quinta-feira, 9 de abril de 2009

Era uma vez… Portugal (VI)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 07/04/09

DIOGO DO COUTO - Um cronista do oriente

Quando se fala da Expansão Portuguesa é vulgar relembrar os grandes nomes dos Descobrimentos, que geralmente se associam aos grandes generais e cabos-de-guerra, aos vice-reis, aos descobridores de novas terras. Ficam, por vezes, um pouco esquecidos aqueles que, muitas vezes suportando imensas adversidades e sendo mesmo vítimas de injustiça, nos legaram, sob a forma de relatos ou crónicas, os factos, a história e a memória desse tempo. Registar e contar a verdade histórica era, ontem como hoje, tarefa difícil e ingrata. Por entre os cronistas portugueses no Oriente destaca-se o nome de um homem que, pela sua rectidão e amor á verdade, tornou-se um pouco o modelo da historiografia portuguesa. A sua vida, como a sua obra, reflecte o misto de esforço, empenho e glória, assim como algumas misérias que fizeram a História dos portugueses no Oriente. Foi soldado, escritor e um homem de cultura; chamava-se Diogo do Couto e é de quem iremos falar hoje.

Diogo do Couto nasceu em 1542, em Lisboa. O seu pai, Gaspar do Couto, era natural de Amarante, e serviu o Infante D. Luís, filho de D. Manuel. Aos 10 anos entra Diogo do Couto ao seu serviço, estudando no Colégio Jesuíta de Sto. Antão e no Mosteiro de Benfica. Ali foi colega do filho do Infante, D. António, futuro Prior do Crato e candidato á Coroa portuguesa em 1580. Em 1555, devido á morte de D. Luís, seu patrono, Couto muda-se para o Paço, onde serve D. Sebastião como moço de câmara. Embora o seu pai tivesse sido ordenado cavaleiro, falta a Couto raízes fidalgas que lhe permitiriam o acesso aos altos cargos da administração. Após a morte de seu pai, decide então, como tantos, tentar a sua sorte como soldado na Índia. Parte em 1559, apenas com 17 anos, tendo-se alistado por três anos. Serve em diversos locais da Índia durante cerca de uma década, tendo participado em diversos combates. Aqui aprendeu Couto a dura vida de soldado, e o contacto com os problemas que se avolumavam no Estado da Índia viria a moldar definitivamente a sua personalidade, assim como a sua obra literária. Em 1569, farto da vida de soldado, decide voltar a Portugal. Parte de Goa na armada do vice-rei D. Antão de Almada, fazendo escala em Moçambique. Aqui encontra o seu amigo Luís de Camões, companheiro de andanças na Índia. É o próprio Couto que relata o facto numa das suas obras, nos seguintes termos:

"Em Moçambique achámos aquele Príncipe dos Poetas de seu tempo, meu matalote e amigo Luís de Camões, tão pobre que comia de amigos, e para se embarcar para o reino lhe ajuntámos os amigos toda a roupa que houve mister, e não faltou quem lhe desse de comer (…)."

Partiram juntos para Lisboa, onde chegam em Abril de 1570. Couto, cujo temperamento não se adequava á vida mundana da corte, ficaria pouco tempo em Portugal. Logo no ano seguinte regressa á Índia, estabelecendo-se definitivamente em Goa, onde casa com Luísa de Melo. Aqui finda a fase militar da sua biografia. Doravante dedicar-se-ia a outras artes. Fica durante alguns anos empregado nos armazéns de mantimento, o que lhe permite o contacto com o mundo de negócios e com a administração do Estado da Índia. A fase mais interessante da sua vida, e também a mais frutuosa, iniciar-se-ia apenas após a subida ao trono de Filipe II. Couto escreve ao rei propondo a elaboração de uma crónica sobre a história dos portugueses na Índia após 1581, data da sua aclamação. O rei, a quem já havia chegado o conhecimento deste funcionário notado pelo seu zelo e rigor, acaba por encarregá-lo de uma tarefa mais vasta: organizar o Arquivo de Goa e continuar o trabalho de João de Barros, entretanto falecido, de escrever a história dos portugueses na Índia. Ambas eram tarefas pesadas e ingratas: na primeira, para além de organizar toda a documentação administrativa, já volumosa e em risco de se perder, teria ainda de passar certidões de serviços; na segunda, teria de retomar o difícil trabalho de escrever a história dos portugueses na Índia. Couto, com o seu carácter rigoroso e recto, pouco dado a lisonjas e a favores, está decidido a escrever a verdade, por muito que isso desagradasse a alguns.

Diogo do Couto inicia então o seu trabalho, aproveitando algum material já elaborado anteriormente. A sua condição de organizador do arquivo de Goa permite-lhe uma visão próxima e bem informada sobre a história do Estado da Índia. Porém, este facto, assim como a incorrigível imparcialidade do autor, serão motivo de vários dissabores pessoais e do destino atribulado da sua obra. Na verdade, a fatalidade que se abateu sobre as suas Décadas da Ásia é ainda hoje motivo de investigação por parte dos historiadores: a VI ardeu em casa do impressor, a VII perdeu-se, tomada pelos ingleses ao ser transportada para Portugal; a VIII e a IX foram roubadas ao próprio autor, que as recompilou mais tarde; da XII resta apenas parte. A XI, que tratava do vice-reinado de Matias de Albuquerque, desapareceu até hoje. Por outro lado, Diogo do Couto suportava a impressão da sua obra com o seu baixo salário, não obtendo sucesso com a venda e sofrendo da indiferença geral .

Parece certo que a rectidão do autor, que resistia a pressões e parecia não hesitar em relatar o que lhe surgia como verdadeiro, lhe trouxe inimizades várias, nomeadamente por parte daqueles que se sentiam atingidos pela sua obra. A isto se refere várias vezes o próprio Couto, lamentando as difíceis condições em que vivia, o seu magro salário, a incompreensão dos que o rodeavam. É que Diogo do Couto não era mais do que um funcionário administrativo, sendo obrigado a conciliar o seu trabalho no arquivo com a escrita da sua obra. Até ao fim da sua vida, fez vários pedidos para ser aumentado, de forma a poder trabalhar sem sobressaltos. A ajuda, porém, nunca se revelou suficiente. Na verdade, vários conspiravam para calar esta voz incómoda. Acabou por morrer em 1616, pobre e minado pelas intrigas tecidas á sua volta.

Além das suas Décadas, Diogo do Couto deixou-nos outras obras: várias cartas e discursos, um pequeno relato, o "Naufrágio da nau S. Tomé", incluído mais tarde na colectânea da História Trágico-Marítima. Mas é o seu Diálogo do Soldado Prático que suscita maior interesse e admiração. É, de facto, notável a lucidez e espírito crítico com que Diogo do Couto elabora esta pequena obra, que constitui um diagnóstico implacável, diremos mesmo impiedoso e por vezes injusto, da situação do Estado da Índia nos finais do século XVI. O seu estilo, como nas Décadas, é vivo e desembaraçado. O Soldado Prático constitui, na verdade, um testemunho ímpar de um homem que, ao contrário de outros que escreviam sobre os portugueses no Oriente, lá viveu, acompanhou e sentiu parte do que escreve. Esta obra constitui, digamos, o reverso da medalha d'Os Lusíadas do seu amigo Luís de Camões: as glórias e as misérias, a grandeza e a mesquinhez, os valores e os defeitos, as duas faces da história da Expansão Portuguesa. Diogo do Couto, a sua vida e a sua obra, é, como o tempo e o meio em que viveu, a expressão desta dualidade.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Era uma vez… Portugal (VII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 08/04/09

A POLÍTICA AFRICANA DE D. JOÃO II

Comemoram-se este ano os 500 anos sobre a morte do rei D. João II. Este foi, certamente, um dos mais importantes monarcas da História de Portugal, quer pela política de centralização do poder que executou no reino, quer sobretudo pela acção decisiva que desempenhou no processo dos Descobrimentos, salvaguardando a empresa iniciada nos primeira décadas do século XV pelo Infante Henrique e imprimindo-lhe um novo fôlego e um novo vigor. Os resultados são de todos bem conhecidos: salvaguarda do Atlântico, vantagem sobre os principais rivais de Portugal neste processo, descobrimento do Cabo da Boa Esperança e abertura do caminho marítimo para a Índia, que viria a ser inaugurado já pelo rei seguinte, D. Manuel. Vamos hoje relembrar uma faceta importante da política ultramarina de D. João II, por vezes um pouco esquecida em vista dos grandes sucessos do seu reinado, como o Tratado de Tordesilhas ou a viagem de Bartolomeu Dias, mas igualmente importante na época: os contactos e a política de alianças com os reinos africanos.

Os contactos com as civilizações africanas a sul do Sará despertaram desde muito cedo o interesse dos navegadores portugueses; as diferenças de clima, de fauna e da flora, mas também os contrastes culturais entre os diversos reinos africanos e os padrões europeus foram um motivo de curiosidade e interesse permanente. Desde o momento em que se estabeleceram os contactos e o comércio pacífico e foram proibidas as presas, ou seja, a tomada de bens ou pessoas pela força, o que aconteceu na década de 1440, estavam reunidas as condições para o aprofundamento das relações entre Portugal e diversos reinos africanos, sobretudo os que revelavam maior interesse em promover o comércio com os portugueses e em se converter ao Cristianismo.

No reinado de D. João II, este vector sofreu um notável incremento. O monarca desenvolve uma política coerente de aproximação e de promoção de alianças com diversos reinos africanos, o que se revelava essencial para o seu plano de expansão ultramarina, sob diversos pontos de vista: permitia uma melhor exploração económica, com o estabelecimento de acordos de comércio vantajosos para ambas as partes; fortalecia a presença portuguesa face a uma eventual concorrência castelhana na região da Guiné; facilitava a transmissão de conhecimentos sobre vários objectivos a atingir, nomeadamente a existência de reinos cristãos a Oriente e a passagem para o Oceano Índico, que se procurava a todo o momento alcançar.

A política levada a cabo por D. João II obteve bons resultados junto de diversos reinos africanos. O primeiro foi o dos Jalofos, na região do Senegal, que os portugueses haviam entrado em contacto já há várias décadas. Tal aproximação culminou com a conversão do rei africano, em 1488, data em que se fez baptizar em Lisboa com o nome de D. João Bemoim, após ter sido recebido com todas as honrarias por D. João II, como assinala o cronista Rui de Pina:

"Chegou Bemoim a Lisboa, e com ele alguns negros de seu sangue real (..). Como el-rei foi de sua vinda avisado, mandou que se viessem aposentar a Palmela, onde mandou logo prover aos seus mui abastadamente, e servir a ele com prata, e oficiais, e todos os outros cumprimentos que têm semelhança de Estado. E a todos mandou dar de vestir de panos finos e ricos, e como a qualidade e merecimento das pessoas o requeria. (…) E aos 3 dias do mês de Novembro o dito Bemoim, e seis dos príncipes que com ele vieram, foram feitos cristãos ás duas horas da noite, na câmara da rainha (…); foram seus padrinhos el-rei, a rainha, o príncipe e o duque, e um comissário do Papa que na Corte andava, e o bispo de Tânger."

Também na região da Mina, onde D. João II mandou erguer um fortaleza em 1482, tentaram os portugueses obter alianças políticas e fomentar a evangelização, embora com resultados menos satisfatórios. Um pouco mais a Sul, na região do Benim, os contactos foram pelo contrário mais profundos. A importância deste poderoso reino do interior era tal que D. João II ali enviou por duas vezes (em 1486 e 1487) uma embaixada chefiada por João Afonso de Aveiro. Tinha como objectivos a fundação de uma feitoria, a promoção da amizade com Portugal e a preparação para uma futura evangelização naquela região, no que foi bem-sucedido. No entanto, a melhor recepção aos marinheiros portugueses estava reservada para uma outra região, completamente isolada até então da civilização europeia: o reino do Congo.

O Congo foi contactado pela primeira vez por Diogo Cão, que ali foi muito bem recebido logo na sua primeira viagem. Posteriormente, constatando a boa-vontade local, este mesmo capitão transportou para Lisboa uma embaixada deste reino de africano, que presenteou D. João II com peças de marfim e panos de palma. O rei respondeu com o envio de uma embaixada portuguesa em 1491 (chefiada por Rui de Sousa), após uma fase de intensos contactos onde se destacava a excelente predisposição local a receber a presença portuguesa, promover o comércio e até mesmo a aceitar a missionação cristã. A embaixada foi recebida em triunfo na capital do Congo, ao que se seguiu o baptismo do rei e das principais figuras da sua corte.

Desta forma, D. João II conseguia obter um conjunto de alianças políticas que lhe permitiam fomentar a presença portuguesa junto de uma série de poderosos reinos africanos cristianizados ou em vias de o ser. No seio do projecto global acalentado pelo monarca, tal perspectiva estava articulada com a procura do mítico reino cristão do Prestes João e com o descobrimento do caminho marítimo para a Índia. D. Manuel viria a dar continuidade a este plano, incrementando a política de alianças e de evangelização de diversos reinos de África, que só viria a abrandar a atenuar-se mais tarde, já com D. João III.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Um calote na planície alentejana

via Caminhos da Memória de João Tunes em 07/04/09
Mais um ano para o início do cumprimento do serviço militar só servia para adiar o inevitável. Tinha que bater lá com os costados, mais tarde ou mais cedo. A guerra estava para lavar e durar e tinha-se atolado num impasse lodoso. Mas enquanto o pau vai e vem, folgam as costas, dizia-se e diz-se. [...]

terça-feira, 7 de abril de 2009

Da Democracia

via INCONFORMISTA.INFO de Miguel Vaz em 06/04/09
«Os defeitos da democracia política como sistema de governo são tão óbvios, e têm sido tantas vezes catalogados, que não preciso mais do que resumi-los aqui. A democracia política foi criticada porque conduz à ineficiência e fraqueza de direcção, porque permite aos homens menos desejáveis obter o poder, porque fomenta a corrupção. A ineficiência e fraqueza da democracia política tornam-se mais aparentes nos momentos de crise, quando é preciso tomar e cumprir decisões rapidamente. Averiguar e registar os desejos de muitos milhões de eleitores em poucas horas é uma impossibilidade física. Segue-se, portanto, que, numa crise, uma de duas coisas tem de acontecer: ou os governantes decidem apresentar o facto consumado da sua decisão aos eleitores – em cujo caso todo o princípio da democracia política terá sido tratado com o desprezo que em circunstâncias críticas ela merece; ou então o povo é consultado e perde-se tempo, frequentemente, com consequências fatais.
Durante a guerra todos os beligerantes adoptaram o primeiro caminho. A democracia política foi em toda a parte temporariamente abolida. Um sistema de governo que necessita ser abolido todas as vezes que surge um perigo, dificilmente se pode descrever como um sistema perfeito.»

Aldous Huxley

in "Sobre a Democracia e Outros Estudos", 1927.

Era uma vez… Portugal (V)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 06/04/09

O Livro dos Conselhos de El-Rei D. Duarte

D. Duarte, segundo monarca da dinastia de Avis, ficou conhecido como um dos reis mais cultos da nossa História. Assumiu o governo do país após a morte do seu pai, D. João I, em 1433, até 1438, data do seu falecimento. Subiu ao trono já com 42 anos, mas também com uma longa experiência política, pois desde novo foi associado á governação. Foi um rei letrado e culto, muito bem preparado para o poder, e cujo gosto pelas letras se tornou célebre. De sua autoria conhecem-se duas obras, ambas excelentes exemplos do seu carácter erudito e da sua personalidade madura, mas também dos gostos literários da época: o Leal Conselheiro e a Ensinança de Bem-Cavalgar a Toda a Sela. Numa trata dos problemas que enfrenta e das regras de justiça que deverá seguir o bom governante; na outra, da arte de montar, da caça e da guerra. Não vamos hoje abordar nem uma, nem outra. Preferimos escolher um outro exemplo, o chamado Livro de Conselhos de El-Rei D. Duarte, ou Livro da Cartuxa, pequeno conjunto de textos de origens diversas, espécie de bloco de apontamentos onde o rei anotava vários temas de seu interesse.

O reinado de D. Duarte marca um dos períodos mais interessantes da História de Portugal. Um dos debates mais importantes da época dizia respeito á política africana: após a conquista de Ceuta, o que fazer? Prosseguir a conquista do norte de África, avançando para outras posições, ou abandonar estes projectos militares, e apostar no comércio pacífico? Sabemos hoje que as políticas do Infante D. Henrique, com a colonização da Madeira, a descoberta dos Açores, e a dobragem do Cabo Bojador, estavam condenadas ao sucesso, mas na época tal não podia ainda ser sentido, e as empresas militares de conquista de Marrocos detinham ainda um grande prestígio. Podemos perguntar o que tem isto a ver com o Livro dos Conselhos de El-Rei D. Duarte. Na verdade, este livrinho começa precisamente por transcrever diversos pareceres de várias pessoas sobre se se devia ou não prosseguir a guerra em Marrocos, cada um indicando ao rei os seus motivos; assim, a sua leitura leva-nos a concluir que a maior parte se inclinava para a continuação da política de conquista, que, na verdade, veio a vencer, e que conduziu ao desastre de Tânger. Mas outras vozes mais sensatas e prudentes opunham-se a esta linha; a mais importante era a do Infante D. João, irmão do rei: este declara-se abertamente contra a guerra em Marrocos que, segundo ele, só dava prejuízo e não servia ninguém. Quando confrontado com a velha ideia de que fazer a guerra aos mouros era serviço de Deus, responde do seguinte modo:

"(…) não somos certos se é serviço de Deus, porque eu não vi nem ouvi que Nosso Senhor nem algum dos seus Apóstolos nem doutores da Igreja mandassem que guerreassem infiéis, mas antes por pregação e milagres os mandou converter (…)".

Mas o Livro dos Conselhos não trata só de problemas políticos. Na verdade, é uma compilação de apontamentos sobre variados temas, desde cartas a várias ordens do rei, poesias, diversos textos religiosos e de carácter moral, música, pesos e medidas, orações e rezas, algumas de particular interesse e curiosidade. Por exemplo, podemos encontrar aqui uma das mais antigas formas do Padre-Nosso em Português que, como se pode comparar, não se modificou muito em quinhentos e cinquenta anos:

"Padre Nosso que és nos Céus                    O pão nosso de cada dia nos dá hoje
Santificado seja o Teu Nome                      Quita-nos as nossas dívidas
Venha a Nós o Teu Reino                            Como nós quitamos a nossos devedores
Seja Feita a Tua Vontade                            Não sejamos derribados na Tentação,
Assim na Terra como nos Céus.                 Mas livra-nos do Mal."

Diversas notícias, mais ou menos insólitas, estão também presentes neste Livro, e que certamente só a curiosidade e interesse do rei permitiram que ficassem registadas. Uma das mais interessantes é o registo de um fenómeno meteorológico ocorrido em Santarém, para o qual não é dada nenhuma explicação:

"Dia de Santo Antão 17 dias de Janeiro da era de 1431, a horas de vésperas, caíram em Santarém e ao redor dele muitas fagulhas, assim como se queimassem algum grande canavial ou muitas vides, e isto sem na vila nem fora dela haver fogo de que viesse".

O Livro dos Conselhos de El-rei D. Duarte que chegou aos nossos dias é uma cópia tardia, e encontra-se actualmente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. O original perdeu-se, ou espera ainda nalgum canto de algum arquivo. Não sabemos se terá ou não sido escrito pela mão do próprio rei, o que não causaria grande espanto, conhecido que é o seu gosto pela escrita e pelos livros. De qualquer modo, é certo que foi composto para seu uso pessoal, sendo provavelmente actualizado e acrescentado a cada momento.

Este Livro dos Conselhos é um verdadeiro manual, um compêndio de conhecimentos e apontamentos úteis, quer para a política quer para a vida quotidiana. É igualmente a prova de que, no século XV, a cultura popular estava ainda perfeitamente integrada na vida da Corte e do rei: assim, um dos capítulos ensina a semear a alfafa, outro a como conservar o pescado fresco durante quinze dias, outro ainda ensina a saber as horas, quer durante o dia quer de noite, através da observação do céu. Mas mais interessante é ainda o grande número de páginas dedicadas á medicina e farmacopeia, que tomam a forma, sobretudo, de receitas para diversos males, quem sabe se ainda utilizadas nalgum canto de Portugal: para a dor de olhos, dores nas articulações, diarreia, peste, ciática, febres várias, dores de dentes.

Algumas receitas podem causar, nos nossos dias, algum espanto; por exemplo, o Livro apresenta-nos a certa altura uma receita para afastar o demónio áquele que for tentado, quer seja homem ou mulher, mas só funciona se não for bêbado nem mudo; ou ainda, para o peito das mulheres, após o parto, propõe vários emplastros: sementes de algodão pisadas com vinagre, raízes de abróteas com óleo de macela, ou ainda minhocas fritas em manteiga. Para terminar, e como se aproxima o Inverno, apresentamos a receita para as dores nos ossos, quem sabe se não será de grande utilidade para quem nos escuta:

"Esta mezinha é boa para a frialdade que está no osso ou juntura:

Tomar a linhaça galega tanto com água que se faça assim como massa, e pô-la num pano de cor, e tanto que ela for com temperatura que a possam suportar, pô-la onde for a dor, e isto por cinco ou seis vezes juntamente. Isto lhe farão por três ou quatro dias, e isto feito traga cada ano até nove dias ou mais se for tempo frio, coberto de pano de linho dobrado ou de lã o lugar que doer."

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Embrujo de Sevilha

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 05/04/09
CORRIA O ANO DA GRAÇA de 1959, há precisamente meio século, era eu aluno finalista e estagiário, como auxiliar de investigação, no Centro de Geologia Pura e Aplicada, dirigido pelo professor Carlos Teixeira, quando, para grande alegria minha, o director me incluiu na representação portuguesa ao Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências, a decorrer em Sevilha. Nessa altura eu tinha entre mãos o estudo sedimentológico de um conjunto de amostras dos depósitos areno-argilosos que colhera no decurso de uma excursão à Bacia do Mondego, na invejável companhia dos professores Pierre Birot e Orlando Ribeiro e do filho deste último, António, o meu colega e amigo de há meio século, nesse tempo ainda estudante, como eu. Esta excursão, guiada por estes dois mestres, pioneiros numa metodologia dos estudos geomorfológicos, substancialmente assente no cabal conhecimento dos materiais sedimentares resultantes da erosão do relevo, foi decisiva na escolha da linha de investigação que caracterizou o essencial da minha actividade profissional. Foi nesta linha que me iniciei no estudo sedimentológico dos referidos materiais e que, com base nele, preparei a minha primeira comunicação científica. Foi também a primeira vez que saí para o estrangeiro, tendo conhecido uma Espanha pobre, mais pobre do que nós, ao contrário dos dias de hoje. Os trabalhos do Congresso decorreram normalmente e dele apenas me lembro do quase incontrolável nervosismo que me dominou até ao momento em que o moderador me chamou para apresentar o que foi o meu primeiro trabalho científico.
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À margem do congresso ficou-me, bem gravado na memória, um episódio protagonizado por uma jovem assistente da nossa Faculdade, também ela congressista. Vivia-se uma época em que era frequente adquirir certos artigos espanhóis, trazidos por contrabandistas e chegados ao consumidor através de mecanismos que não interessa agora analisar. Um desses artigos era o Embrujo de Sevilla, apreciadíssimo perfume da Myrurgia, uma poderosa concorrente das grandes marcas francesas de então.

.Acontece que esta jovem não sabia que embrujo, em castelhano, quer dizer encantamento. Para ela, significava, pura e simplesmente, "embrulho". E foi com esta ideia em mente que entrou numa perfumaria, na Sierpes e, trocando, subsconscientemente, embrulho por cartucho, se dirigiu ao balcão e, com aquele à vontade dos portugueses que julgam saber falar castelhano, pediu, num "portunhol" que lhe pareceu adequado, um frasco de "Cartucho de Sevilha".
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Pela sonoridade da expressão pronunciada por esta portuguesa, a senhora que a atendeu não teve dúvida em perceber o que ela queria.
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- Embrujo de Sevilla, quiere usted decir!
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- É isso, desculpe – anuiu, descontraidamente, a nossa compatriota, que pagou e saiu satisfeita por ter comprado ali um bom perfume e a um preço muito mais em conta do que o que pagava em Lisboa.

MESTRE...

via CACETEIRO de noreply@blogger.com (caceteiro) em 05/04/09

"Tens o golpe de vista bem fundo para veres que na política por via da regra a mediocridade é que triunfa. Os que podem projectar sombra, esses arredam-se, votam-se ao ostracismo. Mas a vitória consegue-se com abdicação de todo o escrúpulo, com sacrifício das ambições mais puras."

António Sardinha, Correspondência de António Sardinha, pág. 491

Era uma vez… Portugal (IV)

Era uma vez… Portugal (IV)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 05/04/09

DIOGO DE AZAMBUJA E A EXPANSÃO PORTUGUESA NO REINADO DE D. JOÃO II

É bem conhecida de todos a importância da figura do rei D. João II, o Príncipe Perfeito, no processo dos Descobrimentos. É, de facto, durante o seu reinado que se consolida a Expansão Portuguesa e se assegura a descoberta da passagem marítima para o Oceano Índico, abrindo caminho á instalação dos portugueses no Oriente. Os Descobrimentos recebem, assim, um impulso decisivo para o seu bom sucesso, definindo este rei uma série de objectivos claros a atingir. Embora a grande etapa fosse a descoberta do caminho marítimo para a Índia, D. João II pretendia também assegurar a presença portuguesa em África, garantindo a segurança das rotas marítimas e promovendo a exploração económica, nomeadamente através do comércio. Neste sentido, uma das acções mais importantes desencadeadas no seu reinado é precisamente a construção de uma fortaleza na costa africana, que se viria a chamar São Jorge da Mina. É disto que falaremos hoje, acompanhando a biografia do seu construtor, Diogo de Azambuja.

Mas recuemos um pouco no tempo. Iniciado pelo Infante D. Henrique, o avanço e exploração da costa africana pelos portugueses havia começado pelo dobrar do Cabo Bojador por Gil Eanes, em 1434, prolongando-se pelas décadas seguintes. Á data da morte do Infante, em 1460, já haviam chegado á Serra Leoa, no Golfo da Guiné. Quando o príncipe D. João, ainda infante, chama a si o encargo de conduzir o processo dos Descobrimentos, em 1474, já os portugueses dominavam a navegação nas águas atlânticas, e já se tornava bastante proveitoso o comércio na costa africana, efectuado em pequenos estabelecimentos fortificados a que se dava o nome de feitorias-fortalezas. A mais importante era nessa altura a existente na ilha de Arguim, onde florescia o comércio do ouro, que os portugueses adquiriam em troca de objectos diversos levados de Portugal ou comprados em Marrocos, como pulseiras de latão, bacias, colares, tecidos, etc. Mas tal era já insuficiente para as potencialidades que a vastidão da costa africana oferecia, e cedo o jovem D. João II sentiu a necessidade de criar um entreposto mais sólido. Este rei tinha, porém, como principal objectivo a chegada á Índia contornando África, e todo o proveito obtido no comércio africano deveria ser canalizado nesse sentido. Para melhor entendermos o sentido da sua actuação, falta-nos referir outro dado importante: pela primeira vez, com D. João II, os Descobrimentos se tornam uma verdadeira empresa de Estado, sendo todas as viagens feitas por conta do rei, e os lucros obtidos canalizados para o Tesouro Real, num sistema de monopólio. Como em 1479 havia sido assinado com Castela o Tratado de Alcáçovas, que reservava para Portugal todo o espaço geográfico a sul das Canárias, o rei vê-se assim de mãos livres para realizar o seu plano de avançar nas viagens de Descobrimento. E a construção do castelo de S. Jorge da Mina, logo de seguida, constituiu um instrumento importante nesse avanço.

Assim, o rei prepara em 1481 uma expedição composta por nove caravelas e duas grandes naus, designadas por urcas. Tinha como missão a construção de uma fortaleza no Golfo da Guiné, num local propício para o comércio. Levava esta armada cerca de 600 soldados e 100 pedreiros e carpinteiros, e carregava a pedra necessária para a construção da fortaleza. Após alguma hesitação, D. João II acaba por entregar o comando desta expedição a um Diogo de Azambuja, homem já dos seus cinquenta anos. Quem era esta personagem, a quem o rei confiou o sucesso de tão importante missão?

Diogo de Azambuja, não sendo propriamente um navegador, era no entanto um homem inteligente e hábil, um excelente militar e estratega, da confiança, evidentemente, do rei, e capaz de erguer no espaço de tempo mais curto possível uma fortaleza numa região ainda em grande parte desconhecida. Era cavaleiro da Casa de el-rei, sendo um dos primeiros fidalgos ligados á empresa dos Descobrimentos de que temos conhecimento. Membro da Ordem de Cristo, havia servido D. Pedro, (filho do Infante D. Pedro da Ínclita Geração morto em Alfarrobeira), tendo prestado serviço em Alcácer-Ceguer e em Aragão. Após a morte do seu senhor, em 1466, havia retornado ao Reino, entrando depois ao serviço do Príncipe Perfeito. Participa nas guerras com Castela, recebendo em 1480 o privilégio de fidalgo.

Vemos, assim, que D. João II entrega a responsabilidade da construção da fortaleza não a um navegador, mas a um militar experiente, capaz de conduzir tal tarefa arriscada e difícil. A armada parte em Dezembro de 1481, rumando para Sul. Curiosamente, um dos navios era capitaneado por Bartolomeu Dias, que mais tarde dobraria o Cabo da Boa Esperança, e um outro, por Pedro de Sintra, provavelmente o descobridor da Serra Leoa, ainda no tempo do Infante D. Henrique. A expedição segue até ao Golfo da Guiné, na Costa mais tarde designada Da Mina, procedendo Diogo de Azambuja ao reconhecimento da costa, de forma a encontrar o local mais favorável para a construção da fortaleza. Escolhe uma baía para desembarcar, o que faz a 19 de Janeiro de 1482, e de imediato se iniciam os trabalhos de construção. Ao cabo de 20 dias, já estava a fortaleza bem encaminhada, concluindo-se a sua construção pouco depois. Á data encontrava-se no local um navio português, que procedia ao comércio com as populações locais, mas o seu bom senso, o tacto de Diogo de Azambuja e, sobretudo, a boa recepção do rei local permitiram evitar conflitos e foram o factor decisivo para o êxito da missão.

Acabada a fortaleza, estabelecidos os contactos amigáveis com as populações locais e accionadas as trocas comerciais, Diogo de Azambuja considerou terminada a tarefa, pelo que mandou regressar a armada a Lisboa com notícia do sucesso da missão, ficando ele próprio como capitão da fortaleza com sessenta soldados. Exerceu o cargo até 1484, data em que regressou a Lisboa. A fortaleza ficou conhecida como S. Jorge da Mina, devido á devoção que o rei tinha a este santo. Assim ficou assegurada a presença portuguesa na região, sendo a fortaleza a sede de um rico tráfico de ouro. Era uma peça importante no projecto de D. João II, como base da navegação portuguesa e do combate á pirataria, principalmente espanhola, que acorria a esta região atraída pelos lucros do comércio. Por outro lado, pretendia canalizar o grosso volume do comércio africano do ouro, que chegava ao Norte de África e á Europa através de caravanas. Para tal promoveu por todos os meios as boas relações com os reis locais, e elevando em 1486 a Mina á categoria de cidade, concedendo os privilégios adequados aos habitantes em redor. Interessa salientar que o comércio da feitoria era de tal modo importante que foi durante muito tempo o entreposto comercial mais rico das possessões portuguesas, mesmo após a chegada á Índia. Funcionou também como um importante ponto de apoio ás naus de regresso da Índia durante todo o século XVI e parte do século XVII, até ser tomada pelos holandeses.

Quanto a Diogo de Azambuja, não terminaram aqui os seus feitos como homem de armas. Recompensado pelo rei com o cargo de alcaide de Monsaraz, para além de outras recompensas como a nomeação para o Conselho Real, Diogo de Azambuja manteve-se porém ligado á Corte e ao serviço do rei, embora a sua idade e uma deficiência física aconselhassem já a sua retirada. E é já com mais de setenta anos que aceita uma missão que o rei D. Manuel o encarrega, em 1506: construir uma fortaleza na região de Safim, no sul de Marrocos, de forma a aí permitir a fixação portuguesa. Diogo de Azambuja não só cumpriu tal missão com êxito, como tomou a própria cidade de Safim, permanecendo como capitão da cidade até 1509, com a idade de cerca de 77 anos. Nesta data regressa a Portugal, vindo a falecer em 1518.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal