
quarta-feira, 20 de maio de 2009
A tropa e a nobreza do major

terça-feira, 19 de maio de 2009
Era uma vez… Portugal (XXXIII)
A RESTAURAÇÃO EM ANGOLA
Quando em Dezembro de 1640 um grupo de fidalgos portugueses assaltou o Palácio da Ribeira e proclamou o Duque de Bragança como rei de Portugal, estava despoletada o que mais tarde se chamou de Restauração da Independência, e que levou ao fim do domínio filipino em Portugal. Nos anos seguintes, o novo rei D. João IV tentaria inverter o declínio do império marítimo português, que desde há algum tempo se encontrava sob os ataques ingleses e holandeses, no Brasil, em África e na Índia. Vamos hoje falar do caso particular de Angola e dos graves problemas que aqui enfrentaram os portugueses nesta época.
Na manhã de 25 de Agosto de 1641, os habitantes de Luanda foram surpreendidos por uma desagradável surpresa. Uma armada holandesa que há alguns dias surgira à vista da cidade não prosseguiu para Sul nem se retirou, como alguns ainda esperavam. Pelo contrário, estava a desembarcar um forte contingente de cerca de três mil soldados, com evidentes intenções de conquistar a cidade. Este facto contrariava abertamente as expectativas criadas após a aclamação de D. João IV. Afinal, os holandeses eram inimigos declarados dos espanhóis, logo aliados naturais dos portugueses. A armada partira de Pernambuco, então ocupado pelos holandeses, e ali tinham já conhecimento da revolução ocorrida em Lisboa. Sabiam que os portugueses de Luanda já não eram súbditos de Filipe IV de Espanha, sendo, portanto, um golpe planeado e desleal.
Por esta altura, a situação das possessões portuguesas por todo o mundo era precária. Na Índia, os holandeses e ingleses disputavam o comércio português e atacavam os navios e fortalezas portuguesas, tendo já tomado Ormuz e Malaca. No Atlântico a situação era um pouco melhor, mas também grave. Os interesses portugueses concentravam-se na colonização do Brasil e na exploração dos seus recursos, nomeadamente a produção de açúcar. Angola era uma peça fundamental neste processo, pois era aqui que era adquirida a mão-de-obra para o trabalho nas plantações brasileiras. Os holandeses, após terem chegado ao Oriente, tentavam desde a década de 1620 competir directamente com os portugueses no Atlântico. Haviam tomado a Baía e Pernambuco na década seguinte, ameaçando a presença portuguesa no Brasil. Mas faltava-lhes uma posição forte em África, que lhes permitisse igualmente fornecer de mão-de-obra as suas plantações. Assim, e após algumas tentativas fracassadas, decidem-se pelo ataque frontal a Luanda, aproveitando o momento de fraqueza das forças portuguesas na região e ignorando ostensivamente as negociações de paz que então decorriam entre Portugal e a Holanda.
O desembarque holandês lançou o pânico no interior de Luanda. O governador Pedro César de Meneses não dispunha de forças suficientes para resistir eficazmente ao inimigo. Após hesitar entre a resistência desesperada e a retirada, decidiu-se por esta última solução. Ás duas horas da madrugada do dia seguinte, os portugueses abandonaram a cidade a caminho do interior, onde algumas fortalezas poderiam providenciar abrigo seguro. Iniciava-se assim o período de domínio holandês, em que os portugueses passariam crescentes dificuldades. O primeiro refúgio foi uma fazenda dos jesuítas, não longe de Luanda, mas os portugueses acabaram por se fixar um pouco mais longe, no meio de fazendas de portugueses, que eram o melhor local para obter protecção segura. Por esta altura, os holandeses temiam embrenhar-se no interior, por desconhecerem o meio, satisfazendo-se com a ocupação da cidade e com o estabelecimento de relações com diversos reinos vizinhos. Acreditavam que, afastados do mar e de Luanda, os portugueses acabariam por ficar isolados e por sucumbir. De facto, estes primeiros meses foram de enormes dificuldades para os portugueses. Á sua volta crescia a hostilidade dos chefes locais, que viam aqui uma boa oportunidade para escapar ao controle português e tentar obter condições de comércio mais vantajosas junto dos holandeses. Pedro César de Meneses foi obrigado a retirar-se para a fortaleza de Massangano, já no interior e a boa distância de Luanda, reorganizando aí os suas tropas e a resistência aos holandeses, ao mesmo tempo que esperava socorro de Portugal ou do Brasil.
Após vários meses de guerra, onde pontificava a turbulência permanente entre os diversos reinos africanos vizinhos, os portugueses foram surpreendidos por uma notícia inesperada, comunicada por emissários holandeses: havia sido assinado um tratado de paz entre Portugal e a Holanda, o que abria as portas às tréguas entre as duas partes. Assim, a 30 de Janeiro de 1643 foram assinadas as tréguas entre o governador português e os holandeses, permitindo aos portugueses regressar às proximidades de Luanda. Os holandeses, porém, ao que parece perturbados pelas riquezas dos colonos portugueses, romperam as pazes e atacaram abertamente as posições inimigas, o que obrigou a nova fuga para Massangano e a novo agravamento da situação.
Em Lisboa, D. João IV e os seus conselheiros tinham perfeita consciência das dificuldades que atravessavam os portugueses em Angola, mas dois factores distintos impediam de momento o socorro efectivo a Pedro César de Meneses e aos seus homens. Em primeiro lugar, Portugal estava em guerra aberta com os espanhóis, tendo sofrido diversas tentativas de invasão e enfrentando terríveis dificuldades financeiras para socorrer todos os locais em perigo. Depois, Portugal evitava desafiar abertamente a Holanda, com quem tinha assinado um tratado de paz e cuja ajuda era preciosa para poder enfrentar mais eficazmente os espanhóis. Era, assim, necessário resistir até que uma melhor conjuntura permitisse finalmente organizar uma expedição para reconquistar Luanda.
A situação política de Angola nesta altura era deveras complicada. Para além da presença portuguese e holandesa, havia evidentemente que contar com os reinos locais, que se dividiam nos seus apoios. Os portugueses enfrentavam dois inimigos principais: o reino do Congo e o reino de Matamba, onde reinava a célebre rainha Jinga. No entanto, estes nunca conseguiram promover uma aliança geral contra os portugueses. Pelo contrário, outros chefes aliaram-se imediatamente a favor destes, o que permitiu o fortalecimento da resistência portuguesa. O que aconteceu durante os anos seguintes foi que, por um lado, pequenas forças vindas do Brasil desembarcavam na costa angolana e prosseguiam até Massangano, abastecendo as tropas portuguesas e fortalecendo a resistência. Por outro, os holandeses enfrentavam igualmente terríveis problemas, desde a má adaptação ao clima a uma certa desilusão e desalento provocados pelas dificuldades crescentes e pelos parco sucesso económico da sua empresa.
A situação precária dos portugueses em Angola despertou no Brasil uma grande preocupação. Era opinião corrente a de que a perda de Angola acarretaria a médio prazo o descalabro do Brasil, quer em termos económicos quer militares. Assim, foi finalmente preparada uma grande expedição para retomar de vez o controle de Luanda e expulsar os holandeses. Para comandar tal empresa, foi escolhido Salvador Correia de Sá, nomeado governador de Angola. Partiu com uma forte armada de Lisboa em Novembro de 1647, rumo ao Rio de Janeiro, onde juntou novas forças, rumando então para Angola. Após algumas dificuldades iniciais, os portugueses conseguiram, algo inesperadamente, a rendição da guarnição holandesa de Luanda. que os portugueses recuperaram, assim, em Agosto de 1648. Assim terminou o período de domínio holandês nesta região, abrindo caminho ao fortalecimento da presença portuguesa que não mais voltou a ser ameaçada nos tempos mais próximos.
Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal
Primeiro dia, último dia
[Primeiro e último capítulo de A Trégua, de Mario Benedetti, trad. de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu, Cavalo de Ferro, 2007]
ANGOLA - A Guerra e a sede.
Dezembro de 1970, algures nos Dembos – Norte de Angola
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Entrevista a Alain de Benoist (3)
(Última parte de uma entrevista original do blogue Dissonance)Era uma vez… Portugal (XXXII)
A CONQUISTA PORTUGUESA DE MALACA NAS FONTES MALAIAS
Uma das conquistas mais importantes realizadas por Afonso de Albuquerque, o grande construtor do império marítimo português no Oriente, foi a de Malaca. A cidade era, a data da chegada dos portugueses, uma das mais importantes e ricas do Oriente, uma vez que dominava o comércio de longo curso que ligava o Extremo Oriente á Índia. A história da conquista portuguesa é já sobejamente conhecida: em 1509 chega a Malaca Diogo Lopes de Sequeira, com a missão de abrir ali uma feitoria e estabelecer um acordo de comércio. Porém, e apesar de terem sido inicialmente bem recebidos, os portugueses acabaram por ser atacados e muitos feitos prisioneiros, tendo Diogo Lopes de Sequeira conseguido fugir. Tal hostilidade deveu-se sobretudo ás intrigas da poderosa comunidade muçulmana da cidade, que conseguiu convencer o sultão a agir deste modo. O resto da história é bem conhecido: um pouco mais tarde, Afonso de Albuquerque vai pessoalmente pedir satisfações e resgatar os portugueses, e acaba por tomar a cidade. Não vamos descrever estes acontecimentos. Pelo contrário, vamos hoje falar um pouco sobre o que dizem as histórias malaias a tal respeito.
A conquista portuguesa de Malaca ficou registada em diversas crónicas malaias. Não se trata de descrições factuais, como nós o entendemos, mas sim histórias que passaram á tradição local, e que foram mais tarde passadas a escrito. É evidente que a sua versão do ocorrido é muito diferente da das fontes portuguesas. Os portugueses são geralmente chamados de "Francos", nome que designava todos os cristãos europeus. Porém, no primeiro contacto, houve malaios que tomaram os portugueses por habitantes do Bengala, no norte da Índia. Eis um registo desse primeiro contacto, na crónica malaia mais importante, os "Anais Malaios":
"Pouco depois chegou um navio dos Francos de Goa, a fazer comércio com Malaca; e os Francos perceberam como o porto era próspero e bem povoado. A gente de Malaca, por seu lado, acorreu em grande número a ver como eram os Francos. Todos ficaram espantados, e disseram: Estes são Bengalis brancos! Á volta de cada Franco juntou-se um aglomerado de malaios, alguns puxando a sua barba, outros tocando na sua cabeça, outros tirando o seu chapéu, outros ainda mexendo na sua mão. E o capitão do navio ancorou e apresentou-se ao Bendara Sri Maraja, que o adoptou como seu filho e lhe concedeu muitas honrarias, enquanto o capitão lhe deu uma corrente de ouro".
É evidente que esta história não é o relato de alguém que tenha assitido a este facto, mas sim o que ficou na tradição malaia deste primeiro contacto. Esta mesma crónica descreve mais adiante a forma como os portugueses se apossaram da cidade: um primeiro ataque directo falhou, mas o vice-rei jurou vingança, e alguns anos depois toma a cidade com uma grande armada. A crónica descreve longamente este facto, relatando os feitos heróicos dos capitães malaios, destacando porém a superioridade militar portuguesa. Algo que terá causade grande impressão era a artilharia portuguesa, como no passo seguinte:
"Ao chegar a Malaca os navios abriram fogo com os seus canhões. E a gente de Malaca ficou assustada e cheia de medo com o som do canhão, e disseram: "Que som é este, como um trovão?". E quando as balas de canhão atingiram a gente de Malaca, de modo que alguns tiveram as suas cabeças arrancadas, alguns, os seus braços, e outros, as suas pernas, a gente de Malaca ficou cada vez mais espantada ao ver que espécie de artilharia era esta, e disseram: "O que será esta arma redonda, que no entanto é suficientemente afiada para nos matar?"
Apesar de bem diferente da versão portuguesa dos acontecimentos, estes "anais malaios" não deixam, porém, de ser em muitos pontos coincidentes com o que dizem as fontes portuguesas, nomeadamente a distinção entre a primeira viagem de Diogo Lopes de Sequeira e a posterior expedição militar, comandada pelo vice-rei, a que a crónica chama inclusivamente "Fongso de Albuquerque". Há, porém, outras crónicas malaias que mancionam igualmente os portugueses. Uma há que relata toda a história do domínio português de Malaca, desde a conquista até á tomada da cidade pelos holandeses. É, porém, bem mais romanceada. Aqui se relata como os portugueses tomaram a cidade á traição, seduzindo os malaios com ouro para ganhar a sua confiança:
"Eis uma história dos tempos de outrora: os Frangues chegam à terra de Malaca. Chega então o capitão do navio a traficar, com vários outros capitães de navios, e trazem a el-Rei Sultão Ahmed Xá um presente de ouro, reais, roupas e cadeias de Manila; e fica o Sultão assaz contente com o capitão português. E assim, ao cabo de pouco tempo, quanto fosse desejo dos capitães, tudo era satisfeito pelo Sultão Ahmed Xá. Vários foram os ministros que observaram respeitosamente:
-Não seja a Alteza de Meu Senhor demasiado confiante para com essa gente branca, pois na modesta opinião de todos os vossos velhos servidores não é bom proteger o Meu Senhor a estes recém-chegados.
Então o Sultão Ahmed Xá falou:
-Meu tio bendara, e nobres tomungões, não vejo como possa esta gente branca provocar a perdição de nossa terra!
Eis então que os capitães dos navios começaram a dar cadeias de ouro de Manila aos vários notáveis do país de Malaca. E todos os nativos do país de Malaca quedam assaz agradados dos capitães dos navios portugueses."
Seguidamente, descreve o estratagema usado pelos portugueses para tomar a cidade: aproveitaram a boa vontade do sultão para construír uma fortaleza, e depois usaram-na para atacar Malaca.
"Então de novo falou o Sultão Ahmed Xá ao capitão português:
-Que mais ainda desejam de nós estes nossos amigos, que tão belo presente nos trazem?
Disseram-lhe então os capitães todos dos navios:
-Nós desejaríamos pedir uma só coisa ao nosso bom amigo; isto se o nosso bom amigo deseja manter amizade connosco, gente branca.
E assim lhes respondeu o Sultão Ahmed Xá:
-Dizei-o pois, podemos escutar! Se é coisa que tenhamos, sem dúvida satisfaremos o desejo de nossos amigos!
Disseram então os capitães dos navios:
-Nós desejaríamos pedir um naco de terra, tamanho como uma pele de animal seca.
E el-Rei falou:
-Não se contristem os nosso amigos: tomai a terra que vos aprouver; se é de tal tamanho, possuí a terra.
Então o capitão português ficou assaz contente. E logo descem os portugueses a terra, trazendo enxadas de cavar, tijolos e cal. E vão buscar a tal pele, fazem dela uma corda, e com ela medem um quadrado. E fazem uma edificação grande em extremo, fortificada, e fazem ao mesmo tempo aberturas para canhões. E toda a gente de Malaca inquiria:
-Mas que aberturas são essas?
E respondiam os Portugueses:
-Isto são aberturas que a gente branca usa como janelas.
E eis qual foi o procedimento dos Portugueses: de noite, descarregaram bombardas de seus navios, e espingardas metidas em caixas, dizendo que havia roupas dentro delas: tal foi o procedimento dos Portugueses para iludir a gente de Malaca. Então, passado tempo, a casa de pedra ficou concluída e todas as suas armas prontas. E mais ou menos à meia-noite, quando a gente toda dormia, eis que os Francos bomberdeiam a cidade de Malaca. Depois disto, sob o bombardeamento dos Francos, à hora da meia-noite, eis que el-Rei Ahmed Xá com todo o povo fogem sem saber para onde, sem terem ocasião de resistir. E os Francos apossam-se de Malaca."
Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal
Alguns dados sobre o campo de concentração do Tarrafal (3)


