sábado, 16 de maio de 2009

Batalhões de Cristo-Rei

via Entre as brumas da memória de Joana Lopes em 16/05/09
Andam aqui por Lisboa uns milhares de pessoas e uma estátua, a caminho da outra banda, para os festejos do 50º aniversário do monumento a Cristo-Rei.Liguei há pouco para a RTP1 e vi a Fátima Campos Ferreira coordenar uma espécie de Prós, sem Contras, com o professor Marcelo, M. João Avilez e dois bispos. Contavam umas histórias para entreterem os telespectadores enquanto se rezava o terço no

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O que pode-ser tem muita força, quando, depois do querer de Deus, o homem so...

via Sobre o tempo que passa de JAM em 15/05/09
Ontem, ao fim da tarde, na Estrada das Laranjeiras, no auditório da Embaixada do Brasil, entre bons amigos brasilienses, como o Professor Moniz Bandeira, e portugueses do Portugal de Sempre, com destaque para o Mendo Castro Henriques e os lançadores do IDP, tive a honra de poder expressar o meu amor lusíada e de dissertar, um pouco provocatoriamente, conforme a qualificação do moderador, General Garcia Leandro, sobre essas pluralidades de pertenças que podem pilotar o futuro dos povos que pensam, amam e falam na língua de Camões, Pepetela, Mia Couto e Manuel Bandeira. Aliás, o meu general, até começou por invocar o facto de uma das filhas ter nascido em Macau e a outra em Dili, tal como eu invoquei meu nome fenício, de um avoengo oriundo da ilha dita refúgio, Melita ou Malta, provindo de uma emigração do século XVIII, onde a maioria da família nem se estabeleceu na Lusitânia, dado que logo passou para o que era então a América Portuguesa.

Confesso que sou pouco dado a colóquios, seminários e conferências, sobretudo as que servem de tacos para "papers" e outras miudezas que enchouriçam os "curricula". E raramente uso o argumento de alguns que dizem ter escrito cinco livros sobre Angola e participado em colóquios em não sei quantas capitais europeias. Gosto mais de dizer que residi, para além da fase turística do "veni, vidi, vinci", aprendi e ensinei em universidades e centros de estudo luso-chineses, angolanos, timorenses, brasilienses, moçambicanos e guineenses, sentindo a terra e o infinito dessas noites lusotropicais, isto é, experimentando aquilo que apenas alguns julgam na super-estrutura do livresco ou do seminaresco. Abraço armilar é do navegar é preciso...

Por isso, recordei os velhos projectos de um triângulo estratégico de um Atlântico maior, de um Índico de saudade e de um Pacífico armilar, em íntima aliança com os nossos irmãos hispânicos, da UE ao Mercosul, tentando reprimir certos discursos de justificação do situacionismo lusitano, mistos de neocolonialismo de preconceito e de verbosidades retóricas gerontocolonialistas. Por isso, advogo o eixo que vai de São Paulo do Piratininga a São Paulo de Luanda, como base de poderio para uma CPLP que, além dos afectos dos eternos Estados Unidos da Saudade, tem de ter estratégia, isto é, tem de evitar que as potencialidades se transformem em vulnerabilidades e que as vulnerabilidades se volvam em potencialidades. Daí que a prova de vida de futuro passe pela resposta que todos os CPLPs devem dar a Timor Lorosae, essa pátria de poder-ser que nos voltou a dar sonho, quando o David dos cem guerrilheiros teve um povo aliado em aliança de libertação, contra o Golias de um Exército invasor e ocupante que ocupou o nome de um povo amigo e aliado. Logo, todos os CPLPs têm de fazer com que o Brasil não se esqueça da sua função liderante desta comunidade de sonhos. Porque o que pode-ser tem muita força, quando, depois do querer de Deus, o homem sonha e a obra via nascendo. O telegrama da Lusa sobre o colóquio, apesar de injustamente me destacar, revela apenas um dos ramos da árvore daquela floresta por onde ontem peregrinámos

P.S. (Telegrama da Lusa, em sic): Para José Adelino Maltez, professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), o primeiro problema é a falta de meios da CPLP, mas Portugal também tem um papel em alimentar uma "nova visão do Brasil sobre a África".  Segundo ele, os portugueses devem aceitar a dar primazia aos brasileiros, "colocando-se no seu devido lugar para poder melhor servir um projeto maior". "Somando 200 milhões de brasileiros, com os futuros 50 milhões de angolanos e os futuros 20 milhões de moçambicanos, nós [Portugal] somos um "entrepostozinho" do sul na Europa", afirmou o professor. Além disso, Maltez acrescentou que "temos de rever toda a nossa maneira de pensar, como foi expresso de maneira lamentável por todas as reticências em relação ao acordo ortográfico". "Parece que não se percebe que [a CPLP] não são os Estados Unidos da Saudade. É a pilotagem do futuro no balanço da globalização. Basta perguntar quanto gasta cada país da CPLP no orçamento", afirmou o acadêmico. Apesar das dificuldades, "estamos condenados ao regresso de algum triângulo estratégico Luanda-Lisboa-Bahia/Rio de Janeiro/São Paulo" e o Brasil "tem um papel de destaque" na cena internacional, até porque quando "fala forte nos palcos internacionais está a representar-nos a todos", afirmou.


P.S. (D). Pela noitinha, lá tive que aturar mais um debate, agora na TVI, dos cabeças de listas às europeias, certamente subsidiado pela central negra do movimento pela abstenção, porque também eu fiz "zapping", ao confirmar que o melhor continua a ser o Miguel Portas. Só que caí nas declarações de dois ministros do presente governo sobre uma boca de um recluso turco que disse querer pedir a nacionalidade portuguesa por causa do terceiro segredo de Fátima. Luís Amado foi incisivo e esteve muito bem, quando isse que já não há nada que o surpreenda. Silva Pereira confirmou o anedótico quando aproveitou o sensacionalismo para tempo de antena onde, mais uma vez, meteu a palavra na poça da picareta oficiosa. E na espiral do hiperinformativo e do propagandístico, até foi dito que o terrorista e papicida cometeu o crime nestes reinos do aquém-mar...

Um dia de festa? por Vasco Pulido Valente

via nonas de nonas em 14/05/09
«Para mim, o "25 de Abril" não é um dia de festa. Foi um dia de festa em 1974, mas muito pouco tempo. Porquê? Porque percebi que a gente à minha volta, na sua espessa estupidez, queria mesmo fazer uma revolução "proletária" e "socialista", que seria inevitavelmente dominada pelo PC e provocaria, tarde ou cedo, se não uma guerra civil em forma (não havia dinheiro, nem armas para isso), uma geral matança. Não havia maneira de discutir nada com um mínimo de lógica e bom senso. A retórica de esquerda, a pior e mais reles retórica de esquerda, tinha substituído qualquer forma de pensamento. As pessoas falavam em "língua de pau" e trocavam fórmulas sem sentido. Pior ainda, por baixo disso, havia uma ferocidade que só esperava o seu momento. E esse momento acabou por vir em 1975: "Uma só solução, fuzilar a reacção."
Hoje, retrospectivamente, fico espantado como não vi tudo desde a chegada de Cunhal. A chegada de Cunhal à Portela pretendeu imitar - e até certo ponto conseguiu - a chegada de Lenine à Estação da Finlândia, quando Lenine veio do exílio para meter os "bolcheviques" (que nessa altura tendiam para um compromisso com o regime "burguês") no caminho "correcto". Em Portugal, o caminho "correcto" incitou a "intelectualidade" da época e as classes ditas "dirigentes" do capitalismo a cenas de uma inimaginável indignidade e torpeza. Gente que depois serviu com respeitinho e zelo o PS e o PSD ou anda agora por aí revestida de uma estranha virtude democrática, jurava pela emancipação do povo "democrático" e desprezava com vigor "o agente do subimperialismo alemão", Mário Soares.
Sob a influência do PC e de alguns grupos da franja radical, os militares nacionalizaram a torto e a direito e ocuparam à força as terras da "reforma agrária": uma política aclamada pela "inteligência" do que já se chamava oficialmente "o PREC". Na RTP (a única televisão da época) e nos jornais, comissões de censura vigiavam os prevaricadores. Os "saneamentos" deslizavam com cada vez mais frequência para o ajuste de contas pessoal. O coronel Gonçalves, primeiro-ministro, recitava a cartilha do PC a benefício da Pátria analfabeta. E o Copcom prendia suspeitos. O "PREC" contaminou e corrompeu a curta libertação do "25 de Abril" e, de caminho, levou os portugueses para um desastre económico, que eles pagariam durante anos com língua de palmo. Não: para mim, o "25 de Abril" não é um dia de festa.»
Vasco Pulido Valente
In jornal Público, 25.04.2009

Alguns dados sobre o campo de concentração do Tarrafal (2)

via Caminhos da Memória de Irene Pimentel em 14/05/09
  (A propósito do «Simpósio Internacional sobre o Tarrafal», 28/4-1/5/2009) A primeira parte do texto pode ser lida aqui.   Campos de concentração nos regimes autoritários e nos regimes totalitários Ao analisar-se as diversas funções dos diferentes campos dos regimes autoritários e totalitários, verifica-se também, não só que houve diferenças de grau, tanto na utilização do trabalho forçado e da [...]

Era uma vez… Portugal (XXXI)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 14/05/09

O QUOTIDIANO DE UM SOLDADO PORTUGUÊS NA ÍNDIA

No século XVI, a maior parte dos portugueses que partia de Lisboa em direcção à Índia faziam-no como soldados, procurando nas longínquas paragens do Oriente uma forma de enriquecer, escapando assim à miséria em que viviam em Portugal. Como viviam estes homens, e como era o seu dia-a-dia nesta empresa tão perigosa como irresistível, como era a busca da fortuna? É sobre este tema que nos vamos debruçar hoje, começando por tratar de uma questão fundamental: se os Descobrimentos Portugueses foram uma empresa essencialmente comercial e pacífica, como foi possível que a guerra desempenhasse no Oriente um papel tão importante, cabendo aos soldados uma função de primeiro plano?

Nas palavras de um homem da armada de Vasco da Gama, os portugueses chegaram á Índia em busca de "cristãos e especiaria". Estas eram, de facto, as duas motivações mais importantes, desde que o rei D. João II traçara o seu plano de alcançar o continente asiático por via marítima: encontrar as comunidades cristãs, que se supunham muito numerosas, da Índia, de forma a estabelecer uma aliança contra o Mundo Muçulmano, e localizar as fontes das ricas especiarias orientais, nomeadamente a pimenta, obtendo assim grandes lucros com o seu transporte para a Europa. Tudo isto seria feito mediante contactos pacíficos e tratados comerciais, como já havia ocorrido na costa ocidental africana.

No entanto, quer os homens da armada de Vasco da Gama, quer o próprio rei D. Manuel I estavam redondamente enganados, como cedo viriam a descobrir. Em primeiro lugar, a Índia não era povoada de cristãos, mas antes de hindus, não existindo assim qualquer tipo de comunhão religiosa. Mas o mais importante é que os portugueses encontraram nos mares do Oriente os seus velhos inimigos, os muçulmanos. Estes, para além de numerosos, eram também muito poderosos e influentes, controlando precisamente o que mais interessava aos portugueses na costa ocidental indiana: o comércio marítimo das especiarias. Assim, os portugueses cedo compreenderam que o mundo do Oceano Índico era bem mais hostil do que pensavam inicialmente.

É que, ao contrário do Atlântico, o Índico não era um oceano "virgem": o comércio marítimo estava já estabelecido por um conjunto de comunidades mercantis, sendo as muçulmanas as mais poderosas. Como cedo viriam a descobrir, os portugueses enfrentaram uma competição feroz por parte destas últimas, que não viam com bons olhos a chegada destes estrangeiros. Para procurarem um lugar no seio do comércio asiático e garantirem a sua própria segurança, os portugueses teriam assim que recorrer à força militar. Foi logo na segunda viagem, a de Pedro Álvares Cabral, que esta questão se tornou evidente. A partir deste momento, e à medida que se construíam os alicerces do que viria a ser o Estado da Índia, foi necessário o envio constante de navios, artilharia e soldados, de forma a proteger o comércio e os pontos de fixação portugueses, que se estenderam de Moçambique a Malaca, e daqui à China e ao Japão.

A vida de um soldado português na Índia não era fácil. O primeiro grande obstáculo a enfrentar era a própria viagem para a Índia, longa, difícil e geralmente sujeita a todo o tipo de adversidades. Chegado a Goa, o soldado colocava-se ao serviço do vice-rei ou de outra figura poderosa e influente, que lhe garantia o sustento enquanto não embarcasse para servir numa armada ou numa fortaleza, como geralmente ocorria. É claro que trazer uma carta de recomendação do reino, por parte de alguém importante, podia ser uma ajuda preciosa para o início da sua carreira. É que as tropas portuguesas não estavam organizadas em corpos de exército disciplinadas (como acontece hoje em dia), com uma hierarquia, um salário e uma residência fixa para os soldados.

Deste modo, o soldado recém-chegado à Índia tinha muitas vezes que procurar os seus próprios meios de subsistência, estando geralmente dependente de quem o sustentava. O melhor caminho a seguir era embarcar numa das armadas que regularmente partiam para as diversas fortalezas que os portugueses detinham por todo o Índico, podendo a partir daí, consoante as oportunidades, a relação estabelecida com os capitães e o seu próprio desempenho, auferir rendimentos que lhe permitissem melhorar a sua condição, ou mesmo, e em casos excepcionais, enriquecer.

A vida de um soldado no Oriente era difícil e perigosa. As armadas e fortalezas portuguesas estavam frequentemente sujeitas á hostilidade de reis vizinhos, de piratas ou corsários. A uma vitória militar, que geralmente proporcionava aos simples soldados uma parte dos despojos e do saque, podia-se seguir um desaire, um naufrágio ou um ataque inimigo que deitasse tudo a perder. Os soldados eram mal pagos, vendo-se muitas vezes obrigados a vender as suas armas para poder sobreviver, quando a sorte não lhes era favorável. A dureza e ingratidão da vida nas fortalezas e armadas portuguesas levava a que muitos soldados procurassem um modo alternativo de vida, procurando aproveitar as oportunidades que o seu valor e os seus conhecimentos podiam proporcionar. Muitos acabavam por se envolver directamente em actividades comerciais, certamente muito mais rendosas do que a simples vida soldadesca

Existia uma via mais radical. Muitos portugueses, ao longo dos séculos XVI e XVII, deixavam pura e simplesmente o serviço a que estavam obrigados e fugiam para fora da alçada das autoridades portuguesas, embrenhando-se na vastidão do espaço asiático. Tal podia ocorrer por simples desejo de aventura e de busca da fortuna, por fuga à justiça ou por qualquer outro motivo. Alguns portugueses chegaram mesmo a abjurar a sua religião e a converter-se ao Islão, passando então a designar-se por "renegados". Esta gente seguia então uma vida aventurosa, como piratas ou soldados da fortuna, servindo muitas vezes como mercenários em exércitos locais, até mesmo de reis inimigos dos portugueses. Eram muito cobiçados, pois tinham conhecimentos de armas de fogo ligeiras e de artilharia que eram procuradas pelos reis asiáticos. Havia assim, uma miragem da riqueza e da promoção social subjacente a este tipo de vida. Para um soldado faminto e mal pago numa fortaleza, compreende-se que a fuga fosse uma tentação a que era difícil resistir. O Golfo do Bengala e os mares da China eram as áreas mais propícias à actividades de tais homens, já que o poderio das armadas portuguesas era aqui mais débil, e o número de fortalezas, diminuto. Não raras vezes, estes homens acabavam, mais cedo ou mais tarde, por voltar a contactar as autoridades portuguesas, oferecendo possibilidades de conquista ou de comércio à Coroa, ou simplesmente mostrando vontade de regressar para junto dos seus, por vezes para Portugal.

A vida de Fernão Mendes Pinto ilustra bem as peripécias, as glórias e as dificuldades por que passavam os portugueses no Oriente. Tal como aconteceu consigo, os soldados conseguiam muitas vezes regressar a Portugal, solicitando então ao rei uma recompensa pelos serviços prestados, que era geralmente uma pequena quantia, claramente insuficiente para cobrir toda uma vida de trabalhos, perigos e dificuldades por que passaram.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Sobre o nosso sistema educativo

via António Quadros de aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) em 13/05/09
"Olhando de alto, observa-se que, ao longo da sua aprendizagem, o aluno apenas estudou para os sucessivos exames com que pretenderam medir a sua memória e a sua inteligente maleabilidade […] No que se refere ao ensino propriamente dito, o símbolo da sua expressão não é vertical mas horizontal. Longe de promover uma ascensão espiritual, busca promover um alargamento em superfície. […] Já escrevemos, ao que parece com certo escândalo, que o problema crucial do nosso tempo, para a geração de 1950, não é o social nem o político, mas o educativo".
António Quadros, «A Angústia do Nosso Tempo e a Crise da Universidade»

Os homens incertos

via Textos longos, passatempos, etc & tal... de Carlos Medina Ribeiro em 13/05/09
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Por Baptista Bastos
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OS INCIDENTES no Bairro da Bela Vista repõem, de novo, a questão da identidade instável. Não é só a fome, a miséria, o desemprego, a promiscuidade, a ausência de perspectivas, o conceito de cerco que criaram as tensões e os conflitos. Embora essas formas de agressão social fossem mais do que suficientes para os explicar. Aqueles jovens, em última instância, não sabem quem são, e moldaram novas dimensões identitárias.
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Quem são os excluídos? Quem se excluiu? Nós. Abandonámo-los. Nasceram em Lisboa mas não são lisboetas; têm a pele escura mas não se sentem africanos; as músicas de que gostam procedem dos Estados Unidos; vestem-se, falam e comportam-se de molde a reivindicarem a "diferença" a que os temos obrigado. A sua comunidade é "outra" porque essa escolha foi-lhes rudemente imposta pela nossa escabrosa indiferença.
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Não nos queremos aproximar, descomprometemo-nos das responsabilidades que nos cabem, toleramo-los sem tentar compreendê-los e muito menos lhes manifestar a menor dose de afecto. Os gritos histéricos, e as poses, afinal grotescas, de Paulo Portas, a reclamar mais fortes intervenções policiais, seriam apenas repugnantes, não fossem extremamente perigosas. Elas reflectem a desprezível ignorância de quem deseja, unicamente, conservar o domínio sobre a diferença. Ou, parafraseando D. Manuel Martins, colocar uns de um lado e outros do outro.
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As explosões sociais que se avizinham, devido ao acumular dos ressentimentos, e a que o Governo parece alheio, são acirradas por uma comunicação social mal preparada, pouco culta e, até, terrorista. Basta reparar nas perguntas formuladas, no enquadramento (ou na falta dele), para se perceber a distorção da "realidade" e a total vacuidade do conhecimento histórico. A informação que nos servem peca por leviandade, favorece sentimentos xenófobos e racistas, e exala um forte cheiro a retaliação. O pior é que somos impotentes para inverter esta tendência maléfica. Sem compreendermos a complexidade do assunto, a natureza delicada do problema, somos empurrados para a tirania da emoção, a qual nos coage a tomar o "outro" como assassino, ausentando-nos de culpa - como se nada tivéssemos a ver com "aquilo." E "aquilo" é, no fundo, a busca de uma expressão pessoal, entre uma cultura que se defende, por desconhecimento e receio do "outro."
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Em que raio de gente nos tornámos? Fomos sempre assim, centralizando-nos num egoísmo tão feroz e num tão gelado desprezo pela humanidade? A simplificação dos elementos, a crise dos laços sociais, procria, diariamente, novas formas de indignação e movimentos irracionais de resultados imprevisíveis. "Uma fogueira preparada para incendiar o País", na acertada expressão de D. Manuel Martins.
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«DN» de 13 de Maio de 2009
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NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

Ser de Direita

via Legião Vertical de LEGIÃO VERTICAL em 13/05/09
Mas pode-se também prescindir de pressupostos institucionais e falar de uma Direita nos termos de uma orientação espiritual e de uma concepção do mundo. Então, ser de Direita significa, além de estar contra a democracia e contra todas as mitologias socialistas, defender os valores da Tradição como valores espirituais, aristocráticos e guerreiros (…) Significa, além disso, alimentar um certo desprezo face ao intelectualismo e em relação ao fetichismo burguês do "homem culto" (…) Ser de Direita significa também ser conservador, ainda que não num sentido estático. O pressuposto óbvio é que exista algo subsistente digno de ser conservado (…) De qualquer modo, ao afirmar que uma Direita não deve ser caracterizada por um conservadorismo estático quer-se dizer que devem, isso sim, existir certos valores ou certas ideias-base operando como um firme terreno, e que aos mesmos se devem dar diferentes expressões, adequadas ao desenvolvimento dos tempos, para não se ser ultrapassado, para retomar, controlar e incorporar tudo aquilo que se vai manifestando à medida que as situações variam. Este é o único sentido no qual um homem de Direita pode conceber o "progresso" (…) O "progressismo" é uma quimera estranha a toda a posição de Direita. Também o é porque numa consideração geral do curso da história, com referência aos valores espirituais, não aos materiais, às conquistas técnicas, etc., o homem de Direita é levado a reconhecer uma descida, não um progresso e uma verdadeira subida. Os desenvolvimentos da sociedade actual não podem senão confirmar esta convicção. As posturas de uma Direita são necessariamente anti-societárias, anti-plebeias e aristocráticas; de tal modo que a contraparte de tudo isto será a afirmação do ideal de um Estado bem estruturado, orgânico, hierárquico, regido por um princípio de autoridade.

- Julius Evola, "Ser de Direita"