domingo, 5 de abril de 2009

Um Obama para a Europa

via Jacarandá de noreply@blogger.com (António Barreto) em 05/04/09
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A VIAGEM DE OBAMA à Europa foi triunfal. Os resultados políticos ver-se-ão mais tarde. Mas, para já, o homem venceu em todas as frentes: encenação e substância, determinação e carisma. Convenceu os líderes europeus, obrigou-os a rodopiar à volta dele, cedeu no que era necessário e obteve o que procurava. Mostrou uma equipa unida e motivada, mas revelou ser ele o mestre a bordo. Todos ficaram a pensar que tinha visão, não tirava os olhos dos seus objectivos, conhecia os meios de lá chegar e estava atento ao pormenor. Falou com grandes e pequenos, com monarcas e estudantes. Foi firme no que queria e flexível no que podia. Esteve à vontade em todo o sítio. Racional quando foi preciso, afectuoso quando quis. Tinha o mundo a seus pés, mas nunca esqueceu de onde vinha, da América. Sabia que tinha um Estado, uma nação e um povo atrás de si. Além de um exército. Em poucas palavras: foi um líder político.
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OS EUROPEUS, órfãos de líderes, estavam preparados. As expectativas foram satisfeitas, ultrapassadas mesmo. Foi quanto bastou para que voltassem a exprimir um dos seus mais ardentes desejos: o de ter um líder. Ou antes, de terem, em cada país, um líder. E também, para a União e para toda a Europa, um grande líder. Branco ou preto, católico ou protestante, latino ou saxónico, judeu ou ariano, mas um líder! Com tanto desejo, não hesitaram no modelo: Obama! Analistas, comentadores, estudiosos, políticos e jornalistas não tardaram a repetir a sua perene aspiração: a de que a "Europa fale a uma só voz".
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É UMA VELHA cantilena. Cada vez que surge um problema, constitucional ou de ambiente, de defesa ou de crescimento, logo os circunspectos europeus gemem de melancolia. "Já não há líderes como antigamente"! "É preciso que alguém fale por todos"! Olham para a América. Ali, há líder. Os americanos, dizem, decidem depressa e são eficientes. É porque têm um líder. Em geral, ganham. Quando perdem, recuperam depressa. As mais das vezes, acertam. Quando erram, corrigem rapidamente. Porque têm um líder. Os políticos europeus parecem-se cada vez mais com guarda-livros ou altos burocratas, mudam de opinião, vão atrás da onda e do vento, não têm princípios nem valores. Tudo, crêem, defeitos que os verdadeiros líderes não têm. O raciocínio é simples e adolescente. Há falta de Europa? Então é preciso mais Europa. Falta a liderança? Haja mais liderança. Há divisões na Europa? Então faça-se a unidade. Não há líderes? Faça-se um! Não interessa muito saber por que razões não há líderes, ou unidade, ou Europa, ou cidadãos europeus, o que interessa é afirmar que é preciso mais. São banalidades e petições de princípio que não resistem à análise, mas que têm a grande virtude de ser simples e não exigir reflexão. Com facilidade se comparam os estados americanos aos Estados europeus. Ou, se for preciso, aos distritos portugueses. Para fazer os Estados Unidos da Europa, basta querer. Para os pobres de espírito ou os pouco exigentes, é sempre um problema de vontade. O que é preciso é "mudar de mentalidades"! O que faz falta é "vontade política"! E está tudo dito.
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IMAGINE-SE um Sueco, um Alemão ou um Maltês a concorrer para a presidência da Europa! Anos de campanha eleitoral, a falar em 27 países, a convencer eleitorados e a atrair pessoas e interesses. Veja-se um primeiro-ministro que acaba de perder as eleições nacionais e que decide concorrer à presidência da Europa. Pense-se nos que perdem as eleições europeias mas que, pelo jogo deste federalismo atípico, determinam a composição da Comissão Europeia e designam o seu presidente, como, aliás, aconteceu há cinco anos, quando Blair, Chirac, Schroeder e Barroso perderam em casa, mas nomearam o presidente da Comissão. Conhecemos a resposta. O presidente da Europa será eleito no Parlamento, de credenciais democráticas impecáveis, garantem-nos. Imagine-se a força, o carisma, o reconhecimento e a autoridade de um grande burocrata, mais ou menos reformado, transformado em presidente! Pense-se mesmo num presidente eleito, francês por exemplo, acumular, durante uns anos, o seu cargo legítimo com o de presidente da Europa! Será com este dispositivo que se pretende uma Europa mais forte? Mais próxima dos eleitorados? Mais democrática?
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A CAMPANHA eleitoral, nos Estados Unidos, dura vários anos. Não porque a América seja grande ou as campanhas comerciais. Mas porque os candidatos têm de ser nacionais. Para chegar a candidato, são precisos muitos anos. Não há candidato sem bases populares e partidárias firmes. Não há presidente eleito que não tenha uma convicção nacional e um programa com raízes em comunidades e objectivos para todas as regiões, classes e etnias. Não há presidente não que não seja deles, dos americanos, ou de partes deles, um pouco por todo o lado, dos republicanos aristocratas do Sul, dos clãs democráticos de Washington, dos judeus de Nova Iorque ou dos negros da Virgínia, dos irlandeses e dos polacos, dos patrícios de Nova Inglaterra e dos metalúrgicos de Detroit, dos agricultores do Iowa ou do "smart people" da Califórnia. Os grandes candidatos americanos não são a soma destes segmentos todos, são algo que os atravessa a todos, uma forma de ser americano. Por isso os americanos se revêem nos seus candidatos, mesmo quando o país está dividido eleitoralmente ao meio, em dois.
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A LIDERANÇA política forte e determinada vem da pessoa, de dentro, da alma e da cabeça, mas nada disso é suficiente. Sem eleitorado, sem reconhecimento público, sem identificação e sem sentimento, não há qualidades pessoais que cheguem. A liderança vem do sentido da oportunidade, da vontade, da ética da responsabilidade, do prestígio pessoal e da autoridade inata. Mas, sem raiz, sem bases sociais e nacionais, sem interesses, sem organização, sem caldo de cultura e sem circunstância história nacional, as virtudes individuais de pouco servem para o ofício de líder. Os problemas de liderança europeia, assim como das lideranças nacionais, que são verdadeiros, são inerentes à Europa e aos seus países, às suas nações e às suas culturas. A que se acrescenta o facto de haver contradição entre este monstro híbrido, a União Europeia, e a variedade de países e Estados. À força de querer um Obama, os europeus terão surpresas. Não é por esta via que terão um Hitler. Nem um Churchill. Mas terão certamente um Barroso.
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«Retrato da Semana» - «Público» de 5 de Abril de 2009

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Lembrança de Bagdad

via Caminhos da Memória de João Tunes em 01/04/09
  Uma das cidades que me ficou gravada na memória foi Bagdad. Não a cidade mutilada de hoje mas a que conheci há trinta anos atrás. Lembro-me de uma cidade plana, com ruas e avenidas largas, desenhadas em geometrias perfeitas. E, entrando para o casco da cidade, pisar o chão da velha Bagdad desenhada em círculos [...]

Era uma vez… Portugal (II)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 01/04/09

A CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA E O DESCOBRIMENTO DO BRASIL

O século dos grandes Descobrimentos portugueses foi, como é conhecido, uma época de intensos contactos entre diversas culturas, que viriam a facilitar um melhor conhecimento do mundo e da sua diversidade. Um momento privilegiado neste conhecimento ocorria com a descoberta de uma cultura ainda desconhecida, sobretudo no Novo Mundo de que se ignorava anteriormente a existência. Na História da Literatura Portuguesa há um pequeno relato que ocupa um lugar de destaque, por constituir a descrição do primeiro contacto entre os navegadores portugueses e os índios brasileiros: a "Carta de Pêro Vaz de Caminha a el-rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil". Vamos hoje falar sobre este pequeno documento precioso, e sobre o lugar que a chegada dos portugueses ao Brasil ocupa na História dos Descobrimentos.

É, de um modo geral, por todos conhecido que o rei D. João II deu um novo impulso ao processo dos Descobrimentos que se encontrava com alguma perda de vitalidade desde a morte do Infante D. Henrique em 1460. Igualmente sabido é o facto de que, após a viagem de Cristovão Colombo, Portugal e Espanha procederam a uma nova partilha do Mundo (de que comemoramos, aliás, os 500 anos este ano), segundo a qual caberia aos nossos vizinhos as terras encontradas por Colombo, e a Portugal a África e a Ásia, segundo uma linha que o nosso rei insistiu que se localizasse o mais possível para Oeste. Se D. João II teria ou não conhecimento prévio da existência do Brasil, é algo que ainda hoje se discute. Mas a verdade é que, de facto, uma fatia do continente americano ficou na área demarcada como pertencente a Portugal segundo o mesmo Tratado.

Nos finais do século XV não havia, por parte da Coroa portuguesa, qualquer interesse em descobrir terras localizadas a Ocidente. Na verdade, com a viagem de Vasco da Gama tinha-se provado que o projecto de D. João II estava correcto, e estava aberta a ligação directa entre Portugal e a Índia. Assim, todos os esforços eram canalizados, agora sob a orientação do novo rei D. Manuel, para explorar esta recém-descoberta rota, e permitir que afluíssem a Lisboa as tão famosas mercadorias do Oriente, sobretudo as cobiçadas especiarias.

Deste modo, parte a 9 de Março de 1500 a segunda armada para a Índia, fortemente armada, com vista a firmar a posição de Portugal e a permitir o estabelecimento de relações comerciais com diversos reinos da costa ocidental indiana. Era esta armada comandada por Pedro Álvares Cabral, e levava a bordo um escrivão que foi registando as informações mais importantes da viagem. Passaram as Canárias e Cabo Verde, mas seguidamente as condições atmosféricas arrastaram a armada para oeste, e a 21 de Abril os marinheiros detectam alguns sinais de terra, como algumas ervas e aves; no dia seguinte, 22 de Abril de 1500, avistam terra, que Pero Vaz de Caminha regista do seguinte modo:

"Neste dia, a horas de véspera [ou seja, de tarde], houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome -O Monte Pascoal - e á terra - a Terra de Vera Cruz."

Tinham os portugueses descoberto o Brasil. A exploração desta nova terra, de que não suspeitavam ainda ser um imenso continente, começou imediatamente, logo no dia seguinte. Desembarcam e contactam de imediato com os índios, que andavam sobre a praia. Causam estranheza por andarem nus, e traziam arcos e flechas. Um marinheiro português mais afoito, chamado Nicolau Coelho, tratou imediatamente de tentar contactar estes estranhos personagens; a língua era diferente, mas tal não impediu o contacto amigável, como diz o cronista:

"Ali não pôde deles haver fala, nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Deu-lhes somente um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça e um sombreiro preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave compridas, com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal grande de continhas brancas, miúdas (…)".

Assim, desta forma amistosa, se iniciou o contacto com as populações locais, com quem viveram os portugueses durante alguns dias. No dia seguinte, 24, foram os contactos mais prolongados, quando os portugueses levaram alguns índios a visitar um navio. Ali puderam observar melhor a diferença de costumes, de alimentação e de vestuário. No domingo seguinte, de Pascoela, a 26 de Abril, o capitão decidiu mandar rezar uma missa em terra, o que é feito sob o olhar curioso de vários índios. Assim se passaram vários dias, repartidos entre a exploração da costa, o abastecimento dos navios e o contacto com a população local, geralmente sob a forma de diversas trocas que lhes amainava a desconfiança inicial. O cronista regista com alguma admiração alguns traços desta cultura desconhecida: não tinham rei nem autoridade visível, não criavam gado, antes viviam do que a floresta lhes dava, não conheciam o ferro, mostravam grande interesse em relação aos portugueses e, como considerava que viviam num estado de ingenuidade e inocência, diz que poderiam ser facilmente convertidos ao cristianismo.

Entretanto, Pedro Álvares Cabral enviava de regresso a Lisboa um navio com a notícia do descobrimento da nova terra, e preparava-se para retomar a viagem á Índia, deixando na nova terra dois degredados como "lançados" que, como em África, eram deixados para melhor conhecerem as populações locais, e recolherem informações que pudessem ser úteis aos portugueses. Assim se estabeleceu pela primeira vez o contacto entre portugueses e os índios do Brasil. Destes breves dias ficaram registados os momentos porventura mais importantes, como este, em que Pero Vaz de Caminha descreve o encontro entre um grupo de portugueses e outro de índios, na praia:

"Passou-se então para além do rio Diogo Dias (…), que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras e salto mortal, de que eles se espantavam e riam muito."

A armada de Pedro Álvares Cabral seguiu então a sua viagem rumo á Índia. Pelo caminho se perdeu entre outros o navio comandado pelo homem que havia pela primeira vez contornado o Cabo da Boa Esperança, Bartolomeu Dias, mas a armada acabaria por chegar a bom porto e por desempenhar a sua missão de consolidar a presença portuguesa no Oriente. Pelo caminho havia, porém, descoberto o Brasil e iniciado o contacto com a terra que mais tarde viria a suplantar a Índia como alvo de exploração e colonização.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Era uma vez… Portugal (III)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 02/04/09

A POLÍTICA CASTELHANA DE D. AFONSO V E O TRATADO DE ALCÁÇOVAS

Os Descobrimentos Portugueses, iniciados nas primeiras décadas do século XV pelo Infante D. Henrique, não deixaram de suscitar cobiça por parte de outros reinos peninsulares, sobretudo a partir do momento em que a exploração da costa africana começou a dar grandes lucros. Assim, o ritmo do avanço dos portugueses para Sul está ligado ao relacionamento com os países vizinhos, sobretudo Castela, e ao modo como conseguiram os monarcas portugueses salvaguardar para si a exclusividade da navegação e comércio no Atlântico. Vamos hoje falar de um período particularmente difícil neste processo, em que a interferência de D. Afonso V nos assuntos internos do reino de Castela colocou em perigo a primazia portuguesa nos Descobrimentos.

É bem conhecida a inclinação do rei D. Afonso V para a expansão em Marrocos e o seu desinteresse pelos problemas do descobrimento e avanço na costa africana. Desde 1460, data da morte do Infante D. Henrique, que as viagens de exploração estavam arrendadas a particulares, uma vez que não havia interesse visível do rei em chamar a si a condução das viagens. Por outro lado, esta nova fase dos Descobrimentos é marcada pelo comércio cada vez mais rendoso que os portugueses conseguiam obter nas costas africanas, uma vez que se havia já alcançado regiões onde o rico tráfico do ouro era possível. Finalmente, resta lembrar que em 1474 entrara em cena uma nova personagem, o príncipe D. João, futuro D. João II, que desde logo se interessa por este processo, vindo gradualmente a acompanhar e conduzir a empresa africana. Nesta época, Portugal havia conseguido obter do Papa importantes garantias do seu direito á exclusividade de navegação e comércio naquelas paragens, medida indispensável para tentar afastar a cobiça castelhana. No entanto, entre 1475 e 1479 o rei português promove uma política intervencionista nos assuntos internos de Castela, o que provocou a guerra aberta entre os dois países e constituíu um excelente pretexto para os reis espanhóis promoverem a navegação nas costas africanas, entrando em concorrência directa com Portugal e não respeitando a exclusividade portuguesa naquelas regiões.

Este incidente foi provocado pela morte, em Dezembro de 1474, do rei de Castela Henrique IV. A corte Castelhana estava dividida em duas facções: os que apoiavam a irmã do rei, Isabel, casada com o rei de Aragão, e os apoiantes da princesa D. Joana, sobrinha de D. Afonso V. Esta detinha a teoricamente a legitimidade, como filha do falecido rei, mas na prática a sua pretensão ao trono era posta em causa por vários sectores da corte castelhana, tanto mais que se murmurava nos bastidores que ela não era filha do rei, mas de um nobre castelhano pelo qual a rainha se havia apaixonado no passado. Ficou, aliás, para a História com o nome de Joana, a Beltraneja, cognome retirado do tal nobre castelhano, chamado Beltrán de la Cueva.

De qualquer modo, o rei português D. Afonso V empreende imediatamente uma arriscada política de intervenção em Castela, ao promover o seu casamento com a sua sobrinha e coroar-se rei de Castela e Leão, recolhendo apoio de parte da nobreza espanhola. Abriu-se, assim, um período de guerra entre os dois países, pois os reis Católicos, Isabel de Castela e Fernando de Aragão, imediatamente reagiram a esta pretensão do rei português, atacando várias praças fronteiriças portuguesas e enviando várias esquadras para as costas da Guiné.

Portugal estava, deste modo, de novo em guerra com Castela, arriscando-se agora a perder os seus direitos adquiridos no que toca á exploração do Atlântico e das costas da Guiné, o que a longo prazo poria em risco o futuro do processo dos Descobrimentos. O país arruinava-se devido ás despesas militares decorrentes da guerra. No plano militar, a situação não era melhor. A batalha do Toro, ocorrida a 2 de Março de 1476, anunciara o arrastar das hostilidades por tempo indeterminado. Porém, o cansaço provocado pela guerra, assim como os riscos que o seu arrastamento poderiam provocar para a soberania nacional, cedo obrigaram a uma rápida solução. O próprio príncipe D. João, certamente mais interessado em dedicar-se ás viagens de Descobrimento do que a dar cobertura á ambição política de seu pai, manifestara-se contra o prosseguimento da guerra. As Cortes do Reino, reunidas em Montemor-o-Novo e depois em Santarém no ano seguinte, demonstraram as dificuldades financeiras em prosseguir o conflito e assinalaram o descontentamento popular face á situação do país na época. Cresceram assim as pressões para que o problema fosse resolvido pela via diplomática. Foram então iniciadas as conversações para a obtenção da paz. As negociações foram longas e difíceis, devido á complexidade e gavidade dos problemas a resolver. Os Reis Católicos, embora numa posição mais favorável, acusaram igualmente um grande desgaste interno e uma igual vontade em resolver o conflito. A paz viria então a ocorrer algum tempo depois, em 1479, com a assinatura do Tratado das Alcáçovas, que resolveu de uma vez por todas os diversos conflitos que opunham Portugal a Castela.

O Tratado de Alcáçovas garantiu a Portugal a salvaguarda dos seus direitos sobre a navegação e comércio das costas africanas, permitindo assegurar a cantinuidade dos Descobrimentos e afastar de vez a interferência castelhana na região. Ficou estipulado que todo o espaço a sul do paralelo das Canárias e do Cabo Bojador, assim como todas as terras descobertas e a descobrir, incluindo os arquipélagos atlânticos, ficariam sob jurisdição portuguesa, obtendo ainda o direito á conquista do reino marroquino de Fez. Em troca, o rei de Portugal foi obrigado a desistir de todas as pretensões sobre o trono de Castela, assim como a sua sobrinha D. Joana. Do mesmo modo, foi obrigado a reconhecer a soberania castelhana sobre as Canárias, que desde há muito eram um foco de tensão entre os dois estados, e reconhecer a Castela o direito de conquista de Granada. Estamos, assim, perante o primeiro Tratado de partilha do Mundo, que garantia a Portugal, sob a direcção do príncipe D. João, o caminho livre para prosseguir o descobrimento da costa africana a caminho da Índia e do Oriente. Foi sob os seus auspícios que se avançou rapidamente para Sul e se contornou o Cabo da Boa Esperança, até que a viagem de Cristóvão Colombo, em 1492, ao serviço dos reis espanhóis, veio a provocar novo conflito diplomático e a assinatura de um novo Tratado, em Tordesilhas, sobre o qual comemoramos este ano o 5º Centenário.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

A Imprensa periódica portuguesa na época da Restauração

via Memória Virtual de Leonel Vicente em 01/04/09

O surgimento da Imprensa na Europa, no século XV, permitiu, como é por demais conhecido, uma rápida expansão dos conhecimentos e da cultura. Os seus efeitos foram profundos e duradouros, permitindo a difusão de obras de todo o tipo, que anteriormente teriam de ser copiadas á mão, e logo com um grau de difusão muito menor. Uma das consequências da invenção de Guttenberg foi o aparecimento por toda a Europa dos primeiros jornais. Considera-se como jornal uma edição impressa composta com o objectivo de difundir informações ou notícias, com uma certa periodicidade e continuidade, ou seja, algo que informa ou pretende informar regularmente, e não apenas um folheto ou manifesto isolado.

Em Portugal, o surgimento da imprensa periódica, ou seja, do primeiro jornal, está ligado á nossa história política. De facto, o primeiro jornal português surgiu num período muito particular da nossa História, a época das Guerras da Restauração, servindo a causa de D. João IV. É deste tema e da sua importância no contexto geral da retomada e fortalecimento da independência de Portugal neste período que iremos falar hoje.

O golpe executado em Lisboa a 1 de Dezembro de 1640, que abriu caminho á subida ao trono do Duque de Bragança, como D. João IV, foi apenas o primeiro passo do longo processo da Restauração, que só terminaria mais de 20 anos mais tarde com a assinatura da paz e o reconhecimento da independência de Portugal por parte de Espanha. Durante este tempo, foi empreendido um enorme esforço nacional, quer militar, político e económico, mas também no plano diplomático e cultural. Neste último caso, havia que legitimar a nova dinastia e o novo reino, no que se distinguiram diversos autores, como o Pe. António Vieira. Por outro lado, num estado de guerra, havia que informar o país dos sucessos militares que se alcançavam contra os espanhóis, manter esperanças e animar a população nos anos difíceis que se viviam.

Já anteriormente haviam surgido alguns simulacros de jornal. Durante o período filipino, tratou-se sobretudo de folhetos e manifestos contra o domínio castelhano, pelo que logo na década de 1620 a censura prévia aos folhetos impressos passou a ser cuidadosamente efectuada. Também por esta altura Manuel Severim de Faria imprime, numa proximidade evidente ao que chamamos hoje jornalismo, uma Relação Universal do que Sucedeu em Portugal e mais Províncias do Ocidente e Oriente, de que saíram dois números.

No entanto, o que mais propriamente chamamos o primeiro jornal português apenas surgiu na nova conjuntura da Restauração, destinado a relatar ao público a aclamação de D. João IV e a informar regularmente o público sobre os sucessos militares e outros acontecimentos, quer nacionais, quer estrangeiros. Era, assim, um instrumento de propaganda ao serviço da Restauração, e o primeiro número foi impresso em Lisboa logo em Novembro de 1641. Tinha como título completo Gazeta em que se Relatam as Novas Todas que Houve Nesta Corte e que Vieram de Várias Partes. Dava conta de várias notícias de carácter diverso, era mensal e resultou de alvará atribuído pelo rei a Manuel de Galhegos. As informações militares ocupavam lugar de destaque, como se pode comprovar neste exemplo:

"Pelejou a armada de Holanda com uma armada da Esquadra Real de Castela, em que vinham muitas fragatas de Dunquerque; durou a pendência mais de 24 horas. Foi-se a pique um galeão dos Castelhanos e ficaram alguns destroçados e todos com muita gente morta. O Holandês com algum dano se retirou a este porto, onde está aguardando que El Rei Nosso Senhor lhe dê socorro para sair outra vez a atemorizar os portos da Andaluzia".

Porém, outras notícias vinham incluídas na Gazeta, meras referências de casos ocorridos e relatados nas ruas de Lisboa, alguns pequenos apontamentos mundanos, como este caso:

"O Conde da Castanheira, que estava preso numa torre de Setúbal, pediu a El Rei Nosso Senhor que lhe mudasse a prisão, porquanto estava indisposto; e El Rei Nosso Senhor, usando de sua natural benignidade o mandou trazer para o Castelo de Lisboa."

Este foi, assim, o primeiro jornal português, ainda muito semelhante ás notícias dispersas que se imprimiam com grande intensidade por todo o país, dando informações sobre as Guerras em curso. Não era barato: cada número custava 6 réis, pelo que não conseguiu uma grande difusão. No entanto, a brevidade da vida da Gazeta não se ficou a dever a falta de leitores. Pelo contrário, foi o próprio poder político que, nesta época de grandes dificuldades, temia a divulgação de notícias que pudessem dar informações ao inimigo, pelo que passou a vigiar atentamente que o jornal quer outros folhetos informativos que circulavam no país. A Gazeta foi suspensa durante alguns meses, e acabou por publicar apenas notícias do estrangeiro. Em 1647 deixou definitivamente de se publicar.

Seria necessário esperar alguns anos para assistir ao surgimento do segundo jornal, já em 1663. Trata-se do Mercúrio Português, tomando o nome do que era, para os romanos, o deus mensageiro. Seguia, aliás, o exemplo de outros Mercúrios que se imprimiam por toda a Europa. O seu fundador foi António de Sousa Macedo, escritor e diplomata. Embora variando um pouco, quer em forma quer em conteúdo, da anterior Gazeta, o Mercúrio pretendia também informar o público acerca de diversos temas, destacando-se uma vez mais a Guerra da Restauração que ainda prosseguia. Podemos afirmar que era mais politizado do que a Gazeta, pois destinava-se principalmente a contrariar o enorme esforço de propaganda que os espanhóis promoviam na altura, denegrindo a imagem de Portugal na Europa e difundindo informações falsas sobre o conflito com os portugueses. Porém, este Mercúrio não durou mais do que alguns anos. Passado o período das Guerras da Restauração, não se registam sinais de interesse pelo reactivar da imprensa periódica. Assim, durante o resto do século XVII não se publicou mais nenhum jornal. Só em 1705 é que surgiu um novo, chamado também Gazeta. A partir de 1715 toma a designação de Gazeta de Lisboa, que existiu por muitos anos, tornando-se um jornal oficial.

 Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Tarefa tão íntima em mão anónima

via O que eu andei ... de João B. Serra em 02/04/09

Quando ouviu dizer que eu ia à cidade, Vovó Nzdima emitiu as maiores suspeitas:
- E vai ficar em cada de quem?
- Fico no hotel, avó.
- Hotel? Mas é casa de quem?

Explicar como? Ainda assim, ensaiei: de ninguém, ora. A velha fermentou nova desconfiança: uma casa de ninguém?
- Ou melhor, avó: é de quem paga - palavreei para a tranquilizar.
Porém, só agravei - um lugar de quem paga? E que espíritos guardam uma casa como essa?
A mim me tinha cabido um prémio do Ministério. Eu tinha sido o melhor professor rural. E o prémio era visitar a grande cidade. Quando, em casa, anunciei a boa nova, a minha mais-velha não se impressionou com o meu orgulho. E franziu a voz:
- E, lá, quem te faz o prato?
- Um cozinheiro, avó.
- Como se chama esse cozinheiro?

Ri, sem palavra. Mas, para ela, não havia riso nem motivo. Cozinhar é o mais privado e arriscado acto. No alimento se coloca ternura ou ódio. Na panela se verte tempero ou veneno. Quem assegura a pureza da peneira e do pilão? Como podia eu deixar essa tarefa, tão íntima, ficar em mão anónima? Nem pensar, nunca tal se viu, sujeitar-se a um cozinhador de quem nem o rosto se conhece.
- Cozinhar não é um serviço, meu neto - disse ela - Cozinhar é um modo de amar os outros.

Mia Couto,
O Fio das Missangas. Contos.3ª ed. Lisboa, Caminho, 2004. p. 127-128

É só comparar...


via Estado Novo de Abrantes em 01/04/09

É SÓ COMPARAR...

Há pouco tempo, no site "Portugal Club", escrevia Maria Isabel Galveias relembrando uma passagem na vida do Doutor António de Oliveira Salazar.
A articulista começava por dizer:

Muito se tem falado sobre o facínora Salazar e seus métodos.
Muita tinta correu a maldizer o homem e o governante.
Muito pouca tinta se gastou a falar das boas coisas que ele fez, e foram muitas.
Vejam esta por exemplo:
Quando os governantes eram honestos....

Um texto de José Luciano Sollari Allegro
Secretário Particular de Salazar entre 1947/1960

"Entre os muitos exemplos que revelam o escrúpulo com que o Doutor Salazar zelava pelos dinheiros públicos, quero recordar o respeitante ao pagamento de uma renda pela utilização do Forte de Santo António do Estoril, que estava entregue ao Ministério do Exército.
Quando em determinado ano, foi preciso fazer obras de conservação na residência da rua da Imprensa, escolheu-se aquele forte para que o Presidente do Conselho ali permanecesse enquanto decorriam aquelas obras. O Doutor Salazar gostou do Local e no Verão do ano seguinte pensou em voltar para lá. Entendeu, porém, que deveria pagar uma rende mensal por aquela utilização e argumentava com o facto de a lei prever que o Presidente do Conselho tivesse direito a residir num edifício do Estado mas não em dois.

O Ministério do Exército não sabia a renda que deveria cobrar pela utilização do Forte e foi preciso insistir para que ficasse estabelecido o montante mensal que o Doutor Salazar deveria pagar enquando lá residisse. Nos anos seguintes as coisas processaram-se da mesma forma e todos os meses o Presidente do Conselho me entregava o dinheiro ou cheque com a quantia necessária para pagar ao Ministério do Exército a renda que havia sido previamente fixada."

José Luciano Sollari Allegro
ecretário Particular de Salazar entre 1947/1960

Pois….
È só comparar com os políticos da actualidade.
È só comparar…..
Manuel Abrantes

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Era uma vez… Portugal (I)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 01/04/09

OS PRIMEIROS ANOS DA PRESENÇA PORTUGUESA NO BRASIL

Quando os portugueses chegaram pela primeira vez ao Brasil, no ano de 1500, estavam longe de supôr que tinham acabado de descobrir um novo e vastíssimo continente. A exploração das costas brasileiras só muito gradualmente viria a revelar a verdadeira extensão do que foi inicialmente tomado como uma ilha. De qualquer forma, o Brasil desempenha, durante uma boa parte do século XVI, um papel claramente secundário no panorama da Expansão portuguesa, então totalmente orientada para a Índia e para o Oriente. Mas os anos que se seguiram à histórica viagem de Pedro Álvares Cabral não deixaram de ter a sua importância: permitiram avançar na exploração do litoral brasileiro, aumentar o conhecimento acerca dos interesses económicos da terra e aprofundar os contactos com as populações ameríndias.

O Descobrimento do Brasil foi algo a que não se prestou grande atenção na época. O próprio Pedro Álvares Cabral limitou-se a enviar um dos seus navios de regresso a Lisboa, a comunicar ao rei o descobrimento, mas ele próprio seguiu caminho rumo à Índia. D. Manuel, numa carta dirigida aos reis de Espanha a relatar as peripécias desta armada no Oriente, assinala-o de passagem, nos seguintes termos:

"O dito meu capitão (…) chegou a uma terra que novamente descobriu a que pôs nome de Santa Cruz, em que achou as gentes mas como na primeira inocência, mansas e pacíficas, a qual pareceu que Nosso Senhor milagrosamente quis que se achasse porque é muito conveniente e necessária à navegação da Índia (…)".

O rei, no entanto, não descuraria a devida atenção a dar a estas novas terras. Até 1504 são efectuadas pelo menos três viagens de reconhecimento da costa brasileira, todas chefiadas por Gonçalo Coelho. O rei decidira entregar a exploração do novo continente a particulares, um pouco à semelhança do que havia sido feito na costa africana após a morte do Infante D. Henrique. Assim, é feito um contrato de três anos com Fernão de Loronha, segundo o qual este ficava obrigado a descobrir anualmente 300 léguas de costa e a construir uma fortaleza.

Os anos seguintes são mal conhecidos, não se sabendo com exactidão os pormenores das viagens que eventualmente terão ocorrido. Só em 1511 é que a informação volta a ser importante: trata-se da viagem da nau Bretoa, feita com objectivos sobretudo comerciais. O negócio mais importante que se efectuava nestes primeiros anos era o do pau-brasil, uma madeira avermelhada que utilizada em tinturaria e cujo preço elevado tornava a viagem lucrativa. Os portugueses apreciavam ainda um conjunto de produtos locais, adquiridos aos índios em troca de objectos de metal e de vidro: entre eles constavam os animais exóticos, sobretudo papagaios, e também escravos.

O relacionamento entre os portugueses e as populações ameríndias era, nestes primeiros anos, marcado pelo bom-entendimento e pela amizade, mau-grado alguns episódios desagradáveis. Aliás, quer os marinheiros, quer o próprio rei concluíram desde cedo que o bom tratamento dado aos índios era fundamental para o comércio do pau-brasil, uma vez que o desconhecimento sobre o interior da terra era quase total. Este bom entendimento era facilitado pela presença de alguns portugueses que voluntária ou involuntáriamente viviam no meio dos índios, e que estabeleciam um elo de ligação entre as duas culturas e constituíam uma preciosa fonte de informações.

Aos olhos dos portugueses, os índios americanos viviam num estado de perfeita inocência, pelo que facilmente receberiam a religião cristã. Basta relembrar a Carta de Pero Vaz de Caminha e o misto de admiração e espanto que o autor revela ao descrever os índios brasileiros. No entanto, nem todas as populações possuíam o mesmo carácter pacífico e inocente. Logo em 1503, numa das viagens de exploração do litoral sul do Brasil, os portugueses descobrem horrorizados os hábitos de antropofagia da população local, descritos do seguinte modo:

"No sétimo dia fomos a terra e achámos que tinham trazido as mulheres, e logo que desembarcámos mandaram muitas ao nosso encontro (…). Então, resolvemos mandar-lhes um dos nossos(…). Vimos descer do monte uma mulher que trazia na mão um grande pau, e chegando onde estava o nosso cristão acercou-se-lhe pelas costas e, levantando o pau, lhe deu tamanha pancada que o estendeu morto por terra. Imediatamente as outras mulheres o arrastaram pelos pés para o monte, ao mesmo tempo que os homens se precipitavam para a praia armados de arcos, crivando-nos de setas (…). Depois, fugiram todos para o monte, onde já estavam as mulheres despedaçando o cristão e assando-o numa grande fogueira que tinham acendido, mostrando-nos os seus membros decepados e devorando-os, enquanto os homens nos faziam sinais, dando-nos a entender que tinham também morto e devorado os outros dois cristãos, o que muito nos afligiu (…)".

A exploração do litoral brasileiro manteve-se lenta durante os anos seguintes, até à década de 1530. As expedições mais importantes foram de Cristóvão Jaques, que prosseguiu os contactos e os carregamentos de pau-brasil para Lisboa. No entanto, a situação do Brasil estava gradualmente a alterar-se. A partir de 1520, os portugueses apercebem-se que a região corria o risco ser disputada a Portugal por parte dos franceses. É preciso não esquecer que o Tratado de Tordesilhas, que concedera a Portugal o exclusivo de navegação no Atlântico Sul e a exploração de uma boa fatia do continente sul-americano, fora uma partilha feita exclusivamente com Espanha, deixando de fora outros potenciais rivais. A partir desta altura, são os franceses os primeiros a não respeitar o Tratado, passando a disputar a Portugal o domínio sobre a região mais vasta e menos bem vigiada pelas armadas portuguesas, o Brasil. Assim, a última viagem de Cristóvão Jaques, em 1527-28, prende-se já com este perigo da interferência francesa na região. A partir desta data, e com o agravamento da situação, D. João III decide intervir de forma mais consistente no Brasil, iniciando o seu povoamento com uma série de iniciativas que culminarão com a criação das capitanias e com a colonização propriamente dita, de modo a impedir a fixação francesa na região. O Brasil, que inicialmente não passava de um mero ponto de escala da viagem para a Índia, passa a ser, nos meados do século XVI, um vector cada vez mais importante da Expansão portuguesa.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal