terça-feira, 18 de agosto de 2009
MANUEL MARIA MÚRIAS NA MINHA MEMÓRIA
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
HOJE, FARIA 102 ANOS

"Coimbra, 2 de Janeiro de 1993
O que é a democracia
domingo, 16 de agosto de 2009
Em memória de Palma Inácio
Foi uma notícia muito dolorosa, apesar de esperada, a morte de Hermínio da Palma Inácio. Éramos amigos muito próximos - e camaradas - há dezenas de anos. Foi um herói, um verdadeiro mito, da resistência ao salazarismo. Morreu pobre, desinteressado de bens materiais, ao cabo de longa doença, ajudado pelos amigos, que já mal conhecia.
Ouvi falar dele, pela primeira vez, quando do golpe frustrado, contra o salazarismo, de Abril de 1947, em que meu Pai também esteve envolvido. O célebre capitão Queiroga revoltou, no Porto, um regimento de carros de combate e, por falharem os apoios locais, dirigiu-se para o Sul, até à Mealhada, onde teve de se render. Palma, então cabo da Força Aérea, mecânico e piloto, sabotou os aviões da base de Tires, como se comprometera.
Foram os únicos que cumpriram. Preso, torturado e transferido depois para a Cadeia do Aljube, conseguiu fugir, o que parecia impossível. Foi um feito de extrema audácia, de que ouvi falar, com admiração, quando estive preso, com outros camaradas, nessa mesma cadeia, todos militantes do MUD Juvenil.
Mais tarde, soube que Palma Inácio, depois da fuga, se refugiara na casa de um proprietário rural, do Reguengo do Fetal, perto de Leiria, Cacela e Cunha, velho amigo de meu Pai, republicano, maçom e, depois do 25 de Abril, socialista.
Planeou sair por Leixões, do refúgio onde esteve alguns meses, clandestinamente, num barco de carga que o contratou para trabalhos humildes, em troca de comida e o levou, por caminhos vários, até ao Japão e, depois, à América. Uma enorme aventura! Quase um ano embarcado, conseguiu, embora sem passaporte, desembarcar. A referência que tinha na América era de um velho republicano, João Camoesas, exilado desde o começo da ditadura. Foi ele que lhe valeu e lhe arranjou o primeiro emprego: piloto de aviões de recreio, mecânico e instrutor de pilotos amadores.
Palma Inácio tinha uma excepcional habilidade manual: fabricava passaportes na perfeição e concertava velhos carros e aviões... Ficou alguns anos na América, onde conseguiu amealhar algum pecúlio e ter uma vida desafogada. Fez bastantes amigos, portugueses e americanos. Mas foi denunciado por um deles. A embaixada portuguesa pediu a extradição de Palma para Portugal. A América recusou. Mas exigiu que saísse do território americano. Refugiou--se, assim, no Brasil democrático de então (no Rio) onde foi acolhido pelos emigrantes políticos portugueses: o coronel Pio e o comandante Jaime de Morais, resistentes de grande prestígio junto das autoridades brasileiras. Foi um pouco mais tarde que conheceu Henrique Galvão e o general Humberto Delgado.
Palma Inácio estava então a meio da vida. Era um homem elegante, bem parecido, com um ar de gentleman farmer, requestado pelas brasileiras e bem instalado na vida...
No entanto, o rapto do Santa Maria, que seguiu de perto, levou-o de novo à conspiração política. Largou tudo e, com alguns amigos, resolveu ir para Marrocos, onde desviou um avião da TAP, que sobrevoou Lisboa e deixou cair manifestos denunciando mais uma das farsas eleitorais, organizadas por Salazar. Expulso de Marrocos, refugiou-se em França, onde planeou o assalto ao Banco de Portugal, na Figueira da Foz - que foi um sucesso imenso - para obter fundos para a Revolução. Criou a Luar, uma organização revolucionária para derrubar o regime. Pouco tempo depois foi preso de novo.
Foi, nessa altura, que o conheci, tinha eu acabado de regressar da deportação em São Tomé. Uma irmã de Palma, casada com um inglês, procurou-me no escritório e transmitiu-me o seu desejo de que eu fosse seu advogado. Foi já nessa qualidade que o visitei na prisão de Caxias e o vi pela primeira vez. Perguntei-lhe como queria que organizasse a defesa. Respondeu-me, com um sorriso: "Como entender, mas prolongue o meu julgamento até que chova a cântaros..." Percebi.
Entretanto, foi transferido para a Cadeia da PIDE, no Porto, porque o tribunal resolveu realizar o julgamento no Porto. Tive de substabelecer a procuração no meu amigo e colega Mário Cal Brandão. Transmiti-lhe a mensagem. O julgamento prolongou-se com incidentes que se sucediam. Até que choveu. Palma, nessa madrugada, fugiu da PIDE do Porto, feito julgado inédito e impossível, que espantou toda a gente.
Na manhã seguinte, estava a preparar a tese que apresentei ao II Congresso Republicano de Aveiro, quando recebi um telefonema enigmático do meu escritório a dizer que estava lá um senhor que precisava urgentemente de me falar. Desconfiei do que se tratava. Pedi-lhe que viesse a minha casa. A minha mulher preveniu-me: "Cuidado, é uma armadilha da PIDE para te prender de novo." De facto, a televisão da noite anterior tinha dado, com destaque, a notícia da fuga de Palma, com a fotografia dele, apresentado como um perigoso meliante, prometendo uma grande recompensa para quem o tivesse visto e indicasse o seu paradeiro.
Quando chegou o emissário, que nunca tinha visto, percebi, pelo nervosismo e medo que demonstrava, que não era uma armadilha. Disse-me ser primo do Palma, o qual o tinha procurado, antes de entrar para o trabalho, pedindo-lhe que me pedisse dinheiro, porque não sabia onde se meter nem como se alimentar. Perguntei-lhe onde o deixara e disse-me: num vão de escada de um prédio velho da Rua da Palma. Não hesitei: resolvi ir buscá-lo. Fomos os dois, eu a guiar. Dei voltas para ver se estava a ser seguido. Certifiquei-me que não.
Encontrei o Palma no sítio indicado. Estava num estado lastimável: molhado até aos ossos, vestido com umas calças de ganga e uma camisa à pescador, com a barba de dois dias, esfomeado. Instalei- -o no meu carro, despachei o primo, começámos a circular em direcção à estrada Marginal, sem saber ao certo ainda para onde o iria deixar. Para uma pensão, mal afamada, como ele queria, seria correr um risco tremendo. Seria preso em pouco tempo. Lembrei-me então do meu amigo José Fernandes Fafe, que habitava, com a família, em Cascais, numa moradia isolada. Para aí me dirigi. A meio do caminho, precisamente em Carcavelos, havia uma brigada de trânsito a mandar parar os carros. Perguntei-lhe: que fazemos? Respondeu: não pare! Fiquei indeciso, aflito. Felizmente, não nos mandaram parar. Respirámos de alívio!
Em casa do Fafe entrei sozinho. Estava a almoçar tranquilamente com a família. Mas percebeu, pela minha cara, que alguma coisa de grave se passava. Disse-lhe de imediato: "Trago-te uma encomenda que deixei no carro. Posso mandá-la subir? São dois dias, não mais..." Respondeu-me: "Não tenho coragem para te dizer que não." Fi-lo subir e voltei para Lisboa. Disseram-me depois que ninguém mais almoçou. Senão ele. E, depois, deitou-se e dormiu até ao dia seguinte.
Entretanto, a minha mulher arranjou um fato meu e roupa, tirou-lhes todos os indícios que me pudessem referenciar. Foi Catanho de Menezes, querido amigo, que levou a roupa a casa do Fafe. Mas arranjar-lhe um outro poiso foi mais difícil. Houve várias recusas. Finalmente o Fernando Oneto lembrou-se que o irmão do David Mourão Ferreira, o Jaime, tinha um pequeno apartamento, perto da penitenciária, onde tinha encontros galantes. Foi para aí que o Oneto levou o Palma, onde esteve quase um mês. Ainda lá o fui ver uma vez, antes do Oneto o levar para perto da fronteira de Elvas, onde passou "a salto", pelo caminho dos contrabandistas e entrou clandestinamente em Espanha. Do lado de lá, estava Oneto à espera dele e, ambos, se dirigiram a Madrid, eufóricos...
Lembraram-se então de ir visitar um advogado que Oneto conhecia por meu intermédio, quando do caso Delgado, extremamente simpático, de seu nome Mariano Robles Romero-Robledo. O escritório estava vigiado pela polícia espanhola, que prendeu o Palma. Passou cerca de um ano em Carabanchel, a terrível prisão política do franquismo. A justiça portuguesa, que o considerava um preso comum (não político) pediu a extradição de Palma. Quem o defendeu, a meu pedido, foi o depois embaixador de Espanha em Lisboa, Raul Morodo, que impediu a extradição. O então vice-presidente do Governo Italiano, Neni, oficiou ao Governo espanhol afirmando tratar-se de um preso político e que a Itália estava disposta a dar-lhe asilo político. Assim aconteceu.
Voltei a encontrar Palma Inácio, em Paris, estava eu já exilado e ele clandestino, em França. No entanto, era sócio de um clube chique de aviação onde alugava regularmente um bimotor para se treinar e dar umas voltas sobre Paris. Levou-me um dia com ele, quando planeava realizar uma operação sobre Lisboa...
Ainda em Paris, apareceu-me uma noite o Adolfo Ayala, a dizer que o Palma tinha sido preso na Alemanha, por ter tido um desastre, quando trazia o carro cheio de armas compradas na Checoslováquia. Para além das armas, todos os documentos eram falsos. Foi Willy Brandt, então Chanceler, a quem recorri para o conseguir safar. Não foi nada fácil.
Foi depois disso que reentrou em Portugal e foi preso de novo na Covilhã, quando tinha planeado, com outros, dominar a cidade, por algumas horas. A "operação" não chegou a realizar-se. Foi encarcerado em Caxias, donde só saiu em 26 de Abril de 1974, depois da Revolução dos Cravos.
Palma Inácio ainda manteve uns tempos a Luar, como organização política. Mas não fazia sentido, uma vez conquistada a liberdade. Assim o reconheceu o próprio Palma, passado o "Verão quente". Foi então que se inscreveu no Partido Socialista. Mas não foi fácil, apesar de ter o meu patrocínio, na altura secretário-geral.
Foi um militante activo e sempre discreto e cumpridor. Foi deputado pelo PS em duas legislaturas e membro da Assembleia Legislativa do Concelho de Lisboa.
Palma Inácio nunca foi um homem político, no sentido que se dá ao termo em democracia. Mas foi um homem com fortes convicções políticas e um militante activo e esforçado que lutou pelos seus ideais e pelas causas, que sempre foram as suas: a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Um revolucionário activo, imaginativo, corajoso, consequente e pessoalmente desinteressado. Com um grande sentido da dignidade, da honradez política, modesto, mas, ao mesmo tempo, com consciência e orgulho do que fez ao serviço da Pátria, no tempo particularmente difícil em que viveu.
Fonte: Diário de Not´cias de 21Jul2009
sábado, 15 de agosto de 2009
«Que cada um de vós se sinta responsabilizado»

Como Hermínio da Palma Inácio escapou à PIDE

António Sardinha e o iberismo maçónico
«... Ontem o Liberalismo, agora a Democracia, não são senão as fachadas dum poder oculto que, no subsolo da política, a manobra a seu bel-prazer. Tal poder é o da Maçonaria, inimiga desde sempre de tudo quanto seja para Portugal o renascimento das suas velhas qualidades de fé e de disciplina. Maçónica na sua origem, é um engano supor-se que a revolução do Porto obedeceu a indignadas iras patrióticas contra a residência inglesa de Beresford e contra a demora da obstinada Corte no Rio de Janeiro. A demora da Corte no Rio de Janeiro, levando a uma acção de consciente imperialismo na América, como se deduz da campanha de Montevideu e como o demonstra abundantemente o notável historiador brasileiro Oliveira Lima no seu esplêndido estudo sobre D. João VI — a demora da Corte no Rio de Janeiro impôs-nos à Europa, disposta a abandonar-nos, e à nossa Corte, sem que por isso se molestasse a nossa aliada da véspera, — a Inglaterra. Se D. João VI não pesasse de além do atlântico com o seu vasto império colonial, nós teríamos sido miseravelmente retalhados pela Espanha e pela Grã-Bretanha nas decisões do Congresso de Viena. Ninguém mais do que Inglaterra, desejava pôr cobro à assistência do rei no Brasil, que nos estava valorizando internacionalmente. Tanto assim que se deve à Inglaterra o golpe decisivo na ruptura das duas partes do Reino Unido, colaborando activamente na emancipação do Brasil, igualado à Metrópole pela política sábia de D. João VI.
Por outro lado, as iras patrióticas flamejadas sobre a residência Inglesa são um efeito de pura retórica. A Regência combateu sempre Beresford, com D. Miguel Pereira Forjaz à frente, — D. Miguel Pereira Forjaz que organizara o país contra os franceses e que se mostrava um esteio seguro da influência contra-revolucionária da Santa-Aliança.
A Maçonaria serviu-se dessa capa, fácil de envergar pelo espírito indómito dos nossos soldados, a quem as Lutas Peninsulares haviam restituído muito da antiga fereza da raça. A prova está na circunstância dos clubes secretos pensarem primeiro em aliciar Beresford por intermédio da Viscondessa de Juromenha. Convencidos de que o marechal «era adverso à liberdade», só então é que resolveram maquinar a conjura, destinada à destruição da nossa ordem católica e monárquica, sob o pretexto duma insurreição de carácter nacionalista.
Não digo que as condições económicas fossem sorridentes. Saíramos duma guerra exaustiva, vítimas de três invasões que nos tinham custado o melhor da nossa força, tanto em população como em riqueza. Devagar nos íamos ressarcindo de tão longos e persistentes males. Não olharam a nada os nossos Regeneradores! Levantam uma bela manhãzinha no Porto o pendão de revolta, com vivas a uma «constituição mais liberal que a de Espanha», metendo-se ao caminho para Lisboa, onde o terreno se achava já preparado pela teimosia habilidosa das várias irmandades do triângulo-e-avental.
A solidariedade cosmopolita dos princípios da Revolução não é só do tempo presente. Vem de atrás e muito de atrás! Por semelhante a nossa Maçonaria facilitou a entrada de Junot em Lisboa, mandando mensageiros a Napoleão e dispondo-se a entregar-lhe com a dinastia o único penhor da independência pátria. A mesma solidariedade, jurada sobre as insígnias triangulares, debaixo do olho simbólico do Supremo Arquitecto do Universo, obriga Gomes Freire, traidor desde que espontaneamente se dedicou à fortuna de Bonaparte, a preparar a queda da dinastia de 1817, de acordo com conspiradores espanhóis, a cuja testa se encontrava o general Cabanes.
Esta é a genealogia da famosa Harmonia-Ibérica, que, no fundo, não é mais do que a República Federal da Ibéria, anunciada para depois da insurreição, agora malograda em Espanha, pelo Doutor Simarro, no convénio maçónico realizado em Paris a 2 de Julho passado (1917): declarou-se aí que, a triunfarem os revoltosos, a bandeira verde-vermelha seria imediatamente reconhecida como sendo a bandeira da Ibéria. Não se tratava senão da execução testamentária de Gomes Freire! Procuraram efectivá-la os homens de 1820. De facto é um maçon, D. José Pando, ministro da Espanha em Portugal, quem coadjuva e acoberta as cabalas dos conjurados. Conta-se até, que dois meses antes, chegara ao Porto o coronel Barreros com o fim de promover uma revolução em Portugal e prometendo auxílios do governo de Madrid. Parece que Fernandes Tomás não aceitou as propostas de Barreros. No entanto, ao rebentar o movimento do Porto, um corpo de exército espanhol avizinhou-se da nossa fronteira de Trás-os-Montes.
O mais interessante é que os jornais da época afirmaram (Diário do Governo, do Rio de Janeiro, de 22 de Abril de 1823) que Manuel Fernandes Tomás recebera de D. José Pancho cinco milhões de reais para levar a cabo a revolução, pondo-se depois em prática o plano traçado na Sociedade dos Regeneradores do Género Humano, fundada em Cadiz, à roda de 1812. Consistia esse plano na confederação ibérica, em que Portugal e Espanha se repartiriam em várias repúblicas inter-dependentes, da maneira seguinte: Bética-Ulterior, Bética Citerior, Galega, Navarra, Asturiana, Lusitânia-Ulterior e Lusitânia-Citerior, com a expressa condição de que os Algarves pertenciam à Bética Citerior. Passa singularmente, como vêem, no programa político dos Regeneradores do Género Humano, o programa daqueles que há umas dezenas de anos se foram de juntar até Badajoz. É o mesmo espírito que anima o livro do Senhor Magalhães Lima, La Fédération Ibérique. E para prova, no seu curioso livro Mi Missión en Portugal, Fernandez de los Rios assegura que nos arquivos secretos de Fernando VII, no Palácio de Madrid, existiam documentos comprovativos das aspirações unitaristas da Espanha durante o período vintistas».(2)
Notas:
1 – Na Feira dos Mitos, cap. " A «Carta»", pág. 85, 2,ª ed., Edições Gama, 1942.
2 – Ao Ritmo da Ampulheta, cap. "1820", pág. 50 e segts, Lvmen, Lisboa, Porto, Coimbra, Rio de Janeiro, 1925.

