sexta-feira, 21 de novembro de 2008

The Portuguese Discoverers (XX)

The Portuguese Discoverers (XX)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 20/11/08

But still the crusader, he organized a Portuguese fleet and declared his intention to capture Gibraltar from the infidels. When King John forbade that expedition after it was already underway, Prince Henry returned home sulking. Instead of joining the court in Lisbon where he would have shared the burdens of royal government, he went far southward through the Algarve to Portugal's Land's End, Cape Saint Vincent, the southwestern tip of Europe.

Ancient geographers had given a mystic significance to that extremity of land, the borderland of the watery unknown. "Sacred Promontory" (Promentorium Sacrum) was what Marinus and Ptolemy had christened it. The Portuguese, translating this into Sagres, made it the name of the nearby village.

"The Portuguese Discoverers", from "The Discoverers", Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Daniel J. Boorstin - antigo director da Biblioteca do Congresso

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

The Portuguese Discoverers (XIX)

The Portuguese Discoverers (XIX)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 20/11/08

Prince Henry gathered information about the interior lands from which the treasures of Ceuta had come. He heard tales of a curious trade, "the silent trade", designed for peoples who did not know each other's language. The Muslim caravans that went southward from Morocco across the Atlas Mountains arrived after twenty days at the shores of the Senegal River. There the Moroccan traders laid out separate piles of salt, of beads from Ceutan coral, and cheap manufactured goods. Then they retreated out of sight. The local tribesmen, who lived in the strip mines where they dug their gold, came to the shore and put a heap of gold beside each pile of Moroccan goods. Then they, in turn, went out of view, leaving the Moroccan traders either to take the gold offered for a particular pile or to reduce the pile of their merchandise to suit the offered price in gold. Once again the Moroccan traders withdrew, and the process went on. By this system of commercial etiquette the Moroccans collected their gold. Tales of the bizarre process fired Prince Henry's hopes.

"The Portuguese Discoverers", from "The Discoverers", Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Daniel J. Boorstin - antigo director da Biblioteca do Congresso

(título desconhecido)

via Estado Novo de Abrantes em 13/11/08

PONTE 25 DE ABRIL OU PONTE SALAZAR ?
Leiam e meditem sobre o que o próprio Salazar, na época, pensava sobre o assunto


Já tenho lido algures que existe um número de pessoas a tentar criar uma espécie de petição para que a actual Ponte 25 de Abril volte a chamar-se ponte Salazar.
Não querendo ser "desmancha prazeres", até porque não concordo com a acção nem discordo, apresento aqui o que Salazar pensava sobre o assunto:

O texto é retirado de uma das obras de Franco Nogueira (Expressões de Salazar de Fevereiro a Agosto de 1966)

Na época o estadista disse:

O "essencial, em todo o caso é ter pronta a Ponte".
E o nome?
"Vi num estudo que a Ponte tinha o meu nome. E, isso, não poderá ser, como expliquei ao senhor ministro das Finanças.
Se não há melhor, podemos chamar-lhe Ponte de Lisboa."
A titulo privado, acompanhado por Arantes de Oliveira, Salazar faz uma visita prévia à Ponte. Vê o seu nome escrito em letras de bronze e pergunta: " As letras estão fundidas no bronze ou simplesmente aparafusadas ?". Porque ? " É que se estão fundidas no bloco de bronze vão dar depois muito trabalha a arrancar…"

Afinal, pela própria declaração do Chefe de Estado e nas lápides dos padrões, sempre a Ponte ficou a designada por Ponte Salazar.
"Teimosia do Presidente e do Ministro" , comenta Salazar, "mas é um erro" e explica:
" Acreditem: os nomes de políticos só devem ser dados a monumentos e obras públicas cem ou duzentos anos depois da sua morte. Salvo casos de Chefes de Estado, sobretudo se estes forem reis, porque então se consagra um símbolo da Nação. Mas se se trata de figuras politicas, como é o meu caso, então há que esperar, há que deixar sedimentar, e se ao fim de duzentos anos ainda houver na memória dos homens algum traço do seu nome ou da sua obra, estão até é justo que se lhe preste tal homenagem."
Depois, Salazar aponta o indicador num gesto de quem avisa. "… O meu nome ainda há-de ser retirado da ponte e por causa do que agora se fez, os senhores vão ter problemas". Repete: "os senhores vão ter problemas".

Bem! Isto só de um visionário como foi o Professor Doutor António de Oliveira Salazar.
A simplicidade de um homem na grandeza da obra.
Manuel Abrantes

pimenta na língua

pimenta na língua

via portugal contemporâneo de noreply@blogger.com (Pedro Arroja) em 19/11/08

A censura sempre existiu em Portugal, com excepção de breves períodos que normalmente foram maus para a sociedade portuguesa. Foi o Marquês de Pombal que criou a censura na sua versão moderna e laica, substituindo a Inquisição.

O Estado Novo restaurou a censura depois da desordem cívica e política da I República. Tem-se afirmado que a censura institucional, tal como praticada no regime de Salazar, era dirigida especialmente contra o comunismo. Trata-se apenas de meia verdade. Primeiro, porque a censura estava dirigida a todas as expressões do pensamento político que, na opinião dos governantes, atentassem contra a coesão da sociedade portuguesa, e não exclusivamente contra o comunismo.

Segunda, porque a censura tinha como um dos seus objectivos prioritários, senão mesmo o principal, defender os portugueses contra as agressões praticadas sobre eles pelos próprios portugueses. Salazar tinha vivido o período de "liberdade de expressão" da I República e tinha-se apercebido que, na nossa cultura, a "liberdade de expressão" resultava invariavelmente na opressão da expressão: as pessoas acabavam por se coibir de exprimir em público as suas ideias para evitar os insultos, as calúnias, os boatos e as difamações que são uma marca distintiva e permanente da nossa vida pública sob o regime de "liberdade de expressão". Trata-se de uma versão da chamada Lei de Gresham ("a moeda má expulsa a moeda boa").

Salazar não tinha ilusões a este respeito:

"...Temos agora o aspecto moralizador da censura, a sua intervenção necessária nos ataques pessoais e nos desmandos da linguagem. A nossa Imprensa, que tem melhorado consideravelmente, oferecia-nos, por vezes, nalguns dos seus órgãos, a triste imagem de um saguão: intrigas, insultos, insinuações, pessoalismos, provicianismos, baixa intelectualidade..." (1)

Noutra altura,

"Falando do caso concreto da imprensa portuguesa, acha que o nível desta se não elevou [com a censura] e que não ganhou em correcção e compostura? O que perdeu a essa Imprensa [a da I República]? Os insultos e as baixas expressões? Mas vale a pena verter lágrimas sobre tal prejuízo?". (2)

Na opinião de Salazar - a minha é hoje idêntica - os portugueses tendiam por norma a ser malcriados e soezes uns com os outros em público. A censura visava conter-lhes a má-criação e, em última instância, pôr-lhes pimenta na língua, que é aquilo que ainda hoje muitos portugueses precisam.

(1) António Ferro, Entrevistas a Salazar, Lisboa: Parceria A.M. Pereira, 2007, p. 33.
(2) ibid., p. 159

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Os Diários de N. White-Castle

via Estado Sentido de Samuel de Paiva Pires em 06/10/08

Perdoe-me o Nuno pela ousadia mas a sua modéstia não lhe permite o que a minha admiração e amizade permite naturalmente, ou seja, deixar aqui aos caros amigos bloggers e leitores os links para os 5 posts da série Diários de N. White-Castle que, digo eu, se fossem alargados a um livro em jeito de romance histórico como anda tão em voga, esse constituíria sem dúvida um sucesso de vendas.

Diários de N. White Castle:

2 de Outubro

3 de Outubro

4 de Outubro

5 de Outubro

6 de Outubro

Diário de N. White Castle: 6 de Outubro de 1910, adeus Lisboa

via Estado Sentido de Nuno Castelo-Branco em 07/10/08


Os acontecimentos dos últimos dias forçaram-me a tomar a drástica decisão de anular os restantes compromissos aprazados muito antes do início desta viagem. Era suposto visitar o Porto e as suas adegas, assim como Leixões e uma parte do Minho, onde tenho alguns amigos. Desisto. Tudo o que vi nestas últimas horas é damasiadamente angustiante e digo-o sem pestanejar, fez com que perdesse o respeito por este velho e fiel aliado que tantos serviços prestou à nossa pátria, sem que muitas vezes nós, ingleses, o reconhecêssemos. Agora é tarde, não ajudámos a quem muito devíamos e que neste momento de desgraça, ruma em direcção a Inglaterra, onde esperam encontrar abrigo. Estou certo de que saberemos acolhê-los com a merecida dignidade e que por fim estejam a salvo destes energúmenos que agora em Portugal ditam a sua lei.

Um pouco por todo o lado surgem grupos perfeitamente identificados com o prp e as suas ramificações carbonárias - ou será exactamente o inverso? - que procedem a depredações e violências de todo o tipo, encarniçando-se especialmente contra os edifícios religiosos e a propriedade de alguns destacados responsáveis do regime deposto. Os padres continuam a ser humilhantemente despidos das suas vestes em plena rua, são tosquiados como se fossem gado e sovados a murro, estalo ou bastonada, sob o olhar indiferente de uma Guarda Municipal ainda ontem derrotada. Ardem conventos e claro está, os senhores do momento aproveitam para fazer mão baixa nos valiosos bens que encontram portas adentro. Missais preciosos, iluminuras, inconábulos, tudo é roubado ou destruído. Na calçada estão já em cinzas, telas de mestres portugueses dos séculos XV ao XVIII e figuras religiosas de santos em talha são despedaçadas sem olhar pelo menos, ao seu valor patrimonial. Outra nota absolutamente iníqua e revoltante, é o facto do surgimento de bandos armados que confiscam as bandeiras nacionais, que após ardem em crepitosos autos-da-fé nos Restauradores e Rossio e tudo isto sem que o pusilânime exército tome uma atitude. É a selvajaria mais infrene que campeia em toda a sua violência primitiva, no meio de dichotes e cantorias com as estrofes mais reles que se possa imaginar. As freiras são tratadas como se prostitutas fossem e são despojadas dos seus bens, postas na rua sem apelo. É este o novo Portugal. Um pouco por todo o lado, meliantes armados de martelos, destroem as coroas que encimavam os escudos nacionais dos edifícios públicos e isto, segundo alguns decentes transeuntes me disseram, para o costumeiro fingimento de obra feita. Assim, dentro de algumas décadas, um povo estupidificado por uma pretensiosa elite de escroques, pensará que tudo aquilo que existe, tem a autoria dos santarrões adoradores da estrangeira Marianne. Simultaneamente, grupos de caceteiros invadem as residências de conhecidas figuras da sociedade lisboeta, forçando os atemorizados proprietários a tapar com panos negros, os brasões que durante séculos adornaram as fachadas. Parece aos olhos do mundo, que o país morreu ou está de luto e sem disso ter a consciência, são os próprios cangalheiros que fazem a festa e se ufanam com o funeral das suas próprias vidas de homens livres. Vou partir, nada mais tenho para fazer aqui, num país que se rebaixou à condição de tugúrio mal frequentado. Até os cabecilhas do novo regime já assumiram sem pejo a sua herança de mau agouro, pois organizam-se procissões comandadas pelo directório republicano, que ao cemitério do Alto de S. João, situado nos arrabaldes da cidade, vão prestar homenagem aos regicidas de 1908. E nem é preciso procurar muito para encontrar a perfeita sintonia que impera naquelas hostes, uma vez que os retratos dos assassinos surgem nas pagelas profusamente distribuídas pelo partido, ao lado dos mais conhecidos dirigentes, como o Costa, o Almeidaou o Bernardino. Estranhamente, fazem-me de imediato recordar uma certa espécie de gente que tive a ingrata oportunidade de observar na Sicília, quando da minha visita aos monumentos mais importantes da antiga Magna Graecia. O mesmo olhar turvo e reservado, semblante raivoso e arrogante aspereza nas atitudes. São estes os grandes homens que querem governar o país e para confirmá-lo, já fizeram içar por todo o lado o miserável trapo do partido que pretendem ver consagrado como nova bandeira nacional. Chegarão a tanto?

A caminho do cais, continuam as mesmas cenas acima descritas e pasme-se, uma reedição tardia do Carnaval, desta vez em Outubro. Surgem por todo o lado crianças com aspecto de sopeirinhas vestidas de ... república! Incrível mas absolutamente verdadeiro, mais parecendo viciosos duendes mascarados de carrascos de boné vermelho, tal o grotesco das figuras. Tudo isto é bastante ordinário e descoroçoante e passa-se já em pleno século XX.! Atrasados, atrasados, o rei Carlos tinha razão quando afirmava que há males que de longe vêm.

Agora, uma das primeiras atitudes das autoridades é rastejar perante o nosso país, de quem tripudiaram durante décadas. Suprema hipocrisia, protestam a sua fidelidade aos ingleses, fazem por esquecer quarenta anos de agravos e de suicida loucura que nos obrigou a um indesejado Ultimatum. Suspeito que cairão em todo o tipo de torpezas para conseguir o reconhecimento internacional que ninguém no seu perfeito juízo parece, por agora, disposto a conceder-lhes, tal a má reputação desta autêntica cambada de néscios.

Tendo finalmente embarcado para Portsmouth, fico a pensar como será este país dentro, digamos, de cem anos? Terá conseguido esquecer toda esta violência, desperdício de energia e falta de respeito por si próprio e por uma história sem igual? Terá concedido de forma pacífica e ordeira a independência ao seu imenso império colonial que logicamente um dia se emancipará tal como a monarquia o soube fazer relativamente ao Brasil? Terá finalmente atingido o nível de desenvolvimento dos seus parceiros europeus de quem lenta mas inexoravelmente se ia aproximando? Consolidará uma democracia, ou passará por uma ininterrupta e mortífera série de revoluções, golpes de Estado, assassinatos de homens públicos, ruína financeira, corrupção e generalizada miséria? Não acabará tudo isto pela instauração de uma ditadura que se eternizará no tempo e nos espíritos?

Já a caminho da barra, olhei em direcção à popa e pela última vez vi Lisboa. Pareceu-me estranha. Já não era a mesma cidade refulgente de luz branca que tinha encontrado há apenas alguns dias. O sol poente tingia-a de uma luz avermelhada, como se um imenso incêndio a abrasasse.

Diário de N. White Castle: Lisboa, 4 de Outubro de 1910

via Estado Sentido de Nuno Castelo-Branco em 05/10/08

Durante a madrugada de hoje, não consegui adormecer devido ao tiroteio perfeitamente audível na Baixa. Subitamente, o pessoal do hotel decidiu fechar as portadas, evitando tiros perdidos. Sentimos o passo apressado dos militares da Guarda Municipal que ocupavam posições na Praça dos Restauradores, enquanto corriam boatos contraditórios acerca da adesão ou passividade dos regimentos aquartelados na capital. Tínhamos a perfeita consciência de que por muitas bombas artesanais que pudessem arremessar, os chamados anarquistas e carbonários - eufemismo pelos quais os republicanos se faziam tratar -, jamais poderiam conseguir qualquer resultado positivo face ás tropas de linha, bem armadas, organizadas e municiadas. O factor vital consistia na capacidade de decisão dos comandantes e pelo que ouvira da boca do coronel Cunha, a obediência à hierarquia era um facto. Desta forma, continuei seguro de uma rápida extinção do movimento subversivo que politicamente, teria de ter consequências na ordem interna. Julgava muito candidamente, ter agora o governo a oportunidade única de decretar a imediata expulsão da camarilha do directório do PRP que já há quase três décadas impedia o normal funcionamento das instituições. Muito a propósito, entabulei então conversa com um francês que há muito residia neste hotel e que para meu espanto, está plenamente convencido da inevitabilidade da derrota monárquica. Procurando retorquir com o evidente carácter minoritário e local dos republicanos, respondeu-me exactamente aquilo que todos os estrangeiros consideravam um sinal evidente: no dia 1 de Fevereiro de 1908, sendo demitido João Franco das suas funções de presidente do Conselho de Ministros, assinara-se assim a queda do regime. Condescendera-se com os criminosos, permitira-se o enxovalho público do rei, da sua família e da própria ordem constitucional. E voltando-se subitamente para mim declarou:

"Olhe que esta situação não é nova! Vivo neste país há quinze anos e o que tenho assistido durante todo este tempo, prova sobejamente tudo aquilo que lhe disse!" Dito isto, pediu-me para o acompanhar ao seu quarto, onde me mostrou alguns volumes com recortes de imprensa, cópias de actas de sessões parlamentares e uns quantos livrinhos mal amanhados que me informou serem propaganda paga pelo PRP.

" - Está a ver esta colecção? Desde já lhe digo, cher ami, que é um autêntico libelo de acusação do criminoso processo de sabotagem do Estado constitucional. Consiste num aterrador dilúvio de todo o tipo de infâmias inimagináveis além-fronteiras! Olhe e leia com atenção! Por exemplo, aqui estão excertos de alguns discursos do António José de Almeida no parlamento. Acha isto possível em qualquer país civilizado? Já viu em que termos esta gente se refere à rainha e ao resto da família? E o Costa, sabe quem é?"

Dito isto, acrescentou: - "é uma das mais desprezíveis, cobardes e turvas criaturas que conheci em toda a minha vida. Homem capaz de todas as vilanias, de um egoísmo à prova de qualquer análise de foro psicológico. Acredito no que lhe digo. Esta gente não presta, é má, incompetente e tornará a vida deste país num inferno! Por exemplo, já ouviu falar deste exemplar de literatura de cordel? É o famoso Marquês da Bacalhoa que arrastou até ao precipício a reputação da rainha e da sua entourage. Coisa mais infame é difícil de conceber e claro está, tem a chancela do directório do PRP, disso não existe hoje qualquer dúvida! Questiono-me quotidianamente acerca da atitude que as potências tomarão perante a quase certa vitória final destes bandidos e sempre lhe vou garantindo - rivalidades históricas à parte - que muito mal faz o governo de Londres em não intervir decididamente, pois o que está em causa, é também a segurança do flanco peninsular da nossa Entente Cordiale que no rei Carlos tinha um firme esteio. Com esta gentinha no poder, não poderemos contar com um exército português capaz sequer de garantir a inviolabilidade das fronteiras das suas extensas colónias africanas. Veja bem o enorme perigo que isso representa para o Império Britânico. Terão enlouquecido em Westminster?!"

Questionei-o então, cerca da verdadeira situação que o país vive, pedindo para se abstrair um pouco da guerrilha da propaganda. Respondendo, foi dizendo ..."pede-me o impossível, pois aqui é impensável tomarem-se medidas sejam elas de que carácter forem. Vigora a política da terra queimada e na verdade, só a instauração de um novo modelo constitucional que exima o soberano do jogo partidário - à semelhança daquilo que acontece na Inglaterra - poderá tranquilizar os espíritos. No entanto, os partidos nada mudarão, pois a garantia do seu sustento são os rendosos lugares proporcionados pelo exercício do poder político. O que pensa você pretenderem os ditos republicanos que aliás têm sido muito beneficiados pelos partidos rotativos? Até hoje têm sido uma arma de arremesso de ambos, na feroz disputa pelo governo e nada mais que isso! No plano social, Portugal, sendo um país de escassos recursos materiais, não está assim tão atrasado como parece à primeira vista. Possui institutos e infraestruturas. Se você quiser, pode escolher hoje ir à Ópera, ao teatro de variedades ou tão só deleitar-se com uma representação clássica. Existem boas livrarias com todas as novidades que do estrangeiro chegam. A imprensa é livre e se existe censura, esta é sempre a posteriori, quando o mal já está dito e feito. Sempre quero ver o que os ditos republicanos farão com a liberdades de imprensa de que o país ainda beneficia... tenho sérias e razoáveis dúvidas quanto a tudo isto, para nem sequer mencionar a questão eleitoral"...

Esmagado pelas inesperadas revelações, decidi perguntar a sua opinião sobre a reacção possível das forças armadas:

- "Olhe, essas também estão em dúvida, porque desde o assassinato do rei, a impunidade da propaganda nos quartéis granjeou-lhe a progressiva deterioração do respeito á hierarquia. Aqui também nada de bom parece podermos esperar. Não se trata de uma questão de cobardia, mas sim de puro e simples laissez-faire, oportunismo, falta de sentido daquilo que verdadeiramente interessa e consequentemente, talvez aceitarão a nova situação sem se manifestar... enfim, mais uma vergonhosa ignomínia!"

Soubemos então do motim a bordo de alguns dos cruzadores da armada, pelo que considerámos tornar-se de hora a hora, mais crítica a situação das forças leais ao regime. Apanhadas entre dois fogos, a única solução seria tomar de assalto a posição dos revoltosos na Rotunda, ao cimo da Avenida da Liberdade. Do directório do PRP nada se sabia, sendo muito provável uma fuga ou esconderijo enquanto espera o desenlace dos acontecimentos. A posição das unidades militares da área de Lisboa é totalmente desconhecida e suspeitámos que o silêncio indiciava a pura abstenção. Contudo, o resultado da luta ainda parecia incerto, dada a resistência oferecida pelas tropas realistas que acabaram por confinar os revoltosos à Rotunda. Tudo parecia possível ou provável e claro está, a situação residia única e simplesmente na decisão dos militares em intervir, esmagando a sedição. O porteiro do hotel acabou finalmente por nos informar que um dos caudilhos republicanos, o almirante Reis, se tinha suicidado, ao que parece por julgar perdida a causa.

Os períodos de intensa fuzilaria - quase sem baixas de parte a parte, há que afirmá-lo - alternavam com outros de aparente calma. Surpreendentemente, soubemos que ambos os lados recebiam visitas de populares, como se de uma festa ou romaria se tratasse. Aquele que vencesse, contaria com a imediata adesão das massas citadinas, sempre prontas a festejar o herói do momento, o que dava a esta situação, uma nota de ópera bufa.

Tentei durante algumas horas, telefonar para a nossa Legação, sem que tal fosse possível e assim, já a altas horas da noite, decidi ir uma vez mais a casa do coronel Cunha, procurando obter o máximo de informações credíveis. Tocando a sineta, mal pude acreditar quando o próprio me veio abrir a porta, em roupão. Da forma mais amistosa que lhe foi possível, convidou-me a entrar e pelo caminho até ao salão foi dizendo que nada sabia do que se estava a passar.

- "E a sua unidade"?, perguntei-lhe incrédulo.

- "Lá deve estar, de portões fechados e aguardando os acontecimentos"...

- "Aguardando os acontecimentos?! Mas não era suposto V. Exa. encontrar-se neste preciso momento à frente do seu regimento, honrando o juramento que fez questão em reafirmar há apenas 48 horas?!"

Empalidecendo, o coronel Cunha balbuciou algumas palavras incompreensíveis e depois, de forma mais decidida, concluiu a nossa rápida entrevista, apontando-me o caminho da saída:

- "Sabe, o meu compromisso é para com o país e não com este ou aquele regime. Os juramentos são feitos a uma determinada situação de um momento preciso. Se amanhã tivermos de proferir um outro, paciência"...

e encolhendo os ombros, deixou cair mãos, dizendo ..."é a vida"...

Diário de N. White Castle: Lisboa, 5 de Outubro de 1910

via Estado Sentido de Nuno Castelo-Branco em 06/10/08

Durante toda a madrugada troou o canhão e já nem sequer sabíamos se os estrondos provinham de granadas lançadas pela esquadra amotinada ou pelas peças de 75 colocadas desde a Rotunda até ao Torel (estas bem perto dos Restauradores, onde ainda me encontrava). Quem estava no hotel e conhecia bem a situação, dizia que os sediciosos venceriam, dada a abstenção do grosso do exército que facilmente teria liquidado a triste aventura. Para dificultar as coisas às unidades combatentes fiéis à legalidade, começaram a escassear as munições, pois os tiros provenientes das suas linhas tornaram-se cada vez mais espaçados, até quase cessarem por completo.

Logo pela manhã, parece que um representante do kaiser Guilherme em Lisboa, cometeu a imprudência de se deslocar com uma bandeira branca à terra de ninguém que separava os dois grupos contendores e isto foi interpretado como uma rendição das tropas fiéis, o que provocou de imediato uma enorme aglomeração de gente excitada com os acontecimentos e consequentemente, terminaram os combates.

Decidi sair à rua para ver o que se passava e soube que tinham proclamado a república na Câmara Municipal, situada num largo muito perto da Praça do Comércio. Sabemos como psicologicamente funcionam as multidões, pois se a tropa tivesse cumprido o seu dever consagrado pelo juramento, neste preciso momento andariam pelas ruas bandos populares à caça dos traidores e decerto a sede do PRP seria já pasto das chamas. Mas como o resultado foi diferente, verifiquei de imediato aquilo que decerto será o modus vivendi futuro neste país. Dois padres que iam a passar no Rossio, estavam a ser violentamente sovados e de vestes despedaçadas, submetiam-se à vindicta de uma gentuça comandada por uns tipos de aspecto inclassificável que de espingarda na mão iam organizando grupos de acção punitiva. Coisa estranha esta, uma vez que desde o fim da guerra civil há já mais de setenta anos, a Igreja passara a ser fortemente controlada pelo Estado e até bispos pertenciam a organizações maçónicas, integrando plenamente a sociedade política liberal. Em Portugal, o radicalismo anti-religioso do prp decerto mergulhará o país no caos. Os sectores mais conservadores da Igreja estarão finalmente livres para o exercício das suas actividades, pois é isso mesmo o que significa a dita separação da Igreja e do Estado. No nosso país, a igreja anglicana encontra-se de tal forma submetida, que podemos até afirmar que exercemos uma espécie de política regalista, na qual o nosso rei assume as funções aqui reservadas ao próprio Papa! Que estúpidos, tacanhos e ignorantes são estes pretensos republicanos portugueses...

O resto, é o que se previa. Adesões de última hora, delírios dignos do carnaval e pasme-se, esta gente que agora comanda, vai apresentando a revolução como coisa ordeira e decente, pois à porta dos bancos colocaram rufias armados, não vão os populares lembrarem-se de roubar os bens dos donos da revolução, quase todos homens de cabedais e posses, latifundiários, banqueiros e agiotas. Grande revolução esta, que começa logo por ser proclamada - segundo me disseram -, por um conhecido latifundiário ocioso e dado a coisas do frisson mondain, um tal Relvas!

Já para o fim da tarde, conheci os nomes das novas autoridades no poder. Na Legação sabem bem quem eles são e junto a um senil com pretensões a literato que dá pelo nome de Braga, surge logo o tal facínora Costa de quem me falou monsieur Peyrot. A estes surgem igualmente associados um entusiasta das ditaduras que se chama Basílio Teles, um desertor das hostes monárquicas de nome Machado (e que segundo me disseram tem o curioso título de barão de Joane), e alguns mais, cuja insignificância não lhes dá qualquer direito a que retenha a identidade. Não me posso esquecer do tal grosseirão parlamentar, um dr. Almeida que alegadamente é o coordenador da manufactura de bombas terroristas do partido que ajuda a dirigir. O director do hotel disse-me que este sujeito é aquilo a que vulgarmente se designa de demagogo, capaz de grandes tiradas oratórias junto da ralé, ao mesmo tempo que no Parlamento protagoniza episódios onde a linguagem escandalosa, a infâmia e o simples insulto serviram sempre para agradar aos arrebanhados contingentes de populares que assistiam às sessões. Que regime sairá daqui, é coisa que até o maior idiota pode facilmente prever, porque esta gente não se encontra minimamente preparada, não tem a confiança das grandes potências, está envolvida em numerosos crimes de sangue e pior que tudo isto, durante anos lançou prodigamente ao solo, as sementes da anarquia, do ódio e da falta de respeito pelo outro. Prevejo um futuro infalivelmente manchado pela ruína, guerra civil e rebaixamento de Portugal no concerto das nações. E desta certeza ninguém me tira.

Infelizmente, fui involuntariamente obrigado a presenciar uma deplorável cena de escabrosa cobardia e oportunismo. Quando regressava ao hotel, vi passar o tal coronel Cunha, levado em ombros por populares, coisa que me fez de imediato recordar cenas semelhantes que presenciara há uns anos no México. O inepto oficial já não ostentava no boné, a coroa regulamentar do uniforme! Aderira de imediato à nova situação e fico a pensar naquelas palavras altivamente proferidas no jantar na nossa Legação, quando afagando o sabre de cerimónia - pois apenas para isso serve e o futuro decerto o confirmará -, dizia ..."atiraremos a matar!" Que vergonha, que miserável criatura e dizem-se eles os herdeiros daqueles que talharam pela espada e pelo sacrifício este país, levando a sua bandeira ao Brasil, Índia e Japão! Como é isto possível? São estes os homens que a Europa passou a admirar após as chamadas campanhas de pacificação em África? É a desonra, o total opróbrio e isto dias após um solene juramento! Como poderá no futuro este país confiar nos militares que há séculos guardam ciosamente a sua independência? Para a segurança da Inglaterra, a partir de hoje julgo que o nosso Estado Maior deverá deixar de contar com estas forças armadas para o cumprimento dos compromissos inerentes à Aliança, pois provaram-no até à saciedade que não merecem a mínima confiança. O que seria o seu desempenho num campo de batalha numa futura grande guerra europeia? Na verdade, não tendo manifestado num heróico impulso a sua indignação pelo vil assassinato do seu próprio Comandante-em-Chefe há apenas dois anos, deixaram de contar como força de confiança e respeitabilidade. São um bando de energúmenos uniformizados, apenas cientes do seu papel consumidor de recursos de um estado que lhes dá cama, mesa e imerecido estatuto social.

Foi esta a minha experiência durante os dias de uma revolução que não o é, pois não vejo qualquer viabilidade nos megalómanos projectos redentores propalados pelos seus próceres. Não terão os couraçados, nem o tal "bacalhau a pataco". O pão não será praticamente gratuito e agora definitivamente no poder, os grandes interesses económicos farão sentir pesadamente a sua mão estranguladora dos direitos dos operários. Estou seguríssimo de uma futura e radical repressão nas ruas, de mais sangue, repressão à imprensa, fraude eleitoral, esbulhos e ataques à integridade pessoal de muitos daqueles que dentro em pouco se recordarão amargamente dos tempos em que eles próprios de tudo se serviram para espezinhar quem durante décadas lhes deu liberdade de expressão, paz social e progresso material. O tempo o dirá.