quinta-feira, 28 de maio de 2009

As mulheres nas crises académicas de Coimbra

via Caminhos da Memória de Maria Manuela Cruzeiro em 27/05/09
  1. A participação das mulheres nos movimentos estudantis da década de sessenta, pontuados pelas crises de 61-62, 64-65 e 68-69, tem, como vem sendo assinalado, uma crescente expressão quer quantitativa, quer qualitativa. O que significa que a entrada em massa das mulheres no movimento associativo alterou profundamente as suas características. E, para tal, basta comparar [...]

Futuristas!

via INCONFORMISTA.INFO de Miguel Vaz em 26/05/09
"É um movimento essencialmente Europeu. A construção do caminho geral e elucidativo do particular de cada colectividade, da parte da Terra que é a cabeça da Geografia.
Marinetti, da raça dos condottieri e essencialmente poeta, foi o seu genial iniciador, e bem pronto intervém decisivamente na política própria da sua colectividade.
Mas Marinetti quando inventou a palavra futurista não fazia afinal nada mais do que reagir violentamente, pelos mesmos processos, contra os movimentos sociais dos povos nórdicos em evidente supremacia sobre os meridionais. De modo que a reacção provocada por Marinetti teve como resultado esplêndido a generalização dum movimento que se estava localizando apenas no Norte da Europa: Quando vencem os comunistas na Rússia surgem simultaneamente os fascistas na Itália. E as outras colectividades da Europa também procuram a expressão política que lhes seja própria, privativa e actual.
A impressão desagradável que provoca nalguns a palavra futurismo é como os petizes que fogem de casa pela primeira vez e aos dez metros já têm medo de não saberem voltar para casa!
Há um verbo grego antigo arkhein que quer dizer o sentido de chegar primeiro. Desse verbo vem a palavra arcaico que quer dizer antigo; em grego, o que veio primeiro. Pensemos naquele dia em que, o que hoje é antigo chegou cá a este mundo pela primeira vez. Nesse dia o antigo era futurista. Pois em grego o sentido d'antigo é precisamente aquele que faz hoje rir na palavra futurista.
O mundo não é novo nem velho. Se não houvesse confusões, se houvesse a coragem para não fazer confusões, o mundo seria apenas antigo. Ser antigo é o direito de recordar. E saber recordar é o único que nos distingue dos outros animais. Bem o sabe o povo que ignora a palavra inteligência e em troca conhece a palavra memória. daqueles que o povo admira diz que têm muito boa memória.
Todos sabemos o que significa actualmente a palavra arcaico: o que já não se usa. Mas o que já não se usa é apenas o feitio que tinha da primeira vez que apareceu. Tirando o feitio tudo o mais continua igual. Arcaico hoje significa o contrário do que queria dizer em grego."

Almada Negreiros
in "Manifestos e Conferências".

83 Anos do 28 de Maio

via FALANGISTA CAMPENSE de Francisco Pereira em 27/05/09

28 de Maio Sempre! Comunismo nunca mais!

terça-feira, 26 de maio de 2009

Há 90 anos, na ilha de Príncipe

via Textos longos, passatempos, etc & tal... de Carlos Medina Ribeiro em 26/05/09
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Por Nuno Crato
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EM 1919, A TEORIA da relatividade de Einstein, formulada em 1905 na sua versão restrita e em 1916 na sua forma geral, era já famosa entre os investigadores, mas era ainda desconhecida do público e ainda muito pouco referida nas universidades. Era então, em grande parte, uma formulação matemática que explicava fenómenos paradoxais sobre o comportamento da luz, mas que não tinha sido objecto de nenhum teste decisivo. A ocasião surgiu em 1919, com um eclipse total que permitiria registar a luz das estrelas passando perto do Sol. Nesse alinhamento, as estrelas tornam-se invisíveis para nós, pois o muito maior brilho do Sol esconde-as.
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Mas durante um eclipse total passam a ser visíveis, pois a Lua esconde completamente a nossa estrela. Fotografando as estrelas no limbo do Sol, pensaram os cientistas, seria possível medir o seu deslocamento aparente. Esse deslocamento seria devido à deflexão da luz na passagem por perto de um objecto de grande massa: o Sol. Ora a teoria de Newton previa um afastamento diferente do previsto pela teoria de Einstein. Era altura de pôr à prova a teoria da relatividade geral.
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Organizaram-se duas expedições para fotografar o eclipse. Uma à ilha de Príncipe e outra a Sobral, no Brasil, dois locais situados na faixa de totalidade do eclipse e dois territórios de língua portuguesa. O astrónomo britânico Arthur Eddington, figura central na comprovação e divulgação da relatividade, esteve em Príncipe, numa expedição atribulada. Outros astrónomos britânicos deslocaram-se a Sobral. Os resultados das medidas, que essencialmente corroboraram a relatividade, deram a Einstein uma notoriedade internacional.
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Tudo isto, e a introdução da relatividade em Portugal, foi discutido esta semana em animadas sessões na Sociedade de Geografia de Lisboa e na Biblioteca Nacional. Nesta última, decorre actualmente a magnífica exposição "Estrelas de Papel", dedicada à astronomia, onde se mostram as obras mais emblemáticas dos séculos XIV a XVIII, incluindo o período da revolução astronómica. A mostra é complementada com alguns instrumentos científicos da época.
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Quinta-feira 28 de Maio, no Observatório Astronómico de Lisboa, à Ajuda, a partir das 14h30, há um outro evento público comemorativo dos 90 anos da expedição de Eddington. Nele se fala do papel dos astrónomos portugueses no acompanhamento das novidades científicas que Einstein e outros trouxeram ao mundo.
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Os interessados, além de seguirem as sessões, podem ler um artigo (doi:10.1017/S0007087408001568) recentemente publicado no "British Journal for the History of Science", onde Elsa Mota, Paulo Crawford e Ana Simões explicam o desinteresse das instituições portuguesas na revolução einsteiniana, mas sublinham o papel de alguns astrónomos, nomeadamente de Manuel S. Melo e Simas (1870-1934), que tentou uma verificação observacional da teoria da relatividade. Este cientista procurou medir a deflexão da luz ao passar perto de Júpiter, o planeta de maior massa do sistema solar, de forma a complementar as observações do eclipse de 1919.
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Quem for ao observatório da Ajuda terá ainda ocasião, no final, de fazer uma visita guiada ao próprio observatório. É uma oportunidade, infelizmente rara, de ver uma das maiores preciosidades científicas do nosso país.
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«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 23 de Maio de 2009

NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados. 

Museu Geológico

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 24/05/09

-PATRIMÓNIO DE UMA RESPEITADA e saudosa instituição pioneira, nascida m 1857, sob o reinado de D. Pedro V, com a designação de Comissão Geológica do Reino, o Museu Geológico é a memória, que teima em não morrer, de uma instituição que prestigiou o País durante cerca de um século e meio, inexplicavelmente extinta em 2003, num grave atentado à Geologia portuguesa e sentida ofensa aos seus cultores.
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Nos tempos mais recentes, que me foi dado testemunhar, e sob a designação oficial de Serviços Geológicos de Portugal (desde 1917), foi notável a parceria que esta nobre instituição desenvolveu com as universidades nacionais, em especial com a de Lisboa, sobretudo, através dos professores Carlos Teixeira, Orlando Ribeiro e Torre de Assunção, meus mestres. A cartografia geológica do território nacional teve então progressos reconhecidos. Foram muitos os docentes desta Universidade que concluíram os seus doutoramentos com o suporte logístico dos Serviços Geológicos, e foram muitos os geólogos destes mesmos Serviços que se doutoraram na Universidade de Lisboa sob a orientação científica de alguns dos seus professores.
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Por portaria oficial de 1859, a velha Comissão Geológica do Reino ficou instalada em Lisboa, no 2º piso do edifício do antigo Convento de Jesus, na Rua da Academia das Ciências, e é aí que resiste o Museu Geológico, uma relíquia do século XIX, que não pode deixar de ser visitado. Este, que é o mais completo e valioso arquivo da geodiversidade portuguesa, foi constituído aquando da criação da citada Comissão, em especial, a partir dos exemplares colhidos pelos pioneiros e grandes vultos nacionais das Ciências da Terra, Carlos Ribeiro, Nery Delgado, Paul Choffat e por muitos outros que lhes seguiram as pisadas.
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Além do seu enorme valor científico, tem grande interesse histórico e museológico, uma vez que foi nas suas instalações que nasceram a Geologia e a Arqueologia portuguesas, como escreveu o Prof. Magalhães Ramalho, o seu incansável defensor e actual director. Igualmente, a vastidão das salas, o mobiliário e o modelo expositivo muito marcado pelas concepções museográficas e pelo estilo da época, conferem-lhe um carácter único no País, cuja importância patrimonial é reconhecida por especialistas dos vários cantos do mundo.
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As suas vastas colecções, nomeadamente, as de Paleontologia, Estratigrafia, Arqueologia e Pré-história do Homem, revestem-se de grande interesse científico como material de referência, continuando abertas aos investigadores nacionais e estrangeiros.
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Visita a não perder.

PORTUGAL À DERIVA

via MOVIMENTO LEGITIMISTA PORTUGUÊS de Joaquim M.ª Cymbron em 24/05/09

Desonra, miséria e dor, eis o quadro de Portugal. E lembrando um dos mais conhecidos sonetos de Camões, eu direi que a miséria e a dor sobejam já que bastava somente a desonra para a perdição de um povo.

Portugal foi e terá de voltar a ser uma nação sacrossanta, merecedora de toda a reverência pela missão que ainda não completou, missão excelsa, missão que constitui a sua razão de ser, missão que não pode falhar. Hoje, anda perdido porque, há uma trintena de anos, o desviaram brutalmente do seu rumo.

Quem são os agentes de tão vil atentado? --- Não perderei tempo a mencioná-los porque os autores materiais são do conhecimento público: homens despudorados, gente sem pundonor e sem brio, vendilhões da Pátria, concussionários de uma nação inteira, energúmenos a quem o seu democratismo (ou talvez por causa dele) não impede que se entretenham «(...) no ofício novo / a despir e roubar o pobre povo!» (1).

Passo, pois, por alto o nome de quem não carece de apresentação. Como responsável destes factos, poderia ainda apontar o povo, enquanto não sofre, como vassalo, as prepotências e desmandos de um estranho soberano que é ele próprio. Esta é a construção da democracia. Mas eu, como continuo a sentir uma repugnância invencível pelo absurdo, e não deixo de considerar que o sufrágio universal é um manto de completa inimputabilidade a cobrir os eleitos das urnas, não lhe concedo foros devidos a pessoa humana capaz.

Onde se encontram, então, os outros culpados? --- Em cada um que com o seu silêncio timorato, um vago receio das consequências, os respeitos humanos, o pavor de quebrar a confortável cadeira de um quotidiano sem sobressaltos, em suma, com a sua cobardia, assiste, inerte, à consumação da tragédia e se torna, ipso facto , cúmplice de um repugnante crime de lesa-pátria.

Perante este quadro, é difícil dizer que mais nos há-de espantar: se a malícia de uns ou a complacência dos outros; se os instintos destruidores daqueles ou a passividade dos últimos!

Quisera eu que este fosse um apontamento breve e vou esforçar-me por o conseguir. Não se pode, todavia, falar sobre Portugal e a sua situação, sem passar os olhos, ainda que rapidamente, pelo que lá fora acontece. Até porque é lá que nos querem diluir.

O falar pedante dos nossos tecnocratas, acolitados pelo coro pretensioso dos democratas que nos desgovernam, pretende sufocar-nos no seio de uma Europa, a nós que fomos chamados para uma missão ecuménica, a um povo que encheu as partidas, a uma nação que se dessangrou no zelo de cristianizar o mundo. Seria ridículo, se ao mesmo tempo não fora trágico.

Reduzidos hoje às dimensões do séc.XIV, julgam por isso acertado orientar a política a partir daí. Apesar de muitas coisas serem tristemente verdadeiras nos dias que correm, esquece-se ou, o que é pior, deseja-se calar que há mais: há a civilização e há a cultura que deixam as suas marcas.

Que Europa nos destinam? --- A Europa de uma Itália, onde durante anos a fio ditou leis a praga da democracia-cristã, ainda por cima impotente para esconder as suas ligações com a Maçonaria, e cujas sequelas continuam vivas? Pretenderão dar-nos a Europa de uma França sempre dúbia, ora burguesa, ora proletária, tão depressa liberal como socialista, de um chauvinismo feroz ou à beira de abrir mão da própria identidade nacional? Será ideia deles seduzir-nos com uma Alemanha que ainda parece dividida e não descobre meio de afugentar fantasmas de guerra? Ou finalmente haverá o projecto de impor-nos a imagem de uma Inglaterra, colosso que subjugou o mundo com ardis de flibusteiros, enriqueceu no saque e na pilhagem, sempre grandiosa no roubo e, hoje, Babilónia da moderna Europa, caída a capa do seu puritanismo, que tantas chagas cobria, já não consegue esconder a podridão que a rói? É a esta Europa que querem amoldar-nos?

A resposta encontrar-se-á no Clube de Bilderberg, selecto quanto baste para garantir uma pluralidade muito conveniente. Tudo ao jeito do mais puro estilo revolucionário, ríspido e inflexível se enfrenta oposição, não perdendo oportunidade em revelar-se generoso e compreensivo, quando os outros se acomodam, em nome de uma tolerância sonoramente proclamada, mas de que nunca dão exemplo.

Esse círculo, que escapou ao genial poeta florentino, é antro das mais engenhosas perfídias que se tramam e que têm repercussão internacional. Ocupam-no os privilegiados que idolatram a Europa, esta Europa ultimamente pronta a franquear portas a uma Turquia, mas que já não tem lugar para a Suíça, pela vantagem meridianamente clara de preservar uma distinta identidade política no país que é banco oficial e casa-forte das fortunas que se fazem por esse mundo fora, algumas delas sabe Deus como.

Não obstante os erros, que por cá se praticaram, tal Europa é-nos estranha. Alheou-se de nós quando se afastou da ortodoxia da Fé, e isso ocorreu com o cisma luterano. A partir de então, os Pirinéus separaram Portugal e Espanha da Europa antropocêntrica, a Europa que mergulhava na vertigem do abismo. Nós conservávamo-nos como derradeiros paladinos do universalismo, do objectivismo e da religiosidade, que caracterizavam a visão teocêntrica do mundo que se ergueu sobre os escombros, a que as hordas do Leste reduziram o corrompido Império Romano do Ocidente.

Fomos, na realidade, paladinos do universalismo espiritual, que vicejou sob a égide da Igreja Católica, a única internacional possível. E este universalismo, que não abafava a individualidade de cada povo, era barreira eficaz contra o poder ilimitado do Leviatão, cujas cabeças já começavam a chocar doutrinas enciclopedistas, mero prelúdio do império esmagador do capital em concorrência satânica com o socialismo.

Campeões do objectivismo, defendemos que cumpre ir buscar a verdade, em vez de sermos o centro do conhecimento. Entre os nossos, há um nome que é legenda de glória, nome que ficará a contar ao mundo como Portugal não era apenas discípulo dilecto de Marte e de Neptuno: o batalhador, o navegante também sabia dar vez ao pensador. E surge o humilde, o apagado, o sumido mas tão subido Frei João de São Tomás, lumionar da metafísica, expoente da filosofia portuguesa, orgulho do saber cristão.

Por último, evangelizadores até à medula, morríamos mártires proclamando a verdadeira religião contra cultos pagãos e mitos nascentes.

Como se vê é algo de incomparavelmente mais profundo e absolutamente distinto de uma corriqueira questão de latitude ou de longitude. Portugal deixou de ser europeu, quando a Europa apostatou.

Infelizmente, Portugal também pecou, Portugal está hoje desviado da linha que a si próprio traçara, Portugal encontra-se de olhos fechados à luz. No entanto, devemos esperar a restauração de Portugal através da acção de um escol que sempre desponta nas épocas de crise.

Mas antes é curial definir o que se entende por escol:

Se o escol, de modo algum se confunde com a actual camarilha do poder, não importa menos evitar a tendência muito acentuada de o esgotar nas classes historicamente dominantes, cujos membros se tornaram incapazes de dar prossecução aos valores positivíssimos, de que se dizem depositários. Isto é fundamental, para não se correr o risco de que os menos esclarecidos se riam de tais valores, personificados em múmias caricaturais. Portanto, cumpre ao escol autêntico afirmar-se sem ambiguidades, e essa obrigação é maior agora que vemos a sorte da res publica confiada a quem fez do exercício da governação uma orgia de devassos e de medíocres.

Quando a fibra impoluta da nação vibrar, no dia em que o verdadeiro escol se congregar, veremos dissipar-se o horizonte negro que se postou diante dos nossos olhos e parece querer ficar, é-nos lícito voltar a admitir a possibilidade de que se arrede para longe o castigo pavoroso que nos ameaça.

No meio das trevas, como esperança radiosa, brilha a luz fulgurante da Rainha e Padroeira de Portugal. Só um coração amantíssimo de Mãe pode olhar com tamanha indulgência um filho ingrato e, por isso mesmo, tão necessitado da Sua clemência. Lembrem-se os Portugueses que a única lei a que devem sujeição é a da grei que devem amar, é a da sua terra de Santa Maria.

Sabiamente dirigido, irá o povo português, com alento e com robustez, resgatar o chão sagrado, chão regado de sangue, sangue que foi de mártires que semeiam esse solo e de heróis que o juncam. À honra do combate, seguir-se-á a glória do triunfo. Retome Portugal as veredas da Tradição e logo verá como chega o arrebol da redenção!

Mês de Maria Santíssima

Joaquim Maria Cymbron

NOTAS:

  1. Os Lusíadas , VII, 85, vv.7-8.

Era uma vez… Portugal (XXXVIII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 25/05/09

O INFANTE D. HENRIQUE E A UNIVERSIDADE

Comemoramos este ano os 600 anos do nascimento do Infante D. Henrique. Esta efeméride obriga-nos a prestar uma atenção especial a esta personagem, ao homem que ficou na História como o impulsionador e responsável pelo arranque dos Descobrimentos Portugueses. É, de facto, esta a faceta mais conhecida do Infante D. Henrique, aquela que surge referida nos manuais de História. Porém, o Centenário do seu nascimento é uma boa ocasião para irmos um pouco mais além, para conhecermos um pouco melhor outros aspectos da sua biografia e da sua acção a outros níveis. Vamos hoje falar do Infante D. Henrique enquanto protector da Universidade de Lisboa, referindo a sua acção decisiva em prol da instituição e assinalando o papel decisivo que desempenhou na reforma universitária.

A Universidade havia sido criada em 1290 por D. Dinis, sob a designação de Estudos Gerais, tendo ficado sediada em Lisboa. Durante o século seguinte mudaria várias vezes de sede, oscilando entre a capital e Coimbra. De facto, a instituição enfrentava grandes dificuldades, e só a custo conseguiria sobreviver e transformar-se numa verdadeira Universidade. Foi o rei D. Fernando quem deu o primeiro grande impulso, ao fixá-la de vez em Lisboa e ao proceder a importantes reformas e melhoramentos, nomeadamente na sua organização e jurisdição, melhorando a qualidade de ensino ao promover a vinda de professores qualificados de várias universidades estrangeiras, mas sobretudo ao providenciar boas instalações para a Universidade, garantindo também alojamentos para professores e estudantes. Na crise de 1383-85, a instituição desempenha um importante papel, pois o futuro D. João I rapidamente compreendeu a importância de ganhar o apoio da Universidade para a sua causa. Logo em 1384 concede-lhe uma série de importantes privilégios; em troca, conta com o apoio de vários legistas, entre os quais o de mestre João das Regras, que defendeu a causa do Mestre de Avis nas Cortes de Coimbra. Ganha a guerra com Castela, assegurada definitivamente a posição da dinastia de Avis no trono de Portugal, o novo rei amplia os privilégios e procede a diversas reformas na Universidade, de modo a eliminar de vez os velhos problemas e deficiências da instituição e a equipará-la ao níveis das melhores universidades da Europa. Uma das medidas que tomou foi destacar alguém de sua inteira confiança para tratar dos assuntos referentes á Universidade, criando o cargo de "Protector dos Estudos de Portugal". Foi este cargo que o Infante D. Henrique desempenhou durante boa parte da sua vida, e que selaria a sua ligação ao mundo académico.

Não se conhece a data exacta em que o Infante D. Henrique foi nomeado Protector da Universidade. Sabe-se, sim, que, tal como o seu irmão D. Pedro, desde cedo se mostrou interessado nos problemas da reforma académica. É provavelmente a partir de 1431, data em que se promulgam os Estatutos da Universidade, que o Infante toma a seu cargo a condução da instituição, exercendo uma profunda influência que duraria até á sua morte em 1460. De facto, é com o Infante D. Henrique que o Estudo Geral de Lisboa se torna uma verdadeira Universidade. Os estatutos aprovados naquele ano de 1431 definem com clareza a forma e o conteúdo da vida académica, como seja os graus concedidos, o número e a duração dos cursos, as formas de avaliação e os juramentos que cada graduado deveria efectuar, assim como algumas regras de conduta a cumprir, de que apresentamos um pequeno excerto abreviado do documento em latim:

"Os mestres e doutores deverão apresentar-se nas aulas e nos actos escolares com os trajes doutorais; leitores, licenciados e bacharéis em traje próprio, pelo menos até aos calcanhares; os demais também em traje próprio, pelo menos até ao meio da perna. Que nenhum escolar tenha em sua casa cavalo, jumento, cães, aves de caça ou, permanentemente, mulher duvidosa. Caso contrário, não desfrutará os privilégios do Estudo."

A Universidade era nesse tempo bem diferente da dos nossos dias. O ensino estava associado á Igreja, cujos rendimentos suportavam as despesas da Universidade. Esta dependia assim em grande parte do Papa, sobretudo no que toca ás matérias a ensinar. Por exemplo, o curso de Teologia estava dependente de autorização papal, e só com o ensino desta matéria é que o Estudo Geral de Lisboa se tornava uma verdadeira Universidade. Embora o Papa tenha dado o seu consentimento ainda antes do ano de 1400, acontece que os custos que tal curso acarretava impossibilitaram durante vários anos a sua efectivação. Só em 1448, e graças ao Infante, é que tal foi possível, e portanto só neste ano é que a Universidade podia ser assim chamada. Para tal D. Henrique disponibilizou parte dos rendimentos que recebia da ilha da Madeira, cuja continuidade ficou garantida no seu próprio testamento. Tomou também algumas medidas no sentido de aumentar as fontes de rendimento da Universidade, de forma a garantir algum desafogo financeiro. Conseguiu, assim, anexar ao Estudo Geral os rendimentos de várias igrejas, e estipulou em algum casos o pagamento de propinas.

A acção do Infante D. Henrique não se limitou á mera questão financeira. De facto, sabemos que manifestava uma grande preocupação com a qualidade do ensino e com as suas condições, acompanhando de perto a resolução dos problemas existentes. Em primeiro lugar, dotou a Universidade de casas próprias, de modo a evitar futuros problemas de instalações e de alojamentos para os professores e estudantes. Depois, aperfeiçoou o controle dos funcionários sobre as situações irregulares, de modo a assegurar o bom funcionamento do ensino. Por exemplo, toma conhecimento que alguns professores (que se chamavam na época lentes) recebiam o ordenado mas faltavam frequentemente, pelo que ordena o seguinte:

"O dia em que o lente não ler, seja-lhe descontado, se substituto não puser; e se o quiser pôr, mando que o ponha com consentimento dos escolares e aja a metade do salário, e não mais".

O problema da ligação entre o saber teórico e livresco que se ensinava nas universidades e o saber prático de navegação que os portugueses ampliavam na época, igualmente sob orientação do mesmo Infante, é algo que se discute ainda hoje em dia. Sabe-se que a famosa Escola de Sagres não foi uma escola no sentido estrito do termo, mas sim a designação do conhecimento prático de navegação, astronomia e cartografia lentamente desenvolvido pelos marinheiros portugueses. De uma maneira geral, aceita-se que o que se aprendia nas universidades de pouco ou nada servia para as viagens de descobrimento, pois estas resultavam da prática dos homens do mar e da resolução dos problemas concretos, e não de velhas ideias, muitas vezes erradas, transmitidas pelos geógrafos da Antiguidade. As viagens de Descobrimento resultavam assim de verdadeiros conhecimentos e tecnologias "de ponta" e não do saber livresco. Porém, alguns historiadores conseguem detectar uma ligação entre as duas esferas, do seguinte modo: sob orientação do Infante foram introduzidas novas cadeiras na Universidade, que curiosamente se ligam de algum modo com as viagens de descobrimento: Aritmética, Geometria e Astrologia. Porém, embora tal facto fosse provavelmente mais do que uma simples coincidência, a verdade é que o Infante sabia, ou veio mais tarde a aperceber-se que o futuro dos Descobrimentos estava nas mãos dos marinheiros de Lagos e não dos estudantes e professores de Lisboa.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal

Era uma vez… Portugal (XXXVII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 24/05/09

Tomé Pires e a Primeira Embaixada Europeia à China

Portugal pode orgulhar-se de ter descoberto novas terras, desbravado novos caminhos e trilhado pela primeira vez diversas rotas marítimas. Este fim de milénio é propício á comemoração de diversos feitos praticados pelos nossos antepassados há quinhentos anos; mesmo agora, em 1993, nunca é demais referir o facto de se comemorar os 450 anos da chegada dos portugueses ao Japão. Mas quanto á vizinha China, Portugal não tem assinalado devidamente a presença portuguesa no século XVI. Quando se fala na China, surge-nos geralmente o nome de Marco Polo, como autor da grande divulgação deste país na Europa nos finais da Idade Média. O que, por vezes, esquecemos, é que a primeira embaixada europeia á China foi portuguesa, levada a cabo por um homem singular, chamado Tomé Pires. É deste português, da sua vida e da sua missão no Império do Meio que vamos falar hoje.

Tomé Pires nasceu em Lisboa, onde viveu a maior parte da sua vida. O seu pai era boticário do rei D. João II, e Tomé, naturalmente, aprende desde cedo as artes e os conhecimentos da profissão. Tal foi o seu desempenho que conseguiu, com pouco mais de 20 anos, tornar-se o boticário do príncipe D. Afonso. Várias vicissitudes da sua vida levaram-no a partir, em 1511, para a Índia, onde os portugueses consolidavam posições e ampliavam consideravelmente os seus domínios. Durante alguns anos visita várias cidades, nomeadamente Malaca, recém-conquistada por Afonso de Albuquerque e que abriu aos portugueses as portas do Extremo Oriente. É aqui que escreve uma descrição do Oriente, uma obra ímpar de rigor, seriedade e veracidade, a que chamou Suma Oriental, e que é hoje um livro extraordinário para o estudo quer dos portugueses no Oriente, quer das civilizações asiáticas.

Porém, Tomé Pires nunca sairia do anonimato se não tivesse sido a sua nomeação para chefiar a embaixada que o rei D. Manuel havia ordenado que se enviasse ao grande império da China, para estabelecer relações de amizade e acordos de comércio. A sua educação e diplomacia, a sua seriedade e rigor, para além dos excelentes conhecimentos botânicos, tornavam-no no homem ideal para conduzir a bom termo esta empresa arriscada. Pires parte, assim, para a China, chegando á costa chinesa em Agosto de 1517. É bem recebido por uma armada chinesa, seguindo para Cantão. Aqui começam os problemas. Os portugueses, como outros povos, tinham como hábito e sinal de amizade fazer uma saudação, ao chegarem a um porto, com tiros de canhão. Na China, porém, isto foi encarado como uma ofensa e sinal de falta de respeito, lançando dúvidas aos chineses sobre as intenções dos estrangeiros. Após negociações, o assunto é resolvido, recebendo então Pires autorização para desembarcar, o que faz do seguinte modo:

"[desembarcou] no cais de pedra, com grande estrondo de artilharia e trombetas, e a gente vestida de festa, ele e sete portugueses, que ficaram em sua companhia para irem com ele a esta embaixada, foram levados a seus aposentos, que eram umas casas das mais nobres que havia na Cidade."

Estes primeiros contactos foram coroados de êxito, demonstrando os funcionários chineses grande entusiasmo em preparar a viagem do embaixador a Pequim, onde entregaria cartas do rei D. Manuel e presentes ao Imperador. Porém, Pires terá que esperar até 1520, quando recebe finalmente autorização para avançar para Pequim. Entretando, os navios portugueses haviam regressado já a Portugal, contando a D. Manuel o sucedido e o bom prosseguimento da missão.

Chegado a Pequim, estabelece então os contactos com a Corte e o Imperador. A embaixada de Tomé Pires acabará por falhar, devido a uma infeliz série de acasos desfavoráveis aos portugueses. Em primeiro lugar, as dificuldades provocadas pela língua dificultavam e, por vezes, impediam mesmo a comunicação e o esclarecimento de mal-entendidos. Por exemplo, o imperador da China tinha cartas dos seus governadores de Cantão que diziam que o rei português D. Manuel estava disposto a declarar-se vassalo da China, o que, evidentemente, era falso, e que causou alguns dissabores a Tomé Pires. Depois, começavam a chegar todo o tipo de queixas, reais ou inventadas, sobre abusos e roubos feitos pelos portugueses. Sobre isto diz o cronista João de Barros:

"(…) diziam que comprávamos moços e moças furtadas, filhos de pessoas honradas, e que os comíamos assados, as quais coisas eles criam ser assim, porque de gente que nunca tiveram notícia, e éramos terror e medo a todo aquele Oriente".

A má fama dos portugueses cresce, de facto, durante este tempo, comprometendo de vez o sucesso da embaixada. Outro factor desfavorável ocorreu ainda: o sultão de Malaca, que os portugueses haviam expulso aquando da conquista da cidade, declarara-se vassalo do Imperador da China, e vinha agora fazer campanha contra os portugueses, acusando-os de serem ladrões e piratas. Finalmente, o Imperador havia tratado os portugueses com cortesia, perdoando o seu desconhecimento das regras de etiqueta chinesa, mas a sua morte neste tempo veio abrir caminho aos funcionários chineses, que desde cedo se haviam mostrado avessos aos portugueses. Assim, recusam os presentes que Pires pretendia oferecer, e mandam embora a embaixada, preparando a sua destruição. Quando os portugueses chegam a Cantão são presos, e os navios dos que os esperavam, atacados e destruídos. É exigida a entrega de Malaca em troca do embaixador e dos seus homens. Assim, todos os portugueses, á excepção de Pires e de um companheiro, são condenados á morte sob acusação de serem ladrões. Quanto a Tomé Pires, nada mais se sabe de concreto. Fernão Mendes Pinto, que por lá passou mais de vinte anos depois, diz ter encontrado uma mulher cristã que lhe disse chamar-se Inês de Leiria, orfã, e ser filha de Tomé Pires. Diz também que encontrou um homem velho que lhe disse o seguinte:

"Sou (…) um pobre cristão português, por nome Vasco Calvo, (…) que agora faz vinte e sete anos que nesta terra fui cativo com Tomé Pires, que Lopo Soares mandou a este Rei china, que depois acabou desastradamente por um desarranjo de um capitão português".

Assim, é possível que Tomé Pires tivesse sido exilado de Cantão, e não tivesse sofrido a mesma sorte dos seus companheiros. Se as contas de Fernão Mendes Pinto estão correctas, então terá morrido cerca de 1540. De qualquer modo, o fracasso da sua missão atrasou em cerca de trinta anos o estabelecimento de relações entre Portugal e a China, sendo durante este tempo interdita a entrada de portugueses no território chinês. A fixação dos portugueses em Macau coroou definitivamente o relacionamento entre chineses e portugueses que agora, passados quatro séculos e o período dos Descobrimentos, Portugal devolveu de vez á China em 1999.

Paulo Jorge de Sousa Pinto - texto de apoio a programas de rádio sob a designação "Era uma vez… Portugal", emitidos entre 1993 e 1996 pela RDP-Internacional, em associação com a Sociedade Histórica da Independência de Portugal