terça-feira, 23 de setembro de 2008

Depoimento de Óscar Aníbal Piçarra de Castro Cardoso

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Nasci em 10 de Junho de 1935, em Lisboa.

Pertenci à Mocidade Portuguesa, ingressei nesta organização de juventude quando era aluno do Colégio Moderno. Ingressei na Legião Portuguesa quando frequentava o Instituto de Estudos Ultramarinos. Tive que interromper os estudos para prestar serviço militar na Índia Portuguesa, em 1959/60.
Pertenci depois à GNR, até 1965, altura em que ingressei na PIDE.
Em 1966, fui para Angola. Em Serpa Pinto, criei os Flechas inspirado nas obras de Jean Larteguy; Spencer Chapman, “The jungle is neutral”; Lawrence da Arábia, “The seven pilars of wisdom”; Mao Tse Tung, “A guerra revolucionária”; Sun Tze, “ A arte da guerra”.
Em 1968, foi-me atribuído o Prémio Governador-Geral de Angola.
Estive em Moçambique em 1971 e 1972. Em 1973, em Carmona.
Quando regressei a Lisboa, em fins de 1973, com o posto de inspector-adjunto, fui colocado na Direcção dos Serviços de Informação, coordenando a informação em Angola e Moçambique.

Aquando do 25 de Abril, fui preso e permaneci detido em Caxias, Peniche e Alcoentre durante dois anos.

Após ter sido libertado, fui para a Rodésia onde trabalhei na formação dos Sealous Scouts, uma versão rodesiana dos Flechas e no CIO (Central Inteligence Organisation).
Em 1977, fui para a África do Sul, onde servi nas forças armadas, força aérea, saindo com o posto de coronel.
Também trabalhei nos Serviços de Inteligência Militar do Exército sul-africano.

Desempenhei funções como chefe de segurança VIP.

Em 1991, regressei a Portugal.
Em 1992, foi-me atribuída uma pensão vitalícia por serviços relevantes prestados à Pátria. Essa pensão foi-me suspensa recentemente.

1.
Em Angola, comecei por chefiar os Serviços Reservados, em Luanda. Era um trabalho no âmbito da segurança interna. Eram coisas do género: se um indivíduo pretendia tirar uma licença de uso e porte de arma, procurava saber-se se tinha antecedentes criminais.
Depois, passei para a secção de contra-espionagem, um serviço que designávamos por GAB. Aí tinha contacto com informadores estrangeiros e com informação realmente secreta. Permaneci no GAB alguns meses.
De seguida, andei por diferentes subdelegações de Angola, sobretudo onde havia problemas. Acabei por ficar com um conhecimento global da Província, desde Cabinda às «terras do fim do mundo», o Cuando-Cubango. Viria a ficar sete anos seguidos no Cuando-Cubango, um sítio admirável, de onde tenho recordações maravilhosas. Chefiei a subdelegação de Serpa Pinto.

2.
Um dia, em Luanda, conheci o administrador Manuel Pontes. Estava quase na reforma. Falamos prolongadamente. Falamos sobretudo de uma região que ele conhecia muito bem: as «terras do fim do mundo», cognome dado ao Sudeste de Angola por Henrique Galvão, no livro «Outras Terras Outras Gentes».
Disse-me uma enorme quantidade de coisas sobre uma minoria étnica, a que nós chamávamos os bosquímanos, que habitava no Cuando-Cubando. Como eu havia frequentado o Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, tinha tido algum conhecimento dessa etnia.
Decidi que iria para esses lugares inóspitos e fascinantes.
O director da PIDE em Angola, Aníbal São José Lopes, concordou e disse-me: «Sim, senhor. Você pega no administrador, damos-lhe uma compensação monetária, e você vai para as terras do fim do mundo fazer uma prospecção sobre o que esses bushmen poderão dar, qual será o rendimento que eles poderão ter em operações de guerrilha.»

3.
E lá fui, com a minha mulher e o administrador Manuel Pontes. Atribuiram-me um velho Land-Rover.
Os bushmen eram indivíduos com uma forma de vida ainda primitiva, faziam ainda o fogo por fricção. Eram muito magros e pequenos, excelentes caçadores.
Na região do Cuando-Cubango, este povo era trocado e vendido como se de gado se tratasse. Muitos eram nómadas e outros escravos dos sobas bantos.
Os bushmen tinham um grande respeito pelo administrador Manuel Pontes e tratavam no por Tata K'Hum, que significa «o pai dos K'Hum», que eram eles. K’Hum é o nome com que os bosquímanos se designam a si próprios. Quando o viam, aproximavam-se. Com a ajuda de intérpretes conseguíamos falar com eles. Eram indivíduos esqueléticos e subalimentados.
Pontes dizia-me: «Se os treinarem, se os alimentarem bem, estes indivíduos podem ser de grande utilidade.» Pela minha parte, e por aquilo
que lera, estava plenamente de acordo. Começámos a dar-lhes treino de tiro, em 1967. Mais tarde, tiveram instrução de Karaté, dada por um mulato nosso amigo que era “cinto preto”. Primeiro, eram apenas oito. Depois eram muitos – a minha infantaria ligeira, ligeiríssima.
No Cuando-Cubango, um território duas vezes e meia maior que Portugal, a PIDE tinha diversos postos chefiados por agentes de 1ª classe, agentes de 2ª classe, chefes de brigada.
Também nos apoiavam nas coutadas de caça. Usávamos os bushmen como pisteiros, no que eram excelentes. Decifravam todos os sinais com uma eficácia extraordinária. Nós aproveitámos essa capacidade singular deles.
Começámos a utilizá-los para obter informação. Conseguiam permanecer no terreno por períodos de tempo incríveis e levando muito poucos meios de sobrevivência com eles. Habituados desde crianças a esgravatar, a viver do nada, tinham uma capacidade nata para se alimentarem, para descobrirem água. Ora, num espaço inóspito como aquele, muito pouco habitado, o menos de Angola, estas capacidades eram de uma utilidade extrema.
No princípio, iam apenas armados de arco e flecha, flechas envenenadas, em que eles eram exímios. Também a sua compleição física não era muito adequada a outro tipo de armas mais modernas. O objectivo era apenas recolher informação mas se a coisa desse para o torto... Quasi nunca traziam ninguém vivo, apenas documentos e armas, por vezes.
Os resultados começaram a ser bastante interessantes. Passámos a poder disponibilizar aos militares uma quantidade e qualidade de informações que lhes permitia operar com maior facilidade e eficácia. Aliás, devo dizer que, na Última Guerra de África, a PIDE funcionou como anjo da guarda das Forças Armadas.
A população era uma espécie de bola de pingue-pongue no meio da guerra. A população que dava apoio aos terroristas era forçada. E maior parte do apoio logístico dos terroristas vinha da Zâmbia.
Os acampamentos terroristas ou ficavam no início do rio ou na confluência de dois rios. E isto era assim porque eles não podiam passar sem água, e também por uma questão de facilidade de referenciação entre eles.
Os bushmen iam lá e, por vezes, eram recebidos a tiro. Então e com apoio das Forças Armadas, começámos a treinar esses bushmen no Cuando-Cubango, no campo de trabalho do Missombo, que tinha sido um campo de recuperação de terroristas, e que nada tinha a ver com a PIDE. O treino consistia fundamentalmente no uso de armas modernas. Conhecimento e táctica do terreno não era preciso – já eram exímios nisso.
Assim se deu início e essa força paramilitar conhecida por Flechas.

Começámos a ter problemas de excesso de voluntários porque muitos queriam pertencer. Como eram escravizados pelos sobas, o tornarem-se soldados fascinava-os. E muitas vezes faziam coisas que não deviam: iam às sanzalas e roubavam galinhas. Evidentemente que quando sabíamos, os castigávamos.
Acabámos por fazer o acampamento do Missombo que tinha na entrada uma frase de Mouzinho de Albuquerque: «Essas poucas páginas brilhantes e consoladoras que há na História de Portugal contemporâneo, escrevemo-las nós, os soldados, lá pelos serões de África com as pontas das baionetas e das lanças...» Também tínhamos também uma frase de um escritor militar chinês, onde se inspirou Mao Tsé-Tung, o Sun Tsu: «(..) Sejam mais rápidos do que o vento e tão misteriosos quanto a mata. Sejam destruidores como o fogo e silenciosos como as montanhas. Sejam impenetráveis como a noite e furiosos como o trovão (...)»
Os Flechas iniciaram-se com bushmen, mas depois começámos a tê-los já de outras etnias. Passou, depois, a pouco e pouco, a haver Flechas em toda a Angola. Quase todas as subdelegações da PIDE em zonas onde havia terrorismo passaram a formar os seus próprios Flechas. Os resultados foram sempre bons.
Fiz diversas operações com os Flechas. Algumas eram feitas com europeus, mas havia outrasem que só iam Flechas, bushmen, porque eram operações de longa duração em que se faziam reconhecimentos, nomadizações que os europeus e os pretos não aguentavam.

Quero também dizer desde já que as nossas Forças Armadas venceram a guerra de guerrilha em Angola. Em 1974 a guerra em Angola estava ganha.
O MPLA sabia-se sem qualquer hipótese de vencer, a UNITA era «nossa».
Também a guerra estava a caminho de se vencer na Guiné. Tenho provas disso.

4.
Quero destacar uma operação que foi feita com um indivíduo que mais tarde foi muito conhecido no Cuando-Cubango, o soba Matias – viria a morrer esfolado vivo após a independência por se recusar a arrear a bandeira portuguesa.
Apareceu-me na subdelegação de Serpa Pinto e que me disse: «Olhe, ispector, eu sei onde há, ali a norte do rio Cuvelai, uns acampamentos da UNITA. Os meninos estão fazer muita chatice, muita confusão. O senhor inspector dá-me uma espingarda que eu vai lá com o meu família...» E lá foi com a malta dele. Trouxe uma data de terroristas. Prendêmo-los e interrogámo-los. Muitos eram terroristas porque não poderiam ter sido outra coisa.
Não tinha problemas em pôr guerrilheiros capturados a colaborar connosco. Levavam uns tabefes, um «calorzinho». A PIDE não era propriamente uma organização de beneficência.
Como o resultado foi bom, propus ao Matias para ir ver se encontrava mais. Ele disse sim. Dei-lhe oito espingardas. O resultado foi tal que aquele homem limpou o terrorismo, a infiltração da UNITA. A norte do Cuando-Cubango, deixou de haver terrorismo da UNITA.
O Matias chefiou uma aldeia com mais de cinco mil pessoas. Todos os dias içava, com honras militares, a bandeira nacional e também o seu pendão, a Cruz de Avis.

5.
Estive em Moçambique em 1971 e 1972. O director
Silva Pais convocou-me e fui levado à presença do Ministro do Ultramar, Silva Cunha. Disseram-me para organizar os Flechas em Moçambique.
Talvez tivesse havido precipitação da nossa parte porque em Moçambique já existiam os Grupos Especiais (GE) e os Grupos Especiais Pára-Quedistas (GEP), que eram muito bons.
Verifiquei, nessa Província não ser premente a necessidade de organizar Flechas.
A minha actividade em Moçambique resumiu-se a detectar a penetração de terroristas da Frelimo feita a partir do Malawi, sobre a linha Beira-Tete, onde iam destruir a linha de caminho-de-ferro. Organizei a informação em Caldas Xavier, com incidência no Malawi, e um sistema de informação no Malawi. Sabíamos quase sempre quando eles punham as bombas no caminho-de-ferro.
Em Lourenço Marques e em Luanda, a PIDE tinha uma colaboração estreita com o Bureau of State Security (BOSS), sul-africano, hoje o National Intelligence Service (NIS). Também tínhamos uma boa colaboração com a South Afican Police (SAP). Interessava, porque a policia sul-africana estava dispersa em vários postos ao longo da fronteira para evitar a penetração da SWAPO, movimento que lutava pela independência da actual Namíbia.
Havia também colaboração com serviços equivalentes da Rodésia.
As Forças Armadas sul-africanas forneciam-nos, por vezes, helicópteros e meios aéreos.E estavam interessadas na UNITA, dado que a UNITA e a SWAPO trabalhavam em conjunto. Nós funcionávamos como uma espécie de tampão à SWAPO, que tinha de atravessar o Cuando-Cubango vinda das suas bases na Zâmbia. Por diversas vezes tivemos contactos com os terroristas namibianos. Numa dessas vezes fui ferido com um estilhaço na mão. Foi uma operação que fizemos em colaboração com os sul-africanos.

6.
No Cuando-Cubango, havia postos da PIDE em Serpa Pinto (sede), em Caiundo, Cuangar, Calai, Dirico, Mucusso, Rivungo, Cuito Cuanavale e Mavinga. Tínhamos a colaboração dos caçadores das três coutadas: Kirongozi, Luengue e Mucusso. Obviamente que estávamos em colaboração total com a tropa que tinha em Serpa Pinto um batalhão, uma companhia comandada pelo Vítor Alves, na N’riquinha, perto da fronteira com a Zâmbia, um pelotão reforçado na Luiana e meia dúzia de elementos em Mavinga.
Os comerciantes, os elementos da PSP, também faziam operações conjuntas com os Flechas. E, quando havia operações militares, os Flechas iam, ou um agente da PIDE com um flecha, que às vezes servia de intérprete.

7.
Estive ainda a chefiar a subdelegação de Carmona, após o que vim para Lisboa integrar a Secção Central dirigida por Álvaro Pereira de Carvalho.

8.
O 25 de Abril foi um golpe com a conivência de Marcelo Caetano.

9.
Penso que Portugal vai desaparecer.

Copyright © 1999 Óscar Aníbal Piçarra de Castro Cardoso

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Núcleo museológico do Alto de São Bento

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 8/25/08
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Núcleo museológico do Alto de São Bento, em Évora

DOIS ANOS DEPOIS DA CONQUISTA DE ÉVORA, em 1165, por Geraldo Geraldes, o Sem Pavor, e do foral que lhe foi dado por D. Afonso Henriques, erguia-se, a 2 km da cidade, no sopé de uma colina, uma pequena ermida dedicada a São Bento, italiano nascido no ano de 480, em Núrsia, fundador do monaquismo ocidental e criador da ordem religiosa que alude ao seu nome - a Ordem Beneditina. Um século mais tarde, sobre esta ermida nascia o convento cisterciense de São Bento de Castris, uma das mais antigas instituições religiosas femininas e, oito séculos depois, no cimo do cabeço, ali ao lado, o Núcleo Museológico do Alto de São Bento.
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Numa tradição vinda dos avós, muitas famílias de Évora comiam o "assado" neste cabeço arborizado e fresco onde, há mais de 3000 anos, existiu um castro da Idade do Ferro. Reminiscência pagã, a anunciar a primavera, esta romaria popular, no dia a seguir ao Domingo de Páscoa, ou seja, na Segunda-feira de Festa, como ainda por lá se diz, não tinha deuses nem santos. Para mim e para os que ali confraternizavam, São Bento era apenas o nome de uma colina de granito com três ou quatro moinhos abandonados e em ruína. Logo pela manhã eram muitos os que partiam rumo a São Bento, uns a pé, outros em carroças carregadas de cestos, garrafões, mantas e cadeirinhas, para ali se instalarem o dia todo, à sombra de uma azinheira ou de um sobreiro. Seguras com pedras, para que o vento as não levantasse, as toalhas brancas eram mostruários das muitas e variadas confecções ao dispor e regalo da família e de um ou outro que passasse e fizesse boca para mais um copo. Mas havia sempre uma iguaria comum a todas, própria desse dia. Era o dito assado, ou seja, a perna de borrego tostadinha, com batatinhas novas e muita cebola, em assadeira de barro queimada do forno de lenha.
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Os meus pais não apreciavam estas festanças de comezainas, com muito pó, muitas moscas e bebedeiras à mistura. Mas eu sempre gostei e muitas foram as vezes em que, adolescente, ali passei esse dia de feriado municipal, saltando de chaparro em chaparro ou, o que é o mesmo, de toalha em toalha, saboreando o que de muito bom por lá havia. Nesses anos não me passava pela cabeça que, meio século mais tarde, assinava, em 1999 e em nome do Museu Nacional de História Natural (MNHN), um protocolo com a Câmara Municipal de Évora, visando a classificação do Alto de São Bento como património natural a defender e valorizar. Era presidente da autarquia o Dr. Abílio Fernandes, um goês que fez história, pelas boas razões, na governação autárquica e que a vivência entre alentejanos fez dele mais um e dos bons.
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No desenvolvimento do projecto educativo levado a efeito pela Divisão de Educação da Câmara Municipal de Évora, "A Escola adopta um Monumento", e na sequência do citado protocolo, a autarquia decidiu criar o "Núcleo Museológico do Alto de São Bento", com particular incidência nos seus aspectos naturais. Em apoio desta vertente, a Câmara mandou restaurar dois velhos moinhos para servirem de centros de actividades experimentais e de documentação, um para a geologia e mineralogia e outro para a florística. Com um monitor e uma educadora, em permanência, todos os dias há ali alunos das escolas do concelho a aprenderem coisas da natureza e a respirarem ar puro. Neste projecto a autarquia contou, ainda, com o apoio do Departamento de Ecologia da Universidade de Évora.
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Em Setembro de 2007 o Núcleo Museológico do Alto de São Bento foi galardoado com o Prémio Nacional de Boas Práticas Locais Para o Desenvolvimento Sustentável, na categoria "Sociocultural", promovido pela Direcção-Geral das Autarquias, em articulação com o Centro de Estudos sobre Cidades e Vilas Sustentáveis e a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.
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Espera-se que, no futuro, o Alto de São Bento fique mais valorizado pelo restauro de um dos moinhos ainda em ruína, restituindo-lhe a capacidade para moer cereal nos moldes que ditaram a sua localização nesta colina. A ruína de um outro moinho será brevemente recuperada para recepção e loja, estando ainda previstos um centro experimental de ciência, uma cafetaria e um pequeno anfiteatro ao ar livre. Os principais pontos de observação do cimo rochoso de colina estão já assinalados com marcas cravadas na rocha com as devidas referências em painéis explicativos ali colocados.

sábado, 23 de agosto de 2008

O “milagre das couves”

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 8/21/08
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Imagem obtida [aqui]
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NO TEMPO EM QUE FUI CRIANÇA E ADOLESCENTE, os castigos corporais, longe de serem considerados crime, como hoje, felizmente, acontece, eram perfeitamente tolerados pela sociedade e até vistos, por muitos cidadãos respeitáveis, como a forma mais eficaz de educação.
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Era o par de açoites à criancinha, por causa da sopa rejeitada ou como castigo pelas mais diversas diabruras. Eram as reguadas e orelhadas, na escola primária, usadas como estímulo pedagógico, e o sonoro estalo na cara, dado pelo reitor do liceu, como o melhor garante da boa disciplina. Era o pontapé no cu do recruta que não conseguia acertar o passo na formatura de espingarda ao ombro. Era a bordoada de criar bicho, no interior da esquadra da polícia ou no posto da GNR, para não falar das sevícias infringidas pela Pide aos comunistas e demais opositores do regime dos Doutores Salazar e Caetano.
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Dos menos aos mais violentos, os castigos corporais estiveram na ordem do dia das nossas vidas. Sopapos, nalgadas, chineladas (dadas com o chinelo), bofetadas, cascudos, torcegões de orelhas e outros mimos do género, convenhamos que suaves, fizeram parte do meu aprender a ser gente. A menina-de-cinco-olhos, o cavalo-marinho e o cinto do pai foram expressões correntes usadas como ameaças nunca cumpridas. Sova, surra, coça e tareia eram vocábulos cedo aprendidos. Felizmente, não senti, na carne, certas modalidades correctivas, cujos nomes, só de os ouvir, desencorajavam muitas das asneiras a que se é tentado nesses anos de preparação para a vida adulta.
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A ameaça do cinto do pai não impediu que o Vasco, um primo por afinidade, na altura um rapaz nos seus treze ou catorze anos, tivesse cometido uma daquelas tolices de bradar aos Céus, como era costume dizer. Logo ali castigado pela mãe com um vigoroso par de tabefes, prometeu-lhe esta que teria de se haver com o pai, quando ele chegasse a casa, à hora do jantar.
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Bem dito, bem feito. Ao fim da tarde, a mãe do Vasco, ainda muito acalorada pelo comportamento do filho, relatou ao marido, na presença do rapaz, a asneira cometida por ele. O semblante do homem ia-se carregando, à medida que ouvia o desenrolar do acontecido, ao mesmo tempo que o do meu primo denunciava a expectativa do correspondente castigo.
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Ouvido o relato, nos seus pormenores, seguiu-se aquilo que o Vasco já conhecia de experiência própria. O desapertar do cinto e o sair deste, lento e ameaçador, das presilhas das calças. O passo seguinte, bem interiorizado por ele, era debruçar-se sobre a mesa e oferecer a retaguarda à acção correctiva que o esperava. Aos primeiros açoites, milagre! Grossas folhas de lombarda começaram a despontar das pernas dos calções do rapaz, acabando por cair no chão.
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Na verdade, não houve aqui nada de equiparável ao que se passou com a nossa Rainha-santa Isabel que, à pergunta intimidatória de D. Diniz, seu esposo, respondeu, graciosa e segura:
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- São rosas, Senhor!
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O que se passou foi que, conhecedor deste tipo de castigo, o Vasco tinha-se prevenido. Assim, nessa tarde fora à horta e enchumaçara o traseiro com as folhas da dita crucífera.


terça-feira, 19 de agosto de 2008

14 de Agosto

14 de Agosto

via sorumbático by noreply@blogger.com (Carlos Medina Ribeiro) on 8/14/08
14 DE AGOSTO, além de ser a data da Batalha de Aljubarrota, foi também o dia em que morreu D. João I, 48 anos mais tarde.
Ora, Júlio Dantas, na «Pátria Portuguesa» (no conto «A Barba de El-Rei», cujo início aqui se mostra) pretendeu levar a coincidência mais longe, dizendo que foi também a data de nascimento do monarca (supostamente em 1356). No entanto, não percebo porque o fez, dado que D. João nasceu, na realidade, em 11 de Abril de 1357.
Eu sei que a que liberdade literária dá para muito. Mas, neste caso, custa a engolir...
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Actualização: fazendo contas, talvez haja uma justificação: é possível que 14 de Agosto de 1356 tenha sido o dia em que Teresa Lourenço anunciou a D. Pedro que estava grávida da criança que havia de nascer 8 meses mais tarde...

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Vida para lá da Terra

Vida para lá da Terra

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 8/14/08
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TÉCNICOS E CIENTISTAS DA NASA e muitos cidadãos deste mundo estão suspensos dos resultados das análises em curso, pela Phoenix, na superfície de Marte. A recente comprovação da existência de água no solo marciano fez renascer o interesse pela procura de indícios de vida presente ou passada, por mais simples que possa ser, através da presença de substâncias associáveis à actividade biológica.
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São muitos os estudiosos ao mais alto grau do saber científico que aceitam a vida como uma consequência inevitável da evolução natural da matéria no Universo. Como se se tratasse de um destino, às partículas subatómicas primordiais seguiram-se os átomos e, só depois, as moléculas, começando pelas mais simples, a que se sucederam, progressivamente, as mais complexas com capacidade de se reproduzirem. Basta que se reúnam as condições necessárias, ela surje. Foi o que aconteceu aqui, no "planeta azul", com o nascimento de seres muito primitivos, à semelhança das arqueobactérias. A evolução que se seguiu, numa interacção permanente e ao longo de 3800 a 4000 milhões de anos, entre as sucessivas formas de vida, o ar, a água e as próprias rochas, conduziu à biodiversidade actual, cujo expoente de maior complexidade é, sem dúvida, o cérebro humano. Para surgir onde isso lhe é permitido, a vida só precisa de esperar que a matéria cumpra o seu "destino", e, nessa espera, a enormidade do tempo consumido tem uma dimensão que ultrapassa a nossa capacidade de o abarcar. Nada nos diz, pois, que não possa haver vida no "planeta vermelho", tão velho como este seu vizinho que é o nosso. E quem diz em Marte, diz em outro qualquer corpo planetário exterior ao Sistema Solar.
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São já muitos os chamados exoplanetas, associados a outras estrelas da Galáxia (Via Láctea), referenciados por diversos astrónomos. Este conhecimento, cientificamente comprovado em relação com estrelas relativamente próximas, permite extrapolar esta certeza à totalidade das estrelas do céu, as que vemos e as que nem os mais potentes telescópios conseguem ver, a milhares de milhões de anos de luz de distância, num número da ordem dos 10^22 (cerca de cem mil milhões de galáxias com cerca de cem mil milhões de estrelas, em média, cada uma)
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Com um número tão descomunal é de admitir razoável probabilidade de existirem estrelas com um sistema planetário no qual um planeta tem com ela a mesma relação de massa e distância que caracteriza a relação da Terra com o Sol. Uma tal relação determinou os níveis de temperatura favoráveis à presença significativa de água no estado líquido, tida por berço da vida que conhecemos.
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Neste enquadramento cósmico, de que ainda não conhecemos o fim, a existência de planetas nos quais se desenvolveram civilizações tanto ou mais avançadas do que a nossa não é, de todo, impossível. As incomensuráveis distâncias (milhares de milhões de anos-luz) que nos separam é o grande factor que impede a confirmação deste raciocínio logicamente correcto.

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«DN» de 13 de Agosto de 2008

O Café Arcada

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 8/18/08
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COM UM VASTÍSSIMO ESPAÇO, aberto sob as arcadas da Praça do Geraldo, o café cujo nome nelas se inspirou, nasceu para o público eborense da classe média, nos anos 40 do século passado. Com linhas muito modernas, um sem número de mesas, muitos criados e música ao vivo nas tardes de Domingo, assegurada por uma pequena orquestra, ao estilo de café-concerto, enchia-se até à porta, onde ficavam muitos dos que esperavam uma possibilidade para entrar. Por oito tostões (0,04 euros), nas ditas tardes de Domingo, mandava vir um "garoto" e, na companhia do meu irmão Mário e de mais três ou quatro amigos, à roda de uma mesa redonda, ouvíamos as músicas mais em voga, jogávamos à batalha naval e conversávamos. Só nessas tardes musicais era aceite, sem reparos, a presença das senhoras e das filhas adolescentes, desde que acompanhadas dos respectivos maridos e pais. No resto do tempo, o "Arcada" era espaço dos homens. De manhã dava assento e convívio a uns tantos reformados e a alguns ociosos com gente a trabalhar por sua conta. Depois do almoço, tomava-se ali a bica na companhia dos amigos, fazendo tempo de voltar ao emprego e, depois do jantar, enchia-se com todos aqueles que quisessem conviver fora de casa, sempre muitos nesse tempo, enquanto as mulheres ficavam a lavar a loiça, a costurar e a cuidar dos filhos.
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Às terças-feiras, o grande café, transformado em bolsa de valores e em câmara de comércio, fervilhava de homens ligados à lavoura. Neste formigueiro de gente, entre produtores, compradores e intermediários, transaccionava-se toda a cortiça de um montado, a azeitona de um olival ou uma vara de porcos, alugava-se uma debulhadora ou uma porção de hectares de terra para fazer uma seara de pão. Também por ali andava um ou outro agiota, cuja presença era providencial no fecho de muitas transacções. Combinavam-se preços, datas e taxas de juros e os negócios eram fechados, sem papéis, com apertos de mão. Na grande maioria, estes homens conviviam bem com o regime político de então mas, entre eles, havia um muito pequeno número de donos de terras, cuja ideologia social e política apontava noutras direcções, e isso fazia com que, também no meio desta pequena multidão, andassem por ali, vendo e ouvindo, alguns informadores da Pide.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

GESSEIRA DE SANTANA

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 8/7/08
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Agregado cristalino de gesso
HÁ CERCA DE 200 MILHÕES DE ANOS, no começo do Jurássico, com os continentes norte-americano e eurasiático ainda não separados pelo Oceano Atlântico, braços de mar pouco profundos, vindos de sul, invadiram partes do que são hoje as nossas margens ocidental e meridional. Nas lagunas aí formadas e sob um clima quente e seco, teve lugar intensa e prolongada evaporação das águas marinhas que aí entravam permanentemente. Essa evaporação, à semelhança das salinas artificiais, deu origem a grandes espessuras de sais com destaque para o gesso e o sal-gema. O gesso é a matéria-prima do pó branco, com o mesmo nome, que todos conhecemos, usado em estuques e moldes diversos; o sal-gema é, praticamente, o mesmo cloreto de sódio do sal de cozinha. A região onde hoje se situa Sesimbra fez parte deste rosário de lagunas e, aqui, as condições ambientais de então foram favoráveis à precipitação de gesso, ao contrário de outras, nas quais predomina o sal-gema, como é, por exemplo, a região de Loulé, no Algarve.
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A gesseira de Santana, desactivada e abandonada desde os anos 60, é uma ocorrência única no concelho de Sesimbra, representativa deste remoto episódio, desenvolvido ao longo de milhões de anos, com interesse não só local como regional e global. Constitui, em nosso entender, um georrecurso cultural, com o valor de um geomonumento, com óptima localização e fácil acesso, que urge preservar, valorizar, fruir e legar aos vindouros. A sua salvaguarda e competente musealização permitirão uma conveniente e resguardada acessibilidade dos cidadãos ao conhecimento da história geológica da região, proporcionando-lhes uma relação mais próxima com o ambiente natural. Por outro lado, a gesseira de Santana representou, num passado recente, uma actividade económica importante para o concelho, em termos de indústria extractiva, devendo também, por via desta memória, merecer a nossa atenção como património cultural dos sesimbrenses.
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A proposta de musealização deste sítio, apresentada por mim, na qualidade de director do Museu Nacional de História Natural, à Câmara de Sesimbra, há quase dez anos (03.11.1998) continua a aguardar uma resposta por parte da autarquia. Extremamente simples, com custos mínimos e uma total disponibilidade por parte do proprietário do terreno, a musealização da gesseira de Santana resume-se à definição de uma pequena área de protecção e à colocação de um painel explicativo. Numa época em que os Parques geológicos e a musealização de geossítios surgem por toda a Europa e em que o geoturismo cresce de ano para ano, não se entende, como este concelho, riquíssimo neste tipo de património natural, continue a ignorar e desperdiçar toda a colaboração que lhe temos vindo a oferecer, graciosamente, acentue-se. Entre a Lagoa de Albufeira e a Serra da Arrábida, duas pérolas paisagísticas, recheadas de ensinamentos sobre a nossa história mais antiga, são muitos os sítios a integrar num itinerário onde o turismo da natureza vai de mãos dadas com o outro turismo – o que procura o património construído, o gastronómico, o etnográfico, o desportivo, ou, simplesmente, a praia.
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Publicado no «DN» de 26 de Julho de 2008

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

As papas da Avó Isabel

via sorumbático by noreply@blogger.com (A. M. Galopim de Carvalho) on 8/4/08
Por A. M. Galopim de Carvalho
A CASA DA MINHA AVÓ, na rua de Frei Brás, em Évora, já não existe. Tenho ideia que era o nº 30. No seu lugar, está lá outra. Eu nasci nessa rua, mas um pouco mais acima, no nº 24. Nessa casa, eu e o meu irmão Mário passámos muito do nosso tempo de crianças. Ali brincámos, aí nos zangámos e voltámos a brincar, vezes sem conta. Ali comemos e dormimos muitos dias e muitas noites, fruindo a doçura e a paciência da mãe da minha mãe, que assim procurava aliviar esta filha da carga dos cinco netos que lhe dera.
Entre as muitas recordações desse tempo, a meados dos anos trinta, do século que acabou de virar, mantenho bem vivas as papas da minha avó Isabel. Feitas com farinha de trigo, que ela própria passava na peneira de seda, de malha mais fina, são um manjar de recordações que se libertam à mistura com os aromas da canela e da casquinha do limão.
Ao aspirar-lhes o perfume, vêm-me à memória o cheiro a barro do ladrilho regado, um expediente contra o calor do Verão, ou o conforto da lareira nos dias de Inverno, onde ela as fazia, numa sertã de asa comprida, sobre uma trempe de ferro aconchegada ao braseiro. Vejo as cortinas das janelas com pavões em croché e duas grandes oleogravuras polícromas, pendendo da parede, uma evocando a implantação da República, outra, a travessia do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Vejo, ainda, o poial dos cântaros e o nicho na parede caiada, que lhe servia de aparador, e onde estava o copo da água sempre coberto por um naperão bordado. Oiço a sua voz doce, o crepitar da lenha e o chiar da água a abrir fervura na cafeteira e, ainda, o outro chiar, quando, misturado e mexido o café, lhe metia dentro a brasinha que lhe baixava a borra.
Tão simples quanto boas, as papas da minha avó não levavam leite. Além da farinha, faziam-se com água, uma colherzinha de banha de porco, "para dar sustento", açúcar e uma casquinha de limão, tudo ao lume, mexendo sempre, no mesmo sentido, com a colher de pau, até engrossarem. Estavam prontas logo que a libertação do vapor, vencendo a viscosidade da mistura, começava a fazer bolhas espessas e sonoras.
- Já estão a dar bufas! – exclamava eu, logo que as via borbulhar, lentas e grossas.
Nessa altura a avó arredava-as do lume e misturava-lhes o açúcar amarelo, que era o que então se usava, tornava a mexer bem e levava-as, de novo, ao borralho, durante mais uns instantes.
- Já estão boas – dizia eu, impaciente.
- Não tenhas pressa que ainda temos de as deixar arrefecer primeiro. Assim quentes, fazem-te mal à barriga – avisava, experiente.
A avó vertia-as, então, em pratinhos rasos, polvilhava-as com mais açúcar e, a seguir, com canela, a fazer enfeites. Depois era esperar um tempo, que sempre me parecia imenso.
NOTA (CMR): esta e outras crónicas do mesmo autor estão no seu blogue Sopas de Pedra.