terça-feira, 31 de março de 2009

Relações entre a PIDE/DGS e a CIA

via Caminhos da Memória de Irene Pimentel em 30/03/09
A PIDE começou a chamar a atenção da Central Intelligence Agency (CIA), em1949, quando Portugal ingressou na Aliança Atlântica (NATO). Analistas dessa agência de Intelligence norte-americana consideraram que aquela polícia política tinha adquirido, em Portugal, um extraordinário poder, efectuava prisões arbitrárias, utilizava a brutalidade física e detinha presos na cadeia por prazo indefinido [1]. Depois, [...]

segunda-feira, 30 de março de 2009

Aljubarrota por António Sardinha

via nonas de nonas em 29/03/09
«Só Nun`Álvares persistiria, — só Nun`Álvares teimara, cheio do sentido religioso duma predestinação a cumprir.» (p.220)
«Saído da nobreza, D. Nuno tira dela as virtudes precisas para acudir à crise de que depende a sorte do Portugal futuro e aproveita o vento incendiário da rebelião que nos parece devorar para assentar solidamente a independência da nossa terra. Tal é a vocação desse herói extraordinário, que, como Joana d`Arc, é um verdadeiro enviado providencial.
Portugal rompia, deste modo, do seu nacionalismo instintivo para a categoria já estável duma nacionalidade, graças à acção iluminada do Condestabre. (...) Aljubarrota marca a passagem duma fase embrionária e latente da Pátria para a sua maioridade reconhecida, de agora em diante, nos vínculos do sangue e da terra. A Grei vai surgir do choque doloroso duma hora mais longa do que as longas passadas dum século. E Portugal atira-se para o caminho do engrandecimento, com o seu génio já clarificado na vocação colectiva da nacionalidade que se conhece e possui enfim.
Não é outra a lição de Aljubarrota, cuja lembrança Portugal nos manda que a meditemos, para honra nossa e louvor dos nossos Mestres. É hoje tão incerto como então o nosso destino. Mas um acto de fé naquele esforço de outrora, que dorme dentro de nós o sono do Encoberto, vivificará talvez, no sonambulismo vergonhoso em que nos estagnamos, as energias de milagre que nunca nos faltaram, sempre que para elas houve alguém que apelasse. É esse o encargo que pertence à mocidade do nosso país mais do que a ninguém.
Não nos amedrontem os negrumes de que se carrega o dia de amanhã! A estrada a pisar-se é só uma e já Deus nos fez a mercê de nos ensinar qual ela seja. Se os perigos, aumentando, nos procuram como ferros de espada, tanto melhor! A nossa existência encher-se-á dum sabor de virtude e de heroísmo, por onde há-de regressar à nossa terra o património esquecido da sua glória e da sua grandeza. Só assim seremos dignos da pátria que nos foi transmitida como um bem de família e que, como um bem de família, é preciso defender e conservar! (pp. 227/228)

António Sardinha
In «Na feira dos mitos», cap. Aljubarrota, 2.ª edição, Edições Gama, 1942, pp. 227/228.

Nun`Álvares por António Sardinha

via nonas de nonas em 29/03/09
NUN`ÁLVARES

Foi ontem dia de Nun`Álvares pela comemoração nacional do seu nascimento. Essa figura erguida, uma das maiores da nossa história, é na sua dupla posição de guerreiro e de santo a incarnação perfeita da alma de Portugal. Ninguém como ele teve o gládio para manter a justiça e para defender a terra. Ninguém como ele soube o poder do espírito quando se recolhe em Deus e não confia senão na força superior duma aspiração imortal! Entre a Espada e a Cruz decorreu feliz e gloriosa a existência passada da nossa Pátria. À Espada e à Cruz nós agradeceremos ainda o acto de milagre que nos há-de restituir ao caminho perdido da nossa vocação de povo.
Sobre Nun`Álvares pesa a ignorância imperdoável de quanto ele nos merece como herói representativo da nacionalidade. Oliveira Martins surpreendeu-o em acasos brilhantes do seu brilhantíssimo talento. Mas a compreensão total do grande Condestabre não a soube abranger o historiador, enevoada a sua inteligência pelas piores bastardias filosóficas. Um aspecto há, notável, no livro de Oliveira Martins. É aquele em que o carácter do herói se destaca como formado moralmente pela influência mística da Cavalaria nos seus votos permanentes de sacrifício e de castidade. Oliveira Martins subtraiu-se assim, pela visão do que fora a Idade Média, às ideias dominantes no seu tempo, que consideravam os fenómenos místicos, debaixo da influência intelectual de Charcot, como puras manifestações patológicas. De resto, a Vida de Nun`Álvares vale mais como subsídio para a biografia mental do seu autor do que propriamente como o estudo que Portugal deve ao extraordinário patrono da nossa independência.
Nas Crónicas, — na singeleza gótica das suas páginas, é que nós podemos sentir bem Nun`Álvares em toda a sua plenitude e em todo o alvoroço do seu coração de Cavaleiro e de Monge. É um compromisso de honra, cujo não cumprimento nos cobre a nós de vexame, redimirmos Nun`Álvares das falsificações literárias em que o seu nome se vê corrompido e corrompida a sua acção virtuosa e salvadora. Junqueiro, num panfleto que é desforra atávica da sua ascendência israelita contra a nossa disciplina católica e monárquica, serviu-se do Condestabre como braço de anátema que o ódio político do poeta precisava de armar na indignação retórica dos seus verbalismos truculentos. Depois, numa página vergonhosa, um outro homem de letras tentou reduzir a estatura do Condestabre à craveira deplorável dum impulsivo sem grandeza consciente, quando não dum doido acabado e simples.
Era este precisamente o ponto sobre o qual eu desejaria insistir, não só para lavar a memória de Nun`Álvares do sacrilégio que a pretendeu enxovalhar, mas para demonstrar como cientificamente as afirmações do senhor Júlio Dantas — é ao senhor Júlio Dantas que me refiro, — são erróneas e em todo indignas de quem conviva as coisa elevadas da inteligência. Sei que não é assunto para o debate rápido duma pequena nota. Mas enunciando-o, embora de leve, não fujo a declarar, a respeito do famoso libelo que uma fantasia censurável em quem se supõe fazer obra de história colocou na boca do Cardeal do Diabo durante o decurso da beatificação de Nun`Álvares, que ele não passa, o referido libelo, de um reflexo cabotino dos ensinamentos da Salpêtriere acerca do misticismo e da natureza das suas personificações. Ora o desenvolvimento dos estudos psicológicos modificou completamente as observações de Charcot. Ninguém como os místicos resolve e domina os conflitos da nossa vida moral, a que num livro recente, L`hérédo, com tanto vigor de expressão Léon Daudet chamou o «drama interior».
Inegavelmente, desde que a «terceira experiência» ou «experiência religiosa» foi instituída pelas necessidades indagadoras da própria psicologia, não é lícito já pensar-se acerca dos Santos como pensaria Mr. Homais alinhando os botões da sua botica em Ruão. William James abriu o caminho. E hoje já não tem conta os trabalhos que, sem preocupações apologéticas, nos ajudam debaixo dum exclusivo critério experimental, a aproximar os Santos, como realidades vivas, da concepção sobre-humana que neles nos apresenta a Teologia.
Nun`Álvares encontra-se psicologicamente dentro desse juízo sereno e reabilitador. Nem ele é o histérico, que um golpe de efeito sobre o público procurou inculcar como tal, nem a sua genealogia, por carregada de estigmas que se nos revelasse, constituiria motivo irremovível para uma condensação. Um médico ilustre, — o Dr. Ch. Fiessinger, — demonstra-nos que o inconsciente se educa e que a religião é precisamente o seu maior educador. A igual conclusão chegou igualmente Léon Daudet. De facto, nós não ignoramos que Santo Inácio de Loiola era um colérico, S. Francisco Xavier, um ambicioso, e o Povorello de Assis, um gastador. A disciplina religiosa interveio. E do colérico saiu o disciplinador admirável dos Exercícios Espirituais, do ambicioso o evangelizador das Índias e do gastador o esposo amorável da Senhora Pobreza, beijando as chagas dos leprosos e cantando ao Senhor Nosso Deus o louvor de todas as criaturas.
A Igreja exige para a canonização, mais que os milagres, o «exercício heróico» das virtudes cristãs. O «exercício heróico» das virtudes cristãs pressupõe a afirmação da vontade. Se os Santos realmente não passassem duma floração hospitalar, de degenerados, mordidos de raivas epilépticas e com hiatos frequentes de personalidade, a vontade desertá-los-ia, como abúlicos inevitáveis que seriam. Escuso de ressaltar, a unidade de vida e pensamento característica dos Santos, que são essencialmente gigantes da vontade. A Santidade é assim uma introspecção activa e constante do soi — como diria Daudet, sobre o moi, isto é, da parte deliberativa e consciente do nosso ser sobre o tumulto de instintos em que a nossa autonomia espiritual quase sempre naufraga.
Enganou-se, pois, o senhor Júlio Dantas, — e enganou-se, não só como escritor mas até como médico, ao assegurar a degenerescência de Nun`Álvares. A unidade da sua existência moral é comprovada pelo testemunho das Crónicas. O epiléptico não se descobre nele, porque a vontade no Condestabre é permanente e robusta. Há uma continuidade de acção e de pensamento em Nun`Álvares que nos enche de assombro e dissipa toda e qualquer suspeita de desequilíbrio. Violento e sanguinário? Mas eu inutilizo, logo que o senhor Júlio Dantas o deseje, a sua acusação? Então por ser casto? Mas hoje a medicina reconhece na castidade uma virtude higiénica. Talvez porque no desfiar dos anos se recolheu a um convento e vestiu a estamenha carmelita? Precisamente a isso responde a psicologia com a «terceira experiência», verificando no misticismo, quando superior, um poderoso desenvolvimento da nossa individualidade.
Muito gostaria de me alongar com o interesse que a questão legitimamente suscita. Raspando de sobre o Condestabre esse pingo de lama que, afinal, nem o salpicou, os meus votos são para que a Festa a Nun`Álvares se torne um dos objectivos mais ardentes do espírito patriótico. Adoremo-lo nos altares e aclamemo-lo nas praças! Nun`Álvares mostra-nos com a espada terminando na cruz que o patriotismo é uma virtude eminentemente cristã. Como cristãos não consintamos jamais que nos roubem o Condestabre, traindo-o e abastardando-o numa espécie de culto maçónico, tal como o que teima apagar Camões o poeta do renascimento católico, fiel à Igreja e ao sentimento ortodoxo emanado do concílio de Trento.
Juntemos os nossos esforços para que Nun`Álvares tenha o seu dia, — mas o seu dia como Santo e como Herói, não separando nunca as duas faces da sua alma admirável, que só se completam integradas uma na outra.

António Sardinha
In «Na feira dos mitos», cap. Nun`Álvares, 2.ª edição, Edições Gama, 1942, pp. 165/166/167/169/170.

N'riquinha - Um E.T.D. sem retorno...

N'riquinha - Um E.T.D. sem retorno...

via Caçadores 3441 de Pedro Cabrita em 29/03/09
Jamais consegui explicar a razão da minha afeição às gentes do aldeamento da N´riquinha. 
Porque fiz quase minhas as dores daquela gente e porque sofri na partida, quando era uma incontida alegria que me deveria inundar por finalmente abandonar aquele autêntico "buraco" onde nos amarraram longos dezoito meses e meio.
Porque interiorizei o sofrimento daquela gente e, nesse sentido, quanto martirizei a "minha tropa" em apoios, transportes e protecção de uma população que não tinha que me dizer nada, porque eu estava ali para fazer a guerra e não para me sensibilizar com o sofrimento escorrido dos nossos 500 anos de ocupação, em que nem a língua materna fomos capazes de lhes transmitir.
Talvez a minha origem humilde possa explicar este acolhimento insensato para um "guerreiro" armado para fazer a guerra. Talvez se tenham enganado os Senhores da Guerra quando me descortinaram engenho e chama para a beligerância a que me destinaram; ou, quem sabe, nem tenham tido tempo para perceberem que a peça não era muito talhada para a função almejada.
Talvez a comunhão sempre viva no dia-a-dia da minha aldeia tenha permitido e incentivado esta minha extensão às agruras das gentes das Terras do Fim do Mundo que nos calharam em sorte e em tempo de guerra.
Talvez "a minha tropa" nunca venha a entender porque os obriguei a tanto tempo extra em devoção a gente tão despida de valores materiais, mas tão rica na nobreza de nos aceitarem com 500 anos de soberania prepotente, tempo aparentemente insuficiente para lhes termos dispensado uma réstia de dignidade que nunca fomos capazes de lhes proporcionar.
Quem sabe se não me pesaram na consciência esses 500 anos de ostracismo e desdém com que brindámos o seu consentimento em deixar-se ser portugueses sem o pedirem.
A partida de N'riquinha foi dos momentos mais doridos de entre todos os 1400 dias de serviço militar a que me vi obrigado a cumprir.
Não encontro melhor forma de vos fazer compreender o meu sentimento por aquela gente senão transcrevendo-vos como o vivi.
Apenas referir que este escrito tem cerca de nove anos. Li-o uma única vez depois de publicado. Não consegui voltar a lê-lo.
Não será hoje que o faço. Transcrevo-o apenas.

"…A grande viagem vai começar. N'riquinha-Luanda.
Dois mil quilómetros em linha recta. Bastantes mais pelas picadas e asfaltos que nos esperavam.

As despedidas estão feitas. Cerca de 140 militares distribuem-se por não sei quantos camiões civis, sentando-se sobre as caixas, malas e múltiplas embalagens, que albergam uma mistura de espólios de guerra com esbulhos de uma civilidade havia muito perdida e encaixotada, e que agora cortejavam a esperança de poderem voltar a florescer, depois de vencido o bafio e a poeira do tempo.
A primeira viatura faz-se preguiçosa e indolente à porta de saída. Soam os primeiros gritos de alegria de despedida de um inferno que por fim se extinguia. Em pé os soldados, enfardados num camuflado desbotado dos tombos da guerra, erguem a G3 como se acabados de conseguir a maior vitória das suas vidas. Os putos, menos doridos e molestados pelos sentimentos de proximidade e pieguice dos adultos, saltitavam em bandos ao lado das primeiras viaturas, alegremente contagiados pela alegria que explodia em cada uma delas.
Ao fundo, comedidamente à distância, na beira do kimbo defronte da picada por onde iríamos passar, aglomera-se um magote de gente silenciosa e mortalmente imóvel. Mulheres com crianças às costas, velhos que se vergam à frente apoiados em paus longos, raparigas adolescentes de braços cruzados que mordem uma ponta do pano que lhes envolve o corpo esguio, mulheres idosas, que se ficam mais atrás apoiando-se na última cubata, com a mão sobranceira aos olhos protegendo-se do sol.
Um kimbo inteiro.
Um kimbo inteiro veio despedir-se da tropa matchiririca que chegou um dia para fazer a guerra com armas que matam e acabou por se consumir noutras batalhas tão indesejáveis e perversas quanto aquela. Uma luta pela dignidade da vida dos que nada tinham e uma autêntica guerra contra o isolamento e as agruras duma fome ignóbil de comunidade perdida nos confins de África, uma autêntica tribo de índios ainda perdida nos confins duma Amazónia deserta, também esta em vias de extinção por via do progresso e de causas justas.
A coluna já se forma lá fora do aquartelamento iniciando preguiçosa uma caminhada de serpente, marcada por nuvens de poeira que se vão elevar nos céus assinalando a sua passagem. A picada segue inicialmente a linha da pista de aviação em direcção a Mavinga, correndo paralela ao quartel e ao kimbo.
Agitam-se lenços, braços e gritos. Uns quantos não resistem e correm até junto da picada. Crianças, adolescentes e mulheres, algumas com crianças às costas. O movimento das viaturas induz-lhes o acompanhamento destas.
Correm. Num impulso contagiante, mais gente vem descendo por entre tufos de capim seco que saltam com destreza. Já há uma pequena multidão que corre paralela à coluna acenando e gritando palavras que continuo sem entender o significado mas que desta vez dispenso tradução. Alguns correm apenas e nada dizem, nada fazem. Apenas querem correr e ficar mais um pouco junto de nós. Uma derradeira companhia, um último momento de uma despedida que já levava dias. Apenas o prolongar um pouco mais da agonia do fim de uma amizade fraterna que a proximidade confortava e induzia um pouco mais de segurança, bem-estar e protecção.
Centenas de metros percorridos e quase ninguém desiste. Corações ao alto, corações ofegantes, corações que persistem numa corrida sem fim nem proveito. Uma corrida quase suicida de ir até ao fim, de ir até cair.
Estou sentado ao lado do condutor que sorri meio estupefacto e me diz.
- Nunca vi nada disto.
Mando abrandar.
Que raio de ideia. Retemperam-se do esforço e dispõem-se a ir muito mais longe.
Mando acelerar e deixo de olhar. Fecho os olhos naufragados numa comoção que transcende aquilo que se espera de um comandante de guerra. Esqueceram-se que um militar nasce militar, não se fabrica por conveniência. Sinto que aceleramos e deixo passar mais uns metros seguros de não ver mais aquela espécie de loucura, de suicídio colectivo, um mar de baleias que dão à costa e se matam com um sorriso de prazer inexplicável recusando voltar atrás, que nos sobreleva o entendimento ou nos desvirtua a propalada razão e superioridade humana.
Por entre um marejar turvo de imagens desfocadas consigo perceber que há ainda um resistente que ao nosso lado se mantém firme de olhos em frente e um sufoco estampado no rosto. Traz vestida uma pequena tanga que esvoaça e denuncia os restos de um camuflado há muito esquartejado, que disfarça agora a sua nudez e sufoca o que resta de uma dignidade que recusa perder.
Fecho os olhos em definitivo e recosto-me no banco. Passo as costas da mão pela testa em busca de um suor que não existe e prolongo o gesto pelos cantos dos olhos, onde estrangulo uma dor que se me escorre de dentro sem que se entenda bem onde nasce. Preciso urgentemente de me explicar quando percebo que o condutor me olha de soslaio e desvia a atenção da picada.
- ... Esta poeirada...!
- ...?!
Mantenho-me assim por dez minutos e percorro em sentido inverso aqueles dois, três quilómetros já percorridos. Tento entender e não consigo. Ficamos sempre com uma imagem de um determinado bem que se faz, de umas migalhas que se oferecem e nos deixam alguma paz de espírito que nos conforta o sentimento de bem-estar connosco próprios. De acordo com as circunstâncias em que ali fomos vivendo todo aquele tempo, atribuímos um determinado significado às coisas, sempre parco quando o comparamos com os nossos padrões de vida, os nossos hábitos e anseios. Esquecemo-nos que o pouco que por vezes se oferece tem um significado tão intenso e duradouro quanto miserável é o significado das suas vidas e quão vulneráveis ficam os seus corações a gestos de pouca monta, mas tesouros de riqueza desmedida que retribuem com as únicas moedas que possuem: a solidariedade e o reconhecimento.
O condutor não pára de olhar pelo retrovisor.
- Parece que já ficaram para trás, diz espreitando dos dois lados como que receando que se tivessem passado para o outro lado.
Não arrisco a abrir os olhos para confirmar. No fundo, talvez eu quisesse guardar aquela imagem lá bem no meu íntimo. Uma prenda simbólica que nos cinzela a memória corroída por inutilidades. Uma fenda esculpida a marteladas de vida que nos deixa marcas que perduram pela vida fora e nos humedece ainda os olhos, trazendo à mente uma catadupa de sons e imagens de significado imenso e de tão grata recordação.
- Estava a ver que vinham atrás de nós até Mavinga...
Diz-me ainda o condutor, mais preocupado com aquela perseguição tenaz, que com o trilho baço de poeira da viatura da frente.
Não! Virão atrás de nós muito para lá de Mavinga. Virão atrás de nós todo o tempo que eu viver e for capaz de me lembrar deles, da sua simplicidade, dos seus corações abertos, dos seus hábitos e tradições, da sua inocência de fazer casa grande para captão e mulher do Puto, de acreditarem numa pátria que nunca viram nem sentiram como sua, de serem capazes de acreditar todos os dias em qualquer coisa sem terem nada em que acreditar. 
Abro por fim os olhos. Agora sim mergulhados num verdadeiro tormento de poeira, uma extensão daquele escuro de nuvem confusa que me faz perder o norte e me baralha a mente com pensamentos descoordenados que me desalinham a recentíssima alegria de partir.
Não me sinto.
Não sei se venho. Não sei que partes de mim vêm. Não sei o que trago. Não sei o que deixo. Não sei o que perco.
Mas sei o que ganho.
E que me dói já a certeza de jamais poder com eles usufruir do que bebi dessas lições de vida sentida e dorida, trituradas a golpes magoados de pilão e sublimadas a bálsamos de batucadas ardentes vencidas pela noite dentro, até que a dor morresse e um novo dia de fé ausente nascesse.
Já não ouço vozes. Só corações soçobrando num adeus derradeiro que se extingue num último suspiro sem sinais de revolta.
Agitam-me os tombos da picada. Agitam-me os meus pensamentos desarrumados. Agitam-se-me revoltas de sentimentos de impotência e remorsos de me vir embora quase feliz. De deixar para trás um fosso com gente dentro que chegou a acreditar que tinha chegado a hora de fugir daquele gueto de guerra e poder morar livre como o vento no mato longínquo e seguro das terras do Cuando-Cubango.
- Estava a ver que vinham atrás de nós até Mavinga… (120 Km)
De soslaio vou dando miradas pelo espelho retrovisor, não sei se na esperança de ainda ver alguém, se de não ver. Mas se vir, garanto a mim próprio que mando parar a coluna e o abraço longamente até sentir que o seu coração se acalma e se me ensurdecem os gritos de despedida que ainda ouço.
Convenço-me por fim que já não vêm. Convenço o condutor a olhar apenas em frente porque é por ali que passa o futuro. Tenho pela frente quatro dias de comer quilómetros de poeira que embaciam um céu limpo sem nuvens. Um circo em movimento que se move em busca de outros públicos e os mesmos aplausos dos que querem continuar donos e senhores da terra que, para muitos, os viu nascer.
Mavinga, de passagem. Quase sem tempo para uma cerveja refrescante que nos lave estômago e a bexiga dos primeiros 120 km de um pó eterno que mastigávamos já com naturalidade, quando o sentíamos ranger entre dentes ou lacrimejar turvo que escorria pelo canto do olho levado pelo vento que nos temperava das ondas tórridas de um calor sempre sufocante.
Andar, andar. Está no andar. Dali para fora. Com calor, com sufoco, com gosto ou desgosto.
Um último relance pelo fim da picada que vinha de N'riquinha. Um último sossego de caminho vazio onde a poeira fina ainda paira no ar como cacimbo seco e colorido obstinado em ficar por ali tingindo as árvores da cor da picada.
- Estava a ver que vinham atrás de nós até Mavinga… – ainda me ressoa perturbador como vaga que me quer engolir e atirar de encontro ao rochedo do meu medo de olhar para trás…"

N´riquinha – Entregar, peça por peça, um quartel vazio de gente e de almas…

via Caçadores 3441 de Pedro Cabrita em 29/03/09

Tinha deixado a promessa de por aqui passar com mais regularidade, deixando uma ou outra intervenção que ecoasse a nossa memória colectiva daqueles anos 71/73. Não que não tenham buscado e rebuscado uma ou outra história ainda "secreta" que valesse a pena trazer ao conhecimento dos nossos cabelos brancos e olhos ávidos de lembranças de uma mocidade que nos calhou viver em comunhão e em sofrimento.

Mas a verdade é que, para já, não encontrei senão episódios dispersos a que acabei por não dar relevo.

Prometo continuar a procurar. A memória já não é o que era; mas aquela daqueles anos ficou como marca indelével, que se nos vai avivando em cada ano em que matamos saudades nos encontros que o Duarte em boa hora empreendeu.

Mas este vazio de reconstrução de histórias novas também tem uma outra justificação que se prende a uma ou outra aventura literária em que me fui metendo, acabando por quase esgotar o manancial de narrativas passíveis de reproduzir agora e de novo.

Entendo, no entanto, que este lugar nos deve merecer um inusitado carinho, louvando, desde já, o Egídio Cardoso pelas belas prosas e fotos com que nos tem brindado. Pela minha parte farei o possível.

Deste modo, e perdoem-me a falta de originalidade, achei que talvez não fosse despropositado trazer um ou outro eco de trechos que já escrevi noutros sítios, na certeza de que muitos dos nossos companheiros ainda os não terão lido e outros nem tenham lá chegado, se porventura se aventuraram a lê-los.

Escolhi duas situações. Esta que aqui vos vou deixar e uma outra que transcreverei noutra folha.

Especialmente para a malta do "arame" (para os leigos, não confundir com "malta do dinheiro"… O "arame" aqui era o arame farpado, querendo referir os militares especialistas que faziam a sua actividade militar no aquartelamento, logo, dentro do arame farpado); dizia então que, para estes, e não só, deixava a recordação da entrega do aquartelamento à Companhia que nos foi render e os milhares de apetrechos e artefactos que foram necessários contabilizar e conferir, numa saga inimaginável, ou só admissível numa instituição como a militar. Também para muitos outros que não fará a mínima ideia de como aquilo era.

Então foi mais ou menos assim que eu senti aqueles três ou quatro dias em que cheguei a ter cãibras na mão direita de tanto assinar papel:

"… Por fim a trouxa militar está entregue. As mais de mil e quinhentas assinaturas estão rabiscadas noutros tantos formulários e modelos militares garantindo a passagem de testemunho, consubstanciado em milhares de peças e pecinhas com os mais variados tamanhos e funções.

Garfos, quase conferidos dente a dente para verificar da sua operacionalidade, colheres, casas, pré-fabricados com telhas de zinco que voam nas tempestades mas param submissas a cinquenta metros de distância e aguardam que as tragam de volta vezes sem conta, como crianças que se obstinam em fugir ao controlo dos progenitores; máquinas de escrever, que por vezes escreviam; mapas, que falavam mas nada diziam e por vezes mentiam; cadeiras, secretárias (de madeira…), chaves de fenda, de cruzeta, de boca, sem boca, com dentes, sem dentes; motores que trabalhavam, outros que se reformavam, e ainda os que morreram há muito e já não respiram, mas continuam pertença e tesouro da República; retretes que fediam, camas que gemiam, colchões sem edredões; passeios de tabuinhas cruzados por milhões de viagens nos dois sentidos e sem sentido; arame farpado com bicos que ameaçavam rasgar a carne aos que queriam entrar, mas também dos que queriam sair; holofotes com luz, sem luz, antenas, bombas de água que nos bombeavam a paciência, geradores que muitas vezes trabalhavam; câmaras frigoríficas a funcionar, avariadas, inutilizadas, obsoletas, mas ainda zelosamente à carga, não fosse desertarem para as bandas do inimigo; camiões, unimogs, jipes, uns a andar, outros parados, vandalizados, canibalizados; uma prisão com telhado de capim, paredes de barro (espesso…!) e grades de vento; areia, muita areia, pedrinhas pintadas de branco que faziam de ruas que não levavam a lado nenhum e davam uma ilusão de ordem que apontava um caminho que não existia; uma taberna travestida com o eufemismo de cantina; bidões de gasóleo, cunhetes de munições contadas caixinha a caixinha, cunhetes de cerveja contadas na garganta duas a duas; janelas com rede mosquiteira, quartos com mosquitos, panelas de 50 litros e tachos de 30 que tresandam a um aroma de gordura militar que se esvai três dias depois da fome nos ter dizimado as resistências do olfacto e o último furo do cinto; um Chiado (vazio) onde em época alta se pode encontrar o último grito de sabão azul cortado em fatia fina com faca de queijo; um clima variado (de 45º a – 3º), noites escuras, de solidão, de desespero, de medo, blenorragias, pagas em moeda corrente ou géneros de primeira necessidade; ("… furrié é bom p'ra mim; furrié dá sapato, dá pano, dá dinhêro p'ra comprá cérvêja lá nos cantina…"); paludismos distribuídos gratuitamente a febres de 41º repartidas por 15 dias de férias em cama fresca de abundante suor; vacinas contra a mosca do sono (1cm3 por cada 10 kg inoculados por agulhas de 8cm enterradas na alva nádega sem dó nem piedade); medicamentos, para as doenças e para afugentar o medo das balas; um milhar de bugigangas agrupadas em pacotes de função, outro milhar dividido em função de pacotes, ainda um outro sem pacote nem função, e, por fim..., um kimbo com gente viva dentro, porque se mexia; uma bandeira num mastro altaneiro que se esfalfa todos os dias para afirmar a nossa autoridade naquele lugar e uma guerra; uma guerra que começa à porta de armas e termina nas margens de um rio Cuando majestoso e indiferente, que nos separa da soberania do povo do lado de lá, mas que os do kimbo não entendem porque os apartam dos família do outro lado de um rio sem paredes nem muralhas, feito apenas de água que corre límpida e sem raivas em ambas as margens.

Ficam de fora, com o consentimento das NEP's (normas da coisa militar que nos orientavam em tudo, por vezes até os gestos e os desejos) depois de demorada consulta para esse efeito, a gata (a "chaninha" para os mais íntimos, companheira inseparável das noites de insónia em que nos achávamos a fazer de ratos para a gata brincar); uma cabra bebé, poupada a um tiro de G3 num intervalo da guerra, passando a fazer parte da carga da Companhia (até que um dia a fome ditasse um outro destino) e… o Dango (depois Dango Cabrita), a peça de guerra mais representativa que foi possível achar, depois de capturada ao inimigo nas terras do Cuando-Cubango.

Tudo contado, conferido e entregue, soa um batuque fúnebre que carpirá noite dentro uma dor cíclica de perder quase para sempre, e de uma só vez, um amontoado de amigos trazidos pela guerra e pela guerra levados.

Tropa matchiririca parte amanhã bem cedo…"

Inter e transdisciplinaridade em geologia

Inter e transdisciplinaridade em geologia
via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 29/03/09
.
.
TENDO COMO OBJECTIVO o conhecimento da história da Terra e da Vida, no contexto da realidade física do Universo, a Geologia é um dos ramos científicos que mais tem recorrido à interdisciplinaridade. E, ao procurar a unidade do saber na perspectiva da globalidade do real, a Geologia segue também os caminhos da transdisciplinaridade, tal como a definiu G. Berger, em 1972. Com efeito, não é possível abarcar a complexa e longa história do planeta (cerca de 4600 milhões de anos) sem o recurso às muitas disciplinas que a integram, entre outras, Física, Química, Biologia, e, ainda, disciplinas do âmbito da Matemática, como Probabilidades e Estatística, Cálculo Vectorial, Cálculo Tensorial, etc. A demonstrá-lo estão alguns dos mais importantes domínios da Geologia, como, por exemplo, Mineralogia, Cristalografia, Petrologia, Geoquímica, Geofísica, Tectónica, Geocronologia, Paleontologia, Estratigrafia, Vulcanologia e, ainda, nos de carácter tecnológico e aplicado como a Hidrogeologia e a Geologia de Engenharia, entre outros.
-
Restringindo-nos à realidade que nos é dada observar à superfície da Terra, citam-se, como demonstração destas interdisciplinaridade e transdisciplinaridade:
.........as rochas e os minerais, o seu quimismo, as leis da Termodinâmica que lhes ditam as respectivas naturezas e, ainda, a Física do Estado Sólido no que se refere às estruturas cristalinas;
.........a alteração das rochas e os solos, com os inúmeros factores físico-químicos e biológicos intervenientes (dilatação e contracção térmicas, solubilidade, hidrólise, oxidação–redução, bioquimismo associado à matéria orgânica, à fauna e à flora do solo, etc.);
.........a erosão, o transporte e a sedimentação, face às leis da Mecânica Clássica (newtoniana), no campo gravítico terrestre, com relevo para as estudadas no domínio da Hidráulica;
.........os fósseis e a respectiva sistemática, como veículos ao estabelecimento da história da biodiversidade;
.........a elevação das montanhas, o vulcanismo e os sismos, como manifestações do calor interno do planeta através, nomeadamente, da convecção térmica;
.........a planetologia comparada, e as leis fundamentais da Física e da Química, a Astrofísica, a Astroquímica;
.........as explorações mineiras, do petróleo, dos aquíferos subterrâneos e geotecnia, e as suas inevitáveis ligações à Economia, à Sociologia e às Ciências Políticas.
-
Nestes termos, a Geologia, para além dos aspectos científicos fundamentais e dos aspectos práticos indispensáveis às sociedades humanas, tem vindo e vai continuar a dar resposta a problemas importantes habitualmente formulados no domínio da Filosofia.

sexta-feira, 27 de março de 2009

O Pais pouco original do Medo

via Caminhos da Memória de Diana Andringa em 26/03/09
Durante as dezenas de anos do Estado Novo, muitos portugueses olharam cuidadosamente em redor, na rua, no café ou na tasca, antes de exprimir a sua opinião sobre qualquer assunto tido por «político». Temiam os «bufos», que informavam a polícia política do que ouviam, e os resultados da denúncia: perseguição, desemprego, prisão. O medo insinuava-se nas [...]

quarta-feira, 25 de março de 2009

Ecos (36) - [Sofia Ferreira]

Ecos (36)

via Caminhos da Memória de Joana Lopes em 25/03/09
Há 60 anos, em 25 de Março de 1949, Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro e Sofia Ferreira foram presos no Luso. Num vídeo hoje publicado no Jornal de Notícias, Sofia Ferreira resume o momento dessa detenção que tantas repercussões teve na vida do Partido Comunista Português e da resistência antifascista em Portugal. (Ler, neste blogue, [...]