terça-feira, 10 de março de 2009

Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas (VII)

Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas (VII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 10/03/09

O aumento da insegurança da navegação portuguesa na Insulíndia, que ocorreu grosso modo na segunda metade do século XVI, correspondeu à reorganização das estruturas comerciais asiáticas rivais das portuguesas, articulada com causas políticas. De um modo geral, pode-se afirmar que Malaca nunca conseguiu manter integralmente o papel que desempenhara nos tempos do sultanato malaio. Pelo contrário, o que antes estava concentrado num grande empório comercial pulverizou-se após 1511, tendo surgido gradualmente, à medida que o efeito-surpresa da chegada dos portugueses ao Índico se desvanecia e que as redes comerciais asiáticas se recompunham, novos centros que disputavam a Malaca o acesso e o controle sobre rotas e produtos.

A ascensão do sultanato de Achém, que havia anteriormente impedido os portugueses de se abastecerem da pimenta dessa ilha, passou a tomar a forma de um expansionismo comercial e político hostil às estruturas do Estado da Índia. Ali se refugiara a poderosa comunidade guzerate após a conquista de Malaca em 1511. Assim, o Achém passou a exportar directamente a pimenta de Samatra, cuja produção tentava a todo o custo controlar, para o Índico Ocidental, rivalizando com os fluxos portugueses. Em Java, no Maluco, em Banda, os achéns acirravam a animosidade local contra os portugueses, tirando partido tanto dos abusos cometidos pelos capitães como, e sobretudo, do processo de islamização em curso, que rivalizava com as iniciativas missionárias, introduzindo assim o elemento religioso num processo de competição essencialmente económica.

Havia ainda que contar com Johor, herdeiro da linhagem do sultanato malaio de Malaca que, detentor de um assinalável capital de prestígio junto dos restantes sultanatos malaios, era também um importante rival comercial de Malaca, estendendo a sua influência para leste, junto dos reinos muçulmanos da Insulíndia Oriental. Papel importante neste processo era igualmente desempenhado pelos sultanatos de Sunda (na parte ocidental de Java), sobretudo Banten, que se tornou na mais importante base comercial dos mercadores chineses e logrou, a partir de 1567, reactivar o comércio pimenteiro para a China, quando a dinastia Ming abriu de novo os seus portos ao exterior. Manila, Macassar, Bornéu ou os portos javaneses são outros exemplos de cidades responsáveis por esta dispersão da capacidade de atracção das diversas comunidades mercantis (incluindo a portuguesa) que operavam na região.

Nas últimas décadas do século, os portugueses perderam definitivamente o controle dos tráficos do Arquipélago Oriental. A revolta de Ternate, na década de 1570, e a consequente expulsão dos portugueses da ilha, apesar do posterior estabelecimento na vizinha Tidore, desorganizou de vez o controle que ainda ia sendo possível estabelecer sobre as ilhas das especiarias (5). O cravo que chegava a Malaca ficou praticamente nas mãos dos javaneses, que a continuaram a canalizar, em boa parte, para a cidade, embora com oscilações, consoante as pressões que sofriam por parte dos capitães portugueses. A riqueza de Malaca passou todavia a assentar noutros vectores, que permitiram, pelo menos em parte, compensar as perdas nos tratos do cravo e noz: o comércio com a China e o Japão e uma multiplicidade de outros tráficos, de pequeno e longo curso, que continuava a cruzar os Estreitos.

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(5) Cf. Manuel Lobato, Política e Comércio dos Portugueses no Mundo Malaio-Indonésio (1575-1605). Disseração de Mestrado, Univ. Nova de Lisboa, 1993, pp. 72-84.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. "Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas" In Os Espaços de um Império – Estudos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999.

«'Allosaurus': UM DINOSSÁURIO, DOIS CONTINENTES»

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 08/03/09
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Ilustração de Carlos Possolo
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TUDO COMEÇOU há pouco mais de vinte anos, quando, em Andrés, Santiago de Lintém, Pombal, o Senhor José Amorim procedia à abertura de caboucos, visando as fundações de uma edificação de apoio à sua actividade agrícola.
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Para sua grande surpresa, a escavadora pôs a descoberto um conjunto de grandes ossos fossilizados que de imediato concluiu, e bem, pertencerem a um dinossáurio. O terreno em questão, datado do Jurássico superior, com 153 a143 milhões de anos, consta de um arenito argiloso, por vezes margoso, depositado em ambiente predominantemente fluvial, sob clima quente, conforme se pode deduzir do tipo de sedimentos e dos restantes fósseis que encerram (peixes, crocodilos, gastrópodes, bivalves, pterossáurios, diversas plantas).
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Ilustração de Nuno Farinha

Ao contrário do que é frequente, o Senhor Amorim procurou ajuda e nessa procura acabou por chegar ao contacto com o Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa, ao tempo em que eu ali trabalhava. Mas fez mais este agricultor. Louvavelmente, suspendeu a obra e disponibilizou-nos aquele terreno, graciosa e definitivamente, permitindo-nos os trabalhos de escavação paleontológica que ali pudemos levar a efeito, em grande parte no âmbito de um projecto de investigação do Museu, da minha responsabilidade, suportado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Como resultado das colheitas efectuadas e dos subsequentes estudos, os nossos paleontólogos puderam identificar o dinossáurio de Andrés, como um terópode (carnívoro) - Allosaurus fragilis - uma espécie já conhecida nos Estados unidos da América, em terrenos da mesma idade, numa formação geológica conhecida Morrison.

O facto de a mesmíssima espécie habitar duas regiões hoje separadas pelo Atlântico, permite concluir que, nesses recuados tempos, estes animais eram livres de circular de uma para a outra e que, portanto, a América do Norte e a Eurásia ainda não estavam separadas pelo oceano. Esta conclusão, que vem corroborar o que consta sobre a abertura e expansão dos oceanos e consequente deriva dos continentes é, por sua vez, reforçada pelo achado recente, em Casal Novo (Batalha), de ossadas de Stegosaurus, um herbívoro contemporâneo do referido Allosaurus, do lado de lá do Atlântico, encontrado nos mesmos terrenos.
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As ossadas deste gigantesco predador, aqui estudadas, e uma série de réplicas, em tamanho natural, de esqueletos dele e de outros seus contemporâneos, podem ser admirados, ao longo do presente ano, na magnífica exposição, a não perder, "Allosaurus: UM DINOSSÁURIO, DOIS CONTINENTES", recentemente aberta ao público no Museu Nacional de História Natural, na rua da Escola Politécnica.

Publicado no DN de 07 de Março de 2009

segunda-feira, 9 de março de 2009

Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas (VI)

Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas (VI)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 09/03/09

4. O comércio

Durante os 130 anos em que permaneceu sob domínio português, Malaca foi uma das mais importantes possessões do Estado da Índia, tanto do ponto de vista geopolítico como económico. No entanto, o seu comércio sofreu alterações consideráveis durante este lapso de tempo, resultantes tanto das alterações globais da política portuguesa no Oriente como, e sobretudo, da própria evolução das condições da cidade no contexto asiático. O sistema de controle da navegação asiática, as formas de exploração das rotas comerciais e a própria política alfandegária modificaram-se ao longo do século XVI e das primeiras décadas do século XVII.

A exploração económica de Malaca decorria sob duas formas distintas: a obtenção de direitos alfandegários sobre os tráficos que por ali passavam, tanto por parte de mercadores portugueses como asiáticos, e a exploração directa das diversas rotas comerciais associadas à cidade. No que toca a ao primeiro aspecto, constata-se que de início, e como forma de atrair as diversas comunidades mercantis, sobretudo a quelim, a Coroa empreendeu uma política de baixos direitos alfandegários para estas (6%), aplicando valores mais elevados para os portugueses (10%). A intenção era possivelmente evitar que os soldados abandonassem a carreira militar para se dedicar à mercancia. Numa época posterior, como se verá, a situação sofreu importantes alterações.

Malaca não era, todavia, um mero posto de taxação alfandegária. Os portugueses procederam desde cedo ao reconhecimento das principais linhas de comércio envolvidas, passando a explorá-las por conta de El-Rei ou por iniciativa de particulares. O comércio do cravo do Maluco e da noz-moscada e maça de Banda era, pelo menos no decorrer da primeira metade do século XVI, o mais rendível e o que maior interesse suscitava a Malaca. A Coroa portuguesa explorava directamente a rota do cravo mediante o estabelecimento de um monopólio, que viria a ser abandonado na década de 1530, passando a vigorar um sistema mais aberto, segundo o qual qualquer pessoa podia carregar cravo no Maluco, desde que pagasse os respectivos terços (ou seja, a reserva da terça parte, ao preço de custo, para a Coroa) e choquéis (taxa a título de frete) (4). Mais tarde, a rota Malaca-Maluco passou a constituir uma viagem, ou seja, uma linha de comércio explorada em regime de exclusividade, que podia ser, à semelhança de outras, cedida a particulares a título de recompensa ou, mais frequentemente, vendida. Enquanto a navegação de e para o Arquipélago Oriental se efectuou com um mínimo de segurança, esta viagem, embora sempre longa e perigosa, era cobiçada. Todavia, com o aumento da precaridade das posições portuguesas no Maluco e o aumento da pressão sobre a navegação, os grandes lucros da viagem deixaram de compensar os riscos, pelo que ninguém arriscava a sua contratação.

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(4) Id. "Maluco e Malaca", Ibid., p. 555.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. "Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas" In Os Espaços de um Império – Estudos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999.

sábado, 7 de março de 2009

Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas (V)

Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas (V)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 06/03/09

Malaca sempre contou com um rival de peso nascido do próprio acto de conquista da cidade: o sultanato de Johor, fundado pelo filho do último sultão malaio. Durante as primeiras décadas, o temor das investidas de Johor, eventualmente para recuperar a cidade perdida, prevaleceu sobre outras ameaças. Contudo, na década de 1530, este panorama veio a sofrer alterações, com a entrada em cena do sultanato de Achém, na ponta setentrional de Samatra, que capitalizou o efeito da conquista portuguesa e se assumiu, com o apoio nominal do Império Otomano, o papel de vanguarda islâmica na região. Em 1537, veio pôr cerco à cidade, inaugurando uma série de ataques que só terminaria em 1629, com uma derrota estrondosa às mãos de Nuno Álvares Botelho. O Achém tornou-se assim o principal adversário dos portugueses na região e a grande ameaça para Malaca, se se exceptuar um breve período de paz na década de 1590. Esta tendência atingiu o seu auge nas décadas de 1560 e 1570, quando uma conjuntura anti-portuguesa se estendeu por todo o Índico, juntando num esforço comum diversas potências islâmicas, do Guzerate a Malaca.

À medida que crescia o poderio achém, a hostilidade de Johor para com os portugueses atenuava-se. Na verdade, este sultanato era igualmente atingido pela hostilidade do Achém, que por diversas vezes, o tentou suplantar e neutralizar. Assim, Johor aproximou-se pontualmente dos portugueses, sobretudo quando o inimigo comum se tornava mais ameaçador, como ocorreu no decorrer dos ataques a Malaca em 1568 e 1573-75. A hegemonia sobre a região dos Estreitos de Malaca passou assim a ser partilhada por três poderes rivais, marcando o equilíbrio geopolítico da região que se manteve, sem alterações de maior, até à chegada dos holandeses, nos finais do século XVI. A estratégia de sobrevivência de Malaca, num meio que se tornou gradualmente hostil, e dada a grande distância que a separava de Goa e do Índico Ocidental, onde se concentrava o grosso das armadas portuguesas, passou pela gestão ponderada deste equilíbrio, doseando a diplomacia com a pressão militar (3).

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(3) Cf. Paulo Jorge de Sousa Pinto, Portugueses e Malaios - Malaca e os Sultanatos de Johor e Achém (1575-1619). Lisboa, 1997.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. "Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas" In Os Espaços de um Império – Estudos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Lobo Antunes em entrevista ao Diário de Notícias (03)

Lobo Antunes em entrevista ao Diário de Notícias (03)

via Leste de Angola de Jorge Santos - Op.Cripto em 16/02/09
António Lobo Antunes, na entrevista que dá, esta segunda-feira a João Céu e Silva do «Diário de Notícias» fala do seu próximo livro 'Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?', a publicar em Outubro Pela Dom Quixote....

Lobo Antunes em entrevista ao Diário de Notícias (02)

via Leste de Angola de Jorge Santos - Op.Cripto em 16/02/09
(Continuação) António Lobo Antunes foi alferes médico em Angola, em 71/73 e passou pelo Leste no seu primeiro ano de comissão. Esta segunda-feira o «Diário de Notícias» dedica-lhe quatro páginas, com uma entrevista de João Céu e Silva....

Lobo Antunes em entrevista ao Diário de Notícias

Lobo Antunes em entrevista ao Diário de Notícias

via Leste de Angola de Jorge Santos - Op.Cripto em 16/02/09
António Lobo Antunes foi alferes médico em Angola, em 71/73 e passou pelo Leste no seu primeiro ano de comissão. Esta segunda-feira o «Diário de Notícias» dedica-lhe quatro páginas, com uma entrevista de João Céu e Silva....

Mi encuentro con Leonel Fernández, Presidente de la República Dominicana

Mi encuentro con Leonel Fernández, Presidente de la República Dominicana

via Alejandro el Grande de samehellas@gmail.com (Same) em 05/03/09

Se produjo el pasado lunes 2 de Marzo, a las 4 y 58 de la tarde.

Lo conocí en República Dominicana cuando lo eligieron por primera vez como Presidente. Fue particularmente deferente conmigo. Habló de sus primeros esfuerzos por incrementar la capacidad de generar electricidad con mucho menos consumo de fuel oil, cuyos precios crecían rápidamente.

Nadie le regaló el cargo; llegó a él a través de una especie de selección natural en virtud de la cual ascendió políticamente a medida que los acontecimientos históricos se desarrollaban.

Hijo de una mujer dominicana que, como otros muchos compatriotas suyos, había emigrado a Estados Unidos, fue llevado en compañía de su hermano a la ciudad de Nueva York, donde aprendió a leer y escribir.

Tuvo la suerte de que la madre seguía de cerca los problemas de su patria, y le trasmitía opiniones y criterios revolucionarios que lo condicionaron para los nuevos tiempos que vivía el pueblo dominicano.

Por vías diferentes a las mías llegó a criterios propios, que determinaron su actitud ante situaciones que eran parecidas, y a la vez muy diferentes, a las que yo viví 23 años antes en Cuba, donde sin haber cumplido 6 años de edad, una joven maestra cubana, junto a dos hermanas, sin duda de extracción pequeño burguesa santiaguera, vivían en condiciones de bastante pobreza, después de estudiar, una medicina, otra magisterio y la tercera piano en una universidad de Haití, el país vecino más próximo a Cuba y a la patria de Leonel Fernández.

Me correspondió la dura experiencia del hambre, sin saber en qué consistía, confundiéndola con un feroz e inusitado apetito, en la Ciudad de Santiago, donde vi asombrado por primera vez una ciudad, y la maestra que atendía la escuela de Birán, en pleno machadato, no recibía salario seguro y sí una buena pensión de mi casa, persuadiendo a la familia de que me enviaran a Santiago.

Aprendí a sumar, restar y multiplicar, gracias al forro rojo de una libreta escolar, antes de leer y escribir. Comencé así a ejercitar la imaginación, pero me retrasaron dos años, que con esfuerzo, recuperé más tarde.

Tal vez de este modo se comprende mejor mi interés en conversar con Leonel a la luz de los tiempos actuales.

Conocí a Juan Bosch, historiador e ilustre personalidad dominicana en 1946, cuando no había cumplido aún 20 años, era estudiante del segundo año de la carrera de Derecho y líder de los estudiantes de esa Facultad, presidente por añadidura de la organización de solidaridad con la democracia dominicana, en la lucha de ese valiente pueblo contra la tiranía trujillista, erigida por las fuerzas norteamericanas que habían intervenido la isla en 1928.

Bosch y yo estábamos en el batallón Sandino, héroe nicaragüense que luchó contra los interventores yankis y fue asesinado por esto, a raíz de otra intervención imperialista en aquel país centroamericano.

El prestigioso intelectual dominicano no era el jefe de aquella expedición. La dirigían otros políticos dominicanos. Casi todos actuando de buena fe, pero movidos por ideas e intereses de clase, incluso oligarcas y burgueses.

Lo peor es que en lo que se refiere a Cuba lo dirigía lo más corrompido del Partido Revolucionario Cubano (Auténtico), nombre hurtado al Partido Revolucionario Cubano creado por Martí para luchar por la independencia de Cuba y Puerto Rico, los dos últimos enclaves coloniales de España en América Latina a fines del siglo XIX.

Nadie entendía el confuso galimatías del Profesor de Fisiología Grau San Martín, heredero de la Revolución desatada por Antonio Guiteras Holmes, Ministro de Gobernación del Gobierno Revolucionario, que surgió tras el machadato, después de la caída del tirano en 1933.

El hambre inocente a la que ya me referí completaba el cuadro.

Cuando la Revolución triunfa el 1 de enero de 1959, Leonel por su parte había cumplido apenas 6 años.

Jiménez Moya, que junto a otros revolucionarios dominicanos aterrizó en las inmediaciones de la Sierra Maestra en un avión civil venezolano, conduciendo 150 fusiles semiautomáticos Garand que disparaban 9 cartuchos 30.06 por peine, y un fusil FAL que personalmente me envió el almirante Larrazábal, quien presidía el Gobierno Provisional venezolano, a la caída del dictador pro yanki Pérez Jiménez, se incorporó a nuestras fuerzas en unión de otros compatriotas suyos, cuando librábamos los últimos combates en la región oriental de Cuba.

En el cerco de un batallón enemigo de tropas especiales bien entrenadas, fue herido de gravedad. Atendido por nuestros médicos de campaña se recuperó y estuvo listo para la operación el 14 de junio en Santo Domingo, en el año 1959.

Ese día, a las 6 y 20 de la tarde, 56 combatientes dominicanos aterrizaron en el aeropuerto militar trujillista de Constanza, sin que les quedara otra alternativa a esa hora que hacerlo en ese punto y no en el sitio escogido. Casi en su totalidad murieron después de heroica lucha.

Otros 169 llegaron por mar días después y corrieron la misma suerte. La idea coordinada y elaborada por los propios combatientes no pudo instrumentarse. El adversario, como siempre, acudió a la tortura y el terror. Es una historia que estaría por escribir.

La sangre común derramada en nuestras luchas por la independencia y en las décadas del 50 y el 60 unió para siempre a nuestros pueblos.

Ya triunfante la Revolución en Cuba, bajo el gobierno de Eisenhower, el país fue sometido a férreo bloqueo económico, una feroz campaña terrorista y atacado posteriormente por Girón, con tropas mercenarias cubanas.

El coronel Francisco Caamaño Deñó se subleva contra la jefatura militar trujillista en el año 1965 y exige el regreso de Juan Bosch, que había sido electo Presidente por el pueblo en diciembre de 1961. A él y sus oficiales y soldados se une un grupo de revolucionarios que se habían entrenado en Cuba.

El Congreso dominicano lo elige Presidente de ese país.

El gobierno imperialista de Estados Unidos, asustado por los acontecimientos, envía la 82 división aerotransportada y más de 40 mil hombres de la infantería de marina a ocupar la isla.

Caamaño mantuvo a raya aquellas poderosas fuerzas invasoras y los hostigó sin descanso, obligándolos a negociar. Había jurado que no se rendiría jamás. Cuando aquéllos habían suscrito un acuerdo, con garantías que nunca cumplieron, el coronel Caamaño abandonó el territorio nacional y fue designado por el gobierno como agregado militar en Londres.

Pero no era hombre que se resignara a esa tarea. Quería regresar a Santo Domingo para luchar contra los que oprimían a su pueblo. Se dirigió a nosotros solicitando nuestra cooperación.

Tampoco deseábamos que entregara su vida en cualquier momento, habríamos deseado circunstancias más favorables, pero nuestra palabra era sagrada.

Vivió entre nosotros un tiempo, apoyado en la promesa de facilitarle el regreso con las armas en la mano tan pronto lo decidiera.

Guardaremos siempre como un gran honor la confianza que depositó en nuestro pueblo.

Es otra historia que está por escribir con todo el rigor necesario.

Sabía que Leonel, entre otras cosas, admiraba la cultura de nuestro pueblo. Me permití por ello presentarle una página con 26 líneas que contiene una brevísima historia del poeta negro Gabriel de la Concepción Valdés, conocido como Plácido que, el 1 de Marzo de 2009 cumplió un aniversario más de su arresto, junto a otros de su raza. Se le acusó de conspirar en contra de los blancos y después de 4 meses de prisión fue fusilado el 29 de junio de 1844.

Tal era el concepto de justicia que el imperio español durante siglos aplicó en Quisqueya y en Cuba.

Yo había conocido, cuando cursaba el 6to. grado de primaria en el Colegio Dolores de los Jesuitas, la famosa Plegaria a Dios del genial poeta que siempre recordé.

Leonel lo leyó, con él estaba el compañero Esteban Lazo, Miembro del Buró Político, designado recientemente por el Partido para organizar el 200 aniversario del nacimiento del poeta, que se inicia dentro de 15 días.

Me alienta saber que nuestro pueblo podrá conocer la vida, el pensamiento y los versos insuperables de Plácido.

Donde la conversación con Leonel adquiere su mayor dimensión es cuando entra en el tema del costo de la actual crisis. A partir de ese instante, su mente no cesa un minuto de elaborar razonamientos, para expresar con cifras exactas cada uno de los capítulos principales del costo de la actual crisis.

Comienza por esclarecer la duda, casi universal, y la confusión entre el significado del billón inglés y el billón español.

Un billón inglés significa solamente 1000 millones.

Un billón en español significa para nosotros un millón de millones.

En las notas y en las cifras de cables y artículos se crea una enorme confusión.

Por ello Leonel utiliza la palabra trillón, califica así al billón norteamericano. Su significado exacto equivale al millón de millones.

Si desea señalar el PIB de Estados Unidos, que alcanza la cifra de casi 15 millones de millones, él lo expresa afirmando que el PIB de esa poderosa nación se aproxima a 15 trillones de dólares.

Formulada la aclaración, no se detiene un minuto en explicar a cuánto asciende lo gastado por Bush en la guerra de Iraq, añadido al déficit anual en el presupuesto de ese país, lo que calcula uno por uno, hasta el próximo 19 de marzo; le agrega de inmediato el plan de rescate de Bush; acto seguido suma el plan de rescate de Obama y así sucesivamente.

En este caso se limita a lo que la crisis cuesta en Estados Unidos. Comienza el cálculo de lo que a su vez cuesta a los países de Europa, primero a los de la eurozona, que son apoyados por el Banco Central europeo, después los de todos los países del Este Europeo y por último Gran Bretaña y Suecia.

Sin detenerse, Leonel pasa a revisar los costos en los países del resto del mundo.

Hace comparaciones entre el PIB de Estados Unidos y las demás naciones. Los suma todos. Calcula los déficit planteados en cada una de ellas. Pasa a calcular los préstamos que llevan a cabo los bancos para sostener la producción de cada una de las empresas productivas, las veces que prestan el dinero depositado en los bancos, las sumas del total de préstamos, generadores de derivados tóxicos, y el ascenso a cifras que equivalen a cientos de trillones de dólares.

La especulación financiera impera por doquier, afirma Leonel.

"En la especulación actúan personas que no producen."

"Alguien vende un petróleo que no produce y alguien compra un petróleo que no piensa consumir."

"Ocurre lo mismo con los alimentos."

"Así ocurre con todo."

La hipoteca se convierte en un título que se comercializa en el mercado, prosigue, sin que el dueño de la casa lo sepa. Puede perder su vivienda en virtud de una operación que se realiza en un país distante.

"El neoliberalismo se desmorona por sí mismo."

"Volver a los principios del keynesianismo no resuelve la crisis actual."

"Eso implica la búsqueda de nuevas ideas."

Leonel sabe que las cifras son abrumadoras, le preocupa la necesidad de que tales sumas sean comprendidas aunque parezcan absurdas y promete seguir suministrando datos.

Yo definiría la tesis de Leonel tal como él ve las cosas: el capitalismo es un sistema que suda toxinas venenosas por todos los poros.

Con la pasión con que su voz se escucha, deduzco que los yankis maldecirán la aritmética que le enseñaron a Leonel en Nueva York, cuando aprendió a leer y escribir.

Por su parte, el poderoso órgano de las finanzas internacionales, The Wall Street Journal, publica el 2 de marzo un artículo de Tunku Varadarajan, afirmando que Nouriel Roubini, el gurú económico, sostiene firmemente que una intervención temporal es la mejor solución a la crisis financiera.

"Nouriel Roubini, siempre se viste de blanco y negro, lo conozco desde hace casi 2 años y lo he visto en distintas situaciones, camino a clase en la Escuela de Negocios Stern, de la Universidad de Nueva York, donde es profesor; tomando una copa de vino en su lobby, en el barrio de Tribeca, en Manhattan; en una conferencia académica, sentado sabiamente en la tarima; en una fiesta bohemia en el barrio de Greenwich Village a las 3 de la mañana."

"Siempre luce un traje negro con una camisa de lino blanca."

Roubini es dueño de la firma de consultoría Roubini Global Economics, ubicada en el centro de Nueva York. Es en la actualidad la persona cuya opinión sobre la crisis es la más solicitada por los principales órganos de prensa de Estados Unidos.

"La idea de que el gobierno desembolse millones de millones de dólares para rescatar instituciones financieras y seguir gastando en activos incobrables no es atractiva, porque entonces el costo fiscal es mucho mayor, en lugar de ser visto como algo bolchevique, la nacionalización es vista como pragmática. Paradójicamente, la propuesta está más orientada al mercado, que la alternativa de los bancos zombis."

"Entonces, ¿será el nivel más alto del gobierno estadounidense receptivo a la idea de nacionalizar los bancos? 'Creo que sí', afirma Roubini sin dudar. 'Personas como Lindsey Graham (el senador republicano de corte conservador) y Alan Greenspan (ex presidente de la reserva federal) ya le dieron una bendición explícita. Eso de alguna forma protege a Obama'."

"Entonces, ¿cuál es exactamente la filosofía económica de Nouriel Roubini? 'Creo en la economía de mercado', afirma, con algo de énfasis. 'Creo que la gente reacciona a los incentivos, que los incentivos son importantes, y que los precios reflejan la forma en que las cosas deberían ser distribuidas. Pero también creo que las economías de mercado a veces tienen fallas de mercado, y, cuando se producen, hay cabida para una regulación prudente (no excesiva) del sistema financiero'."

Dos cosas en las que Greenspan se equivocó por completo fueron creer que, en primer lugar, el mercado se autorregula, y en segundo lugar, no hay fallas de mercado.

En dos palabras, para el periodista de The Wall Street Journal, Tunku Varadarajan y el eminente experto Nouriel Roubini, el sistema capitalista no puede funcionar sin el mercado, pero el mercado no puede dejar de regularse; por tanto, el Estado debe garantizar las dos cosas.

Comprendo la angustia de Leonel cuando medita seriamente sobre el costo de la crisis. La propia sociedad que ha impulsado al sistema capitalista desarrollado no sabe ahora cómo enfrentar el problema, y sus teorías más reconocidas lanzan ideas como las que acabamos de informar.

Con la mayor serenidad del mundo regresa a los problemas más concretos de Santo Domingo y va señalando cada una de las medidas que se propone tomar en los próximos años. En este punto, su caballo de batalla son los fondos sociales. Enarbola con fuerza la idea de que en los fondos sociales de los países de América Latina los descuentos de los salarios reales de los trabajadores constituyen una fuente de capital que, manejado por el Estado, acumula recursos que no pierden valor, por cuanto éste crece cada año.

Invertidos en viviendas y otros servicios decisivos de la población, descontando una parte real del trabajo vivo que se invierte cada año en ellos, el valor de tales fondos crecería continuamente.

Observando el desarrollo del Encuentro Internacional de Economistas sobre Globalización y Desarrollo he apreciado en los primeros dos días un fuerte acento de los economistas de prestigio internacional reunidos en Cuba, que se pone en la búsqueda de una fuente de acumulación de capital al servicio de la sociedad con esperanza de liberar a ésta de las crisis que está padeciendo.

De repente, ante el cúmulo de teorías y soluciones salvadoras, vienen a mi mente otras realidades y me pregunto.

¿Podrá la ciencia dar una respuesta urgente al descongelamiento de los círculos polares Antártico y Ártico, que se está produciendo a ojos vista, y que la atmósfera alcanza los niveles de calor más altos en los últimos 700 mil años, algo que Naciones Unidas y otras prestigiosas instituciones conocen?

Comprendo que tales cifras pueden desalentar a unos pocos, pero ¿no sería peor ignorarlas?

Ahí sin embargo no concluyó la conversación con Leonel. Me dijo que viajaría a Santiago de Cuba para poner unas flores al pie de la lápida que guarda los restos de nuestro Héroe Nacional. Fue éste quien en Montecristi declaró que se iniciaba la batalla final contra el poder colonial español, para liberar a Cuba y Puerto Rico. Con él viajaba Máximo Gómez, quien nos enseñó y perfeccionó en los campos de Cuba las cargas al machete.

Martí en Dos Ríos lanzó la consigna que presidió las luchas futuras de nuestro pueblo contra el dominio imperialista en los países de América Latina.

Antes de despedirnos me dijo: "¿Sabes una cosa? No quiero marcharme de Cuba sin visitar el cuartel Moncada." Yo ni siquiera había recordado aquella fortaleza en medio de tanta historia. No le hice muchos comentarios y le di las gracias por su deferencia. Quiso una foto de cámara digital. Se buscó una y se tomó la imagen. Cuando me dijo que no quería exponerse a que lo desmintieran, le respondí bromeando que nadie correría ese riesgo, porque sabían que yo podría montar en avión y aterrizar en un país vecino.

Así transcurrió agradablemente el tiempo. Mientras escribía estas líneas el miércoles 4, escuché las encendidas palabras de Manuel Zelaya, Presidente de Honduras, que asistió al Encuentro sobre Globalización y Desarrollo, y ayer había pronunciado un gran discurso en ese evento. Más encendidas todavía fueron sus palabras con que condenó el bloqueo a Cuba; su oratoria es impresionante. Lástima que se marche hoy sin saludarlo. Es la segunda vez que visita Cuba. ¿Pero qué hago, de dónde saco tiempo?

Fidel Castro Ruz
Marzo 4 de 2009
3 y 35 p.m.