quinta-feira, 8 de outubro de 2009

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (VIII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 08/10/09

Escrevendo sobre o Brasil contemporaneamente aos exploradores e viajantes, há aqueles que nele se estabeleceram procurando civilizá-lo.

Dentre esses colonizadores, apenas os Jesuítas nos deixaram documentos sobre o Índio, pois às relações de carácter oficial interessavam apenas os problemas de organização externa. Os Jesuítas, procurando cristianizar os indígenas, ocupavam-se do Índio como pessoa, como homem capaz de um comportamento moral. Apressavam-se em seguida a dar conta dos seus trabalhos, dos seus progressos e dificuldades, aos restantes membros da Companhia, e assim nos deixaram numerosos textos cheios de interesse.

É em 1549, no dia 1 de Fevereiro, que os primeiros Jesuítas partem para o Brasil; são seis, e entre eles vai, como superior, o Padre Manuel da Nóbrega que, não só pela colaboração que prestou ao Governo Geral do Brasil, como pela firme resolução de trabalhar intensamente na conversão dos Índios, tanto relevo veio a ter entre os primeiros colonizadores. Se, contudo, a organização civil do Brasil sempre o interessou, tocava-lhe muito mais de perto a sorte dos Índios.

Diz Serafim Leite que, para além do interesse manifestado pelo modo de vida dos selvagens, aos Padres importava acima de tudo determinar a medida em que esses Índios poderiam ser cristianizados e civilizados.

É, na verdade, este, o objectivo de Manuel da Nóbrega, assim como de todos os outros membros da Companhia. Quanto ao aspecto sob o qual via os Índios, diz o Padre Manuel da Nóbrega em carta a Martin de Azpilcueta Navarro, depois de se referir às boas qualidades da terra, no que respeita ao seu clima e produção:

«Mas é muito de espantar ter dado (o Criador) tão boa terra tanto tempo a gente tão inculta, e que tão pouco o conhece, porque nenhum deus tem certo e qualquer que lhe dizem crêem. Regem-se por inclinação, a qual sempre prona est ad malum, e apetite sensual, gente absque consilio et sine prudentia. Têm muitas mulheres enquanto se contentam delas e elas deles, sem entre eles ser vituperado».

E, depois de ter falado do hábito que têm de comer os «contrários» que ficam prisioneiros de guerra, conclui:

«E nestas duas coisas, scilicet , em ter muitas mulheres e matar os seus contrarios, consiste toda a sua honra e esta é a sua felicidade e desejo, o qual tudo herdaram do primeiro e segundo homem e aprenderam daquele qui ab initio mundi homicida est».

Na Informação das terras do Brasil (Aos Padres e Irmãos da Companhia) refere-se às manhas dos feiticeiros, à facilidade com que nelas acreditam, à forma como tratam os mortos e, de novo, à maneira de matar os «contrários» aprisionados em guerra. Não são, no entanto, apenas os defeitos que contam. Têm também qualidades: possuem um certo sentido de família, são valentes e generosos.

"O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII", de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 42 e 43

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (VII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 07/10/09

Nenhuma das obras de que até aqui nos ocupámos tem, no entanto, o interesse das de Pero de Magalhães Gândavo, Autor de uma Historia da Província de Santa Cruz e do Tratado das Terras do Brasil no qual se contem informações das cousas que há nestas partes (1.ª ed. 1576).

Na primeira destas obras, depois de uma descrição da terra, das povoações, mantimentos, frutos, aves, peixes e outros animias, encontramos um capítulo sobre um monstro marinho, que tem o interesse de nos revelar que, na verdade, havia quem acreditasse afincadamente na existência desses seres estranhos e cruéis que povoavam paragens desconhecidas [...].

São também cheias de interesse as notas que nos deixa sobre os costumes dos selvagens. Depois de os descrever fisicamente, diz que são desagradecidos, desumanos, cruéis, vingativos e excessivamente crédulos. Fala, como todos os outros exploradores e viajantes, da ausência da Fé, de Lei e de Rei entre os indígenas, simbolizada pela falta de F. L. R. no seu alfabeto [...]

A posição de Gândavo é, apesar disso e no seu conjunto, bastante desfavorável aos Índios. Na segunda das suas obras a que nos referimos, ao ocupar-se dos Índios Aimorés – encontraremos daqui em diante distinções entre os Índios das várias tribos – diz:

«Vivem entre os matos como brutos animais (…). Finalmente, não tem rosto direito a ninguém, senão à traição fazem a sua».

E, depois de, entre outros factos, falar das suas lutas, da poligamia, do costume que tinham de comer carne humana e, mais demoradamente, do seu aspecto exterior, acrescenta:

«Outras muitas bestialidades usam estes Índios, que aqui não escrevo».

[...]

Na verdade, em todos os textos que até agora estudámos, cremos que, como primeira característica comum a todos eles, se nota o facto de o Índio ser visto por uma forma parcelar e, portanto, muito exterior e muito imediata, nos aspectos que mais rapidamente ressaltam de um primeiro contacto.

"O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII", de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 38 a 41

terça-feira, 6 de outubro de 2009

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (VI)

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (VI)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 06/10/09

O primeiro dentre todos os escritores a referir-se ao Índio Americano foi o próprio Cristóvão Colombo, nas suas cartas, já atrás mencionadas.

Em notações rápidas e objectivas, apresenta-nos os selvagens como extremamente desinteressados e preocupa-se em informar-nos de que não achou entre eles os homens monstruosos de que se falava.

Se às suas palavras se atribuiu um alcance maior do que possuíam, isto não é já da sua responsabilidade.

Não há aqui preocupações metafísicas, de saber se o homem é ou não naturalmente bom, nem políticas e sociais, de saber se é ou não superior ao homem civilizado da Europa. Há, apenas, narração de factos.

Será esta também a atitude dos viajantes portugueses que escreveram sobre o Brasil.

Um dos primeiros documentos que sobre ele possuímos é a carta de Pero Vaz de Caminha, cronista da armada de Pedro Álvares Cabral: veio a tornar-se muito conhecida, tendo sido publicada pela primeira vez por Ayres Casal em Corografia Brasílica, vertida para francês por Ferdinand Denis e para alemão por Olfers.

[...]

É escusado encarecer o encanto deste texto, na simplicidade e na admiração com que está escrito. O seu realismo trai uma testemunha ocular. Sente-se que Pero Vaz de Caminha ficou impressionado com o que observou e que procura transmitir-nos essa mesma impressão.

[...]

Contemporânea desta carta é a conhecida Relação do Piloto Anónimo, de quem apenas se sabe que pertencia à Armada de Pedro Álvares Cabral. Este piloto faz do Índio uma descrição muito mais exterior, se assim se pode dizer, do que Pero Vaz de Caminha. Quando a ele se refere, limita-se a dizer que andavam nus, como traziam o cabelo e a barba, como se pintavam e as pedras e ossos com que enefeitavam os lábios.

[...]

Incluiremos no conjunto destes textos – devido à forma por que se ocupa do Índio – o Roteiro da viagem da cidade do Pará e toda a sua capitania até aos confins do Rio Negro, que se encontra sem data, anónimo e manuscrito na Biblioteca da Academia de Lisboa. Nela faz o seu Autor descrições pormenorizadas da terra, dos animais e plantas, e, evidentemente, dos costumes dos Índios, das suas guerras, da maneira que têm de caçar, embora sempre de uma forma objectiva e exterior, como todos os que o precederam.

"O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII", de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 35 a 38

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A propósito do 5 de Outubro: memórias de um dos seus heróis

A propósito do 5 de Outubro: memórias de um dos seus heróis

via Caminhos da Memória de Caminhos da Memória em 04/10/09
(Clique para aumentar. O Almirante Cabeçadas está ao centro.) Um texto de Helena Cabeçadas (*) Com o aproximar do centenário da implantação da República dei por mim a tentar compreender e a pensar num dos seus principais protagonistas e reconhecido herói, a quem estou ligada por laços familiares e afectivos muito fortes, o Almirante Mendes Cabeçadas, meu [...]

sábado, 3 de outubro de 2009

Citação do dia

(título desconhecido)

via 幸福 MEU UNIVERSO DE FELICIDADE de ...MEU UNIVERSO DE FELICIDADE em 07/09/09
"Todos nós nascemos orginais e morremos cópias"
Carl J. Jung

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

António de Oliveira Salazar. Refugiados

António de Oliveira Salazar. Refugiados

via universidade de Gil Gonçalves em 29/09/09

Fernando Correia da Silva

NÃO TEM CHEIRO...

Durante a guerra a Grã-Bretanha reduz drasticamente as suas compras a Portugal. Não posso morrer à míngua e começo a vender volfrâmio e estanho aos alemães. Os britânicos protestam e eu também passo a vender-lhes volfrâmio e estanho. Bem sei que isto vai ter de parar um dia, ou vendo para um lado, ou vendo para o outro. Mas enquanto puder vender para os dois, venderei. Todo o dinheiro traz agarrado a si miséria e sangue. Mas não tem cheiro.

http://www.vidaslusofonas.pt/salazar.htm

REFUGIADOS

Salazar acolhe refugiados judeus. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica!

Por causa do volfrâmio, não pensem os alemães que rompi a neutralidade e passei para o lado deles. Andam à caça de judeus? Pois saibam eles e vejam os ingleses que recebo milhares de refugiados judeus em trânsito para a América. E que não os interno em campos de concentração, mas hospedo-os em hotéis perto do mar, nas Caldas da Rainha, na Figueira da Foz. Mas quando, em 1945, Hitler se suicidar, para escândalo dos ingleses mandarei pôr a bandeira nacional a meia haste. Somos um povo de brandos costumes, matriz cristã, fazer bem sem olhar a quem. Porém independentes, sempre. Em nós ninguém manda, nunca! Ontem não mandaram os espanhóis, eles que se lembrem de Aljubarrota. Durante a guerra, nem alemães, nem ingleses mandam em nós. No pós guerra, nem americanos, nem ingleses hão-de mandar. Ninguém, nunca!

Não posso é consentir que, durante a guerra, por conta própria, sem ordem superior, Aristides Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus, esteja a passar milhares e milhares de vistos a refugiados judeus. Para se tirar o apetite a outros possíveis prevaricadores, mando que seja demitido e punido de forma exemplar! Ai este sentimentalismo doentio a que chamamos bondade...

ESPIONAGEM

Alemães e ingleses precisam espiar-se uns aos outros, precisam conversar secretamente uns com os outros, e estão a usar Lisboa como base operacional. Pois que usem, desde que não interfiram com a nossa política interna e para essa eventualidade a PVDE está alertada. É forma de evidenciar a nossa neutralidade, é forma de arrecadar mais algumas divisas.

SOBREVIVÊNCIA

Sou muito instado mas adio a decisão, o que provoca acessos de fúria naquele gordo inglês fumador de charutos. Só em 1943, quando vejo que a Alemanha já não pode ganhar a guerra, é que cedo aos Aliados uma base militar nos Açores.

A imprensa deles insulta-me, que eu sou nazi-fascista, que nós fazemos a saudação romana, que a Legião Portuguesa festejou publicamente as vitórias do Eixo, que os legionários são os meus "camisas negras", apesar de verdes serem elas. Os cães ladram mas a caravana passa... Acabo de garantir a sobrevivência do meu regime.

No pós-guerra, na Europa ocidental são muito apreciados os legalismos. Consequência: o número de possessos que faz o jogo da Rússia, não pára ali de aumentar. Inevitável é outra guerra. Aguardo o benefício do tempo enquanto vou encobrindo o que se passa por aqui: em 1945 transformo a PVDE em PIDE - Polícia Internacional e de Defesa do Estado e mando organizar os Tribunais Plenários. Nestes, antes dos julgamentos, já estão ditadas as sentenças; traição à Pátria pode dar até 20 anos de cadeia; os lugares para a assistência são todos ocupados por agentes da PIDE; advogados e testemunhas de defesa, se exorbitam, são calados à força. Depois de cumpridas as penas, os condenados podem levar mais uns anitos de reclusão, higiénicas medidas de segurança.

Nos finais da guerra, apesar dos safanões, os comunistas cá de dentro (eles, sempre eles!) provocam agitação e greves de certa monta, mas aguento-me. Em 1947 outros comunistas sabotam-me aviões na base de Sintra.

Entretanto é levantado o muro de Berlim e começa a guerra, embora fria. O meu regime foi sempre anticomunista. Em 1949 Portugal é admitido como membro da NATO. Valeu a pena aguardar o benefício do tempo...

Só para inglês ver, também em 1949 finjo eleições livres para a Presidência da República. O candidato da Oposição é o Norton de Matos, um general maçom. Alega que nós controlamos os cadernos eleitorais e as mesas de voto e por isso desiste à boca das urnas. É reeleito o meu candidato General Carmona; de sete em sete anos, desde 1928, é o que lhe acontece; mas esta foi a reeleição mais espinhosa.

Coitado do Carmona, vem a falecer em 1951 e eu tenho de convocar novas eleições. O candidato "reviralhista" é o Almirante Quintão Meireles. Recusamos a candidatura de Rui Luís Gomes, o comunista. Ele, e a sua quadrilha, levam até uns safanões a tempo. Naturalmente ganha o meu candidato, o General Craveiro Lopes. Lá fora os jornalistas continuam a ladrar, mas a caravana continua a passar.

http://www.vidaslusofonas.pt/salazar.htm
Imagem: http://alexandrinabalasar.free.fr/salazar_a.jpg

António de Oliveira Salazar. O dedo de Deus

António de Oliveira Salazar. O dedo de Deus

via universidade de Gil Gonçalves em 28/09/09

Fernando Correia da Silva

Numa primeira fase ponho à disposição dos rebeldes os nossos portos e os nossos caminhos de ferro para o aprovisionamento de víveres, armas e munições. Numa segunda fase, também permito que os meus legionários arregimentem 8000 voluntários para combater o bolchevismo em Espanha. São os nossos Viriatos.

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A Alemanha e a Itália apoiam os nacionalistas espanhóis. A França e a Inglaterra optam pela não-intervenção e assim condenam à derrota os vermelhos. Para alguma coisa havia de nos servir a Democracia nesses dois países...

Vencedor da guerra civil, e incentivado pelo falangista Serrano Suñer, Franco pensará agora anexar-nos. Mando avisá-lo: mal as suas tropas se concentrem na fronteira, de imediato accionarei o velho Tratado de Aliança entre Portugal e o Reino Unido. Repare ele que a Segunda Guerra Mundial não tarda aí, a guerra civil que devastou a sua Espanha foi o ensaio geral. E que se os nacionalistas espanhóis se sentem obrigados a alinhar com a Alemanha, eu sinto-me obrigado a alinhar com a Inglaterra em virtude da nossa Aliança. Se tal acontecer, sacrificados aos interesses de outras potências serão os nossos povos. Realço ainda que os regimes de Espanha e Portugal são idênticos: católicos, autoritários, antiliberais, antiparlamentares e antidemocráticos. Será sinal que Deus nos manda para se constituir aquém Pirinéus um bloco neutral, nem a favor da Grã-Bretanha, nem a favor da Alemanha, mas só a nosso favor. Assim defenderemos os povos da Península e a sobrevivência dos nossos regimes. Ou não estais vós, espanhóis, cansados de tanta guerra? Eu, por meu lado, para evitar envolver-me no próximo conflito europeu, já declarei publicamente:

- Somos sobretudo uma potência atlântica, presos pela natureza à Espanha, política e economicamente debruçados sobre o mar e as colónias.

Depois de muitas discussões, de avanços e recuos, a 13 de Março de 1939 consigo finalmente assinar com a Espanha o Tratado de Amizade e Não Agressão. Vencido o bolchevismo espanhol, que era o perigo maior, assim desarmo o menor. Ao mesmo tempo alivio a pressão britânica sobre o meu Governo; por causa de Gibraltar e do acesso ao Mediterrâneo, convém-lhes a neutralidade da Península. E a Alemanha desistirá de forçar a Espanha a entrar em guerra.

Há muitas formas de matar pulgas, diria a Maria...

O DEDO DE DEUS

Em 1940 assino a Concordata com a Santa Sé. Não vou restaurar o poder da Igreja, não lhe devolvo os seus haveres expropriados pela República em 1911, não vou abolir o divórcio. Mas isento a Igreja e o clero do pagamento de impostos ou contribuições, quaisquer que sejam. Deus, Pátria e Família, é evidente, mas quem manda sou eu! É um bom acordo para a Igreja e o Manuel Cerejeira sabe disso.

Na carta pastoral de 1942, bodas de prata das aparições de Fátima, os bispos já dizem que, nas mudanças operadas da Primeira República para o Estado Novo, poder-se-á ver o dedo de Deus.

E em 1945, a propósito de uma outra visão da Irmã Lúcia, o Cerejeira escreve-me: "O facto de ser a nossa paz um favor do Céu (predito pela Irmã Lúcia), não te tira nem diminui o mérito. Pelo contrário, faz de ti um eleito, quase um ungido de Deus. Foste tu o escolhido para realizar o milagre".

Até que enfim...

O MUNDO PORTUGUÊS

"A nossa paz...", dirá a Irmã Lúcia. Antecipo: a paz que eu forjei e o passado glorioso que me forjou. Os heróis é que fazem a História, não são os povos. Felizes os povos que têm heróis a conduzi-los. Ontem demos novos mundos ao mundo, hoje somos um oásis de paz num mundo em guerra. É isso mesmo que torno evidente em 1940, com a Exposição do Mundo Português. Ali mesmo, à beira-Tejo, não muito longe de onde partiram as naus do Vasco da Gama. Comemoramos oito séculos sobre a Fundação da nacionalidade em 1140, e três sobre a da Restauração, em 1640. Dois homens me ajudam a planear a Exposição: António Ferro com epopeias escritas, faladas, esculpidas e pintadas e Duarte Pacheco com a imponência dos pavilhões. Um, é o meu Ministro da Propaganda. Outro, é o meu Ministro das Obras Públicas, que já as fez sumptuosas, como convém que sejam as do Estado. Dois frenéticos que, por ora, me servem bem.

Mando que na Exposição também sejam alojados, em palhoças, uns tantos pretos e pretas, adultos e crianças, primitivos que retirámos da selva... Que todos admirem a obra dos nossos missionários em África! Aquele pretos, bem doutrinados, bons cristãos podem ainda vir a ser. De segunda ou terceira, porém cristãos.

http://www.vidaslusofonas.pt/salazar.htm
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