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terça-feira, 29 de julho de 2008
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Grande Helena
JAMAIS (PRONUNCIAR EM FRANCÊS)
Aníbal Pinto de Castro, catedrático jubilado da Universidade de Coimbra, vai doar um terço (ou seja, vinte mil volumes) da sua biblioteca ao Centro de Estudos Camilianos de Famalicão. Porquê? Para que «os livros estejam em sítios onde sejam úteis, bem tratados e estudados.» Nesse acervo, a parte respeitante a Camilo corresponde a mil títulos. O destino do resto da biblioteca (mais de sessenta mil volumes) está por decidir. A única certeza é que não vão para a Biblioteca da Universidade de Coimbra. Porquê? Porque... «Nunca deixaria os meus livros a um lugar onde eles poderiam ser esquecidos e maltratados.» A Academia de Ciências de Lisboa é uma possibilidade.(title unknown)
(title unknown) [Limpeza Étnica]

Mário Crespo
O articulista Mário Crespo é uma figura independente e, como jornalista, totalmente inserido neste sistema. Aliás, na minha opinião, é a imagem do jornalismo seguidista deste sistema. Ele é um dos arautos do sistema.
Depois de lerem não se esqueçam: este jornalista já por diversas vezes mostrou aversão aos movimentos Nacionalistas e às suas posições políticas..
Isto já me faz-me lembrar o inicio dos anos 70. O regime estava tão podre – tão podre…- que ninguém já acreditava nele. Nem as pessoas que o defendiam. Tal como eu…
Vamos ler o que escreveu Mário Crespo:
LIMPEZA ÉTNICA
O homem, jovem, movimentava-se num desespero agitado entre um grupo de mulheres vestidas de negro que ululavam lamentos. "Perdi tudo!".
"O que é que perdeu?" perguntou-lhe um repórter.
"Entraram-me em casa, espatifaram tudo. Levaram o plasma, o DVD a aparelhagem..." Esta foi uma das esclarecedoras declarações dos autodesalojados da Quinta da Fonte.
A imagem do absurdo em que a assistência social se tornou em Portugal fica clara quando é complementada com as informações do presidente da Câmara de Loures: uma elevadíssima percentagem da população do bairro recebe rendimento de inserção social e paga "quatro ou cinco euros de renda mensal" pelas habitações camarárias.
Dias depois, noutra reportagem outro jovem adulto mostrava a sua casa vandalizada, apontando a sala de onde tinham levado a TV e os DVD. A seguir, transtornadíssimo, ia ao que tinha sido o quarto dos filhos dizendo que "até a TV e a playstation das crianças" lhe tinham roubado. Neste país, tão cheio de dificuldades para quem tem rendimentos declarados, dinheiro público não pode continuar a ser desviado para sustentar predadores profissionais dos fundos constituídos em boa fé para atender a situações excepcionais de carência. A culpa não é só de quem usufrui desses dinheiros.
A principal responsabilidade destes desvios cai sobre os oportunismos políticos que à custa destas bizarras benesses, compraram votos de Norte a Sul. É inexplicável num país de economias domésticas esfrangalhadas por uma Euribor com freio nos dentes que há famílias que pagam "quatro ou cinco Euros de renda" à câmara de Loures e no fim do mês recebem o rendimento social de inserção que, se habilmente requerido por um grupo familiar de cinco ou seis pessoas, atinge quantias muito acima do ordenado mínimo.
É inaceitável que estes beneficiários de tudo e mais alguma coisa ainda querem que os seus T2 e T3 a "quatro ou cinco euros mensais" lhes sejam dados em zonas "onde não haja pretos". Não é o sistema em Portugal que marginaliza comunidades. O sistema é que se tem vindo a alhear da realidade e da decência e agora é confrontado por elas em plena rua com manifestações de índole intoleravelmente racista e saraivadas de balas de grande calibre disparadas com impunidade.
O país inteiro viu uma dezena de homens armados a fazer fogo na via pública. Não foram detidos embora sejam facilmente identificáveis. Pelo contrário. Do silêncio cúmplice do grupo de marginais sai eloquente uma mensagem de ameaça de contorno criminoso - "ou nos dão uma zona etnicamente limpa ou matamos." A resposta do Estado veio numa patética distribuição de flores a cabecilhas de gangs de traficantes e autodenominados representantes comunitários, entre os sorrisos da resignação embaraçada dos responsáveis autárquicos e do governo civil.
Cá fora, no terreno, o único elemento que ainda nos separa da barbárie e da anarquia mantém na Quinta da Fonte uma guarda de 24 horas por dia com metralhadoras e coletes à prova de bala. Provavelmente, enquanto arriscam a vida neste parque temático de incongruências socio-políticas, os defensores do que nos resta de ordem pensam que ganham menos que um desses agregados familiares de profissionais da extorsão e que o ordenado da PSP deste mês de Julho se vai ressentir outra vez da subida da Euribor.
O McMillan morreu...
Ontem chorei. Muito! E como há muito não chorava.
A meio da tarde recebi uma notícia que não esperava: o McMillan tinha morrido numa explosão no Iraque.
Tentei esconder da redacção as lágrimas que me caíam no teclado do computador. Não consegui. Fazer a régie durante o Telejornal tornou-se doloroso. Mais ainda quando os muitos monitores que estavam à minha frente multiplicaram as imagens dos últimos atentados no Iraque.
Para quem não sabe, o McMillan é um amigo que guardarei para sempre. Juntos passámos muitos e intensos momentos durante a batalha por Sadr City, em Março, nos arredores de Bagdade. Este ranger americano era um jovem de vinte e dois anos que foi ao Iraque poupar o dinheiro suficiente para pagar o curso da mulher que deixara na América. Também ele tinha um sonho…
Hi Castro,
This is McMillan's wife. Unfortunately, I have very very sad news. My husband, Bill McMillan was killed in action on July 8 ,2008 from injuries sustained when his stryker struck an improvised explosive device (IED). My husband spoke very fondly of you and enjoyed spending time with you. I am sorry to tell you such sad news. I hope you reply back, I would love to hear about your time with my beloved husband.
Sincerely,
Elizabeth McMillan
http://www.defenselink.mil/releases/rele
http://www.25idl.army.mil/Deployment/Rem
http://www.diversityinbusiness.com/Milit
Transcrevo duas passagens que escrevi sobre ele.
Entramos num dos strikers e McMillan, o socorrista, pergunta-nos de imediato: "Se entrarmos em combate, vocês vão lá para fora ou preferem ficar cá dentro?" Respondo-lhe que iremos para onde eles forem; que estamos ali para filmar tudo o que acontecer. Ele sorri e volta a perguntar: "E se ficarem feridos posso dar-vos morfina, ou são alérgicos?" Vejo que estão preparados para tudo.
(...)
Nesta última ida ao Iraque juntei mais uns quantos amigos: Morris, Aldrige, Finnigan e Kolzoi e McMillan. Alguns são ainda muito novos. No fundo não deixam de ser jovens a tentar sobreviver num mundo que lhes é estranho. McMillan, de vinte e dois anos, confidenciou-me no meio de Sadr City que foi ao Iraque ganhar dinheiro para pagar os estudos da mulher e para também ele poder acabar o curso de medicina quando voltar ao Arkansas. Ele e os outros não querem saber de política, apenas que lhes confiaram uma missão e que a querem levar até ao fim. O paramédico, após sentir alguns projécteis passarem-lhe por cima da cabeça, desabafa: "Ainda faltam onze meses, mas quando isto acabar terei poupado trinta e cinco mil dólares." McMillan ganha mais cinco mil dólares (4 mil euros por mês) por ter vindo para o Iraque. Se não fosse casado receberia pouco mais de metade. Pensei que ganhassem mais.
Para quem quiser saber mais sobre o McMillan e sobre o que passámos juntos, podem ir aos links:
http://cheiroapolvora.blogs.sapo.pt/5079.h
http://cheiroapolvora.blogs.sapo.pt/5157.h
http://cheiroapolvora.blogs.sapo.pt/5402.h
http://cheiroapolvora.blogs.sapo.pt/5829.h
http://cheiroapolvora.blogs.sapo.pt/6235.h
http://cheiroapolvora.blogs.sapo.pt/7670.h
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Chega de Europa
domingo, 27 de julho de 2008
O acordo EUA/MPLA e o petróleo de Cabinda
"O general Diogo Neto, que se encontrava em Angola nas vésperas da independência, diria: «Estive em Luanda até ao dia 8, altura em que fui evacuado. No dia anterior à minha partida as duas colunas estavam perto da capital, mas foram obrigadas a parar por pressões diplomáticas dos EUA. O consulado americano de Luanda encerrou no dia 2 ou 3 e um dos seus membros, que suponho da CIA, disse-me antes da sua partida que estava tudo combinado. Concluí que os americanos pretendiam chegar a um acordo com Neto sobre o petróleo de Cabinda»(1). Com efeito, uma delegação do MPLA, presidida por um dos seus máximos dirigentes, Mingas, insistiu especialmente em que eram óptimas as relações entre a companhia Gulf que explorava o crude de Cabinda e o seu Movimento(2). Este acordo do MPLA com os sectores petrolíferos americanos ainda se mantém. Almeida Santos, reflectindo sobre a posição dos EUA na fase final da descolonização, diria: «Kissinger entendeu que durante um período era preferível que viessem os soviéticos para ser uma vacina para o resto de África. Em termos de processo histórico, se o ocidente tivesse ficado em Angola a partir de 1974, o prestígio da URSS seria muito maior. Se tivessem passado toda a crise económica sob a influência ocidental, teríamos tido grandes dificuldades económicas e quem estaria hoje queimado seria o ocidente e o desejado seria a URSS. Agora sucede o contrário e agora é o ocidente o desejado.»"1 – Fonte desconhecida.
2 – Documentos para a história da descolonização de Moçambique, Baluarte, n.º 1, Janeiro 1976, p. 6.
3 – Secretariado MFA, texto policopiado, 2 pp. Arquivo particular.
Carta de Clarice Lispector
Minhas queridinhas,
Quanto à Califórnia. Coisa inteiramente inesperada, que me fez muito bem. Eu não andava dormindo bem, mas com a mudança de clima passei a dormir. Andamos uma semana no meio de milionários, hóspedes de um clube gran-fino, onde só os sócios têm direito de se hospedar e... pagar. O clube é cheio de “cabanas” gran-finas; a nossa, abrindo a porta, e descendo uns degraus, dava para uma praiazinha, onde tomei um banho no Pacífico... O clima de San Diego é inacreditavelmente bom, quente e seco, e leve. Los Angeles é quente demais. San Diego é uma beleza. Mas lamento dizer que Los Angeles e Hollywood se parecem demais com Miami. As mesmas casas baixas, o mesmo ar meio devastado e meio bagunça, sem graça. Naturalmente tem ruas de casas lindas. Mas não era como eu pensava. Não se vê muita gente nas ruas, e não vi nas ruas gente elegante, como a gente pensa que por ali devem existir aos montes. Almoçamos com George Murphy (lembram? Um dançarino, meio chatinho, que agora tem 55 anos, e não é mais ator, trabalha na Metro como “executive”), e é muito simpático para conversar. Nesse almoço estavam, entre outros importantes que não conheço, Ann Miller que é bem simpática, ao contrário do que eu pensava; miss Suécia do ano passado, tentando cinema; ela é tão incrivelmente linda, com um corpo tão espetacular, que o pessoal brasileiro presente apelidou-a de “a que não existe”; estava também a miss América, que foi miss Universo, em 1953, se não me engano. Essa, por Deus, apenas muito bonitinha e suave, ninguém imaginaria, conhecendo-a, que mereceria prêmio; passa quase desapercebida. Depois do almoço, que “aconteceu” no Beverly Hills Hotel, fomos aos estúdios da Metro, onde vimos... Danny Kaye ser filmado, e onde apertamo-lhes a mão. Ele é uma uva, tão atraente como no cinema. (que digo! Muito mais ainda), e muito engraçado e inteligente. Vimos também Peter Lawford ser filmado, bonito e chato. Por mais que eu soubesse como era feita a filmagem, fiquei desiludida. A coisa é feita entre chateações e repetições, exige uma paciência canina dos atores, e é feita por assim dizer sem o menor entusiasmo por parte deles. Tem um ar de pura rotina. Pelo menos o que eu vi. Nos estúdios há ruas inteiras de cenário para cowboy, numa rua está simplesmente a casa de “O Vento Levou”, numa outra a piscina que foi construída para Esther Williams. Vimos o cenário para “Os Irmãos Karamazov”, (lindo, exato, com neve falsa, árvores de matéria plástica tão perfeitas que só faltam dar fruto, rochas de matéria plástica, mas a pessoa só falta sentir frio lá, de tão cuidado), mas, para a minha profunda mágoa, Yul Brinner, astro do filme, estava nesse dia filmando fora do estúdio. Quando fomos entrando no estúdio, ao portão, havia as garotas que passam horas ali na esperança de um artista entrar para dar autógrafo. Quando saltamos do carro, elas correram para mim e me pediram autógrafo... (é que o carro era de luxo). Disse-lhes com gentileza que eu era “nobody” e que guardassem o livrinho para outra pessoa. Devo dizer a vocês que, nessa semana da Califórnia, com almoços e jantares tipo banquete, diariamente, eu estava sempre muito bem, em matéria de roupa: a maioria das roupas que levei, na verdade quase todas, eram dadas por vocês! fazendas e modelos e feitios, tudo. São as minhas roupas mais originais, e mais finas. E apropriadas. Por exemplo, houve uma missa, e eu fui com o vestido de shantung (um com casaquinho forrado) modelo seu, Tania, e fazenda sua, Elisa (você trouxe para mim da Europa, lembra?) E assim por diante. Em Los Angeles, estivemos duas vezes, no primeiro e no último dia, tudo corrido, sem conseguir sequer parar um instante. Antes de tomar o avião de volta para Washington, fomos tomar um drinque com... Conrad Hilton. Acho até graça em tanta riqueza. Foi a casa mais rica e maior que já vi. Os portões, se alguém tentar atravessá-los sem ter sido “chamado”, eletrocutam a pessoa... O Hilton não me agradou, e eu gostaria de ter aquela casa – pois assim a venderia e ficaria com o dinheiro, pois é antipática, com livros comprados a metro. Ele disse com muito orgulho que comprou a casa tal qual estava, com a mobília e a decoração igualzinha (nem a vaidade de fazer a casa a gosto dele, ele tem, naturalmente porque não tem gosto dele). Disseram-me que ele foi “protetor” de Ava Gardner, e Hedy Lamar, além de ter sido casado com Zsa Zsa Gabor. Bem, saindo de lá nós íamos jantar rapidamente no aeroporto, mas um brasileiro de Los Angeles achou que bem podíamos jantar bem depressa no Beverly Hilton Hotel, onde ele conhecia o “maitre d’hotel” que apressaria tudo. Este, ao saber que tínhamos que pegar o avião, disse: deixe então o menu por minha conta. Éramos oito pessoas na mesa, e tudo correu mesmo rápido e perfeito: um peixe muito bom, um filé, café e um sorvetezinho; em quinze ou vinte minutos tínhamos engolido tudo. Então veio a conta: cento e seis dólares... A surpresa foi enorme. O embaixador ainda deixou quinze dólares de gorjeta. Então o secretário particular do embaixador disse: estamos pagando aqui ao Conrad Hilton o drinquezinho que ele nos ofereceu na casa dele. Quase perdemos o avião, mas o dinheiro não fui eu que perdi. Bem, um dia antes de deixarmos San Diego (é cidade grande e linda), tivemos um intervalo livre, sem programa, entre um almoço e um jantar. Então demos um pulinho ao... México, cuja fronteira fica a meia hora. É uma cidadezinha que não tem valor como representante do México, feita apenas para turista, nada interessante, tem-se a impressão de estar em terra de ninguém. Ficamos lá menos de uma hora, e voltamos. Mas deu tempo de eu comprar dois brincos para você, Tania, um com desenho moderno, e um para você, Elisa (para você é mais difícil, pois quase todos são pendentes e sei que você não usa – e, além do mais, eu queria evitar comprar aqueles típicos demais, que estão tão manjados). Para mim comprei um cinto de cobre, fico parecendo cavalo em parada ou circo. Em San Diego pouco tempo tive para compras, e não pretendia fazer nenhuma, pois sabia que só daria para comprar brinquedos para as crianças e alguma coisa para Avany, e outra para Gissa que ficou ajudando o pessoal daqui de casa. Mas vi perto do hotel uns brincos, Tania, que tinham seu nome escrito, e, enquanto esperava que viessem me buscar para um almoço, comprei-os. Mando quando tiver portador.
Há cerca de duas horas estou escrevendo. Na próxima carta escreverei sobre as crianças, sobre o “camping” de Pedrinho, gracinhas dos dois. Estou agora um pouco atrapalhada pois tenho que fazer as traduções que, com as viagens, se atrasaram.
A Clarissa está esperando criança. Mais novidades eu me lembrarei aos poucos e escreverei na próxima.
Deus abençoe vocês.
Com amor,
Clarice
Fonte: Grupo do Yahoo "Obra e Vida de Clarisse Lispector" - post de 26Jul2008

