terça-feira, 2 de dezembro de 2008

The Portuguese Discoverers (XXVI)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 02/12/08

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Beyond the Threatening Cape

Unlike Columbus, who would aim straight for the Indies, Prince Henry the Navigator had a larger, a vaguer, and more modern destination – true to his horoscope. […].

We have no evidence that Prince Henry had in mind the specific purpose of opening a sea-way around Africa to India. What beckoned him was the unknown, which lay west and southwest into the Sea of Darkness and southward along the uncharted coast of Africa. The Atlantic islands – The Azores (one-third of the way across the Atlantic Ocean!), the Madeiras, and the Canaries – had probably been discovered by Genoese sailors in the mid-fourteenth century. Prince Henry's efforts in that direction were less an enterprise of discovery than of colonization and development. But when his people landed in Madeira (madeira means wood) in 1420 and set about clearing the thick woods, they set a fire that raged for seven years. Although they never planned in that way, the potash left from the consumed wood would prove a perfect fertilizer for vineyards of the Malmsey grapes imported from Crete to replace those forests. The justly famous "Madeira" wine was the lasting product. Yet, as his stars foretold, Prince Henry was by nature and by preference not a colonizer but a discoverer.

"The Portuguese Discoverers", from "The Discoverers", Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Daniel J. Boorstin - antigo director da Biblioteca do Congresso

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

TESTAMENTO COMPLETO DE PRIMO DE RIVERA

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

EXPLICANDO OS «JOGOS AFRICANOS» - PALAVRAS DE JNP

via O FUTURO PRESENTE de noreply@blogger.com (jaime nogueira pinto) em 26/11/08
Senhoras e Senhores, Queridos Amigos:
Quero começar por agradecer ao Francisco Seixas da Costa, as suas palavras sobre mim e sobre estes JOGOS AFRICANOS. Somos de facto muito amigos, apesar de itinerários ideológicos e políticos bem diferentes. E para além desse comum sentido de humor e de independência crítica, de pessoas livres, temos mesmo que pensado e vivido de modos diferentes, uma idêntica e indefectível lealdade a Portugal e aos seus interesses. E a sua amiga e generosa disponibilidade de atravessar o Atlântico num fim de semana para vir apresentar este livro.
Depois, como é da praxe, mas aqui também do fundo do coração, quero agradecer a todos que aqui estão e fazem parte do livro, porque entraram na história que ele conta: muito especialmente à Arminda, viúva e à Micaela filha do Alfredo Aparício, um amigo inesquecível e um grande português, a quem são dedicados estes Jogos Africanos; e ao Sr. António Luís Alves, o "Mister Banana", e ao Zé Penha Rodrigues, pelo seu apoio logístico na retirada estratégica para o Sul. E claro à Zézinha que fez essa e outras caminhadas complicadas comigo. E neles e através deles a essa legião de pessoas que nestes anos partilharam connosco estas histórias.
Isto quanto à história. Quanto ao livro quero agradecer primeiro ao José Calvin e à Sofia Monteiro e a toda a equipa da Esfera dos Livros que são uns editores disponíveis, sensíveis, com quem trabalhar é um gosto. E depois à Inês Pinto Basto que, desta vez, foi mais que uma colaboradora, uma verdadeira co-autora, com um trabalho marcado pela inteligência, arte e dedicação. E que conseguiu disciplinar e ordenar além da minha escrita, o meu modo de produção. E à Isabel Barata Feio que há muitos anos converte, pacientemente, os meus hieróglifos em letra de forma e passou e repassou este texto.

Estes JOGOS AFRICANOS têm origem, como outras coisas importantes da minha vida, mais no acaso que na predestinação.
A ESFERA DOS LIVROS – na pessoa do José Calvin e da Sofia Monteiro – satisfeitos com o meu "Salazar – O outro Retrato" convidaram-me, faz um ano, para escrever uma História da África Portuguesa.
Era uma proposta sedutora, para contar uma história de fôlego, uma história de 560 anos – que começava em 1415 naquela manhã alegre da conquista de Ceuta e seguia com as caravelas do Infante a passarem o Bojador e acabava com o trágico regresso dos Boeings com os retornados da Ponte Aérea em 1975.
Garanti a colaboração da Inês, e comecei a reler as viagens do Cadamosto e a Crónica da Guiné do Zurara. Para inspiração e para agarrar o espírito do tempo fui ao Museu das Janelas Verdes rever o Infante D. Henrique dos painéis de S. Vicente. E outra vez me intrigou aquele seu chapéu, único… Um amigo sábio – talvez o Martim de Albuquerque – disse-me que era um chapéu borgonhês! Nunca vira outro assim em Portugal.
Mas enquanto ia meditando nestes e noutros enigmas menos frívolos da Grande Aventura Portuguesa, fui escrevendo uma introdução, recriando e relembrando os meus encontros e experiências africanas. Desde imagens de infância, de exploradores e expedições coloniais, e da leitura das Minas de Salomão, à minha chegada à África real, em Angola, em 1974, nos meses do fim do Império. Um prefácio que foi crescendo até chegar às 60 páginas.
As pessoas que tiveram acesso a este esboço e os editores acharam que, apesar do enigma do chapéu do Infante e dos chapéus coloniais, apesar da história da ocupação, da fundação das cidades e dos caminhos de ferro no século XX, era talvez mais interessante – ou mais urgente – para aqui e para agora, contar a história mais próxima. E, para isso, desenvolver a tal introdução. Que era a história que aconteceu na África que tinha sido "portuguesa" depois de Portugal e dos portugueses, uma história de conflitos, de intriga, de guerra civil, de engenharias da paz. E o lugar dessa África lusófona, no Grande Jogo do mundo. O chapéu do Infante e as aventuras, venturas e desventuras da colonização e da descolonização podiam esperar.
Foi assim que apareceu este livro.
Baptizei-o à nascença, o que não é meu costume. Mas desta vez roubei o título – Jogos Africanos – a um escritor para mim muito importante – Ernst Jünger. Os seus Afrikanische Spiele são de 1936, e neles conta a fuga de casa, adolescente, para a Legião Estrangeira francesa. Eu fui, homem feito e pai de filhos, como voluntário, para o Exército Português – o que não é a mesma coisa. Mas roubei-lhe o título, conscientemente, como uma homenagem e um sinal cabalístico de identidade.
Agora o livro, a substância. Há dias ouvi o Marcello Mathias dizer que um autor não deve explicar ou falar do seu livro! Concordo. A partir do momento que o escreve, que o acaba o autor deve-o deixar ir à vida, como o Deus de Leibniz terá feito com o mundo. O livro vale o que vale: depois de escrito, é dos editores, dos leitores, dos críticos. De todos menos do autor.
Mas se não deve falar do texto, o autor pode – e deve – explicar o contexto. Quando pelo telefone dizia a alguém o que era o livro – e disse que eram as minhas memórias de África – a Zézinha, deu-me um ralhete. Que ninguém queria saber de memórias para nada! Que este livro era uma história da África lusófona e da África Austral dos últimos trinta anos, uma história em que eu tinha estado presente e participante.
É verdade. A minha memória e a minha história são só um fio condutor da memória e da história de Angola, de Moçambique, da África Austral entre a Descolonização portuguesa e o fim das guerras civis. Porque nas "memórias" passeamos o nosso olhar, de fora para dentro e de dentro para fora, e vamo-nos entregando a considerações históricas, psicológicas, literárias, humorísticas, sobre paisagens, pessoas, amigos, inimigos, coisas importantes ou que achamos importantes. Mas nós somos o centro da história.
Não é o caso de Jogos Africanos. Aqui eu não andei à procura do mundo nem o mundo à minha procura.
Escrevi primeiro para acertar contas com o meu e nosso passado e tentar percebê-lo. Descubro-me melhor – no duplo sentido de me encontrar e de me destapar – a escrever. A minha experiência é paralela à de muitos da minha geração, geração no sentido cronológico e ideológico: a dos portugueses nascidos no imediato pós-guerra, formados existencialmente e intelectualmente, nos anos 60, com guerras perdidas – Argélia, África, Vietname – escritores reencontrados ou descobertos – Nietzsche, Sorel, Péguy, Proust, Scott Fitzgerald, Hemingway, Huxley, Malraux, Jünger, Drieu de la Rochelle; mais os clássicos portugueses de Camilo a Eça e a Pessoa; e os autores franceses e italianos do meio do século XX, os filmes italianos e americanos de 60 e 70, a música do Brel, dos Beatles e dos Rolling Stones, as cidades - Paris, Londres, Roma, Madrid… quase só Europa.
Por cá, nesta nossa polis, foram as lutas académicas, as guerras da cultura e a guerra de África. Fui a todas! À de África, no fim. Como achávamos que lutávamos – já na Faculdade - em minoria e ainda por cima contra "o sentido da História", habituámo-nos a resistir e a preparar a guerrilha. Tive sempre a sensação de pertencer àqueles grupos especiais - ou menos especiais - que cobrem as retiradas: rebentam as pontes, minam os itinerários e fazem umas emboscadas às vanguardas inimigas para lhes retardar a marcha. Se ficarmos pelo caminho, ninguém quer saber de nós. Somos expendable. E como só retardámos, não impedimos o avanço, se temos sucesso ninguém dá por isso. Não nos condecoram nem nos agradecem. Habituámo-nos assim.
Esta é a primeira parte desta história – que acabou no exílio - na África do Sul, no Brasil, em Espanha. Depois fui para a história dos outros, para os lugares onde a História ia continuar a fazer-se. Nos anos 80 percebi que essa era a forma mais certa – e a única possível – de continuar este jogo, já que não não me curava dele e do tal "mal de l'Afrique" de que falava Psichari. E tinha questões a arrumar. Sobretudo comigo.
Fomos para a Guerra Fria com essa ideia de acertar contas. Era uma guerra de outros, mas em que podíamos fazer a diferença. Como combatentes "internacionais", internacionalistas. Como o Bin Laden foi combater os russos para o Afeganistão, os comunistas foram para Espanha em 1936 e os zuavos pontifícios defender o Papa, no século XIX. Foi assim que entrámos a ajudar os "nossos" freedom fighters na África Austral.
Depois, por um processo que espero ter conseguido escrever e descrever no livro – e foi a primeira vez que eu próprio comecei a entendê-lo bem – as coisas mudaram: e já não queríamos ganhar a guerra – ou que "os nossos" ganhassem – mas queríamos a paz. Para todos – os nossos e os outros. E a partir da curiosidade e da vontade de a conseguir, tive a experiência e o privilégio, que também aqui ficam contados, de fazer o vaivém amigos-inimigos, azuis e encarnados, entre trégua e guerra, tendo por rede e segurança os "factores humanos" de todos – de lealdade, honra - e de interesse claro! Para um pessimista antropológico, criado na desconfiança hobbesiana do outro, não estive mal.
Porque as ideologias e as convicções políticas não escolhem nem delimitam o bem e o mal. E – ao contrário da convicção adolescente – em que as bandeiras e os partidos dividem os "bons" dos "maus", a vida não é assim. E há um capítulo da ética – a "ética dos inimigos" – que é mais importante que muitas outras éticas faladas nelas glorificadas. Porque é o que nos une é só a nossa condição humana.
Acabámos por estar, assim, no centro de muitas coisas acontecidas no último quartel do século XX: o fim do Império português, o exílio e conspirações dos portugueses em três países e três continentes, África do Sul, Brasil, Espanha, África, América, Europa. E vimos nascer em Washington a revolução conservadora e assistimos ao final da Guerra Fria em Berlim, e às guerras civis de Angola, de Moçambique e da Guiné-Bissau.
De fascinados pelas ideias que éramos, passámos a estar mais atentos também às pessoas e às coisas. Há, nesta narrativa, uma evocação dessas pessoas –quase todas ainda vivas, mas outras mortas e violentamente – como Evo Fernandes, Ansumane Mané, Jonas Savimbi, Salupeto Pena, Jeremias Chitunda, Wilson Santos, tantos…
E também se fala da aprendizagem do exílio, que é sempre – mesmo quando as alternativas são a prisão, o silêncio e a humilhação dos vencidos não convencidos –uma humilhação e uma via-sacra. Foi aí que experimentámos outra forma de conhecer e amar a pátria, de fora para dentro, como lugar estranho e distante. E pensámos noutros, de outras bandeiras, que passaram pelo mesmo.
Depois nestas terras e nestas guerras, encontrámos e descobrimos gente extraordinária entre os nossos e os outros, entre amigos e inimigos. E eles descobriram-nos a nós.
E reaprendemos a ver as coisas e o mundo – a olhar a terra e a olhar para o céu aberto que é um privilégio da África: nas noites do Leste de Angola, nas luzes de Joanesburgo, na Ilha de Luanda – falando com comandantes guerrilheiros, soldados perdidos e generais governamentais; e voando nos Cessnas ou Dakotas por aquele céu azul pastel ou ferrete (não percebo muito de azuis), que me lembrava o céu dos poemas de Alberto Caeiro e vermos o sol nascer do Índico e desaparecer no Atlântico.
Para este livro, que levou um ano a escrever e finalizar, ouvi muita gente e entre outras, as pessoas que fazia sentido ouvir. Nem todas. Estas entrevistas, de que uma pequena parte foi utilizada ou transcrita directamente, foram também uma experiência humana e intelectual importante. Com grande confiança e generosidade, essas pessoas – uns velhos amigos, outros velhos inimigos, outros nem uma coisa nem outra - contaram-me as suas histórias nesta história, fizeram a narrativa com grande à vontade. Pela minha parte, usei os testemunhos com sobriedade e prudência. E nalguns casos, e com perda talvez para algum sensacionalismo, retirei o que sendo interessante poderia ser nocivo para os próprios ou terceiros.
Porque escrever sobre temas e factos que são sensíveis, de vida e de morte, é um exercício no fio da navalha ou do arame. Não podemos trair a confiança de pessoas que, quando trataram coisas connosco, não estavam a pensar que um dia, mesmo muito depois, contaríamos o que disseram ou fizeram então. Respeitei essa regra.
Finalmente – e sem pretensões – acho que devia este livro ao meu país, aos meus amigos, à minha Família, aos vivos e sobretudo aos mortos, que perderam tudo nestes Jogos Africanos. É também uma homenagem à memória deles. De todos.
Muito Obrigado.
Jaime Nogueira Pinto
24 de Novembro de 2008

JOGOS AFRICANOS NO JN

via O FUTURO PRESENTE de noreply@blogger.com (jaime nogueira pinto) em 23/11/08

JORNAL DE NOTÌCIAS, 23 Novembro 2008 ," Jogos africanos"

Jaime Nogueira Pinto lança amanhã obra autobiográfica em que narra a África do seu imaginário até às experiências no terreno desde 1974 até agora.

"O meu primeiro encontro com a África e os africanos foi no sótão do n.º 28 da Rua João das Regras, no Porto. Estou quase certo disto porque nasci e vivi até aos oito anos nessa casa. O Miguel Bénis e eu tínhamos descoberto o sótão naqueles roteiros iniciáticos dos miúdos, feitos de explorações de quintais, jardins, becos, bosques, caves e outros lugares selectos de mistérios e aventuras.
E o sótão, por estar proibido às crianças, era um desses fascinantes longes de além porta que nos metemos a desvendar. E no meio de um característico cheiro a mofo e do pó dos tempos, à luz de uma clarabóia baixa, jazia um armário fechado a cadeado. Conseguimos abri-lo, e demos com uma enorme quantidade de papéis - livros, revistas, títulos de obrigações e acções de companhias falidas, pastas, dossiers, retratos.
Mas havia sobretudo livros, muitos livros, em estado desconjuntado mas ainda folheáveis. Foi aí, entre uma série de itinerários africanos de viajantes portugueses do século XIX, que nos apareceram o Capelo e o Ivens sentados numa sanzala, de chapéu colonial, carabina, pistolão e bota alta. Do mesmo armário saiu-nos o Serpa Pinto em forma de foto-desenho, de cabelo e barbas hirsutos, no seu Como eu atravessei África. E lá vinha outra vez o explorador, agora sob a legenda «Serpa Pinto e os seus moleques de confiança», sentado, armado e ladeado por dois negros com bom aspecto, também de carabinas. Pretos bons, concluíamos nós.
Esta África, descoberta com algum risco nas tardes de chuva em que a casa ficava por nossa conta, era completada por outras expedições africanas que vinham nas revistas aos quadradinhos como o Mosquito, o Mundo de Aventuras ou o Cavaleiro Andante. Nas minhas primeiras leituras de livros sem bonecos - ler livros sem bonecos era, na época, um rito de passagem - apanhei As Minas de Salomão, de Ridder Haggard, na versão do Eça de Queirós.
Vivi a fundo, com o Eça, este mundo das raças negras guerreiras, dos regimentos zulus ou impis, das danças rituais, das batalhas da colina e de Lu, onde as armas de fogo dos europeus fazem a diferença. E vivi também a morte, sempre tão presente nesta e noutras narrativas de África. A morte à espreita no campo aberto da savana com o leão, nos rios, com o crocodilo, na selva, com as cobras. Ou a que vem dos homens, das setas envenenadas, das emboscadas, dos recontros.
Era uma história paradigmática. Os brancos metidos em África sempre pelas razões mais nobres e mais sórdidas: para salvar almas e para o saque, para ajudar perseguidos, mas também para patrocinar protegidos, usando-os para controlar os outros. E naquela ficção, como na vida real, tudo quase sempre tão misturado, tão indistinto, tão próximo, apesar do aparente preto e branco. As Minas de Salomão foram, para o meu imaginário, um impressionante baptismo de fogo africano. Que iria revelar-se muito mais exacto e próximo da realidade do que eu, na altura, poderia supor."

As a go-between

"A partir de um certo momento, nestes jogos africanos, quando quis ser mediador num conflito pouco mediável, tive o risco e o privilégio de poder estar simultaneamente em dois campos. Foi uma tentativa que falhou no seu plano substancial e objectivo: a guerra continuou e a paz só veio quando houve um claro vencedor. Pelo meio, vivi com gente em risco moral e físico, gente dividida, gente animada de um pathos político verdadeiro, gente empenhada e séria, gente até ao fim.
Tinha acabado de entrar nos 50 e nunca passamos pelo tempo impunemente. Descobrimos que, se existem ideologias ou sistemas mais ou menos perversos - e alguns até intrinsecamente perversos, como Pio XII qualificava o comunismo -, os homens e a natureza humana obedecem a outras constantes e, nesse sentido, são iguais em todo o tempo e lugar. Também aqui, os quadros e o povo da UNITA e os quadros e o povo do MPLA não eram melhores ou piores uns que os outros pela sua ligação ou opção ideológica. Aliás, essa opção fora quase sempre determinada por factores étnicos, culturais, territoriais, familiares, de tempo e de circunstância. Uns tinham ido para a guerrilha contra a administração portuguesa - de Savimbi a Ndalu, de N'zau Puna a Samuel Chiwale ou a Pepetela -, enquanto outros, a maioria dos jovens quadros da UNITA do Planalto e uma parte dos quadros militares das FAA, tinham feito a tropa no exército português.
Num e noutro lado havia os corajosos, os coerentes, os decentes, os cultos, os sensíveis, os que viam os inimigos como seres humanos separados pela História e pelas conjunturas, e os oportunistas, os cínicos, os mal-formados, os facciosos, os brutos, os racistas, os pregadores do extermínio dos contrários, sempre sectários e guiados por um único fito - sobreviver, subir, enriquecer, estar no momento certo no lado da vitória. A todo o custo."

Com Chissano em Moçambique
O general João de Matos dera-me um contacto para um elemento da Inteligência militar moçambicana, o coronel Estanislau Fidelis de Sousa. Fidelis era de uma família de cristãos de Goa (Moçambique, na organização administrativa do império português, foi muitos anos governado a partir de Goa) e era um homem cortês, que se mexia bem na nomenklatura local, com fácil acesso bem acima. Através dele combinei um encontro com o Presidente da República Joaquim Chissano.
Eu sabia que Chissano sabia do meu envolvimento na política moçambicana e do meu papel junto de Dhlakama e da RENAMO, mas não estava bem certo se os relatos eram fidedignos e até que ponto. O coronel Fidelis preparou o encontro e, nas vésperas do regresso a Lisboa, num sábado ao meio-dia, enfiei o meu fato azul de riscas, próprio para chefes de Estado, ministros e presidentes de Bancos.
Chissano recebeu-me pontualissimamente, ao meio-dia e dois minutos, no jardim do seu gabinete da Presidência, na Julius Nyerere, ao lado do Polana. Foi uma conversa franca e descontraída. Detivemo-nos - é sempre uma conversa recorrente com moçambicanos - na comparação do processo de Moçambique com o processo angolano e eu, a este propósito, disse-lhe: "Presidente, o Senhor tem a sorte de ter um líder da oposição que leva a sério o seu papel e que gosta de ser líder da oposição. É uma sorte e deve tratá-lo bem, com respeito, sobretudo com respeito!"
Referia-me às queixas recebidas dos meus amigos da RENAMO e do próprio Dhlakama sobre as dificuldades financeiras do partido, e uma certa exclusão em que se encontravam os seus membros mais destacados em relação a benefícios económicos e a estatuto social. O Raul Domingos chegara a falar -me uma vez para saber se seria possível arranjar em Portugal uma linha de crédito para os deputados da RENAMO poderem comprar automóveis. Eu dissera-lhe que me parecia muito complicado, ou melhor, muito difícil.
"É que o Doutor Nogueira Pinto compreende, em Moçambique, sobretudo nas províncias, o povo vê os chefes e deputados da FRELIMO nos seus carros privados… e os deputados da RENAMO no machimbombo. E não nos levam a sério! Dizem: 'Você não é mesmo deputado! Deputado tem carro, não anda de machimbombo!'"
Assim, e embora subsistissem alguns problemas e também alguns rancores e desconfianças do tempo da guerra civil, a verdade é que, seis anos depois dos Acordos de Paz de Roma e quatro anos depois das primeiras eleições multipartidárias, a paz e a reconciliação nacional eram uma realidade. Isto alegrava-me especialmente, pois apesar de ter sido um processo em que despendera menos tempo, esforço e recursos do que em Angola, tivera nele uma maior autonomia e influência, já que os grandes deste mundo - e particularmente os do mundo paralelo dos "arranjos" e "canalizações" - tinham estado ausentes e o processo fora mais livre."

The Portuguese Discoverers (XXV)

The Portuguese Discoverers (XXV)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 28/11/08

Prince Henry's caravel was specially designed for these explorer's needs. He found some clues in the caravos, ships used by Arabs since ancient times off the Egyptian and Tunisian coasts, modeled on the still more ancient fishing vessels that the Greeks had made of rushes and hide. These dhows, rigged with "lateen", slanting ant triangular sails, carried Arab crews of as many as thirty, in addition to seventy horses. A similar smaller, even more maneuverable vessel, called the caravela (-ela = diminutive) was in use on the Douro River in northern Portugal. Prince Henry's shipbuilders produced the famous caravel, which combined some of the cargo-carrying features of the Arab caravos with the maneuverability of the Douro River caravelas.

These remarkable little vessels were large enough to hold an explorer's supplies for a small crew of about twenty, who usually slept on deck but in bad weather went below. The caravel displaced about fifty tons, was about seventy feet in length and about twenty-five feet in the beam, and carried two or three lateen sail. "The best ships that sailed the seas" was what Alvise da Cadamosto (1432?-1511), the experienced Venetian mariner, called the caravels in 1456 after his African voyage in a caravel organized by Prince Henry. The caravel became the discoverer's standard ship. Columbus' three ships – the Santa Maria, The Pinta, and the Niña – were all of caravel design, and the Santa Maria was only one-fifth as big as the large Venetian square-riggers of his day. The caravel proved that bigger was not always better. […]

"The Portuguese Discoverers", from "The Discoverers", Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Daniel J. Boorstin - antigo director da Biblioteca do Congresso

FEIRA INTERNACIONAL DE MINERAIS, GEMAS E FÓSSEIS

FEIRA INTERNACIONAL DE MINERAIS, GEMAS E FÓSSEIS

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 27/11/08
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O GOSTO PELOS MINERAIS e pelos fósseis pode nascer na escola, no seio da família, num passeio pelo campo ou numa visita a um museu. Esse gosto resulta quase sempre da atracção despertada, quer pelas formas cristalinas dos minerais, suas cores e brilhos, quer pela grande beleza das muitas variedades de restos de seres vivos petrificados. Dessa atracção nasce, por vezes, o interesse em saber-se algo mais acerca deles: nome, composição, origem, utilidade.
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Como testemunhos da longa história da Terra e à semelhança de um qualquer documento, as rochas podem ser lidas. E entre as letras que permitem essa leitura estão os minerais e os fósseis. Decifrar a história do nosso planeta passa, pois, por conhecer os minerais e os fósseis. Mas estes objectos naturais valem também por si. Sobre os minerais assentou a vida económica de todos os tempos. Eles estiveram e estão no nosso quotidiano, dos utensílios de sílex dos nossos mais primitivos antepassados, aos minérios de cobre e de estanho da idade do bronze, aos de nióbio e de titânio das naves espaciais, ao quartzo do relógio que trazemos no pulso. Grande parte dos objectos que nos rodeiam tem nos minerais a principal matéria-prima. Da mais rudimentar ferramenta ao bisturi do cirurgião, da pulseira de pechisbeque à tiara de diamantes, dos tijolos secos ao sol, ao betão, alumínio e vidro dos arranha-céus da sociedade de consumo, toda a civilização assentou e assenta no conhecimento dos minerais. Por seu lado, os fósseis mostram-nos muitos dos elos da cadeia evolutiva dos nossos antepassados, desde os mais próximos primatas aos mais recuados vertebrados marinhos, passando pelos dinossáurios e por uma infinidade de invertebrados, de vegetais e até de bactérias.
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Muitos são hoje, entre nós, os profissionais e os amadores-coleccionadores atraídos pelas respectivas disciplinas, na sequência de uma visita a uma Feira de Minerais, como as que têm tido lugar, ininterruptamente, no Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa, desde 1989, ano do primeiro deste tipo de certames realizado em Portugal. Imediatamente aceite por um largo sector da população, esta importante manifestação cultural criou e desenvolveu uma clientela de onde saíram e continuam a sair coleccionadores e amadores, em número considerável, além de que despertou vocações para licenciaturas na área das Ciências da Terra. É reconfortante sentir o pulsar da grande sala repleta de crianças e adolescentes e, ainda mais, ver chegar-nos aqui um estudante universitário ou um jovem licenciado e dizer-nos, feliz: «Sabe, foi aqui que me decidi pela licenciatura em Geologia».
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A Feira Internacional de Minerais Gemas e Fósseis de Lisboa, este ano na sua 22ªedição, dedicada aos minerais fluorescentes, vai ter lugar entre 5 e 8 de Dezembro próximo, esperando-se um número de visitantes próximo da dezena de milhar, na confirmação da linha ascensional que tem caracterizado a sua história. O gosto pelos minerais e pelos fósseis instalou-se em Portugal e, tanto assim é, que este certame já se realiza, com regularidade anual, no Porto, em Coimbra e em Oeiras, tendo-se repetido, esporadicamente, em Aveiro, Angra do Heroísmo, Braga, Évora, Ponta Delgada, Vila Real e este ano, pela primeira vez, em Mangualde.
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Ao publicitar esta que vai ser mais uma festa da Mineralogia e da Paleontologia, na cidade de Lisboa, desejo evocar a memória de Luís Teixeira Leite, mineralogista amador e coleccionador, cuja excepcional competência e qualidades humanas foram decisivas para introduzir em Portugal este tipo de certames. Bem relacionado com profissionais, universidades e museus dos quatro cantos do mundo, o desaparecimento precoce deste nosso amigo e colaborador, ocorrido vai para treze anos, constitui, para nós, uma perda irreparável, particularmente sentida nesta época.

Há 95 milhões de anos, na região de Carenque

Há 95 milhões de anos, na região de Carenque

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 24/11/08
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HÁ CERCA DE 95 MILHÕES DE ANOS, no Cretácico, esta região e, como ela, parte da actual Estremadura, era baixa, ribeirinha, plana e alagadiça, numa transição do meio continental para o marinho. O clima era quente e húmido e a vegetação abundante. O oceano Atlântico não tinha ainda, na sua progressão de abertura para norte, separado suficientemente os continentes norte-americano e euro-asiático, havendo, sim, no que é hoje a orla ocidental de Portugal, uma penetração do mar limitado, a Oeste, por terras actualmente do lado de lá do Atlântico, na Terra Nova e no Labrador, e a Leste, pelo bordo ocidental da Ibéria. É nesta espécie de estreito e extenso golfo que se passa grande parte da história geológica desta orla onde, 15 milhões de anos mais tarde, começou a formar-se a Serra de Sintra.
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Ao deslocarem-se nas margens dos rios, lagos ou lagunas litorais, os animais deixaram impressas as suas pegadas no chão húmido, ou mesmo na vasa do fundo de zonas pantanosas. Esses sedimentos, ao secarem, e sempre que o acaso permitiu a sua cobertura por novos depósitos, ficaram protegidos e, com eles, as pegadas. A evolução geológica da região conduziu a que estas ficassem sob grande espessura de sedimentos marinhos, testemunhos da invasão pelo mar durante mais alguns milhões de anos, sedimentos que se transformaram em calcário ao longo do tempo, através de processos lentos e complexos que nos permitem reconstituir essa evolução. As pegadas de Carenque foram deixadas sobre terrenos planos, horizontais e sub-horizontais e, se hoje as encontramos numa superfície inclinada é, tão-só e apenas, porque esses terrenos foram deslocados da sua posição inicial, aquando da elevação do maciço de Sintra. Estas marcas, postas a descoberto pelo trabalho de lavra da pedreira, têm o valor de fósseis com o maior interesse na pesquisa da referida história geológica, informando-nos ainda sobre o paleoambiente preferido pelos animais que as deixaram. É esta a história do nosso velho passado que se pode ler e contar na importante jazida de Pego Longo. Foi este capítulo da caminhada do "planeta azul" que esteve prestes a perder-se em nome do "progresso" e que, os media, a opinião pública e o bom senso acabaram por salvar. Falta, no entanto, colocar este património ao serviço do ensino, da cultura e, também, certamente, do turismo.
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O projecto do "Museu e Centro de Interpretação de Pego Longo" (Carenque), da autoria do Arquitecto Mário Moutinho, apresentado à Câmara Municipal de Sintra em 1997, aprovado por esta Autarquia em 2001, e ali esquecido, há já sete anos, numa qualquer gaveta, caracteriza-se por um conjunto de equipamentos do maior interesse.
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O pegarium é uma estrutura leve, transparente, de metal e vidro, cobrindo as pegadas a fim de as resguardar das intempéries.
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O edifício principal dispõe de um auditório, de salas de exposições temporárias e de outras dependências adequadas a este tipo de equipamentos.
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O poço, escavado na rocha, sob o edifício principal, é uma escadaria em espiral que permitirá a observação directa dos aspectos litológicos, paleontológicos e estruturais do substrato local. Ao descê-lo, o visitante vai observando camadas sedimentares sucessivamente mais antigas, ou seja, vai recuando no tempo até à época dos dinossáurios que aqui viveram.
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O jardim dos minerais e rochas é um espaço ao ar livre destinado a mostrar as rochas e os minerais da região, com relevo especial dado à Serra de Sintra, e explicar a evolução geológica desta parcela do território.
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O jardim do Cretácico constituirá um mostruário das espécies botânicas vindas desse tempo, complementado com réplicas de dinossáurios e de outros animais seus contemporâneos.
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Numa época em que o turismo de natureza cresce significativamente por todo o mundo, o potencial desta jazida, como pólo de atracção para este tipo de actividade económica, é grande e é maior, ainda, se tivermos em conta a sua situação privilegiada às portas de Lisboa, numa região tão procurada como é a do grande concelho de Sintra, representando para Portugal uma significativa mais valia. Assim o demonstram outros equipamentos congéneres existentes em países que já despertaram para o significado do património natural, num mundo tornado pequeno pelos progressos ao nível dos transportes e das comunicações.

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«Jornal de Sintra», de 14 de Novembro de 2008
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NOTA: O autor também é 'contribuidor' do blogue Sorumbático

The Portuguese Discoverers (XXIV)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 27/11/08

At Sagres and at the nearby port of Lagos, experiments in shipbuilding produced a new type of ship without which Prince Henry's exploring expeditions and the great seafaring adventures of the next century would not have been possible. The caravel was a ship specially designed to bring explorers back. The familiar heavy, square-rigged barca or the still larger Venetian carrack was suited for sailing with the wind. These worked well enough within the Mediterranean, where the size of a trading vessel was a measure of its profit, and by 1450 there were Venetian square-riggers of six hundred tons or more. A larger ship meant a bigger profit from more cargo.

A discovery ship had its own special problems. It was not a cargo-vessel, it had to go long distances in unfamiliar waters and had to be able, if necessary, to sail into the wind. An exploring ship was no good unless it could get there and back. Its important cargo was news, which could be carried in a small parcel, even in the mind of one man, but which was definitely a return product, While discovery ships did not need to be big, they had to be maneuverable, and adept at the return. […]

"The Portuguese Discoverers", from "The Discoverers", Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Daniel J. Boorstin - antigo director da Biblioteca do Congresso