sexta-feira, 6 de março de 2009

Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas (IV)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 05/03/09

3. Uma cidade autónoma

O Estado da Índia, designação por que passou mais tarde a ser conhecido o conjunto de possessões da Coroa portuguesa, sob o comando de um vice-rei ou governador sediado em Goa, era essencialmente uma rede de fortalezas e feitorias, por vezes com pequenas parcelas de território anexo, dispersas num vasto espaço que se estendia de Moçambique ao Extremo Oriente. Em oposição ao que ocorria no Índico Ocidental, Malaca era a única fortaleza portuguesa para lá de Ceilão, exceptuando as pequenas fortificações na costa do Coromandel, no Maluco e, mais tarde, em Amboino. Este facto explicava-se inicialmente com a existência de uma menor tensão militar, uma vez que a resistência à penetração portuguesa que se verificava no Malabar, no Golfo Pérsico ou no Mar Vermelho não se fazia sentir aqui. Por outro lado, a própria presença oficial portuguesa era nesta região bastante mais fluida, contentando-se, no essencial, com o controle de Malaca. No Golfo de Bengala, nos reinos continentais da Ásia do Sueste, no Mar da China Meridional estendiam-se vastas regiões onde a Coroa portuguesa não exercia o mínimo controle, tornando-se assim o espaço privilegiado à proliferação de aventureiros, mercenários e renegados, que trocavam as fileiras das guarnições portuguesas pela busca de uma vida mais promissora.

Malaca foi, assim, o grande centro irradiador da influência portuguesa na Insulíndia e no Extremo Oriente, uma espécie de segunda capital do Estado da Índia, já que, na prática, a grande distância que a separava de Goa conferia-lhe uma autonomia alargada. Foi de Malaca que António de Abreu partiu, logo após a conquista, ao reconhecimento do arquipélago, e foi igualmente daqui que se procedeu à descoberta do Extremo Oriente. Esta função de pólo difusor é especialmente visível no que toca à missionação. Malaca constituiu uma base missionária de primeira grandeza, de onde partiam os elementos das diversas ordens que foram gradualmente chegando e repartindo entre si os espaços de evangelização: os Franciscanos, dispersos pelos reinos continentais e em diversas ilhas, nomeadamente em Java; os Dominicanos, presentes no Arquipélago Oriental, sobretudo no Maluco, em Amboino e, mais tarde, em Timor; os Jesuítas, concentrados na China e no Japão; finalmente, os Agostinhos, os últimos a chegar, fixaram-se sobretudo no Bengala.

Nas primeiras décadas do século XVI, o poderio naval português era suficiente para garantir a segurança de Malaca e, de um modo geral, a da navegação nos Estreitos. Inicialmente, os portugueses preferiram manter contactos privilegiados com os reinos não-muçulmanos da região, o que facilitava os abastecimentos à cidade e as trocas comerciais, para além prevenir eventuais investidas por parte do sultão deposto. Contudo, e à medida que o processo de islamização avançava em Java, em Samatra e noutras regiões e os sultanatos assumiam um papel político crescente no contexto regional, não lhes repugnou o estabelecimento de acordos e alianças com potentados muçulmanos, numa estratégia de adaptação às realidades e circunstâncias locais.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. "Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas" In Os Espaços de um Império – Estudos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas (III)

Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas (III)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 04/03/09

Conquistada Malaca, havia que decidir o seu futuro. Era a segunda vez que Afonso de Albuquerque procedia ao assalto de uma cidade, sem que as circunstâncias a isso obrigassem e sem ordens específicas de Lisboa nesse sentido. A primeira fora Goa, no ano anterior, e seguir-se-iam Ormuz e Adém, sem sucesso neste último caso. Era evidente que o governador possuía ideias bem precisas sobre o que deveria ser a presença portuguesa no Oriente: dotar o futuro Estado da Índia das mais importantes escápulas do comércio marítimo do Índico, garantindo uma sólida posição no contexto das rotas inter-asiáticas. O que estava em causa já não era obter facilidades comerciais junto dos poderes locais para o tráfico de mercadorias para Lisboa, mas sim garantir a Portugal um lugar no seio dos lucrativos tráficos asiáticos, mediante a conquista dos principais nós da complexa rede comercial do Índico e uma política naval agressiva e eficaz.

O projecto de Albuquerque obrigava a uma aprendizagem dos meandros da vida comercial do Índico. Em Malaca, as informações prestadas tanto por chineses como por quelins revelaram-se preciosas, acelerando o conhecimento de rotas, portos, produtos e mercados. Um mercador quelim chamado Nina Chatu desempenhou aqui um papel de primeiro plano, tendo sido integrado na administração portuguesa da cidade (2).

Desde o início, os novos senhores de Malaca rodearam-se de grandes cuidados no sentido de manter inalterada, na medida do possível, a estrutura do sultanato malaio. O objectivo era apenas mudar a chefia da cidade, esperando que a antiga prosperidade pudesse permanecer sem grandes sobressaltos. O interesse português incidia unicamente sobre o porto e as ligações marítimas de Malaca; os territórios controlados directamente pelo sultão foram deixados intactos, acabando mais tarde por integrar os domínios de Johor. Era, contudo, necessário que, passado o choque inicial, os mercadores voltassem a afluir. A comunidade guzerate retirou-se, acompanhando o sultão na fuga, mas quelins e jaus regressariam paulatinamente, sendo seguidos por outras comunidades. O governador tomou então um conjunto de medidas, antes de se retirar para Goa: levantou uma torre de menagem com uma ligeira fortificação, mandou cunhar moeda, promoveu a boa ordem administrativa e reorganizou a estrutura da cidade. Assim, o bendahara, que fora uma espécie de primeiro-ministro no sultanato, passou a ser o chefe e representante dos mercadores quelins e foi entregue a Nina Chatu, e o tumenggung, anteriormente o responsável pela segurança, foi transformado no líder da comunidade muçulmana e entregue a um mouro de Lução. Afonso de Albuquerque iniciou ainda uma série de contactos diplomáticos com reinos vizinhos, nomeadamente os não-muçulmanos, de modo a medir a aceitação da conquista de Malaca. Por fim, deixou Rui de Brito Patalim no comando da fortaleza, antes de regressar à Índia, em Janeiro de 1512.

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(2) Cf. Id., "Nina Chatu e o comércio português em Malaca", Ibid., pp. 487-508.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. "Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas" In Os Espaços de um Império – Estudos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999.

Não ao apagamento da memória das últimas vítimas da PIDE

Não ao apagamento da memória das últimas vítimas da PIDE

via Caminhos da Memória de Caminhos da Memória em 03/03/09
Um texto de Jorge Martins (*) Primeiro, transformou-se a sede da PIDE/DGS em condomínio de luxo, em pleno coração do Chiado, obliterando a história do edifício quanto ao negro passado da polícia política da ditadura Salazar-Marcelista. Agora, tudo se prepara para que a placa evocativa das últimas vítimas da PIDE, assassinadas no dia 25 de Abril [...]

terça-feira, 3 de março de 2009

E Darwin tinha razão

E Darwin tinha razão

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 27/02/09
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A HISTÓRIA DO HOMEM, como elemento da biodiversidade, remonta aos primórdios da Terra. Mas a sua história mais recente, como hominídeo, começa há pouco mais de meia dúzia de milhões de anos, quando os seus primitivos antepassados se separaram de um tronco comum que partilhámos, entre outros, com os gorilas, orangotangos e chimpanzés. Nas últimas décadas, a paleontologia humana deu passos importantes à compreensão desta caminhada. Vários novos fósseis foram descobertos, nomeadamente em Atapuerca (Espanha), que vieram completar, mas também tornar mais complexa a cadeia ainda muito fragmentada da evolução humana.
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Quando, no século XIX, Darwin referiu esta ascendência, muitas foram as vozes, nomeadamente as da Igreja, viradas contra uma tal heresia. Hoje, o aprofundamento do estudo do ADN e dos genomas dão-lhe razão. No estado actual da ciência que se ocupa desta temática, gorilas, orangotangos e chimpanzés são, em pé de igualdade connosco, considerados hominídeos. A evolução da humanidade já não é vista como uma linha evolutiva única, linear e progressiva, mas como uma ramificação de espécies, em que ainda é difícil saber, exactamente, quais os ancestrais directos de Homo sapiens.
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O mais antigo hominídeo de que temos conhecimento surgiu no continente africano, na região do Tchade, há cerca de 7 milhões de anos, no Miocénico superior, tendo-lhe sido dado o nome de Sahelanthropus. Mais conhecido do grande público, o Australopithecus chegou bem depois. Os seus vestígios datam de há 4,4 milhões de anos. Era um indivíduo pequeno, com pouco mais de um metro de altura, e caminhava erecto como provam as suas pegadas deixadas em cinzas vulcânicas, hoje endurecidas pelo tempo. Como utensílios servia-se de paus e pedras à semelhança dos seus "primos" antropóides.
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Muito mais tarde, há uns 2,5 a 2 milhões de anos, surgiu o género Homo com habilidade para produzir utensílios de pedra, com os quais facilitava as suas tarefas de sobrevivência, capacidade que o distancia do Australopithecus. O volume do cérebro era maior e os maxilares alargaram-se, preparando-lhe as condições necessárias à fala. O seu nome genérico reflecte esta nova condição. As primeiras espécies de Homo viveram igualmente em África, de onde passaram à Ásia e à Europa.
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Um novo Homem dotado de maiores capacidades, o Homo sapiens neanderthalensis, ou Homem de Neanderthal, fez a sua aparição há apenas cerca de 200 mil anos, tendo-se extinguido há uns 30 mil. Foi nesta altura que um outro Homo aqui nos chegou, com uma ainda maior capacidade cerebral. Chamou-se Homo sapiens sapiens. Este nosso mais próximo antepassado trouxe com ele maior tecnologia e uma cultura mais sofisticada. Para além dos muitos utensílios indicadores do seu modo de vida, na caça, na pesca, no vestuário, ficaram-nos as belas pinturas rupestres que documentam aspectos importantes do seu dia-a-dia e retratam os animais com que partilhou o seu espaço.

Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas (II)

Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas (II)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 03/03/09

2. A conquista portuguesa

A expedição de Diogo Lopes de Sequeira assinala um notável alargamento do horizonte dos interesses portugueses no Índico. A fronteira, que o vice-rei D. Francisco de Almeida alargara até Ceilão, era agora empurrada para Leste. O receio da competição castelhana levou D. Manuel a agir rapidamente, procurando estabelecer relações comerciais com a metrópole malaia, o que certamente favoreceria os interesses portugueses em caso de conflito com Castela.

Inicialmente bem recebido pelo sultão, Diogo Lopes de Sequeira apercebeu-se da crescente hostilidade que a sua presença suscitava junto da poderosa comunidade guzerate, muito pouco receptiva à concorrência comercial que os recém-chegados estavam dispostos a promover. A comunhão ideológica entre os guzerates e a elite política do sultanato acabou por minar a posição dos portugueses. Diogo Lopes de Sequeira foi obrigado a regressar a Lisboa, deixando vários dos seus homens no cativeiro.

A 1 de Julho de 1511, o novo governador, Afonso de Albuquerque, ao comando de uma forte armada, fundeou ao largo de Malaca. Desta vez, os portugueses apresentavam-se em posição de força, tendo sido feitas várias exigências à cidade. Contudo, a pressão dos guzerates e dos sectores mais influentes da corte malaia (nomeadamente o bendahara, ou primeiro-ministro) não permitiram o sucesso dos negociações. Pouco dado a intrincadas manobras diplomáticas, Afonso de Albuquerque decidiu-se a tomar Malaca, após algumas hesitações por parte de capitães mais reticentes. A seu favor contava com o apoio velado de quelins e chineses, que viram nos portugueses uma oportunidade única para sacudir a hegemonia guzerate e obter uma posição privilegiada junto do novo poder político.

Após renhidos combates, o sultão fugiu com a sua família e a sua corte, aguardando que os vencedores, como era tradição na Ásia do Sueste, saqueassem a cidade e regressassem ao seu país de origem. Foi com amarga surpresa que verificou que os intrusos, que inicialmente haviam sido tomados por "gente branca do Bengala" mas que começavam a ser conhecidos como "francos" ou "frangues", não só não partiram como ergueram uma torre de pedra, sinal inequívoco de que tinham vindo para ficar. Talvez lhe servisse de consolação saber que os seus sucessores, os sultões de Johor, rivalizariam com determinação com os portugueses de Malaca, e que a sua intervenção seria decisiva para a conquista da cidade pelos holandeses, 130 anos mais tarde. Contudo, nada mais lhe restava senão retirar-se para o Pago, nos arredores, vindo posteriormente a fixar-se nas ilhas de Bintão, um pouco a Sul.

O momento era de retumbante vitória para os portugueses. A tomada de Malaca, inimaginável até há tão pouco, abria agora o caminho para o Extremo Oriente. O Sião, a Cochinchina, o Tonquim e as costas da China, mas sobretudo o Arquipélago Oriental estavam ao alcance dos navios portugueses, pelo que se procedeu ao rápido reconhecimento e avaliação de várias regiões.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. "Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas" In Os Espaços de um Império – Estudos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999.

Viver no outro lado do mundo

Viver no outro lado do mundo

via COMBUSTÕES de Combustões em 01/03/09
Viver longe é sempre uma aventura. Recomeçar de novo, abandonar hábitos, criar novas amizades, construir o nosso pequeno mundo doméstico, compreender as diferenças e nelas inserir a nossa visão do mundo. Depois de ano e meio longe de Lisboa, surge-me um Portugal distante, quase delido. Já nada me interessa a politiquice portuguesa, mais os seus remoques e azedumes, o espírito da branda guerra civil em que os meus compatriotas vão adiando olhar-se ao espelho e fazer algo por eles e pelo país. Confesso que saí de Portugal porque estava cansado, terrivelmente cansado com o sem sentido de tudo o que me ia irreversivelente empurrando para a porta da saída. Esta abriu-se, finalmente, peguei no passaporte e cheguei com uma mala e muitos sonhos.

Aqui estudo uma língua difícil - já lá vão mais de setecentas horas de conversação, leitura e escrita numa escola modelar - e tenho por companheiros japoneses, coeranos, russos, americanos, franceses, chineses e filipinos, com os quais muito vou conhecendo sobre esse vasto mundo que não se confina aos futebóis, às discursatas e escandaletes que espaçadamente ainda vou encontrando nas páginas em linha dos jornais caseiros. É gente de estudo, são investigadores, professores, economistas, antropólogos, historiadores, sociólogos, artistas e até missionários católicos e protestantes que aqui chegaram impelidos por fogo proselitista que respeito mas sei condenado ao fracasso em terra em que o budismo, com a sua brandura, tolerância e sabedoria está entranhado nos mais insignificantes gestos, práticas e palavras.

Tenho passado o meu tempo a ler e estudar. É gratificante, pois sei que posso, na proporção das minhas parcas competências, trabalhar pela restauração de uma certa ideia de Portugal numa terra em que fomos realmente importantes. Dentro de dois anos terão lugar as celebrações dos 500 anos de relações entre Portugal e a Tailândia e espero poder oferecer aos meus e aos thais uma obra tão correcta quanto possível sobre essa relação ininterrupta entre dois estados independentes e livres.

Com o passar do tempo, envolvi-me com estudiosos e historiadores locais, deles recebendo preciosa ajuda em tudo o que à história tailandesa concerne, facultando-lhes de igual modo ajuda no melhor entendimento de Portugal e da sua expansão. Preparar documentários, conferências e palestras, editar [em inglês e thai] sobre o significado destas mais antigas relações entre um povo europeu e uma nação asiática; eis, em suma, a minha pequena missão. A cada um de acordo com as suas capacidades. Se aí pouco me deixaram fazer, aqui vivo feliz e disponível para deixar algo que sirva, no futuro, para quantos ainda se interessarem pelo significado da nossa presença em todos os azimutes do planeta.
Verifico que os "meus" se vão paulatinamente desinteressando por este blogue. Dos quinhentos leitores que tinha diariamente, Combustões tem hoje - longe dos futebóis, Sócrates, Ferreiras Leite, Louçãs e discussões sobre a lana caprina - pouco mais de duas centenas. A memória é curta e opera selectivamente. É humano, compreendo, que aos meus leitores Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro, o milésimo congresso da SEDES ou o último caso de arrombamento na Calçada do Combro interessem mais que o Sudeste-Asiático. Até já pensei fechar esta corveia, mas algo ainda me liga a Portugal. Tenho de pensar no assunto.

Na selva dos corações nas trevas

Na selva dos corações nas trevas

via COMBUSTÕES de Combustões em 02/03/09
É argumento límpido que os países não se criam com uma bandeira, um hino e uns quantos homens armados. A chamada Guiné-Bissau nasceu mal e foi regredindo até chegar onde chegou: canibalismo político, golpes e contra-golpes, matanças herodianas salpicadas aqui e ali por acidentes exóticos, como aquele presidente de gorro à Pereré cujo nome não me ocorre e que entretinha os basbaques com filosofices dignas de uma peça do Théâtre de l'Absurde. Na vaga de "independências" à trouxe-mouche, a Guiné-Bissau foi recebida como lídima representante da nova consciência africana anti-colonial. Contudo, aquilo nunca foi um país e só a ficção paternalista, as ajudas a fundo perdido e a relativização hipócrita permitiram manter a estória durante três décadas. Bissau foi-se esventrando, esburacando e conspurcando, com "ministérios" e "tribunais " - paródias quase voltairianas - funcionando em barracões, numa "capital" sem água, sem esgotos e sem luz eléctrica, verdadeira pocilga que é instantâneo de anti-Estado. Desde o primeiro momento, ainda não tinha soado a hora da "libertação", já eles se matavam uns aos outros: Cabral abatido pelos seus, o irmão Cabral e as chacinas que mandou executar contra reais ou imaginários "lacaios do colonialismo", o irmão Cabral mirim afastado por Nino, Nino afastado por um comité de guerreiros analfabetos, uma guerra civil brutal em 1989 e logo um novo golpe militar em 1993. Vieira sai e volta, mata para não ser morto e acaba varejado antes de matar o comandante do "exército". É assim a Guiné-Bissau, um "país" cujo Estado se limita aos muros das casernas, onde a economia voltou à informalidade primeva e é porto de abrigo para todos os traficantes de drogas da África Ocidental. Pergunto: não teria sido melhor para esse pobre e simpático povo dorido e sacrificado ter mantido a relação com Portugal, que mesmo após a "independência" lhe continuou a tratar de tudo, dos hospitais aos correios, das telecomunicações à banca, da logística administrativa à formação de quadros ? Sim, claro, mas uns quantos senhores em Lisboa - os verdadeiros colonialistas - queriam fazer negócios da Guiné com conservas fora de prazo, botas em segunda mão para o "exército", vinho a martelo e demais quinquilharia que só os "irmãos lusófonos" podiam consumir. É triste, quase confrangedor, comparar as fotografias de Bissau em 1973 e 2009. É a "Guiné-Bissau", um país que não existe e é um imenso libelo condenatório dos outrora cantados ventos da história.

Adeus a Nino

Adeus a Nino

via Caminhos da Memória de João Tunes em 02/03/09
Nino Vieira (Kabi Nafantchamna) teve um fim trágico mas adivinhado. Desde 1970, ano em que o combati, que tinha como certo que seriam balas quem lhe encomendariam o enterro, prognóstico este que só pecou quanto ao prazo de cumprimento. Comandante guerrilheiro de excepção («general avant la lettre» como lhe chamou o historiador guineense Leopoldo Amado), [...]