segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Questão de prestígio

Questão de prestígio

via Euro-Ultramarino de noreply@blogger.com (Euro-Ultramarino) em 01/02/09

Disse Churchill na House of Commons, ao fim da II Guerra, que o papel de Portugal no mundo não se devia apenas a sua importância geo-estratégica, mas, sobretudo, à craveira do seu governante, Salazar. Há 35 anos deitaram fora a "geo" e com ela a "estratégia". E relativamente à "craveira" a acepção também mudou: ficámos mesmo é bem cravados. Do Prec das melenas e dos pás ao Só-crash das quase-engenharias e dos freeports é um fartar, fartar. Só acaba quando termina... Prestige oblige.

Um bife na Brasileira do Chiado

Um bife na Brasileira do Chiado

via Caminhos da Memória de Caminhos da Memória em 01/02/09
Um texto de Helena Pato (*) Não tenho dúvidas acerca da data: 17 de Novembro. Além de não ser normal as pessoas esquecerem-se do dia em que saem da prisão, após quase seis meses de regime de isolamento, a verdade é que foi uma data duplamente memorizada porque o meu primeiro filho, à laia de comemoração, [...]

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

MUSEU DO QUARTZO

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 30/01/09
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Museu do Quartzo, em finais de construção. Foto de Susana Andrade
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A EXPLORAÇÃO DO QUARTZO no Monte de Santa Luzia (Viseu), entre 1961 e 1986, pela "Companhia Portuguesa de Fornos Eléctricos", de Canas de Senhorim, teve como resultado o enorme rasgão na paisagem que ali se observa, desde sempre considerado como elemento altamente negativo em termos de impacto ambiental.
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Desta exploração, durante uma vintena de anos, ficou-nos, como é costume entre nós, uma pedreira abandonada, onde o quartzo filoniano, num escarpado de acentuada brancura, contrasta com a densa arborização envolvente, aspecto que se mantém desde que ali terminou a lavra, há 22 anos, sem que o agente económico tivesse procedido a quaisquer trabalhos de requalificação. A solicitação da Câmara Municipal de Viseu (CMV), concebi, em nome do Museu Nacional de História Natural (MNHN), um projecto de musealização do sítio, envolvendo a sua aceitação como um pólo de
interesse geológico a valorizar e conservar.
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O escarpado deixado pela referida actividade extractiva tem, na óptica da preservação e valorização do nosso património natural, o mérito de chamar a atenção para o mais volumoso e possante filão de quartzo leitoso, de entre os muitos que atravessam o substrato do nosso território, como exemplo da actividade hidrotermal residual, associada aos granitos do final da era paleozóica, com cerca de 280 milhões de anos
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À semelhança de uma "janela aberta" para o interior da crosta, este rasgão na paisagem permite observar, por dentro, diversas e interessantes particularidades geológicas e mineralógicas deste tipo de ocorrências.
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O Monte de Santa Luzia constitui um pequeno relevo suportado pela maior dureza do quartzo e pela sua maior resistência à meteorização, relativamente ao granito que atravessa. Com várias dezenas de metros de espessura, este filão é a causa da existência deste relevo residual com cento e poucos metros acima da superfície planáltica que o rodeia.
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A valorização deste sítio decorre não só da grandiosidade e espectacularidade deste acidente, como também da grande importância mineralógica, geológica e económica do quartzo, do seu elevado número de variedades, quer em termos de cores, quer no que diz respeito aos diferentes hábitos cristalinos, modos de jazida, associações com outras espécies minerais, etc.
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Tal valorização decorre, ainda, e muito, da invulgar diversidade das aplicações do quartzo, como matéria-prima, nas mais variadas indústrias, com destaque para a fundição, a cerâmica, a vidraria, a cristalaria, a óptica, a química, a electrónica, a relojoaria e a joalharia. Ao aceitar este projecto de musealização, a autarquia visou recuperar o que resta de uma exploração caótica abandonada, transformando-a num pólo da Universidade de Lisboa (protocolo assinado entre o MNHN e a CMV, em 14 de Outubro de1997), com grades potencialidades pedagógicas, culturais e, também, naturalmente, turísticas.
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Para além da recuperação do escarpado (a frente de exploração tal como foi deixada) e da identificação e sinalização dos diversos pontos com particularidades geológicas e mineralógicas acessíveis no terreno, o referido projecto visa, ainda, requalificar os equipamentos industriais existentes no local e recuperar outros que ainda existam, mediante contactos com a antiga empresa. O conjunto disporá de um percurso pedonal criteriosamente estabelecido, apoiado em painéis explicativos, convenientemente localizados, e em alguma documentação escrita (desdobráveis, brochuras) a facultar aos visitantes.
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Concebido para, numa primeira fase, de âmbito local, servir as escolas da região e divulgar conhecimentos entre o cidadão comum, o Museu do Quartzo começará por reunir uma representação significativa de exemplares desta espécie mineral (e suas variedades) e das suas múltiplas aplicações industriais e artísticas, a par de oficinas pedagógicas adequadas. A médio prazo, numa segunda fase, de âmbito nacional, aspira-se a uma colaboração activa com as Universidades e as Empresas interessadas no quartzo como matéria-prima nas mais variadas tecnologias. Na eventualidade de previsível sucesso deste embrião de saber, e se as entidades competentes (a Autarquia e/ou o Poder Central) assim o entenderem e apoiarem, o Museu do Quartzo poderá e deverá evoluir para um Centro de Investigação Científica e Tecnológica em torno desta temática, a nível internacional, domínio amplamente justificável e, por si só, susceptível de atrair patrocínios por parte de grandes empresas interessadas nesta investigação.
O projecto do Monte de Santa Luzia, cuja componente arquitectónica, incluindo o edifício do Museu do Quartzo, é da autoria do Arqto Mário Moutinho, foi galardoado, em 1997, com o Prémio Nacional do Ambiente (Autarquias).
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O acompanhamento científico e pedagógico deste futuro museu mantêm-se a cargo do MNHN, acção em que continuo empenhado, agora em estreita colaboração com o actual director, Prof. Fernando Barriga.

Missão de amar?

Missão de amar?

via Projecto Clarice de patricialino1@sapo.pt (Patrícia Lino) em 24/01/09
"O saguim é tão pequeno como um rato, e da mesma cor.
A mulher, depois de se sentar no ônibus e de lançar uma tranquila vista de proprietária pelos bancos, engoliu um grito: ao seu lado, na mão de um homem gordo, estava aquilo que parecia um rato inquieto e que na verdade era um vivíssimo saguim. Os primeiros momentos da mulher versus saguim foram gastos em procurar sentir que não se tratava de um rato disfarçado.
Quando isso foi conseguido, começaram momentos deliciosos e intensos: a observação do bicho. O ônibus inteiro, aliás, não fazia outra coisa. Mas era privilégio da mulher estar ao lado do personagem principal. De onde estava podia, por exemplo, reparar na minimeza que é uma língua de saguim: um risco de lápis vermelho. E havia os dentes também: quase que se poderiam contar cerca de milhares de dentes dentro do risco da boca, e cada lasca menor que a outra, e mais branca. O saguim não fechou a boca um instante.
Os olhos eram redondos, hipertireóidicos, combinando com um ligeiro prognatismo - e essa mistura, se lhe dava um ar estranhamente impudico, formava uma cara meio oferecida de menino de rua, desses que estão permanentemente resfriados e que ao mesmo tempo chupam bala e fungam o nariz. Quando o saguim deu um pulo no colo da senhora, esta conteve um frisson, e o prazer encabulado de quem foi eleita.
Mas os passageiros olhavam-na com simpatia, aprovando o acontecimento, e, um pouco ruborizada, ela aceitou ser a tímida favorita. Não o acariciou porque não sabia se esse era o gesto a ser feito. E nem o bicho sofria à míngua de carinho. Na verdade o seu dono, o homem gordo, tinha por ele um amor sólido e severo, de pai para filho, de dono para mulher. Era um homem que, sem um sorriso, tinha o chamado coração de ouro. A expressão de seu rosto era até trágica, como se ele tivesse missão. Missão de amar? O saguim era o seu cachorro na vida.
O ônibus, na brisa, como embandeirado, avançava. O saguim começou a comer biscoito. O saguim coçou rapidamente a redonda orelha com a perna fina de trás. O saguim guinchou. Pendurou-se na janela, e espiou o mais depressa que podia - despertando nos ônibus opostos caras que se espantavam e que não tinham tempo de averiguar se tinham mesmo visto o que tinham visto.
Enquanto isso, perto da senhora, uma outra senhora contou a outra senhora que tinha um gato. Quem tinha posses de amor, contou. Foi nesse ambiente de família feliz que um caminhão quis passar à frente do ônibus, houve quase encontro fatal, os gritos. Todos saltaram depressa. A senhora, atrasada, com hora marcada, tomou um táxi. Só no táxi lembrou-se de novo do saguim. E lamentou com um sorriso sem graça que - sendo os dias que correm tão cheios de notícias nos jornais e com tão poucas para ela - tivessem os acontecimentos se distribuído tão mal a ponto de um saguim e um quase desastre sucederem na mesma hora.
"Aposto" - pensou - "que nada mais me acontecerá durante muito tempo, aposto que agora vou entrar no tempo das vacas magras". Que era em geral seu tempo.
Mas nesse mesmo dia aconteceram outras coisas. Todas até que dentro da categoria de bens declaráveis. Só que não eram comunicáveis. Essa mulher era, aliás, um pouco silenciosa para si mesma e não se entendia muito bem consigo própria.
Mas assim é. E jamais se soube de um saguim que tenha deixado de nascer, viver e morrer - só por não se entender ou não ser entendido.
De qualquer modo fora uma tarde embandeirada."

Uma tarde plena, in Onde estivestes de noite
Clarice Lispector

Clariceando, Clariceando

Clariceando, Clariceando

via Projecto Clarice de patricialino1@sapo.pt (Patrícia Lino) em 26/01/09
(Pequeno génerico de apresentação ao Projecto Clarice. Passe a palavra.
Realização por Patrícia Lino.)

"O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir, tocar no mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo, estou pensando".
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo parece nunca ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era que o aparelho estava tão estragado que o concerto seria caríssimo: mais vale comprar outro.
Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e, portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?" Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.
Os espertos ganham dos outros. Em compensação, os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás, não se importam que saibam que eles sabem. Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo."

Das vantagens de ser bobo, in A Descoberta do Mundo
Clarice Lispector


Os três problemas portugueses: filosofia, história e futuro da Pátria (parte 4)

Os três problemas portugueses: filosofia, história e futuro da Pátria (parte 4)

via Espiral Dourada de noreply@blogger.com (RS) em 30/01/09
Ensaio da autoria de António Quadros
(publicado na Folha "57", n.º11 - Junho de 1962)

A verdade que cumpre seja compreendida finalmente pelos portugueses, a verdade que excede o problema, é esta: existe e subsiste a pátria portuguesa, mas não para servir pragmáticamente uma classe, não para armoriar uma facção, não para garantir um tradicionalismo conservador e estacionário; existe e subsiste a pátria portuguesa porque insiste e está procurando existir uma filosofia portuguesa, uma determinada concepção do mundo e do homem, do imanente e do transcendente, do virtual e do real. A pátria é uma existência e uma insistência, mas só há pátrias, quando as nações são dotadas de uma filosofia própria. Língua portuguesa, filosofia portuguesa, espírito português, são as raízes autênticas da pátria e das suas implicações secundárias: nação, sociedade, estado, comunidade, povo.

Implicita e implicada na sua duração histórica e transiente, simbolizada na aventura, na viagem e na arte, a filosofia portuguesa sé no século XX surge à luz como uma realidade primeira em que as demais actividades devem mergulhar a sua ânsia de movimento e progressão. A filosofia portuguesa é o universal concreto, sendo a pátria o concreto que materializa e anima o universal sófico. A filosofia ecuménica, expressão do universal abstracto, sem base vitalista, é já uma utopia do passado.

O caos das políticas, das ideologias e das facções, terá o seu termo quando a pátria for pensada a partir de si mesma, quando o universal se assumir em suas determinações pátrio-sóficas.

(continua)

Os três problemas portugueses: filosofia, história e futuro da Pátria (parte 3)

Os três problemas portugueses: filosofia, história e futuro da Pátria (parte 3)

via Espiral Dourada de noreply@blogger.com (RS) em 29/01/09
Ensaio da autoria de António Quadros
(publicado na Folha "57", n.º11 - Junho de 1962)

Primeiro problema:
FILOSOFIA E PÁTRIA

A força da realidade pátria, força que desce do plano intelectual ao plano sentimental, que transparece nas determinações inconscientes, quando a consciência deixou de pensar, a força e a profundidade da sua objectivação nos homens é, por isso, porque é influente e interior em cada um, sistematicamente desviada, aproveitada, canalizada, atraiçoada, pragmatizada. E assim, a política apodera-se da ideia da pátria, desvirtua o seu significado e adapta-o aos seus fins.

É tempo de discernir e meditar. A ideia da pátria está em crise entre nós, precisamente porque toda a acção pragmática que em seu nome é realizada, neste ou naquele sentido, não é deduzida e derivada de uma filosofia da pátria, de uma filosofia portuguesa. Não é possível pensar, postular, legislar, criticar de acordo coordenadas exóticas e, a partir desta realidade mental desfocada e des-axializada, exercer uma actividade propriamente patriótica. Nestas condições, o que fica da pátria é apenas um substracto emocional e retórico, que não suscita uma inteira adesão a uma efectiva participação.

O homem, composto de elementos físicos, de elementos psíquicos e de elementos racionais, apenas se move verdadeiramente pelo acordo sincrónico destas três zonas. Se a razão dos portugueses é desenvolvida e estimulada pelos processos lógicos culturais franceses, alemães ou ingleses, os quais, diga-se de passagem, estão atingindo uma saturação metamórfica nas suas formas idealistas, existencialistas e fenomenologistas, muito precariamente o psíquico, isto é, a sua alma, será capaz de escolher decidida e decisivamente o caminho que é consubstancial à pátria.

É quando a acção não se adequa ao pensamento, que o problema toma aspectos vitais de dramaticidade, de existir agónico e angustiado. Em suma, não há acção portuguesa, acção profunda e cumulativa, sem adequação do agir e do pensar, segundo uma lógica e uma gnosiologia portuguesas, que são os seus autentificados suportes.

Assim, enquanto as nossas escolas, os nossos liceus e as nossas universidades não forem fontes de pensamento português e de filosofia portuguesa, os portugueses viverão permanentemente em crise e em cisão, divididos no seu ser, procurando como derivativo vincular-se a sistemas ideológicos onde a pátria não tem já lugar próprio, sistemas condenados ao fracasso porque o sistema ideológico é hoje uma tentativa metafísica invalidada por todas as correntes modernas sem excepção.

(continua...)

Os três problemas portugueses: filosofia, história e futuro da Pátria (parte 2)

Os três problemas portugueses: filosofia, história e futuro da Pátria (parte 2)

via Espiral Dourada de noreply@blogger.com (RS) em 28/01/09
Ensaio da autoria de António Quadros
(publicado na Folha "57", n.º11 - Junho de 1962)

"Não será todavia possível clarificar um pouco uma problemática tão perturbada e caótica? Não será possível reconduzir tal problemática ao cerne de um problema crucial e essencial? Sim, é o problema da pátria, que por sua vez se ramifica e hierarquiza em outros problemas que lhes estão indissociavelmente ligados.

A pátria. Não é a nação que está fundamentalmente em causa. Não é a sociedade. Não é a comunidade natural. Há muitas nações, muitas sociedades, muitas comunidades, mas são poucas e raras as pátrias. Um dos erros abissais do pensamento não qualificativo que presidia à fundação da O.N.U. foi equiparar as simples nações, que são meras sociedades políticas, às nações-pátrias, em que a estrutura social, implicita ou explicitamente, derivam de uma filosofia ou tradição filosófica que a todo o instante a alimenta, dinamiza e lança no futuro, em busca da mais alta realização arquetipal.

Verdadeiramente, é o paradoxo da pátria, que constitui o mais profundo problema português, na medida em que os nacionais do nosso país se encontram perpetuamente dilacerados perante opções que, cada vez com maior insistência e acuidade, lhes são postas. Dir-se-ia que os portugueses - durante um largo período de alguns séculos - perderam a capacidade de decisão. A posteriori se verifica que a partir do século XVII até aos nossos dias, a posteriori se verifica, diziamos, que a decisão tomada não fora a que se coadunasse com o vero movimento ascencional da pátria, que, não o esqueçamos, é menos um absoluto, do que um microcosmos laboratorial da humanidade. A decisão portuguesa tem sido efectivamente, mesmo quando transportando em si um impulso patriótico, uma como que decisão cindida.

Sem dúvida, esta situação trágica, mas ao mesmo tempo promissora, porquanto nunca joga o nosso espírito inteiro num só e por ventura decepcionante caminho, inspirou ao filósofo José Marinho, a sua interpretação da realidade como cisão pura. Cisão do ôntico, cisão do humano, cisão do divino, mesmo.

Ora a pátria portuguesa se é explicitamente, ser de cisão, é também , implicitamente, movimento, dinamismo, razão agente, trans-história, ideal, radicação misteriosa num princípio de causa cisiva e saparatista, mas de objecto reintegrador. Desdobrando-se o problema genérico dapátria nos três problemas particulares que o configuram, especialmente na hora presente, nós acreditamos contribuir para que a recuperação do movimento venha a transcender a dramaticidade da cisão extrema dos portugueses em relação a si mesmos. Certo está partir de uma verdade que é ambiguidade, pardoxo e cisão, mas mais certo ainda é acreditar no dinamismo espiritual que pode, senão resolver totalmente, pelo menos transformar decisivamente essa verdade imediata."

(continua)