quinta-feira, 14 de maio de 2009

Entrevista a Alain de Benoist (2/3)

via INCONFORMISTA.INFO de Miguel Vaz em 13/05/09
(Continuação da edição de uma entrevista original do blogue Dissonance)

Assistimos actualmente no mundo a uma espécie de renascimento de grandes espaços na Ásia (China, Índia), no mundo muçulmano (Turquia, União Pan-Africana), na Eurásia (Rússia), na América do Sul (Brasil, Venezuela). O corolário desse renascimento é o enfraquecimento do império Americano. Segundo este processo, quais as suas previsões para a próxima década? Pensa, como alguns, que existe um risco de "fuga para a frente" (deflagração de guerras) ou, pelo contrário, acha que estamos apenas no início de um processo quase inevitável: o mundo multipolar (caótico ou nem por isso)?
A grande questão passa, de facto, por saber se nos encaminhamos hoje para um mundo unipolar, dominado pela hiperpotência americana, ou para um mundo multipolar, um pluri-versum, articulado, como acabo de dizer, em torno de diversos blocos civilizacionais. Acredito, pessoalmente, que nos dirigimos, felizmente, para um mundo multipolar onde os países emergentes, como a Índia, a China e o Brasil, desempenharão um papel cada vez mais importante. Um tal mundo não será necessariamente instável, já que a ordem geral das coisas não será posta em causa. As leis da geopolítica determinam efectivamente as linhas de fractura e os desafios futuros. O grande conflito é o que opõe, estruturalmente por assim dizer, a potência do Mar (Estados Unidos) e a potência da Terra (o continente euroasiático). Nessa perspectiva, a Rússia desempenha um papel particular, porque corresponde àquilo a que os geopolíticos chamam de Heartland, ou seja, o coração do continente eurasiático.

Paradoxalmente a esse renascimento dos espaços, a Europa parece incapaz de se unir politicamente. As divergências parecem tão fortes que Aleksandr Dugin descreve-as no seu blogue como uma oposição entre a "velha Europa" (continental) e a "nova Europa" (atlantista). Qual a sua opinião?
A impotência da União Europeia não se explica unicamente pela oposição que descreve, apesar de ela ser bem real. Como partidário da construção europeia, não deixo de constatar que a Europa, desde o início, tem sido construída ao contrário da lógica. Tem dado permanentemente prioridade ao comércio e às finanças em vez da política e da cultura. Edificou-se sem legitimidade democrática - sem que algum povo tenha sido consultado - e a partir do alto (a Comissão de Bruxelas, que se autoproclama omnicompetente) em vez de se construir a partir da base, no respeito ao princípio da subsidiariedade (ou das competências suficientes). Em lugar de procurar aprofundar as suas estruturas políticas, preferiu alargar-se apressada e imprudentemente a países que estavam apenas preocupados em beneficiar da estabilidade monetária da União e em colocar-se sob o guarda-chuva americano, aderindo à NATO. Por fim, nunca esclareceu claramente quais os seus objectivos. Trata-se de fazer da Europa um grande mercado de fronteiras abertas, sucedendo-se a integração numa vasta zona de livre comércio euro-atlântico, ou pelo contrário, construir uma Europa-potência verdadeiramente autónoma, cujas fronteiras sejam rigorosamente determinadas pela geopolítica? É evidente que os dois modelos são totalmente opostos.

Têm soado apelos (de movimentos de extrema-esquerda e diversos intelectuais gaullistas) à integração da França na Organização para Cooperação de Xangai (organismo internacional de defesa composto essencialmente por países asiáticos). Na sua posição de crítico do regresso da França ao comando da NATO, que opinião tem sobre este tema?
Não tenho opinião formada sobre esse ponto. A NATO é uma organização defensiva criada no contexto da guerra fria. Não tem qualquer razão de existir após o desmoronamento do sistema soviético. Devia ter desaparecido ao mesmo tempo que o Pacto de Varsóvia. Em vez disso, essa organização totalmente controlada pelos EUA desenvolveu-se como uma espécie de clube ocidental americano-centrado, com capacidade de intervir em qualquer lugar do globo.
Nesse contexto, a decisão da França de reintegrar as estruturas da NATO, de onde o general De Gaulle a tinha feito sair em 1966, é mais do que uma falta: é ao mesmo tempo uma traição e um crime. Em todo o caso, a participação francesa na Organização para Cooperação de Xangai não é mais que uma hipótese teórica. A questão, neste caso, é saber se o grupo de Xangai tem uma vocação meramente regional, ou mais vasta. O meu desejo seria antes ver constituir-se, inicialmente pelo menos, uma organização europeia de defesa digna desse nome, e como tal, inteiramente independente da NATO. No entanto, neste momento, não é mais do que um desejo vago.

Numa época de crise financeira, todo o mundo diz que "pode ser" que a globalização liberal tenha "estourado", e que o modelo ocidental para a humanidade não é o "melhor". Do seu ponto de vista, "de onde" virão os novos modelos civilizacionais, filosóficos e económicos?
A crise financeira mundial deflagrada nos Estados Unidos no Outono de 2008 abriu sem dúvida os olhos a um certo número de pessoas. Mas essa crise, que está longe de terminada, não será provavelmente suficiente para fazer emergir um sistema alternativo. Os novos modelos surgirão quando o sistema actual estiver verdadeiramente no seu limite, sem que se possa saber especificamente quais as formas que daí surgirão. Ainda que as coisas se possam processar muito rapidamente, há ainda bastante por fazer para "descolonizar" os espíritos, tanto que os contemporâneos tomaram o hábito de viver num sistema da mercadoria, governado pela dialéctica da posse. Toda a modernidade foi tomada pela ideologia do progresso, os recursos naturais foram considerados ao mesmo tempo gratuitos e inesgotáveis, mesmo que não sejam nem uma coisa nem outra. A verdade é que um crescimento material infinito é impossível num mundo finito. Quando o compreenderem plenamente, poderão talvez sair da obsessão económica e dessa ideologia utilitarista que constitui um dos principais corolários do universalismo ocidental (o qual, como qualquer universalismo, não é mais do que um disfarce de etnocentrismo).

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Alguns dados sobre o campo de concentração do Tarrafal (1)

via Caminhos da Memória de Irene Pimentel em 12/05/09
  (A propósito do «Simpósio Internacional sobre o Tarrafal», 28/4-1/5/2009) Criado em 1936, sob o eufemismo de «colónia penal», o campo de concentração do Tarrafal seguiu certamente o modelo dos campos de concentração nazis, dos quais adoptará aqui como paradigma o de Dachau, com o qual se procederá a uma breve comparação. Não se pretende aqui descrever [...]

Era uma vez… Portugal (XXIX)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 12/05/09

A CONCORRÊNCIA LUSO-HOLANDESA NO SÉCULO XVII

Ao longo da sua História, Portugal desenvolveu um conjunto de laços e ligações particulares com alguns países da Europa. É sobejamente conhecida a relação conturbada com Espanha, desde mesmo os primórdios da fundação da nacionalidade. É igualmente conhecida a antiga aliança com a Inglaterra, velha de 600 anos, que juntava os interesses comuns dos dois países predominantemente marítimos. Mas hoje vamos abordar um caso igualmente significativo, mas menos conhecido. Referimo-nos ao caso da Holanda, ou mais correctamente aos Países Baixos, cujas ligações a Portugal remontam aos primeiros tempos da nossa História. Vamos tratar, em concreto, de um período de cerca de 60 anos em que, contrariando a longa tradição de amizade, portugueses e holandeses foram acérrimos inimigos, no que ficou para a História como o primeiro grande conflito à escala planetária.

Quem tomar o relacionamento entre Portugal e a Holanda entre a Idade Média e o século XVI, encara certamente com estranheza - para não dizer espanto - o período de concorrência entre os dois povos inaugurado nos finais daquele século. A ligação tradicional e a amizade entre os dois países tinha raízes profundas. Sendo ambas potências marítimas, uma na encruzilhada de África com a Europa, do Mediterrâneo com o Atlântico, e a outra no cruzamento do Mar do Norte com a Europa Central, desde o século XII que desenvolviam um intenso comércio mutuamente proveitoso. Com o arranque dos Descobrimentos Portugueses, tal passou a ser ainda mais vincado, pois a Holanda funcionava como centro distribuidor dos produtos africanos, brasileiros e asiáticos para a Europa, a partir de Lisboa. Os interesses dos dois países, que no século XVI eram assim complementares, passaram a partir de determinada altura a divergir. Tal ocorreu na verdade a partir da década de 1580.

A partir da década de 1580, Portugal passa a ter como rei Filipe II de Castela, que após um breve período conturbado conseguira tomar o trono português. Assim, a partir desta data, Portugal e Espanha passam a ter um destino comum. Ao mesmo tempo que Portugal se une á Espanha, os holandeses seguem o caminho oposto: tendo estado sob domínio espanhol, desencadeiam a certa altura uma revolta, proclamando a independência. Assim, deste modo, Portugal e Países Baixos encontram-se, na década de 1580, súbita e inesperadamente em campos opostos. Tal não significava necessariamente inimizade declarada. Em princípio, a rebelião das Províncias Unidas era um problema que a Coroa de Castela teria que enfrentar e a que os portugueses eram alheios, pelo que o comércio entre os portos portugueses e os flamengos se manteve intenso. Porém, o que viria a acontecer foi que o rei espanhol, embora tivesse jurado nas Cortes de Tomar que a política externa portuguesa manteria a sua autonomia, passou a conduzi-la segundo os interesses espanhóis. Na prática, o que aconteceu foi que os inimigos de Espanha passaram a ser igualmente inimigos de Portugal: entre os mais importantes contavam-se a Inglaterra e a Holanda, dois aliados tradicionais de Portugal. O rastilho do conflito foi aceso em 1595, ano em que Filipe II encerrou de vez os portos portugueses à navegação holandesa e confiscou os bens dos navios que se encontravam na barra de Lisboa. Os holandeses viram-se assim definitivamente privados do acesso às mercadorias ultramarinas, sobretudo orientais. Nesse mesmo ano enviariam a sua primeira expedição ao Oriente, abrindo assim o caminho a um período de concorrência e hostilidade entre os dois países.

A primeira viagem holandesa ao Oriente não se pode considerar propriamente um sucesso, devido às terríveis baixas, à desorientação da tripulação e à precaridade do seu percurso, pois só regressaria aos Países Baixos três anos mais tarde, mas abriu caminho a outras expedições e à decisiva penetração holandesa na Ásia, o que veio de facto a ocorrer rapidamente. Inicialmente pacíficas e meramente comerciais, as navegações holandesas tornaram-se gradualmente mais exigentes, tanto mais que os portugueses cedo passaram a combater os intrusos por todos os meios ao seu alcance. Passou-se assim rapidamente a um estado de guerra não-declarada. Os holandeses, considerando que os portugueses não tinham o direito de lhes vedar o acesso á Índia e ás especiarias orientais, passaram a atacar indiscriminadamente as posições portuguesas, tanto as armadas como as fortalezas, conseguindo alcançar importantes vitórias. Na verdade, o Estado da Índia português, minado por diversas dificuldades (que iam desde a corrupção generalizada do sistema ao atrofiamento da sua estrutura organizativa), estava militarmente incapacitado de responder eficazmente a tal concorrência. Os portugueses, dispersos por um império que se estendia do Brasil ao Japão e com recursos humanos, financeiros e políticos limitados, não podiam competir com uma potência europeia melhor armada, financiada e organizada, tanto mais que outras potências passaram a entrar igualmente na corrida, ingleses, franceses e até dinamarqueses.

As primeiras viagens holandesas foram pacíficas e cautelosas. Só gradualmente, à medida que os portugueses reagiam com dureza crescente, é que o procedimento se modificou. É preciso ver que, aos olhos das autoridades portuguesas, os holandeses eram piratas e considerados rebeldes e ainda por cima de religião protestante. Estava assim aberto o caminho á competição desenfreada e á guerra total, que alastrou do Oriente para o continente americano. Também aqui os holandeses atacaram as possessões portuguesas, nomeadamente no norte do Brasil. O ritmo deste conflito prosseguiu de forma crescente até á década de 1630. É sabido que o assalto holandês generalizado ás posições ultramarinas portuguesas e a indiferença com que os reis espanhóis encaravam a questão foram uma das motivações que levaram á revolta e á Restauração da independência. A partir de 1640, Portugal encontra-se novamente em boas relações com a Holanda, como aliás com outras potências inimigas de Espanha, como a Inglaterra.

A Restauração portuguesa, em Dezembro de 1640, deveria em princípio ter posto fim à pressão holandesa sobre os portugueses: estes já não eram súbditos do rei espanhol, mas sim de um novo rei que rapidamente procuraria o apoio holandês para a sua causa, retomando a velha relação de amizade entretanto interrompida. Acontece que os holandeses estavam muito pouco receptivos a aceitar tal argumento, tanto mais que a sua posição de vantagem lhes permitia antever novas vitórias perante o enfraquecido poder português; o assalto prosseguiu, portanto, quer no Oriente, quer no Atlântico. Só em 1669, é que a paz foi assinada, pelo Tratado de Haia. As relações luso-holandesas foram finalmente normalizadas, retomando a tradição de amizade e complementariedade económica - agora sob outros moldes - que fizera a sua História até à década de 1580.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Nahum Goldmann - Sem as indemnizações alemãs, Israel não teria metade da sua...

via Um Homem das Cidades de noreply@blogger.com (Diogo) em 12/05/09

Alguns excertos da entrevista de Nahum Goldmann ao jornal «Le Nouvel Observateur», de 25 de Outubro de 1976:

«Na sua grande maioria, a opinião judaica era hostil a qualquer contacto com os Alemães. Compreendo bastante bem essa atitude e disse muitas vezes que, se o povo judeu tivesse aceitado unanimemente a ideia de negociar indemnizações em dinheiro com os alemães, teria tido vergonha de ser judeu. O povo judeu devia por isso manifestar a sua oposição mas não era necessário que os seus líderes a tivessem em conta; é isto a política».

«Sem as indemnizações alemãs, que começaram a chegar durante os primeiros dez anos da existência como Estado, Israel não teria metade da sua infra-estrutura actual: todos os comboios de Israel são alemães, os barcos são alemães, assim com a electricidade, uma grande parte da indústria... já sem falar das pensões individuais destinadas aos sobreviventes. Hoje [1976], Israel recebe ainda, anualmente, centenas de milhões de dólares em moeda alemã».

«Não compreendo o teu optimismo, disse-me Ben Gourion. Porque é que os Árabes haveriam de fazer a paz? Se eu fosse um líder árabe, jamais assinaria a paz com Israel. É normal, nós tomámos conta do seu país. É certo que Deus no-lo prometeu, mas o que é que isso lhes interessa? O nosso deus não é o deles. Nós somos originários de Israel, é verdade, mas isso foi há dois mil anos: o que é que eles têm a ver com isso? Houve o antisemitismo, os nazis, Hitler, Auschwitz, mas foi culpa deles? Eles não vêem senão uma coisa: nós chegámos e roubámos o seu país. Porque é que eles o iriam aceitar? Talvez eles o esqueçam numa ou duas gerações mas, por ora, não existe essa possibilidade. Portanto, é simples: devemos manter-nos fortes, ter um exército poderoso. Toda a política está aí. Doutra forma, os Árabes destruíam-nos».


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Nahum Goldmann orgulha-se de duas grandes coisas: a fundação do estado de Israel – na qual participou – e as reparações [indemnizações] alemãs após a guerra – que ele negociou. É a história dessas difíceis negociações com Adenauer que expõe aqui aquele que é, aos 82 anos, o mais inconformista dos sionistas, ao mesmo tempo Presidente do Congresso judaico mundial e apoiante de paz com os Árabes.

Pai fundador de Israel – da mesma maneira que um Weizmann ou um Ben Gourion – Nahum Goldmann escolheu a Diáspora. Presidente do Congresso judaico mundial, tomou muitas vezes posições em contradição com a política oficial de Jerusalém. Chefe de Estado sem Estado, é, há mais de sessenta anos – em primeiro plano ou nos bastidores -, um dos personagens principais da história judaica contemporânea. Lituano de origem, alemão de cultura, americano de nacionalidade, Nahum Goldmann é, aos oitenta e um anos, o mais desconcertante dos sionistas. Amigo de Nasser, negociador junto de Adenauer das reparações [indemnizações] alemãs, apoiante de paz com os Árabes, ele não poderia encontrar melhor definição de si próprio que aquela que serve de título ao seu último livro: «le Paradoxe juif» [o Paradoxo judeu], que será lançado em Novembro nas edições Stock.

Ben Gourion com Konrad Adenauer, a 14 de Março de 1960. Poucos sabem que a Alemanha continua a pagar indemnizações a Israel [Foto - Nouvel Observateur].

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A entrevista completa de Nahum Goldmann ao jornal «Le Nouvel Observateur», de 25 de Outubro de 1976:

[Tradução minha]

A obtenção de indemnizações alemãs depois da última guerra [Segunda Guerra Mundial] constitui uma longa história e, talvez, o acontecimento da minha vida ao qual eu estou mais ligado. Creio ter dito que fiquei sobretudo alemão pela minha cultura, sendo sempre judeu, e cosmopolita no sentido «universal» do termo. Antes do hitlerismo, durante um curto século, a Alemanha deu aos judeus todos os direitos e, em troca, os judeus enriqueceram este país em todos os domínios: literário, filosófico, musical, político, financeiro… Certamente, o hitlerismo varreu os judeus alemães mas não conseguiu nada contra esta contribuição múltipla e incomparável.

A grande falha, que novamente sublinho, dos judeus alemães foi de não terem medido a tempo os riscos terríveis da aventura hitleriana. Já afirmei muitas vezes que, se não tivéssemos pertencido à geração que criou o Estado de Israel, teríamos ficado numa das mais dolorosas situações da história judaica em virtude da nossa falta de previsão e da nossa ausência de solidariedade anterior ao período nazi. Com alguns amigos, nunca deixei jamais pessoalmente de lançar gritos de alarme mas não pude, ou não soube, fazer-me entender.

Como eu representava o Congresso judaico mundial e a Agência judaica em Genebra, encontrava regularmente os líderes do judaísmo alemão. Estes encontros eram clandestinos porque lhes era interdito ter contactos com um homem desnaturalizado por alta traição. Tentámos fazer o máximo possível mas o povo judeu não nos ajudou muito. As democracias tiveram, também elas, a sua culpa mas, antes de acusar os não judeus, acusemo-nos a nós próprios. Mais tarde, quando os judeus começaram a compreender o horror da situação, a Alemanha era já tão forte que nada já era possível.

Se não contar com os meus encontros com os sobreviventes dos campos de concentração aquando da libertação, não regressei oficialmente à Alemanha senão para me encontrar com o chanceler Adenauer e empreender as negociações sobre as indemnizações. Estas indemnizações constituem uma inovação extraordinária em matéria de direito internacional. Até então, com efeito, quando um país perdia uma guerra, pagava os prejuízos ao vencedor, mas isso passava-se de Estado para Estado, de governo para governo. Ora, pela primeira vez, uma nação ia indemnizar ou simples indivíduos ou Israel, o que não existia juridicamente na altura dos crimes de Hitler. De resto, devo reconhecer que a ideia não partiu de mim.

Durante a guerra, o Congresso judaico mundial tinha criado em Nova Iorque um Instituto de Assuntos judaicos cuja sede é hoje em Londres. Os directores eram dois grandes juristas judeus lituanos, Jacob e Nehemiah Robinson. Craças a eles, o Instituto formulou duas ideias completamente revolucionárias: o tribunal de Nuremberga e as indemnizações alemãs.

É difícil avaliar a importância que revestiu o tribunal internacional que se instalou em Nuremberga. Segundo a lei internacional, era de facto impossível sancionar os militares por terem obedecido a ordens. Foi Jacob Robinson que teve a ideia extravagante e sensacional. Quando ele começou a falar disso aos juristas do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, tomaram-no por um louco «que fizeram então de extraordinário esses oficiais nazis? perguntaram. Podia-se imaginar que Hitler fosse a julgamento, Goering também, mas não simples militares que executaram ordens e que se comportaram como soldados leais.» Nós tínhamos portanto a maior dificuldade em persuadir os Aliados; os Britânicos eram à partida contra, os Franceses não estavam nada interessados e, se tivessem participado, não teriam desempenhado um papel importante. O êxito resultou do facto de Robinson ter conseguido convencer Robert Jackson, juiz Supremo Tribunal americano.

A outra ideia do Instituto era que a Alemanha nazi devia pagar depois da sua derrota. Faltava ainda acreditar nessa derrota mas, na altura em que cada um podia supor que a guerra estava perdida para os Aliados, como Churchill, de Gaulle..., eu mantive a esperança. Em nenhum instante duvidei, porque sabia que Hitler não se conseguia moderar e que os seus exageros levariam os Aliados a entrar no conflito. No seguimento das conclusões do Instituto, as indemnizações alemãs deveriam ser dirigidas em primeiro lugar às pessoas que tinham perdido os seus bens por causa dos nazis. Por outro lado, se, como esperávamos, o Estado judeu fosse criado, os Alemães pagar-lhe-ia compensações para permitir aos sobreviventes estabelecer-se lá. A primeira vez que esta ideia foi expressa, aconteceu durante a guerra, no decurso de uma conferência em Baltimore.

Um vez terminado o processo de Nuremberga, considerámos de novo o problema das indemnizações. Vários líderes judeus tentaram então estabelecer relações com Adenauer mas os seus propósitos eram a maior parte das vezes ridículos. Uma organização sugeriu-lhe pagar vinte milhões de marcos alemães; ora, no fim dos acordos que obtive, são oitenta mil milhões de marcos que os Alemães deverão pagar no total!

Os nossos «contactos» eram Walter Hallstein, então sub-secretário de Estado, que veio a ser mais tarde presidente da CEE e o diplomata Herbert Blankenhorn, director do departamento político do ministério dos Assuntos exteriores e braço direito de Adenauer. Estes dois homens ficaram meus amigos íntimos.

Aquando da reunião do Congresso judaico mundial em Londres, um judeu russo, Noah Barou, homem maravilhoso, grande idealista, cuja morte prematura nos deixou abalados, impeliu-me a entrar no jogo e a ter um encontro com Adenauer. No meu íntimo, eu estava muito hesitante porque falar novamente com os Alemães não me era fácil. Foi finalmente o meu cérebro que me decidiu a negociar, não o coração. Mas colocava uma condição prévia: antes de encontrar o chanceler para estabelecer as negociações, era preciso que Adenauer fizesse uma declaração solene no Bundestag [Parlamento alemão]; ele tinha de dizer que a Alemanha de hoje não era certamente aquela que quis Auschwitz (o próprio Adenauer tinha estado preso durante o governo de Hitler, e depois escondeu-se num mosteiro porque o Gestapo o procurava), mas que ela [a Alemanha] herdava a responsabilidade dos nazis e que lhe incumbiam as indemnizações; deveria acrescentar que as indemnizações materiais não iriam apagar o mal feito aos judeus pelos Alemães.

Quis-se por diversas vezes arranjar uma entrevista entre nós mas recusei ver o chanceler enquanto o discurso não fosse pronunciado. Eu estava de férias com a minha mulher no lago suíço dos Quatro-Cantões. Adenauer estava de férias a meia hora de lá, em Burgenstock. Blankenhorn veio-me ver para me dizer: «Adenauer está de férias aqui perto; se você tiver um encontro com ele ninguém o saberá. Ora, ele deseja muito a sua visita.» Eu não cedi.

Um pouco mais tarde, em Paris, mais exactamente no hotel Raphael, que era um lugar excelente onde ficava também Eisenhower (eu fico sempre em hotéis frequentados por generais: eles escolhem os melhores porque não pagam), veio ter comigo um membro do primeiro parlamento alemão, um judeu socialista de nome Jacob Altmaier. Era um dos conselheiros de Adenauer para as questões judaicas. «O chanceler decidiu fazer-lhe a vontade, disse-me; ele vai apresentar uma declaração solene no Bundestag daqui a um dia ou dois e desejava que você a lesse antes para acrescentar possivelmente alguns comentários.» Fiz algumas correcções, que Adenauer nunca levou em conta, e, dois dias mais tarde, fez o seu discurso. Todo o parlamento alemão se levantou e observou, de pé, cinco minutos de silêncio em memória das vítimas judias do nazismo.

Desse lado, as coisas tinham tomado o rumo que eu desejava e doravante podia estabelecer as conversações. Mas restava um grande problema: na sua grande maioria, a opinião judaica era hostil a qualquer contacto com os Alemães. Compreendo bastante bem essa atitude e disse muitas vezes que, se o povo judeu tivesse aceitado unanimemente a ideia de negociar indemnizações em dinheiro com os alemães, teria tido vergonha de ser judeu. O povo judeu devia por isso manifestar a sua oposição mas não era necessário que os seus líderes a tivessem em conta; é isto a política.

Adenauer enviou-me uma mensagem na qual se dizia disposto a negociar com um único representante dos judeus da Diáspora. Quanto às negociações com Israel, ele queria resolver a questão com uma delegação diferente. Inicialmente, o governo israelita tinha enviado notas diplomáticas aos quatro aliados: Soviéticos, Franceses, Britânicos e Americanos. Nelas explicava que o "custo de absorção de meio milhão de refugiados judeus sobreviventes dos campos de concentração era de mil e quinhentos milhões de dólares"; Israel queria que a Alemanha Ocidental pagasse dois terços dessa soma e a Alemanha de Leste um terço. Se Telavive se dirigia ainda aos aliados, era para não falar directamente com os alemães.

Até hoje, os Russos não responderam a esta nota. Quanto aos três outros aliados, disseram que estavam de acordo que a Alemanha pagasse, mas que não podiam negociar em nome dos judeus; eles tinham os seus próprios problemas com os Alemães: negociar as questões da ocupação e da soberania. O governo israelita estava por isso numa situação de constrangimento. Ben Gourion et Moshe Sharett convocaram-me então para me dizer : «O essencial das negociações deve ser feita em nome do povo judeu porque as vítimas do nazismo foram-no na condição de judeus e não na condição de Israelitas. Pessoalmente, não nos podemos expor demasiado porque o Herut fez deste caso um cavalo de batalha político». Haviam de facto grandes manifestações de rua em Israel; atiravam-se pedras a Ben Gourion mesmo no interior do Knesset, a Assembleia nacional israelita.

Mais uma vez eu compreendo esta reacção; compreendo a cólera e a indignação daqueles que tanto sofreram. É um pouco a mesma coisa hoje com os judeus da U.R.S.S., esses que conheceram as prisões e as penitenciárias soviéticas são os mais anti-russos. É preciso respeitá-los, admirá-los, mas sobretudo não fazer o que eles querem. Sem as indemnizações alemãs, que começaram a chegar durante os primeiros dez anos da existência como Estado, Israel não teria metade da sua infra-estrutura actual: todos os comboios de Israel são alemães, os barcos são alemães, assim com a electricidade, uma grande parte da indústria... já sem falar das pensões individuais destinadas aos sobreviventes. Hoje, Israel recebe ainda, anualmente, centenas de milhões de dólares em moeda alemã. Quando Pinhas Sapir fez um grande discurso para me defender diante do Conselho judaico mundial, afirmou: «Goldmann trouxe para Israel oito mil milhões de dólares». Em determinados anos, as somas de dinheiro eu Israel recebia da Alemanha ultrapassavam as colectas do judaísmo internacional – multiplicando-as às vezes por dois ou três. Hoje, já ninguém está contra este princípio; mesmo certos membros do Herut entendem as indemnizações.

Convoquei portanto a Nova Iorque a Claims Conference [Conferência de Reivindicações] (mais precisamente Conferência das Reivindicações Materiais dos Judeus à Alemanha), representando todas as organizações judaicas. Em frente do hotel onde ficámos, a multidão manifestava a sua cólera e tive de sair sob a protecção da polícia. Em subida de tom, existiam violentas discussões no seio da Conferência porque ninguém estava de acordo sobre a designação dos membros do executivo. A discussão já durava há meio dia, sem resultado, quando um membro do l'American Jewish Labour Committee [Comité Americano dos Trabalhistas Judeus] se levantou e disse: «só há uma solução, demos plenos poderes a Goldmann para escolher os seus membros e nomeemo-lo presidente!» Fui desta forma nomeado por unanimidade – coisa inimaginável tanto no congresso sionista quanto no Congresso judaico mundial.

A minha primeira entrevista com Adenauer devia ter lugar sem que ninguém o soubesse. O chanceler informou-me então de um dia que iria estar em Londres para dar uma conferência e que nessa ocasião podia-me encontrar no hotel Claridge. Pediu-me para entrar em contacto com Blakenhorn para preparar esta conversa e discutir as modalidades. A Blankenhorn, que eu vi com Barou, pedi imediatamente, como condição preliminar à abertura das negociações propriamente ditas, que a Alemanha aceitasse o pedido de Israel – a saber, mil milhões de dólares não como meta mas como um ponto de partida.

Blankenhorn protestou : «Mas é completamente impossível! Como é que o chanceler poderia tomar um tal compromisso sem consultar os membros do seu governo – e, à partida, o seu ministro das finanças, Fritz Schgeffer, que é uma personalidade tão forte? Você tem de esperar». É bom lembrar que esta cena se passou muito antes do famoso «milagre económico» alemão e que, nos anos 1950, a Alemanha era muito pobre. Mas eu mantive-me inflexível: «sem uma tal promessa, retomei, não aconselharei nem aos meus colegas do Claims [Reivindicações] nem a Ben Gourion a aceitar o princípio da negociação». Chegada a altura, encaminhei-me para o Claridge para ter uma das conversas mais impressionantes da minha vida política. A atmosfera era glacial. Reparem: eu tinha à minha frente o primeiro chanceler da Alemanha depois de Hitler. Então, de repente, entrei directamente no assunto: «Senhor chanceler», disse a Adenauer, este momento é histórico. Normalmente, não gosto de grandes frases mas o momento em que o representante do povo judeu encontra o líder da nação alemã que massacrou seis milhões de judeus é necessariamente histórico, e vou-vos explicar porquê. «Só lhe peço que me deixe falar vinte minutos sem me interromper». E Adenauer, com a sua figura venerável de estátua medieval, escutou o meu discurso sem abandonar a sua impassibilidade.

E terminei dizendo-lhe: «senhor chanceler, não vou brincar aos diplomatas porque o nosso problema não é um problema de diplomacia mas de moralidade. Se decidir agir, fica empenhado num dever moral. Se decidir abordar o debate em termos diplomáticos, será melhor que não nos tornemos a ver. Os Israelitas pedem mil milhões de dólares e eu pedi que esta soma fosse considerada como base de partida. O Sr. Mankenhorn disse-me que, segundo a vossa constituição, era completamente impossível. Respondi-lhe que não podia esperar porque o povo judeu está numa grande efervescência e na sua maioria opõe-se a todas as negociações susceptíveis de lavar os crimes da Alemanha. Mas agora que isto já é do seu conhecimento, sinto que você tem uma personalidade suficientemente forte para esquecer por um instante os rigores da vossa constituição – quando se trata de um tal assunto.».

Adenauer observou-me antes de responder: «Sr. Goldmann, nunca tive o prazer de o encontrar antes». E, de facto, tal teria sido possível porque ele tinha sido membro do comité pró-palestiniano antes de Hitler subir ao poder. «Você conhece-me à meia hora e devo dizer ao meu amigo Blankenhor, que, a quem eu conheço há tantos anos, - que você me compreende melhor do que ele. Queira passar ao escritório ao lado; vou-lhe enviar a minha secretária: dite-lhe a carta e eu assino-a».

Ditei a carta, à qual Adenauer introduziu uma única alteração; eu tinha escrito que os mil milhões de dólares seria «die Basis», a base, e ele substituiu esta palavra por «die Grundlage», o princípio, o que ia dar ao mesmo. E ele conclui a entrevista com estas palavras: «envie-me o Sr. Barou esta tarde; eu entregar-lhe-ei a carta assinada».

Nenhum outro homem de Estado teria ousado fazer semelhante coisa. Depois desta assinatura, ele teve grandes dificuldades com o seu gabinete que o censurou por se comportar como um ditador, de ter prometido estes mil milhões de dólares sem ter pedido a opinião de ninguém. Mas era Adenauer, um verdadeiro líder, e todos acabaram por aceitar. É muitas vezes assim que é necessário conduzir uma democracia. Esta conversa permaneceu durante muito tempo ignorada porque tínhamos decidido que, se os jornalistas tivessem vindo, ambos negaríamos que alguma vez nos tivéssemos encontrado. De resto, eu tinha feito bem em ter multiplicado as precauções e ter entrado no Claridge pela entrada de serviço, porque muitos sentiram que se passava alguma coisa e mesmo o Times falou em rumores.

Munido da carta, dirigi-me de seguida à Claims Conference onde o comité aprovou por unanimidade a abertura das negociações. Paralelamente, Ben Gourion enfrentou o Knesset onde a oposição vociferava se contra os negociadores. A maioria dos líderes do Mapai, com excepção de Golda Meir e alguns outros, eram pelas negociações; os liberais também. Mas o Herut e o Mapam opunham-se a elas. Se Israel tivesse recusado, eu não teria podido negociar: era-me impossível arcar com tais responsabilidades. Finalmente, o knesset designou um grupo dirigido por Giora Josephtal e Felix Shinnar; Israel tinha então a sua delegação e o Claims a sua.

É sabido que as duas delegações negociaram cada uma por seu lado com a delegação alemã, à cabeça da qual se encontravam dois homens lendários: o eminente jurista Otto Küster e o professor Franz Boehm, que festejou recentemente o seu octogésimo aniversário. Ben Gourion disse um dia que, se Israel tivesse dez pessoas com a honestidade de Boehm, a vida nesse país seria melhor. É um exagero típico de Ben Gourion mas é verdade que Franz Boehm é um personagem verdadeiramente extraordinário moralmente e intelectualmente.

Os alemães discutiam então, de manhã, as indemnizações colectivas com a delegação israelita e, de tarde, os direitos do indivíduo com a delegação da Claims Conference. Quando surgia uma dificuldade, preveniam-me e eu ia resolver o assunto com Adenauer. As negociações desenrolavam-se perto de Haia, onde jamais capitulei. Duraram seis meses e não posso entrar aqui em detalhes: está a ser preparado um livro em três volumes!

Uma vez que Adenauer me entregou a famosa carta, tive de me encontrar, mais tarde, com o ministro alemão das finanças, Fritz Schaeffer. Este católico de direita, antinazi desde sempre, duma integridade total, foi um dos melhores ministros das Finanças que a Alemanha jamais teve. Disse-me logo: «Escute, meu caro Golmann, você não pode exercer nenhuma chantagem sobre mim; nunca fui nazi e Hitler meteu-me na prisão. Isto dá-me liberdade para me opor a si, o que antigos nazis não ousariam fazer».

E continuou: «o que você pede é correctíssimo e tem todo o direito moral do mundo. Simplesmente, repare, não sou um moralista nem um rabi, mas o ministro das finanças de um país actualmente pobre. Portanto, como se diz em Yiddish [língua judaico-alemã], indique-me o valor final da soma [das indemnizações]. Quanto é que isso tudo custará?

- Ignoro ainda os pormenores», respondi-lhe. E era verdade: só os soube recentemente. Digo sempre que um presidente é um homem que assina um acordo mas que não o conhece. Eu sou um negociante por grosso e não tenho nenhuma paciência para examinar os parágrafos um a um. Schaeffer porém insistiu. «O nosso especialista Robinson, disse-lhe, calculou que o total andará pelos seis mil milhões de marcos.

- Mas os nossos especialistas chegaram ao valor de oito mil milhões de marcos e isso é demasiado», replicou.

Na realidade, a Alemanha pagou até hoje sessenta mil milhões de marcos e o total chegará a oitenta mil milhões – doze a catorze vezes mais do que nós tínhamos calculado na altura… não poderíamos portanto censurar os alemães por terem sido mesquinhos e de não terem cumprido as suas promessas. Pelo contrário, desde que as leis foram votadas, Schaeffer desbloqueou imediatamente os fundos e, em várias ocasiões, concedeu-nos mesmo adiantamentos – o que não era fácil, como testemunha uma anedota que vou contar.

A Alemanha tinha contraído dívidas colossais, herdadas tanto de Hitler como da República de Weimar. Para se reabilitar aos olhos do mundo e recomeçar a concluir os pagamentos, precisava primeiro de os fixar. Neste domínio, o director das negociações era o maior financeiro alemão: Hermann Abs. Director do Banco Central Alemão, discutiu ponto por ponto com os Aliados as modalidades de reembolso e defendia que a Alemanha não podia pagar senão uma pequena parte.

Tendo conhecimento das nossa próprias negociações com o governo alemão, Hermann Abs foi-se queixar a Adenauer: «No momento em que eu digo aos Aliados que estamos na bancarrota, o Sr. oferece milhões a Goldmann sem qualquer contrato jurídico. A minha situação é insustentável. Adie as negociações com os judeus para quando eu tiver terminado de negociar com os aliados». Adenauer aceitou a sugestão e enviou-me um recado por intermédio de Blankenhorn que me telefonou para que eu recebesse Abs em Londres.

Abs veio então explicar-se a sua posição: «Sr. Goldmann, aceitei as suas exigências em princípio. Entretanto, terá de esperar seis meses porque, se souberem das suas exigências, os Aliados vão-me fazer a vida difícil. Sugeri, portanto, ao chanceler que vos pague um adiantamento de duas ou trezentos milhões de marcos. Dentro de seis meses, poderão retomar as vossas negociações».

- Lamento, mas é impossível, respondi-lhe. Trata-se com efeito de um problema emocional. O povo judeu está agitado até ao fundo da sua alma. Não podemos meter esta questão no congelador e dizer às vítimas do nazismo: «Adiem a vossa agitação. Dentro de seis meses, podem recomeçar a protestar». Ou resolvemos o problema agora, ou não será resolvido jamais.»

Disseram-me mais tarde que Abs ficou muito agastado com a minha resposta, mas, alguns anos depois, ele chegou à conclusão que eu tinha razão. Tal não impedia que Adenauer já não soubesse o que havia de fazer: toda a indústria alemã e a alta finança eram contra as nossas reivindicações. Paralelamente, Shaeffer defendia que o governo de Israel aceitaria muito menos do que aquilo que eu pedia. De facto, ele conhecia a fundo o orçamento israelita que, na época, estava em falência total. Quando eu era presidente do Executivo sionista em Nova Iorque, o representante financeiro de Israel, Martin Rosenblueth, vinha muitas vezes a minha casa, cerca das dez horas da manhã, para me dizer: «Nahum, o que é que tu fazes tranquilamente sentado, quando os bancos fecham à uma da tarde e temos uma factura a pagar?»

Tinha então de telefonar «à pressa» às organizações sionistas para arranjar com urgência cem mil dólares. Schaeffer estava ao corrente desta situação e dizia-nos, tanto a Adenauer como a mim: «Como? Os Srs. Julgam que Israel recusaria metade ou mesmo um terço desta soma? Um país falido?» Estou a revelar isto aqui pela primeira vez: era ele que tinha razão.

Quando Adenauer nos informou finalmente que a Alemanha não nos podia oferecer nessa altura mais do que duzentos a trezentos milhões de marcos, escrevi-lhe uma carta para romper as negociações. Recebi um telegrama de Ben Gourion pedindo-me para o ir ver.

Quando cheguei a Israel ninguém podia descer do avião antes de mim e um automóvel esperava-me ao pé do aparelho para me levar directamente a casa de Ben Gourion que me repreendeu imediatamente: «Nahum, não sejas demasiado ambicioso. Disseram-me que tu conseguias obter imediatamente trezentos milhões de marcos. Israel pedia mil milhões mas tu conheces a situação…

- Escuta, Ben Gourion, respondi-lhe, se os alemães se ficarem pelos trezentos milhões, eu não assino. Mas, a ti, aconselhar-te-ia a assinar.

- Qual é a diferença entre ti e mim?

- É simples: eu represento o povo judeu, que é demasiado rico para o meu gosto. Tu representas um Estado em situação de falência. Eu posso permitir-me recusar; tu não o podes fazer...

- Desta maneira, tu serás o herói e eu o cobarde! Pois bem, já que tu não assinas, eu também não o faço.»

Depois, Ben Gourion perguntou-me qual era o meu mínimo. Respondi-lhe que com menos de quinhentos milhões de dólares, eu não aceitaria qualquer acordo, mas que esperava obter entre seiscentos a setecentos milhões. Acabei por obter finalmente três mil milhões de marcos, ou seja oitocentos e vinte e três milhões de dólares; partindo de uma base de mil milhões de dólares, receber 82% não se pode considerar um mau negócio [...].

Se David Ben Gourion e eu fomos muitas vezes adversários, foi essencialmente a propósito dos árabes. Quanto ao resto, sentíamo-nos muito próximos, e mesmo sobre a partilha da Palestina, desde as negociações com a Alemanha pós-nazi, ele ficou do meu lado. Na sua concepção fundamental do carácter do movimento sionista e do Estado de Israel, Ben Gourion estava completamente de acordo comigo; estávamos os dois convencidos de que se Israel se tornasse um Estado como os outros, não sobreviria

Nós tínhamos um amigo comum – um homem extraordinário que, se não tivesse morrido tão jovem, ter-se-ia tornado sem dúvida um Primeiro-ministro – que se chamava Giora Josephtal. Era um judeu alemão, pertencendo a uma família assimilada, que representava oficialmente Israel nas negociações com Adenauer. Depois disso, foi durante vários anos secretário geral do Mapai, o partido socialista israelita.

Membro do Executivo sionista, do qual eu era então presidente, Josephtal tinha uma grande ligação com Ben Gourion, que tinha por ele uma grande admiração, e ele queria a qualquer preço que eu fosse nomeado presidente do Movimento sionista mundial. Acabou por convencer Ben Gourion a influenciar-me.

Este último convidou-me um dia para me apressar a aceitar o lugar de presidente. Ao princípio fiquei muito surpreendido porque sabia que ele era bastante crítico em relação à organização sionista. «Ainda por cima, disse-lhe, nós temos tido conflitos públicos; não percebo portanto porque me estás a impelir em ir em frente. Não será uma jogada da tua parte?» Então, respondeu-me: «Vou-te pedir duas coisas. A primeira, é que me deixes falar vinte minutos sem me interromper; a segunda é que te vires para a parede: quero-te ver de costas

Julgando que ele tinha ficado louco, disse-lhe que não percebia onde é que ele queria chegar. Mas ele explicou-me: «Quero-te falar durante vinte minutos cara a cara, mais francamente do que alguma vez fiz, mas devo-te também elogiar bastante. Agora, tu já me conheces e sabes que eu não gosto de fazer elogios. Também te conheço e sei que não gostas disso. A situação será muito embaraçosa para os dois se tu estiveres a olhar para mim: portanto vira-te para a parede!»

Virei-me então para a parede, como um idiota, e ele falou acerca de mim durante vinte minutos. Eis o que era muito característico de Ben Gourion: este homem que podia muito violento, até mesmo cruel, era capaz deste tipo de gentilezas. Não posso relatar aqui todo o seu discurso mas, no geral, disse-me isto: «Tenho a certeza que no fundo do teu coração tens uma censura a fazer-me, e essa censura é justificada. Tivemos terríveis derrotas; seis milhões de judeus foram exterminados. Mas também obtivemos duas imensas vitórias históricas: a criação do Estado de Israel e as indemnizações da Alemanha. Sempre estive convencido que haveríamos de ter um Estado mas duvidei muito de receber um cêntimo dos Alemães. Tu és o arquitecto dessas indemnizações e nós em conjunto somos os arquitectos da partilha da Palestina e da criação de Israel. Aos dois triunfos da nossa geração, a tua contribuição foi essencial. Portanto, tens o direito de perguntar porque é que eu não te incumbo do problema que vai decidir o futuro do Estado de Israel: a paz com os árabes. Vou-te explicar as razões.

«Porque é que tu convenceste Acheson e os outros membros do Comité para a Palestina designados pelo presidente Truman? Porque tu és outro Acheson. Tu podias perfeitamente ter sido um secretário de Estado [ministro] americano, tens o mesmo talento, a mesma cultura, o mesmo charme e os mesmos dons de persuasão que Dean Acheson. Porque é que convenceste Adenauer, de quem te tornaste amigo, que ele tinha de dar indemnizações ao povo judeu? Porque tu és outro Adenauer, e podias ter-te tornado Chanceler da Alemanha. A estes homens, falaste de igual para igual porque vocês partilham as mesmas qualidades. Mas com os Árabes, que são bárbaros, todos os talentos não têm valor nenhum. Nem a tua cultura, nem o teu charme, nem a tua arte de persuasão teriam efeito sobre eles. Eles só compreendem a força, e a mão de ferro sou eu, não tu. É esta a explicação. Podes-te voltar para mim agora.

- Compreendo-te perfeitamente. Respondi-lhe, e penso mesmo que existe muita verdade naquilo que disseste. Nasser não é de facto nem Acheson nem Adenauer. Mas porque não utilizar desde logo a política da mão de ferro com luva de veludo? Tu serás a mão e eu serei a luva.

- O momento chegará certamente, reconheceu ele, em que te chamarei. Mas não ainda, não imediatamente…»

Nas minhas numerosas discussões com Ben Gourion, dizia-lhe que as nossas análises eram diferentes sobretudo porque eu estava persuadido que o tempo jogava contra Israel. Repeti-lhe uma centena de vezes: «Faz concessões, faz a paz o mais depressa possível porque a cada ano que passa as coisas tornam-se mais difíceis para nós. Chegará mesmo o momento em que os Árabes não quererão mais ouvir falar de paz, porque o tempo joga a favor deles.» Depois, a crise do petróleo fortaleceu ainda mais o meu argumento.

Mas Ben Gourion manteve as suas posições: «Ao contrário, dizia ele, a distância intelectual e tecnológica entre os Árabes e nós continuará a alargar-se.» E o seu outro leitmotiv [ideia dominante] era que a geração árabe que sofreu as derrotas da guerra de 1948-1949 e a guerra do Sinai não podia fazer a paz com Israel por razões psicológicas. Ele defendia que a geração seguinte teria provavelmente esquecido estas derrotas e, com elas, a vergonha e a humilhação que um pequeno povo infligiu aos exércitos árabes, dez vezes mais numerosos que o seu. Era naturalmente uma análise aberrante porque a nova geração árabe é mais patriota e extremista que a dos seus pais; ela é também menos corrupta [..].

Chaim Weizmann, que, já no fim da sua vida, detestava Ben Gourion ao ponto de se tornar seu inimigo, dizia-lhe: «Ben Gourion criará o Estado de Israel e depois irá arruiná-lo com a sua política.» E, se Israel continua a seguir os preceitos políticos de Ben Gourion, receio que Weizmann acabe por ter razão. Perguntei-me muitas vezes porque é que este homem inteligente, brilhante, que não era um provinciano como tantos dos líderes israelitas, que tinha uma perspectiva de homem de Estado, que um de Gaulle admirava, porque é que um tal homem não via que, sem um acordo com os Árabes, Israel não conheceria o futuro a longo prazo.

Só posso explicar esta atitude pelo seu carácter. Com efeito, pareceu-me muitas vezes que nos homens de Estado, o carácter é mais importante que a inteligência. Muitos deles compreendem com o seu cérebro o que é conveniente fazer, mas o seu carácter impede-os de o realizar. Este comportamento é típico de Ben Gourion; vou dar um exemplo que nunca esquecerei.

Um dia, ou antes, uma noite de 1956, tivemos uma conversa franca sobre o problema árabe. «Não compreendo o teu optimismo, disse-me Ben Gourion. Porque é que os Árabes haveriam de fazer a paz? Se eu fosse um líder árabe, jamais assinaria a paz com Israel. É normal, nós tomámos conta do seu país. É certo que Deus no-lo prometeu, mas o que é que isso lhes interessa? O nosso deus não é o deles. Nós somos originários de Israel, é verdade, mas isso foi há dois mil anos: o que é que eles têm a ver com isso? Houve o antisemitismo, os nazis, Hitler, Auschwitz, mas foi culpa deles? Eles não vêem senão uma coisa: nós chegámos e roubámos o seu país. Porque é que eles o iriam aceitar? Talvez eles o esqueçam numa ou duas gerações mas, por ora, não existe essa possibilidade. Portanto, é simples: devemos manter-nos fortes, ter um exército poderoso. Toda a política está aí. Doutra forma, os Árabes destruíam-nos.»

Fiquei perturbado com este pessimismo mas ele continuou: «Daqui a pouco terei setenta anos. E, Nahum, se me perguntares se quando eu morrer se serei enterrado num Estado judeu responder-te-ei que sim: dentro de dez anos, dentro de quinze anos, creio que ainda existirá um Estado judeu. Mas se me perguntares se o meu filho Amos, que fará cinquenta anos no fim deste ano, terá hipóteses de morrer e de ser enterrado num Estado judeu, responder-te-ei: cinquenta por cento.

- Mas enfim, interrompi-o, como é que tu consegues dormir com a ideia de uma tal perspectiva sendo Primeiro-ministro de Israel? Quem é que te disse que eu durmo?», respondeu-me simplesmente.

Este era o verdadeiro Ben Gourion: tinha-me dito tudo isto para me mostrar que, no seu espírito, Israel não podia existir sem a paz com os Árabes. Mas o seu carácter obstinado, agressivo, incapaz de fazer concessões impedia-o de seguir os conselhos da sua inteligência. A melhor prova é que uma vez afastado do poder, a inteligência retomou os seus direitos: ele tornou-se mesmo «goldmannista» declarando que era necessário entregar todos os territórios ocupados excepto Jerusalém. Neste ponto estou de acordo com ele: Israel devia manter Jerusalém. Tal não impede que em minha opinião Ben Gourion tenha sido o grande responsável da política anti-árabe […].

Ben Gourion teve sucessores e, entre eles, Golda Meir, que tinha os seus defeitos sem possuir a sua grandeza. Golda tem uma personalidade muito forte mas falta-lhe subtileza. A grande fraqueza dos intelectuais é que são demasiado intelectuais para serem fortes. O primitivismo dava-lhe a segurança e a força! Golda esteve sempre totalmente convencida que tinha razão […].

A propósito de Palestinianos, Golda teve sempre posições muito vincadas, em oposição às de Weizmann que dizia: «O conflito entre nós e os Palestinianos não é um conflito de direitos nem de justiça contra a injustiça. É um conflito entre dois direitos iguais.» Quanto a mim, penso que o nosso direito é superior porque a Palestina é para os judeus uma questão de vida ou de morte, enquanto que para os Árabes ela não representa senão 1% dos seus imensos territórios.

Mas Golda Meir não se atrapalhava com este tipo de subtilezas – o que explica por sua vez a sua autoridade e a sua completa ruína: durante os quatro em que foi Primeira-ministra, a política israelita não se alterou; a guerra do Kippour e o isolamento completo de Israel foram as consequências deste imobilismo.

Mais uma vez passámos ao lado da solução. O governo repetia que não era necessário fazer nenhuma concessão, manter um super-armamento, não dar aos Árabes a impressão que Israel era fraco e que tinha medo. Tudo deriva desta teoria: a aliança informal com os Estados Unidos, a hostilidade da União Soviética, o perigo de que esta jogasse a carta árabe, etc. Em política, nunca podemos ter a certeza mas tenho a impressão que em várias ocasiões podíamos ter obtido a paz.

Desde as negociações do primeiro armistício com o Egipto, a 24 de Fevereiro de 1949, em Rodes, alguns participantes israelitas afirmaram-me que podíamos ter transformado o armistício em paz verdadeira. Não sei dizer porque é que não estive presente mas, e disto estou seguro, nós perdemos uma nova ocasião em 1967, depois da vitória estrondosa israelita que pôs termo à guerra dos Seis-Dias. Dois dias antes do ataque, Levi Eshkol tinha declarado solenemente : «Não temos nenhuma ambição territorial.» Por isso, depois desta vitória miraculosa – sobre a qual Dayan me disse várias vezes que ele não conseguia explicar -, se Israel tivesse dito aos Árabes: «Assinem a paz amanhã, e nós entregamos-vos todos os territórios excepto Jerusalém», talvez tivesse havido paz. Muitos especialistas árabes confirmam hoje esta hipótese, mas as pessoas querem manter o que conquistaram; é assim a natureza humana. E esta falsa política que consiste em manter o status quo, a não mudar, que era a técnica preferida de Golda Meir, conduziu ao impasse de hoje.

Notem que em relação a este assunto eu culpo sobretudo os Estados Unidos da responsabilidade desta situação, antes mesmo de Israel. A guerra do Yom Kippour foi por culpa dos Americanos que, por razões de política interna (Nixon, os judeus americanos, a opinião anti-soviética) que não vou analisar aqui em detalhe, não fizeram nada durante anos. Quando tentaram alguma coisa, fizeram-no muito timidamente: os Israelitas sabotaram a missão Rogers bem como terminaram a missão Jarring. Acusaram-se então os Egípcios mas eu tive depois acesso a informações segundo as quais eles estavam prestes a negociar. Israel, não obstante, insistia em falar aos Árabes directamente, sem intermediário, exigindo negociações cara a cara – que teriam anulado uma das famosas «recusas de Cartum [capital do Sudão]» dos governos árabes – mas não tenho a certeza de que isso não seria senão um pretexto para não negociar de todo.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Jovens moçamedenses divertem-se em sala de convívio da Igreja Paroquial de S...

via GENTE DO MEU TEMPO. de princesadonamibe em 11/05/09















Nas décadas de 60 e 70 o mundo ocidental foi sacudido por grandes mudanças ao nível dos costumes e dos comportamentos, principalmente entre os jovens que construíram um novo estilo de vida, enquanto o controle familiar começara a afrouxar ao impacto das novas liberdades. Os salões românticos cederam lugar às discotecas onde tudo ganhava dinamismo, desde as luzes aos corpos.

Em Moçâmedes. as festas e os bailes antes efectuados no interior dos salões dos clubes da cidade, passaram a decorrer, também, no interior de discotecas que começavam por toda a parte a despontar. Os jovens já não queriam mais divertir-se, indo aos mesmos bailes que os pais. Percebe-se a crítica e o receio ao que é novo.

Em meio a um mundo em transformação, alguns párocos no interior da Igreja católica, rompendo a tradicional resistência à mudança, procuram chamar a si os jovens, atraindo-os para festas em salas de convívio paroquial. O objectivo era proporcionar-lhes uma opção, através de festas e bailes saudáveis e alegres, dentro de um contexto cristão, num mundo onde a juventude estava perdendo referências. Em simultâneo os eventos visavam resgatar valores familiares, a espiritualidade da juventude, a moral cristã, o sentimento de cidadania, e a promoção de valores que levassem ao fortalecimento da sociedade.
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Sobre o Padre Martinho Noronha, um dos promotores do movimento vicentino entre adultos e jovens de Moçâmedes, escreveu um moçamedense:

«Martinho de Araújo Noronha marcou realmente uma geração. Professor de Religião e Moral, foi mais do que isso: inculcando nos jovens alunos do Liceu Diogo Cão (pelo menos de 1962 a 1965) alguns valores, cívicos e morais, que fazem a diferença: o gosto pela liberdade, a luta pela igualdade, o amor pelo próximo. Homem tolerante e culto, procurou transmitir aos que o rodeavam não só os valores religiosos em que acreditava, mas outros, identificadores de um ecumenismo militante pouco comum, incentivando à compreensão e tolerância pelo Outro, à ajuda aos mais necessitados, incentivando à leitura de livros onde eram tratadas as grandes preocupações do Homem perante Deus e si mesmo. Nas suas aulas era um mundo novo que se abria aos ouvidos dos estudantes, pouco habituados aos temas versados e à forma vibrante, altissonante, e desassombrada de falar. Nem sequer fugia ao assunto tabu da relação sexual entre humanos. Confessou no confessionário e aconselhou nos pátios e nas salas de aula, sugeriu livros evangélicos e de liberdade, desbastou temores e indicou caminhos. Mal parecia um padre, tal a sua linguagem, a sua entrega, o seu desempenho na sociedade, a exemplaridade da sua cidadania, participador nos interesses da comunidade, farol de tantos. Rapidamente passou a ficar sob a alçada perscrutadora das autoridades encarregadas da paz social e dos bons costumes da época.
Mais tarde, a partir de 1965, e por uns anos, foi pároco em Moçâmedes, tendo nessa nova qualidade prosseguido na mesma linha mobilizadora (dinamização do movimento vicentino entre adultos e jovens) e continuando a encantar e a tocar os espíritos mais empedernidos, quer na celebração quer aos microfones do Rádio Clube de Moçâmedes. Era como padre um exemplo para os sacerdotes e como pessoa um exemplo para as demais. As suas iniciativas ultrapassavam em muito o mero campo evangélico. A sua meta eram as pessoas, conduzi-las na vida, de acordo com um padrão moral de comportamento que dignificasse o ser humano enquanto criatura de Deus, porque agir de acordo com esses valores já era um hino e louvor ao seu Criador, independentemente da religião que professasse. Era de uma cepa de que se encontra pouco.
Os anos passaram e soube mais tarde que havia regressado à sua terra natal, GOA, que ele tanto amava. Lá o fui encontrar em 1988. A manifestar a mesma exuberância e alegria de viver, de bem fazer aos outros, de realizar coisas, fantástico! Levou-nos a Margão, a casa de uns familiares, e foi o cicerone de um passeio pela cidade e arredores, por onde conduziu da mesma maneira como viveu: em alta velocidade! Arrepiante. Na condução automóvel como na condução das nossa almas, Martinho de Araújo Noronha marcou pela diferença. Foi uma dádiva de Deus.
(...)
Bem haja Padre Noronha, pelo rasto de coisas boas que semeou nas nossas vidas .
Eduardo A. Correia Ribeiro »
( Sanzalangola)

Era uma vez… Portugal (XXVIII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 11/05/09

PÊRO MAGALHÃES DE GÂNDAVO

Com o descobrimento do Brasil pela armada de Pedro Álvares Cabral, no ano de 1500, abriu-se aos portugueses o vasto continente Sul-Americano, que viria a ser lenta e gradualmente explorado no decorrer dos séculos seguintes. É verdade que durante a primeira metade do século XVI, os portugueses estavam sobretudo virados para a Índia e o Oriente, mas a terra brasileira passou a despertar cada vez mais o interesse de todos. Assim, os portugueses começaram por se fixar ao longo da linha de costa, avançando depois gradualmente para o interior. Um dos aspectos mais interessantes deste contacto é o facto de depararem com uma terra completamente estranha, com produtos, animais, plantas e habitantes nunca anteriormente conhecidos na Europa, e que despertavam naturalmente uma grande curiosidade. Famos hoje falar da primeira História do Brasil, escrita ainda no século XVI, onde são descritos estes aspectos e onde é traçado o primeiro balanço da presença portuguesa naquela região. A obra chama-se História da Província Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil, e o seu autor é o português Pêro Magalhães de Gândavo.

Pouco de conhece da vida de Pêro Magalhães de Gândavo. Nasceu provavelmente em Braga, por volta de 1540, sendo descendente de uma família de comerciantes flamengos oriundos da cidade de Gand, daí o seu apedido Gândavo. Em Braga viveu boa parte da sua vida, tendo ali casado e ensinado Latim e Português. Era, aliás, um bom conhecedor da nossa língua, tendo escrito uma obra de ortografia e gramática portuguesa. Partiu a certa altura para o Brasil, tendo então tomado contacto com aquela terra, que lhe serviu de inspiração para a obra de que falamos aqui hoje. A sua História da Província Santa Cruz. Já no seu tempo era comum a designação de "Brasil", mas o autor justifica, logo no início da obra, porque se deveria antes chamar esta terra de Santa Cruz, nome pelo qual fora baptizada e que caía gradualmente no esquecimento:

"Não nos esqueçamos do nome de Cristo por outro que lhe deu o vulgo mal considerado, depois que o pau da tinta começou a vir a estes reinos. Ao qual chamamos brasil por ser vermelho e ter semelhança de brasa, e daqui ficou a terra com este nome de Brasil. Mas que para nesta parte magoemos ao Demónio, que tanto trabalhou e trabalha por extinguir a memória da Santa Cruz e desterrá-la dos corações dos homens, tornemos-lhe a restituir seu nome, e chamemos-lhe Província de Santa Cruz, como em princípio."

Sendo Gândavo o primeiro historiador do Brasil, é natural que esta obra fosse pioneira no que se refere à descrição da terra brasileira. De facto, o autor ocupa a maior parte do trabalho com a descrição de uma série de aspectos locais. Em primeiro lugar, os animais, que eram em boa parte deconhecidos: o papa-formigas, o tatu, uma série de aves e peixes exóticos são descritos com espanto, estranheza e maravilha. Chega mesmo a descrever um suposto monstro que teria aparecido na capitania de S. Vicente, e que fora morto pelos portugueses da localidade.

Os habitantes locais não são esquecidos. Gândavo descreve os índios brasileiros segundo, evidentemente, os padrões da sua época: os usos e costumes, o carácter e o modo de vestir, a cor, os cabelos e a linguagem são os aspectos masi salientes da sua descrição. Sendo Gândavo um homem de letras, não deixa de assinalar algumas característica da língua local, nomeadamente o facto de haver diferenças consoante os grupos e as tribos índias. O que mais o impressiona, como era normal para a mentalidade portuguesa da época, são alguns dos ritos religiosos, nomeadamente supostas práticas de canibalismo que alegadamente existiam e que lhe causam o maior horror. Para contrabalançar estas apreciações, não deixa de assinalar o sucesso da missionação dos jesuítas naquela terra, que por esta altura conhecia um rápido avanço. As plantas brasileiras merecem igualmente a sua atenção. A que descreve com maior cuidado é a mandioca, assinalando as suas utilidades, assim como as características de cada parte da planta. Descreve a bananeira, que os portugueses trouxeram de S. Tomé, sendo os seus frutos muito apreciados localmente, dizendo que "parecem-se na feição com pepinos, e criam-se em cachos; esta fruta é muito saborosa, e das boas que há na terra; tem uma pele como de figo (ainda que mais dura), a qual lhe lançam fora quando a querem comer, mas faz dano à saúde, e causa febre". Também os cajús e os ananases despertaram-lhe a curiosidade. Eis como descreve estes últimos:

"Outra fruta há nesta terra, muito melhor e mais prezada dos moradores de todas, que se cria numa planta humilde junto do chão: a qual planta tem umas pencas como de erva babosa. A esta fruta chamam ananases e nascem como alcachofras, os quais parecem naturalmente pinhas, e são do mesmo tamanho e alguns maiores. Depois que são maduros, têm um cheiro muito suave, e comem-se aparados, feitos em talhadas. São tão saborosos, que a juízo de todos, não há fruta neste reino que no gosto lhes faça vantagem".

A História da Província de Santa Cruz não se limita a aspectos descritivos. Para além de relatar a descoberta do Brasil pelos portugueses, assim como os primórdios da colonização, descreve ainda as diversas capitanias em que se dividia o território brasileiro. Traça, por fim, um retrato das potencialidades que esta terra reservava aos portugueses, tal como a vastidão do território e dos seus recursos.

Pouco mais se conhece da vida de Pêro Magalhães de Gândavo. Sabe-se que viveu durante algum tempo no Brasil, regressando posteriormente a Portugal. Em 1576 é chamado de novo a esta terra, desta vez para desempenhar o cargo de Provedor da Baía. Em 1579 era ainda vivo, nada mais se sabendo da sua biografia. Embora fosse conhecido na sua época como humanista e letrado, ficou na História como o autor da obra sobre o Brasil. Esta foi publicada ainda em vida do autor, em 1575. Uma das curiosidades mais interessantes acerca desta obra é que ela prova que Gândavo conheceu pessoalmente Luís de Camões. Foi aqui, como prólogo ao corpo da obra, que o poeta publicou pela primeira vez trabalhos seus. Trata-se, neste caso, de um conjunto de tercetos e um sonetos dedicados a D. Leonis Pereira, que fora capitão de Malaca, e a quem Gândavo dedica igualmente a sua obra.

António de Spínola – O Herói Supletivo


via Caminhos da Memória de Maria Manuela Cruzeiro em 11/05/09
    Na continuação do post dedicado ao MFA, como herói colectivo, inicio hoje a série de heróis individuais que, apesar de tudo, não deixaram de se afirmar no imaginário da revolução. [Clicar no logotipo no canto superior direito para aceder ao anterior.]     Desse mítico corpo colectivo do MFA vêm a emergir figuras que, apesar da extrema efemeridade (maior ainda [...]

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Era uma vez… Portugal (XXVII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 10/05/09

PÊRO DA COVILHÃ

O papel excepcional que os portugueses desempenharam no Descobrimento do Mundo, nos séculos XV e XVI, é hoje aceite sem reservas por todos. De entre os homens que mais contribuiram para tal processo destacam-se no corrente ano as figuras do Infante D. Henrique e do rei D. João II, por se comemorar os 600 anos do nascimento daquele e os 500 anos do Tratado de Tordesilhas. Porém, os manuais de História destacam igualmente outros nomes, como os de Gil Eanes, Bartolomeu Dias ou Vasco da Gama. Estes foram, de facto, protagonistas dos feitos mais memoráveis. No entanto, outros homens contribuíram igualmente para a empresa dos Descobrimentos, embora o seu nome seja por vezes esquecido. Vamos hoje falar de Pêro da Covilhã, um homem cujo papel tem sido subalternizado, mas que desempenhou na sua época uma missão notável e verdadeiramente decisiva para o projecto expansionista do rei D. João II.

As origens de Pêro da Covilhã, assim como a sua data de nascimento, são obscuras. Parece ter nascido entre 1450 e 1455, tendo partido muito novo para Castela, onde serviu o duque de Medina Sidónia durante a sua juventude. Por volta de 1474 encontrava-se de novo em Portugal, estando ao serviço da Casa Real. Reinava nessa altura D. Afonso V, que procurava apoios para a sua política de interferência na crise dinástica de Castela. O rei tentava por estes anos reclamar para si o trono castelhano, entrando em guerra aberta com os Reis Católicos, Isabel de Castela e Fernando de Aragão. Pero da Covilhã parece tê-lo acompanhado, já como escudeiro, quer nas incursões guerreiras que fez o rei em Espanha, que nas diligências que efectuou junto da corte francesa em busca de apoio para a sua causa. Parece que Pêro da Covilhã demonstrou aqui as suas capacidades diplomáticas, que lhe seriam preciosas mais tarde. De qualquer modo, já por esta altura passou a estar ao serviço do príncipe D. João, futuro D. João II, que passava agora a orientar directamente as viagens de Descobrimento. Ao serviço deste príncipe desempenhou igualmente algumas missões diplomáticas, tanto em Marrocos como em Castela.

Na década de 1480, o rei D. João II leva a cabo o seu projecto de alcançar a Índia contornando o continente africano, aproveitando a já longa experiência portuguesa de navegação no Atlântico e a vantagem técnica que os portugueses possuíam sobre as outras nações europeias. Tal só poderia ser executado mediante um rigoroso plano, que o rei põe em prática. A principal fase deste plano consistia no avanço ao longo da costa africana tentanto encontrar a passagem para o Oceano Índico; tal foi o objectivo das viagens de Diogo Cão e, um pouco mais tarde, de Bartolomeu Dias. No entanto, enquanto enviava os seus navios, o rei procurava igualmente obter informações directas sobre o Oriente, enviando emissários por terra. A primeira tentativa consistiu no envio de frei António de Lisboa e Pero de Montarroio, mas estes homens, não sabendo árabe, não conseguiram ir longe. É aqui que o rei chama Pêro da Covilhã para uma nova missão: viajar por terra ao Oriente e obter informações sobre a passagem entre o Oceano Atlântico e o Índico, sobre o comércio das especiarias da Índia e sobre as condições que os portugueses encontrariam quando lá chegassem. Deu-lhe por companheiro Afonso de Paiva, que também sabia árabe, e preparou cuidadosamente a missão.

Em 1487, ao mesmo tempo que partia de Lisboa a expedição de Bartolomeu Dias, saíam Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva por via terrestre em direcção ao Oriente. Atravessaram Espanha até Barcelona, onde seguiram por barco para Alexandria e depois para o Cairo, no Egipto. Integraram-se então numa caravana com direcção a Adém, no Mar Vermelho. Iam disfarçados de mercadores, o que lhes facilitava os movimentos uma vez que haviam há muito entrado em terras de muçulmanos. Ao chegarem a Adém, os portugueses separaram-se: Afonso de Paiva seguiu para a Etiópia, enquanto Pêro da Covilhã tinha como destino a Índia, combinando encontrar-se posteriormente no Cairo. Afonso de Paiva não chegaria a cumprir a sua missão, pois morreu antes de penetrar na Abissínia. Já Pêro da Covilhã teve melhor sorte. De facto, cumpriu á risca as ordens do rei, tendo de imediato seguido para a costa ocidental indiana. Cananor, Calecut, Goa foram as suas etapas, onde recolheu informações sobre as rotas comerciais que ligavam a Índia ao Extremo Oriente e á Europa. Completou a sua imagem do comércio oriental seguindo para Ormuz, no Golfo Pérsico. Para além da recolha de informações de índole comercial, Pêro da Covilhã ia também incumbido de inspeccionar a costa oriental africana, o que fez por volta de 1490, tendo chegado até Sofala.

Tendo obtido as informações julgadas necessárias, regressa então ao Cairo, onde toma conhecimento da morte do seu companheiro Afonso de Paiva. Contacta então outros dois homens do rei D. João II, os judeus mestre José e o rabino Abraão, que o informam das novas ordens régias: fazer um relatório detalhado das suas viagens a mestre José, que estava de regresso a Portugal, conduzir o outro agente a Adém, e finalmente dirigir-se á Etiópia, substituindo Afonso de Paiva. Era esta a nova pesada tarefa que o rei lhe ordenava, o que se dispõe imediatamente a cumprir. Estava-se então em 1491.

O resto da vida de Pêro da Covilhã é mal conhecido, mas não deixa por isso de despertar grande interesse. Como vimos, dirigiu-se á Etiópia após ter cumprido a missão de que tinha provido do reino. A Etiópia era nessa época um reino quase desconhecido na Europa; aqui era designada pelo nome de reino cristão do Prestes João, e circulavam histórias sobre o seu imenso poder que, aliado aos portugueses, poderia ser um excelente apoio contra o Mundo Muçulmano. Na verdade, tratava-se de um pequeno estado, pobre e fraco, como Pêro da Covilhã certamente constatou em 1492 ou 93, data da sua chegada. Foi bem recebido na corte etíope, tendo entregue cartas de D. João II para o rei. Porém, foi impedido de regressar a Portugal. E nada mais se soube de Pêro da Covilhã até que em 1526 chega á Etiópia uma embaixada portuguesa, que o encontra ainda vivo, já com mais de 70 anos e ocupando um lugar importante na corte etíope.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal