quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Carta de um Aluno ao Professor de História

via Legião Patriótica de Legionário em 05/01/09
Exmo Senhor Professor,

Sou obrigado a escrever-lhe, nesta data, depois de ter escutado, com toda a atenção, a aula de História, que nos deu sobre a Revolução de Abril de 1974.
Li todos os apontamentos que tirei na aula e os textos de apoio que me entregou para me preparar para o teste, que o Senhor Professor irá apresentar-nos, na próxima semana, sobre a Revolução dos Cravos.

Disse o Senhor Professor que a Revolução derrubou a ditadura salazarista e veio a permitir o final da Guerra Colonial, com a conquista da Liberdade do Povo Português e dos Povos dos territórios que nós dominávamos e que constituíam o nosso Império. Afirmou ainda que passámos a viver em Democracia e que iniciámos uma nova política de Desenvolvimento, baseada na economia de mercado.

Informou-nos também que a Censura sobre os órgãos de Comunicação Social terminara e que a PIDE/DGS, a Polícia Política do Estado Fascista acabara, dando a possibilidade aos Portugueses de terem liberdade de expressão, opinião e pensamento. Hoje, todos eles podem exprimir as suas opiniões nos jornais, rádio, televisão, cinema e teatro, sem receio de serem presos.

Disse igualmente que Portugal era um país isolado no contexto internacional e que agora fazemos parte da União Europeia e temos grande prestígio no mundo. Que somos dos poucos países da União a cumprir, na íntegra, os cinco critérios de convergência nominal do Tratado de Maastricht para fazermos parte do pelotão da frente com vista ao Euro.

Li os textos de apoio do Professor Fernando Rosas, onde me informam que os Capitães de Abril são considerados heróis nacionais, como nunca houvera antes na nossa história, e que eles são os responsáveis por toda a modernidadedo nosso país, pois se não tivesse acontecido a memorável Revolução, estaríamos na cauda da Europa e viveríamos em grande atraso, em relação aos outros países, e num total obscurantismo.
Tinha já tudo bem compreendido e decorado, quando pedi ao meu pai que lesse os apontamentos e os textos para me fazer perguntas sobre a tal Revolução, com vista à minha preparação para o teste, pois eu não assisti ao acontecimento histórico, por não ter ainda nascido, uma vez que, como sabe, tenho apenas dezasseis anos de idade.
Com o pedido que fiz ao meu pai, começaram os meus problemas pois ele ficou horrorizado com o que o Senhor Professor me ensinou e chamou-lhe até mentiroso porque conseguira falsificar a História de Portugal. Ele disse-me que assistira à Revolução dos Cravos dos Capitães de Abril e que vira com os olhos que a terra há-de comer o que acontecera e as suas consequências.

Disse-me que os Capitães foram os maiores traidores que a nossa História conhecera, porque entregaram aos comunistas todo o nosso império, enganando os Portugueses e os naturais dos territórios, que nos pertenciam por direito histórico. Que a Guerra no Ultramar envolvera toda a sua geração e que nela sobressaíra a valentia dum povo em armas, a defender a herança dos nossos maiores. Que já não existia ditadura salazarista, porque Salazar já tinha morrido na altura e que vigorava a Primavera Marcelista que, paulatinamente, estava a colocar Portugal na vanguarda da Europa. Que hoje o nosso país, conjuntamente com a Grécia, são os países mais atrasados da Comunidade Europeia. Que Portugal já desfrutava de muitas liberdades ao tempo do Professor Marcelo Caetano, que caminhávamos para a Democracia sem sobressaltos, que os jovens, como eu, tinham empregos assegurados, quando terminavam os estudos, que não se drogavam, que não frequentavam antros de deboche a que chamam discotecas, nem viviam na promiscuidade sexual, que hoje lhes embotam os sentidos.
Disse-me também que ele sabia o que era Deus, a Pátria e a Família e que eu sou um ignorante nessas matérias.

Aliás, eu nem sabia que a minha Pátria era Portugal, pois o Senhor Professor ensinou-me que a minha Pátria era a Europa. O meu pai disse-me que os governantes de outrora não eram corruptos e que após o 25 de Abril nunca se viu tanta corrupção como actualmente. Também me disse que a criminalidade aumentara assustadoramente em Portugal e que já há verdadeiras máfias a operar, vivendo à custa da miséria dos jovens drogados e da prostituição, resultado do abandono dos filhos de pais divorciados e dum lamentável atraso cultural, em virtude de um Sistema Educativo, que é a nossa maior vergonha, desde há mais vinte anos.

Eu fiquei de boca aberta, quando o meu pai me disse que a Censura continuava na ordem do dia, porque elemanda artigos para alguns jornais e não são publicados, visto que ele diz as verdades, que são escamoteadas ao Povo Português, e isso não interessa a certos órgãos de Comunicação Social ao serviço de interesses obscuros.

O meu pai diz que o nosso país é hoje uma colónia de Bruxelas, que nos dá esmolas para nós conseguirmos sobreviver, pois os tais Capitães de Abril reduziram Portugal a uma "pobreza franciscana" e que o nosso país já não nos pertence e que perdemos a nossa independência. Perguntei-lhe se ele já ouvira falar de Mário Soares, Almeida Santos, Rosa Coutinho, Melo Antunes, Álvaro Cunhal, Vítor Alves, Vítor Crespo, Lemos Pires, Vasco Lourenço, Vasco Gonçalves, Costa Gomes, Pezarat Correia… Não pude acrescentar mais nomes, que fixara com enorme sacrifício e trabalho de memória, porque o meu pai começou a vomitar só de me ouvir pronunciar estes nomes. Quando se sentiu melhor, disse-me que nunca mais lhe falasse em tais "sacanas de gajos", mas que decorasse antes os nomes de Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Diogo Cão, D. João II, D. Manuel I, Bartolomeu Dias, Afonso de Albuquerque, D. João de Castro, Camões, porque os outros não eram dignos de ser Portugueses, mas estes eram as grandes e respeitáveis figuras da nossa História. Naturalmente que fiquei admirado, porque o Senhor Professor nunca me falara nestas personagens tão importantes e apenas me citara os nomes que constam dostextos do Professor Fernando Rosas.

Senhor Professor, dada a circunstância do meu pai ter visto, ouvido, sentido e lido a Revolução de Abril, estou completamente baralhado, com o que o Senhor me ensinou e com a leitura dos textos de apoio. Eu julgo que o meu pai é que tem razão e, por isso, no próximo teste, vou seguir os conselhos dele.
Não foi o Senhor Professor que disse que a Revolução nos deu a liberdade de opinião? Certamente terei uma nota negativa, mas o meu pai nunca me mentiu e eu continuo a acreditar nele. Como ele, também eu vou pôr uma gravata preta no dia 25 de Abril, em sinal de luto pelos milhares de mortos havidos no nosso Império, provocados pela Revolução dos Espinhos, perdão, dos Cravos. O Senhor disse-me que esta Revolução não vertera uma gota de sangue e agora vim a saber que militares negros que serviram o exército português, durante a guerra, que o Senhor chamou colonial, foram abandonados e depois fuzilados pelos comunistas a quem foram entregues as nossas terras.

Desculpe-me, Senhor Professor, mas o meu pai disse-me que o Senhor era cego de um olho, que só sabia ler a História de Portugal com o olho esquerdo. Se o Senhor tivesse os dois olhos não me ensinaria tantas asneiras, mas que o desculpava porque o Senhor era um jovem e certamente só lera o que o Professor Fernando Rosas escrevera.
A minha carta já vai longa, mas eu usei de toda a honestidade e espero que o Senhor Professor consiga igualmente ser honesto para comigo, no próximo teste, quando o avaliar.

Com os meus respeitosos cumprimentos,
O seu aluno

(Recebido por email.).

A NOSSA GRANDE MESTIÇAGEM

A NOSSA GRANDE MESTIÇAGEM

via Legião Patriótica de Legionário em 31/12/08
Ana Gershenfeld, Público 2/12/2008

Se aprendeu na escola que os judeus e os mouros foram expulsos da Península Ibérica pela Inquisição, desengane-se. A população actual da Península Ibérica, e de Portugal em especial, revela uma enorme mestiçagem com estes dois povos, promovida precisamente... pela intolerância religiosa. Os genes contam a história.

Não é raro ouvir um português dizer, falando com algum orgulho das suas hipotéticas mas exóticas raízes, que "tem um avô judeu" - e isso, apesar de não haver, oficialmente, muitos judeus a residir em Portugal desde há uns 500 anos. Mas a acreditar num estudo genético dos homens da Península Ibérica agora publicado, esta afirmação, que até aqui era mais uma boutade do que outra coisa, revela-se muito mais certeira do que se pensava. O estudo sugere que o tetra-tetra-tetra-avô de muitos portugueses terá sido um judeu sefardita - ou um muçulmano do Norte de África - que, para escapar à morte e à deportação, à "limpeza étnica", para usar um termo moderno, promovida pela Inquisição, se terá convertido ao cristianismo, forçado ou por vontade própria. Fundiu-se na população geral e abandonou a sua fé e cultura originais, para depois acabar por esquecê-las.

O estudo, ontem publicado on-line no American Journal of Human Genetics, tem por título O Legado Genético da Diversidade Religiosa e da Intolerância: Linhagens paternas dos cristãos, judeus e muçulmanos na Península Ibérica e abrange a totalidade do que são hoje Espanha, Portugal e as ilhas Baleares. Mostra que a mestiçagem dos povos ibéricos ancestrais com os judeus e com populações do Magrebe deixou marcas detectáveis nos genes das populações ibéricas actuais. E, neste contexto, Portugal surge como o campeão: é por cá, especialmente no Sul do país, que a presença de genes "não-ibéricos" atinge os seus máximos - máximos que se revelam, aliás, inesperadamente elevados.

Em linhas gerais, os judeus chegaram à Península Ibérica no início da era cristã, no tempo do Império Romano, vindos do Médio Oriente, e permaneceram até ao final do século XV: esses judeus são os chamados judeus sefarditas (Sefarad, em hebreu, significa Espanha). Os povos berberes do Norte de África, por seu lado, vieram para a península no século VIII e permaneceram até ao século XV-XVI. Tanto os sefarditas como os magrebinos foram expulsos ou obrigados a converter-se ao cristianismo pela Inquisição, num processo que na realidade demorou séculos e foi marcado por várias ondas de intolerância religiosa.

A equipa internacional de cientistas que fez o estudo - e que inclui investigadores portugueses - analisou a genealogia genética de mais de mil homens da Península Ibérica através da evolução do seu cromossoma Y (o cromossoma do sexo masculino). Como este cromossoma é transmitido, ao longo das gerações, de pai para filho, é muito útil nos estudos deste tipo (embora só nos homens, claro). O ADN do cromossoma vai sofrendo mutações ao longo do tempo e essas mutações constituem "marcadores" que permitem reconstituir as linhagens paternas. Dois tipos de marcadores no cromossoma Y serviram neste estudo. Os primeiros, ditos STR (short tandem repeats), são feitos da repetição de um mesmo pequeno fragmento de ADN. São alterações genéticas que surgem com muita frequência aquando da transmissão do cromossoma Y de pai para filho, e como a taxa dessas mutações, que é relativamente constante, é conhecida, funcionam como um "relógio" molecular. Como uma "escala do tempo", disse ao P2 João Lavinha, responsável pela unidade de investigação do Departamento de Genética do Instituto de Saúde Ricardo Jorge, em Lisboa - e um dos co-autores do estudo: "Permitem saber há quantos anos aqueles Y cá estão." O segundo tipo de marcadores, ditos binários, são mutações muito menos frequentes que consistem quer em alterações pontuais do ADN (numa só "letra" desta imensa molécula), quer em fragmentos que são apagados ou acrescentados. "São detalhes na sequência [neste caso, do cromossoma Y] que, pela sua presença ou ausência, informam sobre a origem geográfica desse Y", acrescenta João Lavinha. "No estudo, utilizámos 28 marcadores binários."

Populações parentais

Os cientistas, liderados por Mark Jobling, da Universidade de Leicester, no Reino Unido, partiram de três populações ancestrais ou "parentais" de referência: a dos "ibéricos" (constituída pelos cromossomas Y de 116 bascos, considerados como os mais próximos parentes das populações ibéricas mais antigas); a dos magrebinos (os cromossomas Y de 361 homens do Sara Ocidental, Marrocos, Argélia, Tunísia); e a dos judeus sefarditas (174 homens que se autodesignam como tal, entre os quais 16 de Belmonte e o resto da Bulgária, Grécia, Espanha, Turquia e da ilha de Djerba).

Em cada uma destas populações, existe uma combinação predominante de marcadores binários - isto é, de presenças/ausências ou alterações pontuais no ADN -, o que faz com que seja fácil "diagnosticar" a ascendência de um cromossoma Y escolhido ao acaso. "Há quatro tipos de combinações de marcadores binários do cromossoma Y com valor de diagnóstico", confirma João Lavinha. "O resto é ruído." Desses quatro, três são mesmo característicos de apenas uma das três populações consideradas, pois não existem em nenhuma das duas outras. Têm nomes de código que parecem sopas de letras: a dos "ibéricos" chama-se R1b3, a dos magrebinos E3b2 e a dos judeus J2. São estas combinações de marcadores que serviram de base para a comparação com as populações actuais, permitindo determinar a contribuição de cada um dos três "antepassados" aos descendentes de hoje em dia.

Quem foram os "descendentes" utilizados no estudo? Foram 1140 homens da Península Ibérica e das ilhas Baleares - ou melhor, o seu cromossoma Y. Em Portugal, a amostra consistia em 62 cromossomas Y de homens do "Norte" (definido, para o efeito, como a região a norte do sistema montanhoso Montejunto-Estrela) e 78 de homens do "Sul", explica João Lavinha. "Considerámos que esse sistema montanhoso é uma barreira geográfica que terá feito com que as respectivas populações se cruzassem menos", frisa. O material genético oriundo de Portugal fora recolhido em inícios dos anos 90 e o critério de selecção para o actual estudo foi que os homens tivessem um avô paterno nascido na mesma região que eles (Norte/Sul). "Isso significa que estas linhagens estão no mesmo sítio desde o ano 1900", faz notar João Lavinha.

A última fase consistiu em calcular as contribuições das três populações parentais ao cromossoma Y dos homens actuais. "Essas proporções são uma medida da mestiçagem", diz ainda o geneticista.

Conclusão: em média, os homens ibéricos actuais tem 20 por cento de ascendência judia sefardita e 11 por cento de ascendência magrebina. E para Portugal, em particular, os números são impressionantes. Os cromossomas Y analisados apresentam, em média, 15 por cento de ascendência norte-africana no Sul e 10 por cento no Norte. "É mais do que se esperaria", reflecte João Lavinha. Mas é em relação aos judeus sefarditas que as proporções são "enormes", salienta: em média, 35 por cento dos homens no Sul têm genes sefarditas e, no Norte, 25 por cento. "Os cristãos-novos são uma realidade", reflecte João Lavinha. "Muita gente não fugiu nem foi expulsa; misturou-se. Nós não temos essa noção, mas eles sobreviveram à intolerância religiosa."


terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Baixas em Combate

Baixas em Combate

via CART.3514 "panteras negras" de António Carvalho em 03/01/09
De Mário Crespo:
Foi notável o apelo que o presidente da República se sentiu obrigado a fazer ao Governo para que cumpra com as responsabilidades que o Estado tem com os que sofrem as consequências das guerras coloniais.
A assistência aos deficientes das Forças Armadas tem sido considerada questão menor. Sucessivos governos têm aguardado que o problema dos antigos combatentes em geral e dos deficientes em particular se resolva por si. Na realidade é isso que tem acontecido. A morte prematura resolve com arquivamentos definitivos, um a um, processos protelados em burocracias complicativas, diligentemente alinhavadas para satisfazer expectativas orçamentais. Têm-se inventado redefinições dos graus de invalidez. Reavaliado o que são situações de guerra e de combate. Tudo para conseguir roubar na assistência aos veteranos. Burocratas que não imaginam o que foram as décadas de desumanidade que gerações de jovens dos anos 60 tiveram que enfrentar decidem agora em termos de custo-benefício se vale a pena rubricar nos orçamentos as verbas necessárias, ou se é de aguardar mais uns anos até que os problemas naturalmente se apaguem. Não se trata só de acudir às deficiências fisicamente mais óbvias, que infelizmente têm sido descuradas ou insuficientemente assistidas. Há graves consequências clínicas da guerra que estão a ser mantidas discretamente afastadas do foco mediático. O elevado número de antigos combatentes que padece hoje de uma forma particularmente virulenta de Hepatite C é uma dessas situações. São as vítimas directas das vacinações em massa sem seringas descartáveis, que eram norma nas Forças Armadas até bem dentro da década de 70. Centenas de milhar de jovens foram injectados nas piores condições sanitárias possíveis. Era usada a mesma seringa colossal de uns para os outros. Apenas substituíam as agulhas que depois de fervidas voltavam a ser reutilizadas. As hipóteses de contágio eram máximas. A Hepatite C é assintomática durante dezenas de anos até os danos no fígado serem irreversíveis e, numa alta percentagem, fatais. Nunca houve um programa de rastreio sistemático dos antigos combatentes. Mas já houve muitas mortes. Sei de várias e de casos em que, face a diagnósticos positivos em militares de carreira, não foram recomendadas medidas terapêuticas no próprio Hospital Militar. Porquê? Pode haver várias respostas. Que o tratamento é difícil e muito penoso. Que pode ser falível. Tudo verdade, como também é verdade que a despistagem e o tratamento são caríssimos e seria impensável nos actuais orçamentos da defesa torná-los extensivos aos sobreviventes da guerra colonial. Este é só um exemplo de consequências ignoradas da guerra que são responsabilidade do Estado. Haverá milhares de vítimas mortais se mantiver a ligeireza fútil e desumana como o problema tem sido encarado em democracia. Atitude que em nada se distingue da bestialidade com que, em ditadura, se enviaram gerações sucessivas de jovens para conflitos absurdos. Um pormenor mais. O mesmo governo que disponibiliza verbas significativas para assistir drogados contaminados em trocas de seringas descartáveis, já pagas pelo Estado, não considera prioritário destinar pelo menos o mesmo montante para assistir em hospitais militares antigos combatentes que padecem dos males que involuntariamente contraíram, sem se drogarem.
noticia JN-Jornal Noticias 22.12.2008

Fuga de Peniche, 3 de Janeiro de 1960

via Caminhos da Memória de Joana Lopes em 02/01/09
Álvaro Cunhal, Carlos Costa, Francisco Martins Rodrigues, Francisco Miguel, Guilherme da Costa Carvalho, Jaime Serra, Joaquim Gomes, José Carlos, Pedro Soares e Rogério de Carvalho fugiram da Forataleza de Peniche há 49 anos, numa iniciativa absolutamente espectacular. A mais detalhada e mais fidedigna descrição de que tenho conhecimento encontra-se em José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal. Uma Biografia [...]

domingo, 4 de janeiro de 2009

DAS MEZINHAS E REZAS AOS FÁRMACOS

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 01/01/09
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UM TEMA ANTIGO, bem gravado na memória, é o das enfermidades e dos meios com que se procurava dar-lhes combate. Nos curtos anos da minha infância e adolescência pude assistir à substituição das mezinhas e dos remédios manipulados na farmácia pelos fármacos produzidos industrialmente. É claro que não conheço o suficiente de história da medicina e da instituição farmacêutica que me permitam abordar este tema em moldes minimamente fundamentados. Mas o que eu posso e sei fazer é relatar o que, neste domínio, se passava nesse tempo, no seio da minha família.
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Constipações, anginas, otites, gripes, sarampo, varicela, papeira e desinterias, embora com nomes diferentes, tudo isso andou lá por casa, tocando todos os filhos, seis, ao todo. Falava-se, de anginas, de dores de ouvidos, de bexigas doidas, de dores de barriga, de pontadas nas costas, tudo situações que a mãe ultrapassou, por si só ou com a ajuda do médico, mas sempre com muita fé, velas e promessas de cera ao Senhor Jesus dos Passos e muitas rezas a Nossa Senhora e às duas santas da sua devoção, Santa Rita e Santa Luzia.
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Uma purga com óleo de rícino ou um clister eram coisa certa sempre que aparecíamos com febre. Dizia a mãe que serviam, antes do mais, para limpar os intestinos. Vinham, depois, consoante os casos, os papelinhos de criogenina, para baixar a temperatura, as fricções com vinagre aromático ou com álcool canforado, o algodão iodado ou os emplastros de papas de linhaça e mostarda, a escaldar, colocados sobre o peito, as sanguessugas para sugarem o "sangue ruim". Se doíam as costas, davam-se umas pinceladas com tintura de iodo ou aplicava-se meia dúzia de ventosas.
Nas dores de ouvidos, e quão fortes eram, a minha mãe procurava dar-nos alívio vertendo, lá para dentro, leite levemente aquecido, o que, segundo me lembro, pouco ou nada resultava. As dores só passavam quando a infecção era debelada pelas defesas próprias do organismo. Com as amigdalites era a mesma coisa. As correspondentes dores de garganta, a febre e a dificuldade de engolir passavam ao fim do tempo que durava a luta dos leucócitos sobre o agente patogénico. Mas era crença generalizada que as anginas se curavam com as mezinhas caseiras e, assim, besuntava-nos a parte anterior do pescoço, onde se localizavam as ínguas, com pomada de beladona, sobre a qual se passava um lenço de algodão. Em complemento, gargarejávamos com água e sal, chupávamos sumo de limão, engolíamos colherzinhas de mel e fazíamos zaragatôas com azul de metilene. Este último tratamento, feito ao deitar, era aceite como uma brincadeira porque tingia de verde a urina da manhã seguinte. Ir para a escola com um lenço atado ao pescoço, a cheirar a beladona não era agradável. Mas muito pior era quando o tratamento tinha sido feito com enxúndia de galinha que, com o mesmo propósito, era preferida pela minha avó. Esta gordura amarela da ave era guardada numa velha tigela de faiança de Sacavém, onde se oxidava, tornando-se rançosa e mudando a cor para castanho. Era nesta fase de apodrecimento, exalando um cheiro nauseabundo, que este unguento estava, dizia ela, em condições de produzir o efeito desejado.
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Na maior parte do casos estas anginas eram passageiras e com ou sem mezinhas acabavam por passar. Havia, porém, situações graves como o garrotilho, designação que dávamos à angina diftérica. Esta exigia o recurso ao médico, mas havia uma norma nesse tempo, segundo a qual o doutor só era chamado se, ao fim de três dias, o doente não desse mostras de recuperação, em resposta aos tratamentos caseiros. Por vezes, este tipo de procedimento tinha consequências fatais. Isto aconteceu com um meu vizinho e colega de escola, vítima desta doença. O estado da infecção causada pelo Corynebacterium diphtheriae não cedeu ao soro que lhe foi ministrado tarde demais. Foi a consternação na minha rua. Morrera um menino.
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Foi um tempo em que muitos medicamentos eram manipulados pelo farmacêutico e prescritos por ele ou, nas situações mais complicadas, pelo médico. Nas farmácias, em grandes frascos com água, havia sanguessugas à venda, que se colocavam sobre os hematomas para que absorvessem o sangue pisado. Um tempo em que os filhos nasciam em casa, com a assistência de uma parteira ou de uma comadre, sob a Divina Graça do Senhor.

A grande fornalha

A grande fornalha

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 29/12/08
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RENÉ DESCARTES, filósofo francês do séc.XVII, via na Terra um pequeno Sol abortado, que arrefeceu e solidificou em superfície, mas mantendo o fogo central. Na mesma época, o jesuíta Athanasius Kircher defendia a existência de um fogo no centro da Terra, que comunicava com reservatórios que, por sua vez, alimentavam os vulcões. Esta ideia de um fogo central, que deu suporte à imagem do Inferno, fora já anunciada, no século V, a.C., pelo filósofo grego Empédocles. No séc. XVIII, Buffon, o grande naturalista francês, seguiu as ideias de Descartes e defendia que era esse calor central que gerava os magmas como os que se viam brotar dos vulcões.
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Ao contrário do seu satélite, a Terra conserva, em profundidade, calor suficiente para lhe assegurar a maior parte do seu dinamismo interno. Sendo mais pequena, a Lua arrefeceu a ponto de nela ter cessado toda a actividade magmática, cujas últimas manifestações são as de um vulcanismo extinto há cerca de 3000 milhões de anos. A Terra funciona como uma imensa fornalha, sendo o seu calor interno o somatório do calor que lhe ficou da sua formação como planeta, mais o calor gerado pela radioactividade de certos elementos radioactivos, ao longo dessa enormidade de tempo.
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Especialmente concentrado e intenso no núcleo, este calor alimenta a convecção térmica da espessa capa que o envolve, a que foi dado o nome de manto, considerado o motor do alastramento das bacias oceânicas e consequente deriva dos continentes, da origem e elevação das cadeias de montanhas, dos sismos e do vulcanismo.
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A utilização do calor interno do planeta fez desenvolver um capítulo da Geologia – a Geotermia – que, além de uma componente teórica, fundamental, se reveste de uma outra de carácter prático, visando o aproveitamento desta inesgotável fonte de energia, dita geotérmica, com vista à sua transformação em energia eléctrica ou como utilização para aquecimento na indústria ou em habitações. As explorações geotérmicas localizam-se, sobretudo, na vizinhança de vulcões activos ou adormecidos e sobre câmaras magmáticas prestes a desencadear vulcanismo, onde as rochas do subsolo estão bastante quentes. Na Ilha de S. Miguel, Açores, funcionam, actualmente, duas centrais geotérmicas associadas ao vulcão do Fogo, que abastecem cerca de 40% das necessidades da ilha em energia eléctrica. Não relacionada com o vulcanismo, mas apenas com o calor normal no interior da crosta, as fontes termais de Chaves e de S. Pedro do Sul, com águas emergentes a 70ºC, são dois exemplos de aproveitamento desta grande fornalha que é o interior da Terra.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Mais um texto sobre o padre Felicidade

Mais um texto sobre o padre Felicidade

via Entre as brumas da memória de Joana Lopes em 19/12/08
Excertos de uma entrevista feita por Diana Andringa em 1990.

Para aguçar o apetite:

«Eu cheguei a ser abordado par celebrar missa pelo D. Duarte Nuno e, no dia seguinte, pelo aniversário da República. E depois pela vitória do Belenenses. E comecei a interrogar-me sobre o que era a missa. Um ornamento barato para interesses mesquinhos. É uma profanação, uma blasfémia.»

«A catequese,

sábado, 27 de dezembro de 2008

Os cornos do búfalo - Shaka Zulu (1787-1828)

via Caminhos da Memória de Caminhos da Memória em 26/12/08
Um texto de José Pedro Barreto (*) Originalmente publicado na revista Egoísta de 9 de Dezembro de 2001 «O nosso grupo foi recebido pelo Rei Shaka de forma amável, mas com a altiva indiferença que se podia esperar do Napoleão da África Oriental, diante do qual toda a gente se prostrava. Dez mil guerreiros, cujas vitórias tinham [...]