segunda-feira, 14 de setembro de 2009

OS CHAPARROS CRESCEM E AS AZINHEIRAS MINGUAM

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 13/09/09
O SENHOR CAMILO era o mordomo da Sociedade Harmonia Eborense nos anos quarenta e cinquenta. De nacionalidade espanhola, dizia-se à boca pequena que era refugiado da Guerra Civil. Nunca soube ao certo se era ou não, nem isso me interessava nessa altura. Cedo conquistou a estima e a muita amizade de todos os que com ele privavam, acabando por se tornar figura querida da cidade. Barrigudo, de meia-idade, de ralos cabelos grisalhos e farto bigode a tapar-lhe metade da cara macia e sempre risonha, o senhor Camilo era uma figura carinhosa e doce, mesmo no seu "portunhol" que nunca perdeu. Este homem bom, com provas dadas de grande amizade pela nossa família, tinha um gosto muito particular pela arte dos sabores e introduziu em muitos dos seus amigos o hábito de "pinchar". A cozinha do senhor Camilo era um salão confortável, enorme, onde as frutas e os legumes, artisticamente dispostos em belos cestos e outros recipientes, eram sempre motivo de decoração. Do mesmo modo que os vinhos, as mercearias e os mais variados utensílios, de todos os tamanhos e feitios, davam ao espaço uma organização estética a condizer com os aromas sempre ali reinantes, entre os quais o do seu inseparável charuto. Ali saboreámos todas as guloseimas que sempre tinha para nos regalar. Para nós, crianças, que ali passámos muitos dos nossos tempos livres, no jogo da glória, no dominó e, mais tarde, no do bilhar, o senhor Camilo ficou-me na memória como o avô que não tive.

– Quieres un helado, hijo mio? No le digas nada, que te dé um regalo.

Nesse tempo os homens saíam sempre depois de jantar. O meu pai reunia-se com os amigos na Sociedade e aí passava o serão, as mais das vezes, em torno do bilhar. Vê-lo jogar era uma festa, sempre animada por assistência numerosa e atenta. Vê-lo ganhar enchia-me de uma vaidade gostosa. Ouvir os elogios do outro jogador, acompanhados das convencionais pancadinhas com o taco no soalho, em sinal de aplauso, faziam-me transbordar de satisfação. Tantas vezes que, nas séries de duzentas carambolas, ele as fazia de seguida, sem que o companheiro tivesse tido oportunidade de pegar no taco. As bolas, a puxar e a seguir, com massés, tabelas secas ou outras habilidades, acabavam sempre por se juntar num canto. Aí, o meu pai iniciava a "série americana", algo monótona, diga-se, mas de uma precisão extrema. Sempre juntas, as três bolas, tacada a tacada, iam dando a volta à mesa. E se alguma se afastava demasiado, era de imediato recolocada no devido lugar com uma tacada aberta que a enviava e trazia de volta, a morrer, como se dizia. Havia sempre um voluntário que, no final, contava em voz alta as derradeiras carambolas.

–... cento e noventa e sete, cento e noventa e oito, cento e noventa e nove... duzentas!

– Boa tacada! - Gritava alguém, excitado pela qualidade da última carambola, espectacular, de amplo desenho geométrico, alargado às várias tabelas.

Seguiam-se os aplausos, ruidosos, as felicitações e os comentários, só então se quebrando o silêncio em que decorriam as partidas.

– E tu, já sabes jogar? – Perguntou-me, um dia, o senhor Firmino, colega de emprego do meu pai, acrescentando – Filho de peixe sabe nadar.

Eu apenas sorria, vaidoso, encolhendo os ombros e olhando para o pai como que esperando que respondesse por mim.

– Lá irá, lá irá – dizia ele, rematando com uma frase que só mais tarde entendi. – Os chaparros crescem e as azinheiras minguam.

domingo, 13 de setembro de 2009

JORGE SENA - OS FUSILAMENTOS DE GOYA

via DA TAILÂNDIA COM AMOR E HUMOR de Jose Martins em 11/09/09


Sexta-feira, Setembro 11, 2009
CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós.
Um simples mundo,onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto o que vos interesse para viver.
Tudo é possível,ainda quando lutemos, como devemos lutar,por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,ou mais que qualquer delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo.
(...)
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.

É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, e sobretudo sem desapego ou indiferença,ardentemente espero.
Tanto sangue,tanta dor, tanta angústia, um dia - mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga - não hão-de ser em vão.
Confesso que muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos de opressão e crueldade, hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão?
Mas, mesmo que o não sejam,quem ressuscita esses milhões, quem restituinão só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes aquele instante que não viveram, aquele objeto que não fruíram, aquele gestode amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram.
Jorge de Sena Lisboa, 25/6/1959

Fonte: Jornal do Pau

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

DIZENDO E ESCREVENDO

via A BUSCA DA VERDADE de Sol do Deserto em 10/09/09
"Para escrever só existem duas regras: ter algo a dizer e dizê-lo".
Oscar Wilde, escritor irlandês, 1854-1900

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Da «lumpen-aristocracia» à luta pela independência (5/5)

via Caminhos da Memória de Diana Andringa em 07/09/09
(Primeira, segunda, terceira e quarta parte deste texto.) Entre as repercussões dessa conferência numa sala da Câmara dos Comuns, considera Pinto de Andrade o entendimento, pelos militantes do interior, de um encorajamento à passagem à luta armada: «Dois meses depois, a 4 de Fevereiro de 1961, os militantes do interior, encorajados por essa conferência de Imprensa, [...]

Da «lumpen-aristocracia» à luta pela independência (4/5)

via Caminhos da Memória de Diana Andringa em 06/09/09
(Primeira, segunda e terceira parte deste texto.) Pinto de Andrade troca Paris por Conacry, a primeira base africana: «Para nós, Conacry era uma estância provisória. O que queríamos era aproximar-nos do interior. Com a independência do Congo, começámos a criar novas células. Estávamos em atraso em relação à UPA, que era originária da etnia Bakongo, [...]

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Flutuantes como Espuma

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 06/09/09
SENDO O CRESCIMENTO da litosfera oceânica um facto plenamente comprovado, sabendo-se que os enrugamentos montanhosos não são suficientes para compensar esse alastramento e, uma vez que a Terra não está em expansão, é forçoso que haja, em simultâneo, destruição de litosfera, o que acontece ao longo das chamadas zonas de subducção, por mergulho e reabsorção por fusão no manto. Estas zonas estão associadas quer a arcos insulares, isto é, conjuntos de ilhas vulcânicas que se alongam em arco (Curillas, Aleutas e outras), quer a margens continentais de tipo andino, de que é exemplo a margem frontal à cordilheira dos Andes, no bordo ocidental da América do Sul. Nos arcos insulares, o contacto estabelece-se entre duas placas oceânicas em aproximação e, então, qualquer uma delas pode mergulhar sob a outra. Nas margens de tipo andino, a aproximação põe em confronto uma placa continental e uma oceânica, sendo esta que, por ser mais densa, mergulha, no geral, sob a outra. Parte dos sedimentos acumulados na margem continental, ao longo de dezenas de milhões de anos, acabam por ser enrugados e emergir, participando na formação de montanhas, como é o caso nas várias cadeias recentes (Alpes, Andes, Montanhas Rochosas, entre outras), ainda em construção e, portanto, activas. Quando a subducção engole a totalidade da placa oceânica situada entre dois blocos continentais em aproximação, eles acabam por colidir. Foi o que aconteceu nos Himalaias, há uns 40 milhões de anos, em resultado da colisão da Índia com o Sudoeste da Ásia. Nesta região verifica-se uma excepção à generalizada flutuabilidade da crosta continental. Uma porção considerável do continente indiano deslizou sob o continente eurasiático, sendo a causa da elevação do planalto do Pamir.

Tendo muita dificuldade em mergulhar no manto, os continentes encerram as mais antigas rochas do planeta, algumas com mais de 4000 milhões de anos. São, por assim dizer, entidades permanentes à superfície do planeta, quais jangadas à deriva. Flutuantes como a espuma, as placas litosféricas estão sujeitas a fragmentações, translações e subsequentes rearranjos, sempre à superfície do globo. Claude Allègre chamou-lhes l'écume de la Terre, a espuma da Terra. Mesmo o desgaste que sofrem, por erosão, não os destrói. Com efeito, os sedimentos resultantes da sua erosão acumulam-se nas respectivas margens e são-lhes devolvidos em episódios orogénicos posteriores.

sábado, 5 de setembro de 2009

Da «lumpen-aristocracia» à luta pela independência (3/5)

via Caminhos da Memória de Diana Andringa em 03/09/09
(Primeira e segunda parte deste texto.) Em 1954, Mário Pinto de Andrade parte para Paris: «Sentia-me perseguido, como toda a gente, pela PIDE. E pressenti que, não estando ligado propriamente às actividades políticas portuguesas, seria para mim um corte na minha própria formação continuar em Lisboa. Depois, já tinha ligações com o Alioune Diop, com a Présence [...]

Da «lumpen-aristocracia» à luta pela independência (2/5)

via Caminhos da Memória de Diana Andringa em 02/09/09
(A primeira parte deste texto pode ser lida aqui.) Na viagem para Lisboa, Mário tem a companhia do irmão Joaquim e do futuro cardeal Alexandre Nascimento. A saída das Ingobotas – «mais precisamente do Quilómetro 5» – para um jovem que apenas fizera algumas curtas viagens em Angola, foi «uma separação penosa, difícil, um primeiro desenraizamento»: [...]