quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Da «lumpen-aristocracia» à luta pela independência (5/5)

via Caminhos da Memória de Diana Andringa em 07/09/09
(Primeira, segunda, terceira e quarta parte deste texto.) Entre as repercussões dessa conferência numa sala da Câmara dos Comuns, considera Pinto de Andrade o entendimento, pelos militantes do interior, de um encorajamento à passagem à luta armada: «Dois meses depois, a 4 de Fevereiro de 1961, os militantes do interior, encorajados por essa conferência de Imprensa, [...]

Da «lumpen-aristocracia» à luta pela independência (4/5)

via Caminhos da Memória de Diana Andringa em 06/09/09
(Primeira, segunda e terceira parte deste texto.) Pinto de Andrade troca Paris por Conacry, a primeira base africana: «Para nós, Conacry era uma estância provisória. O que queríamos era aproximar-nos do interior. Com a independência do Congo, começámos a criar novas células. Estávamos em atraso em relação à UPA, que era originária da etnia Bakongo, [...]

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Flutuantes como Espuma

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 06/09/09
SENDO O CRESCIMENTO da litosfera oceânica um facto plenamente comprovado, sabendo-se que os enrugamentos montanhosos não são suficientes para compensar esse alastramento e, uma vez que a Terra não está em expansão, é forçoso que haja, em simultâneo, destruição de litosfera, o que acontece ao longo das chamadas zonas de subducção, por mergulho e reabsorção por fusão no manto. Estas zonas estão associadas quer a arcos insulares, isto é, conjuntos de ilhas vulcânicas que se alongam em arco (Curillas, Aleutas e outras), quer a margens continentais de tipo andino, de que é exemplo a margem frontal à cordilheira dos Andes, no bordo ocidental da América do Sul. Nos arcos insulares, o contacto estabelece-se entre duas placas oceânicas em aproximação e, então, qualquer uma delas pode mergulhar sob a outra. Nas margens de tipo andino, a aproximação põe em confronto uma placa continental e uma oceânica, sendo esta que, por ser mais densa, mergulha, no geral, sob a outra. Parte dos sedimentos acumulados na margem continental, ao longo de dezenas de milhões de anos, acabam por ser enrugados e emergir, participando na formação de montanhas, como é o caso nas várias cadeias recentes (Alpes, Andes, Montanhas Rochosas, entre outras), ainda em construção e, portanto, activas. Quando a subducção engole a totalidade da placa oceânica situada entre dois blocos continentais em aproximação, eles acabam por colidir. Foi o que aconteceu nos Himalaias, há uns 40 milhões de anos, em resultado da colisão da Índia com o Sudoeste da Ásia. Nesta região verifica-se uma excepção à generalizada flutuabilidade da crosta continental. Uma porção considerável do continente indiano deslizou sob o continente eurasiático, sendo a causa da elevação do planalto do Pamir.

Tendo muita dificuldade em mergulhar no manto, os continentes encerram as mais antigas rochas do planeta, algumas com mais de 4000 milhões de anos. São, por assim dizer, entidades permanentes à superfície do planeta, quais jangadas à deriva. Flutuantes como a espuma, as placas litosféricas estão sujeitas a fragmentações, translações e subsequentes rearranjos, sempre à superfície do globo. Claude Allègre chamou-lhes l'écume de la Terre, a espuma da Terra. Mesmo o desgaste que sofrem, por erosão, não os destrói. Com efeito, os sedimentos resultantes da sua erosão acumulam-se nas respectivas margens e são-lhes devolvidos em episódios orogénicos posteriores.

sábado, 5 de setembro de 2009

Da «lumpen-aristocracia» à luta pela independência (3/5)

via Caminhos da Memória de Diana Andringa em 03/09/09
(Primeira e segunda parte deste texto.) Em 1954, Mário Pinto de Andrade parte para Paris: «Sentia-me perseguido, como toda a gente, pela PIDE. E pressenti que, não estando ligado propriamente às actividades políticas portuguesas, seria para mim um corte na minha própria formação continuar em Lisboa. Depois, já tinha ligações com o Alioune Diop, com a Présence [...]

Da «lumpen-aristocracia» à luta pela independência (2/5)

via Caminhos da Memória de Diana Andringa em 02/09/09
(A primeira parte deste texto pode ser lida aqui.) Na viagem para Lisboa, Mário tem a companhia do irmão Joaquim e do futuro cardeal Alexandre Nascimento. A saída das Ingobotas – «mais precisamente do Quilómetro 5» – para um jovem que apenas fizera algumas curtas viagens em Angola, foi «uma separação penosa, difícil, um primeiro desenraizamento»: [...]

Da «lumpen-aristocracia» à luta pela independência (1/5)


via Caminhos da Memória de Diana Andringa em 01/09/09
Nasceu e morreu no mês de Agosto. Teria completado 81 anos no passado dia 21, se a morte não o tivesse apanhado em Londres poucos dias depois de fazer 62 anos – a 28 de Agosto de 1990. Pouco tempo depois, também, de ter tido oportunidade de conhecê-lo. A partir dos anos 60 e durante muito [...]

O realismo segundo Woody Allen

via Entre as brumas da memória de Joana Lopes em 05/09/09
«A vida é muito dura, muito agreste, brutal, curta de mais, feia e má, e, no fim, não há esperança que nos salve. A isto eu chamo realismo. (…) Sinto mesmo que a nossa maior obrigação na vida é aceitar o facto de que a vida não quer dizer nada, é vazia, que somos o resultado de um acaso tendo por fundo um universo que também não tem significado nenhum. Universo esse que, claro, também vai acabar

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Vista Cansada

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 31/08/09
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HIPERMETROPIA, como se diz no jargão médico, tão ao gosto dos profissionais, sempre foi para a grande maioria do povo "vista cansada". É aquela perda progressiva de visão ao perto que a grande maioria começa a dar-se conta por volta dos 40 a 50 anos de idade. É o franzir dos olhos ou o afastar das páginas do jornal quando se desejam ler as letras mais miudinhas, é o enfiar, a tacto, a linha no orifício da agulha. Com o uso e o passar dos anos, a vista cansou-se. Felizmente que há lentes que fazem aquilo que os nossos olhos já não conseguem fazer e que é focar a imagem na retina.

Nos anos da minha meninice e adolescência, a par dos dois oftalmologistas da cidade de Évora, com consultório aberto a uma clientela mais endinheirada, ainda persistiam os oculistas ambulantes que percorriam o país, de feira em feira. Um destes feirantes, que conheci, vinha todos os anos pela Feira de São João. Montava um pequeno toldo, sob o qual estendia uma banca onde dispunha o material que trazia: dezenas e dezenas de pares de óculos, de muitos tamanhos e feitios, todos eles completos, isto é, com as lentes já montadas. Não se fazia ali qualquer avaliação prévia da deficiência ocular dos interessados. Cada um colocava nos olhos um par, ao acaso, e num pedaço de jornal e experimentava a eventual melhoria que o mesmo lhe proporcionava. Ia escolhendo e pondo de lado e, ao fim de muitas tentativas, das duas uma: ou, por sorte, encontrava uns óculos que lhe melhorassem a visão, ou acabava por desistir porque nenhum dos ali à sua disposição lhe resolvera o seu problema.

O senhor Alberto oculista, assim era conhecido, configurava um homem de uma certa idade, de pequena estatura, algo franzino, míope, de cabelo grisalho, ralo e liso. A bata, um tanto roçada pelo uso e que já não era bem branca, dava-lhe, apesar disso, o ar de eficiência e respeito profissional pretendido. De espanador na mão, ia removendo o pó, sempre muito, constantemente depositado sobre o delicado artigo exposto, e afugentando as moscas, também muitas, que lhe invadiam o espaço, fugidas do brasido naquelas tardes de finais de Junho no grande espaço térreo que ainda hoje é o Rossio de São Brás.

Era, sobretudo, gente do campo, com poucas posses, que fazia o grosso da sua clientela e, nesta, predominavam as mulheres. Dos homens só alguns sabiam ler, pelo que eram sempre poucos os que sentiam a necessidade de ir ao oculista. Viam ainda muito bem o chão onde enterravam a enxada ou o macho que lhes puxava o arado. Mas para as mulheres ver ao pé era crucial, apenas "por mor" da costura.

- Enfiar as linhas na agulha, é que me custa. É a minha neta que mas enfia. – Lamentava-se uma quintaneira, uma das muitas habitantes das redondezas que todos os anos só nesta ocasião vinham à Feira em busca do que ali podiam comprar e também para encherem a alma de multidão, luzes, cores, sons e festa, depois de meses e meses de isolamento, silêncio, solidão e luz de petróleo ou candeias.

- Passajar, vá que não vá, é a tacto. Pregar um botão é a mesma arrelia. Falta-me a vista. – Dizia ela para o senhor Alberto, que a ouvia ao mesmo tempo que procurava o par que melhor servisse esta sua possível cliente. Depois de várias tentativas e escolhido um que lhe pareceu adequado, deu-lhe uma limpeza com a flanela, que trazia no bolso superior da bata, e ajeitou-o na cara da mulher.

- Experimente lá estes, tiazinha - disse o oculista, ao mesmo tempo que lhe passava para a mão meia folha do "Notícias d' Évora". – Veja lá se consegue ler aí nas letras mais pequeninas?

- Leve lá daqui o jornal, criatura de Deus, "quê cá nã sê ler"! Eu trouxe aqui com que tirar a prova. – Disse a mulher, com ar de quem brinca com a sua própria mágoa, enquanto buscava na mala o trapinho onde espetara uma agulha e enrolara um pedaço de linha.

- Estes são uma maravilha! – Exclamou entusiasmada a quintaneira depois de, logo à primeira tentativa, ter enfiado a linha no buraquinho da agulha. Até vejo os fiozinhos mais fininhos. Louvado seja Deus!