quinta-feira, 21 de maio de 2009

Alguns dados sobre o campo de concentração do Tarrafal (4)

via Caminhos da Memória de Irene Pimentel em 20/05/09
  (A propósito do «Simpósio Internacional sobre o Tarrafal», 28/4-1/5/2009) A primeira parte, a segunda e a terceira partes do texto podem ser lidas aqui, aqui e aqui.   Os primeiros directores do campo No mesmo navio Luanda, onde viajaram os primeiros prisioneiros do Tarrafal, vinham, além de elementos da Guarda Nacional Republicana (GNR), uma brigada da PVDE, dirigida por [...]

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Era uma vez… Portugal (XXXIV)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 19/05/09

DE SAGRES A TORDESILHAS: O INFANTE D. HENRIQUE E O REI D. JOÃO II

Comemoramos neste ano de 1994 o 6º Centenário do nascimento do Infante D. Henrique e o 5º do Tratado de Tordesilhas. É uma ocasião privilegiada para as celebrações oficiais sobre os Descobrimentos, assinalando devidamente o protagonismo dos portugueses nas viagens do século XV. Curiosamente, as duas datas associam-se directamente aos dois homens que marcaram a época, e cuja personalidade foi decisiva para o bom sucesso do empreendimento dos Descobrimentos: o Infante D. Henrique, que iniciou e orientou a sua primeira fase, e o rei D. João II, que veio a continuar a obra do seu tio-avô e a transformá-la numa empresa de Estado. É sobre o papel decisivo da acção destes dois homens que iremos falar hoje.

A quinhentos anos de distância, os Descobrimentos Portugueses do século XV podem-nos hoje parecer algo simples e linear, uma história encadeada de viagens, descobertas e avanços técnicos, permitidos pelas condições políticas, económicas e sociais do Portugal de então. Na verdade, porém, os Descobrimentos foram algo de bem diferente, cheio de contradições, obstáculos e hesitações. Todos sabemos que o primeiro grande passo das viagens de Descobrimento foi a dobragem do Cabo Bojador, em 1434, mas o longo caminho a percorrer até ao Tratado de Tordesilhas, 60 anos depois, seria difícil e penoso, e cujo bom sucesso deve sobretudo á persistência do Infante D. Henrique, primeiro, e de D. João II, depois.

Durante os primeiros tempos, as viagens de Descobrimento da costa africana estiveram associadas aos projectos de conquista de Marrocos, iniciada pela tomada de Ceuta em 1415 e que, pensava-se, poderia ser continuada. Parece provável, aliás, que uma das motivações iniciais para o arranque dos Descobrimentos terá sido a de contornar Marrocos por mar, pelo sul, para encontrar aliados cristãos que poderiam eventualmente constituir bons aliados para a guerra aos muçulmanos. Até á morte do Infante, em 1460, os Descobrimentos passariam por diversas vicissitudes, acabando por se tornar aos poucos um empreendimento mais importante do que os planos de conquista do Norte de África, sobretudo devido aos grandes lucros que o comércio veio a permitir. Durante muito tempo, porém, as viagens não proporcionaram qualquer rendimento, tendo o Infante e a Ordem de Cristo a ele associada suportado todas as pesadas despesas de preparação e abastecimento dos navios, assim como da condução viagens. Só lentamente, á medida que se avançava aos poucos para sul, é que se superaram os obstáculos naturais e se procedia á exploração económica.

O ritmo das viagens de descobrimento era sensível aos problemas políticos do reino, á maior ou menor vontade em prosseguir o esforço de exploração da costa africana e ampliar a colonização das Ilhas Atlânticas: a morte de D. Duarte, o projecto de conquista de Tânger em 1436, o conflito entre o regente D. Pedro e o futuro D. Afonso V, ou o interesse deste por Marrocos são exemplos de momentos em que as viagens sofreram um abrandamento ou mesmo uma paragem. Por outro lado, as próprias dificuldades naturais com que os navios deparavam provocavam atrasos, como os problemas de orientação no alto mar, os ventos contrários ou o desaparecimento da Estrela Polar a sul do Equador. Os Descobrimentos têm assim momentos de avanço, de que o melhor exemplo é o período da regência de D. Pedro, entre 1441 e 1448, e fases de estagnação e abrandamento.

Embora possamos hoje analisar as motivações económicas, sociais e ideológicas dos Descobrimentos do século XV, a verdade é que o seu arranque e impulso decisivo foram sobretudo uma questão de vontade e determinação de um homem, o Infante D. Henrique. Á data da sua morte, em 1460, o que não passara inicialmente de tímidas tentativas de navegação associadas á conquista de Marrocos era agora um empreendimento irreversível, bastante lucrativo e com boas perpectivas de ampliação. Os portugueses haviam até conseguido, por parte da Santa Sé, a salvaguarda da navegação para as terras descobertas, como forma de protecção contra outros países, sobretudo Castela, que se mostravam interessados em disputar o comércio africano.

Com a morte do Infante D. Henrique, os Descobrimentos sofrem um abrandamento: as viagens são arrendadas a um mercador, Fernão Gomes, que se compromete a avançar uma determinada distância por ano. É um período de exploração comercial intensa, mas onde não se vislumbra um rumo a tomar. Só em 1575 é que surge uma nova figura que, ao tomar sobre si a condução e orientação das viagens, transformaria os Descobrimentos numa verdadeira empresa nacional. Trata-se do príncipe, depois rei, D. João II. Os seus objectivos são claros: controle total da empresa africana pela Coroa, rentabilizando a sua exploração, e avanço rápido das viagens de exploração, de modo a contornar o continente africano e atingir o Oceano Índico. Assim, ao mesmo tempo que assegura o funcionamento de alguns entrepostos comerciais mais lucrativos, como a fortaleza da Mina, manda avançar rapidamente para Sul, alcançando a foz do Rio Zaire e, finalmente, em 1488, dobrando o Cabo da Boa Esperança.

Estamos, uma vez mais, perante um caso de vontade e determinação de um homem, desta vez ampliando e salvaguardando uma obra anterior. A acção de D. João II era, porém, de vistas largas: mais do que chegar á Índia, havia que garantir todo o caminho anterior, assegurando que só os navios portugueses comerciariam e navegariam no Atlântico Sul. Nesta época, a interferência castelhana na região era uma ameaça real, e os portugueses eram obrigados a patrulhar as águas africanas para evitar o contrabando. É verdade que as bulas papais concediam a Portugal a exclusividade de navegação e comércio na região, mas tal era insuficiente, havendo necessidade de negociar directamente com os reis espanhóis. Assim, em 1479 é assinado o Tratado de Alcáçovas-Toledo, que concede a Portugal a exclusividade de navegação e comércio a sul do Bojador, em troca das Canárias. O Tratado de Tordesilhas, que celebramos este ano o centenário, tratou-se de um segundo tratado, devido á viagem de Cristovão Colombo que havia provocado novo conflito entre os reinos ibéricos. Este dividiu definitivamente o mundo em duas partes, garantindo a Portugal o a navegação e comércio em África e o caminho aberto para a Índia. Só foi revogado dois séculos mais tarde, em 1750.

Os Descobrimentos Portugueses do século XV resultaram, assim, em boa parte do esforço das duas figuras que os conduziram, permitindo abrir o Mundo á Europa e transformar o pequeno país que era Portugal na maior potência naval do mundo, durante mais de um século.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Sobre o dever de resistir

via a cidade do sossego de harms em 19/05/09
"Um dos mais formosos espíritos portugueses, afectado pelas minhas considerações de vencido, observava-me, um dia, com sagaz felicidade: 'não somos obrigados a vencer; mas somos obrigados a lutar!'.
Derrotadas as três verdades essenciais da Civilização católica ou ocidental pela Vitória das Democracias, que fazer? Cruzar os braços inúteis? Chorar sobre as ruínas e as desgraças?
Não! Lutar, resistir, viver!
Remar contra a maré; afrontar a onda alta, a vaga terrível; ir ao arrepio da Vitória, e desmascará-la; ir ao encontro dos iludidos, para os esclarecer, ou dos interesseiros, para os revelar. Não se deixar abater pelo desânimo, nem perverter pelo comodismo, nem viciar pelo conformismo.
Em suma: lutar, resistir, viver!
É possível que alguns tombem, vítimas da sua dedicação. Para a frente! - que outros virão ocupar o seu lugar - porque o sangue dos vencidos nobres foi, em toda a parte e em todas as épocas, semente que frutifica. É possível que alguns desistam. Para a frente! - que não há Causa, por mais límpida e mais clara, que não dê motivo a defecções e falhas.
Temos diante de nós os destroços, as ruínas das três verdades essenciais da nossa Civilização europeia e milenária, derrotadas pelas Democracias vitoriosas que preparam o caminho, que abrem as portas à Besta do Apocalipse.
Enquanto me deixarem, lutarei. Lutarei, mesmo, vencendo a repugnância que me causam as dificuldades em que esbarro, os obstáculos que põem á expansão do meu pensamento, as cadeias com que travam a minha caneta, e os mil e um processos com que se condiciona a minha voz.
Enquanto me deixarem, lutarei, a despeito da desigualdade do tratamento que me é dado, em face do que é dado aos meus adversários.
Quando verificar que não posso, ou que é desonrosa para a dignidade do meu espírito a sujeição ao condicionalismo imposto - só então reentrarei no silêncio, observando, pela minha parte, ao formoso espírito português a que aludi: 'sim, não somos obrigados a vencer; somos obrigados a lutar'; mas é indispensável que não nos tolham os pulsos, que não nos submetam a voz a registros de capricho, que não cerquem os nossos movimentos de muralhas espessas e intransponíveis - precisamente aqueles que poderão, um dia, colher os melhores frutos da nossa luta.
Repito: Temos diante de nós os destroços, as ruínas das três verdades essenciais da nossa Civilização europeia e milenária, derrotadas pelas Democracias vitoriosas.
Que atitude devem tomar os que entendem que essas Verdades são indispensáveis ao futuro do mundo e aos destinos normais dos povos?
Lutar, resistir, viver!"- Alfredo Pimenta, Três Verdades Vencidas - Deus, Pátria, Rei, Nova Arrancada, 1999.

A tropa e a nobreza do major

via Caminhos da Memória de Eduardo Graça em 19/05/09
  Em Outubro de 1971, cumpri a jornada obrigatória de me apresentar em Mafra. O velho Convento era o destino de todos os jovens licenciados (ou estudantes universitários) que fossem considerados aptos para cumprir o serviço militar obrigatório. Na verdade a minha entrada para o serviço militar deu-se em 7 de Outubro de 1971. Seguiram-se três meses [...]

terça-feira, 19 de maio de 2009

Era uma vez… Portugal (XXXIII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 18/05/09

A RESTAURAÇÃO EM ANGOLA

Quando em Dezembro de 1640 um grupo de fidalgos portugueses assaltou o Palácio da Ribeira e proclamou o Duque de Bragança como rei de Portugal, estava despoletada o que mais tarde se chamou de Restauração da Independência, e que levou ao fim do domínio filipino em Portugal. Nos anos seguintes, o novo rei D. João IV tentaria inverter o declínio do império marítimo português, que desde há algum tempo se encontrava sob os ataques ingleses e holandeses, no Brasil, em África e na Índia. Vamos hoje falar do caso particular de Angola e dos graves problemas que aqui enfrentaram os portugueses nesta época.

Na manhã de 25 de Agosto de 1641, os habitantes de Luanda foram surpreendidos por uma desagradável surpresa. Uma armada holandesa que há alguns dias surgira à vista da cidade não prosseguiu para Sul nem se retirou, como alguns ainda esperavam. Pelo contrário, estava a desembarcar um forte contingente de cerca de três mil soldados, com evidentes intenções de conquistar a cidade. Este facto contrariava abertamente as expectativas criadas após a aclamação de D. João IV. Afinal, os holandeses eram inimigos declarados dos espanhóis, logo aliados naturais dos portugueses. A armada partira de Pernambuco, então ocupado pelos holandeses, e ali tinham já conhecimento da revolução ocorrida em Lisboa. Sabiam que os portugueses de Luanda já não eram súbditos de Filipe IV de Espanha, sendo, portanto, um golpe planeado e desleal.

Por esta altura, a situação das possessões portuguesas por todo o mundo era precária. Na Índia, os holandeses e ingleses disputavam o comércio português e atacavam os navios e fortalezas portuguesas, tendo já tomado Ormuz e Malaca. No Atlântico a situação era um pouco melhor, mas também grave. Os interesses portugueses concentravam-se na colonização do Brasil e na exploração dos seus recursos, nomeadamente a produção de açúcar. Angola era uma peça fundamental neste processo, pois era aqui que era adquirida a mão-de-obra para o trabalho nas plantações brasileiras. Os holandeses, após terem chegado ao Oriente, tentavam desde a década de 1620 competir directamente com os portugueses no Atlântico. Haviam tomado a Baía e Pernambuco na década seguinte, ameaçando a presença portuguesa no Brasil. Mas faltava-lhes uma posição forte em África, que lhes permitisse igualmente fornecer de mão-de-obra as suas plantações. Assim, e após algumas tentativas fracassadas, decidem-se pelo ataque frontal a Luanda, aproveitando o momento de fraqueza das forças portuguesas na região e ignorando ostensivamente as negociações de paz que então decorriam entre Portugal e a Holanda.

O desembarque holandês lançou o pânico no interior de Luanda. O governador Pedro César de Meneses não dispunha de forças suficientes para resistir eficazmente ao inimigo. Após hesitar entre a resistência desesperada e a retirada, decidiu-se por esta última solução. Ás duas horas da madrugada do dia seguinte, os portugueses abandonaram a cidade a caminho do interior, onde algumas fortalezas poderiam providenciar abrigo seguro. Iniciava-se assim o período de domínio holandês, em que os portugueses passariam crescentes dificuldades. O primeiro refúgio foi uma fazenda dos jesuítas, não longe de Luanda, mas os portugueses acabaram por se fixar um pouco mais longe, no meio de fazendas de portugueses, que eram o melhor local para obter protecção segura. Por esta altura, os holandeses temiam embrenhar-se no interior, por desconhecerem o meio, satisfazendo-se com a ocupação da cidade e com o estabelecimento de relações com diversos reinos vizinhos. Acreditavam que, afastados do mar e de Luanda, os portugueses acabariam por ficar isolados e por sucumbir. De facto, estes primeiros meses foram de enormes dificuldades para os portugueses. Á sua volta crescia a hostilidade dos chefes locais, que viam aqui uma boa oportunidade para escapar ao controle português e tentar obter condições de comércio mais vantajosas junto dos holandeses. Pedro César de Meneses foi obrigado a retirar-se para a fortaleza de Massangano, já no interior e a boa distância de Luanda, reorganizando aí os suas tropas e a resistência aos holandeses, ao mesmo tempo que esperava socorro de Portugal ou do Brasil.

Após vários meses de guerra, onde pontificava a turbulência permanente entre os diversos reinos africanos vizinhos, os portugueses foram surpreendidos por uma notícia inesperada, comunicada por emissários holandeses: havia sido assinado um tratado de paz entre Portugal e a Holanda, o que abria as portas às tréguas entre as duas partes. Assim, a 30 de Janeiro de 1643 foram assinadas as tréguas entre o governador português e os holandeses, permitindo aos portugueses regressar às proximidades de Luanda. Os holandeses, porém, ao que parece perturbados pelas riquezas dos colonos portugueses, romperam as pazes e atacaram abertamente as posições inimigas, o que obrigou a nova fuga para Massangano e a novo agravamento da situação.

Em Lisboa, D. João IV e os seus conselheiros tinham perfeita consciência das dificuldades que atravessavam os portugueses em Angola, mas dois factores distintos impediam de momento o socorro efectivo a Pedro César de Meneses e aos seus homens. Em primeiro lugar, Portugal estava em guerra aberta com os espanhóis, tendo sofrido diversas tentativas de invasão e enfrentando terríveis dificuldades financeiras para socorrer todos os locais em perigo. Depois, Portugal evitava desafiar abertamente a Holanda, com quem tinha assinado um tratado de paz e cuja ajuda era preciosa para poder enfrentar mais eficazmente os espanhóis. Era, assim, necessário resistir até que uma melhor conjuntura permitisse finalmente organizar uma expedição para reconquistar Luanda.

A situação política de Angola nesta altura era deveras complicada. Para além da presença portuguese e holandesa, havia evidentemente que contar com os reinos locais, que se dividiam nos seus apoios. Os portugueses enfrentavam dois inimigos principais: o reino do Congo e o reino de Matamba, onde reinava a célebre rainha Jinga. No entanto, estes nunca conseguiram promover uma aliança geral contra os portugueses. Pelo contrário, outros chefes aliaram-se imediatamente a favor destes, o que permitiu o fortalecimento da resistência portuguesa. O que aconteceu durante os anos seguintes foi que, por um lado, pequenas forças vindas do Brasil desembarcavam na costa angolana e prosseguiam até Massangano, abastecendo as tropas portuguesas e fortalecendo a resistência. Por outro, os holandeses enfrentavam igualmente terríveis problemas, desde a má adaptação ao clima a uma certa desilusão e desalento provocados pelas dificuldades crescentes e pelos parco sucesso económico da sua empresa.

A situação precária dos portugueses em Angola despertou no Brasil uma grande preocupação. Era opinião corrente a de que a perda de Angola acarretaria a médio prazo o descalabro do Brasil, quer em termos económicos quer militares. Assim, foi finalmente preparada uma grande expedição para retomar de vez o controle de Luanda e expulsar os holandeses. Para comandar tal empresa, foi escolhido Salvador Correia de Sá, nomeado governador de Angola. Partiu com uma forte armada de Lisboa em Novembro de 1647, rumo ao Rio de Janeiro, onde juntou novas forças, rumando então para Angola. Após algumas dificuldades iniciais, os portugueses conseguiram, algo inesperadamente, a rendição da guarnição holandesa de Luanda. que os portugueses recuperaram, assim, em Agosto de 1648. Assim terminou o período de domínio holandês nesta região, abrindo caminho ao fortalecimento da presença portuguesa que não mais voltou a ser ameaçada nos tempos mais próximos.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Primeiro dia, último dia

via Bibliotecário de Babel de José Mário Silva em 18/05/09

«Segunda-feira 11 de Fevereiro
Só me faltam seis meses e vinte e oito dias para me poder reformar. Devo fazer esta conta diária do meu saldo de trabalho há cinco anos. Preciso mesmo tanto de ócio? Digo a mim próprio que não, que não é do ócio que eu preciso, mas sim do direito a trabalhar naquilo que quero. Por exemplo? O jardim, talvez. É bom como descanso activo para os domingos, para contrabalançar a vida sedentária e também como defesa secreta contra a minha futura e garantida artrite. Mas temo que não poderia suportá-lo diariamente. A guitarra, talvez. Julgo que gostaria disso. Mas deve ser um pouco desolador começar a estudar solfejo aos quarenta e nove anos. Escrever? Talvez não o fizesse mal, pelo menos as pessoas costumam apreciar as minhas cartas. E com isso? Imagino uma notinha bibliográfica sobre os «plausíveis valores deste novo autor que raia os cinquenta» e essa mera possibilidade repugna-me. Que eu me sinta, ainda hoje, ingénuo e imaturo (quero dizer, só com os defeitos da juventude e quase nenhuma das suas virtudes) não significa que tenha o direito a exibir essa ingenuidade e essa imaturidade. Tive uma prima solteirona que quando fazia uma sobremesa a mostrava a todos, com um sorriso melancólico e pueril que lhe tinha ficado preso nos lábios desde a época em que fazia efeito junto do seu namorado motociclista, que depois se matou numa das nossas tantas Curvas da Morte. Ela vestia-se correctamente, completamente de acordo com os seus cinquenta e três anos; nisso, e no resto, era discreta e equilibrada, mas aquele sorriso reclamava em troca um acompanhamento de lábios frescos, de pele roçagante, de pernas torneadas, de vinte anos. Era um gesto patético, só isso, um gesto que nunca chegava a parecer ridículo porque, além disso, naquele rosto havia bondade. Quantas palavras, só para dizer que não quero parecer patético.
Sexta-feira 28 de Fevereiro
Último dia de trabalho. Nada de trabalho, claro. Passei-o a dar apertos de mão, a receber abraços. Acho que o gerente transbordava de satisfação e que o Muñoz estava realmente comovido. A minha mesa ficou lá. Nunca pensei que me importasse tão pouco desprender-me da rotina. As gavetas ficaram vazias. Numa delas encontrei um cartão de Avellaneda. Ela deixara-o para que registássemos o número na sua ficha pessoal. Pu-lo no bolso e aqui está. A fotografia deve ter uns cinco anos mas ela era mais bonita há quatro meses. Outra coisa ficou clara e é que a mãe está enganada: eu não me sinto feliz por me sentir infeliz. Sinto-me simplesmente infeliz. O escritório acabou. A partir de amanhã e até ao dia da minha morte, o tempo estará às minhas ordens. Depois de tanta espera, é isto o ócio. O que farei com ele?

[Primeiro e último capítulo de A Trégua, de Mario Benedetti, trad. de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu, Cavalo de Ferro, 2007]

ANGOLA - A Guerra e a sede.

via Caçadores 3441 de Pedro Cabrita em 19/05/09
Excerto do livro "Capitães do Vento"
Dezembro de 1970, algures nos Dembos – Norte de Angola

…/… Há dois dias que andamos sem encontrar água.
Dois longos dias sem inimigo nem água, sendo que o primeiro não nos faz falta nenhuma. O sol não dá tréguas e continua a derramar ondas de calor chamejante desde que nasce até se esconder no horizonte vermelho, num presságio de promessa de novo inferno para o dia seguinte.
As reservas de água carregadas no rio há dois dias atrás estão esgotadas há muito. Vem-nos à memória, em jeito de miragem de uma onda de frescura, a malfadada travessia do rio dias atrás às sete da manhã. Há quem verta um resto de água quente na tampa do cantil para molhar apenas os lábios, voltando a guardar religiosamente as gotas que restaram, como se de ouro ou uma relíquia se tratasse. Há quem se atire para o chão e jure que não sai mais dali, para logo mudar de ideias mal a coluna preguiçosa se põe de novo em marcha em busca de um oásis que ninguém promete.
A língua fica pastosa e dificulta o falar. A saliva é praticamente inexistente. É como se viéssemos a mastigar cola. Os lábios ásperos e gretados ouvem-se roçar um no outro e queimam.
- Água! Ouve-se na frente.
- Água!
Passos apressados, um ânimo que parece renascer não se sabe donde, um ir destapando um cantil que ferve à cintura vazio e seco.
- ... água?
A "água" é um charco pestilento calcado por dezenas de pegadas de animais, mistura de lodo e algum líquido que borbulha à superfície, onde pululam uns bichinhos minúsculos de pouco mais de meio centímetro, movimentando-se num saracotear de corpo todo – que em pequeno costumava ver nas valetas de água parada da minha aldeia misturados com os girinos – a que se dava o nome de saltitões.
Muitos não resistem. Procuram uma zona de maior profundidade, três a quatro dedos, inclinam o cantil e enchem-no até onde é possível, procurando enxotar as pequenas jangadas de porcaria pestilenta que se precipitam em direcção à boca do cantil. Com uma bola de algodão tapam o bocal do outro cantil e vertem-lhe aquele líquido meio espesso que vai deixando o algodão empapado de lama e saltitões que se debatem como nós pela sobrevivência.
Juntam-lhe um daqueles comprimidos militares que garantem destruir a maior parte das doenças (além do fígado e dos rins) que pululam nas águas podres – teoria jamais comprovada, mas que ajudava a beber qualquer porcaria para não morrer de sede – e agitam o cantil com grande intensidade procurando aumentar o efeito do químico. Alguns nem dão tempo sequer a que se derreta e apazigúe alguns dos milhentos micróbios que se preparam para ajudar o IN, devorando-nos a nós. 
O sabor é horrível mas só param depois da quarta ou quinta golada, não vá o saborear antecipado corromper a vontade de matar a sede. Alguns resistentes parecem preferir o risco de morrerem à sede, mas têm algumas armas escondidas em que confiam e que hão-de utilizar na hora certa e no momento apropriado.
Cai a noite estrelada e fresca. O desânimo é enorme. No silêncio murmuram-se maldições.
- Agora só faltava os turras atacarem, ouve-se.
- Se trouxerem água até a G3 lhes dou, carago. Que puta de vida. Que mal fiz eu a Deus? Andou a minha mãe a criar-me com tanto carinho para isto.
Ninguém tem vontade de comer. A sede tira qualquer vontade de mastigar ou engolir o que quer que seja. No mato morre-se de sede. Dificilmente se morre de fome. A água até a fome engana.
A boca tem um sabor estranho, o raciocínio imobiliza-se, o pensamento tem um único sentido: chuva, rios, mar, vinho, cerveja, água, água, água …
Na escuridão que já nos envolveu há duas ou três horas, vislumbro três vultos que deslizam em silêncio saindo duma tenda afastando-se ligeiramente da zona de concentração, sendo claro o cuidado que põem em não fazer o menor ruído para não serem vistos. Tanto quanto me é dado a perceber, um pouco mais além agacham-se os três e ficam imóveis. A situação desperta inicialmente a minha curiosidade. Há militares que ficam de sentinela de noite guardando o sono dos companheiros que dormem. Mas não assim. Normalmente são quatro que se dispõem formando um quadrado, alguns metros para lá das tendas dispostas em círculo. Admito uma segunda circunstância relacionada com a satisfação de necessidades fisiológicas, cujo uso tinha regras. Mas em grupo não me parecia apropriado. E para outras, … essas sim de grupo... o momento não me parecia o mais oportuno...
Desligo-me da situação porque nem me apetece indagar. Disponho-me a tentar dormir.
Cinco minutos depois.
- Meu Alferes, meu Alferes! Já viu? Sussurra-me o furriel "Montijo" entrando de cócoras na tenda em grande agitação.
- O quê? Pergunto, sem me mexer nem abrir os olhos. Achei que na altura me podiam até atacar que a vontade de me mexer seria nula.
- O Serrano, o "Galinhas" e o Gama estão ali atrás das tendas de joelhos a rezar para que chova. O meu Alferes já viu o que é que a merda da falta de água faz? Os gajos piraram. Têm os miolos cozidos do sol.
- Não me parece "Montijo". Na hora do aperto a fé é a última arma para algumas pessoas. Você não acredita em Deus? Disse, continuando de olhos fechados perguntando-me a mim próprio por que carga de água trazia eu aquele tema para a conversa numa altura daquelas.
- Nunca fui de ir à missa, meu Alferes. Só me lembrei de Deus quando estive quase a patinar naquele acidente em que me ia partindo todo contra um poste. Ia lá deixando os dentes todos. Já lhe contei essa, não contei? Depois curei-me e olhe, nunca mais me lembrei disso outra vez.
- Pois é "Montijo"; quando a vida começa a andar para trás é que as pessoas se lembram de Deus. É assim como quando faz trovões. Depois, passa a tempestade e só se voltam a lembrar quando trovejar de novo.
- Não tinha que morrer. Senão tinha morrido mesmo, não acha? Eu só me lembrei. Mas não pedi nada. Eu nunca acreditei em Deus. O que tiver que ser é... e seja o que Deus quiser...
- Claro, "... e seja o que Deus quiser "Montijo"… ".
- Vamos mas é dormir ó "Montijo", porque assim nem sentimos a sede. Amanhã à noite estamos em casa.
O "Montijo" acomoda-se na tenda virando-se de costas para mim enquanto abafa um riso fungado que se lhe escapa pelos dedos que comprimem o nariz.
- Meu Alferes! Tenho a impressão que já está a pingar...
- Não goze "Montijo", não goze.
- Os gajos piraram. O "Galinhas" então, mesmo sem sede já é marado.
Na mata às sete horas já se dorme. Naquela noite seriam umas nove quando nos dispusemos a tentar descansar, perturbados como estávamos com a falta de água que nos martirizava de uma forma difícil de traduzir por palavras. Os tormentos da sede confundem-nos de tal forma o raciocínio e os sentimentos que o que fica na memória é uma espécie de dor vazia de imagens, cuja recordação traz mal-estar e um enorme desejo de não lembrar.
Duas da madrugada. Em enorme sobressalto agarro-me à espingarda com o "Montijo" em grande alvoroço dentro da tenda.
- Meu Alferes, meu Alferes; porra chove para caraças; o cantil, o cantil!
Uma das características do clima de África é a alternância brusca entre um sol radioso ou uma noite estrelada e uma chuvada diluviana em menos de uma hora, para logo depois tudo serenar.
O alvoroço era indescritível. Inventavam-se mil e uma maneiras de apanhar a água que caía generosamente do céu. Fizemos uma goteira a partir do bico dos ponchos que formavam a tenda e a água corria a fio ali mesmo à nossa frente. Alguns soldados dançavam em grande algazarra à chuva agarrados uns aos outros, perante a escamação do Alferes Chagas que lembrava em vão a necessidade de observância do silêncio e das normas de segurança.
- Eu quero que os turras se f....
Era o tipo de resposta que invariavelmente se conseguia ouvir, numa perfeita loucura que subvertia os conceitos e preconceitos, comandos e hierarquias, que no escuro de uma noite de chuva intensa sofregamente abençoada se misturavam e confundiam.
A água sabia à borracha dos ponchos e trazia um leve travo salobro do suor que se lhe entranhava durante o dia quando transportado às costas dobrado e atado ao saco. E tudo porque ninguém se atreveu a perder as primeiras gotas que caíram e o lavaram de três dias de poeira e transpiração transbordante. A chuva podia terminar de um momento para o outro. O céu escuro não deixava adivinhar a dimensão da chuvada.
Choveu toda a noite. Foram bebedeiras de água e de pragas devolvidas ao sossego dos espíritos saciados da guerra da sede. Qual alambique destilando o melhor álcool, cada cantil sabia melhor que o anterior, depois de bem lavados os telhados da tenda que nos abrigava. Ninguém mais dormiu. Não só porque todos queriam beber até não poder mais, mas também porque a chuva inesperada encharcou tudo, entrando pelas tendas adentro.
Meditativo, o "Montijo" está sentado à porta da tenda de pernas cruzadas e olhar fixo no fio de água que escorre para dentro do cantil.
- Porra meu Alferes! E choveu mesmo. Diz sem tirar os olhos da água que corre límpida para dentro do terceiro ou quarto cantil que enche.
- Agora é que você começa a ir à missa ó "Montijo".
- Náh! O meu primo era um beato do caraças que até ajudava à missa. Mesmo assim não deixou de se enfiar por uma ribanceira abaixo com uma bebedeira que nem queira saber. Olhe, ainda ficou com menos dentes do que eu.
- Mas ó "Montijo"; isso foi da bebedeira.
- Ó meu Alferes; e Deus naquela altura também estava distraído ou com os copos, não? Ao que consta, Deus não dorme... nem bebe. Só que... sei lá…
Pronto. E assim se tresmalhou mais uma ovelha que se admitiria poder constituir-se num sério candidato ao rebanho de Deus, passada que foi aquela provação de tão grande aperto e sofrimento.
Talvez na próxima, quando Deus e os homens ousarem desafiar as convicções de um "Montijo" que entende que a chuva nem sempre cai quando Deus quer ou manda…/…

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Entrevista a Alain de Benoist (3)

via INCONFORMISTA.INFO de Miguel Vaz em 18/05/09
(Última parte de uma entrevista original do blogue Dissonance)

É tido como uma referência da geopolítica, nomeadamente junto do movimento eurasiático de Aleksandr Dugin, que é bastante elogioso a seu respeito. Podemos falar disso? O que pensa que as teorias Eurasiáticas podem trazer à Europa e a França?
Tenho grande amizade e admiração por Aleksandr Dugin, pela sua cultura, a sua coragem, a sua capacidade de trabalho, a amplitude da sua obra e a grande continuidade dos seus esforços. Deve-se-lhe a actualização do pensamento dos primeiros teóricos eurasiáticos e de ter demonstrado a actualidade dessa linha de pensamento. Soube também confrontar, para fazer uma síntese sugestiva, acervos ideológicos por vezes diferentes. Deu à geopolítica uma dimensão espiritual que lhe faltava. Sigo o seu trabalho com muita atenção. Quanto às teorias eurasiáticas, podem trazer muito, não só à Europa e à França, mas também aos habitantes de outros continentes, se considerarmos que para além da Eurásia geográfica, permite encarar um novo "Nomos da Terra" constituído segundo a ideia de diversidade, autonomia dos povos, democracia participativa e primazia dos valores não comerciais.

Para os franceses e europeus, as grandes preocupações do futuro são a plausível liderança económica da China e a explosão demográfica das populações muçulmanas, nomeadamente no interior da Europa. De que forma analisa a (in)compatibilidade destes elementos?
A China foi obviamente chamada a desempenhar um papel de primeiro plano no século XXI, mas é demasiado cedo para dizer que exercerá uma verdadeira "liderança económica". A China inscreve tradicionalmente a sua acção num quadro a longo prazo. O seu modelo não está isento de contradições, e deverá debater-se com numerosas dificuldades interiores (não serão apenas as disparidades entre as suas regiões e os seus meios sociais). No plano geoestratégico, espero ver a China associada ao continente euroasiático, mas ignoro a sua tendência natural ao "auto centrismo". No que diz respeito aos Estados Unidos, parecem hesitar entre diversas atitudes possíveis. Quanto à explosão das populações muçulmanas, é um facto real, mas que não deve ser sobrevalorizado. Na Europa, no espaço de uma ou duas gerações, os imigrantes adoptam os comportamentos demográficos locais. À excepção da África negra e da zona indo-paquistanesa, o crescimento demográfico tem vindo a abrandar um pouco por toda a parte. O verdadeiro problema está relacionado com a baixa natalidade dos países europeus, que cria uma baixa de pressão e se traduz por um envelhecimento da população.

Foi, durante muito tempo, uma das pontas-de-lança do GRECE. Que é feito do grupo actualmente?
O Grupo de Pesquisa e Estudos para a Civilização Europeia (GRECE) é uma associação cultural criada em 1969. Participei regularmente nas suas actividades, mas nunca ocupei um cargo dirigente. A associação continua actualmente o seu trabalho, em ligação com diversas universidades e intelectuais europeus.

Questão de ficção científica: como imagina o futuro do continente (Europa e Rússia) em... digamos, 2020?
Não é a minha tarefa prever o futuro, e não tenho imaginação para especular onde estarão a Europa e a Rússia em 2020. A história está sempre aberta, o que não significa que tudo seja possível. Naturalmente, é possível fazer cenários, mas a dificuldade começa quando queremos atribuir-lhes um coeficiente de probabilidade.

No último 24 de Março, registou-se o aniversário dos bombardeamentos de 1999 sobre a Sérvia. Há um ano, o Kosovo "tornou-se" um Estado independente. O que tem a dizer sobre estes acontecimentos? Qual é, a seu ver, o futuro do Kosovo?
O aniversário dos bombardeamentos de 1999 sobre a Sérvia desperta em mim a lembrança de uma grande cólera e de uma terrível humilhação. Cólera diante do dilúvio de contra-verdades e de mensagens difamatórias que então foram transmitidas pela imprensa ocidental contra o povo sérvio, humilhação de ter assistido ao primeiro bombardeamento de uma capital europeia pelos americanos desde o fim da última Guerra Mundial. A Europa revelou nessa ocasião uma triste verdade: impotente, quase paralisada, sem qualquer consciência dos desafios globais, objecto da história dos outros em vez de sujeito da sua própria história. Quanto ao Kosovo, observo que a sua proclamação de independência foi apoiada pelas mesmas potências que se recusaram a reconhecer a independência da Abkhazia ou da Ossétia do Sul: a Geórgia teve direito ao respeito da sua "integridade territorial", enquanto a Sérvia não teve esse direito. Isso dá uma ideia da lógica que prevalece actualmente na diplomacia internacional. Por agora, o Kosovo parece-me ser o primeiro Estado mafioso da História. Duvido que o seu futuro seja particularmente brilhante.

Poderia aconselhar-nos cinco obras essenciais, e cinco sítios ou blogues a consultar?
Não me sinto muito à vontade no universo dos blogues para recomendar aqueles que serão os melhores. Da mesma forma, sinto-me incapaz de enumerar "cinco obras-chave a ler". Quanto a obras-chave, há pelo menos várias centenas! Recomendo apenas a leitura de obras que ajudem a compreender o momento histórico que vivemos, e por outro lado os grandes clássicos do pensamento político e geopolítico cujos ensinamentos podem ainda ter valor actualmente, de Maquiavel, Hobbes e Rousseau até Max Weber e Carl Schmitt. Por último, sem dúvida por inclinação pessoal, diria que a compreensão das coisas supõe um mínimo de conhecimento filosófico. Heidegger, para dar um exemplo, desempenhou na minha formação um papel que ainda hoje subsiste.