domingo, 7 de dezembro de 2008

O que mudou desde 25/11 em Goa e 26/11 em Mumbai?

via Folhas de História de História - Mestra da Vida em 06/12/08
Pouco ou nada parece ter mudado desde 25/11 em Goa (1510) e 26/11 em Mumbai (2008). Vejamos alguns paralelos nestas duas ocasiões. Escrevia Afonso de Albuquerque ao seu rei D. Manuel em 22 de Dezembro, quase um mês após o seu ataque decisivo à Goa: «Na tomada de Goa e desbarato de suas estâncias e entrada [...]

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

The Portuguese Discoverers (XXIX)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 05/12/08

When Gil Eannes reported back to Prince Henry in 1433 that Cape Bojador was in fact impassable, the Prince was not satisfied. Would his Portuguese pilots be as timid as those Mediterranean or Flemish sailors who plied only the familiar ways? Surely this Gil Eannes, a squire whom he knew well in his own household, was made of bolder stuff. The Prince sent him back in 1434 with renewed promise of reward for yet another try. This time, as Eannes approached the cape he steered westward, risking the unknown perils of the ocean rather than the known perils of the cape. Then he turned south and discovered that the cape was already behind him. Landing on the African shore, he found it desolate, but by no means the gates of hell. "And as he purposed," Zurara reported, "so he performed – for in that voyage he doubled the Cape, despising all danger, and found the lands beyond quite contrary to what he, like others, had expected. And although the matter was a small one in itself, yet on account of its daring it was reckoned great."

"The Portuguese Discoverers", from "The Discoverers", Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Daniel J. Boorstin - antigo director da Biblioteca do Congresso

Quando e como é que o povo judeu foi inventado

via Um Homem das Cidades de noreply@blogger.com (Diogo) em 25/11/08
O historiador Shlomo Sand afirma que a existência das diásporas do Mediterrâneo e da Europa Central é o resultado de antigas conversões ao judaísmo. Para ele, o exílio do povo judeu é um mito, nascido de uma reconstrução a posteriori sem fundamento histórico.

Shlomo Sand nasceu em 1946 em Linz (Áustria) e viveu os dois primeiros anos da sua vida em campos de refugiados judeus na Alemanha. Em 1948 os seus pais emigram para Israel, onde cresceu. Cursou História, tendo começado na Universidade de Telavive e terminado na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris. Desde 1985 lecciona História Contemporânea na Universidade de Telavive. Publicou em francês «L'Illusion du politique. Georges Sorel et le débat intellectuel 1900 » (La Découverte, 1984), «Georges Sorel en son temps», com J. Julliard (Seuil, 1985), «Le XXe siècle à l'écran» (Seuil, 2004) e «Les mots et la terre. Les intellectuels en Israël» (Fayard, 2006).


Jornal Israelita Haaretz - 21/03/2008

Demolindo uma "Mitologia nacional"


Artigo de Ofri Ilani

Tradução por Atrida

Entre a profusão de heróis nacionais que o povo de Israel produziu ao longo de gerações, a sorte não sorriu a Dahia Al-Kahina que chefiou os Berberes de Aures, na África do Norte. Embora tendo sido uma judia indomável, poucos israelitas ouviram alguma vez o nome desta rainha guerreira que, no século VII da era cristã, unificou várias tribos berberes e chegou mesmo a repelir o exército muçulmano que invadiu o norte de África. A razão poderá estar no facto de Dahia Al-Kahina ter nascido numa tribo berbere convertida (ao judaísmo), ao que parece várias gerações antes do seu nascimento, por volta do século VI.

Segundo o historiador Shlomo Sand, autor do livro «Quando e como é que o povo judeu foi inventado» [Quand et comment le peuple juif a-t-il été inventé?] (aux éditions Resling - em hebraico), a tribo da rainha Dahia Al-Kahina assim como outras tribos do Norte de África convertidas ao judaísmo são a principal origem a partir da qual se desenvolveu o judaísmo sefardita. Esta afirmação, referente às origens dos judeus do Norte de África a partir de tribos locais que foram convertidas – e não a partir de exilados de Jerusalém – é apenas uma componente de uma ampla tese desenvolvida na nova obra de Sand, professor do departamento de História da Universidade de Telavive.

Neste livro, Sand tenta demonstrar que os judeus que vivem hoje em Israel e noutros locais do mundo, não são de forma nenhuma os descendentes do antigo povo que vivia no reino de Judeia na época do primeiro e segundo templo. Eles devem a sua origem, segundo ele, a povos diversos que se converteram ao longo da história em diversos locais da bacia do Mediterrâneo e regiões vizinhas. Não apenas os judeus da África do Norte descenderiam na sua maior parte de pagãos convertidos, mas também os judeus iemenitas (vestígios do reino Himiarita, no sul na península arábica, que se convertera ao judaísmo no século IV), e os judeus Asquenazes da Europa de Leste (refugiados do reino Khazar convertido ao judaísmo no século VIII).

Ao contrário de outros «novos historiadores» que procuraram abalar as convenções da historiografia sionista, Shlomo Sand não se contenta em regressar a 1948 ou aos princípios do sionismo, mas remonta a milhares de anos atrás. Shlomo tenta provar que o povo judeu nunca existiu como um «povo-raça» partilhando uma origem comum, mas que é uma multitude variada de grupos humanos que, em momentos diferentes da história, adoptaram a religião judaica. Segundo Shlomo, para alguns pensadores sionistas, esta concepção mítica dos judeus como um povo antigo conduz a um pensamento verdadeiramente racista: «Existiram na Europa períodos onde, se alguém tivesse declarado que todos os judeus pertenciam a um povo de origem não judia, essa pessoa seria julgada imediatamente como anti-semita. Hoje, se alguém ousa sugerir que aqueles que são considerados judeus no mundo (…) nunca constituíram e não constituem nem um povo nem uma nação, seria imediatamente denunciado como uma pessoa que odeia Israel.»

De acordo com Shlomo Sand, a descrição dos judeus como um povo de exilados, errante e mantendo-se à parte, que «vagueando sobre mares e terras, chegaram ao fim do mundo e que, finalmente, com a chegada do sionismo, fazem meia-volta para retornar em massa à sua terra órfã», esta descrição é necessária a uma «mitologia nacional». Tanto como outros movimentos nacionais na Europa, que revisitaram uma sumptuosa idade de ouro para em seguida, graças a ela, fabricar o seu passado heróico – por exemplo, a Grécia clássica ou as tribos teutónicas – a fim de provar que eles existiam há muito, «tal como, os primeiros brotos do nacionalismo judeu se viraram para essa luz intensa cuja fonte era o reino mitológico de David.»

Mas então, quando é que o povo judeu foi realmente inventado, segundo a tese de Sand? «Na Alemanha do século dezanove, num determinado momento, os intelectuais de origem judaica, influenciados pelo carácter 'volkiste' do nacionalismo alemão, atribuíram-se a missão de fabricar um povo "retrospectivamente", com o desejo de criar uma nação judaica moderna. A partir do historiador Heinrich Graetz, os intelectuais judeus começam a delinear a história do judaísmo como a história de um povo que tinha um carácter nacional, que se tornou um povo errante e que finalmente fez meia-volta para regressar à sua pátria.»


Entrevista a Shlomo Sand conduzida por Ofri Ilani:

Ofri: De facto, o essencial do seu livro não trata da invenção do povo judeu pelo nacionalismo moderno mas da questão de saber de onde vêm os judeus.

Shlomo: O meu projecto inicial consistia na análise de uma categoria específica de materiais historiográficos modernos e examinar como foi inventada a ficção do povo judeu. Mas assim que comecei a confrontar as fontes históricas deparei-me com contradições. E foi isso que me impeliu: embrenhei-me no trabalho sem saber a que conclusões chegaria. Analisei documentos originais de modo a examinar a atitude de autores antigos - aquilo que haviam escrito a propósito da conversão.

Shlomo Sand, historiador do século XX, tinha até agora estudado a história intelectual da França moderna (no seu livro "L'intellectuel, la vérité et le pouvoir" [O intelectual, a verdade e o poder], Am Oved ed. , 2000 - em hebraico), e a relação entre o cinema e a história política («Le cinéma comme Histoire» ["O cinema como História] Am Oved, 2002 – em hebraico). De forma pouco comum para historiadores de profissão, ele debruça-se, no seu novo livro, sobre os períodos que ele nunca tinha estudado - geralmente apoiando-se em pesquisadores anteriores que têm avançado com posições não ortodoxas sobre as origens dos judeus.


Ofri: Especialistas da história do povo judeu afirmam que você se ocupa de temas que não compreende e que se baseia em autores que não consegue ler no texto original.

Shlomo: É um facto que sou um historiador da França e da Europa, e não da Antiguidade. Sabia que assim que me ocupasse de períodos antigos como esses, ficaria exposto a críticas assassinas vindas de historiadores especializados nesses campos de estudo. Mas disse a mim próprio que não me poderia apoiar apenas em material historiográfico moderno sem examinar os factos que esse material descreve. Se não o tivesse feito eu próprio, teria sido necessário esperar o tempo de uma geração. Se tivesse continuado a trabalhar sobre França, talvez tivesse obtido uma cátedra na universidade e uma glória provincial. Mas tinha decidido renunciar à glória.

«Após o povo ter sido exilado à força da sua própria terra, permaneceu-lhe fiel em todos os países da sua dispersão e não cessou de orar e esperar o seu regresso à terra para aí restaurar a sua liberdade política»: eis o que afirma o preâmbulo da Declaração de Independência [de Israel]. É também a citação que abre o terceiro capítulo do livro de Shlomo Sand "A Invenção da Diáspora". De acordo com Sand, o exílio do povo judeu da sua própria terra nunca teve lugar.


«O paradigma supremo do exílio era necessário para que se construísse uma memória de longo prazo na qual um povo-raça imaginário e exilado é colocado na continuação directa do "Povo do Livro" que o antecedeu», Sand explica. Sob a influência de outros historiadores que se debruçaram nos últimos tempos sobre esta questão, ele afirma que o exílio do povo judeu é, na origem, um mito cristão, que descreve o exílio como uma punição divina castigando os judeus pelo pecado de terem rejeitado o evangelho cristão.

Comecei a procurar livros sobre o exílio – um acontecimento fundador na História Judaica - quase como o genocídio; mas, para meu grande espanto, descobri que não existia literatura sobre o tema. O motivo é que ninguém exilou um povo desta terra. Os Romanos não deportaram povos e não o poderiam ter feito mesmo que o pretendessem. Não tinham nem comboios nem camiões para poder deportar populações inteiras. Uma logística dessas não existiu antes do século XX. Foi, de facto, a partir daí que surgiu o meu livro: da compreensão que a sociedade judaica não tinha sido dispersa nem exilada.


Ofri: Se o povo não foi exilado, está na realidade a afirmar que os verdadeiros descendentes dos habitantes do reino da Judeia são os Palestinianos.

Shlomo: Nenhuma população se mantém pura ao longo de um período de milhares de anos. Mas a possibilidade de que os Palestinianos sejam os descendentes do antigo povo da Judeia são bastante maiores que a possibilidade que você ou eu [ambos judeus] o sejamos. Os primeiros sionistas, até à insurreição árabe [1936-1939], sabiam que não existira nenhum exílio e que os Palestinianos eram os descendentes dos habitantes da região. Eles sabiam que os camponeses não partem de um local a não ser que sejam expulsos. Até Yitzhak Ben Zvi, o segundo presidente do Estado de Israel, escreveu em 1929 que "a grande maioria dos fellahs (camponeses árabes) não são originários dos invasores árabes mas, muito antes disso, dos fellahs judeus que constituíam a maioria da região".


Ofri: E como é que milhões de judeus apareceram à volta do Mediterrâneo?

Shlomo: O povo não se disseminou, foi a religião judaica que se propagou. O judaísmo era uma religião prosélita (que convertia outras pessoas à sua religião). Contrariamente ao que se pensa, no judaísmo antigo exista uma vontade muito forte de converter. Os Hasmoneanos foram os primeiros a começar a criar grande número de judeus por meio de conversões massivas, sob a influência do helenismo. São estas conversões, desde a revolta dos Hasmoneanos até à de Bar Kochba, que prepararam o terreno para a posterior difusão massiva do Cristianismo. Após o triunfo do Cristianismo, no século IV, o movimento de conversão ao judaísmo foi travado no mundo cristão e houve uma diminuição brutal do número de judeus. Pode-se supor que muitos judeus convertidos na zona mediterrânica se tenham tornado cristãos. Então, o judaísmo começa a difundir-se noutras regiões pagãs - por exemplo, no Iémen e no norte de África. Se isto não tivesse sucedido - se o judaísmo não se tivesse continuado a converter no mundo pagão – teria ficado uma religião completamente marginal, se é que não teria mesmo desaparecido.


Ofri: Como é que chegou à conclusão que os judeus do Norte de África são descendentes de Berberes convertidos?

Shlomo: Interroguei-me por que razão comunidades judaicas tão importantes podiam ter surgido em Espanha. Reparei então que Tariq Ibn-Ziyad, comandante supremo dos muçulmanos que invadiram a Espanha, era berbere e que a maioria dos seus soldados eram também berberes. O reino berbere judeu de Dahia Al-Kahina fora vencido apenas 15 anos antes. E a verdade é que há diversas fontes cristãs que declaram que muitos de entre os invasores de Espanha eram convertidos ao judaísmo. A origem da grande comunidade judaica de Espanha eram estes soldados berberes convertidos ao judaísmo.

Segundo Sand, o contributo demográfico mais decisivo para a população judaica no mundo deu-se na sequência da conversão do reino khazar - o vasto império estabelecido na Idade Média nas estepes circundantes do rio Volga e que, no auge do seu poder, dominava desde a actual Geórgia até Kiev. No século VIII os reis khazares adoptaram a religião judaica e fizeram do hebreu a língua escrita do reino. A partir do século X o reino estava já enfraquecido e no século XIII foi derrotado em toda a linha pelos invasores mongóis e o destino da sua população judaica perde-se então nas brumas.


Shlomo Sand revisita a hipótese, já avançada por historiadores dos séculos XIX e XX, segundo a qual os khazares convertidos ao judaísmo seriam a principal origem das comunidades judaicas da Europa de Leste: «No início do século XX há uma grande concentração de judeus na Europa de Leste; só na Polónia são três milhões», afirma. «A historiografia sionista pretende que a sua origem provém da comunidade judaica mais antiga da Alemanha, mas essa historiografia não explica por que motivo o reduzido número de judeus originários da Europa Ocidental - de Mainz e Worms - pôde fundar o povo yiddish da Europa de Leste; na verdade, os judeus da Europa de Leste são uma mistura de khazares e eslavos rechaçados para Ocidente


Ofri: Se os judeus da Europa de Leste não são originários da Alemanha porque é que falavam yiddish, que é uma língua germânica?

Shlomo: Os judeus, a leste, formavam um grupo que dependia da burguesia alemã e foi dessa forma que adoptaram palavras alemãs. Aqui, apoio-me nas investigações do linguista Paul Wechsler, da Universidade de Telavive, que demonstrou que não existe ligação etimológica entre a língua judaica alemã da Idade Média e o yiddish. O Rabi Yitzhak Bar Levinson, já em 1928, dizia que a antiga língua dos judeus não era o yiddish. Até Ben Tzion Dinour, pai da historiografia israelita, não tinha problemas em apontar os khazares como a origem dos judeus da Europa de Leste, descrevendo a Khazaria como a "mãe das comunidades de exílio" na Europa de Leste. No entanto, desde 1967 que qualquer pessoa que fale dos khazares como sendo os antepassados dos judeus da Europa de Leste é encarado como bizarro e delirante.


Ofri: Na sua opinião, porque é que a ideia de uma origem khazar é tão ameaçadora?

Shlomo: É evidente que o receio se prende com a contestação do direito histórico sobre esta terra [Israel]. Revelar que os judeus não vieram da Judeia parece reduzir a legitimidade da nossa presença aqui. Desde o início do período de descolonização, os colonos não podem vir simplesmente dizer: «viemos, vencemos e agora somos daqui» - como também afirmaram os americanos, os brancos da África do Sul e os australianos. Existe um receio profundo que seja posta em causa o nosso direito à existência.


Ofri: E esse receio não tem fundamento?

Shlomo: Não. Não creio que o mito histórico do exílio e da errância seja a origem da minha legitimidade em estar aqui [em Israel]. Para mim é indiferente saber que sou de origem khazar. Não receio este abalar da nossa existência pois penso que a natureza do Estado de Israel ameaça de forma bem mais grave a sua existência. O que pode fundar a nossa existência aqui não são direitos históricos mitológicos mas o facto de virmos a estabelecer aqui uma sociedade aberta, uma sociedade do conjunto de todos os cidadãos israelitas.


Ofri: No fundo, afirma que não existe um povo judeu.

Shlomo: Não reconheço um povo judeu internacional. Reconheço um "povo yiddich" que existia na Europa de Leste, que não é uma nação mas onde é possível ver uma civilização yiddish com uma cultura popular moderna. Penso que o nacionalismo judeu se desenvolveu a partir desta base yiddish. Reconheço igualmente a existência de uma nação israelita e não contesto o seu direito à soberania. Mas o sionismo, tal como o nacionalismo árabe ao longo dos anos, não estão preparados para o reconhecer.

Do ponto de vista do sionismo, este Estado não pertence aos seus cidadãos, mas sim ao povo judeu. Reconheço uma definição de Nação: um grupo humano que pretende viver de forma soberana. Mas a maioria dos judeus em todo o mundo não quer viver no Estado de Israel, apesar de nada os impedir a que o façam. Assim, não se pode ver neles uma nação.


Ofri: O que é que existe de perigoso no facto de os judeus imaginarem que pertencem a um só povo? Por que razão isso seria errado?

Shlomo: No discurso israelita sobre as suas raízes existe uma dose de perversão. É um discurso etnocêntrico, biológico, genético. Mas Israel não tem existência como estado judaico: se Israel não se desenvolve e se transforma numa sociedade aberta e multicultural, teremos um Kosovo na Galileia. A consciência de um direito sobre este local deve ser mais flexível e variada e se eu contribuí com este livro para que eu próprio e os meus filhos possamos viver aqui com os outros, neste Estado, numa situação mais igualitária, terei feito a minha parte.

Devemos começar a trabalhar duramente para transformar este local que é o nosso numa república israelita, onde nem a origem étnica nem a crença serão pertinentes à luz da lei. Quem conhece as jovens elites entre os árabes de Israel pode constatar que eles não concordam em viver num Estado que proclama que não é o seu. Se fosse palestiniano rebelar-me-ia contra um tal Estado, mas é também como israelita que me rebelo contra este Estado.



Ofri: A questão que se põe é saber se, para chegar a tais conclusões, seria necessário ir até ao reino dos Khazars e ao Reino Himiarita.

Shlomo: Não escondo que sinto um grande incómodo em viver numa sociedade em que os princípios nacionais que a dirigem são perigosos e que esse incómodo serviu de motor para a minha pesquisa. Sou cidadão deste país mas também sou historiador e, enquanto historiador, tenho obrigação de escrever a História e de examinar os textos. Foi isso que fiz.


Ofri: Se o mito do sionismo é o mito do povo judeu que retornou do exílio a esta terra, qual será o mito do Estado que imagina?

Shlomo: Um mito de futuro é, a meu ver, preferível a mitologias do passado e de se fechar em si próprio. Para os americanos, e também para os europeus de hoje, o que justifica a existência de uma Nação é a promessa de uma sociedade aberta, avançada e opulenta. Os condimentos israelitas existem mas há que lhes acrescentar, por exemplo, festas que reúnam todos os israelitas. Reduzir um pouco os dias comemorativos e acrescentar dias consagrados ao futuro. E também, por exemplo, acrescentar uma hora para comemorar a Nakba (literalmente, a "catástrofe" – o termo palestiniano para aquilo que aconteceu quando Israel foi fundado], entre o Dia do Senhor e o Dia da Independência.
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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Entre o tu e o vossemecê

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 04/12/08
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COMO QUASE TODA A GENTE, trato por tu os colegas, amigos e familiares, da minha faixa etária e, ainda, quase sempre, os mais novos, numa tradição cultural trazida do berço. E foi o que aconteceu com a maioria dos meus alunos. Sei, por experiência própria, que esse tratamento representa, para eles, uma aproximação recebida com agrado. No meu tempo de aluno, na Faculdade, só o saudoso Prof. Germano Sacarrão nos dava o tu, e isso derretia a barreira, grande ou pequena, que sempre existe entre o docente e o discente. É como que o professor a aceitar o aluno no seio da sua família, o que, em meu entender, é bom para ambos.
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Aos mais velhos dou sempre senhoria e aos da minha geração, trato-os pelos seus nomes. Não aprecio o você, sobretudo, quando me é dirigido por um desconhecido. Tolero-o sempre que é pronunciado por pessoas simples, vindas de regiões onde essa forma de relacionamento é tão legítima como o vossemecê da minha gente. Detesto-o e reajo mal se o você sai da boca de um estranho de posição socioprofissional elevada, como, por exemplo, um médico ou um juiz. Choca-me ver e ouvir, nas reportagens dos telejornais, o ou a jovem jornalista tratarem por você os entrevistados, sobretudo se estes são mais velhos. Competiria aos responsáveis das redacções, providenciar no sentido de corrigir uma tal deselegância.
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Cresci a tratar os mais velhos por senhor ou por vossemecê e aprecio ser tratado desta maneira. Dispenso o "senhor doutor" e o "senhor professor" que, mercê da profissão, carreguei anos e anos a fio, e rejeito liminarmente o "vossa excelência". No que foi o meu local de trabalho, alguns dos nossos funcionários de posição hierárquica mais simples, para quem o você dado aos mais velhos é cultural, usavam, muitas vezes, este mesmo você nas suas conversas comigo, tendo por suporte um sentimento de aproximação afectiva. Este você amistoso é muitíssimo diferente do que é dito pelo médico ao utente do Hospital ou do Centro de Saúde. Diminuído fisicamente e, naturalmente, também em termos psicológicos, o doente vê no clínico - tantas vezes um jovem acabado de se licenciar, deslumbrado pela bata branca que o distingue e pelo estetoscópio que traz ao pescoço - o remédio para os males que o afligem e quase se lhe submete como a uma divindade. Submissão que encoraja alguns destes "senhores doutores" a tratar por tu os pacientes que se lhe afiguram de condição mais humilde, o que, além de muito feio, é francamente lamentável.

The Portuguese Discoverers (XXVIII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 04/12/08

At home in Sagres Prince Henry knew that he could not conquer the physical barrier unless he first conquered the barrier of fear.

He would never reach farther into the unknown unless he could persuade his seamen to go beyond Cape Bojador. Between 1424 and 1434 Prince Henry sent out fifteen expeditions to round the inconsequential but threatening cape. Each returned with some excuse for not going where none had gone before. At the legendary cape the sea bounced with cascades of ominous red sands that crumbled from the overhanging cliffs, while shoals of sardines swimming in the shallows roiled the waters between whirlpools. There was no sign of life along the desert coast. Was this not the very image of the world's end?

"The Portuguese Discoverers", from "The Discoverers", Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Daniel J. Boorstin - antigo director da Biblioteca do Congresso

Carta de Pedro Teotónio Pereira a Salazar

Carta de Pedro Teotónio Pereira a Salazar

via Caminhos da Memória de Caminhos da Memória em 03/12/08
Este texto insere-se num conjunto de cartas e documentos trocados entre Salazar e Pedro Teotónio Pereira. João Miguel Almeida concretizou a importante recolha de correspondência trocada entre estas duas figuras do regime de 1945 a 1968. Esta carta não se encontra datada mas foi certamente escrita em 31/10/1961 ou pouco depois. Um texto de João Miguel [...]


The Portuguese Discoverers (XXVII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 03/12/08

When we look at a modern map of Africa, we look long and need a magnifying glass before we can find Cape Bojador (Portuguese for "Bulging Cape"), on the west coast, just south of the Canary Islands. Some thousand miles north of the continent's greatest westward bulge we see a tiny bump on the coastal outline, a "bulge" so slight that it is almost imperceptible on maps of the full continent. The sandy barrier there is so low that it can be seen only when one comes close, where was no worse than a score of other barriers that skillful Portuguese sailors had passed and survived. But this particular Cape Bojador they had made their ne plus ultra. You dare not go beyond!

When we see the enormous risky promontories, the Cape of Good Hope or Cape Horn, that European seafarers would manage to round within the next century, we must recognize Bojador as something quite else. It was a barrier in the mind, the very prototype of primitive obstacles to the explorer. […]

"The Portuguese Discoverers", from "The Discoverers", Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Daniel J. Boorstin - antigo director da Biblioteca do Congresso

As Bocas do Inferno

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 30/11/08
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Foto de Philippe Bourseiller
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PLATÃO, O FILÓSOFO GREGO que viveu entre 429 e 347 a.C., admitia a existência de um rio subterrâneo de lama e lava fervente – a que chamou Pirofiláceo - que serpenteava em profundidade, alimentando as bocas vulcânicas. O geógrafo grego Estrabão (63 a. C.-24 d.C.) relacionava a elevação das montanhas com a existência de um fogo central que alimentava os vulcões e, depois de observar o Etna, escrevia que era o vento que lhes ateava o fogo, em consonância com Aristóteles que tirara essa conclusão, três séculos antes, ao descrever uma erupção nas ilhas Lipari (Itália). No séc. XVIII, a escola alemã de Freiberga, defendia que os vulcões expeliam rocha fundida pelo calor da combustão de carvão existente no subsolo, uma explicação que era apoiada pelo conhecimento que já então se tinha da existência de importantes minas deste combustível fóssil. Assim, os vulcões eram vistos não só como as "bocas do inferno", segundo a crença religiosa de então, mas também como respiradouros por onde entrava o ar, a fim de assegurar a combustão. Só mais tarde, em 1796, com o dominicano Patruzzi, se consolidou a ideia de um fogo interior, não de combustão, mas sim de uma massa fundida, incandescente, à semelhança da lava ou do ferro derretido. Para a ciência moderna, os vulcões são entendidos como aparelhos de comunicação de câmaras magmáticas profundas com o exterior. As ilhas vulcânicas não são mais do que vulcões submarinos que cresceram a ponto de emergir.
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À semelhança do Fuji, no Japão, o vulcão do Pico, nos Açores, um pronunciado relevo cónico, com 3000 metros de altura, é um edifício vulcânico, em que as escoadas de lava alternaram com cinzas e outros materiais expelidos durante episódios intercalares de actividade explosiva. O vulcanismo que atingiu a região de Lisboa, há 72 Ma, foi deste tipo. Dele resultou uma alternância de camadas de basalto com outras de tufos ainda observáveis na cidade e arredores. Um outro tipo de vulcões caracteriza-se pelo relevo igualmente cónico mas muito pouco acentuado, edificado por sucessivas escoadas de lava muito fluidas. Nestes, a rocha fundida e incandescente transborda da cratera central, ou brota de outras saídas pontuais, e escoa-se em torrentes e rios de lava com vários quilómetros de extensão. São deste tipo os vulcões das ilhas havaianas. Ocasionalmente, a parte central de um vulcão afunda-se no interior da respectiva câmara magmática, uma vez esta esgotada. Formam-se, assim, as caldeiras de colapso, que podem, ou não, encher-se de água das chuvas. São exemplos destas estruturas de abatimento, entre outras, as caldeiras das Sete Cidades, do Fogo e das Furnas, na Ilha de S. Miguel, Açores

«DN» de 23 de Novembro de 2008