P: Sabe que já descrevi em livros anteriores o sucedido consigo na altura do “Verão Quente” (1975), quando estava na Amadora. No entanto julgo que ocorreu algo a seguir ao 11 de Março, e ainda não referido por desconhecimento…
quarta-feira, 6 de maio de 2009
A prisão do Tenente-Coronel Marcelino da Mata - (Entrevista a Marcelino da Mata)
Era uma vez… Portugal (XXIV)
A ACÇÃO MISSIONÁRIA DO INFANTE D. HENRIQUE
Comemoramos este ano os 600 anos do nascimento do grande impulsionador dos Descobrimentos, o Infante D. Henrique. É, assim, altura de prestarmos especial atenção a esta figura e ao modo como patrocinou e promoveu a Expansão Portuguesa e as viagens de Descobrimento. Uma vez que os factores políticos e económicos suscitam geralmente uma maior atenção, vamos hoje falar um pouco sobre uma faceta por vezes menosprezada: a acção missionária que D. Henrique desenvolveu e que o acompanhou ao longo de toda a sua vida, a qual é indissociável do processo dos Descobrimentos.
Quando se fala dos Descobrimentos Portugueses do século XV, nomeadamente a sua fase inicial a que esteve associado o Infante D. Henrique, apontam-se diversas motivações que teriam estado na origem do arranque das viagens e da Expansão Portuguesa em geral. Uma merece a nossa atenção no programa de hoje: a motivação religiosa. Na verdade, é para nós hoje um pouco difícil compreender a mentalidade dos homens do século XV. Vivendo num mundo em que o dinheiro e os valores materiais e económicos são dominantes, sentimos por vezes dificuldades em entender as motivações dos homens daquela época. Porém, é certo que os Descobrimentos estão associados numa primeira fase ás campanhas militares de conquista de Marrocos, e estas tinham como uma das principais motivações o espírito de cruzada, ou seja, a guerra santa aos muçulmanos. Assim, nesta primeira fase, iniciada com a conquista de Ceuta em 1415, o projecto de conquista de Marrocos aos infiéis desempenhava o papel mais importante. Considerava-se na época que guerrear os muçulmanos era, mais do que um meio de obter glória militar ou proveitos materiais, a obrigação fundamental de todo o guerreiro cristão, contribuir para o alargamento da Cristandade e, assim, a forma mais nobre de servir a Deus; é o que se designa na época por Serviço de Deus.
O Infante D. Henrique sentia de um modo profundo esta motivação. Imbuído de um íntimo apelo religioso, encarava como fundamental este serviço. Assim se entende que tenha sido o principal promotor da tentativa de conquista de Tânger e da continuação da conquista marroquina. Porém, o avanço português em Marrocos deparava com enormes dificuldades, pelo que outro projecto germinava gradualmente na mente de D. Henrique, e que foi um dos motores dos Descobrimentos: explorar as costas do continente africano, avançando para Sul e procurando contornar deste modo as potências muçulmanas do Norte de África em busca de aliados cristãos que, segundo algumas informações, existiriam a Oriente. Estava neste caso o lendário reino cristão do Preste João, que era na realidade a Etiópia, e que poderia ser um valioso aliado contra os mouros. A isto juntava uma vontade profunda e genuína de alargar a Cristandade e de expandir a Fé Cristã. Estas duas motivações, entre outras, foram expressas pelo cronista Gomes Eanes de Zurara. Sobre as cinco razões que levaram o Infante a promover os Descobrimentos, diz:
"A quarta razão foi porque, de 31 anos que guerreava os Mouros (…), queria saber se se achariam naquelas partes alguns príncipes cristãos em que a caridade e amor de Cristo fosse tão esforçada que o quisessem ajudar contra aqueles inimigos da Fé.
A quinta razão foi o grande desejo que havia de acrescentar a santa fé de Nosso Senhor Jesus Cristo e trazer a ela todas as almas que se quisessem salvar (…)"
É evidente que a motivação religiosa não era a única; curiosidade de conhecer as terras que ficavam a sul do Cabo Bojador, assim como interesse em obter lucros com o comércio com essas terras era motivos igualmente válidos. Mas na época não havia contradição entre o interesse material e o serviço de Deus. A empresa dos Descobrimentos podia perfeitamente servir ambos, como veio de facto a acontecer. Na verdade, á medida que se exploravam as costas de África e que se aperfeiçoavam os conhecimentos técnicos de navegação, foram-se desenvolvendo os contactos com as populações locais, e o comércio começou a dar proveitos consideráveis. Comércio e Fé andavam assim a par, sem nenhuma contradição, como se pode constatar em diversos episódios.
Em 1441 Antão Gonçalves traz, no regresso a Portugal, três homens cativos que capturou na costa africana. Com estas acções pretendia-se obter informações sobre a região em causa e, através da cristianização destes homens, cumprir igualmente o objectivo missionário. Mas um deles era um homem de uma família real na sua terra, e portanto diz que os seus dariam vários escravos, pelo menos 10, em troca da sua liberdade. O Infante concorda, e devolve-o á sua terra. Diz o cronista que assim se salvavam dez almas, em vez de três. Aqui se vê como o objectivo económico (neste caso a obtenção de escravos) aliava-se á motivação puramente religiosa, sem que nenhuma contradição fosse achada nisso. Quando os portugueses atingem a costa a sul do Sara, o interesse missionário aumenta subitamente. Constatam que as populações já não são muçulmanas, portanto já não inimigas, e que poderiam mais facilmente ser convertidas ao Cristianismo. O factor religioso mantém, assim, a sua validade.
A captura de escravos, se hoje fere a nossa sensibilidade actual, era na época vista sob outro prisma. Na verdade, considerava-se que a cristianização compensava largamente o infortúnio da captura e da redução á escravatura. Assim, a 8 de Agosto de 1445 realizava-se em Lagos a primeira venda de escravos africanos. O cronista Zurara, porém, não deixa de ser sensível á tristeza destes homens arrancados á sua terra, sobretudo á separação de famílias, descrevendo o panorama do seguinte modo:
"(…) uns tinham as caras baixas e os rostos lavados com lágrimas, olhando uns contra os outros; outros estavam gemendo mui dolorosamente, esguardando a altura dos céus (…) outros feriam seu rosto com suas palmas, lançando-se estendidos em meio do chão; outros faziam suas lamentações em maneira de canto, segundo o costume de sua terra (…)".
No entanto, tudo isto era largamente compensado, pensava-se na época, pela possibilidade de se baptizar e cristianizar esta gente, com que o Infante se congratulava:
"O Infante era ali, em cima de um poderoso cavalo (…); toda a sua principal riqueza estava em sua vontade, considerando com grande prazer na salvação daquelas almas que antes estavam perdidas. E certamente que seu pensamento não era vão, pois logo que tinham conhecimento da língua, com pequeno movimento se tornavam cristãos."
Os Descobrimentos do século XV têm, deste modo, uma forte motivação religiosa que convém não esquecer. É preciso ainda relembrar que o Infante D. Henrique era também o administrador da Ordem de Cristo, sob cuja égide se faziam as viagens, se explorava o litoral africano, se colonizava a Madeira e os Açores. Em 1460, á data da sua morte, os portugueses haviam já avançado até á Serra Leoa. Os Descobrimentos prosseguiriam a bom ritmo, primeiro sob o arrendamento a particulares e mais tarde sob a orientação firme do rei D. João II. Mas a motivação religiosa nunca esmoreceu; pelo contrário, ampliou-se consideravelmente, primeiro em África e depois no Brasil e no Oriente. Os interesses materiais e os espirituais continuaram a pesar igualmente na epopeia dos Descobrimentos. Basta lembrar a célebre resposta de um marinheiro português da armada de Vasco da Gama, quando interrogado na Índia sobre os objectivos dos portugueses: "vimos em busca de cristãos e especiaria".
Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal
terça-feira, 5 de maio de 2009
Barack Obama prometeu confrontar os negacionistas do Holocausto sem dar cont...

Associated Free Press - 23 de Abril de 2009
WASHINGTON (AFP) – Numa cerimónia na quinta-feira que lembrou os seis milhões de judeus massacrados durante a Segunda Guerra Mundial, o presidente Barack Obama reafirmou os fortes laços que unem os Estados Unidos a Israel e prometeu confrontar os negacionistas do Holocausto.
"Existem aqueles que insistem que o Holocausto nunca ocorreu, aqueles que praticam todas as formas de intolerância – racismo, anti-semitismo, homofobia, xenofobia, sexismo e outras", disse Obama durante uma cerimónia no Plenário do Capitólio organizado pelo Museu Memorial dos Estados Unidos.
"Temos uma oportunidade e um dever de confrontar estes flagelos", afirmou Obama.
"Temos a oportunidade ... de nos comprometer-mos em resistir à injustiça, à intolerância e à indiferença sob qualquer forma que assuma, ou confrontando aqueles que dizem mentiras acerca da história ou fazendo tudo ao nosso alcance para impedir e acabar com as atrocidades como aquela que teve lugar no Ruanda, ou aquelas que estão a acontecer no Darfur", disse.
[...]
"A nação de Israel erguendo-se a partir da destruição do Holocausto", foi uma fonte de esperança para todos os que estão empenhados em combater a intolerância, afirmou Obama.
[...]
O Prémio Nobel da Paz Elie Wiesel, que sobreviveu aos campos de concentração nazis em Auschwitz e Buchenwald, utilizou o seu tempo no pódio do Plenário do Capitólio para criticar Ahmadinejad.
O líder iraniano é "o maior negacionista do Holocausto do mundo", disse Wiesel, cuja mãe e irmã morreram em Auschwitz, e o pai em Buchenwald.
"Ele utilizou novamente uma sessão solene das Nações Unidas para insultar o Estado de Israel duma forma que nenhuma pessoa civilizada nunca deveria fazer", afirmou Wiesel, agradecendo aos Estados Unidos por terem boicotado a sessão das Nações Unidas em Genebra.
Se Barack Obama deseja, de facto, confrontar os negacionistas do Holocausto judeu, perdeu uma excelente oportunidade ao não ter colocado algumas questões pertinentes ao seu companheiro de pódio, Elie Wiesel.Porque o Nobel da Paz Elie Wiesel, paladino da luta contra a intolerância e o anti-semitismo, no seu livro autobiográfico «Noite», onde descreve os dez meses em que esteve prisioneiro em Auschwitz, não refere uma única vez nenhuma das cinco enormes câmaras de gás que funcionaram em Auschwitz-Birkenau. Ele diz, realmente, que os Alemães executaram Judeus, mas... com fogo; atirando-os vivos para as chamas incandescentes, perante muitos olhos de deportados.
Excerto do livro «Noite» de Elie Wiesel:
«Não muito longe de nós, chamas elevavam-se dum fosso, gigantescas chamas. Eles estavam a queimar algo. Um camião aproximou-se da cova e descarregou a sua carga – crianças pequenas. Bebés! Sim, eu vi – vi-o com os meus próprios olhos... Aquelas crianças nas chamas. (É surpreendente que eu não tivesse conseguido dormir depois daquilo? Dormir era fugir dos meus olhos.)»
«Um pouco mais longe dali estava outra fogueira com chamas gigantescas onde as vítimas sofriam "uma lenta agonia nas chamas". A coluna de Wiesel foi conduzida pelos Alemães a "três passos" da cova, depois a "dois passos." "A dois passos da cova foi-nos ordenado para virar à esquerda e ir-mos em direcção aos barracões."»
E quando os Russos estavam prestes a tomar conta de Auschwitz em Janeiro de 1945, Elie e o seu pai "escolheram" ir para ocidente com os Nazis e os SS em retirada em vez de serem "libertados" pelo maior aliado de América. Eles poderiam ter contado ao mundo inteiro tudo sobre Auschwitz dentro de poucos dias - mas, Elie e o pai escolheram, em vez disso, viajar para oeste com os Nazis, a pé, de noite, num Inverno particularmente frio e consequentemente continuarem a trabalhar para a defesa do Reich.
Outro excerto do livro «Noite» de Elie Wiesel:
- O que é fazemos, pai?
Ele estava perdido nos seus pensamentos. A escolha estava nas nossas mãos. Por uma vez, podíamos ser nós a decidir o nosso destino: ficarmos os dois no hospital, onde podia fazer com que ele desse entrada como doente ou como enfermeiro, graças ao meu médico, ou, então, seguir os outros.
Tinha decidido acompanhar o meu pai para onde quer que fosse.
- E então, o que é que fazemos pai?
Ele calou-se.
- Deixemo-nos ser evacuados juntamente com os outros – disse-lhe eu.
Ele não respondeu. Olhava para o meu pé.
- Achas que consegues andar?
- Sim, acho que sim.
- Espero que não nos arrependamos, Elizer!
As escolhas aqui feitas em Auschwitz por Elie Wiesel e o pai, em Janeiro de 1945, são extremamente importantes. Em toda a história do sofrimento judeu às mãos de gentios, que altura poderia ser mais dramática do que o precioso momento em que um judeu podia escolher, por um lado, a libertação pelos Soviéticos com a possibilidade de contar a todo o mundo sobre as malfeitorias Nazis e ajudar à sua derrota - ou então fugir com os assassinos em massa Nazis, continuando a trabalhar para eles e ajudando-os a preservar o seu regime demoníaco?
Não obstante as surpreendentes contradições entre o livro autobiográfico «Noite» e a versão oficial do Holocausto, o Prémio Nobel da Paz, Elie Wiesel, deixa-nos algumas palavras de fraternidade e de esperança:
«Todo o Judeu, algures no seu ser, deve separar uma zona de ódio – saudável, ódio viril – para aquilo que os Alemães personificam e para o que persiste na Alemanha. Fazer o contrário, é trair os mortos.»(Wikiquote: Original inglês: "Every Jew, somewhere in his being, should set apart a zone of hate - healthy, virile hate - for what the German personifies and for what persists in the German. To do otherwise would be a betrayal of the dead.")
Era uma vez… Portugal (XXIII)
DIOGO DE AZAMBUJA E A CONSTRUÇÃO DA FORTALEZA DE S. JORGE DA MINA
É bem conhecida de todos a importância da figura do rei D. João II, o Príncipe Perfeito, no processo dos Descobrimentos. É, de facto, durante o seu reinado que se consolida a Expansão Portuguesa e se assegura a descoberta da passagem marítima para o Oceano Índico, abrindo caminho á instalação dos portugueses no Oriente. Os Descobrimentos recebem, assim, um impulso decisivo para o seu bom sucesso, definindo este rei uma série de objectivos claros a atingir. Embora a grande etapa fosse a descoberta do caminho marítimo para a Índia, D. João II pretendia também assegurar a presença portuguesa em África, garantindo a segurança das rotas marítimas e promovendo a exploração económica, nomeadamente através do comércio. Neste sentido, uma das acções mais importantes desencadeadas no seu reinado é precisamente a construção de uma fortaleza na costa africana, que se viria a chamar São Jorge da Mina. É disto que falaremos hoje, acompanhando a biografia do seu construtor, Diogo de Azambuja.
Quando D. João II sobe ao trono, em 1481, os portugueses tinham já uma longa experiência acumulada de navegação, exploração e contacto com África. D. João II, como é sabido, tinha um projecto de centralização do seu poder, através da contenção dos privilégios da grande nobreza, que aplicou nas Cortes em que foi jurado rei, em Évora. Do mesmo modo, possuía igualmente um projecto bem definido de expansão ultramarina, assente na exploração da costa africana e na descoberta da passagem para Oriente contornando o continente africano. O monarca decide avançar imediatamente com um plano global de descobrimento da costa, que levaria pouco deposi á viagem de Bartolomeu Dias e ao descobrimento da passagem para o Índico. Para já, duas medidas foram imediatamente tomadas: a primeira foi a de prosseguir o reconhecimento da costa, e para tal foi enviado Diogo Cão, que chegaria ao reino do Congo. A segunda foi a de construir, na chamada Costa do Ouro, uma fortaleza que servisse de entreposto do tráfico daquele metal, de ponto de apoio à nevegação portuguesa e de sinal inequívoco, dirigido sobretudo aos castelhanos, da exclusividade de navegação portuguesa nas águas da Guiné.
Assim, o rei prepara em 1481 uma expedição composta por nove caravelas e duas grandes naus. Levava esta armada cerca de 600 soldados e 100 pedreiros e carpinteiros, e carregava a pedra necessária para a construção da fortaleza. Após alguma hesitação, D. João II acaba por entregar o comando desta expedição a um Diogo de Azambuja, homem já dos seus cinquenta anos. Quem era esta personagem, a quem o rei confiou o sucesso de tão importante missão?
Diogo de Azambuja, não sendo propriamente um navegador, era no entanto um homem inteligente e hábil, um excelente militar e estratega, da confiança, evidentemente, do rei, e capaz de erguer no espaço de tempo mais curto possível uma fortaleza numa região ainda em grande parte desconhecida. Era cavaleiro da Casa de el-rei, tendo prestado serviço em Alcácer-Ceguer e em Aragão. Participou nas guerras com Castela, recebendo em 1480 o privilégio de fidalgo. Vemos, assim, que D. João II entrega a responsabilidade da construção da fortaleza não a um navegador, mas a um militar experiente, capaz de conduzir tal tarefa arriscada e difícil. A armada parte em Dezembro de 1481, rumando para Sul. A expedição segue até ao Golfo da Guiné, na Costa mais tarde designada Da Mina, procedendo Diogo de Azambuja ao reconhecimento da costa, de forma a encontrar o local mais favorável para a construção da fortaleza. Escolhe uma baía para desembarcar, o que faz a 19 de Janeiro de 1482, e de imediato se iniciam os trabalhos de construção. Ao cabo de 20 dias, já estava a fortaleza bem encaminhada, concluindo-se a sua construção pouco depois. Á data encontrava-se no local um navio português, que procedia ao comércio com as populações locais, mas o seu bom senso, o tacto de Diogo de Azambuja e, sobretudo, a boa recepção do rei local permitiram evitar conflitos e foram o factor decisivo para o êxito da missão.
Acabada a fortaleza, estabelecidos os contactos amigáveis com as populações locais e accionadas as trocas comerciais, Diogo de Azambuja considerou terminada a tarefa, pelo que mandou regressar a armada a Lisboa com notícia do sucesso da missão, ficando ele próprio como capitão da fortaleza com sessenta soldados. Exerceu o cargo até 1484, data em que regressou a Lisboa. A fortaleza ficou conhecida como S. Jorge da Mina, devido á devoção que o rei tinha a este santo. Assim ficou assegurada a presença portuguesa na região, sendo a fortaleza a sede de um rico tráfico de ouro, que se manteve durante algumas décadas. Eis o que disse a esse respeito um dos homens de D. João II, Duarte Pacheco Pereira:
"Temos sabido que em toda a Etiópia de Guiné, depois de ser dada Criação ao Mundo, este foi o primeiro edifício que se naquela região fez, na qual casa nosso senhor acrescentou tão grandemente o comércio, que em cada um ano se tira dali por resgate, que vêm para estes reinos de Portugal, 170 mil dobras de bom ouro fino, e muito mais em alguns anos se resgatam e compram aos negros que de longas terras este ouro ali trazem, os quais são mercadores de diversas nações (…); e estes levam desta casa muitas mercadorias, assim como lambéis, que é a principal delas (…), e pano vermelho e azul, e manilhas de latão, e lenços e corais, e umas conchas vermelhas que entre eles são muito estimadas, assim como nós cá estimamos as pedras preciosas. Isso mesmo vale aqui muito o vinho branco e umas contas azuis, a que eles chamam 'coris', e outras muitas coisas de desvairados modos. Esta gente até agora foram gentios, e já alguns deles são feitos cristãos. (…)
Quanto a Diogo de Azambuja, não terminaram aqui os seus feitos como homem de armas. Recompensado pelo rei com o cargo de alcaide de Monsaraz, para além de outras recompensas como a nomeação para o Conselho Real, Diogo de Azambuja manteve-se porém ligado á Corte e ao serviço do rei, embora a sua idade e uma deficiência física aconselhassem já a sua retirada. E é já com mais de setenta anos que aceita uma missão que o rei D. Manuel o encarrega, em 1506: construir uma fortaleza na região de Safim, no sul de Marrocos, de forma a aí permitir a fixação portuguesa. Diogo de Azambuja não só cumpriu tal missão com êxito, como tomou a própria cidade de Safim, permanecendo como capitão da cidade até 1509, com a idade de cerca de 77 anos. Nesta data regressou a Portugal, vindo a falecer em 1518.
Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal
segunda-feira, 4 de maio de 2009
É agora!

Alfredo Pimenta
in «Novos Estudos Filosóficos e Críticos»
Revoltante paternalismo

Era uma vez… Portugal (XXII)
MANUEL GODINHO DE ERÉDIA
E O DESCOBRIMENTO DA AUSTRÁLIA PELOS PORTUGUESES
Os portugueses foram os primeiros europeus a chegar ao Brasil e ao Japão, a dobrar o Cabo Bojador e o da Boa Esperança, os primeiros a contactar directamente a Índia e o Extremo Oriente; estas informações não constituem novidade, são dados correntes, divulgados pelos manuais escolares, pelas obras de divulgação, até pela imprensa. Mas outros permanecem menos conhecidos, ou mesmo ignorados pelo público. Em época de comemorações dos Descobrimentos Portugueses, seria talvez conveniente não deixar cair no esquecimento o papel relevante, muitas vezes de primeiro plano, que os portugueses tiveram no descobrimento ou exploração pioneira de outras terras e lugares. Entre estes poder-se-iam incluir a Florida, a Califórnia, o Tibete, a Nova Guiné e a Austrália. É sobre este último caso que nos vamos debruçar hoje, assim como a história de um homem singular, que viveu e morreu sem conseguir concretizar a sua sonhada viagem a uma terra a sul de Timor, que se pensa hoje ser possivelmente o continente australiano: Manuel Godinho de Erédia.
O Descobrimento da Austrália pelos europeus é tradicionalmente atribuído aos holandeses, sendo 1616 a data oficial, embora se aceite que lá terão chegado dez anos antes, em 1606 portanto. Porém, causa estranheza aos historiadores o facto de os portugueses, que levavam sobre os holandeses uma vantagem de quase cem anos de navegação nos mares vizinhos, não terem tocado esta terra. De facto, não chegou ao nosso tempo nenhum registo da eventual chegada dos portugueses ao continente australiano, embora algumas pistas dispersas provoquem ainda hoje controvérsia entre os defendem e os que negam a primazia portuguesa do descobrimento deste continente. Isto, porém, tem explicações muito concretas: em primeiro lugar, grande parte dos portugueses que ao longo do século XVI percorreram os mares da Ínsulíndia, por entre Malaca, as Molucas ou Timor, eram mercadores ou aventureiros, que viajavam por conta própria ou ao serviço de outrem, desligados das autoridades portuguesas. Assim, se lá tivessem aportado, é natural que tal passasse totalmente despercebido. Depois, a Austrália, a escassas centenas de quilómetros a sul de Timor, fica fora do mundo conhecido da época, assim como das rotas comerciais que cruzavam o rosário de ilhas que se estende desde Samatra ás Filipinas e á Nova Guiné. Logo, só por acidente, engano ou intenção deliberada é que se lá chegaria. E foi precisamente isto o que se passou com Manuel Godinho de Erédia, que durante anos lutou para conseguir organizar uma expedição a uma terra a que chamava por vezes a "Ilha do Ouro", e que consideram alguns ser a Austrália.
Manuel Godinho de Erédia nasceu em Malaca em 1563, filho do português João de Erédia Aquaviva e de uma princesa macassar. Era, portanto, um mestiço, e viveu em Malaca grande parte da sua vida, tendo estudado durante a sua juventude no colégio dos Jesuítas desta cidade. Escreveu durante a sua vida vários tratados geográficos, em que descreve várias regiões e reinos orientais, mas foi sobretudo como cartógrafo que atingiu alguma notoriedade, conhecendo-se hoje mais de duzentos mapas e plantas da sua autoria. Nos finais do século XVI, portanto em plena idade adulta, Erédia começa a escrever ao rei e ao vice-rei da Índia, propondo uma expedição ás tais "Ilhas do Ouro", que albergavam grandes riquezas. Em carta ao vice-rei D. Francisco da Gama, diz:
"(…) não posso deixar de fazer lembrança a Vossa Senhoria Ilustríssima como o escopo ou alvo do descobrimento do ouro depende também de conhecer os tempos que cursam no Mar do Ouro, porque fora deste conhecimento e ordem se acharão tempos mui ásperos do Mundo. (…) sendo eu provido nesta monção de Setembro, posso estar em Malaca todo o Novembro, e por Dezembro fazer a viagem até chegar a Solor, donde posso partir em Janeiro para Timor ou Ende ou Sabo, e invernar em qualquer destas ilhas e nelas tomar melhor informação do ouro, e por Agosto ou Setembro com o nome de Deus Todo-Poderoso cometer o Descobrimento da feliz Ilha do Ouro."
O estudo da figura de Manuel Godinho de Erédia e do seu projecto não é fácil, assim como o não é conseguir determinar com segurança se a terra que prendia atingir era ou não a Austrália. As suas concepções geográficas, se por vezes são bastante rigorosas e fiáveis, noutras são mais do que duvidosas, misturando factos e dados com lendas e informações distorcidas e falsas. As histórias que veicula sobre as Ilhas do Ouro resultam da junção, por este autor, de duas tradições: as geografias da Antiguidade, que chamavam á península malaia "Aurea Chersoneso", ou Península do Ouro; e das lendas malaias, que por sua vez também falam de diversas ilhas do Ouro, em várias regiões. Erédia, como luso-malaio nascido em Malaca, foi provavelmente influenciado pelas duas, e daí a sua teimosia em levar adiante o seu projecto. Convém, aliás, dizer que há notícia de já anteriormente vários portugueses terem procurado as lendárias Ilhas do Ouro, embora não se saiba nada do resultado das suas pesquisas.
O que distingue Erédia, para além da sua teimosia, é o facto de ser um bom conhecedor da região, da sua História e Geografia. Na carta atrás citada, demonstra de facto um conhecimento dos ventos e das condições naturais do mar localizado entre Timor e a Austrália. É, assim, possível que adquirisse de facto conhecimento das terras autralianas, talvez efectuando viagens de reconhecimento, e que esperasse apenas autorização das autoridades portuguesas para retirar daí possíveis benefícios.
Se Erédia chegou ou não á Austrália, é ainda um problema por resolver. Das suas obras pode-se ler, de facto, que conhecia de facto algo sobre o continente australiano. De qualquer modo, a chegada dos holandeses aos mares do Oriente, nos fins do século XVI, veio afastar definitivamente as suas esperanças. As dificuldades financeiras e militares, que cresciam perante esta nova ameaça, não propiciavam de facto o financiamento do seu projecto. Sabe-se, sim, que até ao fim da sua vida Manuel Godinho de Erédia escreveu incessantemente ao rei e ao vice-rei, de forma a obter apoio para a sua proposta. Em 1609 o rei escreve ao vice-rei da Índia a pedir conselho sobre o valor e seriedade das cartas que Erédia lhe escrevia:
"E porque dos descobrimentos que nelas diz não há cá nenhuma memória vos encomendo vejais as ditas cartas, e o chameis e tomeis toda a informação necessária da substância e utilidade das coisas que propõe, e do que nelas se pode fazer, e se será útil encarregar-lhe o cargo de Cosmógrafo-mor e com que ordenado (…)".
Porém, os pareceres que são enviados não lhe são favoráveis, e o assunto vai sendo posto de parte á medida que os problemas do Estado da Índia crescem. Manuel Godinho de Erédia morre em data incerta, antes de 1623, sem conseguir concretizar o sonho da sua vida. Ironicamente, após a sua morte as autoridades portuguesas, conhecedoras da chegada dos holandeses a uma nova terra que se viria a revelar a Austrália, mandam efectuar buscas aos seus papéis e apontamentos; isto revela, provavelmente, que o seu projecto acabou por ser considerado válido, embora fosse já tarde demais para levar a cabo o que Erédia tentou durante tantos anos, em vão, concretizar.
Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal
domingo, 3 de maio de 2009
EMBAIXADOR FRANCO NOGUEIRA ESCREVEU SOBRE SALAZAR
or da lei, era o seu pr
imeiro escravo. 

