almoço estavam, entre outros importantes que não conheço, Ann Miller que é bem simpática, ao contrário do que eu pensava; miss Suécia do ano passado, tentando cinema; ela é tão incrivelmente linda, com um corpo tão espetacular, que o pessoal brasileiro presente apelidou-a de “a que não existe”; estava também a miss América, que foi miss Universo, em 1953, se não me engano. Essa, por Deus, apenas muito bonitinha e suave, ninguém imaginaria, conhecendo-a, que mereceria prêmio; passa quase desapercebida. Depois do almoço, que “aconteceu” no Beverly Hills Hotel, fomos aos estúdios da Metro, onde vimos... Danny Kaye ser filmado, e onde apertamo-lhes a mão. Ele é uma uva, tão atraente como no cinema. (que digo! Muito mais ainda), e muito engraçado e inteligente. Vimos também Peter Lawford ser filmado, bonito e chato. Por mais que eu soubesse como era feita a filmagem, fiquei desiludida. A coisa é feita entre chateações e repetições, exige uma paciência canina dos atores, e é feita por assim dizer sem o menor entusiasmo por parte deles. Tem um ar de pura rotina. Pelo menos o que eu vi. Nos estúdios há ruas inteiras de cenário para cowboy, numa rua está simplesmente a casa de “O Vento Levou”, numa outra a piscina que foi construída para Esther Williams. Vimos o cenário para “Os Irmãos Karamazov”, (lindo, exato, com neve falsa, árvores de matéria plástica tão perfeitas que só faltam dar fruto, rochas de matéria plástica, mas a pessoa só falta sentir frio lá, de tão cuidado), mas, para a minha profunda mágoa, Yul Brinner, astro do filme, estava nesse dia filmando fora do estúdio. Quando fomos entrando no estúdio, ao portão, havia as garotas que passam horas ali na esperança de um artista entrar para dar autógrafo. Quando saltamos do carro, elas correram para mim e me pediram autógrafo... (é que o carro era de luxo). Disse-lhes com gentileza que eu era “nobody” e que guardassem o livrinho para outra pessoa. Devo dizer a vocês que, nessa semana da Califórnia, com almoços e jantares tipo banquete, diariamente, eu estava sempre muito bem, em matéria de roupa: a maioria das roupas que levei, na verdade quase todas, eram dadas por vocês! fazendas e modelos e feitios, tudo. São as minhas roupas mais originais, e mais finas. E apropriadas. Por exemplo, houve uma missa, e eu fui com o vestido de shantung (um com casaquinho forrado) modelo seu, Tania, e fazenda sua, Elisa (você trouxe para mim da Europa, lembra?) E assim por diante. Em Los Angeles, estivemos duas vezes, no primeiro e no último dia, tudo corrido, sem conseguir sequer parar um instante. Antes de tomar o avião de volta para Washington, fomos tomar um drinque com... Conrad Hilton. Acho até graça em tanta riqueza. Foi a casa mais rica e maior que já vi. Os portões, se alguém tentar atravessá-los sem ter sido “chamado”, eletrocutam a pessoa... O Hilton não me agradou, e eu gostaria de ter aquela casa – pois assim a venderia e ficaria com o dinheiro, pois é antipática, com livros comprados a metro. Ele disse com muito orgulho que comprou a casa tal qual estava, com a mobília e a decoração igualzinha (nem a vaidade de fazer a casa a gosto dele, ele tem, naturalmente porque não tem gosto dele). Disseram-me que ele foi “protetor” de Ava Gardner, e Hedy Lamar, além de ter sido casado com Zsa Zsa Gabor. Bem, saindo de lá nós íamos jantar rapidamente no aeroporto, mas um brasileiro de Los Angeles achou que bem podíamos jantar bem depressa no Beverly Hilton Hotel, onde ele conhecia o “maitre d’hotel” que apressaria tudo. Este, ao saber que tínhamos que pegar o avião, disse: deixe então o menu por minha conta. Éramos oito pessoas na mesa, e tudo correu mesmo rápido e perfeito: um peixe muito bom, um filé, café e um sorvetezinho; em quinze ou vinte minutos tínhamos engolido tudo. Então veio a conta: cento e seis dólares... A surpresa foi enorme. O embaixador ainda deixou quinze dólares de gorjeta. Então o secretário particular do embaixador disse: estamos pagando aqui ao Conrad Hilton o drinquezinho que ele nos ofereceu na casa dele. Quase perdemos o avião, mas o dinheiro não fui eu que perdi. Bem, um dia antes de deixarmos San Diego (é cidade grande e linda), tivemos um intervalo livre, sem programa, entre um almoço e um jantar. Então demos um pulinho ao... México, cuja fronteira fica a meia hora. É uma cidadezinha que não tem valor como representante do México, feita apenas para turista, nada interessante, tem-se a impressão de estar em terra de ninguém. Ficamos lá menos de uma hora, e voltamos. Mas deu tempo de eu comprar dois brincos para você, Tania, um com desenho moderno, e um para você, Elisa (para você é mais difícil, pois quase todos são pendentes e sei que você não usa – e, além do mais, eu queria evitar comprar aqueles típicos demais, que estão tão manjados). Para mim comprei um cinto de cobre, fico parecendo cavalo em parada ou circo. Em San Diego pouco tempo tive para compras, e não pretendia fazer nenhuma, pois sabia que só daria para comprar brinquedos para as crianças e alguma coisa para Avany, e outra para Gissa que ficou ajudando o pessoal daqui de casa. Mas vi perto do hotel uns brincos, Tania, que tinham seu nome escrito, e, enquanto esperava que viessem me buscar para um almoço, comprei-os. Mando quando tiver portador.
Há cerca de duas horas estou escrevendo. Na próxima carta escreverei sobre as crianças, sobre o “camping” de Pedrinho, gracinhas dos dois. Estou agora um pouco atrapalhada pois tenho que fazer as traduções que, com as viagens, se atrasaram.
A Clarissa está esperando criança. Mais novidades eu me lembrarei aos poucos e escreverei na próxima.
Deus abençoe vocês.

Com amor,

Clarice

Fonte: Grupo do Yahoo "Obra e Vida de Clarisse Lispector" - post de 26Jul2008

Em jeito de guisa [crítica ao artigo "Angola não é nossa" de Fenanda Câncio]

"Angola não é nossa"
via cinco dias by Fernanda Câncio on 7/24/08

Em jeito de guisa por Cristina da Nóbrega

via nonas by nonas on 7/26/08

Recebi da Exma. Senhora D. Cristina da Nóbrega, ex-participante de Salazar, o obreiro da Pátria, este texto sobre os dislates que Fernanda Câncio publicou sob o título "Angola não é nossa" do Diário de Notícias.
Tudo natural e normal num país em que se defende a liberdade de expressão e onde todos opinam, até mesmo aqueles - raros - que o fazem acertamente.

***

«Todos nós sabemos que em Portugal os ditos "jornalistas" do pós-25 de Abril, saídos das escolas "aviários" do jornalismo de propaganda da esquerda", são péssimos, desinformados e maus profissionais, (os bons profissionais do jornalismo, esses que existem, são censurados). De entre estes "jornalistas" saídos dos "aviários" esquerdistas democratas, uma há que dá pelo nome de Fernanda Câncio escreve umas prosas, (falhas e todas elas contraditórias), num jornal diário e vai daí que outros jornais ao descobrirem uma tal escrita tão inédita, qual obra-prima e extraordinária reforçam o fenómeno publicando também a tal prosa, como impacto à descoberta das Bermudas, são muito interessantes no ponto de vista analítico, mas nem por isso, deixam de ser duvidosas e análogas às verdades.
Ousei extrair dessa mesma prosa, algumas frases curiosas escritas no tal jornal diário, pela tal "jornalista" Fernanda Câncio.
Desta escrita salta à vista a frustração, a negação, a rejeição e a grandíssima contradição.

«Nunca fui a Angola, nem em trabalho nem em férias - e tenho pena.»
O menino d' Ouro não a convidou a ir na comitiva a Angola?... Como foi possível ele fazer-lhe uma coisa destas?... Que lástima no que é que dá passar de pretenso "engenheiro", a Ouro… Já não liga ao cobre, veremos se na ida do Ouro a Angola não vai passar a Diamante.

«Não nasci lá, como tantos portugueses, nem deixei lá saudades, pertences, fortunas ou amores, nem perdi lá um parente ou uma parte dele. Não tenho mágoas angolanas - nem, já agora, moçambicanas, guineenses, cabo-verdianas ou são-tomenses.»
Aqui esqueceu-se de Timor, imperdoável…

«Os países africanos de expressão portuguesa não são para mim diferentes de tantos outros países, africanos ou não.»
Pelas mãos criminosas e apátridas dos seus amigos hoje "democratas", Angola no território em que foi transformado, também a mim não me diz nada, também para mim é um qualquer país africano. Mas não era… Era um território cosmopolita de raiz portuguesa.

«Não me assaltou nenhuma nostalgia colonialista nos que visitei, Moçambique e Cabo Verde.»
Esta "jornalista" deve de viver de experiências transcendentais, porque nunca alguém que nunca viveu, conheceu ou sofreu na sua vida ou na sua pele as nossas províncias do Ultramar, nunca poderão sentir seja o que for como laços de territórios pertença de Portugal.

«Não senti nada de especial a não ser, em Moçambique, uma mágoa parecida com remorso herdado perante a miséria, os escandalosos fossos socioeconómicos e a subserviência do povo perante "os brancos". Mas isso já sentira noutras partes de África - alguém chamou a isso "o remorso do homem branco" (neste caso, de mulher, e morena).»
Será que as tais mulheres morenas, são as negras?... Mas, onde está a subserviência?... Será que elas, centenas delas, quando casavam ou viviam maritalmente com o homem branco e tinham vários filhos do homem branco, entrava nesta situação a tal subserviência!!!?... Não… decerto que ela não se refere aos portugueses, provavelmente estará a referir-se sobre a tal subserviência dos negros de Angola aos negros do MPLA, aos comunistas, aos socialistas, aos americanos, aos chineses, aos brasileiros, aos judeus, aos tiranos.

«Basta-me saber que não há eleições no país desde 1992 para não gostar do Governo nem do presidente.»
Quem foram os honrados e grandes políticos que instalaram no poder estes homens do MPLA?... Não sabe, claro que não sabe, como "jornalista" é uma fraude.

«(…)"os portugueses" - tenhamos "lá andado" 500 anos como não.»
Este "lá andado" 500 anos, é a prova dos nove da absurda ignorância desta pretensa "jornalista" amiga do pretenso "engenheiro e de pretensões em pretensões" lá vão eles andando", por Portugal.

«Portugal colonizou e descolonizou, Angola é dos angolanos.»
Portugal colonizou!!!... Provavelmente… Mas garanto-lhe que não "descolonizou".
Angola foi sempre dos angolanos portugueses, tenho documentos que rezam, que são testemunhos, feitos legalmente sob as leis da Constituição de Portugal e que provam que Angola era dos angolanos portugueses, pese que em 1961 os negros do Congo Belga invadiram Angola para assassinarem o povo português, instruídos e às ordens dos americanos e dos soviéticos.

«Façam-se negócios, certo. Apertem-se mãos, assinem-se acordos. Defenda-se isso a que se chama "o interesse português". Mas, por favor, não exagerem.»
Eu aperto a mão, a qualquer um deles, defendendo o interesse português de toda a minha família, em que se assumam acordos de restituírem o legado e bens de toda a minha família roubados expropriados e ocupados abusiva e criminosamente.
E prometo que não exagero.
Mas, por favor, poupe-nos a todos nós das suas paupérrimas prosas.»

sábado, 26 de julho de 2008

Balanço final da minha actuação na Assembleia Nacional [1]

via Folhas de História by gloriainacselsis on 7/21/08
Em 16 de Março de 1949, Dr. Froilano de Melo fez o balanço da sua participação na Assembleia da República: Sr. Presidente: deverão findar em breve os trabalhos parlamentares da 4ª sessão da legislatura desta Camara e com ela terminará o mandato que a Nação conferiu a esta Assembleia Nacional, cujos debates, V. Exª., Sr. Presidente, [...]

Os campos de concentração dos bons

via a cidade do sossego by noreply@blogger.com (harms) on 7/25/08
"As latrinas eram simples troncos atravessados sobre fossos contíguos às cercas de arame farpado. Para dormir, a única coisa que podíamos fazer era cavar um buraco no solo com as mãos e depois agarrarmo-nos uns aos outros no interior do buraco. Estávamos muito apertados. Devido às doenças, os homens tinham que defecar no solo. Não tardou que muitos de nós estivéssemos demasiado fracos para despirmos as calças primeiro. Por conseguinte, tínhamos as roupas infectadas, assim como a lama onde éramos obrigados a andar, sentar e deitar. A princípio não havia água, a não ser a das chuvas; depois, ao cabo de um par de semanas, conseguimos obter alguma água de uma bica. Mas a maioria de nós não possuía nada onde recolhê-la, de forma que apenas podíamos beber umas goladas depois de umas horas em bicha, por vezes mesmo pela noite dentro. Tínhamos que caminhar por entre os buracos na terra mole acumulada pela escavação, de maneira que era fácil cair num buraco, mas difícil sair dele. Nessa Primavera, a chuva era quase ininterrupta ao longo daquela zona do Reno. Mais de metade dos dias tínhamos chuva. Mais de metade dos dias não tínhamos comida alguma. Nos restantes, obtínhamos um pouco de ração K. Eu via pela embalagem que nos davam um décimo das rações que distribuíam ao pessoal deles. Assim, no final, recebíamos talvez cinco por cento de uma ração normal do exército americano. Queixei-me ao comandante americano do campo de que estava a violar a Convenção de Genebra, mas ele limitou-se a dizer:'Deixe lá a Convenção. Vocês não têm direitos nenhuns'.
Em poucos dias, alguns homens que tinham entrado no campo saudáveis morriam. Vi os nossos homens arrastarem muitos cadáveres até aos portões do campo, onde eram atirados uns por cima dos outros para camiões que os levavam dali.
Um rapaz de 17 anos que via a sua aldeia ao longe costumava postar-se a chorar junto da cerca de arame farpado. Uma manhã os prisioneiros deram com ele alvejado a tiro na base da cerca. O seu corpo foi amarrado e abandonado suspenso do arame pelos guardas, à laia de aviso. Os prisioneiros eram obrigados a passar junto ao cadáver. Muitos gritavam 'Moerder, moerder'. Como retaliação, o comandante do campo retirou as magras rações aos prisioneiros durante três dias."- James Bacque, Outras Perdas, Asa, 1995
O relato anterior é de um militar alemão, de nome Charles von Luttichau, detido pelos americanos no campo de Kripp, perto de Remagen, junto ao Reno. Não é um sobrevivente judeu a falar. É um sobrevivente alemão, dos campos aliados onde, entre 1945 e 1946 terão morrido para cima de um milhão de soldados e civis alemães, muitos deles à fome. Não consta que os guardas destes campos de concentração tenham sido incomodados nos últimos sessenta e três anos e parece que nenhum deles foi a julgamento. Estavam do lado dos bons. Eu sei porque vi nos filmes.

Comparações (II)

via INCONFORMISTA.INFO by Miguel Vaz on 7/25/08
"Comparar, não quer evidentemente dizer assimilar: os regimes comparáveis não são necessariamente idênticos, mesmo que certos autores o tenham afirmado no caso do comunismo e do nazismo. Comparar significa colocar junto, para as pensar em conjunto sobre um certo número de relações, duas espécies distintas de um mesmo género, dois fenómenos singulares no interior de uma mesma categoria. Comparar não é, também, banalizar ou relativizar. As vítimas do comunismo não apagam mais as vítimas do nazismo do que as vítimas do nazismo apagam as do comunismo. Não nos podemos apoiar nos crimes de um regime para justificar ou atenuar a importância dos crimes cometidos por outro: os mortes não se anulam, somam-se. Que o comunismo tenha sido ainda mais destruidor que o nazismo, não torna o segundo «preferível» ao primeiro, pois a escolha nunca ficou confinada a uma alternativa entre os dois."

Alain de Benoist
in "Comunismo e Nazismo: 25 reflexões sobre o totalitarismo no século XX (1917-1989)", Hugin Editores (1999)


Balanço final da minha actuação na Assembleia Nacional [2]

via Folhas de História by gloriainacselsis on 7/25/08
[Continuação] Sr. Presidente: não foi também desconhecida em Portugal a reacção psicológica do povo indo-português vis-à-vis das doutrinas do Acto Colonial, porque, quando o Sr. Ministro quis ouvir a opinião da Índia, a minoria eleita do Conselho do Governo, expressamente convocado para se pronunciar, pela boca de Meneses Bragança — o mais brilhante talento de jornalista [...]

Homenagem a António Quadros

Homenagem a António Quadros

via antónio quadros by noreply@blogger.com (AQF) on 7/25/08
António Quadros se estivesse vivo faria 85 anos. O desafio é este: enviem-nos um pequeno texto, um poema, um verso ou apenas uma frase em sua memória. O terceiro é da autoria de: Romana Valente Pinho.

"Apontamento Biográfico

António Gabriel de Quadros Ferro nasceu na cidade de Lisboa no dia 14 de Julho de 1923. Se fosse vivo faria 85 anos. Filho dos escritores António Ferro (1895-1956) e Fernanda de Castro (1900-1994), António Quadros licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e dedicou-se, durante toda a sua vida, à filosofia, à literatura e à arte de uma forma geral. Por esse motivo, fundou, entre outras instituições, a Associação Portuguesa de Escritores e o Instituto de Arte, Decoração e Design (IADE). Na sua actividade profissional fundou e dirigiu alguns dos periódicos mais importantes do seu tempo, a saber, Acto, 57 e Espiral. Discípulo de Álvaro Ribeiro (1905-1981), foi um dos membros mais activos do grupo da Filosofia Portuguesa. Morreu no dia 21 de Março de 1993, com apenas 69 anos.
Apontamento Crítico
A filosofia da cultura portuguesa que António Quadros defende está associada ao projecto áureo e universal destinado aos portugueses, cujos pressupostos se baseiam na paideia dionisíaca, essencialmente no Culto do Espírito Santo. Esta apologia propõe uma visão ecuménica para o cristianismo e para o catolicismo. O autor crê que, num tempo futuro, todas as grandes religiões se fundirão entre si por meio da Nova Aliança e estabelecerão uma nova Era - a do Espírito Santo. Tal Idade promover-se-á em direcção a um movimento universal e ecuménico e realizará a Profecia que está revelada no Apocalipse de São João: o re-estabelecimento da Nova Jerusalém. Este Tempo ou Idade do Espírito Santo que o autor propõe é inspirado na hermenêutica joaquimita das Três Idades que Jaime Cortesão (1884-1960) e Agostinho da Silva (1906-1994) discutem nas suas obras. Deste modo, à semelhança destes dois autores, António Quadros apresenta uma leitura muito mais fiel àquela que foi veiculada pela tradição do franciscanismo espiritual do que à interpretação deixada pelo próprio Joaquim de Fiore. Tal reflexão conduzirá Quadros a um questionamento acerca da ideia de Deus e da ideia de Pátria.
O pensamento de António Quadros acerca de Deus poder-se-á enquadrar, de um ponto de vista estrito, no seio daquilo que se convencionou chamar movimento da filosofia portuguesa e, genericamente, no contexto da tradição cristã e agostiniana que, desde Paulo Orósio (385-420), vigora em Portugal. Tal reflexão desenvolve-se, portanto, no enquadramento de um conjunto de postulados que são caros aos pensadores da filosofia portuguesa. O que António Quadros parece defender é que, à semelhança do povo de Israel, Portugal é também um povo eleito por Deus. Embora todas as nações, em si, sejam, plurais, diversas e diferentes, parece que Portugal é mais plural, mais diversa e mais diferente do que todas as outras. E só o é porque Deus assim o quis, porque a ele confiou um projecto maior, a saber, purificar a razão humana por meio do Espírito Santo. Independentemente de os portugueses terem sido eleitos por Deus ou, como preferia Agostinho da Silva, se terem auto-eleito para a edificação de uma empresa universal, o que importa realçar é a característica dessa demanda. Quadros sintetiza-a, à maneira camoneana e pessoana, enquanto epopeia de Deus através do homem português, como aventura de Deus na terra.
Todos os aspectos que António Quadros trata na sua obra relativamente à ideia de Deus e à noção de Pátria estão intimamente relacionados com a crítica que, desde o século XVII, se faz a uma suposta estrutura psicológica e cultural do ser português e que ganhou mais evidência através do polemismo que António Sérgio (1883-1969) lhe empregou. Desta forma, a análise da polémica que António Sérgio erige em torno do sebastianismo torna-se fundamental por variados motivos. Em primeiro lugar porque o autor de Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista concede demasiada importância aos polemismos sergianos, ou seja, tende a qualificá-los como redutores e ameaçadores da sobrevivência da lusitanidade; em segundo porque considera que o sebastianismo abarca a essência do ser português; e em terceiro porque o ideólogo dos Ensaios permite-nos questionar acerca daquilo que está para cá da dimensão mitológica e imaginária do movimento sebástico e que, ao contrário do que supõe António Quadros, não é algo unicamente historicista, sociológico, reducionista e menor. Uma leitura entrecruzada da polémica sergiana com o projecto áureo português proposto por Quadros conduzir-nos-á a uma reflexão mais apurada sobre a conceptualização de uma filosofia da cultura portuguesa.
Reconstituamos a polémica e analisemos, com isenção, os argumentos de cada lado. É a partir da sua colaboração n' A Águia, logo após a implantação da República em Portugal, que António Sérgio se manifesta contra os princípios que orientam, em certa medida, a edição dessa revista por Teixeira de Pascoaes (1877-1952). A bem da verdade, António Sérgio não conseguiu distinguir o D. Sebastião histórico do movimento mítico-saudosista que se fundou a seguir ao seu desaparecimento no deserto marroquino e, nesse ponto específico, António Quadros tem razão. No entanto, este último relevou todos os aspectos negativos que conduziram a tomada do Norte de África, por parte do Rei Desejado, ao fracasso e à perda da independência portuguesa. Para o autor de Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista, à semelhança de Pascoaes, o abismo em que Portugal caiu (o Portugal real e histórico), constituiu-se enquanto catarse e permitiu que o país se elevasse para uma dimensão superior, espiritual, mítica que transcende qualquer queda histórica, objectiva e factual. Ao menosprezar esta vertente a favor de uma outra que enaltece apenas a poesia, o romantismo, a mitologia, Quadros também errou e, em certa medida, cometeu o mesmo pecado que Sérgio cometera: confundir dimensões que, a priori, não podem sequer tocar-se, quanto mais reunir-se. Uma coisa é filosofar a propósito daquilo que é misterioso, simbólico, enigmático, arquetipal, inefável, essencial, mitológico, outra é confundir ou misturar dimensões, como se cada uma pudesse influir categorialmente na outra. Tanto António Sérgio como António Quadros não conseguiram distinguir os erros do D. Sebastião histórico do romantismo do D. Sebastião mitológico, por exemplo. Ora, o âmago da polémica reside precisamente aqui. Sérgio, e outros como ele que defendem o racionalismo e o idealismo crítico, denunciam os malefícios que foram impregnados à educação dos portugueses por via de uma exaltação messiânica, profética, romântica e saudosista da historiografia lusitana e que, no seu entender, conduziram Portugal para a inércia, para o atraso social e cultural, para o conservadorismo, para a pequenez mental. Por sua vez, António Quadros, e todo o movimento da filosofia portuguesa, consideram que Portugal é detentor de um projecto áureo, universal e congregador para toda a humanidade e que, por esses motivos, não poderá ater-se somente àquilo que é temporal, contemporâneo, progressista, mas, acima de tudo, àquilo que extrapola este patamar e se ocupa do mito, dos símbolos, dos arquétipos e das formas."

(adaptação livre de PINHO, Romana Valente, Deus na tradição do pensamento português contemporâneo: a contribuição de António Quadros, In: A Questão de Deus: História e Crítica)

Participaram neste desafio Mafalda Ferro, Maria Ana Ferro e Romana Valente Pinho


Homenagem a António Quadros

Homenagem a António Quadros

via antónio quadros by noreply@blogger.com (AQF) on 7/25/08
António Quadros se estivesse vivo faria 85 anos. O desafio é este: enviem-nos um pequeno texto, um poema, um verso ou apenas uma frase em sua memória. O quarto é da autoria de: Cecília Melo e Castro.

"Foi na década de 80 que a convite de António Quadros, ingressei nesta Instituição – a que nos habituámos chamar de "Comunidade IADE" e que tão boas recordações mo trazem à lembrança, fazendo com que os seus princípios e o seu pensamento norteiem toda a minha postura nesta nossa "Casa". Começo então por citar António Quadros, lendo um pequeno excerto do "Proémio" do seu livro "Memórias das Origens – Saudades do Futuro" para enquadrar o meu singelo depoimento sobre a importância que a sua visão do mundo, de Si mesmo e do Outro, representou e representa ainda, tanto para mim.

Assim, escreve:

"......A memória das origens é a recordação velada do princípio do ser, que é também o princípio do nosso ser. A pergunta sobre quem somos é inseparável da pergunta sobre de onde vimos.
Estas interrogações temos de nos fazer, como indivíduos-pessoas, como portugueses, como seres humanos, se desejamos ser mais do que entidades vegetativas, fruidoras da existência ou seus destroços, simples predadores ferozes ou tontas borboletas encadeadas pelas cintilações do próximo, do imediato, do que apenas interessa à superfície sensorial do nosso eu.
Quem somos? Que deve a nossa identidade aos nossos pais e avós? Como nos marcaram eles, na espiral genética e na herança moral e cultural? Até que ponto devemos ser-lhes fieis e a partir de onde podemos ou devemos resistir-lhes, afirmando a nossa liberdade?......" e mais à frente: "....Às perguntas sobre quem somos e de onde vimos acrescenta-se necessariamente uma terceira: para onde vamos....." e ainda: ".......A saudade do futuro é uma paixão que animou toda a nossa história, como inspira toda a nossa cultura, fautora de acertos ou de erros, mas sempre omnipresente. O hoje é uma passagem evanescente entre um ontem que remonta às origens e um amanhã que é para nós mais, bem mais do que um mundo simplesmente melhor do que este, é um reino da primazia do espírito e dos seus valores, para o qual, consciente ou inconscientemente, trabalha tudo o que em cada um de nós é altruísta, dadivoso, generoso, visionário…."

Ora é então por aqui que eu pretendo construir este meu momento de reflexão, mais do que um simples depoimento, sobre o que me liga ao pensamento de António Quadros, atrevendo-me a citá-lo como acabei de o fazer, quando afinal falo sobre a minha produção artística que tão bem entendeu, acarinhou e incentivou.

Numa época em que se tornava muito difícil comunicar "Arte Electrónica", então chamada de "Infopintura", a um público consumidor em que as tintas, os pincéis e a tela, eram os instrumentos e suportes privilegiados da pintura clássica, António Quadros, tal como Stockausen afirma, "viu mais, ouviu mais e sentiu mais." Apoiou desde a minha primeira exposição toda a minha criação artística, classificando-a de "inovadora e de um grande sentido estético".

Afirmava que era pela esfera das emoções "como eu me propunha" que entendia a minha expressão plástica e poética, quando "olhava, sentindo" repetindo as minhas palavras, "os espaços imagéticos das minhas memórias" que, como eu afirmava, "teriam começado antes de existir, nas moradas seguras dos meus encantamentos."

Num mundo cada vez mais global e massificante, verberativamente mais prosaico e em que os espaços comunicacionais se elevam como máquina destruidora da razão, fala-se muito hoje de afectos, de Inteligência Emocional, num paralelismo de resposta quase estigmatizante.

Sendo que a questão das emoções remonta mesmo a Aristóteles, passando por Cícero, Pascal, Nietzsche, Sartre, Platão e tantos outros cujas referências seriam aqui exaustivas, todos eles, de uma maneira ou de outra, me influenciaram nesta minha forma de ver e sentir o mundo e a minha relação com "o outro". António Quadros com a sua enorme compreensão e teorização sobre a minha produção artística, só pode enriquecer a minha lista de "citados". Concordava particularmente comigo, quando eu afirmava que se tratava de "uma nova forma de Comunicar, oferecendo um novo espectáculo do Olhar e uma nova maneira de Ver, porque de novas emoções se enchem os nossos Sentidos, quando se Ouve o poder imagético das nossas Memórias.

"Memórias das Origens – Saudades do Futuro"

David Hume (filósofo do século XVIII, no seu "Tratado da Natureza Humana" (1740), concebeu a comunicação ou "consumo" das obras de arte como regulado por dois princípios: a "Novidade" e a "Facilidade". Só a novidade é capaz de estimular a criatividade e levar ao consumo ou desejo de posse. Mas só a facilidade permite que o consumidor frua, entenda e goze.
É pois necessário um equilíbrio entre a novidade e a facilidade, pois a novidade total é difícil de fruir e a facilidade é contrária à novidade.

Dir-se-á, pois, "a contrário sensu" que vivemos anos privilegiados para a prática de um novo conceito de Arte, aproveitando os meios tecnológicos ao nosso alcance, como meio de resistência à aculturação, a esse nada padronizado, que tende a suprimir o gesto e o risco da invenção do novo. É precisamente no sentido da apropriação dos meios operandis à escala ciberneto-global que penso ser hoje, o grande desafio à nossa própria capacidade de criação e fruição, propondo-nos um modo diferente de estar no mundo e na criação artística, usando os mesmos meios que outros usam para controlar as nossas vidas. (Um pequeno parêntesis para chamar a atenção para a nova guerra que começou esta noite).

Era este pensamento que partilhava com António Quadros e que o mesmo tanto estimulou, que me fez compreender que estava no caminho certo quanto às minhas opções estéticas, que ele próprio discutia com o Prof. Dr. Rui Mário Gonçalves, que à época me propôs ao prémio Unesco de Arte e Ciência.

Na sua afirmação:"......há no ser humano uma virtualidade de grandeza interior, uma capacidade de visão, de criação e de dádiva, que não podem ser ignoradas e de que dão testemunho os espíritos superiores que neste mundo viveram ou vivem e que também encontram expressão no próprio, inconfundível e levitante de cada paideia como projecção, que é, do devir civilizacional e civilizador de uma comunidade....." não disse, mas atrevo-me a dizê-lo eu, esse ser humano de que fala, foi e é de facto, o próprio António Quadros.

Como ele mesmo escreveu, citando Teixeira de Pascoaes: "o futuro é o passado que amanhece", eu acrescento:
"Amanhã, os cavalos serão aves com longas asas de marfim" mesmo que no reino da Utopia.
Para terminar, nada melhor do que um pequeno poema de Paulo Anes que de certo modo traduz a minha grande admiração por António Quadros e pela Instituição que fundou, o IADE!

Parto de Fé

Saio à procura
do que quer que seja
e o que quer que seja
onde quer que esteja
está sempre aqui.

Obrigada Dr. António Quadros por acreditar no meu trabalho académico e artístico! Farei o possível por não o desiludir!"
Participaram neste desafio Mafalda Ferro, Maria Ana Ferro, Romana Valente Pinho e Cecília Melo e Castro.