quarta-feira, 20 de maio de 2009

A tropa e a nobreza do major

via Caminhos da Memória de Eduardo Graça em 19/05/09
  Em Outubro de 1971, cumpri a jornada obrigatória de me apresentar em Mafra. O velho Convento era o destino de todos os jovens licenciados (ou estudantes universitários) que fossem considerados aptos para cumprir o serviço militar obrigatório. Na verdade a minha entrada para o serviço militar deu-se em 7 de Outubro de 1971. Seguiram-se três meses [...]

terça-feira, 19 de maio de 2009

Era uma vez… Portugal (XXXIII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 18/05/09

A RESTAURAÇÃO EM ANGOLA

Quando em Dezembro de 1640 um grupo de fidalgos portugueses assaltou o Palácio da Ribeira e proclamou o Duque de Bragança como rei de Portugal, estava despoletada o que mais tarde se chamou de Restauração da Independência, e que levou ao fim do domínio filipino em Portugal. Nos anos seguintes, o novo rei D. João IV tentaria inverter o declínio do império marítimo português, que desde há algum tempo se encontrava sob os ataques ingleses e holandeses, no Brasil, em África e na Índia. Vamos hoje falar do caso particular de Angola e dos graves problemas que aqui enfrentaram os portugueses nesta época.

Na manhã de 25 de Agosto de 1641, os habitantes de Luanda foram surpreendidos por uma desagradável surpresa. Uma armada holandesa que há alguns dias surgira à vista da cidade não prosseguiu para Sul nem se retirou, como alguns ainda esperavam. Pelo contrário, estava a desembarcar um forte contingente de cerca de três mil soldados, com evidentes intenções de conquistar a cidade. Este facto contrariava abertamente as expectativas criadas após a aclamação de D. João IV. Afinal, os holandeses eram inimigos declarados dos espanhóis, logo aliados naturais dos portugueses. A armada partira de Pernambuco, então ocupado pelos holandeses, e ali tinham já conhecimento da revolução ocorrida em Lisboa. Sabiam que os portugueses de Luanda já não eram súbditos de Filipe IV de Espanha, sendo, portanto, um golpe planeado e desleal.

Por esta altura, a situação das possessões portuguesas por todo o mundo era precária. Na Índia, os holandeses e ingleses disputavam o comércio português e atacavam os navios e fortalezas portuguesas, tendo já tomado Ormuz e Malaca. No Atlântico a situação era um pouco melhor, mas também grave. Os interesses portugueses concentravam-se na colonização do Brasil e na exploração dos seus recursos, nomeadamente a produção de açúcar. Angola era uma peça fundamental neste processo, pois era aqui que era adquirida a mão-de-obra para o trabalho nas plantações brasileiras. Os holandeses, após terem chegado ao Oriente, tentavam desde a década de 1620 competir directamente com os portugueses no Atlântico. Haviam tomado a Baía e Pernambuco na década seguinte, ameaçando a presença portuguesa no Brasil. Mas faltava-lhes uma posição forte em África, que lhes permitisse igualmente fornecer de mão-de-obra as suas plantações. Assim, e após algumas tentativas fracassadas, decidem-se pelo ataque frontal a Luanda, aproveitando o momento de fraqueza das forças portuguesas na região e ignorando ostensivamente as negociações de paz que então decorriam entre Portugal e a Holanda.

O desembarque holandês lançou o pânico no interior de Luanda. O governador Pedro César de Meneses não dispunha de forças suficientes para resistir eficazmente ao inimigo. Após hesitar entre a resistência desesperada e a retirada, decidiu-se por esta última solução. Ás duas horas da madrugada do dia seguinte, os portugueses abandonaram a cidade a caminho do interior, onde algumas fortalezas poderiam providenciar abrigo seguro. Iniciava-se assim o período de domínio holandês, em que os portugueses passariam crescentes dificuldades. O primeiro refúgio foi uma fazenda dos jesuítas, não longe de Luanda, mas os portugueses acabaram por se fixar um pouco mais longe, no meio de fazendas de portugueses, que eram o melhor local para obter protecção segura. Por esta altura, os holandeses temiam embrenhar-se no interior, por desconhecerem o meio, satisfazendo-se com a ocupação da cidade e com o estabelecimento de relações com diversos reinos vizinhos. Acreditavam que, afastados do mar e de Luanda, os portugueses acabariam por ficar isolados e por sucumbir. De facto, estes primeiros meses foram de enormes dificuldades para os portugueses. Á sua volta crescia a hostilidade dos chefes locais, que viam aqui uma boa oportunidade para escapar ao controle português e tentar obter condições de comércio mais vantajosas junto dos holandeses. Pedro César de Meneses foi obrigado a retirar-se para a fortaleza de Massangano, já no interior e a boa distância de Luanda, reorganizando aí os suas tropas e a resistência aos holandeses, ao mesmo tempo que esperava socorro de Portugal ou do Brasil.

Após vários meses de guerra, onde pontificava a turbulência permanente entre os diversos reinos africanos vizinhos, os portugueses foram surpreendidos por uma notícia inesperada, comunicada por emissários holandeses: havia sido assinado um tratado de paz entre Portugal e a Holanda, o que abria as portas às tréguas entre as duas partes. Assim, a 30 de Janeiro de 1643 foram assinadas as tréguas entre o governador português e os holandeses, permitindo aos portugueses regressar às proximidades de Luanda. Os holandeses, porém, ao que parece perturbados pelas riquezas dos colonos portugueses, romperam as pazes e atacaram abertamente as posições inimigas, o que obrigou a nova fuga para Massangano e a novo agravamento da situação.

Em Lisboa, D. João IV e os seus conselheiros tinham perfeita consciência das dificuldades que atravessavam os portugueses em Angola, mas dois factores distintos impediam de momento o socorro efectivo a Pedro César de Meneses e aos seus homens. Em primeiro lugar, Portugal estava em guerra aberta com os espanhóis, tendo sofrido diversas tentativas de invasão e enfrentando terríveis dificuldades financeiras para socorrer todos os locais em perigo. Depois, Portugal evitava desafiar abertamente a Holanda, com quem tinha assinado um tratado de paz e cuja ajuda era preciosa para poder enfrentar mais eficazmente os espanhóis. Era, assim, necessário resistir até que uma melhor conjuntura permitisse finalmente organizar uma expedição para reconquistar Luanda.

A situação política de Angola nesta altura era deveras complicada. Para além da presença portuguese e holandesa, havia evidentemente que contar com os reinos locais, que se dividiam nos seus apoios. Os portugueses enfrentavam dois inimigos principais: o reino do Congo e o reino de Matamba, onde reinava a célebre rainha Jinga. No entanto, estes nunca conseguiram promover uma aliança geral contra os portugueses. Pelo contrário, outros chefes aliaram-se imediatamente a favor destes, o que permitiu o fortalecimento da resistência portuguesa. O que aconteceu durante os anos seguintes foi que, por um lado, pequenas forças vindas do Brasil desembarcavam na costa angolana e prosseguiam até Massangano, abastecendo as tropas portuguesas e fortalecendo a resistência. Por outro, os holandeses enfrentavam igualmente terríveis problemas, desde a má adaptação ao clima a uma certa desilusão e desalento provocados pelas dificuldades crescentes e pelos parco sucesso económico da sua empresa.

A situação precária dos portugueses em Angola despertou no Brasil uma grande preocupação. Era opinião corrente a de que a perda de Angola acarretaria a médio prazo o descalabro do Brasil, quer em termos económicos quer militares. Assim, foi finalmente preparada uma grande expedição para retomar de vez o controle de Luanda e expulsar os holandeses. Para comandar tal empresa, foi escolhido Salvador Correia de Sá, nomeado governador de Angola. Partiu com uma forte armada de Lisboa em Novembro de 1647, rumo ao Rio de Janeiro, onde juntou novas forças, rumando então para Angola. Após algumas dificuldades iniciais, os portugueses conseguiram, algo inesperadamente, a rendição da guarnição holandesa de Luanda. que os portugueses recuperaram, assim, em Agosto de 1648. Assim terminou o período de domínio holandês nesta região, abrindo caminho ao fortalecimento da presença portuguesa que não mais voltou a ser ameaçada nos tempos mais próximos.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Primeiro dia, último dia

via Bibliotecário de Babel de José Mário Silva em 18/05/09

«Segunda-feira 11 de Fevereiro
Só me faltam seis meses e vinte e oito dias para me poder reformar. Devo fazer esta conta diária do meu saldo de trabalho há cinco anos. Preciso mesmo tanto de ócio? Digo a mim próprio que não, que não é do ócio que eu preciso, mas sim do direito a trabalhar naquilo que quero. Por exemplo? O jardim, talvez. É bom como descanso activo para os domingos, para contrabalançar a vida sedentária e também como defesa secreta contra a minha futura e garantida artrite. Mas temo que não poderia suportá-lo diariamente. A guitarra, talvez. Julgo que gostaria disso. Mas deve ser um pouco desolador começar a estudar solfejo aos quarenta e nove anos. Escrever? Talvez não o fizesse mal, pelo menos as pessoas costumam apreciar as minhas cartas. E com isso? Imagino uma notinha bibliográfica sobre os «plausíveis valores deste novo autor que raia os cinquenta» e essa mera possibilidade repugna-me. Que eu me sinta, ainda hoje, ingénuo e imaturo (quero dizer, só com os defeitos da juventude e quase nenhuma das suas virtudes) não significa que tenha o direito a exibir essa ingenuidade e essa imaturidade. Tive uma prima solteirona que quando fazia uma sobremesa a mostrava a todos, com um sorriso melancólico e pueril que lhe tinha ficado preso nos lábios desde a época em que fazia efeito junto do seu namorado motociclista, que depois se matou numa das nossas tantas Curvas da Morte. Ela vestia-se correctamente, completamente de acordo com os seus cinquenta e três anos; nisso, e no resto, era discreta e equilibrada, mas aquele sorriso reclamava em troca um acompanhamento de lábios frescos, de pele roçagante, de pernas torneadas, de vinte anos. Era um gesto patético, só isso, um gesto que nunca chegava a parecer ridículo porque, além disso, naquele rosto havia bondade. Quantas palavras, só para dizer que não quero parecer patético.
Sexta-feira 28 de Fevereiro
Último dia de trabalho. Nada de trabalho, claro. Passei-o a dar apertos de mão, a receber abraços. Acho que o gerente transbordava de satisfação e que o Muñoz estava realmente comovido. A minha mesa ficou lá. Nunca pensei que me importasse tão pouco desprender-me da rotina. As gavetas ficaram vazias. Numa delas encontrei um cartão de Avellaneda. Ela deixara-o para que registássemos o número na sua ficha pessoal. Pu-lo no bolso e aqui está. A fotografia deve ter uns cinco anos mas ela era mais bonita há quatro meses. Outra coisa ficou clara e é que a mãe está enganada: eu não me sinto feliz por me sentir infeliz. Sinto-me simplesmente infeliz. O escritório acabou. A partir de amanhã e até ao dia da minha morte, o tempo estará às minhas ordens. Depois de tanta espera, é isto o ócio. O que farei com ele?

[Primeiro e último capítulo de A Trégua, de Mario Benedetti, trad. de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu, Cavalo de Ferro, 2007]

ANGOLA - A Guerra e a sede.

via Caçadores 3441 de Pedro Cabrita em 19/05/09
Excerto do livro "Capitães do Vento"
Dezembro de 1970, algures nos Dembos – Norte de Angola

…/… Há dois dias que andamos sem encontrar água.
Dois longos dias sem inimigo nem água, sendo que o primeiro não nos faz falta nenhuma. O sol não dá tréguas e continua a derramar ondas de calor chamejante desde que nasce até se esconder no horizonte vermelho, num presságio de promessa de novo inferno para o dia seguinte.
As reservas de água carregadas no rio há dois dias atrás estão esgotadas há muito. Vem-nos à memória, em jeito de miragem de uma onda de frescura, a malfadada travessia do rio dias atrás às sete da manhã. Há quem verta um resto de água quente na tampa do cantil para molhar apenas os lábios, voltando a guardar religiosamente as gotas que restaram, como se de ouro ou uma relíquia se tratasse. Há quem se atire para o chão e jure que não sai mais dali, para logo mudar de ideias mal a coluna preguiçosa se põe de novo em marcha em busca de um oásis que ninguém promete.
A língua fica pastosa e dificulta o falar. A saliva é praticamente inexistente. É como se viéssemos a mastigar cola. Os lábios ásperos e gretados ouvem-se roçar um no outro e queimam.
- Água! Ouve-se na frente.
- Água!
Passos apressados, um ânimo que parece renascer não se sabe donde, um ir destapando um cantil que ferve à cintura vazio e seco.
- ... água?
A "água" é um charco pestilento calcado por dezenas de pegadas de animais, mistura de lodo e algum líquido que borbulha à superfície, onde pululam uns bichinhos minúsculos de pouco mais de meio centímetro, movimentando-se num saracotear de corpo todo – que em pequeno costumava ver nas valetas de água parada da minha aldeia misturados com os girinos – a que se dava o nome de saltitões.
Muitos não resistem. Procuram uma zona de maior profundidade, três a quatro dedos, inclinam o cantil e enchem-no até onde é possível, procurando enxotar as pequenas jangadas de porcaria pestilenta que se precipitam em direcção à boca do cantil. Com uma bola de algodão tapam o bocal do outro cantil e vertem-lhe aquele líquido meio espesso que vai deixando o algodão empapado de lama e saltitões que se debatem como nós pela sobrevivência.
Juntam-lhe um daqueles comprimidos militares que garantem destruir a maior parte das doenças (além do fígado e dos rins) que pululam nas águas podres – teoria jamais comprovada, mas que ajudava a beber qualquer porcaria para não morrer de sede – e agitam o cantil com grande intensidade procurando aumentar o efeito do químico. Alguns nem dão tempo sequer a que se derreta e apazigúe alguns dos milhentos micróbios que se preparam para ajudar o IN, devorando-nos a nós. 
O sabor é horrível mas só param depois da quarta ou quinta golada, não vá o saborear antecipado corromper a vontade de matar a sede. Alguns resistentes parecem preferir o risco de morrerem à sede, mas têm algumas armas escondidas em que confiam e que hão-de utilizar na hora certa e no momento apropriado.
Cai a noite estrelada e fresca. O desânimo é enorme. No silêncio murmuram-se maldições.
- Agora só faltava os turras atacarem, ouve-se.
- Se trouxerem água até a G3 lhes dou, carago. Que puta de vida. Que mal fiz eu a Deus? Andou a minha mãe a criar-me com tanto carinho para isto.
Ninguém tem vontade de comer. A sede tira qualquer vontade de mastigar ou engolir o que quer que seja. No mato morre-se de sede. Dificilmente se morre de fome. A água até a fome engana.
A boca tem um sabor estranho, o raciocínio imobiliza-se, o pensamento tem um único sentido: chuva, rios, mar, vinho, cerveja, água, água, água …
Na escuridão que já nos envolveu há duas ou três horas, vislumbro três vultos que deslizam em silêncio saindo duma tenda afastando-se ligeiramente da zona de concentração, sendo claro o cuidado que põem em não fazer o menor ruído para não serem vistos. Tanto quanto me é dado a perceber, um pouco mais além agacham-se os três e ficam imóveis. A situação desperta inicialmente a minha curiosidade. Há militares que ficam de sentinela de noite guardando o sono dos companheiros que dormem. Mas não assim. Normalmente são quatro que se dispõem formando um quadrado, alguns metros para lá das tendas dispostas em círculo. Admito uma segunda circunstância relacionada com a satisfação de necessidades fisiológicas, cujo uso tinha regras. Mas em grupo não me parecia apropriado. E para outras, … essas sim de grupo... o momento não me parecia o mais oportuno...
Desligo-me da situação porque nem me apetece indagar. Disponho-me a tentar dormir.
Cinco minutos depois.
- Meu Alferes, meu Alferes! Já viu? Sussurra-me o furriel "Montijo" entrando de cócoras na tenda em grande agitação.
- O quê? Pergunto, sem me mexer nem abrir os olhos. Achei que na altura me podiam até atacar que a vontade de me mexer seria nula.
- O Serrano, o "Galinhas" e o Gama estão ali atrás das tendas de joelhos a rezar para que chova. O meu Alferes já viu o que é que a merda da falta de água faz? Os gajos piraram. Têm os miolos cozidos do sol.
- Não me parece "Montijo". Na hora do aperto a fé é a última arma para algumas pessoas. Você não acredita em Deus? Disse, continuando de olhos fechados perguntando-me a mim próprio por que carga de água trazia eu aquele tema para a conversa numa altura daquelas.
- Nunca fui de ir à missa, meu Alferes. Só me lembrei de Deus quando estive quase a patinar naquele acidente em que me ia partindo todo contra um poste. Ia lá deixando os dentes todos. Já lhe contei essa, não contei? Depois curei-me e olhe, nunca mais me lembrei disso outra vez.
- Pois é "Montijo"; quando a vida começa a andar para trás é que as pessoas se lembram de Deus. É assim como quando faz trovões. Depois, passa a tempestade e só se voltam a lembrar quando trovejar de novo.
- Não tinha que morrer. Senão tinha morrido mesmo, não acha? Eu só me lembrei. Mas não pedi nada. Eu nunca acreditei em Deus. O que tiver que ser é... e seja o que Deus quiser...
- Claro, "... e seja o que Deus quiser "Montijo"… ".
- Vamos mas é dormir ó "Montijo", porque assim nem sentimos a sede. Amanhã à noite estamos em casa.
O "Montijo" acomoda-se na tenda virando-se de costas para mim enquanto abafa um riso fungado que se lhe escapa pelos dedos que comprimem o nariz.
- Meu Alferes! Tenho a impressão que já está a pingar...
- Não goze "Montijo", não goze.
- Os gajos piraram. O "Galinhas" então, mesmo sem sede já é marado.
Na mata às sete horas já se dorme. Naquela noite seriam umas nove quando nos dispusemos a tentar descansar, perturbados como estávamos com a falta de água que nos martirizava de uma forma difícil de traduzir por palavras. Os tormentos da sede confundem-nos de tal forma o raciocínio e os sentimentos que o que fica na memória é uma espécie de dor vazia de imagens, cuja recordação traz mal-estar e um enorme desejo de não lembrar.
Duas da madrugada. Em enorme sobressalto agarro-me à espingarda com o "Montijo" em grande alvoroço dentro da tenda.
- Meu Alferes, meu Alferes; porra chove para caraças; o cantil, o cantil!
Uma das características do clima de África é a alternância brusca entre um sol radioso ou uma noite estrelada e uma chuvada diluviana em menos de uma hora, para logo depois tudo serenar.
O alvoroço era indescritível. Inventavam-se mil e uma maneiras de apanhar a água que caía generosamente do céu. Fizemos uma goteira a partir do bico dos ponchos que formavam a tenda e a água corria a fio ali mesmo à nossa frente. Alguns soldados dançavam em grande algazarra à chuva agarrados uns aos outros, perante a escamação do Alferes Chagas que lembrava em vão a necessidade de observância do silêncio e das normas de segurança.
- Eu quero que os turras se f....
Era o tipo de resposta que invariavelmente se conseguia ouvir, numa perfeita loucura que subvertia os conceitos e preconceitos, comandos e hierarquias, que no escuro de uma noite de chuva intensa sofregamente abençoada se misturavam e confundiam.
A água sabia à borracha dos ponchos e trazia um leve travo salobro do suor que se lhe entranhava durante o dia quando transportado às costas dobrado e atado ao saco. E tudo porque ninguém se atreveu a perder as primeiras gotas que caíram e o lavaram de três dias de poeira e transpiração transbordante. A chuva podia terminar de um momento para o outro. O céu escuro não deixava adivinhar a dimensão da chuvada.
Choveu toda a noite. Foram bebedeiras de água e de pragas devolvidas ao sossego dos espíritos saciados da guerra da sede. Qual alambique destilando o melhor álcool, cada cantil sabia melhor que o anterior, depois de bem lavados os telhados da tenda que nos abrigava. Ninguém mais dormiu. Não só porque todos queriam beber até não poder mais, mas também porque a chuva inesperada encharcou tudo, entrando pelas tendas adentro.
Meditativo, o "Montijo" está sentado à porta da tenda de pernas cruzadas e olhar fixo no fio de água que escorre para dentro do cantil.
- Porra meu Alferes! E choveu mesmo. Diz sem tirar os olhos da água que corre límpida para dentro do terceiro ou quarto cantil que enche.
- Agora é que você começa a ir à missa ó "Montijo".
- Náh! O meu primo era um beato do caraças que até ajudava à missa. Mesmo assim não deixou de se enfiar por uma ribanceira abaixo com uma bebedeira que nem queira saber. Olhe, ainda ficou com menos dentes do que eu.
- Mas ó "Montijo"; isso foi da bebedeira.
- Ó meu Alferes; e Deus naquela altura também estava distraído ou com os copos, não? Ao que consta, Deus não dorme... nem bebe. Só que... sei lá…
Pronto. E assim se tresmalhou mais uma ovelha que se admitiria poder constituir-se num sério candidato ao rebanho de Deus, passada que foi aquela provação de tão grande aperto e sofrimento.
Talvez na próxima, quando Deus e os homens ousarem desafiar as convicções de um "Montijo" que entende que a chuva nem sempre cai quando Deus quer ou manda…/…

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Entrevista a Alain de Benoist (3)

via INCONFORMISTA.INFO de Miguel Vaz em 18/05/09
(Última parte de uma entrevista original do blogue Dissonance)

É tido como uma referência da geopolítica, nomeadamente junto do movimento eurasiático de Aleksandr Dugin, que é bastante elogioso a seu respeito. Podemos falar disso? O que pensa que as teorias Eurasiáticas podem trazer à Europa e a França?
Tenho grande amizade e admiração por Aleksandr Dugin, pela sua cultura, a sua coragem, a sua capacidade de trabalho, a amplitude da sua obra e a grande continuidade dos seus esforços. Deve-se-lhe a actualização do pensamento dos primeiros teóricos eurasiáticos e de ter demonstrado a actualidade dessa linha de pensamento. Soube também confrontar, para fazer uma síntese sugestiva, acervos ideológicos por vezes diferentes. Deu à geopolítica uma dimensão espiritual que lhe faltava. Sigo o seu trabalho com muita atenção. Quanto às teorias eurasiáticas, podem trazer muito, não só à Europa e à França, mas também aos habitantes de outros continentes, se considerarmos que para além da Eurásia geográfica, permite encarar um novo "Nomos da Terra" constituído segundo a ideia de diversidade, autonomia dos povos, democracia participativa e primazia dos valores não comerciais.

Para os franceses e europeus, as grandes preocupações do futuro são a plausível liderança económica da China e a explosão demográfica das populações muçulmanas, nomeadamente no interior da Europa. De que forma analisa a (in)compatibilidade destes elementos?
A China foi obviamente chamada a desempenhar um papel de primeiro plano no século XXI, mas é demasiado cedo para dizer que exercerá uma verdadeira "liderança económica". A China inscreve tradicionalmente a sua acção num quadro a longo prazo. O seu modelo não está isento de contradições, e deverá debater-se com numerosas dificuldades interiores (não serão apenas as disparidades entre as suas regiões e os seus meios sociais). No plano geoestratégico, espero ver a China associada ao continente euroasiático, mas ignoro a sua tendência natural ao "auto centrismo". No que diz respeito aos Estados Unidos, parecem hesitar entre diversas atitudes possíveis. Quanto à explosão das populações muçulmanas, é um facto real, mas que não deve ser sobrevalorizado. Na Europa, no espaço de uma ou duas gerações, os imigrantes adoptam os comportamentos demográficos locais. À excepção da África negra e da zona indo-paquistanesa, o crescimento demográfico tem vindo a abrandar um pouco por toda a parte. O verdadeiro problema está relacionado com a baixa natalidade dos países europeus, que cria uma baixa de pressão e se traduz por um envelhecimento da população.

Foi, durante muito tempo, uma das pontas-de-lança do GRECE. Que é feito do grupo actualmente?
O Grupo de Pesquisa e Estudos para a Civilização Europeia (GRECE) é uma associação cultural criada em 1969. Participei regularmente nas suas actividades, mas nunca ocupei um cargo dirigente. A associação continua actualmente o seu trabalho, em ligação com diversas universidades e intelectuais europeus.

Questão de ficção científica: como imagina o futuro do continente (Europa e Rússia) em... digamos, 2020?
Não é a minha tarefa prever o futuro, e não tenho imaginação para especular onde estarão a Europa e a Rússia em 2020. A história está sempre aberta, o que não significa que tudo seja possível. Naturalmente, é possível fazer cenários, mas a dificuldade começa quando queremos atribuir-lhes um coeficiente de probabilidade.

No último 24 de Março, registou-se o aniversário dos bombardeamentos de 1999 sobre a Sérvia. Há um ano, o Kosovo "tornou-se" um Estado independente. O que tem a dizer sobre estes acontecimentos? Qual é, a seu ver, o futuro do Kosovo?
O aniversário dos bombardeamentos de 1999 sobre a Sérvia desperta em mim a lembrança de uma grande cólera e de uma terrível humilhação. Cólera diante do dilúvio de contra-verdades e de mensagens difamatórias que então foram transmitidas pela imprensa ocidental contra o povo sérvio, humilhação de ter assistido ao primeiro bombardeamento de uma capital europeia pelos americanos desde o fim da última Guerra Mundial. A Europa revelou nessa ocasião uma triste verdade: impotente, quase paralisada, sem qualquer consciência dos desafios globais, objecto da história dos outros em vez de sujeito da sua própria história. Quanto ao Kosovo, observo que a sua proclamação de independência foi apoiada pelas mesmas potências que se recusaram a reconhecer a independência da Abkhazia ou da Ossétia do Sul: a Geórgia teve direito ao respeito da sua "integridade territorial", enquanto a Sérvia não teve esse direito. Isso dá uma ideia da lógica que prevalece actualmente na diplomacia internacional. Por agora, o Kosovo parece-me ser o primeiro Estado mafioso da História. Duvido que o seu futuro seja particularmente brilhante.

Poderia aconselhar-nos cinco obras essenciais, e cinco sítios ou blogues a consultar?
Não me sinto muito à vontade no universo dos blogues para recomendar aqueles que serão os melhores. Da mesma forma, sinto-me incapaz de enumerar "cinco obras-chave a ler". Quanto a obras-chave, há pelo menos várias centenas! Recomendo apenas a leitura de obras que ajudem a compreender o momento histórico que vivemos, e por outro lado os grandes clássicos do pensamento político e geopolítico cujos ensinamentos podem ainda ter valor actualmente, de Maquiavel, Hobbes e Rousseau até Max Weber e Carl Schmitt. Por último, sem dúvida por inclinação pessoal, diria que a compreensão das coisas supõe um mínimo de conhecimento filosófico. Heidegger, para dar um exemplo, desempenhou na minha formação um papel que ainda hoje subsiste.

Era uma vez… Portugal (XXXII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 17/05/09

A CONQUISTA PORTUGUESA DE MALACA NAS FONTES MALAIAS

Uma das conquistas mais importantes realizadas por Afonso de Albuquerque, o grande construtor do império marítimo português no Oriente, foi a de Malaca. A cidade era, a data da chegada dos portugueses, uma das mais importantes e ricas do Oriente, uma vez que dominava o comércio de longo curso que ligava o Extremo Oriente á Índia. A história da conquista portuguesa é já sobejamente conhecida: em 1509 chega a Malaca Diogo Lopes de Sequeira, com a missão de abrir ali uma feitoria e estabelecer um acordo de comércio. Porém, e apesar de terem sido inicialmente bem recebidos, os portugueses acabaram por ser atacados e muitos feitos prisioneiros, tendo Diogo Lopes de Sequeira conseguido fugir. Tal hostilidade deveu-se sobretudo ás intrigas da poderosa comunidade muçulmana da cidade, que conseguiu convencer o sultão a agir deste modo. O resto da história é bem conhecido: um pouco mais tarde, Afonso de Albuquerque vai pessoalmente pedir satisfações e resgatar os portugueses, e acaba por tomar a cidade. Não vamos descrever estes acontecimentos. Pelo contrário, vamos hoje falar um pouco sobre o que dizem as histórias malaias a tal respeito.

A conquista portuguesa de Malaca ficou registada em diversas crónicas malaias. Não se trata de descrições factuais, como nós o entendemos, mas sim histórias que passaram á tradição local, e que foram mais tarde passadas a escrito. É evidente que a sua versão do ocorrido é muito diferente da das fontes portuguesas. Os portugueses são geralmente chamados de "Francos", nome que designava todos os cristãos europeus. Porém, no primeiro contacto, houve malaios que tomaram os portugueses por habitantes do Bengala, no norte da Índia. Eis um registo desse primeiro contacto, na crónica malaia mais importante, os "Anais Malaios":

"Pouco depois chegou um navio dos Francos de Goa, a fazer comércio com Malaca; e os Francos perceberam como o porto era próspero e bem povoado. A gente de Malaca, por seu lado, acorreu em grande número a ver como eram os Francos. Todos ficaram espantados, e disseram: Estes são Bengalis brancos! Á volta de cada Franco juntou-se um aglomerado de malaios, alguns puxando a sua barba, outros tocando na sua cabeça, outros tirando o seu chapéu, outros ainda mexendo na sua mão. E o capitão do navio ancorou e apresentou-se ao Bendara Sri Maraja, que o adoptou como seu filho e lhe concedeu muitas honrarias, enquanto o capitão lhe deu uma corrente de ouro".

É evidente que esta história não é o relato de alguém que tenha assitido a este facto, mas sim o que ficou na tradição malaia deste primeiro contacto. Esta mesma crónica descreve mais adiante a forma como os portugueses se apossaram da cidade: um primeiro ataque directo falhou, mas o vice-rei jurou vingança, e alguns anos depois toma a cidade com uma grande armada. A crónica descreve longamente este facto, relatando os feitos heróicos dos capitães malaios, destacando porém a superioridade militar portuguesa. Algo que terá causade grande impressão era a artilharia portuguesa, como no passo seguinte:

"Ao chegar a Malaca os navios abriram fogo com os seus canhões. E a gente de Malaca ficou assustada e cheia de medo com o som do canhão, e disseram: "Que som é este, como um trovão?". E quando as balas de canhão atingiram a gente de Malaca, de modo que alguns tiveram as suas cabeças arrancadas, alguns, os seus braços, e outros, as suas pernas, a gente de Malaca ficou cada vez mais espantada ao ver que espécie de artilharia era esta, e disseram: "O que será esta arma redonda, que no entanto é suficientemente afiada para nos matar?"

Apesar de bem diferente da versão portuguesa dos acontecimentos, estes "anais malaios" não deixam, porém, de ser em muitos pontos coincidentes com o que dizem as fontes portuguesas, nomeadamente a distinção entre a primeira viagem de Diogo Lopes de Sequeira e a posterior expedição militar, comandada pelo vice-rei, a que a crónica chama inclusivamente "Fongso de Albuquerque". Há, porém, outras crónicas malaias que mancionam igualmente os portugueses. Uma há que relata toda a história do domínio português de Malaca, desde a conquista até á tomada da cidade pelos holandeses. É, porém, bem mais romanceada. Aqui se relata como os portugueses tomaram a cidade á traição, seduzindo os malaios com ouro para ganhar a sua confiança:

"Eis uma história dos tempos de outrora: os Frangues chegam à terra de Malaca. Chega então o capitão do navio a traficar, com vários outros capitães de navios, e trazem a el-Rei Sultão Ahmed Xá um presente de ouro, reais, roupas e cadeias de Manila; e fica o Sultão assaz contente com o capitão português. E assim, ao cabo de pouco tempo, quanto fosse desejo dos capitães, tudo era satisfeito pelo Sultão Ahmed Xá. Vários foram os ministros que observaram respeitosamente:

-Não seja a Alteza de Meu Senhor demasiado confiante para com essa gente branca, pois na modesta opinião de todos os vossos velhos servidores não é bom proteger o Meu Senhor a estes recém-chegados.

Então o Sultão Ahmed Xá falou:

-Meu tio bendara, e nobres tomungões, não vejo como possa esta gente branca provocar a perdição de nossa terra!

Eis então que os capitães dos navios começaram a dar cadeias de ouro de Manila aos vários notáveis do país de Malaca. E todos os nativos do país de Malaca quedam assaz agradados dos capitães dos navios portugueses."

Seguidamente, descreve o estratagema usado pelos portugueses para tomar a cidade: aproveitaram a boa vontade do sultão para construír uma fortaleza, e depois usaram-na para atacar Malaca.

"Então de novo falou o Sultão Ahmed Xá ao capitão português:

-Que mais ainda desejam de nós estes nossos amigos, que tão belo presente nos trazem?

Disseram-lhe então os capitães todos dos navios:

-Nós desejaríamos pedir uma só coisa ao nosso bom amigo; isto se o nosso bom amigo deseja manter amizade connosco, gente branca.

E assim lhes respondeu o Sultão Ahmed Xá:

-Dizei-o pois, podemos escutar! Se é coisa que tenhamos, sem dúvida satisfaremos o desejo de nossos amigos!

Disseram então os capitães dos navios:

-Nós desejaríamos pedir um naco de terra, tamanho como uma pele de animal seca.

E el-Rei falou:

-Não se contristem os nosso amigos: tomai a terra que vos aprouver; se é de tal tamanho, possuí a terra.

Então o capitão português ficou assaz contente. E logo descem os portugueses a terra, trazendo enxadas de cavar, tijolos e cal. E vão buscar a tal pele, fazem dela uma corda, e com ela medem um quadrado. E fazem uma edificação grande em extremo, fortificada, e fazem ao mesmo tempo aberturas para canhões. E toda a gente de Malaca inquiria:

-Mas que aberturas são essas?

E respondiam os Portugueses:

-Isto são aberturas que a gente branca usa como janelas.

E eis qual foi o procedimento dos Portugueses: de noite, descarregaram bombardas de seus navios, e espingardas metidas em caixas, dizendo que havia roupas dentro delas: tal foi o procedimento dos Portugueses para iludir a gente de Malaca. Então, passado tempo, a casa de pedra ficou concluída e todas as suas armas prontas. E mais ou menos à meia-noite, quando a gente toda dormia, eis que os Francos bomberdeiam a cidade de Malaca. Depois disto, sob o bombardeamento dos Francos, à hora da meia-noite, eis que el-Rei Ahmed Xá com todo o povo fogem sem saber para onde, sem terem ocasião de resistir. E os Francos apossam-se de Malaca."

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Alguns dados sobre o campo de concentração do Tarrafal (3)

via Caminhos da Memória de Irene Pimentel em 17/05/09
  (A propósito do «Simpósio Internacional sobre o Tarrafal», 28/4-1/5/2009) A primeira parte e a segunda partes do texto podem ser lidsa aqui e aqui.     Medidas de segurança, deportação, crimes políticos e tribunais especiais O Direito português já conhecia as medidas de segurança e a deportação, desde o final do século XIX, através de uma lei de 21 de [...]

domingo, 17 de maio de 2009

SENHOR ENGENHEIRO

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 17/05/09
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- Ser engenheiro em Portugal é ser cidadão de primeira -, dizia um velho amigo meu, com anos e anos de trabalho de campo, nos saudosos Serviços Geológicos de Portugal, calcorreando montes e vales, umas vezes pela torreira dos estios, outras, por entre chuva, lama, e geadas de engadanhar pés e mãos, longe dos cómodos do lar, onde vinha aos fins de semana para estar com mulher e filhos e mudar de roupa.
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- É vê-los na política, nos conselhos de administração e em tudo o que são bons tachos -, dizia e continuava a desabafar. - Até num serviço como o meu, em que a geologia foi e continua a ser a razão de ser da sua existência, quem é que decide e manda? É um geólogo? Não! É um engenheiro, claro!
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Não é difícil perceber que esta era a razão principal daquela "pedra no sapato" do meu amigo geólogo, não só de profissão, mas também de coração, face à classe dos engenheiros. Nada que se compare com o tempo de permanência no terreno cumprido por este meu colega, também eu somei dias, semanas e meses de trabalho de campo, nos fins-de-semana e férias de anos e anos de docência. Numa destas andanças, fui protagonista de um episódio que dava razão a este meu amigo. Um belo dia, nos anos 70, andava eu entre a Vidigueira e Marmelar, de martelo na mão e uma bússola de geólogo pendurada ao pescoço, marcando, na Carta Militar 1:25 000, a natureza dos terrenos que ia reconhecendo, quando um pastor, acomodado à sombra de um sobreiro, curioso de me ver por ali naqueles preparos, meteu conversa comigo na sequência do «boa tarde» que lhe dirigi.
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- Então o senhor engenheiro aguenta este sol, sem chapéu na cabeça?
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Conversa puxa conversa e o homem sempre a tratar-me por engenheiro, até que resolvi dizer-lhe:
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- Olhe, amigo, não me trate por engenheiro, que é coisa que não sou. Engenheiros são esses fulanos que andam aí a marcar os pontos para as estradas e para os postes das linhas de alta tensão.
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A esta resposta, que não esperava, o pastor mirou-me de alto a baixo, intrigado.
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- Então, vossemecê não é engenheiro? Estão, não é nada? Tem de ser qualquer coisa que eu não estou a ver o que seja, - disse, por fim, como que a solicitar-me que lhe satisfizesse a curiosidade.
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Expliquei-lhe, então, o que fazia. Falei-lhe do terreno areento que tínhamos debaixo dos pés, do barro que havia bem perto dali e que se tornava lama pegadiça no Inverno, dos seixos, bem visíveis e abundantes à superfície do solo, semelhantes aqueles que se viam lá em baixo, na ribeira. Expliquei-lhe o porquê dessa semelhança e acrescentei:
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- As pessoas que, como eu, trabalham no campo, a ver e a estudar as rochas, chamam-se geólogos. Assim como há médicos e advogados, há geólogos. É uma profissão como outra qualquer.
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- Sim senhor -, respondeu, - agora já entendi.
-
A sombra do Quercus era agradável e convidava à conversa. O badalar de um ou outro chocalho era relaxante e relaxante era também o rafeiro, sonolento, estendido ali ao lado. Sentado no chão e encostado a uma cortiça de nove anos, pronta a arrancar, ali fiquei com ele à conversa até à hora a que o Land Rover me aguardava no sítio combinado da estrada, pondo fim a mais um dia de trabalho de campo.