sexta-feira, 2 de outubro de 2009

António de Oliveira Salazar. Vazante

via universidade de Gil Gonçalves em 02/10/09

Fernando Correia da Silva

VAZANTE

A caravana passa... Outra vez me levanto e passeio pelo terraço. O barquinho não conseguiu alcançar S. Julião da Barra e a vazante começa a arrastá-lo para o alto mar.

http://www.vidaslusofonas.pt/salazar.htm

Somos pobres, filhos de pobres. O Estado tem de ser forte e imponente para compensar a pobreza natural do nosso povo. Cuidem eles das suas hortas que do Estado cuido eu. Admirem e orgulhem-se das obras que mandei o Duarte Pacheco, e outros, construir de norte a sul da Nação. Admirem e orgulhem-se do Instituto Superior Técnico, do Estádio Nacional e da auto-estrada que o liga a Lisboa; admirem e orgulhem-se do Hospital Santa Maria em Lisboa, e do Hospital S. João no Porto, e dos Palácios da Justiça em Lisboa e no Porto, e das pontes, e dos viadutos, e das barragens do Cávado-Rabagão, e da Idanha-a-Nova, e do Castelo de Bode.

Para admirar e orgulhar-se da nossa Pátria heróica, do nosso Estado forte, não é preciso ser-se instruído. Instrução, para quê? Basta saber ler e escrever e não é preciso que sejam todos. Se tiverem alguma dificuldade de entendimento, lá está o senhor padre para os aconselhar e orientar. Para as primeiras letras, e só para essas, mando construir uma rede de escolas pela Nação fora, e mais não é preciso. Se fôssemos todos doutores, quem iria amanhar a terra, quem iria amassar o pão, quem iria assentar tijolos? Não permito que a falsa sabedoria perturbe a inocência do nosso povo. Esconjuro a tal universidade popular desse tal Bento Caraça; é ateu, interfere com a lei divina, é comunista disfarçado de matemático, é demitido e preso.

Manda quem pode e obedece quem deve, esta é a ordem natural das coisas. Não mexo na propriedade, ela é intangível. Cobiçar os bens do próximo é tentação assoprada pelos comunistas.

Bem sei que é preciso fomentar a produção industrial. Mas o fomento é planeado por mim e aplicado conforme o Estado exige, não permito que se ponha em perigo o equilíbrio orçamental que tanto me custou a alcançar. Observo que o mundo campestre provoca os sorrisos desdenhosos da economia industrial. Por mim, se tivesse de haver competição, continuaria a preferir a agricultura à indústria. Mas se eles querem enriquecer depressa, não chegam lá pela agricultura. A faina agrícola é, acima de tudo, uma vocação de pobres. E o nosso é um povo de pobres, filhos de pobres. As nossas raízes mergulham fundo no torrão natal.

Não admito reivindicações salariais e muito menos greves, isso é obra de comunistas. Se a economia industrial está a enriquecer uns poucos e a levar um excesso de pobreza a muitos, só a mim cabe corrigir o excesso, cristão eu sou. Doo terrenos para facilitar a construção de casas com rendas limitadas. Pela província, de norte a sul mando construir as Casas do Povo. E nas grandes cidades mando edificar bairros sociais. No da Encarnação, em Lisboa, são pequenas vivendas por entre árvores, cada qual com a sua horta para plantar couves e semear batatas. Que ao menos se lembrem eles das courelas que trocaram pela cidade, à procura de melhor vida que, afinal, não será assim tão boa...

Outra vez assesto os meus binóculos. O barquinho cada vez está mais ao largo, corre o perigo de ser engolido pelas vagas do mar alto. Quem lhe pode lançar mão?

E fogem, fogem dos campos, vêm para as cidades, vão para o Brasil, vão para a Europa e a maioria dos emigrantes é clandestina. Depois da guerra, além dos Pirinéus tudo parece um mar de rosas. Odeio a Rússia e os comunistas, mas também não gosto dos americanos. Não, não! aqui não quero um Plano Marshall, pequeninos mas orgulhosos, escorados estamos por um passado glorioso. Não consigo é evitar o mar de rosas, não há barragem que o detenha, afoga-nos, poucos são os que reparam nos espinhos. De Setúbal a Braga, pelo litoral, as indústrias surgem como cogumelos depois da chuva. Em Lisboa, e no Porto, começa a haver mais gente a escrevinhar nos escritórios do que operários a produzir. Tudo muda e já não consigo travar a mudança. E os escreventes cada vez lêem mais livros e jornais, e vão a cursos nocturnos, e ouvem telefonia com ondas curtas para apanhar o estrangeiro, e vêem filmes, e fundam cineclubes, e arrogam-se o direito de exigir melhor distribuição dos benefícios acrescidos. Também os operários entram no coro, inquinados já estão uns e outros pelo comunismo.

Para evitar a inflação e os maus costumes, continuo a impor vida frugal a quem trabalha por conta d'outrem. Em consequência, são os novos Bancos e as novas Seguradoras que estão a comer a grande fatia do bolo novo, não é o Estado. Nisso não reparam os pobres diabos quando rosnam contra o Estado...

Mas uma coisa é ouvir o que nos contam, outra é ver com os próprios olhos. Chamo o Manuel e, dentro do Mercedes com os vidros foscos, às onze da noite seguimos lentamente ao longo da Avenida. É fim de semana, é Verão, e as esplanadas estão cheias. Pergunto:
- Manuel, o que estão eles a beber?
- Ó Senhor Presidente, é cervejas, é gasosas, é pirolitos, é laranjadas...
- Mas isso é muito caro, não é?
- Ó Senhor Presidente, é 25, é 15, é 10 tostões.

Pois, pois, já estou a entender... Queixam-se que não têm dinheiro e só fazem extravagâncias...

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“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (V)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 02/10/09

Olhando o conjunto dos textos que, no decurso dos séculos XVI, XVII e XVIII, se ocuparam do Índio do Brasil, vemos que este, longe de ser tratado de uma maneira uniforme, vai sendo integrado dentro do sistema ideológico de cada época e gradativamente enriquecido com novas facetas.

[...]

O conceito do Renascimento, transcendendo o campo cultural, virá, na verdade, a significar uma renovação total de vida, em vista a novos conceitos e realizações, que o século XVI, no entanto desconhece ainda.

E é precisamente nesta altura que surgirá, ou melhor, que se materializará (pois o conceito, em certa medida, já existia) um novo tipo de homem-ideal, que vivia segundo concepções diferentes, alheio a todos os problemas que na Europa se agitavam, numa vida simples e sem artifícios, mais próxima, para muitos, da natureza e da verdade e, para muitos também, melhor do que qualquer outra. Este homem-ideal, identificado com o Índio Americano, será, portanto, necessariamente contraposto aos Europeus e representará, em relação a estes, um modelo a atingir.

É assim fácil de conceber a curiosidade que todos sentiam em relação a esses novos povos e a ansiedade com que recebiam toda e qualquer narrativa das viagens efectuadas. O Índio seria ou não mais feliz do que os Europeus, na sua vida de selvagem? Era o que importava acima de tudo descobrir. A resposta a esta pergunta e a resolução do problema variará, é claro, de acordo com as concepções de cada escritor. Podemos, no entanto, determinar duas correntes essenciais: uma, descrever-nos-á o Índio como um homem bom e feliz, e os seus defeitos serão levados à conta de divergências inevitáveis entre um e outro povo; outra, mais objectiva, reconhecerá as suas qualidades, apontará os seus vícios e, dando embora mais relevo àquelas ou a estes, apresentar-nos-á, afinal, um homem com qualidades e defeitos como o europeu, a ele superior em alguns pontos, mas bem inferior noutros.

"O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII", de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 21 a 23

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (IV)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 01/10/09

Em Portugal publicavam-se, entretanto, as obras de Pero de Magalhães Gândavo, Fernão Cardim, Frei Vicente do Salvador, Gabriel Soares de Sousa e Pero Lopes de Sousa [...].

As obras de Fernão Cardim, Do principio e origem dos Índios do Brasil e de seus costumes e cerimónias e Do clima e terra do Brasil e de algumas coisas notáveis que se acham assim na terra como no mar, foram publicadas, em 1625, sob o título de A Treatise of Brasil written by a Portugall which had long lived there, no Pilgrim's de Purchas, antes de serem publicadas em Portugal. [...]

Também tiveram grande importância nesta época as cartas escritas pelos Jesuítas que partiam para a Américam tanto portugueses, como franceses ou espanhóis. Dentre os primeiros, adquiriu especial relevo a correspondência do Padre Manuel da Nóbrega e do Padre José de Anchieta, entre muitos outros de menor importância.

As primeiras cartas de Manuel da Nóbrega, de 1649, já no ano imediato se encontravam em Roma, depois do que foram enviadas para todas as casas e colégios europeus da Companhia. [...]

Em 1556 encontrava-se já traduzida para francês pelo menos uma das cartas de Manuel da Nóbrega, que nesse mesmo ano foi publicada em Paris.

As coisas do Brasil tinham encontrado um meio incomparável de divulgação. As cartas jesuíticas são traduzidas em várias línguas até que a sua tradução para latim as coloca ao alcance de todo o mundo europeu.

Quanto às portuguesas, foram geralmente vertidas em primeiro lugar para espanhol e só então para latim.

De qualquer forma, o que acima de tudo nos interessa é que se tenham tornado conhecidas e que a sua expansão tenha progressivamente enriquecido o conhecimento que os europeus tinham do Brasil. [...]

"O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII", de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 13 e 14

A ultrapassagem do Mestre Escola

A ultrapassagem do Mestre Escola

via Caminhos da Memória de João Tunes em 01/10/09
Tenho experiência de como temos de domar o bárbaro que transportamos em cada um de nós. Desde cedo. Desde tão cedo que essa minha experiência de criança é ainda hoje uma cicatriz na minha memória. Andava na então Terceira Classe, tinha dez anos. Lembro-me bem do professor. Era um ser frio e duro. Mas não me [...]

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (III)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 30/09/09

Arinos de Melo Franco, tentando, e com muita felicidade, explicar o maior interesse dispensado aos indígenas do Brasil e da América Central, em detrimento daquele manifestado pelos Índios de outras regiões, dá-nos a conhecer que eram precisamente aqueles que melhor se prestavam para ilustrar um conceito de «bom selvagem» e de vida «natural». Na verdade, ao contrário do que sucedia com os habitantes da América do Norte e do extremo sul da América, a amenidade do clima tornava possível que andassem nus; esta circunstância, embora puramente exterior, dava-lhes, no entanto, um aspecto ainda menos civilizado e mais próximo da natureza do que aos restantes indígenas americanos e, além disso, os habitantes do Perú e do México encontravam-se num grau de civilização e cultura demasiadamente elevado para poderem ser vistos como representantes da primitiva inocência.

Acresce ainda o facto de que, nos começos do século XVI, as naus europeias se dirigiam sobretudo ao Brasil, que dessa forma se ia tornando muito mais conhecido do que qualquer outra região.

Por outro lado, sendo este nome de Brasil, que o comércio do pau de tinta fez prevalecer sobre a designação de «terra de Santa Cruz», já anteriormente atribuído a uma daquelas ilhas lendárias, desconhecidas e fabulosas, que povoavam a cartografia medieval, era inevitável que esta terra recém-descoberta com ela fosse identificada no pensamento de muitos; o interesse que despertou encontra-se atestado em numerosos documentos.

Assim, logo em 1500, deparamos com a carta de Pero Vaz de Caminha, a do Piloto Anónimo e a de D. Manuel aos Reis Católicos.

Em 1501, é um italiano, Giovanni Cretico, que se ocupa dos habitantes do Brasil.

Em 1502, ou inícios de 1503, outro italiano, Américo Vespúcio, escreve uma carta a Pedro Lourenço de Médicis, carta essa que ficou vulgarmente conhecida pelo nome de Mundus Novus e cuja influência veio a ser decisiva para os conhecimentos geográficos da época. [...]

Quanto ao seu conteúdo, diz-nos que nela louva Américo Vespúcio a beleza e o clima do país, assim como a forma de viver dos seus numerosos habitantes. Viviam num regime comunitário, ignorando a propriedade, a moeda e o comércio, gozavam de uma liberdade moral completa, não tinham religião, e a sua idade alcançava, em média, cento e cinquenta anos.

Por tudo isto as cartas de Vespúcio constituem, na opinião de Arinos de Mello Franco, a base da formação do mito do «bom selvagem» [...]

"O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII", de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 10 e 11

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Entre trapos, linhas e botões

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 28/09/09
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JÁ O CONTEI NOUTROS escritos, entrei tarde e mal preparado para a escola oficial. A aprendizagem das 1ª e 2ª classes fi-la em casa, com a minha mãe, nas muitas horas que ela dedicava à costura, recitando a tabuada e juntando as letras na Cartilha Maternal de João de Deus.

Nesse tempo, quase tudo o que vestíamos, pais e filhos, era feito em casa, das cuecas às camisas, dos vestidos aos fatos, das roupas de cama e de mesa às cortinas e cortinados, tudo ela fazia de novo, passajava, remendava e adaptava dos mais crescidos para os mais novos. Solteira, havia aprendido costura e trabalhara, sobretudo, para alfaiates, em fatos de homem. De agulha na mão ou a pedalar na máquina Singer, era trabalho que fazia por necessidade e, também, por gosto. Mais do que cozinhar para uma família, nesse tempo, com cinco filhos, sendo eu o mais novo, a mãe gostava de costurar.

Um fato que o pai deixasse de vestir era desmanchado, virado do avesso e feito de novo para o filho mais velho, aproveitando as mesmas entretelas e os mesmos forros e chumaços. Só se notava a transformação, porque o bolso do peito, onde ainda hoje se coloca um lenço a condizer com a gravata, passava a ficar do lado direito, denunciando a situação, o que agastava o filho que não tinha outro remédio que não fosse usá-lo assim até que voltasse para o cabide, à espera que o irmão mais novo crescesse. As camisas tinham, também, a sua história. Quando os colarinhos e os punhos, ao fim de um certo tempo de uso e de lavagens, ficavam roçados, cortavam-se as mangas e, com elas, faziam-se novos colarinhos. Reparada a camisa, agora de meia manga, ficava nova uma segunda vez. Mas havia uma terceira ressurreição destas peças do vestuário masculino. Inutilizado o último colarinho, ou seja, o que nascera das mangas, cortavam-se as fraldas, das quais ressurgia a última geração de colarinhos. A camisa, amputada da sua fralda original, recebia um transplante de uma qualquer camisa dadora, posta de lado para se transformar em pano de limpeza, depois de lhe serem retirados os botões.

Foi assim, entre trapos, linhas e botões, que aprendi, mal, os rudimentos da leitura, da escrita e da aritmética. Em 1940 dei entrada na Escola Oficial de São Mamede, na 3ª classe, na classe da dona Júlia, professora nova, simpática e bondosa que, praticamente, não nos batia e que, quando tinha de nos aplicar umas reguadas, como instrumento pedagógico então aceite e seguido, o fazia num jeito de deixar cair a régua sobre a mão da criança. Nada que se comparasse com os castigos dos outros mestres-escola que conheci.

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (II)

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (II)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 29/09/09

Todos estes dados que até aqui reunimos contribuem para nos dar uma rápida visão do lugar cada vez maior que o novo continente ia ocupando nas preocupações europeias. Mas mais nos interessa agora notar que, para além de todo este progresso material e de todos os factores económicos que estiveram em jogo durante o longo período de colonização da América, houve sempre – inúmeras provas o atestam – um interesse mais directo, de cada indivíduo, de cada explorador, por tudo o que de novo ou de diferente tinham conhecimento. E é assim que, quer por cartas, quer em narrativas de viagens, se apressam a comunicar tudo o que os impressiona ou deslumbra àqueles que, igualmente sedentos de novidade, mas impossibilitados de partir, ficaram na Europa.

O botânico preocupa-se em conhecer as espécies de plantas, de árvores, de flores, como o zoólogo vibra ao saber da existência de animais até então desconhecidos da ciência. Mas é sobretudo o homem, o Índio americano, com os seus costumes, com as suas concepções religiosas e morais e mesmo com a sua vida prática, que preocupa a sociedade europeia e que esta se empenha em conhecer nas suas menores manifestações.

[...]

Os Descobrimentos foram, sabemo-lo bem, um dos factores dominantes do Renascimento. As concepções pseudo-científicas da Idade Média caíram como um baralho de cartas e com elas se foi, pouco a pouco, fragmentando e desagregando o teocentrismo que a tinha dominado e que foi progressivamente cedendo o lugar a novos valores. [...]

Sem o homem do Renascimento, o Índio da América apenas teria existido na literatura como simples curiosidade ou diversão do espírito. E, ao mesmo tempo que aquele o enriqueceu com novas perspectivas, este forneceu-lhe matéria e temas preciosos e inesgotáveis.

Assim se compreende a avidez com que toda e qualquer informação sobre esses novos povos era acolhida. As cartas, as longas narrativas ou as simples notações de viagens, eram recebidas com entusiasmo, lidas, traduzidas, comentadas.

Desde que Colombo tornou conhecida a sua descoberta, não se descansou mais na Velha Europa. As cartas tornaram-se objecto de todas as atenções e constituíram o germe que iria dar origem a algumas das mais completas e das mais belas narrativas de viagem.

"O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII", de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 8 a 10

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (I)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 28/09/09

Quais as circunstâncias históricas que tornaram possível o aparecimento do Índio como tema literário?

Quais os meios por que as coisas do Brasil se foram progressivamente tornando conhecidas na Europa?

Qual o resultado do contacto deste conhecimento com as ideias que já existiam na Europa sobre os selvagens?

São estas as perguntas a que, antes de mais, nos propomos responder.

Quando, em 1492, Cristóvão Colombo aportou, na América Central, em S. Salvador, não lhe era fácil dar-se conta de que um Novo Mundo se tinha aberto aos Europeus.

Levado pela ideia de alcançar as Índias pelo Oeste, facilmente se convenceu de que tinha chegado ao seu destino. E quando, em 1500, Pedro Álvares Cabral desembarcava num território que viria em seguida a formar a província portuguesa do Brasil, continuava-se ainda na mesma ilusão.

É difícil agora, a distância, darmo-nos bem conta da emoção que se deve ter verificado quando, em 1507, o florentino Américo Vespúcio deu conta de que não era a Índia o território descoberto, mas sim um território completamente desconhecido, e da curiosidade intensa, quase da impaciência febril, que da Europa se ia apoderando, de conhecer exactamente as possibilidades que se encontravam nas terras recém-descobertas.

Assim se compreende que, desde então, e durante um largo período de tempo, os olhos da Europa tenham estado fixados no Novo Mundo.

Quer procurando expandir para além-mar o património recebido e a religião da terra-mãe, quer cedendo a um desejo imperioso de novidade e libertação, em breve se estabeleceu entre a velha Europa e o Novo Mundo uma cadeia de circulação e relações que não viria mais a ser interrompida.

A Espanha, desde 1519, até à segunda metade do século XVI, ocupa o México (1519-1522), o Perú (1532-1535(, a Venezuela (1520-1540), o Iucatão (1527-1547), a Colômbia (1538) e, finalmente, a Argentina e o Paraguai. Portugal continuava ocupado na colonização do Brasil e, fascinados pelas novas descobertas, logo, após Espanhóis e Portugueses, se lançaram Franceses, Ingleses e Holandeses na rota do Novo Mundo.

"O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII", de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 7, 8