sábado, 10 de outubro de 2009

António de Oliveira Salazar. Humberto Delgado

via universidade de Gil Gonçalves em 10/10/09

Fernando Correia da Silva. Quem controla os cadernos eleitorais e as mesas de voto ainda somos nós. "Daqui não saímos, nem a tiros, nem a votos".

Se fossem apenas operários e escreventes a rosnar, com essa gentinha podia eu... O pior é que já começam a surgir brechas na União Nacional e no Estado.

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Henrique Galvão, que foi dos meus, descambou de vez para o "reviralho". Começou por alinhar com o Quintão Meireles e agora, ao lado do Cunha Leal (aquele do Cerejeira de antigamente), rosna que há compadrio dos grandes grupos financeiros com muitas das autoridades civis do meu regime. A Censura corta mas sei que, no fundo, têm razão; o dinheiro não tem cheiro, por baixo do pano impossível é deter o seu fluxo.

Também oficiais formados na América pela NATO, entre eles o Humberto Delgado (outro que foi sempre dos meus), começam a morder o Santos Costa, o meu sempre fiel Ministro da Guerra. Dizem que o aparelho militar português é arcaico e é urgente renovar as Forças Armadas, também a sociedade portuguesa. E até o Craveiro Lopes, o meu Presidente da República, parece que lhes dá ouvidos... O Craveiro não pode ser candidato à reeleição, e tenho dito! Saudades do velho Carmona...

Até o Marcelo Caetano (que foi o meu Comissário da Mocidade Portuguesa, e o meu Ministro das Colónias, e o meu presidente da Câmara Corporativa e é o meu Ministro da Presidência desde 1955) faz conluio com os seus ex-alunos que já ocupam lugares cimeiros nas grandes empresas. Parecem todos apostados em renovar o regime, mas por dentro. Não me atacam frontalmente, tentam é dissolver-me. Quererão fazer hoje comigo, o que ontem eu fiz com o Rolão Preto? Enganam-se, sou um osso muito mais duro de roer...

Tudo muda e é-me difícil travar a mudança. Eu queria que muitas e muitas famílias portuguesas lavrassem as terras da nossa África, nisso investi. Assim fiz na Cela e em Matala, em Angola. Assim fiz no vale do Limpopo, em Moçambique. Até grandes barragens eu mandei construir, a de Cambambe em Angola e a de Cabora-Bassa em Moçambique. Porém, selvagens ignorantes, que se diziam donos da terra, passaram a hostilizar as famílias portuguesas. Muitas, talvez a maior parte, acabaram por desertar para as cidades. Assim desandam as colónias... A Guiné, hoje, é mais uma colónia da CUF do que uma colónia de Portugal. O mal é estar eu aqui tão longe. Viajar não me apetece, de Lisboa a Santa Comba já me cansa, quanto mais a Bissau, Luanda ou Lourenço Marques... Tivesse eu o dom da ubiquidade e tudo seria diferente.

Tenho sonhado muito com a Christine Garnier, não sei porquê. Ou talvez saiba, é esta minha ânsia de interregno, a minha loira e decidida francesinha, jornalista que em 1951 veio para me entrevistar e acabou por me aquecer a cama e a alma... Para fugirmos à mal-encarada vigilância da Maria, até fomos para Santa Comba passar férias. Também porque a minha governanta, muito sovina, só lhe dava carapaus grelhados, umas vezes com batatas, outras com arroz de grelos...

Estou cansado, saudades tenho do antigamente. Estou preso às ideias do passado, sinto vontade de me ir embora, não me dou com a nova mentalidade, isto é só para safados.

No horizonte não vejo mais o barquinho. Terá sido engolido pelas ondas?

DELGADO

Volto a sentar-me e a cadeira quase se desmonta. Vou mandar arranjá-la. Não substituí-la, que eu nada desperdiço, tudo aproveito.

Os ingleses, finalmente, parecem apoiar o meu regime, embora aconselhem que o liberalize. Em 1957 mandam a rainha Isabel II a visitar-nos. Ela trata com excessiva deferência o Craveiro Lopes. Bem entendo os ingleses, papas e bolos para enganar os tolos... Mas não, já disse que não, o Craveiro não! Recuso a infinita gama de cinzentos, essa é armadilha do Diabo. Para mim é branco ou preto, o Bem ou o Mal. O meu candidato é o Almirante Américo Tomás, dócil e bronco, não quero viver em sobressaltos.

Tocado pelos americanos, Humberto Delgado passa a ser o candidato da Oposição. É o próprio General Coca Cola, mas até os comunistas acabam por apoiá-lo. É desassombrado, é o mais novo general das Forças Armadas portuguesas, coragem física e irreverência não lhe faltam. Declara que, se for eleito, obviamente me demite. Tem até o desplante de frisar o obviamente. Apesar da PIDE, das cargas da GNR e da PSP, em nome da Liberdade arrasta multidões atrás de si. Já lhe chamam o General Sem Medo. Desde o Porto até Lisboa, desde o Alentejo até ao Minho. E os arruaceiros parecem não ter medo das forças da ordem, respondem à pedrada, subversão.

É sismo, é terramoto, rompeu-se um dique e a Nação pode vir a ficar submersa.

Cerro fileiras para salvar a Pátria. Santos Costa põe a tropa de prevenção e os "craveiristas" acovardam-se, não respingam. Na campanha eleitoral de 1949 um dos meus dissera "daqui não saímos, nem a tiros, nem a votos". Não o digo mas penso o mesmo. Quem controla os cadernos eleitorais e as mesas de voto ainda somos nós e em 1958 quem ganha as eleições para a Presidência da República é o Almirante Américo Tomás, obviamente. Não posso deixar de rir...

No rescaldo, um dignitário da Igreja, D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, atreve-se a contestar a minha autoridade. O Cerejeira desterra-o para Roma, mas já vai tarde, fez grandes estragos nas relações entre a Igreja e o Estado.

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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (VIII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 08/10/09

Escrevendo sobre o Brasil contemporaneamente aos exploradores e viajantes, há aqueles que nele se estabeleceram procurando civilizá-lo.

Dentre esses colonizadores, apenas os Jesuítas nos deixaram documentos sobre o Índio, pois às relações de carácter oficial interessavam apenas os problemas de organização externa. Os Jesuítas, procurando cristianizar os indígenas, ocupavam-se do Índio como pessoa, como homem capaz de um comportamento moral. Apressavam-se em seguida a dar conta dos seus trabalhos, dos seus progressos e dificuldades, aos restantes membros da Companhia, e assim nos deixaram numerosos textos cheios de interesse.

É em 1549, no dia 1 de Fevereiro, que os primeiros Jesuítas partem para o Brasil; são seis, e entre eles vai, como superior, o Padre Manuel da Nóbrega que, não só pela colaboração que prestou ao Governo Geral do Brasil, como pela firme resolução de trabalhar intensamente na conversão dos Índios, tanto relevo veio a ter entre os primeiros colonizadores. Se, contudo, a organização civil do Brasil sempre o interessou, tocava-lhe muito mais de perto a sorte dos Índios.

Diz Serafim Leite que, para além do interesse manifestado pelo modo de vida dos selvagens, aos Padres importava acima de tudo determinar a medida em que esses Índios poderiam ser cristianizados e civilizados.

É, na verdade, este, o objectivo de Manuel da Nóbrega, assim como de todos os outros membros da Companhia. Quanto ao aspecto sob o qual via os Índios, diz o Padre Manuel da Nóbrega em carta a Martin de Azpilcueta Navarro, depois de se referir às boas qualidades da terra, no que respeita ao seu clima e produção:

«Mas é muito de espantar ter dado (o Criador) tão boa terra tanto tempo a gente tão inculta, e que tão pouco o conhece, porque nenhum deus tem certo e qualquer que lhe dizem crêem. Regem-se por inclinação, a qual sempre prona est ad malum, e apetite sensual, gente absque consilio et sine prudentia. Têm muitas mulheres enquanto se contentam delas e elas deles, sem entre eles ser vituperado».

E, depois de ter falado do hábito que têm de comer os «contrários» que ficam prisioneiros de guerra, conclui:

«E nestas duas coisas, scilicet , em ter muitas mulheres e matar os seus contrarios, consiste toda a sua honra e esta é a sua felicidade e desejo, o qual tudo herdaram do primeiro e segundo homem e aprenderam daquele qui ab initio mundi homicida est».

Na Informação das terras do Brasil (Aos Padres e Irmãos da Companhia) refere-se às manhas dos feiticeiros, à facilidade com que nelas acreditam, à forma como tratam os mortos e, de novo, à maneira de matar os «contrários» aprisionados em guerra. Não são, no entanto, apenas os defeitos que contam. Têm também qualidades: possuem um certo sentido de família, são valentes e generosos.

"O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII", de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 42 e 43

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (VII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 07/10/09

Nenhuma das obras de que até aqui nos ocupámos tem, no entanto, o interesse das de Pero de Magalhães Gândavo, Autor de uma Historia da Província de Santa Cruz e do Tratado das Terras do Brasil no qual se contem informações das cousas que há nestas partes (1.ª ed. 1576).

Na primeira destas obras, depois de uma descrição da terra, das povoações, mantimentos, frutos, aves, peixes e outros animias, encontramos um capítulo sobre um monstro marinho, que tem o interesse de nos revelar que, na verdade, havia quem acreditasse afincadamente na existência desses seres estranhos e cruéis que povoavam paragens desconhecidas [...].

São também cheias de interesse as notas que nos deixa sobre os costumes dos selvagens. Depois de os descrever fisicamente, diz que são desagradecidos, desumanos, cruéis, vingativos e excessivamente crédulos. Fala, como todos os outros exploradores e viajantes, da ausência da Fé, de Lei e de Rei entre os indígenas, simbolizada pela falta de F. L. R. no seu alfabeto [...]

A posição de Gândavo é, apesar disso e no seu conjunto, bastante desfavorável aos Índios. Na segunda das suas obras a que nos referimos, ao ocupar-se dos Índios Aimorés – encontraremos daqui em diante distinções entre os Índios das várias tribos – diz:

«Vivem entre os matos como brutos animais (…). Finalmente, não tem rosto direito a ninguém, senão à traição fazem a sua».

E, depois de, entre outros factos, falar das suas lutas, da poligamia, do costume que tinham de comer carne humana e, mais demoradamente, do seu aspecto exterior, acrescenta:

«Outras muitas bestialidades usam estes Índios, que aqui não escrevo».

[...]

Na verdade, em todos os textos que até agora estudámos, cremos que, como primeira característica comum a todos eles, se nota o facto de o Índio ser visto por uma forma parcelar e, portanto, muito exterior e muito imediata, nos aspectos que mais rapidamente ressaltam de um primeiro contacto.

"O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII", de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 38 a 41

terça-feira, 6 de outubro de 2009

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (VI)

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (VI)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 06/10/09

O primeiro dentre todos os escritores a referir-se ao Índio Americano foi o próprio Cristóvão Colombo, nas suas cartas, já atrás mencionadas.

Em notações rápidas e objectivas, apresenta-nos os selvagens como extremamente desinteressados e preocupa-se em informar-nos de que não achou entre eles os homens monstruosos de que se falava.

Se às suas palavras se atribuiu um alcance maior do que possuíam, isto não é já da sua responsabilidade.

Não há aqui preocupações metafísicas, de saber se o homem é ou não naturalmente bom, nem políticas e sociais, de saber se é ou não superior ao homem civilizado da Europa. Há, apenas, narração de factos.

Será esta também a atitude dos viajantes portugueses que escreveram sobre o Brasil.

Um dos primeiros documentos que sobre ele possuímos é a carta de Pero Vaz de Caminha, cronista da armada de Pedro Álvares Cabral: veio a tornar-se muito conhecida, tendo sido publicada pela primeira vez por Ayres Casal em Corografia Brasílica, vertida para francês por Ferdinand Denis e para alemão por Olfers.

[...]

É escusado encarecer o encanto deste texto, na simplicidade e na admiração com que está escrito. O seu realismo trai uma testemunha ocular. Sente-se que Pero Vaz de Caminha ficou impressionado com o que observou e que procura transmitir-nos essa mesma impressão.

[...]

Contemporânea desta carta é a conhecida Relação do Piloto Anónimo, de quem apenas se sabe que pertencia à Armada de Pedro Álvares Cabral. Este piloto faz do Índio uma descrição muito mais exterior, se assim se pode dizer, do que Pero Vaz de Caminha. Quando a ele se refere, limita-se a dizer que andavam nus, como traziam o cabelo e a barba, como se pintavam e as pedras e ossos com que enefeitavam os lábios.

[...]

Incluiremos no conjunto destes textos – devido à forma por que se ocupa do Índio – o Roteiro da viagem da cidade do Pará e toda a sua capitania até aos confins do Rio Negro, que se encontra sem data, anónimo e manuscrito na Biblioteca da Academia de Lisboa. Nela faz o seu Autor descrições pormenorizadas da terra, dos animais e plantas, e, evidentemente, dos costumes dos Índios, das suas guerras, da maneira que têm de caçar, embora sempre de uma forma objectiva e exterior, como todos os que o precederam.

"O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII", de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 35 a 38

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A propósito do 5 de Outubro: memórias de um dos seus heróis

A propósito do 5 de Outubro: memórias de um dos seus heróis

via Caminhos da Memória de Caminhos da Memória em 04/10/09
(Clique para aumentar. O Almirante Cabeçadas está ao centro.) Um texto de Helena Cabeçadas (*) Com o aproximar do centenário da implantação da República dei por mim a tentar compreender e a pensar num dos seus principais protagonistas e reconhecido herói, a quem estou ligada por laços familiares e afectivos muito fortes, o Almirante Mendes Cabeçadas, meu [...]

sábado, 3 de outubro de 2009

Citação do dia

(título desconhecido)

via 幸福 MEU UNIVERSO DE FELICIDADE de ...MEU UNIVERSO DE FELICIDADE em 07/09/09
"Todos nós nascemos orginais e morremos cópias"
Carl J. Jung

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

António de Oliveira Salazar. Refugiados

António de Oliveira Salazar. Refugiados

via universidade de Gil Gonçalves em 29/09/09

Fernando Correia da Silva

NÃO TEM CHEIRO...

Durante a guerra a Grã-Bretanha reduz drasticamente as suas compras a Portugal. Não posso morrer à míngua e começo a vender volfrâmio e estanho aos alemães. Os britânicos protestam e eu também passo a vender-lhes volfrâmio e estanho. Bem sei que isto vai ter de parar um dia, ou vendo para um lado, ou vendo para o outro. Mas enquanto puder vender para os dois, venderei. Todo o dinheiro traz agarrado a si miséria e sangue. Mas não tem cheiro.

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REFUGIADOS

Salazar acolhe refugiados judeus. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica!

Por causa do volfrâmio, não pensem os alemães que rompi a neutralidade e passei para o lado deles. Andam à caça de judeus? Pois saibam eles e vejam os ingleses que recebo milhares de refugiados judeus em trânsito para a América. E que não os interno em campos de concentração, mas hospedo-os em hotéis perto do mar, nas Caldas da Rainha, na Figueira da Foz. Mas quando, em 1945, Hitler se suicidar, para escândalo dos ingleses mandarei pôr a bandeira nacional a meia haste. Somos um povo de brandos costumes, matriz cristã, fazer bem sem olhar a quem. Porém independentes, sempre. Em nós ninguém manda, nunca! Ontem não mandaram os espanhóis, eles que se lembrem de Aljubarrota. Durante a guerra, nem alemães, nem ingleses mandam em nós. No pós guerra, nem americanos, nem ingleses hão-de mandar. Ninguém, nunca!

Não posso é consentir que, durante a guerra, por conta própria, sem ordem superior, Aristides Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus, esteja a passar milhares e milhares de vistos a refugiados judeus. Para se tirar o apetite a outros possíveis prevaricadores, mando que seja demitido e punido de forma exemplar! Ai este sentimentalismo doentio a que chamamos bondade...

ESPIONAGEM

Alemães e ingleses precisam espiar-se uns aos outros, precisam conversar secretamente uns com os outros, e estão a usar Lisboa como base operacional. Pois que usem, desde que não interfiram com a nossa política interna e para essa eventualidade a PVDE está alertada. É forma de evidenciar a nossa neutralidade, é forma de arrecadar mais algumas divisas.

SOBREVIVÊNCIA

Sou muito instado mas adio a decisão, o que provoca acessos de fúria naquele gordo inglês fumador de charutos. Só em 1943, quando vejo que a Alemanha já não pode ganhar a guerra, é que cedo aos Aliados uma base militar nos Açores.

A imprensa deles insulta-me, que eu sou nazi-fascista, que nós fazemos a saudação romana, que a Legião Portuguesa festejou publicamente as vitórias do Eixo, que os legionários são os meus "camisas negras", apesar de verdes serem elas. Os cães ladram mas a caravana passa... Acabo de garantir a sobrevivência do meu regime.

No pós-guerra, na Europa ocidental são muito apreciados os legalismos. Consequência: o número de possessos que faz o jogo da Rússia, não pára ali de aumentar. Inevitável é outra guerra. Aguardo o benefício do tempo enquanto vou encobrindo o que se passa por aqui: em 1945 transformo a PVDE em PIDE - Polícia Internacional e de Defesa do Estado e mando organizar os Tribunais Plenários. Nestes, antes dos julgamentos, já estão ditadas as sentenças; traição à Pátria pode dar até 20 anos de cadeia; os lugares para a assistência são todos ocupados por agentes da PIDE; advogados e testemunhas de defesa, se exorbitam, são calados à força. Depois de cumpridas as penas, os condenados podem levar mais uns anitos de reclusão, higiénicas medidas de segurança.

Nos finais da guerra, apesar dos safanões, os comunistas cá de dentro (eles, sempre eles!) provocam agitação e greves de certa monta, mas aguento-me. Em 1947 outros comunistas sabotam-me aviões na base de Sintra.

Entretanto é levantado o muro de Berlim e começa a guerra, embora fria. O meu regime foi sempre anticomunista. Em 1949 Portugal é admitido como membro da NATO. Valeu a pena aguardar o benefício do tempo...

Só para inglês ver, também em 1949 finjo eleições livres para a Presidência da República. O candidato da Oposição é o Norton de Matos, um general maçom. Alega que nós controlamos os cadernos eleitorais e as mesas de voto e por isso desiste à boca das urnas. É reeleito o meu candidato General Carmona; de sete em sete anos, desde 1928, é o que lhe acontece; mas esta foi a reeleição mais espinhosa.

Coitado do Carmona, vem a falecer em 1951 e eu tenho de convocar novas eleições. O candidato "reviralhista" é o Almirante Quintão Meireles. Recusamos a candidatura de Rui Luís Gomes, o comunista. Ele, e a sua quadrilha, levam até uns safanões a tempo. Naturalmente ganha o meu candidato, o General Craveiro Lopes. Lá fora os jornalistas continuam a ladrar, mas a caravana continua a passar.

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