sábado, 15 de agosto de 2009

António Sardinha e o iberismo maçónico

via nonas de nonas em 02/08/09
«... O internacionalismo maçónico contaminara-nos já desde atrás, com os soldados que serviram a fortuna de Napoleão e que no regresso nos empurravam francamente para a União Ibérica, saudada e propagada nas Lojas Peninsulares como o triunfo maior da causa da Liberdade. Só numa história escrita ao contrário, como a nossa anda, é que Gomes Freire pode figurar de mártir da Pátria. O militar valente, mas desnacionalizado, da epopeia napoleónica não era o único, porém. Os seus irmãos do triângulo simbólico enraizaram-se farta e fortemente no solo português, mal o senhor Intendente deixou de farejar por toda a Lisboa do começo do século findo os agentes perniciosos da grande conspiração universal que foi, na verdade, a Revolução. Pois da Maçonaria descende o nosso liberalismo, como da Maçonaria surgiu esta república, já adivinhada e procurada com entusiasmo de sentimento e oratória pelos homens de 1820...»(1)
«... Ontem o Liberalismo, agora a Democracia, não são senão as fachadas dum poder oculto que, no subsolo da política, a manobra a seu bel-prazer. Tal poder é o da Maçonaria, inimiga desde sempre de tudo quanto seja para Portugal o renascimento das suas velhas qualidades de fé e de disciplina. Maçónica na sua origem, é um engano supor-se que a revolução do Porto obedeceu a indignadas iras patrióticas contra a residência inglesa de Beresford e contra a demora da obstinada Corte no Rio de Janeiro. A demora da Corte no Rio de Janeiro, levando a uma acção de consciente imperialismo na América, como se deduz da campanha de Montevideu e como o demonstra abundantemente o notável historiador brasileiro Oliveira Lima no seu esplêndido estudo sobre D. João VI — a demora da Corte no Rio de Janeiro impôs-nos à Europa, disposta a abandonar-nos, e à nossa Corte, sem que por isso se molestasse a nossa aliada da véspera, — a Inglaterra. Se D. João VI não pesasse de além do atlântico com o seu vasto império colonial, nós teríamos sido miseravelmente retalhados pela Espanha e pela Grã-Bretanha nas decisões do Congresso de Viena. Ninguém mais do que Inglaterra, desejava pôr cobro à assistência do rei no Brasil, que nos estava valorizando internacionalmente. Tanto assim que se deve à Inglaterra o golpe decisivo na ruptura das duas partes do Reino Unido, colaborando activamente na emancipação do Brasil, igualado à Metrópole pela política sábia de D. João VI.
Por outro lado, as iras patrióticas flamejadas sobre a residência Inglesa são um efeito de pura retórica. A Regência combateu sempre Beresford, com D. Miguel Pereira Forjaz à frente, — D. Miguel Pereira Forjaz que organizara o país contra os franceses e que se mostrava um esteio seguro da influência contra-revolucionária da Santa-Aliança.
A Maçonaria serviu-se dessa capa, fácil de envergar pelo espírito indómito dos nossos soldados, a quem as Lutas Peninsulares haviam restituído muito da antiga fereza da raça. A prova está na circunstância dos clubes secretos pensarem primeiro em aliciar Beresford por intermédio da Viscondessa de Juromenha. Convencidos de que o marechal «era adverso à liberdade», só então é que resolveram maquinar a conjura, destinada à destruição da nossa ordem católica e monárquica, sob o pretexto duma insurreição de carácter nacionalista.
Não digo que as condições económicas fossem sorridentes. Saíramos duma guerra exaustiva, vítimas de três invasões que nos tinham custado o melhor da nossa força, tanto em população como em riqueza. Devagar nos íamos ressarcindo de tão longos e persistentes males. Não olharam a nada os nossos Regeneradores! Levantam uma bela manhãzinha no Porto o pendão de revolta, com vivas a uma «constituição mais liberal que a de Espanha», metendo-se ao caminho para Lisboa, onde o terreno se achava já preparado pela teimosia habilidosa das várias irmandades do triângulo-e-avental.
A solidariedade cosmopolita dos princípios da Revolução não é só do tempo presente. Vem de atrás e muito de atrás! Por semelhante a nossa Maçonaria facilitou a entrada de Junot em Lisboa, mandando mensageiros a Napoleão e dispondo-se a entregar-lhe com a dinastia o único penhor da independência pátria. A mesma solidariedade, jurada sobre as insígnias triangulares, debaixo do olho simbólico do Supremo Arquitecto do Universo, obriga Gomes Freire, traidor desde que espontaneamente se dedicou à fortuna de Bonaparte, a preparar a queda da dinastia de 1817, de acordo com conspiradores espanhóis, a cuja testa se encontrava o general Cabanes.
Esta é a genealogia da famosa Harmonia-Ibérica, que, no fundo, não é mais do que a República Federal da Ibéria, anunciada para depois da insurreição, agora malograda em Espanha, pelo Doutor Simarro, no convénio maçónico realizado em Paris a 2 de Julho passado (1917): declarou-se aí que, a triunfarem os revoltosos, a bandeira verde-vermelha seria imediatamente reconhecida como sendo a bandeira da Ibéria. Não se tratava senão da execução testamentária de Gomes Freire! Procuraram efectivá-la os homens de 1820. De facto é um maçon, D. José Pando, ministro da Espanha em Portugal, quem coadjuva e acoberta as cabalas dos conjurados. Conta-se até, que dois meses antes, chegara ao Porto o coronel Barreros com o fim de promover uma revolução em Portugal e prometendo auxílios do governo de Madrid. Parece que Fernandes Tomás não aceitou as propostas de Barreros. No entanto, ao rebentar o movimento do Porto, um corpo de exército espanhol avizinhou-se da nossa fronteira de Trás-os-Montes.
O mais interessante é que os jornais da época afirmaram (Diário do Governo, do Rio de Janeiro, de 22 de Abril de 1823) que Manuel Fernandes Tomás recebera de D. José Pancho cinco milhões de reais para levar a cabo a revolução, pondo-se depois em prática o plano traçado na Sociedade dos Regeneradores do Género Humano, fundada em Cadiz, à roda de 1812. Consistia esse plano na confederação ibérica, em que Portugal e Espanha se repartiriam em várias repúblicas inter-dependentes, da maneira seguinte: Bética-Ulterior, Bética Citerior, Galega, Navarra, Asturiana, Lusitânia-Ulterior e Lusitânia-Citerior, com a expressa condição de que os Algarves pertenciam à Bética Citerior. Passa singularmente, como vêem, no programa político dos Regeneradores do Género Humano, o programa daqueles que há umas dezenas de anos se foram de juntar até Badajoz. É o mesmo espírito que anima o livro do Senhor Magalhães Lima, La Fédération Ibérique. E para prova, no seu curioso livro Mi Missión en Portugal, Fernandez de los Rios assegura que nos arquivos secretos de Fernando VII, no Palácio de Madrid, existiam documentos comprovativos das aspirações unitaristas da Espanha durante o período vintistas».(2)

Notas:
1 – Na Feira dos Mitos, cap. " A «Carta»", pág. 85, 2,ª ed., Edições Gama, 1942.
2 – Ao Ritmo da Ampulheta, cap. "1820", pág. 50 e segts, Lvmen, Lisboa, Porto, Coimbra, Rio de Janeiro, 1925.

HERMÍNIO DA PALMA INÁCIO - Ladrão e Homicida na Forma Tentada

via o sexo dos anjos de manuel.azinhal@gmail.com (Manuel) em 25/07/09

Corajoso artigo da autoria do General Fernando Paula Vicente sobre episódios macabros da vida de Palma Inácio.

Para ler na íntegra clique no título a amarelo "Hermínio da Palma Inácio - Ladrão e Homicida na forma tentada".
Rui Moio

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Carta de um combatente do MPLA ao soldado português

via Caminhos da Memória de Diana Andringa em 16/07/09
O texto que se segue é a transcrição de uma carta, datada de 1968, que foi lida numa emissão de rádio do MPLA, em Brazaville. Limitámo-nos a corrigir erros ortográficos e a introduzir pontuação, optando por manter, quase sempre, as palavras e as construções sintácticas originais, mesmo quando as mesmas são pouco «ortodoxas» em português. Soldado [...]

Hermínio da Palma Inácio

via Caminhos da Memória de Caminhos da Memória em 14/07/09
Acaba de ser conhecida a notícia da sua morte. Este blogue publicará, em breve, um ou mais textos sobre a sua pessoa e o seu papel na luta contra a ditadura. Para já, um texto de Maria Dionísio, republicado em 2007 no blogue «Não Apaguem a Memória!» , e um outro de Isabel Oneto, escrito quando [...]

Prémio Montaigne 2004 da Fundação Alfred Toepfer

via Jacarandá de noreply@blogger.com (António Barreto) em 09/08/09

A FUNDAÇÃO ALFRED TOEPFER
e o Júri da Universidade de Tübingen acharam por bem mencionar, em simultâneo, o meu trabalho na Academia, a minha actividade política passada e a minha colaboração permanente na imprensa. Fizeram-no com generosidade, mas sabem com certeza que são actividades que vivem, desconfiadamente, em coexistência conflituosa. A Academia e o jornalismo de opinião são feitos para se desentenderem. Feitos para uma coexistência pouco pacífica. Mais ainda quando vivem na mesma pessoa.


A liberdade é certamente condição de procura da verdade, mas os caminhos de uma e de outra são muito diferentes. Certo é que, no entanto, cada uma tem de prestar atenção às regras e às tradições da outra. A Academia não pode afastar-se excessivamente da condição real dos homens e das mulheres do seu tempo. Nem o jornalismo de opinião ou a política se podem permitir abster-se de rigor ou de veracidade. E nenhuma delas deve, se não queremos destruir uma das fundações do espírito humano e europeu, renunciar ao esforço pela isenção e pela responsabilidade.

Por mais que os cientistas modernos procurem demonstrar a unidade da razão e das emoções, do pensamento e dos sentimentos, a verdade é que o conflito persiste. A ciência e a política, a Academia e o jornalismo de opinião, constituem pares eternamente desavindos, mas condenados a estimularem-se mutuamente. E, sobretudo, a satisfazer a nossa infinita curiosidade.

Pela Fundação Alfred Toepfer e pela lista de laureados que me precede, este prémio é fardo pesado. Mas também pelo seu patrono, Montaigne, que não se ilustrou pelo espectáculo, pelas armas ou pelo dinheiro, muito menos pelo poder, nem sequer pelas laboriosas construções políticas europeias (umas vezes livres, outras despóticas), mas sim pelo pensamento e pela atenção prestada ao essencial, à natureza humana e à herança comum dos povos europeus que reside, primordialmente, no espírito. Nestes tempos de efémero e de circunstância, de banalidade e de lugar-comum, é-me salutar recordar Montaigne, mais interessado no permanente universal do que na futilidade passageira.

Uma Fundação alemã atribui, a um português, um prémio com nome de um grande pensador francês! Esta é a Europa de que gosto! Não certamente por me ter escolhido, mas porque traduz a mais rica das ideias europeias, a da sua pluralidade, da sua irreversível diversidade. Sabemos que, a este propósito, vivemos tempos quase dramáticos de decisão. Entre este ano e o próximo, os povos europeus serão chamados, uns directamente, outros por intermédio dos seus representantes, a redesenhar e votar os contornos institucionais da União Europeia. Seja qual for a decisão, sabemos que está em causa o confronto, sempre actual, entre a unidade e a diversidade. Apesar do cepticismo, quero esperar que se evitem os erros frequentes do império do mais forte e da uniformização excessiva. Nesta reside, não duvido, a maior ameaça contra o futuro desta formidável realização da humanidade que é a União em que poderemos viver.

Os portugueses têm uma especial e grata visão da Europa. Foi, durante décadas, terra de emigração e trabalho. Mas também de esperança no que nos faltava: prosperidade, cultura e liberdade. Quando, na década de setenta, fundámos um Estado democrático e pusemos termo às obsoletas guerras coloniais em África, corremos todos os riscos das revoluções e sentimos a vertigem de quem percorre caminhos desconhecidos, de quem rompe definitivamente com a História e com os espaços familiares do Atlântico, de África e da Ásia. Nessa altura, a Europa desempenhou novo papel, o de lar acolhedor. Sem favores, sem paternalismo, os europeus abriram portas que nos permitiram, depois de saber o que abandonávamos, conhecer um novo destino. É talvez essa a razão pela qual os portugueses, apesar de recearem os eventuais prejuízos, parecem não condenar o alargamento da União nem o acolhimento devido a novos povos e Estados do Sul, do Centro e do Leste europeus.

Com as descobertas dos séculos XV e XVI, a colonização ulterior e as grandes migrações dos séculos XIX e XX, os portugueses habituaram-se, para o melhor e o pior, a conhecer os outros e a conviver com eles. Raramente o fizeram aqui, no seu território original, o Portugal europeu. Tudo isto mudou recentemente. Povos de todos os horizontes, americanos, africanos e europeus habitam agora connosco. Como nós, desde os anos sessenta, nos cruzámos com os outros europeus, em casa deles. Eis que dá um novo destino ao nosso país, que só no quadro europeu se pode realizar. Eis que promove a mestiçagem de povos, criando, apesar dos riscos, um clima favorável à tolerância e propício conhecimento. Ou, para voltar a Montaigne, "à frotter et limer notre cervelle contre celle d'autrui". Viver com os outros! Não há melhor programa para a Europa!

25 de Outubro de 2004

O chão que Lisboa pisa

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 09/08/09
COM MUITAS RARAS EXCEPÇÕES o cidadão de Lisboa não conhece nem a natureza nem a história do chão que pisa e no qual assentam as fundações do prédio onde vive. Que sabe ele da sua história para trás do dia em que o malogrado Martim Moniz ficou entalado entre as portas do Castelo? Sabe, de facto, muito pouco. Mas ainda sabe menos de tudo o que aqui aconteceu antes do primeiro humano ter pisado estas terras, milhares de anos atrás e do que se passou nesta região há milhões de anos.

Não sabe que o lioz, ou seja, o calcário usado na construção dos Jerónimos, da Torre de Belém, do Palácio da Ajuda, e da maior parte da cantaria e estatuária locais, nasceu num mar muito pouco profundo, de águas mais quentes do que as que hoje banham as nossas praias no pino do verão. Nesse mar raso, há cerca de 95 milhões de anos, populações imensas de moluscos, a que chamamos rudistas, com conchas mais espessas do que as das ostras, cobriram os fundos e, proliferando uns sobre os outros, edificaram, camada após camada, os estratos de calcário que ainda podemos ver, por exemplo, na Avenida Calouste Gulbenkian, sob o aqueduto das Águas Livres, ou na base do bairro dos Sete Moínhos, à entrada de Lisboa pela ponte Duarte Pacheco.

Mas voltemos ao chão de Lisboa, dizendo que os seus habitantes também não sabem que a maior parte da pedra negra das velhas calçadas da cidade é basalto, ou seja, lava consolidada de vulcões que aqui estiveram em grande actividade há uns 70 milhões de anos. Ignoram que no tempo imenso que se seguiu a este mar de fogo e cinzas, toda esta região evoluiu num ambiente continental marcado pela secura do clima, propício a grandes enxurradas, como as que ainda se podem observar na Calçada de Carriche, nas camadas sedimentares repletas de calhaus arredondados (cuja idade remonta aos 40 milhões de anos) e à deposição de calcários lacustres como os de Alfornelos e da Brandoa. Não se dão conta que o mar aqui regressou depois, há cerca de 23 milhões de anos, e que aqui se gerou, de novo, um ambiente construtor de calcário, mas, desta vez, por um grupo de minúsculos invertebrados coloniais – os briozoários – à semelhança dos recifes de coral. Por último, não lhes ocorre que as diversas fábricas de cerâmica, hoje desactivadas ou demolidas, que aqui moldaram o barro extraído dos próprios locais, só existiram porque esse mar recuou e passou a haver nesta região, há pouco mais de uma dezena de milhões de anos, intensa deposição de sedimentos argilosos acumulados numa paisagem aplanada, vestibular de um grande rio, povoada por mastodontes (grandes herbívoros ancestrais dos elefantes), grandes crocodilos e muitos outros animais entretanto extintos, cujas ossadas desenterradas dos respectivos sedimentos são objecto de estudo dos paleontólogos.

Páginas desta história, milagrosamente conservadas na densa malha urbana, são visíveis em alguns raros afloramentos rochosos nas ruas da capital. Porque escaparam ao camartelo ou porque não foram encobertos pelo betão ou pelo asfalto, são testemunhos valiosos que aqui nos ficaram desses tempos antigos. À semelhança de um qualquer património construído, aceite como um monumento, também certas ocorrências geológicas devem ser entendidas como tal e, assim, merecer-nos a atenção e o cuidado de os legarmos aos vindouros como documentos de um património natural que a civilização, o progresso e, também, a ignorância foram destruindo ou soterrando.

Após alguns anos de estagnação posteriores à presidência, na Autarquia, de João Soares e à devotada acção do vereador Rui Godinho na defesa e valorização dos geomonumentos de Lisboa, a actual vereação retomou esse trabalho, estando neste momento a concluir o que havia sido iniciado e a estender esta mesma preocupação a sítios entretanto referenciados por funcionários com preparação geológica adequada.

Bem-hajam por isso!

sábado, 8 de agosto de 2009

(título desconhecido) - [Não resisto]

via DIÁRIO DE UM PACIENTE II de Andre Moa em 10/07/09

NÃO RESISTO
(E porque não resisto, aí vão uns bons nacos de prosa que me deixaram todo 'prosa'.
André Moa

«Caríssimo Autor,
No rescaldo do excelente lançamento de ontem, tinha hoje à minha espera o texto que vai em anexo do Dr. Beja Santos, a quem tínhamos enviado o livro, reforçado por um telefonema há minutos a pedir desculpa por não ter podido estar presente no lançamento e a reforçar o quão notável achou o seu testemunho.

Aqui lho envio, pois, com todo o gosto que imagina, e a pedido do Dr. Beja Santos.
Um abraço,
Ana Pereirinha
Mau tempo no anal
Beja Santos

Começando por um lugar-comum, constate-se que o cancro é uma das doenças mais temidas e que evoca emoções fortes não só no doente mas também na família. Aliás, é vasta a bibliografia respeitante ao doente oncológico e à sua família, diferentes ramos científicos (caso da Psicologia Oncológica) debruçam-se sobre as perturbações psicossociais associadas ao diagnóstico do cancro, terapêuticas e acompanhamento da família do doente. O cancro é foco contínuo de ansiedade e stress, levanta problemas delicados ao processo de comunicação entre os profissionais e os doentes, orienta-se pela adesão terapêutica e qualidade de vida possível para o doente, na medida em que os tratamentos podem recorrer à cirurgia, radioterapia ou quimioterapia, com intuito de controlar ou exterminar a doença, há sempre efeitos secundários como náuseas, vómitos prostração ou perda de cabelo, fazem-se acompanhar de desconforto físico, tristeza ou medo de morrer.
Cada doente é um caso individual, não há nível idêntico de raiva ou revolta quando se conhece o diagnóstico em dois ou mais casos, temos depois a aceitação durante o tratamento, a relação entre os profissionais de saúde e o doente pode ser fundamental no apoio e na recuperação do doente.
Vêm estas observações genéricas a propósito de um livro singular, o diário de um paciente que sofre do recto e da próstata, os flagelos quase que se sobrepõem, as dores são excruciantes, o doente enfrenta os turbilhões dos diferentes sofrimentos, consegue encontrar humor na observação que faz à vida na enfermaria e aos tratamentos. É, no seu todo, um hino ao optimismo, um relato espantoso de uma vitória sobre esses sofrimentos, páginas de sinceridade de quem continua a viver agarrado à vida rememorando os ciclos temporais, os amores, as amizades, o estro poético, as leituras, o registo da evolução da doença, as relações com Deus e a indiferença perante o fenómeno do divino, a serena preparação para a morte, venha ela quando vier. O livro chama-se "Mau tempo no anal" e o seu autor é André Moa, o canceroso que sobreviveu e enganou a morte, com sangue, suor e lágrimas (Quidnovi, 2009).
É um relato, um testemunho a que nenhum doente se deve furtar. O melindroso é troçado e aligeirado: "dona Bexiga", ou "o Sr. Cu-Recto". É mordaz na enfermaria, pois esta é um ambiente que reproduz todos os outros ambientes. É o caso de um doente que chega e parte rapidamente, sem estabelecer comunicação: "Ontem foi internado um dandy. De quarenta, cinquenta anos? Oficial? Sargento? Civil? Foi operado a um ouvido. Já não é a primeira operação do género a que se submeteu. Passou o dia muito calado, a maior parte do tempo a ler um livro volumoso cujo título não consegui decifrar. Literatura policial, será? Já teve alta, hoje. Despediu-se quase tão laconicamente como quando chegou. Desejei-lhe as melhoras e que não sentisse necessidade de voltar. Nem o nome dele me ficou. Chamo-lhe Meteorito com ânsias de Estrela". Tudo começa quando ao irmão lhe é detectada uma doença maligna, à cautela, porque há factores hereditários, faz exames e é aqui que ele sabe que tem um tumor, prontamente André Moa se atira ao combate. Supera as crises, adapta-se, seguramente que a ideia da morte vai e vem, no seu diário ele fala dessa fé na vida e a sua descrença nos valores divinos. Agarra-se à família, ao netinho, aos amigos, responde ao telemóvel, está sempre com mais esperança do que permite a lógica da dor. No seu diário fala do que sabe e do que não entende nos tratamentos. Gosta da equipa de saúde, faz a colonoscopia, a TAC, leva-nos a partilhar do seu estado de alma: "O veredicto chegou inexorável. A intervenção no recto será mais premente do que a inicialmente prevista, pelo que não poderá ser feita via rectal, mas pelo abdómen. Neste caso não poderei ser operado para já à próstata: uma cirurgia é suja, a outra é limpa... Está a ver, dona Próstata? Tanta chinfrineira para nada". Vai ser sujeito a um "bombardeamento nuclear", um conjunto de sessões de radioterapia e regista as primeiras dores: "Na noite passada não preguei olho. Um forte ataque hemorroidal, doloroso até mais não. Com estas dores constantes, sem posição para estar deitado, sentado ou de pé, sem qualquer medicamentação que me alivie pouco que seja, encontro-me numa situação desesperante... Presentemente estão a servir-me de muletas duas oxibutininas, comprimidos, 5 mg por dia, dois pacotinhos de nimesulida inibsa, 100 mg, granulado para suspensão oral, e dois comprimidos de diosmina + hesperidina, 450 mg + 50 mg. Que o organismo reaja segundo as boas intenções de quem tal prescreveu e de quem isto toma. Amen".
Regista aturadamente os tratamentos, a endoscopia, o bombardeio nuclear, ao todo 20 sessões, quimioterapia, tudo o que seja necessário para afastar a dona Morte, dia após dia arranja forças para acreditar que estas situações anormais não podem prostrar um ânimo forte, a dose de químio, a dose de rádio, o encontro com as máquinas que o doente humaniza: "De barriga para cima, o meu olhar bate de chapa na cabeça do monstro degolado e nele se tem fixado, a estudar-lhe a anatomia, a tentar decifrar os seus dotes, a sua actividade, os seus intentos, o modo de funcionamento. Hoje reparei que a cabeça do robot até orelhas tem. Fazem lembrar uns auscultadores achatados e bem colados ao pavilhão auricular".
De forma brutal, vem o mau tempo no anal, continuam as doses de químio e rádio, continua algaliado e ele não resiste a confessar: "Urinar para mim tornou-se um martírio; a sanita, a minha pedra sacrificial... Há três noites que não durmo praticamente nada. Tenho corrido para a casa de banho de 15 em 15 minutos, pelo que não dá tempo para fechar os olhos e adormecer. Urino com dores, mas urino".
Fim da radioterapia, é o compasso de espera para a operação, continua a urinar muitas vezes, chega o dia D, e depois de rapado vai para o bloco operatório. O seu optimismo triunfou, seguem-se as confirmações de que o cancro não aguentou esta luta. Mais tarde, seguir-se-á a operação à próstata. André Moa aprendeu (ou reaprendeu?) o que é verdadeiramente significante e o que deve ser tratado como insignificante, fica feliz com a sua vida nova, deixa-nos um relato interessantíssimo sobre literacia em saúde a propósito do seu relatório da TAC e um dia o diário finda, finda porque entrou num novo estádio de saúde, André Moa sente a acalmia corporal, entoa loas à vida e diz-nos à despedida: "Basta de tanto sofrer. Eu quero viver muito e bem. Eu quero viver muito bem. Amen. Fim do diário, que ainda não de mim".
A dedicatória do livro também pode ajudar os últimos hesitantes acerca da urgência desta leitura: "A todos quantos necessitam, necessitaram ou venham a necessitar de uma palavra de coragem que os ajude a suportar e a superar os reveses da vida".

Caríssima editora,
Cara Ana Pereirinha,

Que lindo, não é, este texto do Dr. Beja Santos? Só agora abri o correio, só agora o li, pelo que ainda me sinto emocionado, com um orvalhinho nos olhos. Agradeça-lhe muito em meu nome. Fez-me muito bem a sua leitura. Para mais no fim de um dia hospitalar e com notícias não muito agradáveis, já que tive hoje consulta e vi o resultado de umas análises feitas na passada segunda-feira, que mostram que o factor cancerígeno voltou a subir. Mau presságio. Assim, nunca mais paro de escrever diários. E eu que queria voltar-me para a ficção, a ter que continuar neste relato chão de uma realidade nadíssima agradável. É a vida como disse o outro e eu repito constantemente.
Um beijinho, cara amiga Ana.
Bem-haja por tudo, e agora por me ter encaminhado este belo texto, para mim muito salutar
André Moa

Caro Onésimo, acabo de ver e ler esta recensão do Dr. Beja Santos que a Ana Pereirinha fez o favor de me enviar. Ainda estou emocionado, Apresso-me a reencaminhá-la para ti, para partilhares desta doce e reconfortante emoção.
Um grande abraço.
André Moa

Magnífico!
Um bom presságio. Se já começa assim tão cedo, vais ver o que vai vir de reacções.
Grande abraço de parabéns.
E não te amedrontes com a subida. Isto nestes dias após a festa a adrenalina baixa e...
Grande abraço do
Onésimo

Querido André Moa,

Temos fé em si, porque a sua fé sem deus é mais contagiante do que qualquer nova descoberta química.
Assim o deixo antes do fim-de-semana, com a esperança que nos tem ensinado e de que já não sabemos abdicar!
Um grande beijinho,
Transmiti a sua mensagem ao Dr. Beja Santos,
Até segunda,
Ana»

Muito obrigado e bom fim-de-semana.
Beijinhos
André Moa

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

"Jornal "A Província de Angola", de 3 de Maio de 1974, página 5: Parte final...


via ANGOLA DO OUTRO LADO DO TEMPO... de MariaNJardim em 03/08/09
"Jornal "A Província de Angola", de 3 de Maio de 1974, página 5: Parte final do Artigo de opinião de Manuel João Tenreiro.

O movimento triunfante das Forças Armadas, aplaudido pela esmagadora maioria do povo, veio pôr termo à mistificação política Ultramarina do extinto regime e acobertarmo-nos de um fim inglório, que se avizinhava à medida em que vinham aumentando as pressões internacionais, mesmo dos nossos aliados, que já estavam dando mostras de uma impaciência, a pressagiar piores acontecimentos.

Temos agora a grande oportunidade de formar uma verdadeira e sólida comunidade multirracial, através de instituições democráticas, que servirão de garantia à participação activa, consciente e livre de cada um de nós no Governo e Administração de Angola.

As primeiras declarações da Junta de Salvação Nacional, e, antes delas, das afirmações postas pelo general António Spínola no seu livro "Portugal e o Futuro" deixam-nos tranquilos a este respeito e cumulam-nos de motivos de regozijo ao condenarem frontalmente, tanto a orientação perfilhada pelo Governo anterior como a tese racista dos que advogam a entrega do Ultramar português, pura e simplesmente, às massas nativas, com a expulsão do homem branco.

Angola vai gozar, em breve, de autêntica autonomia política, administrativa e financeira, reservando a Metrópole segundo o pensamento do general Spínola e a linha de acção que preconiza, a nossa representação no estrangeiro, a defesa de todos os territórios e a coordenação da política monetária do espaço português.

Vamos ser chamados, deste modo, assumir responsabilidades de Governo e cumprir tarefas de salvação que, apesar da sua magnitude e transcendência, não deixarão de se realizar com inteligência, dedicação e redobrado amor por Angola.

A seu tempo nos serão confiadas estas tarefas e responsabilidades, mas mesmo antes que tal aconteça devemos permanecer firmes e unidos nos ideais que farão a nossa grandeza e salvaguardarão a dignidade nacional, lutando para assegurarmos a paz, o respeito fraternal entre as diversas etnias, a indiscriminação racial, o usufruto das riquezas da terra, sem reservas ou criminosas exclusões, o direito ao trabalho, justamente remunerado e o livre acesso aos diversos cargos e funções a que sejamos chamados a exercer pelo nosso próprio mérito e capacidade.

Não nos faltarão também cuidados, preocupações e momentos de desalento, mas isso não bastará para arrefecer os ânimos ou desviarmo-nos da linha de conduta aconselhada e que se impõe à nossa consciência de homem cristão e civilizados como o único meio de ajudar a formar a Nova Angola com que sonhamos".

retirado DAQUI