segunda-feira, 20 de abril de 2009

Não discutimos a pátria

"No terreno político e social, para nós portugueses que somos de hoje e velhos de oito séculos, já não há processo que possa ser revisto, debate que possa ser aberto, pedaço de soberania ou de terra que nos pese e estejamos dispostos a alijar de cansados ou cépticos.
Sem receio colocámos o nacionalismo português na base indestrutível do Estado Novo; primeiro, porque é o mais claro imperativo da nossa História; segundo, porque é inestimável factor de progresso e elevação social; terceiro, porque somos exemplo vivo de como o sentimento pátrio, pela acção exercida em todos os continentes, serviu o interesse da Humanidade. Vocação missionária se tem podido chamar a esta tendência universalista, profundamente humana do povo português, devido à sua espiritualidade e ao seu desinteresse. Em qualquer caso ela não tem ponto de contacto com o suspeito internacionalismo humanitário de hoje, a defender que as fronteiras se abatam para alargar as próprias em prejuízo das alheias - Não discutimos a Pátria. "

A. O. Salazar, Não discutimos a Pátria, Nova Arrancada, 2002.

Era uma vez… Portugal (XIII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 19/04/09

D. FRANCISCO MANUEL DE MELO

São por demais conhecidos, na História da Literatura Portuguesa, alguns autores que aliaram a produção literária á dura vida de soldado, sendo os casos mais citados os de Luís de Camões, Diogo do Couto e Fernão Mendes Pinto. Todos conhecem a célebre alocução do Poeta em trazer numa mão a espada, e noutra a pena, sintetizando a ligação entre a escrita e a vida militar. Vamos hoje falar de uma personagem que personifica na perfeição esta imagem. Trata-se de um dos maiores nomes da Literatura Portuguesa do século XVII, por vezes um pouco esquecido, e cuja riqueza do seu trabalho é bem a medida da sua vida aventurosa e atribulada: D. Francisco Manuel de Melo.

D. Francisco Manuel de Melo nasceu em Lisboa, a 23 de Novembro de 1608. Descendia de família fidalga, pelo menos por parte do pai. A sua infância e juventude foi a normal para um elemento da nobreza do seu tempo: teve a sua educação no Paço, e estudou no colégio de Santo Antão, da Companhia de Jesus. Tendo manifestado uma especial inclinação para a Matemática, escreve a sua primeira obra aos 17 anos, nesta disciplina. Porém, logo com esta idade viria a virar-se para a vida militar, que seguiu até ao fim da sua vida. Aos 18 anos teve então o seu baptismo de fogo: em 1626 embarca numa armada destinada a esperar as naus da Índia. Nesta época, a navegação portuguesa, sobretudo os navios que regressavam do Oriente carregados de ricas mercadorias, sofriam o assalto constante de corsários holandeses e ingleses, pelo que a protecção dos navios de carga era uma preocupação constante. De qualquer modo, esta primeira incursão de D. Francisco Manuel de Melo nas lides da guerra foi uma experiência terrível, pois uma tempestade fez dispersar a armada pelas costas do norte de Espanha e a fez naufragar. O desastre, de que a má organização da armada foi em parte culpada, havia de marcar o autor, que lhe dedicou mais tarde uma das suas Epanáforas, a Epanáfora Trágica. É o próprio que confessa a forma como o episódio marcou a sua vida e a sua personalidade:

"Cumprindo-se hoje trinta anos que passei este naufrágio, me está a memória com tanta viveza representando aqueles trabalhos, como se realmente agora me vira entre eles".

Nos anos seguintes, D. Francisco Manuel de Melo vive a vida da Corte a que se dedica com algum empenho, repartindo o tempo entre a escrita, os corredores dos palácios de Madrid e a vida militar. É por esta altura que escreve as suas primeiras obras em verso. Tal como Camões, era irrequieto e turbulento, tendo ficado registado o duelo que trava com um castelhano em plena cidade de Lisboa. Porém, ao contrário do Poeta, D. Francisco Manuel de Melo ultrapassa este percalço sem dificuldade. Pelo contrário, consegue uma boa posição na corte, em grande parte pelos seus serviços militares. É primeiro armado cavaleiro, depois capitão, e finalmente em 1634 é admitido na Ordem de Cristo. É com o agravamento das condições de vida em Portugal, com o despoletar das revoltas que mais tarde conduzirão á Restauração, que a sua vida irá mudar substancialmente.

Até esta altura, D. Francisco Manuel de Melo não havia despertado ainda para os problemas políticos. Eis então que, em 1637, estala a revolta de Évora. Devido ao seu prestígio e ás capacidades que lhe eram reconhecidas, é enviado como representante do Duque de Bragança, e depois como embaixador de Filipe IV, para conduzir os contactos e as negociações com os rebeldes. Parece que o governo espanhol não terá ficado muito satisfeito com a sua acção, pois envia-o de imediato para a Flandres. Será preso pouco depois, por motivos desconhecidos, mas que indicam já um mau relacionamento com o governo espanhol. No ano de 1640, nas vésperas do 1º de Dezembro, D. Francisco Manuel de Melo está na Catalunha, comandando um exército com o objectivo de combater a revolta contra o governo de Madrid. Quando estala igual rebelião em Portugal, é acusado de simpatia para com os revoltosos e preso durante quatro meses. Acabará por alcançar a liberdade, mas foge imediatamente para Inglaterra onde se declara partidário de D. João IV. Eis como, após uma série de peripécias, D. Francisco Manuel de Melo adere á causa da Restauração em Portugal.

A sua vida ao serviço de D. João IV não ocorreu, porém, como esperara. O seu feitio turbulento, assim como inimizades que criou junto de homens próximos do rei acabariam por lhe provocar graves problemas. Entretanto, fixa-se em Lisboa, cidade onde nasceu, e participa no esforço de defesa contra a tentativa de invasão espanhola em 1643. No ano seguinte, como já assinalámos, é preso devido a intrigas de corte onde se deixa enredar. Permaneceu recluso longos anos, até que em 1655 parte degredado para o Brasil.

D. Francisco Manuel de Melo, degredado para o Brasil, fixou-se na Baía, onde esperava certamente acabar os seus dias. Porém, as alterações políticas em Portugal acabaram por alterar este cenário. D. João IV, que se lhe havia mostrado hostil, morre no ano seguinte, pelo que o escritor decide tentar a sua sorte e regressar ao reino. Muda-se primeiro para os Açores, onde pediu para regressar a Lisboa, o que faz em 1659. Porém, a sua sorte só muda dois anos mais tarde, quando o conde de Castelho Melhor, seu amigo pessoal, toma o governo. É imediatamente amnistiado, sendo-lhe entregues importantes responsabilidades políticas, nomeadamente junto da Santa Sé onde a influência espanhola minava a posição diplomática portuguesa. Teve então finalmente ocasião de publicar alguns trabalhos seus, as Obras Morais e Cartas Familiares. Viajou, tendo frequentado a corte inglesa assim como a Cúria Papal. A sua influência política em Portugal era cada vez mais importante, mas D. Francisco Manuel de Melo não viveria o suficiente para a exercer. Morreria em 1666, após uma vida tumultuosa e acidentada.

A sua obra literária é, com a do Padre António Vieira, a mais importante do século XVII. Escreveu sobre os mais variados temas, em teatro como em prosa e em verso, onde pontificam tanto o humor como o conhecimento da língua portuguesa, o rigor formal como o estilo cuidado. Escreveu obras de crítica social, de que a mais famosa é o Auto do Fidalgo Aprendiz. Deixou uma série de importantes obras de historiador, onde relata vários episódios em que participou directamente, e que reuniu com o nome de Epanáforas de Vária História Portuguesa. O seu trabalho mais conhecido mostra o seu carácter multifacetado, até pelo facto de o autor ter permanecido solteiro: trata-se da célebre Carta de Guia de Casados.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

domingo, 19 de abril de 2009

Darwin tinha razão

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 19/04/09
-CONTRA A VISÃO DA IGREJA DE ENTÃO, que impunha para a idade da Terra uma cifra de escassos milhares de anos, o escocês James Hutton (1726-1797), considerado o pai da moderna Geologia, afirmava que os fenómenos geológicos tinham durações de muitos e muitos milhões de anos. Charles Lyell (1797-1875), continuador do pensamento de Hutton, advogava a necessidade de um tempo geológico suficientemente longo que permitisse explicar a grandiosidade dos efeitos da erosão e as consideráveis espessuras de sedimentos acumulados, na ordem de milhares de metros.
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No século seguinte desabrochava uma nova concepção da vida, para a qual a evolução biológica exigia muitíssimo tempo, constituindo um outro sério desafio aos ensinamentos da Igreja. Charles Darwin (1809-1882) encontrava nesta visão dilatada do tempo o suporte necessário às suas ideias sobre a evolução das espécies. Com base em estimativas várias, este ilustre naturalista chegou a valores na ordem das centenas de milhões de anos para o tempo geológico.
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Entretanto, o físico inglês, William Thomson (1824-1907), mais conhecido por Lord Kelvin, debruçava-se sobre a relação entre a temperatura interna do planeta, que supunha em arrefecimento, e a sua idade. Usou neste propósito os seus vastos conhecimentos de termodinâmica e o cálculo matemático, tendo estimado entre 20 a 98 milhões de anos o nascimento do nosso planeta, acrescentando que ele se teria tornado habitável há 20 a 40 milhões de anos.
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Confrontada entre estes números, saídos da física por via matemática, e os outros, estimados por naturalistas a partir de valores supostos de velocidade de erosão ou de sedimentação, a comunidade científica da época não hesitou. Os números de Kelvin, tidos por mais credíveis, arrasaram a vastidão do tempo pressuposta na concepção de Darwin, fazendo baixar drasticamente a idade da Terra, Aparentemente irrefutáveis, as premissas físicas utilizadas por Kelvin e a vénia pela matemática conduziram a valores que geólogos e biólogos não podiam aceitar.
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Com a descoberta da radioactividade, em 1896, passou a saber-se que os minerais com elementos radioactivos fornecem calor às rochas que os contêm. O calor da crosta terrestre não é apenas um calor residual da fornalha primitiva. É também o resultado da radioactividade associada às rochas. Foi o fim do arrefecimento global que serviu de fundamento aos cálculos do físico . Os valores para a idade da Terra (4570 milhões de anos), hoje aceites pela comunidade científica, dão plena razão ao ilustre naturalista, bem como ao igualmente ilustre geólogo James Hutton.


«DN» de 11 de Abril de 2009

António de Oliveira Salazar - 28 de Abril de 1889

via ÁREA NACIONAL de camisanegra em 19/04/09
«Sem lhe negar uma inteligência excepcional, não foi esta que mais me impressionou. Foi sem dúvida a sua vontade: uma vontade de aço que nada fazia flectir.
Ao contrário da opinião mais expendida, Oliveira Salazar não era uma personalidade monolítica: era uma personalidade facetada e até contraditória. Se considerarmos os aspectos humanos de um indivíduo como sendo representados pelo conteúdo de um copo de água, Salazar era uma taça onde haviam sido deitados vários copos...Assim, era um céptico inveterado que, no fundo, não acreditava em nada nem em ninguém; mas trabalhava com todos e em tudo, como se em tudo e em todos acreditasse. De uma frieza capaz de não hesitar ante um acto sacrificando vidas humanas (lembremos a defesa da Índia), comovia-se quase até ás lágrimas ao ler a carta de um pedinte profissional, que dizia estar inválido, e a mulher no hospital, e os filhos com fome - embora, no fundo, suspeitasse de que era tudo mentira. Atento como poucos á presença, no dia -a-dia, das grandes opções do Homem e da História, passava (ou perdia...) imenso tempo escolhendo uma gravura ou uma fotografia para uma edição secundária: são conhecidos os pormenores que anotava e emendava , nas suas visitas ou textos que corrigia. Dotado de uma memória prodigiosa e de uma sólida cultura humanista (que nunca descurou), sabia como poucos, vencendo uma timidez inata mas fácil de descobrir, assumir o sentido da grandeza e da História nos seus actos e nas suas palavras. Era muito sensivel ás honrarias: queria-as todas, mas para depois as desprezar. E sendo um homem simples no estilo de vida, era ao mesmo tempo um verdadeiro homem da Renascença na subtileza da sua cultura, nesse sentido de grandeza a que já aludi. De uma susceptibilidade quase doentia (por vezes, tudo o podia ofender), não hesitava em colaborar com quem lhe não inspirava confiança ou até julgava capaza de trair. Sendo acima de tudo um homem de formação tradicionalista e mesmo rotineira, nenhuma inovação lhe metia medo e a desaconselhava aos colaboradores.
Paricularmente sensivel e apto, pela sua formação de base, para a percepção dos grandes princípios (para ele muito poucos, mas em cuja defesa era intransigente e rígido), tinha a ânsia de conhecer os pormenores, e isso levava-o a desejar - e até pedir - descrições e esquemas que lhe permitissem uma ideia clara das realidades concretas, que não procurava conhecer directamente. Dai o espanto que causava quando, sem nunca ter estado numa cidade, aqui ou no Ultramar, pedia informaçõres sobre o adiantamento das obras de construcção de um edificio nela situado e o localizava com precisão. Tinha pela terra e pelos seus problemas o amor do pequeno proprietário rural. E a sua percepção estática, embora tendendo para parâmetros clássicos, era extremamente apurada.
Quando o Prof. Oliveira Salazar faleceu, fui um dos convidados a fazer um depoimento enquanto decorria o funeral. Terminei-o com as seguintes palavras: Pense-se o que se pensar da sua obra, não é possivel evocar este Homem sem que ressoem na nossa memória as grandes frases dos grandes clássicos. Sim, porque foi tal o seu peso sobre a nossa época que até os olhos que dele fogem o encontram por toda a parte. Sempre sobre a minha geração se projecta o seu vulto enorme. E sempre Salazar, deslumbrante ou sombrio, no limiar de todo um século está de pé.
»

Henrique Martins de Carvalho, Ministro da Saúde e Assistência (1958 - 1962)

A soberania do Povo

via INCONFORMISTA.INFO de Miguel Vaz em 14/04/09
«O que é a soberania do Povo? A soberania do Povo é a tirania irresponsável e anónima. É a tirania dos partidos políticos. É a tirania das manobras dos clubs e dos grupos. É a tirania do acaso eleitoral. É a tirania do voto conquistado ou pela compra, ou pela vigarice, ou pela ameaça, ou pelo interesse mesquinho de uma coterie. É a tirania do Número contra a Razão. É a tirania do Número contra a Inteligência. É a tirania do Número contra o Saber. É a tirania do Número contra a Bondade. É a verdadeira tirania da Força contra o Direito.
A soberania do Povo é a negação do próprio Povo, porque é a sua sujeição à mais cobarde das tiranias: a do Número irresponsável e anónimo.
Quem governa, no Povo soberano? O voto. Quem decide sobre a Guerra e sobre a Paz? O voto. Quem resolve os problemas da Instrução, da Higiene, da Defesa nacional, do Fomento, das Colónias, da Ordem, da Moral? O voto. Quem julga o Passado do Povo? O voto. Quem prepara o Futuro do Povo? O voto. Mas quem é o voto? O voto é a mistificação legal. Quem governa, no Povo soberano, é a mistificação.»

O Condestável no Passado, no Presente e no Futuro Zuzarte de Mendonça

via nonas de nonas em 18/04/09

O CONDESTÁVEL
NO PASSADO, NO PRESENTE E NO FUTURO

«(...) É a figura excelsa, a glória máxima desta Raça predestinada para os grandes cometimentos e para as surpreendentes audácias.
(...) Só as nações incultas desconhecem os seus homens ilustres.
O nosso povo, desgraçadamente, é um povo analfabeto. E, para o castigo ser mais rude, propagandas dissolventes, de procedências várias e com diversos fins, têm-no batido com insistência, durante largos anos, consecutivamente. Houve quem cerrasse os olhos a essa tarefa anti-portuguesa e anti-social. Houve quem aparentasse não se aperceber dos seus perigos, sabendo muito bem a sua gravidade. E foram-se esquecendo as nobres figuras, os edificantes exemplos e as lições prodigiosas do Passado, que é sempre uma escola, quer para os indivíduos, quer para as colectividades. Quem é hoje, fora do círculo apertado dos estudiosos, que conhece, e devidamente compreende, a personalidade eminente de Nun`Álvares? Quem sabe as suas glórias, os seus heroísmos, os seus rasgos, as páginas edificantes e comoventes da sua vida modelar, toda ela consagrada, sem um desfalecimento, sem uma hesitação, sem uma incoerência, ao amor de Deus e ao serviço da Terra-Mãe?
Pois nós queremos contribuir, quanto em nossas forças caiba, para divulgar essa vida e essa obra. Cumprimos apenas um dever, que nos é gratíssimo, se bem que, e não o ignoramos, a tarefa seja árdua, pelas responsabilidades que nos impõe.
Mas não importa. A boa vontade pode muito, e como escrevemos para o grande público, e não estamos fazendo história, mas recordando-a, queremos crer que não será perdido este esforço.
Vamos, portanto, dizer, quem foi o Santo Condestável — enumerar os seus feitos, segui-lo, desde a infância, quando se inspirava em Galaaz, até à morte do justo, na cela do convento de Nossa Senhora do Carmo, que ele edificara com a sua vontade de bronze. Mais ainda: vamos mostrar, com eloquência dos factos, contados em linguagem simples, que todos entendam, quanto lhe devemos em vida, quanto lhe estamos devendo depois de morto. Como a sua influência pode ser salutar, e até decisiva, nos destinos de Portugal, se soubermos bem meditar e compreender a sua vida. Esta secção será, ao mesmo tempo, uma evocação e um estímulo. Lembrar-nos-á o Passado e apontar-nos-á um Futuro que o não desmereça. Fará história, que o povo perceba. — Será uma cartilha de civismo, para que as multidões se eduquem no amor à terra em que nasceram. Reproduzirá documentos, dará trechos de crónica, dirá quem se tem ocupado de Nun`Álvares, como os nossos escritores o têm encarado, quais os nossos poetas que o têm cantado na sua lira...
A secção dividir-se-á em três grandes partes: no passado — no presente — no futuro. E como estamos firmemente convencidos de que será ilusório todo o trabalho ou todo o sacrifício, para salvar Portugal, que não assente os seus alicerces nas virtudes, cívicas e morais, do Herói excelso, empenhar-nos-emos sobretudo em abrir de novo, ao culto do Condestável e do Santo, a boa alma popular, tão desviada dos caminhos que percorreu sempre, com fortuna e honra, durante um tão largo período de tempo. Porque, se chorar os Mortos queridos, é já indício de boas qualidades, e revela amizade ou gratidão, imitar os seus exemplos, adoptar a mesma norma de vida, honrar e pondo em prática os seus ensinamentos, essa é a melhor e a mais proveitosa homenagem, e a mais inteligente. Os Heróis e os Santos não querem outra.
Nós vivemos numa época que exige, como nenhuma outra, talvez, o conhecimento dos grandes homens dos tempos idos. Para os chorar? Para os admirar apenas? Principalmente, para os tomarmos como modelos. Para continuarmos a sua obra...
E Portugal salvar-se-á, de quantas crises o assoberbem, se não esquecer Nun`Álvares, se ouvir vozes e a lição do Santo Condestável...

Zuzarte de Mendonça
In Cruzada Nacional Nun`Álvares, Ano I, Novembro de 1922, pág. 17.

O Santo Condestável por Alfredo Pimenta

via nonas de nonas em 17/04/09
O SANTO CONDESTÁVEL

«Nesta longa e difícil guerra pela independência da terra portuguesa, ao lado do Rei, a acompanhá-lo incansavelmente, vemos a pessoa do Condestável D. Nuno Álvares Pereira.
Filho bastardo do Prior do Hospital, D. Fr. Álvaro Gonçalves Pereira, filho bastardo, este, também, de D. Gonçalo Pereira, que foi, mais tarde, Arcebispo de Braga, e de Iria Gonçalves, Nuno Álvares, o Condestável do Rei de Portugal D. João I, nasceu a 24 de Junho de 1360, em Sernache do Bonjardim. É, talvez, a figura mais representativa, a figura mais exemplarmente típica do povo português, enquanto ideologias intrusas o não abastardaram e corromperam.
Ele trouxe sempre fundidos no seu coração o amor de Deus e o amor da Pátria. Foi Monge e foi Soldado; e foi Santo e foi Herói. Teve o duplo mistiscismo — o do Céu, e o da sua terra. Na hora mais aguda das batalhas, esquecido de tudo, ajoelhava e rezava. E, como os maiores místicos, possuía o sentido rectilíneo do equilíbrio e das realidades. Era um espírito positivo de patriota, animado pela fé mais viva da crença mais alta.
Sabia querer: e a sua vontade não conhecia, quando livre, embaraços. Sabia obedecer: e a sua obediência, na hora própria, não suportava reservas.
Nuno Álvares é a encarnação suprema da Pátria portuguesa: está nos altares, porque a Igreja o reconheceu merecedor de culto; e está nos corações dos portugueses fiéis que vêem nele o símbolo do seu amor pátrio.
Sem a sua espada vigorosa e sã, Portugal teria caído possivelmente na órbita de Castela, e tudo quanto fez em prol da Civilização andaria hoje escrito em língua estranha.
Riquíssimo de tudo — de honras, de bens e de glória, tudo trocou pelo hábito rude e áspero da estamenha de carmelita, quando viu que a sua Pátria já não precisava de que pusesse por ela «seu corpo em grandes aventuras», como dissera o Rei, no diploma em que lhe conferia o título de Conde de Barcelos.
O Convento do Carmo começou a edificá-lo, em Lisboa, em 1389. Lentamente, as obras prosseguiam. Os primeiros monges entrariam em 1397 — só portugueses. Nuno Álvares queria habitá-lo. Um elo ainda o prendia à vida: a filha. Mas esta, talvez em 1415, morre em Chaves. Dispõe-se a entrar no Carmo. Mas o Rei chama-o para Ceuta. E Nuno Álvares obedece.
No regresso, liberto já de quaisquer peias, o seu sonho corporiza-se. E em 15 de Agosto de 1423, a porta do convento fecha-se sobre a sua sombra: é Fr. Nuno de Santa Maria!»

Alfredo Pimenta
In Elementos de História de Portugal, E.N.P., Lisboa, 1935, págs. 112/115.

Nun`Álvares por João Ameal

via nonas de nonas em 16/04/09
«A Idade Média portuguesa está cheia de esplêndidas figuras representativas. Desde os grandes Reis da Fundação, da Reconquista, do Povoamento, do Descobrimento: Afonso I, com sua espada criadora do Reino Novo; Sancho I, que o engrandece e restaura: Afonso II, que lhe dá o inapreciável benefício de uma autoridade firme; o desventurado Capelo, conquistador de tantas terras no sul; Afonso III, que marca à Nação o definitivo contorno; o Lavrador da Terra e do Espírito, Dom Dinis; Afonso IV, cavaleiro intrépido e jovial; Fernando, perdido de amores fatais mais verdadeiro iniciador do nosso poderio marítimo; João I, chefe exemplar de um Povo desperto e de uma Família extraordinária — desde os grandes Reis, aos heróis da Sabedoria ou da Guerra. Um nome apenas entre os primeiros: esse maravilhoso Santo António de Lisboa, flor franciscana da superior cultura da sua época, Doutor e pregador de fama, aceso em sagradas cóleras contra os albigenses heréticos, glosador eloquentíssimo dos Evangelhos, generoso dispensador de milagres. Entre os segundos, um nome apenas: o de Nuno Álvares, que vimos coberto de loiros no bravo tumulto das batalhas e agora encontramos, neste primeiro quartel do Século XV, a esplender na pura atmosfera do claustro.
É o mais valoroso cavaleiro do tempo. Alcança triunfos inverosímeis: Atoleiros, Aljubarrota, Valverde, quantos! Revela sempre um sentido prático, infalível da táctica militar — quando escolhe e fortifica a posição que os nossos ocupam no dia de Aljubarrota; quando adopta o famoso dispositivo do quadrado; quando dirige e comanda os mais denodados ataques, indiferente ao risco e ao número de inimigos, primeiro de todos na arrancada e na temeridade. De súbito, porém, solicitado por enigmático e longínquo apelo, detém-se a murmurar orações, ausenta-se do campo da luta, escuta, surdo ao estrépito dos choques de armas e de exércitos, as vozes ocultas que lhe falam de além-mundo. Compreende-lhes a estranha linguagem, dialoga com elas, entra, extasiado, no seu convívio sobrenatural.
Ganha as maiores honras e a maior fortuna. Condestável desde 1385; Conde de Ourém a seguir a Aljubarrota; Conde de Barcelos após Valverde — a gratidão régia enche-o de títulos e domínios; pertence-lhe a terça parte do território. Dom João I escolhe sua filha Beatriz para mulher do Infante Dom Afonso; o novo casal, dotado com avultadíssimos bens, será o tronco da poderosa Casa de Bragança: dela sairá no futuro larga série de Monarcas portugueses.»

João Ameal
In História de Portugal, Livraria Tavares Martins, 6.ª edição, Porto, 1968, págs. 185/186/187.