segunda-feira, 8 de junho de 2009

Clive Granger: matemático, estatístico, Nobel

via Textos longos, passatempos, etc & tal... de Carlos Medina Ribeiro em 08/06/09
Por Nuno Crato

FALECEU a semana passada em San Diego, na Califórnia, uma das pessoas mais brilhantes mas também mais tranquilas e simples que tive o privilégio de conhecer. Nascera no País de Gales em 1934 e começara por estudar matemática em Nottingham, onde se veio a doutorar na área de séries temporais. Tinha então 25 anos e logo partiu para Princeton, onde trabalhou com o matemático John Tukey e com o economista Oskar Morgenstern, co-fundador da teoria matemática dos jogos.

Em Princeton, Granger aplicou a séries económicas a chamada análise espectral, originada em matemática pura e em física-matemática pelo francês Jean Baptiste Fourier. Desenvolveu uma abordagem diferente para dados económicos, fazendo a sua decomposição em ciclos sobrepostos. Pela mesma altura, notando a dificuldade em tirar conclusões sobre as influências recíprocas de variáveis em evolução, definiu um teste simples para o que veio a ser chamado "causalidade à Granger". Imagine-se, por exemplo, uma empresa com vendas que crescem ao longo dos anos e com despesas em publicidade também crescentes. Será que é a publicidade que causa o aumento das vendas ou que são as receitas que incrementam a publicidade?

O teste de Granger é de uma simplicidade desarmante. Como diria em 1997 numa entrevista ao Expresso, «A minha definição é operacional. Não falo em termos de causa e efeito absolutos, mas baseio-me em dois postulados muito fortes. Primeiro, a causa aparece antes do efeito; segundo, a causa contém uma informação prévia sobre o efeito que nenhuma outra variável possui. Quer isto dizer que a definição de causalidade que perfilho é passível de teste, através da comparação de previsões.»

Não seria essa a única entrevista deste investigador ao Expresso. A segunda correu em Janeiro deste ano, quando esteve em Portugal pela segunda vez, de novo a convite do centro de investigação Cemapre, do ISEG. Nessa altura, já Clive Granger tinha recebido o Nobel de Economia de 2003 [na imagem], em conjunto com o norte-americano Rob Engle. Para trás tinha décadas de descobertas criativas que marcaram a estatística, a econometria e a análise dos mercados financeiros. Clive Granger foi um dos dois ou três matemáticos aplicados que mais influenciaram o estudo quantitativo da economia. Como gostava de dizer, como que a desculpar-se, «sempre quis utilizar a matemática para ser útil».
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«Passeio aleatório» - «Expresso» de 5 de Junho de 2009
NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

Petra

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 07/06/09
A PALAVRA PEDRA chegou-nos, do grego, através do latim, petra, que traduz a ideia de uma entidade natural, rígida, coesa e dura, a que também chamamos rocha. Petra é a antiga cidade da Jordânia repleta de monumentais ruínas escavadas na rocha e Petróleo é o óleo saído do chão, de dentro das pedras, assim como o carvão-de-pedra é o que se extrai das entranhas da Terra, como se de pedra se tratasse. Petrologia é a ciência que estuda as rochas e petrólogos os seus cultores. Petrificados ficamos quando uma notícia nos gela o sangue e nos imobiliza. Petrificados estão os fósseis, ou seja, os restos dos seres vivos do passado que chegaram até nós. Pedra de moinho, pedra de afiar ou de amolar, pedra preciosa, pedra lascada e pedra polida, Idade da Pedra, pedra-mármore, pedra-pomes, pedra-ume, pedra-sabão, chuva de pedra, pedrinha de sal, pedrada, pedra no sapato são expressões que caracterizam o conceito empírico que todos temos de pedra como rocha. De pedra eram a ardósia e o lápis em que esboçámos as primeiras letras, sendo curioso assinalar que lápis, do latim lápis, também quer dizer pedra.

Empedernido diz-se daquele que é insensível como a pedra e pedernal ou pederneira é o sílex, que os nossos avós usavam nos bacamartes, ou que os tetravós destes lascavam, fazendo machados, facas e pontas de seta.

Pedra angular quer dizer fundamento, base ou suporte. Pedro, nome de gente, vem de pedra. «Tu és Pedro e sobre ti levantarei a minha Igreja» disse Jesus ao discípulo. São Petersburgo é o nome da antiga Petrogrado, na Rússia, em homenagem a Pedro, o Grande, e Petrópolis é a cidade brasileira assim chamada em memória do seu primeiro imperador, D. Pedro II de Portugal.

Pedra filosofal ou da sabedoria, que em árabe se diz, al kimia, foi o lema de um saber notável durante a Idade Média, nem sempre devidamente valorizado, onde radicam ciências como a Química e a Mineralogia.

Pedrógão, Alter Pedroso, Pedrouços e Pedrulha são topónimos relacionados com pedras. Aumentativo de pedra, pedrão deu padrão, o marco que os nossos navegadores deixaram na rota dos descobrimentos. Pêro é o nome arcaico de Pedro e Peres são os seus descendentes. Pêro Vaz de Caminha e Pêro da Covilhã são nomes conhecidos da nossa história e Pêro Botelho é o Diabo que não pára de rugir na caldeira que tem o seu nome, no sítio das Furnas, na ilha açoriana de S. Miguel. Peroliva, Peramanca e Perafita são nomes de sítios do Alentejo que evocam grandes marcos de pedra, através do prefixo pera, que traduz a mesma ideia. Tais pedras ou eram verdes (oliva) ou estavam mancas, isto é, tombadas, ou ainda se mantinham fitas, maneira antiga de dizer erguidas, na postura fálica em que as colocavam os nossos antepassados do período megalítico e que os pré-historiadores franceses divulgaram sob o nome de menhires, mantendo a expressão original bretã, men hir, que significa pedra comprida.
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Ampliação do texto publicado no «DN» em 6 de Junho de 2009

OS FASCÍNIOS DO MIGUEL CASTELO BRANCO EM BANGUECOQUE

Leiam-se os comentários trocados entre o Miguel Castelo-Branco e o José Martins
Rui Moio

via DA TAILÂNDIA COM AMOR E HUMOR de Jose Martins em 07/06/09
Certo que todos os dias vou ao blogue do Miguel Castelo Branco http://combustoes.blogspot.com e ver como vai seguindo nas "verduras", na área dos seus desenvolvimentos dentro da historiografia, de suas investigações.
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Fico, algumas vezes, confuso como é possível o Miguel conseguir ter na "pinha" imensa matéria. Não vou aqui escrever que descuro o seu perfil literário e ânsia de pretender descobrir mais um mundo, entre os tantos, que em diversos mares tem navegado.
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Mas porém não deixo de aqui teclar que graças à Internet têm surgido no quotidiano os valores, imaginários, "abichando" neste meio, espantoso, de comunicação que por vezes deixa os incautos, maravilhados, por um valor que na realidade não existe.
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Já li e não me lembro aonde umas frases da escritora Augustina Bessa Luis que os tais valores, para impor aos outros, para impressionar aquilo que não são, entregam-se ao "copismo", uma forma de "plágio", sofisticado, mais ou menos como um cozinheiro dá o mesmo sabor a um prato com outros ingredientes culinários.
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Evidentemente que no tempo de Camilo Castelo Branco, do Eça de Queirós e outros grandes vulgos da literatura portuguesa não existia a Internet, pois se ela já circulasse publicaram o dobro ou mais das obras que escreveram.

O Miguel Castelo Branco já chegou demasiadamente tarde a Banguecoque para dar a entender, a quem lê o seu blogue, que chegou à capital tailandesa para descobrir coisas novas relacionadas com as relações, históricas, entre Portugal e o Sião.
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Já outros, antes do Miguel, descobriram tudo e mais que tudo, pedra por pedra e colocam-nos no anonimato como espécie de conveniência.
Mas eu sei, que os novos historiadores (do colarinho branco) portugueses, que ultimamente, surgiram na Tailândia, vão "abichando", para se elevarem ou atingirem a glória vã, nas dezenas de "peças" que ao longo de anos e anos escrevi por amor e nunca em procura de "mordomias" ou "bronzes" no peito colocados pelos "maiorais" e donos da história, no "Dia de Portugal" que pomposamente lhe deram o nome de Camões e hoje (me parece) das Comunidades Portuguesas.
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A fonte de agua cristalina onde mergulham e saciam suas sedes tem sido no que tenho desenvolvido, (sem valor ortográfico que mereça e bem o sei) no website www.aquimaria.com e nos blogues http://portugalnatailandia.blogspot.com , http://maquiavelices.blogspot.com http://aquitailandia.blogspot.com , cujas pestanas tenho queimado desenvolvendo-os.

Para levar a cabo este meu longo trabalho, nunca me arrastei ou beijei os pés do Poder para "abichar" migalha de pão que fosse, caida de suas mesas, como recompensa.

O orgulho e a puresa do meu ser não me permite lidar com com a hipocresia. Construiu o meu mundo sem "golpes" de machado.

O pequeno texto do Miguel, publicado, a seguir bem nos diz até que ponto vão as suas ambições. Informo (bem ele o sabe) que toda a informação em cima das relações de Portugal e o Reino do Sião, felizmente, estão comigo e não em bibliotecas ou arquivos de Portugal e foi um trabalho de amor e árduo durante 26 anos.

"Quanto mais vou abrindo caminhos na investigação que aqui desenvolvo sobre as relações entre Portugal e o Sião nos séculos XIX e XX, as certezas com que vim armado vão-se desvanecendo perante bibliografia inacessível na Europa...."

Porém o propósito desta pequena croniqueta é relacionada com um artigo que o Miguel publicou, no seu Combustões, com a data de ontem (6.6.09) "Lembrando 6 de Junho de 1944: o estranho contrário" http://combustoes.blogspot.com/2009/06/lembrando-6-de-junho-de-1944-o-estranho.html , que me deixou confuso, como o Miguel Castelo Branco tem conhecimento de tanto!!!

Chegando à conclusão que o Miguel escreve coisas "lindas" inspirado naquilo que outros já escreveram e publicado na Internet.

Uma das fontes, entre outras, onde o Miguel foi beber, para escrever o artigo acima referido, teria sido a do endereço da internet a seguir http://www.angkor.com/2bangkok/2bangkok/forum/showthread.php?t=1250. José Martins

P.S. Não deixa de ser curioso (sem necessitar de tal), que um blogue meu que em tempo esteve lincado ao seu Combustões, o tenha retirado... Porque teria sido? eu sei e regulo-me pelo ditado: "Quem é o teu inimigo? O oficial do teu ofício!"


domingo, 7 de junho de 2009

a força legítima - 1

via portugal contemporâneo de noreply@blogger.com (rui a.) em 25/05/09
«Das actividades dos grupos de intervenção política, ou supondo que a exerciam, não tive notícias directas, mas sim oportunidade de, na vida profissional, encontrar alguns dos envolvidos. Lembro sempre o Dr. Teófilo Carvalho dos Santos, do círculo do escritório do Dr. Abranches Ferrão, e que foi um dos meus amigos mais queridos e mais íntimos.

Num dos sobressaltos da Polícia Política, que em relação ao Teófilo só não acertava nas ocasiões, por 1947 este acordou na sua casa de Alenquer com os agentes a tomar conta do automóvel e a mandar-lhe que os acompanhasse. Pediu breve tempo necessário para se arranjar, foi para a casa de banho, saiu pela janela, calcorreou os caminhos que bem conhecia, e è noite apareceu-me na casa onde vivia com os meus pais (...).

À noite deambulávamos pela cidade tomando necessárias cautelas, mas no fim de alguns meses, com a intervenção ponderada do seu irmão Dr. José Carvalho dos Santos, que fora um brilhante jovem político antes do 28 de Maio, e passara a maior parte da vida em Angola, concluímos que era necessário esclarecer a situação porque tal regime de vida era intolerável para o Teófilo. (...)

Em poucos dias comunicou-me» (o Dr. Augusto Paes de Almeida e Silva, juiz e antigo Governador Civil de Lisboa) «que se tratava apenas de o Teófilo ser testemunha num processo, que a Polícia estava um pouco humilhada pelo fiasco da diligência em Alenquer, e que o deteria por dois ou três dias, mas de´pois de ouvido seria remetido à liberdade. Trazia fixado o dia da apresentação.

Nesse dia o Teófilo rapou o bigode que deixara crescer, deixou em cima de uma estante de livros de minha casa os óculos escuros que por ali ficaram anos, fomos almoçar aos Irmãos Unidos, leivei-o no meu carro à porta da PIDE, e despedimo-nos para dali aos anunciados três dias.

À noite, quando estávamos à mesa para jantar, apareceu o Teófilo, com a boa disposição que raramente perdia, louvando a intervenção do juiz, contando que passara horas de espera para que um Inspector delicadíssimo lhe viesse pedir desculpa do incómodo, mas adiando a conversa para a semana seguintes.

Esses dias decorreram alegres, na data aprazada repetimos o cerimonial, lá ficou à porta, e só voltou dentro de um ano depois, sem inculpação nem desculpas»

Adriano Moreira, A Espuma do Tempo, Almedina, 2009, pp 132 a 134.

sábado, 6 de junho de 2009

O inventor de Monte Carlo

via Textos longos, passatempos, etc & tal... de Carlos Medina Ribeiro em 02/06/09
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Por Nuno Crato
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IMAGINE O LEITOR que tem uma folha de papel com um recorte estranho. Em vez de ser rectangular, como costume, a folha tem uns contornos sinuosos, de forma que é difícil saber qual a sua área. Se a pretender calcular terá dificuldades — mesmo que seja um bom matemático, mesmo que consiga desenhar bem o contorno da folha e exprimi-lo rigorosamente como uma função matemática, pode estar metido em grandes trabalhos.
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Pode tentar um meio de cálculo aproximado, um pouco tosco, um pouco à engenheiro, como diriam alguns matemáticos puros. Comece por colocar a folha de papel no chão. Coloque ao lado uma folha de papel A4, que tem como área 1/16 do metro quadrado. Salpique agora com tinta, ao acaso, mas tão uniformemente quanto possível, as folhas e o chão em redor. Conte depois o número de pingos que caíram em cada uma das folhas e faça uma proporção. Se, por exemplo, a folha de recorte estranho tiver metade do número de pingos dos da folha A4 isso quererá dizer que ela deve ter, aproximadamente, metade da sua área.
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Pois este método de cálculo de áreas (ou, em matemática, cálculo de integrais) não foi desenvolvido por nenhum engenheiro, mas sim por um dos matemáticos de alma mais abstracta do século XX. Chamava-se Stanislaw Ulam, tinha nascido na Polónia, e emigrara para os Estados Unidos, onde trabalhara no projecto Manhattan, que construíra a bomba atómica. Em 1946, quando convalescia de uma doença grave, teve a ideia de recorrer ao acaso para fazer cálculos que, de outra maneira, seriam muito complexos ou mesmo impossíveis. Aos métodos que inventou veio a chamar-se «métodos de Monte Carlo», em óbvia referência à capital da sorte.
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Na sua autobiografia, Ulam explica como tudo aconteceu. «A ideia para o que mais tarde se chamou método de Monte Carlo ocorreu-me quando estava a jogar solitária durante a minha doença. Reparei que podia ser muito mais prático deitar as cartas, para avaliar a probabilidade de sucesso num jogo de solitária (…), ou fazer experiências do processo e simplesmente tomar nota do número de sucessos, em vez de tentar calcular todas as probabilidades combinatórias». Dias depois, Stan Ulam conversou com o seu amigo John von Neumann, o matemático mais versátil da época, e os dois pensaram em formas de desenvolver este método de cálculo aproximado. Adaptaram-no a um problema muito complexo, que era a difusão de neutrões numa reacção de fissão nuclear. Os computadores digitais, que tinham acabado de estar disponíveis para a investigação, tornaram possíveis os cálculos. «Uma característica do método de Monte Carlo é que nunca fornece uma solução exacta», explicou Ulam, «mas fornece estimativas dos valores procurados».
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São palavras curiosas na boca de um matemático puro, um homem que, quando se juntou ao esforço de guerra, se ria de si próprio dizendo que «agora, até faço cálculos com números».
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Ao longo de uma vida dedicada à matemática, Ulam deixou um legado extenso em áreas puras, como a topologia e a análise funcional. As suas criações mais conhecidas, contudo, são eminentemente práticas. Uma é o método de Monte Carlo. Outra é a formulação matemática que obteve para a fissão nuclear e que permitiu a construção da chamada «bomba H».
Stanislaw Ulam nasceu há cem anos, em 1909, em Lwow, na Polónia.

«Passeio Aleatório» - «Expresso» de 30 de Maio de 2009
NOTA: Este texto é uma extensão do que está publicado no 'Sorumbático' [v. aqui], onde eventuais comentários deverão ser afixados.

Histórias que se cruzam

via Ciberescritas de admin em 26/05/09

Cabeça a Prémio
Autor: Marçal Aquino
Editor: Quetzal, €14, 40
quatro estrelas e meia

Um retrato do Brasil profundo sem "paninhos quentes"

Embora a epígrafe escolhida pelo escritor brasileiro Marçal Aquino para "Cabeça a Prémio" seja do realizador e argumentista Sam Peckinpah ("I wanna be able to make westerns like Kurosawa did"), este romance lê-se como se estivéssemos dentro de um filme de Quentin Tarantino.

Em "Cabeça a Prémio" entramos para dentro de um fantástico "faroeste brasileiro", onde todos têm "a cabeça a prémio" e as personagens se movem pelo dinheiro e códigos de honra particulares. Mas a história não nos é contada de uma forma linear. O narrador - omnisciente, omnipresente e que conhece todos os personagens - puxa o leitor para a frente e para trás, obriga-o a estar atento e no final encaixa-se tudo perfeitamente.

Há um "desarranjo temporal", um ritmo e uma linguagem muito próximos do cinema. Embora Marçal Aquino seja considerado um escritor policial, a sua literatura anda por outros territórios.

"Eu não consigo ficar muito tempo com a mesma mulher. Por quê? Ah, não sei. Acho que mulher desconcentra a gente. Eu não fico sem, mas acabo cansando rápido", afirma a determinada altura uma das personagens de "Cabeça a Prémio", que nos conta uma história de dois pistoleiros e de uma quadrilha de traficantes de droga no Brasil profundo.

Mas não se deixem enganar. Este é um romance que se passa num mundo de homens mas em que afinal as mulheres são aquelas que fazem mover a acção. Negócios escuros, contrabando, droga, prostituição, armas, corrupção, violência juntam-se a duas histórias de amor. A de Brito, o matador, e Marlene, a dona de um bordel que se cruza com a história do piloto, Dênis, que trabalha para um traficante e se apaixona pela filha deste, Elaine.

"Brito lembrou que Mirão nunca falava em 'matar'. Preferia pedir que você 'cuidasse' de uma pessoa. Ou que 'desse um jeito' em alguém. Sutilezas de um homem que até o tamanho impedia de ser sutil. Na boate em Campo Grande, quando se conheceram, Brito demorou um pouco para compreender o que ele estava pedindo", lê-se na pág. 75. E tal como Brito demorou algum tempo a perceber o que ele estava pedindo em "Cabeça a Prémio" também o leitor é mantido na ignorância (até certo ponto) acerca das motivações das personagens. Marçal Aquino faz isto primorosamente bem e as suas personagens são de carne e osso.

O realizador Beto Brand, com quem o escritor costuma trabalhar no cinema, diz que quando os dois olham para a mesma mulher só Marçal Aquino nota que "o esmalte do dedão do pé está descascando". Ele é "o cara do detalhe". E é por essa atenção ao detalhe que "Cabeça a Prémio" nos conta uma história que não nos larga mesmo depois de termos pousado o livro. É um retrato do Brasil profundo sem "paninhos quentes".

Este é o terceiro livro de Marçal Aquino publicado em Portugal. Os romances "O Invasor" e "Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios" foram publicados em Portugal pela editora Palavra (em 2005 e 2006) embora o autor seja mais conhecido como contista. Recebeu o Prémio Jabuti em 2000 pelo livro de contos "O Amor e Outros Objetos Pontiagudos".

(crítica publicada no suplemento Ípsilon de 22 de Maio de 2009)

sexta-feira, 5 de junho de 2009

A libertação do ensino

via António Quadros de aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) em 03/06/09
"À exactidão das ciências matemáticas, aplicada ao saber da alma e do espírito, opuseram-se directamente as doutrinas existenciais, que libertaram assim o sujeito do conhecimento da total abstracção a que os seus atributos humanos estavam subordinados. Com efeito, pode considerar-se que esta libertação despertada no plano cultural e no especulativo, trouxe para a razão prática dos estudantes, a consciência da sua humanidade e da autonomia do verbo aprender, que os justifica como sujeitos do conhecimento."

· Afonso Botelho, "O existencialismo e a libertação do ensino", 57 – actualidade, filosofia, arte e ciência, literatura

Henry Ford - A guerra é a maior fonte de lucro. Para os banqueiros internaci...

via Um Homem das Cidades de Diogo em 04/06/09

[Tradução minha]

Chegando hoje aqui com Thomas A. Edison para uma inspecção de três dias às fábricas de nitratos e à barragem hidroeléctrica de Muscle Shoals, Henry Ford explicou pela primeira vez a razão do seu desejo da concessão e a exploração destas grandes instalações.


Palavras de Henry Ford:

Da actividade destas instalações muitas coisas grandiosas são possíveis, mais produção de energia eléctrica do que este país jamais conheceu, mais produção de motores, produção de alumínio e nitratos em quantidades que provocarão alterações inimagináveis em muitos sectores da indústria e na agricultura americanas. Mas pela parte que me diz respeito, tudo isto são coisas secundárias. A coisa mais importante que eu vejo em Muscle Shoals é uma oportunidade para acabar com a guerra no mundo.

Foi perguntado ao Sr. Ford como é que isso era possível [acabar com a guerra no mundo].

Da seguinte maneira, é de facto muito simples quando se pensa nisso. A causa de todas as guerras é o ouro. Temos de demonstrar ao mundo através de Muscle Shoals, primeiro a praticabilidade e depois a vantagem de desalojar o ouro como base da moeda, substituindo-o pela perene riqueza natural do mundo.

Você não deseja a guerra, pois não? Se perguntar ao seu vizinho vai descobrir que ele também não quer guerra, e que o vizinho dele e a família dele pensam da mesma maneira. E se percorrer o mundo e bater a todas as portas verá que qualquer adulto, homem ou mulher, lhe vai dar a mesma resposta: 'não, não. Deus nos livre da guerra.' Então, se todas as famílias do mundo se opõem à guerra, porque é que nós temos guerras? Já alguma vez vos ocorreu colocar essa questão?

Bem, há uma razão. A guerra dá lucro. Não estou a dizer lucro moral, ou interesses religiosos ou rebelião espiritual através da violência, nem qualquer outro tipo de palermices.


Então, porque é que destruiria todo o ouro do mundo e proibia a sua mineração? - Perguntaram-lhe.

De forma nenhuma. Ainda não me perceberam. O ouro como metal está certo. Não é tão útil como muitos outros metais, mas existem artes e outras finalidades nas quais pode ser útil. Não destruam uma onça [de ouro], guardem-na para as artes e usos industriais. Mas não existe muito ouro no mundo. Através da sua escassez o ouro adquiriu um valor fictício muito para além do seu valor como um metal útil.

Quero ser claro nisto. Os povos do mundo cometeram um erro que lhes custou gerações de escravatura financeira quando consentiram em fazer do ouro a base para a emissão da moeda. Não conseguiram ver que, por o ouro ser escasso – só existe cerca de 10.000.000.000 de dólares em ouro em todo o mudo – a sua oferta total pode ser controlada, pode ficar sob o domínio de um interesse ou grupo de interesses, e portanto a moeda e o capital de todo o mundo podem ser controlados.

E isso precisamente que aconteceu. Existe um grupo de banqueiros internacionais, que hoje controlam a maior parte da oferta de ouro do mundo. Esse grupo tem os seus membros e os seus agentes em todos os países. Não interessa a que país, eles, como indivíduos, aleguem lealdade. Fazem todos o mesmo jogo, guardar o ouro que têm nas mãos e ir buscar o máximo possível.

Mas, tendo obtido o controlo do ouro do mundo, tal tornou-se uma maldição para eles. Ouro acumulado não dá lucro. Têm de o manter a girar, lucrando ou perdendo o seu controlo. Os tempos de paz com condições estáveis não o fazem girar com suficiente rapidez. A forma de colocar o ouro a dar mais lucro, de forma mais frequente, é criar uma grande procura [de ouro] sob a forma de empréstimos, mas sempre em moeda em lugar do ouro. E a maneira de provocar uma enorme procura de empréstimos, à taxa de juro que os comerciantes de dinheiro ditarem, é criar uma guerra.

Para eles, instigar, iniciar e enviar as pessoas para a guerra, nada mais é que um mercado activo para o dinheiro, uma questão de negócios. Se os diferentes países dos grupos de banqueiros internacionais estiveram em guerra, isso não faz diferença nenhuma. Não interessa quem perca a guerra, o importante é a quantidade de vultuosos empréstimos feitos. O sistema do ouro ganha sempre. Os jovens dos 18 aos 30 combatem na guerra e são mutilados ou mortos. Os banqueiros internacionais estão a salvo e prósperos.

[«War Is a Racket» - A Guerra é uma Fraude é o título de um livro do reformado Major General dos marines americanos. Smedley Darlington Butler, uma das 19 pessoas a ser agraciado duas vezes com a Medalha de Honra, discute de forma aberta como os interesses empresariais beneficiaram comercialmente com a guerra. Em «War Is a Racket», Butler aponta vários exemplos, principalmente da Primeira Guerra Mundial, onde os industriais, cujas operações eram subsidiadas pelo erário público, eram capazes de gerar lucros substanciais do sofrimento humano massivo.]


Há dez anos afirmei que tencionava usar todas as minhas capacidades e energia para acabar com a guerra. Nunca disse nada tão seriamente, e é por isso que quero a concessão de Muscle Shoals. Vejo uma forma que, se puder ser colocada em prática, fará mais para acabar com a guerra do que mil anos de agitação.

A principal perversidade do ouro, na sua relação com a guerra, é o facto de que pode ser controlado. Quebrem esse controlo e acaba-se com a guerra. A única forma de quebrar o controlo dos banqueiros internacionais, a forma de acabar a sua exploração para sempre, é acabar com o ouro como base da moeda do mundo.

O que é que fizeram há cem anos atrás sem um padrão ouro? A ideia de utilizar ouro como base monetária não é mais nem menos do que uma concepção dos banqueiros. Eles sabiam que se conseguissem estabelecer, por lei, o ouro como base da moeda, então poderiam controlar o capital do mundo combinando os juros para controlar o ouro mundial.

É aqui que Muscle Schoals entra. Vejam que coisa espectacular temos aqui. Engenheiros do exército dizem que são necessários 40 milhões de dólares para terminar a grande barragem. Mas o Congresso está em fase de poupanças e não deseja arranjar esse dinheiro com impostos. A alternativa habitual é lançar Obrigações a trinta anos a 4 por cento [ao ano]. Os Estados Unidos, o maior Governo à face da terra, precisando de 40 milhões de dólares para terminar um grande benefício público é forçado a ir ter com os comerciantes de dinheiro para comprar o seu próprio dinheiro. Ao fim de trinta anos o Governo tem de pagar não apenas os 40 milhões de dólares, mas tem também de pagar 120 por cento de juros, literalmente tem de pagar 88 milhões de dólares pela utilização de 40 milhões de dólares durante trinta anos.

E durante todo esse tempo é o próprio dinheiro do Governo. Os comerciantes de dinheiro nunca o criaram. Obtiveram-no originalmente do Governo. O Governo primeiro deu crédito e agora tem de pagar por aquilo que deu. Pensem nisso. Poderia alguma coisa ser mais infantil, mais contrária à lógica do negócio!


Agora, vejo uma maneira pela qual o Governo pode completar esta grande obra sem pagar um tostão aos comerciantes de dinheiro. A ideia é tão sólida como uma rocha e não tem senão um problema. A ideia é tão simples e fácil que, talvez, as pessoas não sejam capazes de a apreender.

O Governo precisa de 40 milhões de dólares. São duas mil notas de vinte dólares. O Governo que proceda a uma emissão dessas notas e pague com elas todas as despesas ligadas à conclusão da barragem. Logo que a barragem esteja terminada veremos tudo a funcionar e, em menos tempo do que se pensa, todos os 40 milhões de dólares podem ser retirados dos rendimentos da barragem.


Mas imagine que o empreiteiro se recusa a aceitar esse tipo de moeda como pagamento? - Perguntaram-lhe.

Não há nenhuma forma de isso acontecer. O empreiteiro iria aceitar Obrigações do Governo para pagamento, não era? Certamente! Vejam, - disse Henry Ford tirando uma nota de vinte dólares do bolso – ele não hesitaria em aceitar este tipo de dinheiro, pois não? Claro que não. Bom, o que é que está por trás de uma Obrigação ou desta nota que as tornam aceitáveis? Simplesmente isto: a boa-fé e o crédito do povo americano. E notas de vinte dólares emitidas pelo Governo para concluir este grande melhoramento público teriam tanta boa-fé e crédito do povo americano por trás como qualquer Obrigação ou outra moeda qualquer americana já alguma vez emitida. Como vêem, é apenas uma questão de fé no povo americano.


Mas o seu plano desordenaria o sistema monetário do mundo e poderia trazer males incalculáveis – disseram-lhe.

Não necessariamente, de forma nenhuma. Não temos de abolir nada. Nem sequer temos de abolir o padrão ouro. Esqueçam simplesmente que existe um padrão ouro e, sempre que o Governo precisar de dinheiro para uma grande obra pública, em vez de pensarem em Obrigações com juros pesados, pensem em moeda redimível sem juros. Vocês têm consciência da quantia em juros que o nosso Governo paga? Vocês compreendem que 80 cêntimos de cada dólar arrecadado em impostos é gasto no pagamento de juros? A dívida nacional não é mais nem menos do que o montante da dívida em juros da nação. Qualquer obra pública neste país significa um aumento da dívida nacional. O montante de juros está a destruir todo o nosso sistema financeiro. Temos de parar algures.


Mas, num certo sentido, não haveria segurança por trás deste tipo de dinheiro – alguém sugeriu.

Haveria a melhor segurança do mundo. Têm aqui um rio capaz de fornecer um milhão de cavalos-vapor [aproximadamente 760 watt]. Está aqui há, digamos, 100 milhões de anos. Estará aqui enquanto houver chuva e montanhas a despejar a água da chuva para os rios. Esta energia é riqueza numa forma produtiva. Bem, o que é que é mais resistente, mais seguro, este lugar de energia e o seu desenvolvimento, ou os vários barris de ouro necessário para fazer 40 milhões de dólares. Este sítio, com todas as suas possibilidades energéticas, estará aqui muito depois do edifício das finanças ficar em ruínas. Mas vocês fizeram alguma estimativa?

Nós fizemos. Vamos tê-la pronta quando o Congresso quiser ouvir este plano. O dólar americano padrão vale aproximadamente uma vigésima parte de uma onça de ouro. Sob o novo sistema monetário, uma certa quantidade de energia exercida durante uma hora seria igual a um dólar. É simplesmente uma forma de pensar e calcular em termos diferentes do que aqueles que nos são fornecidos pelo grupo de banqueiros internacionais, nos quais crescemos tão habituados a pensar que julgamos que não existe outro padrão desejável. Temos de mudar as nossas mentalidades em relação a esta questão. A única diferença entre o plano da moeda e o plano das Obrigações é que no primeiro não existe juro a pagar e os comerciantes de dinheiro de Wall Street, que não fazem nada para construir a barragem e não merecem nada, não recebem um tostão.


Mas como é que tudo isto vai acabar com as guerras?

Simplesmente porque se for experimentado aqui em Muscle Shoals, este plano será um sucesso tão esmagador e extraordinário que o povo americano nunca mais consentirá na emissão de uma Obrigação a pagar juros para uma obra nacional. Quando o Governo precisar de dinheiro vai emitir moeda suportada pela riqueza natural perene. Os outros países ao observarem o nosso sucesso actuarão da mesma forma. A função do comerciante de dinheiro terá desaparecido.


Qual seria a atitude dos outros países ao aceitarem este dinheiro baseado em Muscle Schoals? Perguntaram-lhe.

Não haveria nenhuma dificuldade nisso. Alguma da nossa moeda, mesmo hoje, não é aceite por países estrangeiros no pagamento de dívidas; o ouro é a base internacional. Muscle Schoals é um assunto nacional e não internacional. Este dinheiro só seria usado no país.


Pensa que o Congresso responderá favoravelmente à sua sugestão?

Bem, sobre isso não sei. Talvez não, mas aposto que o americano médio se vai aperceber da rectidão, da solidez e do bom sendo disto. Mas, qualquer que seja o resultado desta sugestão, agirei no sentido de que nenhum especulador ganhe dinheiro de Muscle Schoals. Mesmo que tenha eu de ficar com toda a emissão de Obrigações, farei com que o juro vá no sentido de baixar o custo da obra. Compreendam que estou a sugerir uma forma melhor de financiar este projecto, mas se não acontecer assim, estaremos prontos para fazer o nosso melhor para poupar o povo da enorme carga de juros, suportando-o nós e devolvendo-o.

A minha ambição não é ser dono de Muscle Schoals, mas terminá-lo, desenvolvê-lo, colocá-lo em funcionamento, e prepará-lo para que nunca possa vir a ser explorado para fins privados, e que fique sempre ao serviço de todo o povo, que seja sua propriedade e operado em seu benefício.