quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Diário de N. White Castle: Lisboa, 3 de Outubro de 1910

via Estado Sentido de Nuno Castelo-Branco em 05/10/08

Exausto pelo longo jantar e com a mente toldada pelos vinhos e licores que acompanharam e que se seguiram ao repasto, regressei a pé ao Avenida, pois nesta cidade é ainda possível caminharmos distâncias que no mapa parecem grandes, mas que bem vistas as coisas, consistem invariavelmente nuns centos de jardas, ou no máximo, uma milha e meia.

Tive a oportunidade de conhecer alguns dos mais influentes compatriotas estabelecidos neste país, assim como convidados portugueses que esperava muito diferentes daquela gente que conhecera há umas horas no Rossio. Triste ilusão, pois as fatiotas, gravatas e lustrosas cartolas, serviam apenas de disfarce para as mesmíssimas enraizadas certezas no nada. A vacuidade da argumentação era atroz e não consegui vislumbrar o menor indício de um projecto exequível e baseado em factos que lhe dariam viabilidade. Nada, nada, apenas grandes tiradas sobre a liberdade e a igualdade, não se esquecendo o costumeiro progresso social, sempre na boca de gente que tem assalariados a seu cargo, sem nada se preocupar com condições de trabalho ou direitos de quem lhes dá o sustento. Pelo contrário, pareceram-me estranhamente elitistas, pois tentando compreender, à luz da experiência inglesa e alemã, aquilo que se passa no ainda bastante incipiente operariado português, retorquiram-me apontando a ineficiência dos socialistas, que no seu douto parecer ..."andam conluiados com o rei"... sendo aqui substituídos na função de renovação da sociedade, por um partido republicano - o deles - que pretendendo meramente alterar a face do regime, julga poder modificar como num passe de mágica, toda a situação do país. Inacreditável, mas absolutamente verdadeiro. À mesa, o mais tagarela foi um conhecido comerciante proprietário de um grande armazém no Chiado que bramia todo o tipo de impropérios contra o regime que afinal, lhe permitia manifestar-se de forma tão aberta e descuidada. Um outro conviva segredou-me que constava que a dita rubicunda criatura, estivera envolvida na conspiração regicida, pelo que tomei de imediato as minhas distâncias. No entanto, o conviva que mais atenção me despertou, foi um oficial do exército, o coronel Cunha que por várias vezes increpou o exaltado comerciante épicier, no sentido de moderar o tom com que se referia a personalidades públicas da Corte e do parlamento. O que não deixei de estranhar, foi a presença desta gente em ágapes da nossa Legação, sabendo-se que o Reino Unido cultiva as melhores relações com o governo português, além de os soberanos deste país se encontrarem entre os numerosos parentes da casa real britânica. Muito estranho, mesmo muito estranho. porque será?

Questionando o dito coronel Cunha acerca da viabilidade de um golpe subversivo dos republicanos, ele olhou fixamente o seu adversário natural - o comerciante milionário - e afagou a espada, dizendo: "ainda há uns dias estive com S.M. e com o Duque de Wellington no Buçaco, na celebração do primeiro centenário da nossa vitória contra a França de Napoleão. El-Rei D. Manuel é o Chefe do Estado e por inerência, o comandante em chefe das forças armadas. Devemos-lhe a lealdade de camaradas de armas e neste caso, ainda lhe digo mais: devíamos ter tomado rapidamente uma atitude no dia do regicídio, pois o país inteiro conhece quem foram os responsáveis!" Dito isto, apontou com o queixo na direcção do estupefacto negociante que não conseguiu articular qualquer resposta. E continuando, foi dizendo ..."que se tentarem algo, desta vez vão ver como lhes dói, atiramos a matar!"

Julguei o regime perfeitamente seguro, pois este exército tem uma certa experiência de combate. Quem não se recorda das grandes vitórias obtidas ainda há pouco tempo em Angola e Moçambique? Além disso, as celebrações do Centenário das Invasões francesas, consistiram num vibrante testemunho de fidelidade dos militares à Casa de Bragança e ao regime constitucional.

Terminado o jantar e a natural sequência de cigarros, brandy e Porto, manifestei visivelmente o meu cansaço, que plenamente se justificava pela viagem e longa caminhada que já fizera na cidade. Tive a infelicidade de ser forçado a aceitar a carruagem do comerciante que pressurosamente se ofereceu para me conduzir ao Avenida. Pelo caminho, foi incessantemente palrando acerca das virtudes propiciadas pelo regime novo que ardentemente quer ver alvorecer em Portugal. Fala-me da liquidação da Igreja e de uma súbita modernização do tecido produtivo nacional. Segundo o seu infalível ponto de vista, a simples proclamação da república, susceptibilizará uma rápida queda dos preços, a instrução das massas e a consequente industrialização do país que passará a rivalizar com uma Bélica ou uma Suíça. O delírio da propaganda - decerto eficaz no Gelo, mas que em mim, experiente como sou na análise da situação económica e social dos países que visito e onde tenho interesses -, produziu o efeito exactamente contrário. Este homem sonha com uma esquadra de couraçados que esmague a espanhola em poder e número. Julga possível alfabetizar o país inteiro em apenas alguns poucos anos e declara muito senhor de si, que os recursos do Estado - os impostos - têm sido malbaratados pelo actual regime e são suficientes para servir de alavanca ao que ele designou por novo fontismo, isto é, um amplo programa de modernização das estruturas nacionais, desde o ensino, aos transportes e à indústria. Conhecendo a dependência portuguesa relativamente ao exterior, interrogo-me se este homenzinho possui a mais ínfima ideia acerca dos problemas que levantou, pois sendo de difícil resolução em países mais poderosos, aqui, sem o regresso de um longuíssimo período de estabilidade, encontram-se mais longe que qualquer estrela do firmamento apenas vislumbrável por potente telescópio.

Aliviado por me furtar ao diluviano discurso de inanidades e pétreas certezas, recolhi-me ao meu quarto, sem que antes me tivessem avisado na portaria, que ..."qualquer coisa se está a passar". O que será agora? Mediante o pagamento de algumas moedas, fiquei ciente de que o porteiro está a par de tudo aquilo que de estranho se passa nas redondezas e desta forma, não deixará de me fornecer informações.

Após o almoço, soube-se que um médico de loucos, um tal dr. Bombarda fora abatido por um dos seus doentes, mas já corria célere o boato apontando o dedo aos jesuítas que neste preciso momento, parecem ir ocupar o lugar que a sociedade durante séculos reservou aos filhos de Israel. É claro que diante do Gelo já pude verificar a concentração de todos os vadios do costume, em forte gritaria e clamando por sangrenta vingança. A certo momento, um dos mais exaltados berrou que era necessário ir à sede do partido republicano buscar armas e bombas. Não podia acreditar no que escutava. Que país é este onde se permite a transformação de uma sede partidária em arsenal de subversivos? Uma simples rusga policial teria decapitado o dito partido em apenas alguns minutos, pensei eu. Contudo, um numeroso bando lá foi em desalvorada correria em direcção ao Largo de S. Carlos, onde diante da Ópera, se situa a dita sede. Como curiosidade, devo acrescentar que concomitante a este largo, situa-se o próprio Governo Civil de Lisboa, local pejado de policias e funcionários governamentais que pelo que ouço, pretendem ignorar aquilo a que chamam de "picardias". Pretendem isso sim, acalmar os exaltados e segundo as suas preclaras cabeças decidiram, é melhor ignorar as provocações, porque ..."essas coisas morrem por si"...

No meio da grande confusão e desta vez para minha satisfação, voltei a encontrar o comerciante que conhecera na Legação e que parecia estar plenamente ciente de tudo o que se passava. Mais, confessou-me com ar de altiva importância, que os republicanos escutavam todas as conversas telefónicas efectuadas pelo governo e pelo palácio real, pois algumas das telefonistas estavam incumbidas desse serviço de espionagem. Desta forma vim a saber que o chefe do governo contactara telefonicamente a rainha Amélia, ausente em Sintra, inteirando-a do que se passava na capital. O rei recebia o presidente brasileiro num banquete oficial em Belém e pensei que tudo isto não passava de mais um abortado devaneio dos amigos de alguns dos meus convivas de véspera. Esperava ver a todo o momento o exército a ocupar os pontos nevrálgicos da cidade, liquidando quaisquer intentos de desacato da ordem pública. Estranhamente, nada aconteceu. Fiquei também na posse da informação que dava como certo o refúgio dos chefes republicanos nos estabelecimentos de banhos de S. Paulo, ao Cais do Sodré. Toda esta bernarda parecia de antemão comprometida e decerto acabaria em rotundo fiasco. Num súbito impulso, lembrei-me que na véspera o coronel Cunha me oferecera o seu cartão, colocando-se à minha inteira disposição para aquilo que julgasse necessário. Dirigi-me ao local da sua residência, no Príncipe Real, onde me disseram que sua excelência estava de prevenção no quartel. Tranquilizado pelas palavras da esposa do oficial, resolvi retirar-me convencido de que a manhã seguinte traria a esperada novidade do desvanecimento da combatividade revolucionária.

Diário de N. White Castle: 2 de Outubro de 1910: chegada a Lisboa

via Estado Sentido de Nuno Castelo-Branco em 05/10/08

Após uma breve viagem marítima sem história, cheguei esta manhã à capital portuguesa. Habituado à exiguidade territorial que os mapas mostram, jamais pensei encontrar uma cidade como Lisboa, mas sim um pequeno porto semelhante a tantos outros que já vira nas minhas meridionais deambulações em toda a bacia do Mediterrâneo. Esta cidade é diferente, beneficiando de uma entrada natural que só pode ser comparada ao Corno de Ouro da capital dos sultões. Tal como Constantinopla, Lisboa vista do mar parece incandescente, pois não podemos considerar a longa desembocadura do Tejo como um rio, dada a imensidão do potencial porto interior. A montante, deparamos com um espantoso mar interior a que deram o nome de Mar de Palha e que reflecte a luz solar com uma inaudita intensidade, surgindo a capital como uma miragem, onde a indefinição das formas lhe confere uma grandiosidade insuspeitada. Este imenso porto de refúgio, é uma das mais privilegiadas posições estratégicas do mundo, pois por esta costa passa todo o comércio que liga as metrópoles europeias ao Novo Mundo e às colónias em África e na Ásia. Conhecendo bem a nossa longa convivência com este país, compreende-se facilmente o vital interesse que representa para a Royal Navy, a manutenção desta maravilha natural em mãos amigas.

Desde a entrada daquilo a que os portugueses chamam a Barra, desfrutamos do privilégio de uma vista única da margem norte, pontilhada por casario ainda relativamente disperso e que num futuro que julgo não muito distante, acabará por unir a vila de Cascais à propria capital. Notam-se claros indícios do progresso material deste século, uma vez que tal como em qualquer uma das nossas cidades ribeirinhas, vislumbro muitas chaminés fumegantes, este mal necessário que a industrialização nos faz pagar para podermos auferir das apregoadas comodidades já indispensáveis. Infelizmente, neste caso parece não ter existido uma verdadeira preocupação em criar uma zona industrial, pois é notória a existência de fábricas espalhadas um pouco por toda a parte, mesmo aquela - que me disseram ser a do gás - construída mesmo diante de um dos principais monumentos do país, a Torre de Belém. O comandante disse-me que consta que a rainha Amélia muito tem admoestado consecutivos governos, no sentido de ser desmantelada a dita fábrica, colocando-a noutro lado. A inércia e a falta de coragem para enfrentar os interesses económicos, vão mantendo a situação num impasse que visivelmente tem consequências desastrosas para a integridade desta construção com quatrocentos anos.

Após deixar a minha bagagem no Hotel Avenida, decidi apresentar-me na nossa Legação, situada na parte alta, num bairro bastante burguês denominado a Lapa. Pouco interessado nas ociosas tertúlias próprias do corpo diplomático, fui contudo praticamente coagido a voltar ao palacete nesta mesma noite. Realizar-se-á um jantar com alguns dos mais destacados homens de negócios ingleses estabelecidos em Portugal. Deixaram-me claro que o meu conhecimento da língua, será preciosa ajuda para o estabelecimento de conversas com algum interesse para a avaliação da situação política neste país. Não deixarão de estar presentes alguns portugueses, na sua maioria comerciantes, mas disseram-me que as expectativas vão todas no sentido de auscultar a opinião de alguns oficiais do exército. Vamos ver, todo este cheiro a pólvora e a conspiração começa a despertar a minha curiosidade.

A Baixa é talvez a zona mais animada, aí se situando o melhor comércio, bancos, casas de seguros e empresas de navegação. É espantosa a multidão nas ruas, pois dir-se-ia estarmos não num dia normal de trabalho, mas no reboliço próprio de festas populares. Bandos de ociosos à porta de cafés e de casas que vendem vinho e carvão, parecem discutir animadamente a razão das suas vidas, ou talvez apenas, a derradeira intriga ou boato que aqui alastra como fogo em palha seca. Já quando estivera em Goa, tivera a oportunidade de me inteirar da apetência que uma certa camada urbana tinha por historietas mirabolantes, geralmente desprovidas de qualquer veracidade, mas capazes de alimentar todo o tipo de sentimentos, desde o ódio mais feroz e irracional, até à compaixão que implica a lógica beatitude da criatura alvo da conversa. E o mais interessante, consiste no curioso facto de um beneficiado pelas palavras de louvor, ser no próprio dia e devido a um outro boato, passar a ser arrastado até às portas do inferno, onde claro está, existem sempre uns pobres diabos capazes de unicamente se exprimir no calão mais grosseiro de que esta rica língua é capaz.

Muito a propósito, decidi entrar num café situado na Praça D. Pedro IV, local que como muitos outros possui duas denominações. Oficialmente, tem o nome do monarca luso-brasileiro, mas para o comum dos mortais, sempre foi e será o Rossio. Este café, o Gelo, é um local já meu conhecido apenas pelo nome, pois já há muito sabia que nas suas salas se tinham reunido os conspiradores republicanos que assassinaram o rei Carlos e o príncipe Luís Filipe. Discutia--se a alta voz e qualquer um podia escutar planos conspirativos, atoardas e o constante e impiedoso martelar de reputações. Dir-se-ia ser Portugal uma terra de milionários, pois os cafés encontram-se a abarrotar a qualquer hora do dia e fiquei a pensar com os meus botões, do que viverá toda esta gente que passa os seus dias dinte de copos e garrafas.? A cidade encontra-se razoavelmente limpa, nota-se uma certa prosperidade e os armazéns da zona do Chiado estão muito bem fornecidos de todas as novidades parisienses que parecem ser da preferência dos portugueses da capital. Tal como em Londres, Viena ou Paris, as equipagens rivalizam no luxo das carruagens abertas e as senhoras burguesas, geralmente acompanhadas por uma filha ou pela empregada, fazem a rotina diária das lojas, comprando mais um par de luvas ou um extravagante e emplumado chapéu para um hipotético grande dia de festa. Casas de chá mobiladas com esmero e nas quais podemos degustar deliciosas especialidades locais, oferecem o espectáculo da passagem de la mode parisiènne, tal como se verifica em qualquer outra cidade europeia. Lisboa possui várias estações de caminhos de ferro, de onde partem comboios para todas as regiões do país, existindo uma muito razoável cobertura da rede ferroviária que é moderna e segundo dizem, eficiente. O porto está praticamente sempre lotado de navios que dos confins do planeta, trazem das colónias os produtos destinados ao consumo interno e à exportação, adivinhando-se facilmente - se as condições políticas assim o permitirem - um futuro de progresso material que não deixará de beneficiar amplas camadas da população. O país é territorialmente pequeno, mas espantosamente, possui o terceiro maior Império colonial, exercendo a sua soberania sobre possessões banhadas por três oceanos e continentes. É certo que o facto de pertencer à sempre iinconvenientemente considerada esfera de influência britânica, permite-lhe o luxo de exercer o domínio sobre territórios infinitamente mais valiosos que aqueles onde flutuam as bandeiras da Alemanha ou da Itália, por exemplo.

No café Gelo, discutiam-se animadamente as últimas novidade relativas ao mundo da política local e as responsabilidades sobre imaginárias desgraças recaíam alternada mas invariavelmente nas pessoas do rei Carlos ou Manuel, na rainha Amélia e claro está, nos padres, capazes segundo esta gente, de todos os crimes que a mente mais retorcida pode imaginar. Seguros de ver em mim um estrangeiro disposto a escutá-los e que ainda por cima fala português, procuraram convencer-me acerca da justeza das suas ideias e projectos inconsistentes e recorrendo ao habitual argumento do Ultimatum, julgaram-me facilmente coagido pela timidez. Retorqui secamente que humilhação muito maior infligiramos à França em Fachoda, sem que por isso se pensasse seriamente derrubar o regime vigente no país. Mais acrescentei, que isso provava a consistência de uma opinião pública que sabia distinguir o essencial daquilo que é perfeitamente negligenciável. Logo decorridos alguns minutos, pareceu-me que esta gente vive obcecada com sonhos de grandeza e com dogmas redentores de uma situação que afinal só se resolverá com persistência no trabalho, paz política e respeito pela hierarquia, coisa impossível de imaginar nestes efervescentemente ligeiros espíritos. Poderia executar rapidamente um xeque-mate aos malcriados palradores, questionando-lhes acerca daquilo que consideram ser uma república, que tal como a Inglaterra, Portugal é e sempre foi. Creio que para os meus interlocutores, consiste num mero sucedâneos dos santinhos milagreiros que devotadamente adoravam na sua infância, esperando curas, alimentação farta e se possível, um bilhete premiado na lotaria. No fundo, para esta gente, a república é apenas um milagre, talvez tirado das profundezas de uma fé aparentemente renegada. Rapidamente cansado da colossal ignorância orgulhosamente assumida pelos revolucionários profissionais, decidi não perder mais tempo, pelo que polidamenteme despedi, manifestando o interesse em ver o couraçado brasileiro S. Paulo que transporta o presidente Hermes da Fonseca que está de visita a este país. Maravilha técnica do engenho britânico, este navio e o seu irmão gémeo Minas Gerais, são decididamente peças essenciais na manutenção do status quo na sempre instável região do cone sul americano.

Descendo a Rua do Ouro - a oficialmente denominada Rua Áurea -, cheguei ao preciso local onde caíram varados pelas balas assassinas o rei Carlos e o seu herdeiro. As fachadas poente da magnífica Praça do Comércio - o Terreiro do Paço dos lisboetas -, ostentam as indeléveis marcas da chacina, pois a cantaria foi fortemente atingida durante o tiroteio daquela tarde de inverno. Bordejada por árvores que oferecem protecção ao inclemente sol omnipresente durante mais de metade do ano, esta praça possui uma magnífica estátua ao rei José I e evidentemente, no seu pedestal podemos olhar para o rosto severo e decidido do marquês de Pombal, o hábil ministro que conduziu os trabalhos de reconstrução da cidade destruída pelo cataclismo de 1755. O comércio que aqui se pratica é bastante diferente daquele que vimos na Baixa, pois no Terreiro encontramos vendedores ambulantes e gente que vem dos arrabaldes da cidade para vender os seus produtos hortícolas e animais de capoeira. Os preços são razoáveis para a nossa bolsa, mas continuo a interrogar-me acerca da inextricável capacidade de tantos portugueses em permanecerem vivos e de boa saúde, dada a bem visível inércia e fare niente que salta aos olhos em praticamente todas as ruas da capital.

É uma interrogação que não deixarei de colocar esta noite aos meus convivas na embaixada.

25 de Abril - Amnésia ou mentira?

via Entre as brumas da memória de Joana Lopes em 18/11/08
«Se quisermos falar em termos psicanalíticos, amnésia e mentira são, aliás, a forma mais corrente e confortável de o regime democrático lidar com esse trauma ainda por resolver que é o 25 de Abril. Mesmo que o comemore, ou justamente porque o comemora, para mais facilmente o esquecer.»

De um texto de M. Manuela Cruzeiro.

The Portuguese Discoverers (XVIII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 19/11/08

The Portuguese armada stormed the fortress at Ceuta on August 24, 1415, in a onde-sided battle. Well armed and armored, and supported by a contingent of English archers, they overwhelmed the Muslims, who were reduced to hurling rocks. Within a day the Portuguese crusaders had taken the Infidel stronghold and provided Prince Henry his moment of glory. Only eight Portuguese had been killed, while the city streets were piled with Muslim bodies. By afternoon the army had begun sacking the city, and the spiritual rewards of killing infidels were supplemented by more worldly treasure. This occasion gave Prince Henry his first dazzling glimpse of the wealth that lay hidden in Africa. For the loot in Ceuta was the freight delivered by the caravans that had been arriving there from Saharan Africa in the south and from the Indies in the east. In addition to the prosaic essentials of life – wheat, rice, and the salt – the Portuguese found exotic stores of pepper, cinnamon, cloves, ginger, and other spices. Ceutan houses were hung with rich tapestries and carpeted with Oriental rugs. All in addition to the usual booty of gold and silver and jewels. […].

"The Portuguese Discoverers", from "The Discoverers", Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Daniel J. Boorstin - antigo director da Biblioteca do Congresso

The Portuguese Discoverers (XVII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 18/11/08

Prince Henry, still only nineteen, was assigned the task of building a fleet up north in Oporto. After two years' preparation, the Crusade against Ceuta was launched in an aura of miracles and omens. A monk near Oporto had a vision of the Virgin Mary handing a glittering sword to King John. There was an eclipse of the sun. Then Queen Philippa, after a long and ill-advised religious fast, fell mortally ill. Summoning the King and her three eldest sons, she gave each a fragment of the True Cross to wear in holy battle. To each prince she also gave a knightly sword, and with her expiring breath she blessed the expedition against Ceuta. A papal bull, solicited for the occasion, offered all the spiritual benefits of a Crusade to those who died in this effort.

"The Portuguese Discoverers", from "The Discoverers", Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Daniel J. Boorstin - antigo director da Biblioteca do Congresso

PARA OBAMA LER E MEDITAR - O AFEGANISTÃO DE ONTEM...

PARA OBAMA LER E MEDITAR - O AFEGANISTÃO DE ONTEM...

via O FUTURO PRESENTE de noreply@blogger.com (jaime nogueira pinto) em 16/11/08
AFEGANISTÃO

Os Ingleses estão experimentando, no seu atribulado império da Índia, a verdade desse humorístico lugar-comum do século XVIII: «A história é uma velhota que se repete sem cessar.» O fado ou a Providência, ou a entidade qualquer que lá de cima dirige os episódios da campanha do Afeganistão, em 1847, está fazendo simplesmente uma cópia servil, revelando assim uma imaginação exausta.Em 1847, os Ingleses – «por uma razão de estado, uma necessidade de fronteiras científicas, a segurança do império, uma barreira ao domínio russo da Ásia...» e outras coisas vagas que os políticos da Índia rosnam sombriamente retorcendo os bigodes – invadem o Afeganistão, e aí vão aniquilando tribos seculares, desmantelando vilas, assolando searas e vinhas: apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem do serralho um velho emir apavorado; colocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes; e logo que os correspondentes dos jornais têm telegrafado a vitória, o exército, acampado à beira dos arroios e nos vergéis de Cabul, desaperta o correame e fuma o cachimbo da paz... Assim é exactamente em 1880. No nosso tempo, precisamente em 1847, chefes enérgicos, messias indígenas, vão percorrendo o território, e com grandes nomes de pátria, de religião, pregam a guerra santa: as tribos reúnem-se, as famílias feudais correm com os seus troços de cavalaria, príncipes rivais juntam-se no ódio hereditário contra o estrangeiro, o homem vermelho, e em pouco tempo é todo um rebrilhar de fogos de acampamento nos altos das serranias, dominando os desfiladeiros que são o caminho, a entrada da Índia... E quando por ali aparecer, enfim, o grosso do exército inglês, à volta de Cabul, atravancado de artilharia, escoando-se espessamente por entre as gargantas das serras, no leito seco das torrentes, com as suas longas caravanas de camelos, aquela massa bárbara rola-lhe em cima e aniquila-o. Foi assim em 1847, é assim em 1880. Então os restos debandados do exército refugiam-se em alguma das cidades da fronteira, que ora é Gasnat ora Candaar: os Afegãs, correm, põem o cerco, cerco lento, cerco de vagares orientais: o general sitiado, que nessas guerras asiáticas pode sempre comunicar, telegrafa para o vice-rei da Índia, reclamando com furor «reforços e chá e açúcar!» (Isto é textual; foi o general Roberts que soltou há dias este grito de gulodice britânica; o Inglês, sem chá, bate-se frouxamente.) Então o governo da Índia, gastando milhões de libras como quem gasta água, manda a toda a pressa fardos disformes de chá reparador, brancas colinas de açúcar e dez ou quinze mil homens. De Inglaterra partem esses negros e monstruosos transportes de guerra, arcas de Noé a vapor, levando acampamentos, rebanhos de cavalos, parques de artilharia, toda uma invasão temerosa... Foi assim em 47, assim é em 1880.

EÇA DE QUEIRÓS, "Cartas de Inglaterra"

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

The Portuguese Discoverers (XVI)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 17/11/08

To celebrate his formal treaty of friendship with Castile in 1411, King John followed the chivalric custom of the age by planning a tournament, to last a full year. Knights were to be invited from all over Europe, and the jousts would give the King's three eldest sons who had just reached manhood the opportunity to earn their knighthoods by public acts of chivalry. But the three princes, reinforced by the King's treasurer, dissuaded King John from this expensive panoply. They urged him instead to offer them opportunity for deeds of Christian valor by launching a Crusade against Ceuta, a Muslim stronghold and trading center of the African side opposite Gibraltar. There, too, the King could atone for the Christian bloodshed in his earlier campaigns by "washing his hands in the blood of the infidel." Young Prince Henry helped Plan this expedition, which, in a number of unexpected ways, was to shape his life.

"The Portuguese Discoverers", from "The Discoverers", Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Daniel J. Boorstin - antigo director da Biblioteca do Congresso

domingo, 16 de novembro de 2008

Um texto de Mia Couto sobre Obama

Um texto de Mia Couto sobre Obama

via Entre as brumas da memória de Joana Lopes em 15/11/08
E se Obama fosse africano? (*)

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.